Mas eu não suporto ela

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Encontrei, dentro da Zara, uma chata com quem eu trabalhei há três anos num freela pra um jornal. Cheia de pulseiras e brincos e colares pesados. Salto agulha gigante fazendo barulho a cada passo, batom rosa choque na boca, decotão e meio litro de perfume no meio dos seios. Pensei que a chata me faria aquelas velhas perguntas previsíveis de quem se encontra por acaso, depois me daria um beijo no rosto e cairia fora, afinal, a gente nunca teve intimidade. Mas ela foi além.

Falando cuspindo, falando tocando, ela me mostrou duzentas fotos do filho no Instagram e, não satisfeita, me fez ver os vídeos do bebezinho dizendo “papai”, enquanto comia papinha de banana, o que me obrigou a fazer carinhas fofas. Falou que Dom, um Shih Tzu da família, anda aprontando muito dentro de casa e que ninguém consegue controlar o vício dele de rasgar papel higiênico, o que me fez dar dicas de como educar cãezinhos. Disse que sente saudades dos três meses que morou na Europa “porque lá é outro mundo”, o que me obrigou a aconselhá-la a economizar dinheiro e, quem sabe, voltar pra lá. Quando eu já não aguentava mais ser uma espécie de coaching de vida para ela, passei a repetir entre um diálogo e outro expressões como “Nossa”, “Sério?”, “Não acredito!”, “Meu Deus” automaticamente.

Ela quis saber sobre minha vida como jornalista, quis saber sobre meu namorado, quis saber se morar na orla era caro, quis saber minha opinião sobre a novela das nove, quis saber, quis saber, quis saber. Me irrito porque, sempre que ela conversa, parece ter acabado de sair da primeira aula de teatro de um curso vagabundo de bairro. Os olhos arregalados como se estivesse tendo um AVC, o peito ofegante como se seus sentimentos fossem exclusivos e incríveis. As mãos dançando pelo ar como uma bailarina de programa de auditório mal-produzido. Sempre marcando os dentes de verde neon, numa risada exagerada.

Pra não parecer antipático, elogiei a pele dela, o cabelo dela, a roupa dela. Disse pra combinarmos algo qualquer dia desses: “quem sabe um café, hein? Pra colocar o papo em dia”. Enquanto sorria para a chata, eu disse silenciosamente: “fica esperando por esse café, vaca”. Por fim, ajeitei o cachecol da criatura, alisei o ombro dela e falei que Salvador continua bipolar como sempre: não sabe se faz sol, não sabe se chove. Quando pensei que enfim me livraria da chata, ao contar a mentirinha “estou muito atrasado, mas vamos nos falando”, ela segurou meu braço querendo saber em qual loja comprei meus sapatos porque eles eram muito bonitos. Expliquei que vi numa lojinha virtual, me apaixonei e comprei. Ela pediu, com a testa franzida, que eu mandasse o link porque pensou em dar de presente um par parecido ao marido. Enquanto eu sorria para a chata, eu disse silenciosamente: “fica esperando pelo link, vaca”.

Ao dar as costas e revirar uma arara de roupas, me culpei: MAS EU NÃO SUPORTO ELA. Por que abracei aquela mulher, por que falei sobre minha vida, por que dei risada, por que sugeri um café, por que permiti que a conversa excedesse dez minutos, por que eu elogiei a pele e a roupa e o cabelo dela? Seria eu, então, uma daquelas pessoas falsas pra cacete? Seria eu, então, o rei da falsidade? Seria eu, então, a pessoa mais cretina do mundo? Cheguei até mesmo a correr pela loja para encontrar a chata e dizer a verdade: “a real é que eu te acho péssima”. Cheguei até mesmo a correr pelo shopping atrás da chata pra dizer que eu só queria ser simpático: “a real é que eu não te suporto! Morra!!!!”.

Quis encontrar a criatura e falar que o cachorrinho dela um dia morreria entalado de tanto comer papel higiênico, que a pele dela parecia um mix de arroz doce com doce de leite: entupida de tanto cravo coberta com base líquida; que o cabelo dela estava mais horrível do que quando a conheci – resto de tinta loira nas pontas dos fios imitando californianas que nunca existiram era o fim da picada. Quis anotar na agenda dela o número de uma amiga fonoaudióloga pra ajudá-la a melhorar a dicção, até porque, que porre aguentar o tempo inteiro ela falando pelo nariz, abusando das fricativas e lábio-dental. Quis pegar umas duas peças na seção feminina da loja e dizer: “veste isso aqui pra você ser menos brega, filhinha”.

Mas não encontrei a chata. E agora? Teria que conviver pra sempre com a angústia da minha consciência gritando “falso pra cacete”? Teria que ir, naquela loja, naquele horário, naquele dia, pelo resto da vida, até me esbarrar com aquela criatura? Ou teria eu sido movido por uma bondade repentina, simpatia repentina, afeição repentina, dominado pela psique que acredita no que se convém apropriado no momento? Passei oito horas do dia me culpando.

Corri para casa. Abri o Facebook. Chat, o meu parquinho de verdades. Queria dizer que não, eu não suportava ela. Queria dizer, sem medir as palavras, que a existência dela era desnecessária. Escrever que eu tinha pavor àquela mulher para aquela mulher me faria ser menos cínico, menos dissimulado. Digitei, assim meio rápido, concentradíssimo. Textão. Senti, mais uma vez, culpa. Parei de digitar. No cosmo da vida, no poço mais profundo do meu inconsciente, me perguntei o que aquela criatura fez de ruim pra mim. Seria uma antipatia de outra vida? Seria implicância minha? Por que eu tremia de raiva ao ouvir a voz nasalada dela? Por que eu não aceitava, de bom grado, que ela pudesse ser brega, mas ser uma boa pessoa? Achei violência gratuita. Apaguei o textão e mandei o link da lojinha virtual. Aconselhei a compra dos sapatos à vista pra poder ganhar desconto. Me senti uma pessoa má, escrota, desumana. Passei oito horas do dia me culpando. Ao secar o cabelo com a toalha, pensei: “Coitada, aquela criatura chata nunca me fez mal algum”. Abri o Facebook de novo. Chat, o meu parquinho da redenção. Marquei um café com ela na terça.