A superação dos raros

Roberto e a sua mãe, Márcia. Médicos deram pouco tempo de vida para ele, que cresceu, estudou, se formou em Administração Financeira e se casou em fevereiro de 2017 | FOTOS: Divulgação 

O Brasil possui 13 milhões de pessoas com alguma doença rara, o que as coloca entre os 5% da população mundial (ou 350 milhões indivíduos) que têm uma das 7 mil enfermidades identificadas como raras em todo o globo – são raras as doenças que acometem até 65 pessoas em cada 100 mil indivíduos nascidos vivos.

E se ser portador de alguma dessas enfermidades hoje em dia no Brasil não é fácil, pior era há algumas décadas, quando boa parte dos familiares tiveram, numa época sem internet, de se virar para buscar informação até fora do país.

Não há uma estatística exata, mas o destino de muitos pacientes foi a morte sem direito a causa no atestado de óbito. Outros, contudo, correram atrás e após anos – e até décadas – de luta obtiveram o diagnóstico correto, conseguindo dar melhor qualidade de vida aos familiares enfermos.

Antes desenganados por médicos, muitos deles hoje trabalham e estudam. Alguns foram além e já se casaram, após se formarem em faculdades, e vivem de forma independente, algo quase impensável.

A situação pela qual passaram também os fez criar no Brasil entidades voltadas para a assistência a pessoas com doenças raras e familiares, sendo umas das principais o Instituto Vidas Raras, com sede em São Paulo.

Recentemente, o instituto lançou o “Linha Rara”, sistema de atendimento por telefone que se propõe a atender casos de pessoas que possuem doenças cujo diagnóstico ainda não foi dado.

Até a noite do dia 5 de abril foram realizados 1.015 atendimentos, sendo 732 por telefone e 283 por email. Os pedidos de informação partiram de todo o país e de nações da América Latina.

O número do “Linha Rara” é o 0800 006 7868

“Os pacientes já vêm com algum tipo de investigação, já passaram por muitos médicos e estão muito ansiosos quanto a nossa resposta. Na maioria das nossas ligações nós temos de explicar o que podemos ou não fazer, pois algumas situações podem interferir no Código de Ética do Conselho Federal de Medicina, como por exemplo: não podemos fazer diagnóstico virtual, análise de exames”, disse uma da atendentes do ‘Linha Rara’, Érica Helena de Medeiros Salles.

“Nesse caso, quanto a isso, eles ficam até um pouco frustrados porque não damos o diagnóstico, mas nós temos também de trabalhar de acordo com a ética e não podemos fazer este tipo de abordagem”.

Segundo Érica, chegam vários tipos de pedidos relacionados a todas especialidades:

“Também detectamos problemas burocráticos que eles enfrentam na hora de passar por algum especialista. O tanto que demora, o tanto de documentação que necessita. Muitos abordam isso como se nós fôssemos facilitar o atendimento, colocá-los como prioridade, marcar consulta, passar na frente em alguns serviços. Não fazemos isso. A gente indica os serviços e como chegar lá.”

A equipe do ‘Linha Rara’ é composta por uma estagiária em serviço social, uma advogada, uma secretária, uma farmacêutica, um administrador de empresa, um analista de sistemas, um médico geneticista, um coordenador nacional e um assessor de comunicação.

E de forma indireta estão envolvidos  especialistas espalhados pelo país, que prontamente ajudam a responder de forma objetiva os questionamentos das pessoas que ligam. Os envolvidos receberam treinamento da equipe do ‘Linha Rara’ de Portugal, que já existe há 8 anos, e orientações dos gestores brasileiros envolvidos no projeto.

Antes de responder aos questionamentos, são consultados especialistas e gestores, os quais ajudam a direcionar a pessoa ao ambiente mais próximo possível do seu domicílio e dentro da realidade dela.

A iniciativa tem o objetivo de auxiliar a descobrir o problema e dar o tratamento adequado ou formas de minimizá-lo. A orientação segura tem prazo de uma semana para chegar.

Abaixo, o relato de pessoas com doenças raras, do Norte ao Sul do país, que passaram por momentos difíceis, mas que foram superados e hoje servem de inspiração para qualquer ser humano, seja ele ‘raro’ ou não.

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Roberto Guedes

Quem conhece Roberto hoje e o vê com 30 anos, casado, em um bom emprego e vivendo de forma independente não imagina que os médicos disseram para a mãe, Márcia, que ele não teria muito tempo de vida. E falaram isso por duas vezes.

Roberto nasceu em Natal (RN) com a Síndrome de Berardinelli, doença genética rara caracterizada pelo mau funcionamento das células de gordura do organismo.

A síndrome, também chamada de Lipodistrofia Generalizada Congênita ou ‘doença dos magros’, desregula o nível de gordura no corpo, pois ela passa a ser armazenada em outros locais, como fígado e músculos.

De tão desconhecida que é a doença, não há uma estimativa precisa sobre casos no mundo nem a comparação entre portadores e nascidos vivos. Estima-se que haja cerca de 250 casos no em todo o globo, sendo o Rio Grande do Norte onde se tem mais registros: 38.

Roberto com dois meses

Uma das principais características da síndrome é o desenvolvimento de diabetes grave que normalmente tem início por volta dos 8 a 10 anos, devendo ser tratada com uma dieta pobre em gorduras e açúcares e com medicamentos que ajudam a controlar a diabetes e o colesterol alto.

Roberto apresentou sinais da doença logo cedo: quando tinha apenas um mês de vida o seu nível de triglicéries (gorduras) era de 810 – no adulto o normal é de 173. Foi quando dona Márcia ouviu dizer que ele não passaria dos seis meses.

Intrigada com a situação do filho, ela buscou saber o que ele tinha, mas o diagnóstico só veio quando Roberto estava com 2 anos. Então os médicos disseram a ela que o filho viveria no máximo até a adolescência.

“Tivemos de fazer uma reviravolta, com medicamentos e novos hábitos alimentares”, disse dona Márcia. “Isso fez com que Roberto pudesse ter uma melhor qualidade de vida, podendo frequentar a escola e, posteriormente, a faculdade.”

Mas não foi fácil, diz a mãe. “A aparência causava em algumas pessoas afastamento e ele acabou sofrendo bullying na escola. Porém o apoio da família o consolava e ele seguia em frente, se destacando entre os melhores alunos da sala”.

Quando adulto, passou a ter mais apoio, sobretudo na faculdade, onde se formou em Administração Financeira e hoje trabalha no Sebrae.

Roberto se casou no dia 7 de fevereiro de 2017. Foi o momento mais emocionante dele e de sua família, sobretudo diante de tudo o que passaram.

“Eu sofri durante toda a minha vida bastante preconceito, discriminação, na minha vida social, na escola. Mas sempre tive amigos que me defenderam, eles muitas vezes compravam a minha briga. Tenho meus amigos da época do colégio até hoje. Meus pais sempre me criaram como se fosse uma pessoa normal, mesmo tendo certos limites”, declarou Roberto.

E ele agora aproveita outra fase da vida: “Me casei e sai de casa, estou morando com a minha esposa, está sendo uma experiência bastante valiosa a vida de casal. Cuido muito da minha alimentação e vou vivendo, tentando a cada dia melhorar a minha qualidade de vida, penso em viver mais uns 60 anos”.

Durante os cuidados com o filho, dona Márcia acabou criando, junto com outras pessoas, uma instituição para auxiliar pais e amigos de portadores da Berardinelli.

Todos os casos do estado estão cadastrados na Associação de Pais e Portadores da Síndrome de Berardinelli do Rio Grande do Norte, fundada há 19 anos.

Neste período, 17 portadores da síndrome morreram, todos do Rio Grande do Norte, onde os primeiros registros da doença têm início no Século XIX na região do Seridó, semiárido potiguar, conforme dissertação de mestrado da geógrafa Virgínia Kelly de Souza Cândido Dantas, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

De acordo com o estudo, a síndrome surgiu entre famílias portuguesas que colonizaram o local, tendo o aumento de casos se dado devido aos casamentos consanguíneos – entre parentes. Contudo, no caso dos pais de Roberto – registra o estudo –, eles não são primos.

E a quantidade de casos no Rio Grande do Norte despertou o interesse também de profissionais da medicina – são 26 médicos especialistas na área no estado, tendo quatro deles já feito doutorado na área.

Verônica Stasiak

O caso de Verônica, uma psicóloga de 30 anos, é um dos que ilustram bem a luta de quem possui doença rara no Brasil.

Ela nasceu com Fibrose Cística (uma doença genética e que ainda não tem cura), mas o diagnóstico veio bem tardio, quando ela já tinha 23 anos.

Sem saber o que tinha e com tratamentos que não eram muito eficazes, Verônica teve de ser internada por diversas vezes por causa dos problemas pulmonares, chegando ao ponto de ela ter de tirar duas partes do pulmão direito.

A doença que afeta 4.000 pessoas no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Atenção à Fibrose Cística – Unidos pela Vida, com sede em Curitiba (PR), fundado e presidido pela própria Verônica, é também conhecida como “doença do beijo salgado” ou “mucoviscidose”.

Mas, apesar de não ter cura, se diagnosticada precocemente e tratada de maneira adequada, o paciente pode ter uma vida praticamente normal, dentro de seus limites. O tratamento, contudo, não é barato. Verônica, por exemplo, só consegue tratar-se adequadamente graças aos medicamentos que são concedidos pelo Estado.

Porém, já precisou entrar na Justiça contra o Estado do Paraná em 2010 para tratar uma grave complicação causada por um fungo. “O custo mensal do tratamento base para a Fibrose Cística é em media R$ 20 mil reais”, disse Verônica.

Segundo ela, a quantidade maior de pacientes está nos estados do Paraná (cerca de 400) e de São Paulo (cerca de 500), por tratar-se de uma doença de origem europeia.

“O problema maior da Fibrose Cística é não ser identificada logo. Hoje em dia isso pode ser feito pelo teste do pezinho e uma das nossas bandeiras é que a doença seja rapidamente diagnosticada e tratada adequadamente”, contou Verônica, que vive em Curitiba, onde se casou há três anos.

Dudu na infância

Luis Eduardo Próspero

Portador de Mucopolisacaridose tipo VI, Dudu, 26, é um dos casos de exemplo de superação e persistência com a vida.

A doença que o afeta atinge 1 a cada 25.000 nascidos vivos por ano no mundo e é causada pelo acúmulo de glicosaminoglocanos (GAG), conhecida como Mucopolissacárides (há sete tipos da doença).

GAG são moléculas com grande quantidade de açúcares e que absorvem água em demasia. Essas moléculas contribuem para a lubrificação entre os tecidos do corpo.

Na falta de uma enzima nos lisossomos (estrutura responsável pela digestão das células), o GAG se acumula, o que gera disfunção na lubrificação dos órgãos e danos progressivos.

Mesmo sem a visão dos dois olhos, cuja perda se deu aos 10 anos, em decorrência da doença, que se agravou por causa da demora no diagnóstico, Eduardo estudou e hoje é formado em Direito e já vai para o terceiro ano da graduação em Administração.

Morador de Itápolis (SP), na região de Ribeirão Preto (SP), Dudu enfrentou já algumas situações dramáticas: a primeira foi a perda do irmão, que tinha uma forma mais grave da mesma doença e morreu aos 6 anos, na média da expectativa de vida para quem tem o tipo VI da Mucopolisacaridose.

Dudu era um ano e meio mais novo que o irmão e o diagnóstico nele só veio aos 13 anos. No Brasil, na época, não havia tratamento da doença.

Pouco tempo depois, os primeiros testes no país foram iniciados no Hospital das Clínicas de Porto Alegre (RS) com três cobaias humanas (pacientes com a doença), sendo Dudu uma delas.

O experimento, iniciado nos Estados Unidos, era do medicamento Galsufase, hoje utilizado no tratamento, o que trouxe melhoria de vida a Dudu, que possui 1,32 metros de altura, devido às complicações da doença que causava transtornos para caminhar.

Atualmente, Dudu trabalha na Secretaria Municipal de Educação de Itápolis.

“Procuro ter o máximo de independência possível, viver a minha vida de forma feliz e levado alegria para as pessoas. As coisas que acontecem comigo tomo sempre como aprendizado, e tudo me faz crescer”, disse ele, que é atuante nas redes sociais e está sempre cercado de amigos e familiares.

Marianna Gomes Santos

Ela é um dos 83 brasileiros portadores de FOP, sigla da Fibrodisplasia Ossificante Progressiva, uma rara desordem genética autossômica dominante que ao longo do tempo transforma músculos, tendões, ligamentos e outros tecidos conjuntivos em ossos.

Marianna numa noite de Natal quando ainda não sabia que tinha a doença

No mundo, a doença atinge uma pessoa a cada 2 milhões de nascidos vivos.

Os primeiros sintomas da doença em Marianna, que mora em Praia Grande (SP) e tem 23 anos, começaram a aparecer quando ela tinha 6 anos.

“Sentia uma dor no pescoço como se fosse um torcicolo”, disse.

Chegou a fazer cirurgias para retirada de ossos, mas eles acabaram ‘voltando’, foi quando o médico passou pesquisar mais sobre o problema dela e acabou descobrindo a doença, que não tem tratamento e nem cura.

Apesar das dificuldades, Marianna sempre buscou alcançar os objetivos que qualquer pessoa possui na vida, como estudar e trabalhar.

Ela estava atuando há 4 anos como atendente em uma farmácia, mas teve de se afastar em setembro por causa do agravamento da doença.

Mas continua ativa nas redes sociais – ela é ‘relações públicas’ da FOP Brasil. Por meio das redes, ela busca unir os portadores de FOP Brasil a fora.

Segundo Mariana, não há um local no Brasil com maior concentração da FOP, os casos estão bem espalhados, o que, de certa forma, impede que pacientes promovam encontros.

“Procuramos, contudo, sempre estar auxiliando de alguma forma os pacientes, seja com campanhas na internet ou mantendo contato direto por meio de telefonemas ou pelo aplicativo whatsapp. A nossa rede tem se fortalecido a cada dia”, declarou ela.

Cláudia Portela

Aos 56 anos, Cláudia é um exemplo de superação para os portadores de epidermólise bolhosa, uma rara doença genética não contagiosa conhecida como EB, em que boa parte dos pacientes não passa dos 30 anos.

Cláudia auxilia pacientes e familiares com EB em Minas Gerais

A doença se caracteriza pela alta sensibilidade da pele. Ao menor contato (a depender do paciente), formam-se bolhas.

Ela atinge tanto a mucosa externa como a interna (boca, estômago, etc.), o que requer cuidados e curativos especiais (importados) e às vezes cirurgias reparadoras para desgrudar a pele dos dedos de pés e mãos.

Cláudia, quando nasceu, as pernas dela não tinham a pele. Ninguém na família sabia o que era a EB, não havia registros anteriores entre os parentes. Em Belo Horizonte, sempre viveu, também não havia quem desse informações sobre a enfermidade.

O diagnóstico veio somente quando ela tinha três meses. Mas aí ainda faltava o tratamento adequado.

“Desde muito cedo tive que me submeter a diversos tratamentos, sempre na tentativa de evitar que as lesões se infeccionassem. Devido ao estreitamento do esôfago, realizo periodicamente a dilatação do mesmo. Já fiz várias cirurgias em minhas mãos, e devo continuar a fazer por toda a vida, a fim de abri-las, pois as mesmas atrofiam-se cronicamente”, contou Cláudia.

Os cuidados são constantes, sobretudo alimentares, baseado em proteínas, vitaminas e outras substâncias necessárias ao organismo. Os menores machucados demandam uma super higienização para que não infeccionem.

Tamanhos são os cuidados e os gastos que Cláudia resolveu fundar a Associação Mineira dos Parentes, Amigos e Portadores de Epidermólise, da qual é presidente.

“Meu objetivo é ajudar aos pacientes dessa doença que fui conhecendo em minha caminhada”, contou. “Hoje estou bem melhor e muito feliz por continuar administrando-a”.

Bárbara Nascimento

A jovem Bárbara, de 14 anos, recentemente, realizou um dos seus maiores sonhos: ver o cantor canadense Justin Bieber, o que ocorreu na passagem do astro pop São Paulo, recentemente.

Acompanhada da mãe, Rosângela, a garota transbordou felicidade em poder ver o ídolo de perto. “O show foi lindo”, resumiu Bárbara.

Além da mãe, estava com ela outro ‘companheiro inseparável’: o cilindro de oxigênio, que Bárbara enfeitou com figuras de Justin. É que a jovem possui uma doença rara, a Nieman Pick B, que afeta os pulmões.

A doença ocorre a cada 500.000 nascidos vivos no mundo. No caso do tipo B, há cerca de 30 pacientes no país. Há ainda os tipos A e C, que é o mais recorrente e afeta o cérebro, deixando a pessoa em estado vegetativo.

É pouco conhecida por boa parte da população e os sintomas muitas vezes são confundidos com outras doenças, o que implica em dificuldades para o diagnóstico precoce. Não tem cura, porém há tratamentos paliativos.

Além do pulmão, a doença ataca o baço, fígado, cérebro e medula óssea, gerando acúmulo de gordura nestes locais. Afeta também os músculos dos olhos, prejudicando a visão.

Em Bárbara, os sintomas de que algo estava muito errado começaram aos 4 anos, quando ela teve um derrame no quadril e ficou sem andar por um ano, tendo se recuperado após fazer fisioterapia.

Disseram na época que ela tinha a doença chamada Pioartrite. Tinha de ir ao fisioterapeuta uma vez no mês, sem saber direito o que tinha. Do quadril, a dor passou para o pulmão.

Em agosto de 2010, quando tinha 8 anos, a vida de Bárbara ficou por um fio: ela teve um derrame pulmonar e foi internada numa UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

O problema causou o acúmulo de líquido de gordura nos pulmões. Mais exames e outro diagnóstico errado: tuberculose pulmonar.

Bárbara teve de ser submetida a uma quimioterapia da tuberculose por seis meses, tempo em que viu os cabelos caírem e a barriga inchar, o que causou estranhamento dos médicos, os quais solicitaram outros exames, os quais constataram uma “doença de depósito”, mas nada que indicasse o real problema.

Insistente, a mãe de Bárbara procurou um médico geneticista de Ribeirão Preto (SP), que decidiu investigar o caso e solicitou exames e os enviou para análise para a School of  Medicine Mont Sinai, em Nova York (EUA), que, finalmente, diagnosticou a doença – rara, genética, progressiva e sem cura.

A felicidade está sempre presente na vida de Bárbara

Depois do diagnóstico, diz Rosângela, ela hoje vive melhor com a filha e teve acesso aos medicamentos paliativos, os quais são muito fortes.

Outros medicamentos que podem ser mais eficazes contra a doença estão em fases de testes no Hospital Monte Sinai, em São Paulo.

Em 2015, Bárbara foi convidada a participar de uma pesquisa sobre a doença nos Estados Unidos. Ficou até o início deste ano. O órgão mais afetado dela é o pulmão, já fez quatro cirurgias e foi internada mais de 40 vezes.

A jovem adolescente, apesar dos momentos difíceis, leva a vida com um sorriso no rosto, estuda (está no 9º ano) e sonha em ser médica pediatra para cuidar de outras crianças.

Se sente às vezes diferente, por não poder fazer tudo que uma adolescente na idade dela faz, mas nada que a impeça de ser feliz e sonhar com a possível cura da doença um dia.

Deseja crescer sem precisar tomar tantos remédios, sem usar oxigênio em casa, deixar de sentir dores nas pernas, nos braços. Sem ter que sentir cansaço e falta de ar a cada movimento mais intenso.

A palavra de Bárbara é esperança, sempre presente no vocabulário dos raros, e por um motivo claro: “Sonho que vou ser curada um dia”.

Em Ibotirama, empresário realiza sonho da casa própria às pessoas carentes

Edilson (de boné, ao meio) com a esposa Simone e filhos, em cerimônia anual de entrega de casas | Jornal Nova Fronteira\Divulgação

Tarde de outubro de 2014 num casebre no Xixá, um bairro de classe baixa de Ibotirama, cidade baiana de 27 mil habitantes. A dona de casa Poliana da Conceição, prestes a ter o quarto filho, recebe uma das melhores notícias da vida: ganharia uma casa.

Ao contrário do que está acostumado a se ver, a informação de que a mulher de 26 anos realizaria o sonho da casa própria não partiu da produção de algum programa televisivo de auditório que doa móveis e imóveis, sob o patrocínio de grandes marcas.

Um empresário da cidade, inspirado num desses programas, é que foi pessoalmente dizer a Poliana que realizaria o sonho dela, uma prática que ele realiza há dez anos.

Edilson Leite, 47, que atua no ramo de materiais de construção, doa casas a pessoas carentes em Ibotirama e região, após selecionar os candidatos a partir da carta que eles enviam, relatando por que merecem ganhar um imóvel.

Ao longo desse tempo já foram mais de mil cartas recebidas (alguns escreveram mais de uma vez) e 31 imóveis construídos (de dois e três quartos), tendo o valor deles variado entre R$ 45 mil e R$ 50 mil – o investimento total chega quase aos R$ 1,4 milhão. Algumas das casas foram doadas com mobília nova, devido às condições da pessoa.

“A carta ficou guardada por um ano, tinha vergonha de expor minha história: fui abandonada por minha mãe quando eu tinha 15 dias, uma família me criou e me maltratou demais. Fui violentada e explorada dentro de casa. Nunca tive infância. Fugi quando cresci mais e me casei”, contou Poliana.

Sobre a casa de dois quartos, sala, cozinha e banheiro, onde hoje vive sem ter mais com que se preocupar quando chove, Poliana comenta: “É um presente que jamais vou esquecer na minha vida, uma benção de Deus”.

“A outra casa que a gente tinha, de barro e taipa, foi levantada por mim e por meu marido, nem banheiro tinha. Minha preocupação, hoje, é com os estudos dos meus filhos, que estão indo bem na escola. O mais velho, de 13 anos, por exemplo, está na 8ª série e gosta de estudar”, completou ela.

A carta da dona de casa foi uma das poucas aceitas de primeira por Edilson Leite, que conta com a ajuda de uma gerente da empresa dele e da esposa Simone, de 37 anos, para selecionar quem vai receber as casas.

Por ano, diz o empresário, são escolhidas três pessoas. A campanha de divulgação na mídia local e em carros de som tem início em junho e os contemplados são anunciados ao público em outubro – antes do anúncio, ele visita os futuros felizardos.

“Nós escolhemos dez cartas e vamos ver se o que é descrito bate com a realidade. Já teve casos de a gente ir ao local e a pessoa estar com um carro na porta”, contou o empresário, que gera 150 empregos em sua loja de materiais de construção em Ibotirama.

E a escolha para anunciar em outubro quem vai ganhar a casa – diz Edilson – é estratégica: “Levamos no máximo 50 dias para construir o imóvel; então, antes do Natal a pessoa já recebe a casa e pode passar o final de ano na nova residência, tendo já uma nova vida”.

O empresário conta que não segue um padrão na construção dos imóveis. Já teve casos de serem de dois e três quartos, na zona rural e na zona urbana.

Casas adaptadas para famílias com pessoas com deficiência também já foram entregues, e, até o momento, não houve o registro de venda do imóvel doado.

“Para algumas famílias que vemos que têm mais necessidade, conseguimos mobília com outros amigos também empresários. É uma corrente que eu gostaria que fosse maior para crescer o projeto e atender a mais pessoas e construir mais casas por ano”, declarou Edilson.

O projeto do empresário nasceu de uma conversa com a esposa Simone, numa tarde de sábado, quando ele chegou em casa do trabalho e ela assistia ao programa ‘Caldeirão do Huck’, apresentado na TV Globo por Luciano Huck.

No momento, passava um quadro em que as pessoas recebiam uma casa nova, depois de enviarem uma carta ao programa.

“Eu comentei que a gente poderia fazer algo parecido aqui em Ibotirama e no mesmo ano já começamos a campanha. No primeiro ano, foi uma casa, depois ampliamos”, disse Simone, que completa:

“Para nós tem sido um prazer muito grande estar fazendo estas ações. A crise econômica por qual passa o país nunca nos desanimou. Nos enche de felicidade poder ver uma casa que foi transformada, o antes e o depois, e ver uma família feliz.”

Com o gesto solidário, o casal acredita estar plantando uma semente do bem numa região carente de investimentos públicos – Ibotirama está localizada no oeste da Bahia, a mais de 800 km de Salvador.

A Prefeitura de Ibotirama foi procurada para obter informações sobre o déficit habitacional local e sobre um possível apoio ao projeto do empresário Edilson, mas isto não houve resposta.

Entre outros contemplados com as casas, o sentimento de gratidão: “Estou muito feliz pela casa nova, aqui quando chovia molhava bastante. Agora melhorou, estou muito bem com meus filhos. Colocaram até o piso de cerâmica, antes era barro”, declarou Evandeide Santos.

Fabiana de Oliveira afirmou que “Edilson comprovou a situação da casa, que estava para cair e nem porta da rua tinha. Essa foi a oportunidade que Deus me deu, hoje posso dizer que tenho uma casa”.

Alvo de estudo, doença rara gera solidariedade na Bahia

O funcionário público Cristiano Ferreira Caires, 30, com o filho e a esposa, em sua cidade, Barra da Estiva (Foto: Divulgação)

Quando Yasmin nasceu, há quase 4 anos, não foi só o encantamento em ter a filha nos braços que fez o coração de Ariane Pires Bonfim bater mais forte. A menina veio ao mundo com uma doença genética rara não contagiosa, a epidermólise bolhosa.

Conhecida como EB, a doença se caracteriza pela alta sensibilidade da pele. Ao menor contato, formam-se bolhas. Ela atinge tanto a mucosa externa como a interna (boca, estômago, etc.), o que requer cuidados e curativos especiais (importados) e às vezes cirurgias reparadoras para desgrudar a pele dos dedos de pés e mãos.

“Yasmin nasceu sem a pele das duas pernas, foi um susto enorme para mim porque não conhecia a doença e pensava que tinha cura”, conta Ariane, uma professora de matemática de 31 anos que mora em Barra da Estiva, sudoeste da Bahia.

O susto – relata – foi por conta de não ter sido constatado nada de anormal durante o pré-natal nem no ultrassom. A falta de informação sobre a doença – apesar de já haver casos na família – também a deixou preocupada.

Dias depois ao nascimento de Yasmin, uma médica dermatologista informou a Ariane a doença que a filha tinha e aí ela lembrou que tanto na família dela quanto na do marido, Nelson Bonfim da Silva, já haviam portadores da EB – o casal tem uma filha de 9 anos que nasceu normal.

“Mas nunca tivemos a curiosidade de saber da doença dessas crianças [da família]”, ela disse. “Foram 7 dias fazendo curativos com gases e vaselina. Só depois disso que uma prima segunda minha que tem uma filha com EB e que mora em Barra da Estiva ficou sabendo de Yasmim e veio me procurar. Não tinha contato com ela, e depois desse dia ela foi como um anjo para mim”.

O mesmo laço de solidariedade estabelecido entre Ariane e a prima por causa da EB tem ocorrido em outras famílias de Barra da Estiva, como na do servidor público Cristiano Ferreira Caires, 30.

Assim como Ariane, ele também não sabia bem o que era a EB, até ter um filho portador da doença. “Tive a ajuda de uma prima minha que tinha uma filha e deu a orientação sobre os cuidados necessários”, contou ele.

“Depois ficamos sabendo de outras famílias, e aí fomos estreitando os laços”, lembra Cristiano, que hoje ajuda outros familiares de portadores que há em Barra da Estiva, onde há dez registros, ao todo, mas já houve um número incerto de portadores que faleceram nos últimos anos.

O número de casos que pode parecer pequeno se torna alarmante quando se observa que no Brasil há um portador de EB para cada 100 mil nascidos vivos e que Barra da Estiva possui apenas 22.232 habitantes.

A proporção na cidade baiana é semelhante a dos casos da doença nos Estados Unidos, onde a razão é de 1 portador para cada 20 mil nascimentos com vida. Mas Barra da Estiva não está só, ela apenas se destaca na região sudoeste da Bahia, que concentra, em 14 cidades, 39 dos 67 registros de EB no Estado.

Como a população total das 14 cidades do sudoeste é de pouco mais de 700.000 pessoas, o considerado ‘normal’, para as estatísticas brasileiras, seria a região ter no máximo sete casos.

No Brasil estima-se que haja cerca de 600 portadores de EB, segundo informações da Debra, uma entidade mundial que atua no auxílio aos portadores da doença e seus familiares.

Parentes

A pesquisa que vem sendo coordenada pela doutora em genética pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (SP), Sandra Maria Bispo Sousa, suspeita que os casos de EB em Barra da Estiva se dão por causa de casamentos entre parentes – próximos ou distantes.

No caso de Ariane e o marido, Nelson, eles têm em comum o sobrenome Bonfim, mas a pesquisa apontou que as famílias que mais aparecem com portadores de EB são a Caires (Barra da Estiva), a Santos (Barra da Estiva, Vitória da Conquista e Manoel Vitorino), a Ribeiro (Barra da Estiva e Livramento de Nossa Senhora) e Barros (Vitória da Conquista e Manoel Vitorino).

A previsão de término da pesquisa é para os próximos meses. Realizada pelo curso de Biologia da Uesb (universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), campus de Vitória da Conquista, o estudo era para ser concluído neste início de ano, mas sofreu atraso por conta de uma ocupação de estudantes na universidade, de outubro a janeiro.

“As consultas estão sendo mantidas nesse período e alguns dados estão sendo ajustados, principalmente das relações de parentesco das famílias de Barra da Estiva, nos quais nós tivemos informações atualizadas de seis crianças que são primas e não sabiam”, disse a pesquisadora Sandra Mara, que tem formação em Biologia.

Uma constatação importante da pesquisa é que “o grande número de casos apresenta uma das formas graves da doença, a epidermólise distrófica recessiva”.

A EB se classifica em quatro tipos principais, conforme o nível de formação das bolhas: epidermólise bolhosa simples (EBS), a epidermólise bolhosa juncional (EBJ), epidermólise bolhosa distrófica recessiva (EBD) e síndrome de Kindler.

Outra curiosidade relativa à pesquisa é que boa parte dos casais nem sabiam que eram primos, fato incomum para uma cidade pequena como Barra da Estiva. A maioria deles mora na zona rural e as crianças portadoras da doença possuem entre 6 meses e 9 anos.

Sandra Mara supõe que a incidência da doença na cidade esteja relacionada à “migração de indivíduos com a(s) mutação(ões) fundadora(s), associada com a alta taxa de casamentos consanguíneos (de parente com parente)”.

Assistência

A quantidade de casos na região sudoeste da Bahia incentivou a criação de uma filial em Vitória da Conquista da Afapeb (Associação de Familiares, Amigos e Portadores de Epidermólise Bolhosa), que tem sede em Salvador.

Em Vitória da Conquista (maior cidade da região), há seis portadores da doença, um deles, Paulinho, de 10 anos, filho da funcionária pública Adriana Alves, que está há cinco anos à frente da Afapeb.

Foi Adriana quem levou a entidade para Vitória da Conquista depois de ir até Salvador em busca de informações sobre a doença e melhores formas de tratamento. Desde então, Adriana dedica a maior parte do seu tempo a cuidar do filho e a dar assistência aos demais portadores da EB e familiares.

“Quando meu filho nasceu, passei muito aperto com ele por não saber o que fazer direito, e hoje busco auxiliar quem está precisando para não passar pelo mesmo que eu”, declarou.

Por meio da Afapeb, Adriana conseguiu na Justiça que as famílias obtivessem por parte do poder público o fornecimento de medicamentos e suplementos alimentares para os pacientes.

Em Vitória da Conquista, a Prefeitura reserva R$ 408 mil por ano para esse tipo de atendimento, que para ocorrer é preciso apresentar receitas e relatórios médicos detalhados.

Atendimento multidisciplinar

Ainda em Vitória da Conquista, os pacientes recebem atendimento gratuito no Núcleo de Estudos e Atendimento Multidisciplinar aos Portadores de Epidermólise Bolhosa Congênita do Sudoeste da Bahia.

O núcleo é um projeto de extensão da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. São dois atendimentos semanais gratuitos e multidisciplinares. “Levamos informação aos pais, parentes e à sociedade em geral, combatendo o preconceito”, disse a médica Maria Ester Ventin, que atua na coordenação.

Quem também entrou na rede de solidariedade foi a estudante de Direito Mirella de Carvalho. Ela criou há dois anos, em Salvador, o ‘Instituto Eu Existo’, voltado para auxiliar familiares e amigos de portadores de EB.

O instituto atua desde o nascimento da criança, orientando profissionais de saúde que são pouco familiarizados com a doença e não sabem a melhor forma de realizar, por exemplo, os curativos e evitar complicações.

O instituto tem conseguido fazer também com que pessoas desconhecidas auxiliem os portadores de EB por meio do ‘apadrinhamento’, quando a ajuda ocorre de forma direcionada. O instituto atua com voluntários e vem atuando na ajuda de pessoas de outros estados.

“Com o crescimento do instituto, passamos a ajudar pessoas com outras doenças também e hoje temos cadastrados mais de 200 pacientes”, informou Mirella, que se diz surpresa com a quantidade de casos na Bahia numa mesma família.

“Sei de uma família de Itabuna (sul do estado) que tem 6 casos de pessoas com grau de parentesco próximos. No Ceará, há 14 pessoas na mesma situação. É meio preocupante, mas estamos aqui para auxiliar, independente de qualquer coisa”, declarou Mirella.

Para não apanhar, detentos de Vitória da Conquista cantam “eu sou putinha e a Caesg é barril”

Vista parcial do novo presídio de Vitória da Conquista (Foto: Governo da Bahia)

Dia de revistas no recém-inaugurado Presídio de Vitória da Conquista, na Bahia. Seminus, os presos são colocados em fila e obrigados a cantar “eu sou putinha e a Caesg é barril”. E quem não canta, apanha.

A situação vexatória que passa longe dos preceitos internacionais sobre ressocialização de presos foi denunciada na sexta-feira (24) pela comissão de Direitos Humanos da subseção local da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

A Caesg (Companhia de Ações Especiais do Sudoeste e Gerais) é como era chamada a atual Cipe (Companhia Independente de Policiamento Especializado), unidade especializada da Polícia Militar da Bahia que atua na repressão ao crime organizado. A mudança de nome é recente, e, no presídio, a Cipe dá suporte à segurança durante as revistas.

Porém, pelos relatos que a OAB coletou, a atuação policial e dos seguranças do presídio estão indo além de manter a paz no local. Há relatos de espancamentos, utilização de spray de pimenta dentro de celas, teasers (armas de choque) e uso contínuo de cães de grande porte como forma de intimidação.

A OAB diz ter constatado os problemas em visita ao presídio dia 20 de fevereiro desde ano, junto com o Conselho da Comunidade para Assuntos Penais.

Ao ter contato com os detentos dos blocos A e B, “a comissão visualizou feridas e hematomas, que possuíam o aspecto de recentes. Destaca-se ainda que muitas queixas apontavam para o nome de três agentes de segurança.”

“É uma situação lamentável que está sendo levada às autoridades competentes para que providências sejam tomadas”, disse o advogado Alexandre Garcia Araújo, vice-presidente da comissão de Direitos Humanos da OAB local.

Araújo informou que vem recebendo queixas de familiares de detentos desde janeiro deste ano – a unidade prisional foi inaugurada em 22 de agosto de 2016, e com atraso: iniciada em 2009, com prazo de término de um ano, foi finalizada somente em 2015 e com mais que o dobro do orçamento. Era de R$ 16,4 milhões em 2009 e ao término foi a R$ 33,6 milhões.

Morte de preso

A OAB cobra do Governo da Bahia a investigação da morte de um detento em 12 de fevereiro numa cela onde estava com mais seis presos.

A direção do presídio havia divulgado que o detento morreu ao cair do beliche e bater com a cabeça no chão, “porém foram constatados no IML (Instituto Médico Legal) diversos hematomas e cortes no rosto da vítima (comprovados por fotografias)”.

O detento Luiz Augusto de Figueiredo Colombini morreu ao cair do beliche e bater a cabeça no chão, segundo a direção do presídio. Fotos, contudo, mostram hematomas pelo corpo. O caso está sendo investigado. (Divulgação)

“A declaração de óbito atesta que existiam lesões torácicas e abdominais, o que levanta ainda mais dúvidas sobre a causa do falecimento”, declarou a OAB, numa nota enviada à imprensa.

A Justiça Criminal já determinou à Polícia Civil, após queixa da OAB, a investigação sobre as causas da morte do detento.

Há reclamações ainda com relação às visitas de familiares dos presos. A OAB afirma que as pessoas chegam às 2h da madrugada para garantir lugar na fila de entrada e não existe estrutura onde possam se abrigar.

“Faça chuva ou faça sol, os visitantes têm que esperar do lado de fora, sem nenhum assento ou espaço coberto.”

Ainda de acordo com a OAB, devido a pouca quantidade de agentes realizando a revista, familiares só podem entrar no presídio próximo do horário de almoço, permanecendo no local até as 15h30.

“E como é proibida a entrada de alimentos na penitenciária, estas pessoas têm que se alimentar com o que é fornecido pela empresa Socializa [que administra o presídio]: apenas um pão e um copo de suco.”

“Reafirmamos o nosso compromisso em defender o Estado Democrático de Direito e as garantias constitucionais, colocando-nos à disposição para auxiliar no que for possível e necessário”, diz a nota da OAB.

Sem queixas      

Questionada sobre os relatos dos presos durante as revistas, a Polícia Militar da Bahia declarou que “até o presente momento não há registro na Ouvidoria ou na Corregedoria da PM acerca de denúncia sobre a atuação de policiais militares no presídio de Vitória da Conquista.”

“A corporação disponibiliza o 0800 284 0011 e o site institucional (www.pm.ba.gov.br) para recepcionar denúncias ou contribuições outras ao serviço da Corporação.”

A PM declarou que todas as ações da Cipe “são pautadas na técnica e na legalidade sendo amplamente reconhecida na região pela excelência no combate ao crime organizado.”

“Esse enfrentamento insone à criminalidade pode ser uma das motivações dessas denúncias a priori infundadas, vide que não há registros concretos das práticas relatadas, referentes à atuação da unidade operacional especializada na condução das revistas nos presídios. Logo, a PM não irá tolerar a tentativa de criminosos macularem a imagem da tropa em decorrência das ações desenvolvidas para coibir a prática delituosa.”

O presídio tem capacidade para 513 internos, mas segundo a OAB, não está superlotado.

Procurada na sexta-feira passada, a Seap (Secretaria de Administração Penitenciária) se manifestou somente no final da tarde de terça-feira (28). Segue a nota abaixo, na íntegra:

“Reportando-me à Nota Pública da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil – Subseção Vitória da Conquista sobre a situação carcerária em Vitória da Conquista, amplamente divulgada nos meios de comunicação, informo que, o Conjunto Penal de Vitória da Conquista, inaugurado em 22/08/2016, recolhe presos provisórios e/ou sentenciados nas regras do regime fechado, os quais se encontram à disposição da Justiça Pública, com capacidade para 750 (setecentos e cinquenta) internos, sendo operacionalizado em sistema de cogestão.

Neste contexto, a Administração do estabelecimento penal, ao proceder uma minuciosa leitura do documento acima citado, repudia-o veementemente, visto que, os fatos ali constantes não procedem real e faticamente com a situação vivenciada, ensejando, inclusive, estranheza da autarquia, ao agir deste modo, na medida em que, unilateralmente, ‘apresentou’ informações, estas totalmente equivocadas, insurgindo, também, com um princípio tão defendido pela OAB, qual seja, o contraditório e a ampla defesa.

Deste modo, e alinhando-se às lições preliminares do Direito Penal, em que há a necessidade de identificação de autores do fato e vítima, indago: Onde se encontram “(…) as inúmeras reclamações e denúncias (…)” e os “(…) reclamos (…)” da sociedade contra o Conjunto Penal de Vitória da Conquista!?

Percebe-se assim que, em nenhum momento, a Comissão de Direitos Humanos da OAB preocupou-se em articular real, clara e efetivamente os fatos, já que lançou o “seu entendimento” aos meios de comunicação; posto que, em uma reunião, no mínimo, promovida pela autarquia, deveria, salvo melhor entendimento, especificar eventuais reclamações, denúncias e reclamos, o que não aconteceu in casu.

Registre-se que, a Administração do estabelecimento, quer seja desde a sua inauguração, quer seja da sua habitação, sempre possuiu diálogo aberto para com a sociedade, recepcionando demandas internas (eg. dos internos), bem como externas (eg. familiares dos internos, assistência religiosa, Conselho da Comunidade e demais Órgãos de Execução Penal).

A Nota traz à baila acerca do óbito, de 12/02/2017, do interno Luiz Augusto de Figueiredo Colombini, sendo que, logo após o ocorrido se fez presente na Unidade o

Diretor do estabelecimento, o Delegado da Especializada de Homicídio e uma Equipe do DPT, sendo imediatamente oficializado à Vara de Execuções Penais da Comarca de Vitória da Conquista, à Coordenadoria de Polícia Civil e à Superintendência de Gestão Prisional da SEAP, relatando os fatos ocorridos.

Concomitantemente a assistência à saúde, a Direção da Unidade solicitou a apuração dos fatos pela Polícia Civil, na forma do Art. 5º, I, do Código de Processo Penal.

Registre-se que, a entrevista da Direção d Unidade foi concedida anteriormente à expedição da Declaração de Óbito, sendo que, naquele momento inicial, os trabalhos investigativos direcionavam a morte, decorrente de acidente; e não relacionava à ofensa à integridade física de outrem.

Ressaltamos que a Direção do conjunto Penal, em nenhum momento, foi omissa ao seu desiderato, não aceitando ponderações acerca de “(…) dúvidas sobre a causa do falecimento. (…)” do interno, posto que, cumpriu com a comunicação aos Órgãos competentes, procedendo ainda a assistência social aos familiares da vítima.

Acerca da visitação da Comissão de Direitos Humanos da OAB e do Conselho da Comunidade ocorrida em 20/02/2017 no estabelecimento penal, como mencionado na nota, não há identificação de eventuais autores e supostas vítimas, trabalhando simplesmente com sujeitos ocultos, ou melhor dizendo, indeterminado. É imprescindível a identificação de condutas!!!

Ademais, quando da realização de atividades, o estabelecimento penal labora com o diálogo com a população carcerária, sendo que, todos os Agentes de Disciplina foram recrutados e treinados para inibir eventual conduta que ponha em risco às normas de segurança e vigilância do Conjunto Penal, eg. tonfas, escudos, e spray de gengibre. A matilha é utilizada para a vigilância externa da Unidade, e, quando da atividade de revistas nas celas, visando, pois, identificar a existência de eventual substância entorpecente.

No que se refere à revista realizada pela CIPE – SUDOESTE, tropa especializada em intervenções de Unidades Prisionais da PMBA, entendo pertinente a manifestação da Companhia, pois comungo do contraditório e da ampla defesa; sendo que, nas

oportunidades as tropas que se fizeram presentes realizaram com profissionalismo e técnica suas atividades.

No âmbito das transferências de internos para o Conjunto Penal de Serrinha, tais recambiamentos são realizados, por determinação judicial, na forma do Provimento n.º 03/2014, da Corregedoria Geral da Justiça do Estado da Bahia, pelo viés de repressão às condutas ofensivas às normas de segurança e vigilância, ou por ofensa à integridade física , sendo apenas  registradas três transferências dessa natureza, por ameaças a vidas de Agentes de Disciplinas da empresa contratada.

Não prosperam ainda as alegações que, o Conjunto Penal de Vitória da Conquista permite que os familiares permaneçam às intempéries climáticas; sendo que, o Espaço de Acolhimento / Área de Vivência encontra-se em sua fase conclusiva de obras, contemplando com banheiros, para ambos os sexos, cadeiras  e parque para as crianças.

O que a Administração não pode ser responsabilizada é pelo fato de que durante as revistas de objetos e pessoal, a qual varia a cada dia; corriqueiramente, visitantes são detidos, por portarem materiais não permitidos, a exemplo dos ilícitos criminais.

Neste desiderato, todas as visitações de cunho social eram aos domingos, sendo que, já ocorreram fracionamentos e atualmente o Conjunto Penal de Vitória da Conquista designou os sábados, para visitação dos internos provisórios das Galerias B e C do Pavilhão II, e, os domingos, para os internos provisórios da Galeria A e os sentenciados do Pavilhão I, buscando diminuir o quantitativo de visitantes por dia, agilizando assim o processo de revistas e ingresso na unidade.

No que se refere à alimentação dos visitantes, o objetivo é de não permitir o acesso de comida caseira, comumente utilizada para ocultar substâncias ilícitas, armas e celulares, entretanto, frutas e biscoitos são permitidos; e a disponibilização do suco e lanche decorre de cláusula contratual, com a empresa de cogestão contratada pelo Estado.

Os solários, locais em que os internos recebem os visitantes, são compostos de mesas e bancos de concreto, do projeto arquitetônico construído.

No que se referem às fotografias e cartas, estas são inicialmente analisadas pela Assistência Social e Segurança, para serem posteriormente entregues aos seus destinatários.

Ante o exposto, a Direção do Conjunto Penal de Vitória da Conquista entende que a Nota Pública não apresenta a veracidade dos fatos.”

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ATUALIZAÇÃO

No dia 29 de março de 2017 o diretor do presídio, major PM José Andrade de Souza Júnior, foi exonerado, assumindo no lugar dele o capitão PM José Oliveira Melo.

Líder de facção criminosa, mulher espalha o terror em Conquista

Baralho do Crime com informações sobre Jasiane. Foto: Divulgação/Polícia Civil

A aventura na busca por compra de drogas para consumo próprio terminou em morte para dois jovens amigos no final da tarde do dia 2 de fevereiro de 2017 em Vitória da Conquista, sudoeste do estado.

Julgados como ‘soldados do tráfico’ numa área inimiga, eles foram assassinados com mais de dez tiros de pistola e revólveres, num ‘modus operandi’ de integrantes da facção BDN (Bonde do Neguinho), liderada por Jasiane Silva Teixeira, 28, a ‘dona Maria’, e que tem espelhado o terror na cidade de 346 mil habitantes – a terceira maior da Bahia.

Segundo a Polícia Civil, os garotos estavam de bicicleta no Vila Sul, conjunto habitacional do programa federal de habitação popular Minha Casa, Minha Vida situado no bairro Campinhos (periferia da cidade), perguntando onde achar maconha.

Até o final de semana, a polícia conseguiu identificar apenas uma das vítimas: Igor Carvalho Silva, de 18 anos.

“Pelo que apuramos, os jovens não tinham envolvimento com o tráfico, eram usuários. Mas ao serem confundidos com integrantes de outra facção, foram mortos”, afirmou o delegado Hudson Santana, da Delegacia de Homicídios.

A morte dos jovens foi a última relacionada ao tráfico na cidade, onde já ocorreram este ano 36 homicídios, a maioria envolvendo traficantes e usuários de drogas. Ano passado, a cidade fechou o ano com mais de 200 assassinatos.

Segundo autoridades policiais e do Ministério Público, mais de 90% dos homicídios da cidade está associada à violência fruto dos conflitos envolvendo tráfico de drogas.

Salve Copa

O destino dos jovens é o mesmo de quem se atreve a contrariar os interesses de dona Maria, seja dentro ou fora do território dominado pelo sua facção, cuja sigla é referente ao seu braço direito Juarez Vicente de Moraes, o ‘Neguinho’, principal executor de homicídios e gerente do tráfico.

Branca, de olhos claros e sorriso atraente, dona Maria tem crescimento recente no mundo do crime no interior da Bahia. Mas estar em posição de liderança trouxe para ela maiores riscos – é muito visada tanto por facções rivais quanto pela polícia.

Tamanha importância a colocou em fevereiro deste ano como a ‘Dama de Copas’ no ‘Baralho do Crime’, ferramenta da SSP (Secretaria da Segurança Pública) da Bahia para ajudar na captura de criminosos foragidos.

O ‘baralho’ já foi atualizado 110 vezes desde sua criação, em 2011, e após exibir os rostos dos criminosos mais procurados, já contribuiu para 68 prisões.

E entrar para o baralho parece ter sido motivo de orgulho para a traficante, pois já é possível se ver em bairros onde domina o tráfico pichações em casas com o nome “Salve Copa”.

Inimigo discreto

Na Justiça Criminal ela é ré em seis processos: por tráfico e associação para o tráfico (quatro ações) e mais dois por homicídio qualificado, um em Vitória da Conquista e outro em Jequié, cidade vizinha a Vitória da Conquista e para onde vão os presos condenados a regime fechado na área de jurisdição da região Sudoeste da Bahia.

“Mas temos informações seguras de que é ela quem manda cometer os homicídios”, disse o delegado Hudson Santana, segundo o qual dona Maria tem em aberto quatro mandados de prisão por tráfico, associação para o tráfico e homicídio.

A maioria dos crimes foram ocorridos em Vitória da Conquista, onde a zona que atua é a oeste – no lado oposto, separado pela rodovia BR-116, quem comanda o tráfico, segundo a Polícia Civil, é Wilians de Souza Filho, o Nem Bomba.

A polícia informou que a facção de dona Maria vem tentando há anos tirar Nem Bomba de cena, realizando constantes invasões no território inimigo e assassinando quem trabalha direta ou indiretamente para ele.

“Nem Bomba, por sua vez, não tem entrado na área dela, mais por estilo de atuação. Ele tem o território definido e quer apenas manter o poder, sem realizar homicídios, assaltos e outros crimes. Nem possui atuação bem mais discreta, mas se for atrás dele, ele revida. Já esteve preso, mas teve o mandado revogado pela Justiça. Sabemos que ele comanda o tráfico, mas atualmente não há nenhum mandado de prisão em aberto contra ele”, declarou Hudson Santana.

Dona Maria e seu comparsa Juarez, o ‘Neguinho’, apontado como homicida e gerente da facção BDN. Foto: Divulgação/Polícia Civil

Origens 

Nascida e criada no bairro Jardim Valéria (periferia de Vitória da Conquista), dona Maria se envolveu com o tráfico de drogas ainda jovem.

Segundo a polícia, ela entrou para o mundo do tráfico quando passou a se relacionar com o então maior traficante da cidade, Bruno de Jesus Camilo, o Pezão.

A família de Pezão, contudo, nega esta versão, afirmando que ele e Jasiane se conheceram antes de Bruno entrar para o tráfico e dizem que não foi ele quem levou Jasiane para o tráfico.

No seio familiar, Jasiane é conhecida como ‘Ane’.

Ao contrário do que diz a polícia, Bruno não é primo de Jasiane, segundo familiares de Pezão.

A mãe de Bruno é prima em segundo grau de um membro da família de Pezão, mas que não é o pai de Jasiane, segundo disseram familiares de Bruno.

A mãe de Jasiane e o homem que é da família de Pezão vivem hoje separados.

De acordo com a polícia, Bruno e Jasiane viveram anos de aventuras, fugindo da polícia e promovendo festas regadas a maconha e cocaína, até que Pezão acabou assassinado em 2014 numa suposta troca de tiros com a polícia em Porto Seguro, no extremo sul do estado.

Dona Maria estava junto com Pezão e conseguiu escapar do cerco, após o companheiro dar guarita para a fuga.

Com o dinheiro do tráfico, segundo a polícia, eles usaram laranjas para comprar casas em Vitória da Conquista e Porto Seguro e um apartamento em Salvador.

A líder do BDN foi presa pela primeira vez em 2008 por tráfico e associação para o tráfico e porte de arma com o companheiro Pezão.

Solta meses depois, ela passou a atuar de acordo com as ordens de Pezão e a operacionalizar em Jequié, onde montou uma base.

Foi em Jequié onde ocorreu, em 2010, um dos homicídios no qual ela responde na Justiça. Pezão mandou matar um agente penitenciário que não queria facilitar a entrada de drogas e armas para ele na unidade prisional onde estava.

Outros crimes atribuídos diretamente a dona Maria são um duplo e um triplo homicídio contra integrantes da facção de Nem Bomba.

Sem piedade

Desde que assumiu o comando do tráfico no lugar de Pezão, dona Maria tem atuado com impiedade até maior que a do ex-companheiro.

Ela começou a crescer como líder ao realizar ainda em Jequié uma aliança com Paulo TG, traficante filiado ao Bonde do Maluco, que por sua vez atua na Bahia como braço do PCC, de acordo com a SSP-BA.

Dona Maria se articulou também com grupos menores de traficantes de Vitória da Conquista que tinham se desarticulado com a morte de Pezão. Esses grupos estavam a cada dia se guerreando mais, fazendo crescer uma onda de homicídios na cidade.

Para trazê-los para perto de si e colocá-los sob seu comando, dona Maria acordou com os líderes desses grupos que iria fornecer drogas, armas e disponibilizar advogados 24 horas. Em troca, a maior parte do lucro com o tráfico seria dela.

No comando, nona Maria tem atuado com impiedade pior que a de Pezão, executando rivais em qualquer local e quem estiver perto, sem poupar nem crianças, afirma a polícia.

Em novembro de 2016, por exemplo, ela ordenou que seu bando matasse todos que estivessem em uma festa realizada num bar que deu preferência a vender drogas da facção rival, a de Nem Bomba. No local havia mais de 20 pessoas.

A polícia, no entanto, frustrou a ação ao perceber a movimentação no local e seguir os traficantes. Quatro deles acabaram mortos em troca de tiros com a Polícia Civil quando chegaram a tal festa e desceram de um veículo Celta cinza de arma em punho.

A prima de um dos traficantes mortos esteve no local após o ocorrido e acabou presa. Ela tinha ido ver o que ocorreu para depois passar ao BDN. À polícia, a mulher confessou todo o plano: matar geral.

Recentemente, outra baixa no BDN: os homicidas de apelido ‘Cocão’ e ‘Bagão’ morreram em troca de tiros com a PM. Estavam entre os principais executores da facção.

Área de domínio

Além do bairro Campinhos, onde os jovens foram mortos na quinta-feira passada, a sigla BDN está espalhada no Jardim Valéria, Vila Bonita, Kadija, Patagônia, Brasil, Campo Verde e Miro Cairo. Na maioria destes bairros é onde foram criados nos últimos anos conjuntos habitacionais do Minha Casa.

Um deles (o do Miro Cairo) foi entregue pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em outubro de 2013, quando por lá já havia pichações de traficantes nas casas, uma delas “PCC vida loca”.

A polícia diz ter informação de que a BDN, apesar de atuar localmente, já se expandiu a ponto de se tornar integrante de uma rede de tráfico que tem como representante maior a facção paulista, a mais poderosa do Brasil.

“Mas ainda não vimos por aqui a frase ‘paz, justiça e liberdade’, do PCC. E esperamos não vê-la”, declarou delegado Hudson Santana.

Nesses bairros, os casos de expulsão de moradores por parte de traficantes é fato corriqueiro. Ao Suíça Baiana, pessoas que residem nesses bairros disseram que para permanecer ‘em paz’ no bairro é preciso ser passivo com os traficantes, alertando-os muitas vezes da presença da polícia.

“Eu preferi sair, abandonei minha casa porque conviver da forma que eles querem é sempre um risco. Muita gente continua lá por falta de opção, mas querem mais poder ir para um local que não esteja sob o domínio do tráfico, do qual participam muitos adolescentes. Não quero criar meu filho num local desses”, afirmou Vanderleia Pereira de Oliveira, 37, que morava no Miro Cairo.

Ações policiais

Os moradores reclamam também da ausência das polícias Civil e Militar, as quais, por sua vez, afirmam que as ações desenvolvidas têm contribuído para a redução da criminalidade.

Em nota, a Polícia Civil afirma que “nos últimos quatro meses, Vitória da Conquista acumula redução de 20% nos homicídios em relação ao mesmo período dos anos anteriores”.

“No último bimestre de 2016 a redução foi de 15% em relação a 2015. No primeiro bimestre de 2017 a redução foi de 25% em relação a 2016”, afirma a nota, sem citar números absolutos.

“O resultado é fruto do combate constante e conjunto da Polícia Civil e Polícia Militar ao tráfico de drogas, com apoio do Ministério Público e judiciário. No ano de 2016, a Polícia Civil deflagrou 164 operações policiais que resultaram na prisão de 201 pessoas, apreensão de 47 armas de fogo e 2.144 quilos de drogas.”

A nota destaca que “somente o Núcleo de Tóxicos e Entorpecentes, criado em fevereiro de 2016 e efetivado como Delegacia em dezembro do mesmo ano, deflagrou 48 operações, prendeu 64 pessoas, apreendeu 25 armas de fogo e 624 quilos de drogas.”

Somando-se às apreensões realizadas pela PM e PRF (Polícia Rodoviária Federal), a Polícia Civil contabilizou em 2016 a apreensão de 12, 5 toneladas de drogas. Em 2015, diz a nota, “foram apreendidas 461 quilos de drogas.”

Destaque internacional

Os dados apresentados apenas em porcentagem parecem não querer mostrar uma realidade que vem pondo nos últimos anos Vitória da Conquista como destaque em criminalidade em pesquisas nacionais e internacionais.

Num dos últimos relatórios sobre segurança, o Atlas da Violência 2016, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), aponta que a taxa de homicídios por cada 100 mil habitantes na cidade está quase quatro vezes maior que o aceitável pela ONU (Organização das Nações Unidas).

Segundo o Atlas, elaborado em parceria com o FBPS (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) com dados de 2014 do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, Vitória da Conquista possui taxa de homicídios de 37,2 – o tolerado pela ONU é de 10 assassinatos por cada 100 .000 habitantes.

Se comparado com outra pesquisa com dados de 2015, divulgada também em 2016 e que coloca a cidade como a 36ª onde mais se mata no mundo, a taxa de homicídios aumentou de um ano para o outro, já que em 2015 foi registrada taxa de 38,46 assassinatos por cada 100.000 moradores.

A pesquisa do início de 2016 coloca Vitória da Conquista numa posição que faz vizinhança com Tijuana, cidade outrora conhecida como sede de um dos cartéis de drogas mais violentos do México.

A cidade baiana é também a 36ª onde mais se mata no mundo, aponta o estudo da ong mexicana Seguridade, Justiça e Paz – Conselho Cidadão para a Segurança Pública e a Justiça Penal, cujo estudo abrangeu apenas cidades com população acima de 300.000 habitantes.

De acordo com a ong, ocorreram em 2015 em Vitória da Conquista 132 homicídios, tendo a cidade ficado com uma taxa de 38.46 por cada 100.000 habitantes.

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ATUALIZAÇÃO

No dia 13 de abril de 2017 familiares de Bruno Pezão entraram em contato com o Suíça Baiana para informar que ele e Jasiane não são primos e que não foi Bruno que a levou para o tráfico. A reportagem foi corrigida. 

Vendaval causa prejuízos em Livramento e atinge até a casa do prefeito

Onda calor foi o motivo do fenômeno natural | Imagens: Divulgação

Os churrascos de finais de semana estão provisoriamente interrompidos na casa do prefeito de Livramento de Nossa Senhora, no pé da Chapada Diamantina, na Bahia.

A residência de José Ricardo Assunção Ribeiro (Rede) foi uma das centenas de imóveis particulares atingidos durante um vendaval acompanhado de chuva que caiu na tarde de terça-feira de Carnaval na cidade de 46 mil habitantes. Não houve feridos.

O telhado da casa do gestor ficou bastante danificado, sobretudo na parte dos fundos, onde fica a churrasqueira. Cerca de duzentas telhas foram levadas pelo vento de 90 km por hora, segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

“Por sorte, não havia ninguém na casa, todos estávamos em Imburatiba (MG), onde fomos passar o Carnaval”, disse José Ricardo, cujo portão da casa também foi arrancado pelos ventos.

“Estou chegando hoje à noite [quinta-feira] à cidade e pelo que tive de informação sobre a destruição vou ter de declarar estado de calamidade. Vamos avaliar os prejuízos”.

Além das centenas de imóveis atingidos (estabelecimentos comerciais, empresas e residências particulares), ao menos dez prédios públicos foram gravemente danificados pelo vendaval que durou cerca de 20 minutos. A maioria deles teve o teto bastante danificado.

Telhados e outdoors vieram ao chão, árvores de grande porte arrancadas pela raiz, muros altos caíram, antenas parabólicas jogadas em cima de carros e até uma estrutura de aço da garagem da Prefeitura foi arrancada, assim como o telhado de ferro de um ponto de ônibus.

De acordo com o Inmet, a chuva com vento forte foi provocado por uma onda de calor. Tamanha a força dos ventos fez os moradores pensarem ser um tornado. A parte mais atingida da cidade foi no bairro Taquari. Apesar dos estragos, não houve desabrigados.

“Foi forte demais, muita gente ficou com medo de ter um desastre maior, nunca se viu algo parecido na cidade”, contou o comerciante Felipe Moraes Sampaio, cujo estabelecimento teve o toldo arrancado.

Para a Administração Municipal, o prejuízo na cidade poderia ter sido maior se em Livramento de Nossa Senhora ocorresse festejos de Carnaval. Como não tem nada, a maioria da população aproveita o feriado para viajar.

“Hoje demos uma volta pela cidade e começamos a contar os prejuízos, só não temos como precisar um valor. Nos próximos 15 dias estaremos trabalhando exclusivamente para reconstruir imóveis públicos e auxiliar os particulares na reconstrução”, informou o secretário de Obras, Gilton Hipólito.

Não choveu nesta quinta-feira em Livramento de Nossa Senhora. Para esta sexta, o Inmet prevê ventos fracos e moderados, com o tempo nublado durante o dia e chuva à noite em áreas isoladas. A temperatura deve variar entre 18ºC e 34ºC.

Educadora defende o uso de tecnologias em sala de aula por alunos

Tecnologias devem auxiliar na autonomia dos estudantes

Com vasta experiência em sala de aula, tanto no ensino médio quanto no superior, a professora doutora Lea Fernandes Viana Leal, que atua em Vitória da Conquista em instituições de ensino superior públicas e particulares, vem se destacando nos últimos anos como escritora, organizadora e co-autora de livros e artigos acadêmicos relacionados às metodologias ativas da educação.

Lea Leal, como é mais conhecida, volta seus estudos para o uso das tecnologias em sala de aula, tema polêmico e bastante debatido neste início de ano em jornadas pedagógicas em toda a rede de ensino da cidade, pública e privada. Para ela, não se pode privar os alunos do uso de meios modernos durante a aula.

Mas até que ponto o uso das tecnologias em sala – sobretudo de smartphones, tablets e notebooks – poder ser bom ou ruim? Lea Leal defende que os recursos tecnológicos sejam usados de forma pedagógica para estimular o estudante a conquistar autonomia e intervir no processo educativo.

“O que temos de fazer, como professores, é orientar com relação às fontes da informação no mundo tecnológico. Os conceitos que os professores passam em sala de aula podem estar da mesma forma nas redes ou então serem colocados de maneira deturpada. Às vezes ocorre ainda de o aluno encontrar definições diferentes para um mesmo assunto. Isto é normal. Mas cabe ao aluno também ter a consciência de que o professor está ali para ajudá-lo nessa busca por informações confiáveis”, ela disse.

Interação humana

Para a professora, a questão não é proibir o uso de tecnologias em sala de aula e sim apresentar um projeto pedagógico aos estudantes da atual cultura contemporânea:

“As redes sociais são espaços de interação humana, a escola favorece a interação e a constituição de novos saberes. A questão não é proibir o celular, deve ser objeto de discussão para direcionar práticas pedagógicas e incentivar o diálogo, pesquisa, direcionar atividades, desafios, descobertas, além da sala de aula, sair das quatro paredes e ultrapassar novas fronteiras de conhecimentos e valores.”

Importante se destacar que ao se apropriar das novas tecnologias, o processo educativo abre portas da escola para o mundo, uma agradável dinâmica à prática educativa. No Brasil, leis estaduais proíbem aparelhos celulares na sala de aula.

“Nas disciplinas que lecionamos, utilizamos em alguns momentos a tecnologia em sala de aula, sobretudo para pesquisa, desafios e laboratórios virtuais. Essa utilização educativa favorece a motivação pela disciplina, ao vivenciar o que os outros estudantes estão aprendendo com o mesmo conteúdo, abre portas largas. Professores e educandos aprendem juntos a todo o tempo, transformando o jeito de ensinar e aprender”, destacou a professora.

Convite para congresso

Dentre as publicações de Lea Leal e que tem maior interesse do público, estão os livros “Redes Sociais e o olhar cristão na sociedade moderna” (2014), do qual é autora, “Educação Virtual – Compartilhando saberes” (2015), “Educação a Distância – Relatos e Experiências” (2011) e “Educação Aberta e Flexível – Caminhos para aprendizagem significativa” (2014) – estes últimos, como co-autora e co-organizadora.

Nestas publicações, Lea Leal vem desenvolvendo e aprimorando suas ideais sobre metodologias ativas na educação, conseqüência de estudos realizados durante o mestrado e doutorado na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, onde participou também da Cátedra Paulo Freire, espaço privilegiado para o desenvolvimento de pesquisas e estudos em pós-graduação sobre a obra do grande autor brasileiro, referência mundial em educação.

Recentemente, Lea Leal foi convidada para expor trabalhos no 23º Congresso Internacional ABED de Educação a Distância – Metodologias Ativas e Tecnologias Aplicadas à Educação. O evento será em setembro deste ano em Foz do Iguaçu (PR).

Paulo Freire é um dos autores mais citados no mundo acadêmico

“Hoje podemos aprender em qualquer lugar os métodos tradicionais de ensino por transmissão de informações. A sociedade altamente conectada traz uma tecnologia de integração de todos os espaços e tempos”, declarou a professora, que busca trazer para a modernidade o método Paulo Freire da pedagogia da problematização, a qual valoriza o diálogo e apresenta a realidade em prática, objetivando a transformação social através da reflexão crítica das questões e discussão dos conflitos atuais.

“Ao longo do tempo, utilizamos outros autores, discutimos e difundimos o uso de metodologias ativas no ensino superior, compartilhamos experiências na docência. A sala de aula ficará mais interativa com um projeto educativo inovador envolvido por metodologias ativas e profissionais competentes que saibam orientar os estudantes para uma aprendizagem significativa, tornando-os capazes de conviver na sociedade de informação.”

Ruídos no Sertão mantém o alto nível do festival em Poções

O cantor Edu Falaschi se apresenta no festival, agitando o público | Fotos: Fábio Agra/Reprodução

Por Fábio Agra, da Mega Rádio

Doze horas de evento ininterruptos, oito bandas e um público cada vez mais fiel. O Festival Ruídos no Sertão, em Poções, tem sido o principal reduto dos metaleiros/rockeiros no interior da Bahia e, talvez, do Nordeste. Sua quarta edição ecoou no sábado passado.

Por nossas terras baianas, o Ruídos no Sertão se transformou em uma vitrine para bandas de norte a sul, leste a oeste do Brasil, e até de outros países da América Latina que desejam tocar. Durante todo o ano, a produção tem recebido também material autoral dos headbangers hermanos.

Contudo, para esta edição, não houve nenhuma banda estrangeira, ao contrário de 2015 (Metal Singers) e 2016 (Encoffined-Argentina), por uma fatalidade que aconteceu com Steve Grimmett, vocalista do Grim Reaper, durante o show no Equador há três semanas, quando devido a uma infecção precisou ter uma parte da perna amputada e, em consequência, as apresentações do restante da turnê, inclusive a do Ruídos no Sertão, canceladas.

O impacto inicial pela falta do Grim Reaper não diminuiu o evento e muito menos o ímpeto da produção e toda a energia que o Ruídos no Sertão vem demonstrando ter. Edu Falaschi (ex-Angra e Almah) e os veteranos da Taurus foram os principais nomes a subir no palco. Social Freak, Human, Erasy, Fúria Louca, Suffocation of Soul e Venereal Sickness completaram o line-up.

Edu Falaschi trouxe o show Metal Classics Tribute, um passeio pelas músicas do Iron Maiden, Van Halen, Metallica e até Europe, com The Final Countdown. Além de ter a presença de uma das melhores vozes do heavy metal, a banda que o acompanhou era formada por músicos locais (Poções-Vitória da Conquista): Driuzão, na bateria, Daniel Drummond, teclados, Lucas Braga, baixo, Danilo Novais, guitarra, e Tarcísio Correia, da Suffocation of Soul, também na guitarra. Tarcísio teve uma noite emblemática. Tocou com Edu Falaschi, subiu ao palco para uma música com a Taurus e mandou ver com a Suffocation of Soul, mostrando ser um guitarrista virtuoso.

Com o repertório só de clássicos do metal, Edu Falaschi finalizou com Angra. Foi uma apresentação descontraída e envolvente em pleno “interiorzão da Bahia”, como ele se referiu na entrevista logo após o show.

“Já é uma novidade ter um festival de metal no interiorzão da Bahia. Um Festival bem organizado. Que sirva de exemplo para outras cidades ter outros festivais”. Ainda na entrevista, Edu comentou sobre a proposta de seus shows terem músicos locais o acompanhando. “A ideia do Metal Classics é isso, é fazer uma festa.

O show é mais descontraído. Não é um show com o mesmo formato do Almah, que tem aquela produção, aquele formato mais corporativo, como era com o Angra. É uma festa que eu falo com a galera, a gente toca uns covers, é bem legal. E o principal é tocar com os músicos locais. Aí acabo conhecendo músicos talentosos e sendo uma vitrine para novos músicos também”.

Edu Falaschi foi a penúltima apresentação da noite. Antes, muito metal rolou solto desde as 4h da tarde. A Taurus foi a quarta banda a subir ao palco. Os cariocas não tocavam na Bahia há 28 anos. O retorno à nossa terra foi justamente em um grande evento como o Ruídos no Sertão. Clássicos desses 30 anos de carreira não faltaram, como músicas do disco de estreia Signo de Taurus. A banda tocou em cima do DVD, lançado em 2016, que comemora as três décadas de palco.

“A Bahia tem sempre um lugar especial pra gente porque tem uma história. Quando a gente tocou aqui foi em Salvador, junto com o Cólera, que foi um momento especialíssimo na nossa vida, juntando metal com punk. Então era um momento muito especial. Esse tempo todo que a gente não vem aqui era uma expectativa muito grande. Quando pintou essa situação de vir pro Ruídos, a gente falou, cara a gente tem que por pilha nisso, mesmo com tudo que aconteceu com o Grim Reaper, a gente não queria que tivesse acontecido, mas a gente está muito feliz de estar aqui. A gente ainda está aqui no afã do final do show, respirando ali o palco, muito bacana, clima ótimo”, diz o baterista Sérgio Bezz.

“A gente já tinha ouvido falar bem da organização desse evento. E nós ficamos muito surpresos. Um evento numa cidade relativamente pequena e ter uma repercussão tão grande assim. Um público legal. E eu achei ótima a estrutura, perfeito, super organizado, o show foi maneiro, muita gente, gostamos muito, do caralho”, ressalta o vocalista Otávio Augusto.

O anfitrião da noite com a Suffocation of Soul, Tarcísio Correia falou também sobre sua participação no palco ao lado da Taurus. “Agradecer os caras primeiro pela presença e segundo pela correria. Foi um esforço puto para os caras estarem aqui hoje, tanto da produção quanto dos caras. E é uma satisfação. São 30 anos de carreira e estão aqui em Poções hoje. Fizeram um puta show”.

A Suffocation of Soul foi a sexta banda a se apresentar. Este foi o primeiro show na cidade natal após a volta da turnê pela Europa, que aconteceu entre agosto e setembro de 2016. Com 10 anos de estrada, muita energia e amadurecimento no palco colocam cada vez mais os poçõenses entre as principais bandas nacionais de metal.

“O festival amadureceu nesse meio tempo, a gente também amadureceu e está cada vez melhor. Já existe o público do Ruídos mesmo”, diz o vocalista André. “O amadurecimento cresce e consequentemente a banda começa a se comportar melhor no palco. A gente fica mais à vontade no palco, se entende melhor, toca melhor”, completa o guitarrista Maurício.

A banda que tocou antes do Suffocation of Soul foi a Fúria Louca, do Maranhão. O quinteto fez um show estonteante com várias referências ao metal dos anos 1980, mas com toda pitada autoral. Foi uma das melhores apresentações desta edição do Ruídos no Sertão.

“A gente ficou impressionado, no bom sentido, porque o Festival é muito organizado. A gente já passou por várias cidades, não tocamos em muitos festivais, mas a preparação aqui é incrível. A gente ficou muito feliz e satisfeito de ter vindo para cá e nos deparar com uma estrutura que pra gente é uma mega estrutura, eficiente, eficaz e todo mundo muito atencioso, muito prestativo, todos educados, estamos nos sentindo em casa, um público maravilhoso. Enfim. Uma noite excelente, exemplar”, disse o vocalista da Fúria Louca, Henrique Sugmyama.

Esta quarta edição também teve o grunge do Social Freak, de Vitória da Conquista. Mesmo com repertório autoral, que é a proposta do festival, a Social Freak não abriu mão de covers como Alice in Chains e Rage Against the Machine, esta última por ser uma influência na marca da banda, que traz discussões políticas e sociais em suas músicas.

Tocaram com a mesma energia as duas bandas de Feira de Santana, Human e Erasy, e os mineiros de Caratinga da Venereal Sickness, que encerram a quarta edição do festival com o peso do death/trash metal.

A qualidade musical, o som e a iluminação no palco do evento já não são mais novidades, se tornaram rotineiros. A diferença para as edições de 2015 e 2016 é que o festival voltou a acontecer apenas em um dia, como foi na primeira edição em 2014. Já para o público, as novidades foram a praça de alimentação que ficou maior e com mais opções, até com cerveja artesanal, e O Pardieiro, espaço mais intimista onde rolava um som entre os intervalos das bandas. Em estrutura, o Ruídos no Sertão melhora a cada edição. Um convite a mais para as bandas que desejam se apresentar em um festival que já surgiu grande e para o público cada vez mais fiel.

O sossego quer silenciar a cultura

Scambo se apresenta no foyer do Centro de Cultura | Foto: Duane Carvalho

“É muita arrogância e egoísmo boicotar o nosso único centro cultural ativo por conta do sono de alguns”

Da Gambiarra

Pouco mais de três anos nos separam do dia 11 de setembro de 2013, data em que o Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, em Vitória da Conquista, foi interditado a pedido do Ministério Público Estadual, com base em laudos do Crea (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) da Bahia e do Corpo de Bombeiros.

Desde lá, o assunto rendeu audiências públicas, debates e comentários negativos sobre a demora do início das obras, principalmente durante os dois anos eleitorais neste grande intervalo de tempo.

No dia 24 de setembro de 2015, a Concha Acústica e o foyer do Centro de Cultura voltaram a funcionar. A primeira chegou a receber alguns grandes eventos como o Festival Anual da Canção Estudantil (FACE), Listen Rock, Conquista do Rock, Mostra de Cinema, Festival Próxima Estação e a primeira edição do Veraneio.

Em boa parte delas destes, a vizinhança do bairro Recreio mostrou-se insatisfeita e iniciou um movimento incessante para estancar os eventos no espaço.

A solução, encontrada pelo atual diretor do Centro de Cultura Elton Becker foi fugir da concha acústica e ocupar os espaços internos, como o foyer – já que o teatro continua interditado.

Em entrevista para o ‘Blog da Gente’, Becker afirma que além de ser uma solução prática para o diálogo com a comunidade no entorno, existe um pensamento de ocupação criativa do centro:

“É ocupar o espaço criativamente e ao mesmo tempo chamar a atenção da população para a importância desses espaços. Não é porque o teatro está fechado que o Centro de Cultura não pode ser utilizado”.

No Sarau Hotel Mambembe, em dezembro de 2016, a ideia foi posta em prática, mas o primeiro grande evento a experimentar foi a segunda edição do Veraneio, realizado dia 21 de janeiro de 2017. Infelizmente, a boa vontade dos organizadores e da gestão do equipamento público não foram suficientes para conter os ânimos dos vizinhos.

Antes de continuarmos, é importante frisar que o evento em questão começou às 15h e encerrou às 23h (horário permitido pela casa). Fiscais do Setor de Posturas chegaram ao local às 20h45, com base em denúncias dos vizinhos amantes da cultura (leia essa frase com uma pitada de ironia).

Assim, os funcionários da prefeitura pediram as papeladas e constataram a falta de uma das autorizações necessárias para o evento ser realizado: um ofício informando a administração municipal.

Os decibéis foram medidos e o aparelho não acusou a ultrapassagem. Assim, os organizadores foram multados não pelo som alto, mas pela falta do documento citado acima.

Em nota enviada à Revista Gambiarra, a Prefeitura de Vitória da Conquista diz que “após a defesa formal dos organizadores, apresentada durante reunião com a Coordenação de Posturas, a Administração Municipal reconsiderou e optou pelo arquivamento da penalidade. Os organizadores se comprometeram a cumprir a formalidade nas próximas edições”.

Apurando, descobrimos que as denúncias não foram feitas no dia do evento e sim, durante a semana. Na mesma nota, a Prefeitura confirma a informação e diz que “ (as denúncias) se referiam a um evento ocorrido na semana anterior ao Veraneio”.

No entanto, o Veraneio foi o primeiro evento do ano no Centro de Cultura. Assim, constatamos que a vizinhança se mobilizou com antecedência e conseguiu fazer com que os fiscais visitassem o evento.

Não vemos tal mobilização tomar tanta força em eventos no Parque de Exposição, que costumam durar até as manhãs e tremer as paredes de metade da cidade. Se ela existe, não vemos a concretização por meio de visitas inesperadas e multas aos organizadores.

O sossego deve ser respeitado, porém com sensatez. É muita arrogância e egoísmo boicotar o nosso único centro cultural ativo por conta do sono de alguns. Fica também o ensinamento de que se meia dúzia de moradores conseguem atrapalhar a vida cultural de uma cidade, nós podemos fazer esta fluir.

Conquista tem primeira vaquejada pós decisão do STF sobre lei cearense

A vaquejada gera maus-tratos, afirma o STF. Para Temer, é expressão artístico-cultural

Tema que se tornou polêmico em todo o Brasil, sobretudo no Nordeste, a vaquejada voltou a ser o centro das atenções em Vitória da Conquista, onde ocorre desde quinta-feira (26) a ‘1ª Vaquejada MP Ranch’. Realizado em espaço privado, o evento segue até este domingo e tem entrada gratuita.

A festa segue o modelo de outras realizadas Nordeste à fora, onde, segundo a Abvaq (Associação Brasileira de Vaquejadas), a atividade movimenta R$ 700 milhões ao ano e gera 750 mil empregos (diretos e indiretos).

No MP Ranch, as provas da vaquejada são para profissionais, amadores e iniciantes, sendo a premiação de R$ 43 mil, distribuída entre as três categorias, além de um carro, cujo modelo não foi informado. Há também shows diversos.

Desde a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que tornou, em 6 de outubro de 2016, inconstitucional uma lei de 2013 do Ceará que reconhece a atividade como desportiva e cultural, eventos de vaquejada ainda não tinham ocorrido em Vitória da Conquista.

O local do evento se tornou o grande refúgio dos amantes de vaquejadas, rodeios e afins, sobretudo depois que a Exposição de Vitória da Conquista deixou de realizar o rodeio desde 2015, dando espaço para exposição de animais de estimação, o que agradou aos defensores dos direitos dos animais.

As atividades do MP Ranch, no entanto, estão passíveis de contestação judicial porque para o STF, a prática da vaquejada é um ato de crueldade, devido aos maus-tratos que gera a cavalos e bois – a estes, sobretudo, por sofrerem fraturas diversas e às vezes até morte e terem o rabo arrancado de tanto ser puxado no momento em que é derrubado.

Mas eles têm um forte aliado: o presidente Michel Temer, que sancionou dia 30 de novembro de 2016, sem vetos, a lei que eleva rodeios, vaquejadas e outras expressões artístico-culturais à condição de manifestação cultural nacional e de patrimônio cultural imaterial, contrariando a decisão do Supremo. A vaquejada, com isto, ganhou ares de legalidade.

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As vaquejadas e o STF, uma questão de interpretação

“O boi teve o rabo arrancado”: proibição da vaquejada abre polêmica

Depois da decisão do STF, diversos eventos de vaquejada foram cancelados no Nordeste. Na Bahia, deixaram de ser realizadas as vaquejadas de Paulo Afonso e de Praia do Forte, e em ambas isto ocorreu após o Ministério Público Estadual entrar com ação na Justiça com base na decisão do Supremo.

No caso de Vitória da Conquista, o Ministério Público Estadual informou, via assessoria de imprensa, que não chegou a entrar com ação contra a vaquejada do MP Ranch, empresa que tem registrado como atividades a realização de “Produção de espetáculos de rodeios, vaquejadas e similares” no seu cadastro de pessoa jurídica.

O Suíça Baiana apurou que a promotora responsável pela área ambiental em Vitória da Conquista está em período de férias.

A Prefeitura de Vitória da Conquista afirmou que não cabe a ela “a liberação de evento desta natureza no local, sendo o evento gratuito”. Comunicou ainda que “os produtores do evento devem realizar apenas o comunicado à Secretaria Municipal de Serviços Públicos, o que foi feito no dia 10 de janeiro de 2017.”

O MP Ranch ficou de responder às perguntas do Suíça Baiana, mas isto não ocorreu.

O blog quis saber quais eram as regras da vaquejada, se haviam medidas com vistas à proteção animal, como o uso de rabo artificial, proibição de uso de esporas por parte dos competidores ou punição aos vaqueiros em caso de constatação de maus-tratos.

Medidas como as relatadas acima têm sido tomadas por eventos de vaquejada no Nordeste, com algumas delas, inclusive, tendo sido liberadas pela Justiça, após pedido de proibição por parte do Ministério Público ou de entidades de defesa dos direitos dos animais.

E o argumento a favor da vaquejada é baseado também na decisão do STF, onde a votação foi por 6 a 5. Os que são a favor afirmam que os métodos que causavam maus-tratos estão deixando aos poucos de serem realizados, e que hoje a vaquejada é mais moderna. Seria este o caso da vaquejada do MP Ranch?

Sendo ou não, em Vitória da Conquista os defensores dos direitos dos animais querem o fim de eventos de vaquejada. Na opinião de Vitor Quadros, ativista da causa animal, “vaquejada, rodeio e afins é tortura e retrocesso moral.”

Para ele, “Conquista reconheceu esta causa. A Copmac [responsável pela organização da Exposição de Vitória da Conquista] que por alguns anos promoveu rodeio, não o faz mais. Conquista é vista lá fora como uma cidade essencialmente da cultura, não podemos deixar o nosso maior atrativo ser depravado nesse tipo de evento, inclusive com apoio da Prefeitura. A sociedade não compactua mais com isso, vide resultado da pesquisa da consulta pública do Senado

“Sou sertanejo e morei em Maracás, inclusive tangi gado na infância, conheço de perto o que é um vaqueiro. É um oficio. E quem quiser buscar na historiografia, a vaquejada, não o vaqueiro, existe para que somente os donos das companhias e haras ganhem de fato dinheiro. Pois, apesar de alegarem que gera emprego, isso é muito, muito discutível. Principalmente quando vemos notícias como essa tão próximo de nós“, argumentou Quadros.

 

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