Categoria: Cotidiano

O que você vai fazer mais tarde?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

“Ele também gostava dessa bebida”, ele disse, ao meu lado, no balcão do Bar Cravinho, encostando as pontas dos dedos no meu braço, enquanto eu pedia, no calor e no aperto, uma dose de Senzala. Ele quem? Quis perguntar, mas fiquei sem reação. Eu tinha ido a um show com uns amigos no TCA e tudo o que eu mais queria, agora que estava sozinho, era beber um pouco. O trânsito do Campo Grande até o Centro Histórico, sempre tão calmo, estava ruim. Fiquei preso por mais de meia hora num congestionamento na Avenida Sete. Aí, quando eu finalmente chego e peço uma dose de Senzala, ele encosta as pontinhas dos dedos no meu braço e, como se fosse um velho conhecido ou como se eu soubesse toda a história que ele tem na cabeça, larga essa: “Ele também gostava dessa bebida”.

Minha curiosidade pra saber de quem ele falava foi contida porque ele logo continuou: “Foi aqui que a gente se conheceu. Neste mesmo balcão. Há oito anos. 12 de março de 2009. Hoje faríamos oito anos juntos. Até que há três anos… Nem gosto de lembrar disso. Talvez tenha sido melhor assim. Talvez ele esteja num lugar bem melhor”. Ele então baixou a cabeça e, discretamente, consegui ver uma lágrima presa nos olhos. Havia um silêncio alto entre a gente, entre um diálogo e outro, quando o desabafo foi interrompido pelo atendente do bar que me entregou a bebida. As pessoas andavam para lá e para cá, as pessoas faziam pedidos, as pessoas riam e falavam mais alto do que de costume, as pessoas seguiam suas vidas. No meio da confusão do bar e do nó na garganta, consegui expulsar um “força”. “Eu agradeço. Mas até que hoje em dia me sinto melhor. Não que eu tenha me conformado, porque eu ainda sinto muita saudade dele. E quem sente saudade não se conforma nunca. O problema é que com o tempo a gente vai sentindo falta das pequenas coisas. Essas pequenas coisas vão se juntando e crescendo e crescendo, crescendo tanto que começam a ficar difíceis de suportar. Mas a gente acaba suportando”. “Tipo datas especiais?”. “Antes fosse isso. Eu sinto falta do cheiro do cabelo dele no travesseiro. Não é o cheiro do xampu que ele usava. Talvez seja a mistura do cheiro do xampu com o cheiro natural do cabelo. Mas o certo é que eu procuro, procuro, todos os dias eu procuro, só Deus sabe o quanto eu procuro, mas não acho esse cheiro em lugar algum. Não vende na farmácia”. Concordei com a cabeça enquanto dava goles curtos na bebida. Aproveitei o silêncio pra saber: “Você guardou as fotos que tirou com ele?”. “Todas. Até mesmo as que ele se achava feio. Olhar essas fotos me faz bem. Mas são fotografias de lugares que a gente ia, sabe? Fotos com poses, com sorrisos de foto, sempre muito bem arrumado. Por exemplo, tem foto da gente no terceiro casamento da minha mãe, na nossa viagem pra França, na cobertura do W. Zarzur, tomando um sorvete na Cubana. Mas ele não era daquele jeito, entende? Óculos escuros no rosto, camisa bem passada, cabelo lambido. Ele não era. Eu queria imagens dele fazendo as coisas que ele sempre fazia, as coisas que ele gostava de fazer, por exemplo, ler com toalha. Eu não tenho foto dele, distraído, lendo de toalha. Não tenho uma foto dele arrumando os livros na estante, mas tenho foto dele num restaurante que a gente nunca ia e nunca voltaria. É estranho. Eu me arrependo de não ter uma foto dele no supermercado escolhendo fruta, colocando iogurte no carrinho. Eu tenho essa imagem dele na cabeça, mas eu nunca registrei. Por que eu não tenho uma foto dele, descendo do ônibus, todos os dias, sorrindo pra mim? Por que a gente não registra essas imagens se são essas imagens que no fim das contas valem a pena? A foto que eu mais amo dele é uma que tirei no terraço do Glauber Rocha, olhando a Baía de Todos-os-Santos. Eu acho a vista de lá maravilhosa. O problema é a fiação elétrica. Esses fios desordenados poluem qualquer resquício de doçura que possa existir. Mas você sabe o jeito que eu mais lembro dele? De samba-canção. Nossa, ele ficava muito lindo de samba-canção. Mas ele nunca ficava de samba-canção quando tinha visita, quando a gente ia tirar foto. Ele sempre saía correndo pra colocar uma bermuda e uma camiseta e ser quem ele não era. As fotografias fazem isso, né? Ou a gente que faz isso com as fotografias?”. “Não sei”. “Quer que eu pague outra dessa pra você?”. “Não precisa, obrigado”. “Hoje, mais do que todos os outros dias, me deu uma agonia, saudade dele. Aí vim pra cá, onde a gente se conheceu. E fico olhando pra porta. Fico vendo as pessoas passarem. Esse finalzinho de tarde é triste, né? Tá todo mundo cansado, cabisbaixo, voltando pra casa sem vida, jogado pelos cantos do metrô, se apertando nos ônibus. São corpos mortos perambulando pela metrópole. Era pra ele que eu contava tudo do meu dia. Isso me fazia bem, me fazia vivo, eu não era mais um corpo morto perambulando pela metrópole”. “E agora, você faz como?”. “Hoje faríamos oito anos juntos. Continuo sentindo falta dele todos os dias. Todos os dias. Conheci outros caras, rapazes bons, inteligentes, bonitos, sérios, com boa formação cultural, mas amor, amor mesmo, só com ele. Mas não tem mais ele, cê tá acompanhando? Nem nos lugares. A arquitetura muda e leva ele embora. Aqui nesse bar, por exemplo, não tinha aquele banquinha, não tinha essa pintura. Eu lembro bem: nessa hora assim, a gente tava se olhando, aqui nesse mesmo bar, ele tava ali no canto onde colocaram essa banquinha. E ele sorriu pra mim tão feliz, mas meio tímido. Ele era meio tímido mesmo. Eu gostei. Eu encontrei naquele sorriso a graça da vida. Eu via nele o homem certo pra ser o outro pai dos meus filhos. Aí eu fico aqui agora, assim, achando que a qualquer momento ele pode chegar. O bom da vida é que a gente pode inventar o tempo inteiro”.

Paguei a conta, dei um abraço forte e me despedi. “Vai dar tudo certo”. “Espero. De qualquer forma, taí uma história bonita pra você não desistir do amor. Você já amou alguém assim como eu amo? Você ama alguém? Você tem cara que ama. E ama muito”. “Como é ter cara de que ama?”. “Seus olhos brilham mais do que o normal”. “Ah”. “O que você vai fazer mais tarde? Vai voltar pra casa, mais uma vez, triste, e fingir que não se importa? Vai voltar pra casa, mais uma vez, com os ombros pesados, e de novo dormir soluçando, aguentando não aguentar, se dizendo que uma hora isso passa? Como é encostar a cabeça no travesseiro, todas as noites, sentindo culpa, falta, um vazio? Liga pra ele. Você tem cara que tá sempre sabendo de tudo, né? Então. Fala que você sente falta. Fala que ele mudou alguma coisa na sua vida. Sai pra jantar. Aproveita o mundo com ele porque a arquitetura muda, a arquitetura estraga o passado. Depois cê volta pra casa, tira várias fotos dele, distraído, das coisas que ele sempre faz, das coisas que ele gosta de fazer. Eu não posso, mas você ainda tem essa chance”.

Agora que o Carnaval acabou

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Acertei comigo que não passaria desta semana. Quarta, cinco e meia da tarde. Depois que eu resolvesse o problema do ar-condicionado que quebrou e depois que eu resolvesse o problema do cara que fez um buraco na parede por conta disso e depois que eu resolvesse o problema do pintor que viria depois do cara que arrumaria o buraco na parede, depois que finalmente o ar-condicionado fosse consertado. Agora que o Carnaval acabou, e eu posso transitar pela cidade sem congestionamento e sem sentir odor de xixi em cada esquina e todo mundo pode fazer tudo porque não existe mais a desculpa do “ah, é Carnaval”, eu posso resolver todos os meus problemas no mundo.

Quarta, cinco e meia da tarde. Depois que eu resolvesse o problema da grana alta que tenho que arrumar em um dia pra pagar a um amigo que já devo há seis meses. E eu contando cada centavo de todos os bolsos da calça pra pagar dezenove e noventa da minha conta da Netflix. Para isso só pedindo empréstimo ao banco. Minha gerente fala quase dormindo porque tá sempre de ressaca por causa de “uma festa de ontem”, imagina com esse Carnaval de cinquenta dias? Ela provavelmente vai trabalhar desmaiada com tanto álcool no sangue. Pra piorar, meu nome tá no vermelho no Banco do Brasil e, talvez, a única coisa que eu consiga é uma proposta de parcela de dívida em 200 vezes. Tenho 26 anos e nem um centavo na conta.

Quarta, cinco e meia da tarde. Depois que eu entregasse o relatório da pesquisa da Universidade. Uma tarefa que só um ser sem dormir, sem comer e sem vida seria capaz de cumprir. E eu cumpri. Dormindo, comendo e com vida. Depois que eu mandasse a proposta do curta para a produtora que exige tudo alinhadinho, formatadinho conforme pede o editalzinho e que me deixa bem irritadinho. Depois que eu resolvesse o problema do jornal que continua me pagando o equivalente ao pão com ovo na lanchonete da esquina. O problema do meu vizinho que não me deixa dormir porque tá sempre “dando uma festa pra uns caras da firma”. O problema do freela que não foi pago mais uma vez. O problema do outro freela que já deveria ter sido pago há semanas, mas não foi depositado porque o segurança noturno bateu punheta e limpou com o papel com o número da minha conta bancária e a contadora não soube o que fazer. E eu aqui com a minha vida cara.

Quatro da tarde preciso entregar o roteiro da peça de teatro em que eu colaboro. Mas ninguém me disse com clareza que porra eu tenho que fazer. Cria aí uma cena de sexo que seja aceita pela classificação indicativa de dezesseis anos. Sei. Posso escrever uma cena de suruba evangélica? Preciso inventar um jeito da minha personagem gostar de apanhar do namorado na cama, por pura safadeza, e eu não ser xingado pelas feministas internéticas. Não é fácil. Acertei comigo que não passaria desta semana. Quarta, cinco e meia da tarde, depois da agonia do Carnaval. Depois da endoscopia, do endocrinologista, da terapia, de fazer todos os exames de sangue que o médico pediu há meses, de comer um pouquinho pra não morrer. Agora preciso marcar tudo pra ontem porque meu plano bom vai ser cancelado e eu vou voltar pra aquele plano vagabundo em que às vezes o SUS é mais eficiente. Depois que eu acertar com o síndico a dívida de três meses do meu condomínio que aumentou o equivalente a morar em Londres. Aliás, queria tanto ir a Londres. Mas toda vez que junto dinheiro pra viajar pra fora do Brasil, eu preciso pagar alguma coisa. E o importante agora é pagar o porteiro, o jardineiro e o zelador pra eu não ser despejado.

Acertei comigo que não passaria desta semana. Quarta, cinco e meia da tarde. Depois desse inferno de Carnaval. Depois que eu resolvesse o lance de passar por todos os pubs e baladinhas alternativas do Rio Vermelho pra melhorar minha social e não receber mais mensagens de amigos que me acham um pré-suicida. Tenho que provar mais uma vez que não estou depressivo. Ninguém entende que ando com grana curta e, pra falar a verdade (pela trigésima vez), não tenho vontade alguma em virar noite no Rio Vermelho, longe da minha cama, marcando encontros, sempre cansado e com uma cerveja long neck na mão, em pé, entrando e saindo em casas de show, com gente que te enche de beijos e nem dá tchau na hora de ir embora.

A GVT me cobrou em duplicidade de novo, a Tim incluiu uma taxa na conta que nem eles sabem explicar, eu devo dinheiro pra todo mundo da minha família, nenhum ser humano do planeta me abraça e sorri antes de perguntar por que ando tão magrinho ou por que sumi de todos os lugares. Minha coluna dói pra caramba, minha lombar dói pra caramba, minhas pernas doem pra caramba, mas todos os fisioterapeutas do universo dizem que eu não tenho nada, que “é só postura inadequada pra andar, sentar e dormir”. Não é nada. Meu psicólogo pediu pra aumentar as sessões pra duas por semana, assim ele passa mais tempo comigo e tenta entender tanta coisa que nem eu consigo entender. Mas eu não tenho tempo e dinheiro nem pra uma, quanto mais pra duas. A faxineira daqui de casa chora porque mudei de quatro vezes por mês pra duas. Mas eu tô chorando porque não tenho dinheiro nem pra meia.

Escreveram “pau no cu” na poeira do carro do meu namorado quando a gente foi doar umas roupas para um centro espírita. Dramin, o remédio contra enjoos, me dá enjoo. Remédio natural fitoterápico para dormir só aumenta minha certeza de que essa merda não serve pra nada, cadê meu Rivotril? 0,75 mg resolve meu problema. Meu humor oscila e me enlouquece. Ora eu quero, ora eu não quero, não tenho fome de nada, quero comer, sinto nojo do mundo, o universo é lindo. E a quarta chegou, são cinco e meia da tarde. Não tem mais axé e gente bêbada vomitando na minha porta. Coloco Oasis pra tocar. Fecho as cortinas, apago as luzes, ligo o ar-condicionado. Vai, Murilo, sofre. Você precisa chorar um pouco, sofrer um pouco, lamentar um pouco. Vai. Você combinou que não passaria desta semana. De hoje. De agora. Você combinou que finalmente iria chorar pelo amor que não deu certo, pelo emprego que não deu certo, pelos projetos que não deram certo, pela sua raiva do mundo. Vamos lá, chora um pouquinho. Agora que o Carnaval acabou e junto com ele toda a alegria descabida, você pode chorar à vontade. Um, dois, três e… Vontade imensa de dormir. Posso remarcar?

 

O amor mora na Rua da Paciência

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Um casal na mesa ao lado pede uma sangria de vinho branco com limão-siciliano e morango. Às 19h30. Em plena terça-feira. Lá fora, pasme, acontecem congestionamentos e buzinas e ônibus cheios e pessoas cansadas e sonolentas e desamadas. Eu acho completamente louco. Quem, no mundo pós-moderno, tem tempo pra beber taças de vinho, no início da semana, sem pressa? Quem, na plasticidade do mundo, onde se relaciona como se estivesse seguindo um manual de revista, tem tempo pra acreditar em mãos dadas e encontros e conversas ao pé do ouvido?

Mando uma mensagem no WhatsApp pra Felipe: “eu acho completamente louco”. Eles sorriem sem olhar pros lados. Estão dentro daquela história, fazendo o próprio filme. Nada e nem ninguém interessa. Apaixonados, roupas bem passadas, pele linda. Transpiram cheiro de rosa, alecrim, manjericão. Quero levantar e pedir uma salva de palmas. Quero que a música de Chico não pare. Quero fotografar a cena. Quero fingir que conheço, acompanhá-los na mesa e pedir uma taça. Quero pagar aquela conta como um presente. Quero que o mundo inteiro pare pra ver e entender o sentimento mais lindo do mundo.

Eu havia acabado de sair da aula de literatura quando percebi que já era noite e eu não comia há cinco horas. Andei pelo Rio Vermelho e aproveitei que passava pela Rua da Paciência para matar a vontade da tortilha de batata com chouriço, pimentões, gorgonzola e abobrinha no La Taperia, um dos meus restaurantes preferidos da cidade.

Escolhi uma mesa discreta, fiz o pedido, abri o meu bloquinho e comecei a fazer listas — um velho vício que me acompanha desde a infância e que sempre volta quando minha vida vira uma profusão de incontroláveis pendências ou quando sinto o descontrole em cento e oitenta quilômetros por hora e preciso fingir que posso manter tudo sob controle. Marcar dentista. Responder e-mails. Mandar mensagens pros meus amigos pedindo desculpas por estar tão cheio de coisas pra fazer e não ter tempo pra nada. Ver o filme de Almodóvar. Ver, principalmente, o de Anna Muylaert. Terminar um artigo. Escrever mais um capítulo do livro. Revisar o capítulo anterior do livro. Combinar alguma coisa pro aniversário de Letícia, mesmo odiando aniversários e mesmo sem tempo pra organizar aniversários. Ligar para a assistência técnica da máquina de lavar.

Então o garçom desfila com aquela jarra de vinho branco, suada, e serve ao casal na mesa ao lado. Parei a caneta em cima do bloquinho no mesmo segundo. Hipnotizado, não consegui olhar pra outra coisa a não ser a mesa do casal. Chico tocando. Olho pelo canto dos olhos e percebo que eles não têm mais do que vinte e seis anos. Talvez vinte e oito. Ela vinte e seis e ele vinte e oito. Ou o contrário? Ou os dois com a mesma idade? O garçom serve as duas taças. Eles falam com amor sobre Gilberto Gil e Dostoievski. Planejam viajar para Espanha ou Chile em junho do ano que vem. Aqui e ali, ela divaga sobre como podem economizar. Depois, breve e delicado, ele cochicha algo no ouvido dela. Risos eternos. Será que ele comentou que ela está linda? Será que ele falou alguma sacanagem das boas? Será que foi uma piadinha interna? Ela gostou. Ele gostou dela ter gostado. Eles se olham nos olhos muito mais profundos do que antes.

Estou completamente apaixonado por aquele casal que fala com entusiasmo sobre escritores e músicos, que planeja viajar para o Chile, que ouve jazz e MPB, toma vinho sem pressa, esquece a vida lá fora, tudo isso no comecinho da noite de uma terça. Quase não consigo respirar. Sinto tanto amor dentro de mim que posso explodir com a quentura e bolinhas de corações vermelhas atingirem a Espanha. A sensação maravilhosamente absurda que é sair um pouco de dentro da gente e ver o outro. Ou, ainda, a sensação maravilhosamente absurda que é ver o outro e sentir dentro do fígado o que a gente acredita.

No segundo em que a inveja alcançou o pico mais alto, fechei o bloquinho — que se danem as minhas listas e pendências e todo o resto. Pedi uma sangria do mesmo vinho, sequer olhei as horas, e o item “Separar roupas que não quero mais”, de uma lista anterior, ficou pra depois.

Eu quero agradecer àquele casal. Me livrou do bloquinho, da rotina. Me fez companhia mesmo em mesas separadas. Me fez acordar para a vida que vale a pena. Aquela que se mostra mais bonita durante as pausas do que a gente se adaptou a chamar de vida, com minutos contados, com prazos que não são perdoados, em que cada passo está anotado em bloquinhos.

Agora toca Vinícius. Peço mais uma taça. Eles se beijam. Sem alarde. Natural, vivo, bonito. Numa fase em que todo mundo vai embora da minha vida porque é mais fácil desistir do que tentar continuar, ser espectador de romances desconhecidos me faz flertar com a ingenuidade, me faz sentir novamente um garotinho virgem de treze anos que acredita numa sinopse com final feliz. O mundo é de quem ama. De quem ama com paciência. O mundo é dos que bebem vinho branco com limão-siciliano e morango no comecinho da noite de uma terça-feira.

Quarta passada me achei muito sexy

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Um menino magricelo, de bicicleta, passou por mim voando no calçadão do Porto da Barra, na quarta, e gritou: “Olha a bike, tio!”. E eu ri, mas depois passei meia hora bem deprimido. Cheguei em casa, tirei a roupa assim meio rápido e fiquei só de cueca olhando detalhadamente pro meu corpo inteirinho na frente do enorme espelho do quarto. Vi a pele atrás do meu joelho, durinha e hidratada, e cheguei à conclusão que “tio é o filho da mãe do seu pai porque ainda dou um bom caldo”.

Não satisfeito em ver o fiozinho de cabelo caído que deixava minha nuca mais bonita do que de costume, coloquei Caetano pra tocar no Spotify, desfilei com a toalha amarrada um pouco caída na virilha e tomei um ventinho na varanda, com o rosto branco de creme clareador de manchas, toca de hidratação no cabelo, sem vergonha de ser observado pelos quinze andares do prédio vizinho, me achando muito sexy.

Não satisfeito com os pelos que nasciam ainda tímidos na batata da perna – o que consequentemente me deixava mais misterioso, o que consequentemente me deixava mais atraente -, deixei a toalha cair no meio da casa e me joguei na ducha. Eram cinco da tarde, nem dia e nem noite, e a iluminação fria invadia o basculante do banheiro, favorecendo poeticamente algumas partes do meu corpo. Tudo bem que a estria fininha ao lado esquerdo da nádega quebrava a simetria das minhas coxas tão torneadas, mas eu nunca reparei a beleza desse resto solitário de pelo nos joelhos e como ficava tão bem alinhado aos dedos dos pés tortos e corcundas.

À medida que a espuma escorria em direção ao ralo, meu mamilo direito, com um sinalzinho marrom escuro em alto-relevo, insistia em ficar excitado toda vez que a esponja passava a dois centímetros de distância. Achei aquilo bastante provocativo e, somando ao fato de estar com a barriga desinchada por ter feito a digestão do almoço há quase três horas, comecei a perceber que “caramba, como eu sou gostoso!”, que “nossa, como eu não me reparei antes?”, que “meu Deus, eu bem que poderia me pegar”.

O exibicionismo implorava por um nude: faz besteira, por favor; se expõe, por favor. O superego não pensou duas vezes e ligou a câmera do celular. Primeiro saiu uma foto inocente da metade do pescoço e do peitoral lisinho. Mas achei bobinho demais e pensei que, sexy do jeito que eu estava me sentindo, poderia ser melhor do que aquilo. Inclinei a câmera e olha lá, a foto capturava um pouco do tórax, um pouco da virilha, um pouco dos pelinhos recém-nascidos da virilha.

Meu namorado foi a primeira opção a ser descartada da obsessão “pra quem eu vou mandar essa belezura”, porque 1) ele me vê pelado sempre, inclusive forçando a porta do banheiro pra saber “onde está a Neosaldina?”; 2) ele me responderia “eita, mais tarde a gente resolve isso”; 3) ele, inocente, perguntaria se o carocinho quase invisível da picada de inseto, perto da costela, era alergia. Melhor não.

Pensei em mandar para Pedro, meu psicólogo, uma legenda como “você acha que eu tô ficando louco?, “você acha que eu tô perdendo a noção?”. Mas ele é casado e poderia ser um problemão explicar pra mente neurótica da mulher dele que é coisa de cliente, que é terapia humanista. Melhor não. Também não considerei nenhum amigo do jornal. Eles certamente me responderiam: “porra, Murilo, em fechamento de matéria sobre a obra que tá travando o subúrbio e você mandando putaria”. Melhor não.

Nem cogitei a possibilidade de mandar para o grupinho de homens que “serve como reserva caso eu leve um pé na bunda”, porque, como me conheço muito bem, sei que jamais mandaria para seres que não são nada uma foto exibindo um pouco do tórax, um pouco da virilha, um pouco dos pelinhos recém-nascidos da virilha.

Olhei a foto incansáveis vezes e pensei que aquela obra-prima precisava ser compartilhada. Facebook, o parquinho virtual da superexposição. Melhor não. Vai que meus ex-editores veem isso, vai que meu chefe vê isso, vai que… Melhor não.

Era quase meia-noite e eu já estava ansioso e desesperado. Na cama, revirei os contatos do WhatsApp e vi algumas possibilidades. Mas mandar pra minha mãe seria uma boa opção? Descartei no mesmo segundo. Seria um jeito de me livrar dessa angústia, mas ela certamente iria rir e murmurar algo como “nunca foi certinho da cabeça”, “esse não cresce nunca”, “continua bobalhão” e depois excluiria sem dó. Não surtiria efeito. Melhor não.

Já eram quase quatro da manhã e eu precisava mandar aquilo o quanto antes. Rolei o dedo na tela e cheguei até ele, meu amigo sincero. Deixamos de nos falar há alguns meses depois que dizemos coisas horríveis. Comportamento típico de quem se conhece muito, de quem se gosta muito. Mandei a foto num impulso. “Tô bem?”. Eu queria sinceridade.

Peguei no sono com o celular na mão. Acordei no dia seguinte com o barulhinho do WhatsApp apitando e corri pra ver. Era ele mandando a foto da barriguinha de cerveja. Me olhei no espelho e lá estava eu: me achando feio, cheio de olheiras, a pele desidratada, o cabelo seco, a coluna torta e a cara amassada. Nenhuma roupa do armário parecia se adequar ao meu corpo e me deixar incrível como ontem. A vida voltava ao tédio e ao marco zero da libido.

Compraram a camisa de listrinha azul

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

As roupas estão enfileiradinhas no armário de madeira que não é de madeira e tudo isso me faz pensar um pouco com as mãos no queixo na ponta da cama. Talvez, e só talvez, a camisa jeans que não é jeans me deixe bonitinho pra essa festa que talvez eu me divirta. Lavo o rosto pra diminuir a oleosidade da pele e penso mais um pouco. Talvez, e só talvez, a camisa de botão que tem uns barquinhos que não são barquinhos me deixe bonitinho pra essa festa no Portela que eu nem quero ir. Deixo as camisas enfileiradinhas no armário e resolvo que talvez, e só talvez, comprar uma peça nova resolva o meu problema.

Revirei araras e vitrines de lojas em busca de alguma coisa interessante numa dessas “coleções incríveis primavera-verão”. Antes de desistir, parei no Rio Vermelho pra olhar uma dessas boutiques de novos estilistas soteropolitanos. Gostei logo de cara de uma camisa de listrinha azul que estava na vitrine de umas dessas boutiques de novos estilistas soteropolitanos. Tecido de algodão macio, cor viva, linha bonita, tão charmosa. Quando experimentei senti algo especial, próprio, adequado, familiar. Caía muito bem no meu corpo e combinava muito bem com tudo.

Mas qualquer pessoa que gosta de se vestir bem sabe que não pode ficar com a primeira roupa que aparece. Listrinha nunca sai de moda, e, talvez por isso, qualquer pessoa que usa listrinha sabe que corre o risco de ter mais uns quinze usando a mesma peça. Enfim, continuarei procurando. Depois daquela camisa vi pelo menos mais umas cinquenta, mas a dita cuja não saía da minha cabeça. As listrinhas de um azul tão bonito, o tecido tão confortável e fresco, a gola tão apropriada. Eu estava completamente apaixonado. Mas não, né? A gente não pode sair colocando assim na sacola. O mundo da moda tem tantas opções, não é mesmo? A gente não pode levar pra casa a primeira que encontra. Ainda mais uma primeira tão cara e estranha: as mangas tinham um corte não-reto e eu ficava o tempo inteiro pensando nessas mangas. Coisa estranha. Melhor não.

A semana passou, camisas modernas de grandes grifes apareceram, mais baratas, com estampas mais incríveis e até mesmo com um caimento melhor passaram, e eu nunca tirei a camisa de listrinha azul da cabeça. Eu me dizia o tempo inteiro: “mas é só uma camisa de listrinha. Imagina, camisa de listrinha a gente acha em qualquer canto”. E seguia a vida tranquilo, acreditando que a hora que eu quisesse ela estaria lá na vitrine esperando por mim. Eu precisava experimentar outras peças, eu precisava entrar em outras lojas, eu precisava conhecer outras marcas, não, de maneira alguma eu poderia me deixar levar pela falsa ideia de roupa perfeita assim à primeira vista. Um dia, se esse dia chegasse, eu estaria pronto pra usar uma camisa com mangas não-retas. Um dia, se esse dia chegasse, eu poderia ser dela e então ela seria minha.

Ontem resolvi passar por lá. Não pra experimentar de novo e nem pra comprar. Apenas pra continuar paquerando aquela peça na vitrine, de longe, sem nenhum contrato de fidelidade. Quando fui chegando perto não pude conter o assombro: a camisa de listrinha azul não estava no manequim. No lugar, uma peça sem cor, sobreposta por um casaco verde musgo. Mas quem usa casaco no verão? Que coleção é essa? À medida que eu atravessava a pista, meu coração era dominado por um ódio imenso, tão imenso que chegava a controlar a minha mente. Entrei na loja querendo saber da vendedora: “Cadê?”. Mas a peça pode estar na remarcação, na seção da coleção antiga, no quartinho de estoque. “Compraram”.  “Mas o quê?”. “Sim, compraram. Um rapaz assim bem parecido com o estilo do senhor comprou ontem! Mas temos outra aqui que eu…”.

Atravessei a rua em prantos. Começou com um choro minúsculo, apenas umas lágrimas tímidas e descompensadas. Depois as lágrimas foram ficando gordas e gordas e gordas. Peguei um Uber e chorei, do Rio Vermelho até a Barra, o choro mais profundo e desmedido que possa existir. O choro infantil e verdadeiro que já chorei em toda a minha vida. Me recordei, como num filme cruel e sem pausas, de todas as pessoas e coisas que perdi por ter deixado pra depois; por ter achado, por arrogância, que eu poderia ter mais do que aquilo que era oferecido; por ainda não me sentir preparado para elas ou, ainda, por ter a curiosidade de saber tudo do mundo ou, ainda, por ter dificuldade com o que é duradouro.

Me recordei de centenas de lugares que trabalhei e acabei indo embora porque eu estava de saco cheio de ficar com meu rabo preso numa cadeira por doze horas por dia. Mas eu fazia o que eu gostava, eram lugares com pessoas tão incríveis e chefes tão bons. Por que eu ia embora? A ilusão de que podia existir, em algum lugar do mundo, o emprego dos sonhos.

Me recordei de todos os meus namorados que eu simplesmente mandei ir pro inferno porque é difícil entender que as histórias acabam mesmo. Descartar pessoas, como se elas nunca tivessem existido, no fim das contas, não é humano. Quem ama não joga fora.

Me recordei de todos os amigos e parentes, aqueles que fizeram histórias comigo, aqueles que viveram momentos de dor, medo, raiva, alegria, expectativa, aqueles que eu sempre deixo pra depois porque eu ando sem tempo e porque eu tenho preguiça e porque eles moram muito longe ou porque eu mudei muito e todos se tornaram muito diferentes de mim. Aqueles que eu sempre penso: “talvez no fim da semana que vem”. Mas o fim da semana que vem nunca chega.

Chorei por todos os meus amigos que foram embora do país e eu não fui pra despedida porque eu odeio despedida. A falsa esperança de que um dia nos veremos de novo. E, finalmente, chorei por nunca ter conseguido ser bonito, engraçado e inteligente. Chorei o fim de tudo e, chorei muito mais, pelos começos que têm fins previsíveis. Assim é a vida: uma morte a cada capítulo.

Depois, como era de se esperar, passei a mão no rosto, enxuguei as lágrimas e continuei procurando pela minha camisa com a cara limpa. Eu descobri, ontem, que estar em busca de outras opções e ficar insatisfeito com a maioria que aparece, na verdade, é o que faz a gente continuar.

Eu não me importo mais

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Cansei. E isso resume tudo que eu tenho a dizer. Eu simplesmente cansei. Desisti. E isso é a coisa mais triste que pode acontecer a qualquer ser humano. E isso é a coisa mais triste que pôde acontecer na minha vida. Não reclamo mais de nada, não tenho mais interesse em entender nada, não faço mais questão de esperar por nada. Eu cansei. E quer saber? Desistir, talvez, tenha sido a melhor coisa que eu fiz até hoje. O melhor bem que eu fiz por mim até hoje.

Saio com os meus amigos, ouço a opinião de todo mundo numa roda. Gente discutindo sobre aborto, racismo, homofobia, feminismo, saudade, carência, medo de morrer. Coisa que eu acho intolerante e que eu quero apontar o dedo na cara, outras que eu quero complementar, mas eu deixo tudo lá. Não sinto vontade. Não quero. Não mexo um dedo. Eu deixo tudo lá. Sem culpa. Todo mundo querendo ter razão de tudo com suas frases de efeito. Nem aí pra essas pessoas que medem cada palavrinha pra levar um prêmio pelo melhor discurso. Nem aí.

Odeio inglês e odeio mais ainda quem usa frases em inglês no meio de texto em português, mas o tempo inteiro fico repetindo “i’m not interested”. Me recuso a discutir mais uma vez. Pra quê? Cansei de brincar de ser Deus. Passei 25 anos da minha vida sendo o irritadinho da turma. O enjoadinho. Aquele que queria tudo do seu jeito. Aquele que fechava a cara por qualquer coisa. Amor só é verdadeiro se for desse jeito aqui. Felicidade só existe se for desse jeito aqui. Festa tem que ser assim. Emprego é assim, namorar é assim, viver é assim, se vestir é assim, se comportar é assim, respirar é assim, perdão só pode ser dado assim. E eu ia culpando a vida, xingando a vida, de cara fechada. O tempo todo. O tempo todo querendo tudo no meu minuto. Querendo consertar a burrice do mundo e a sala brega da minha sogra. Chega.

Agora eu não me importo mais. Mesmo. Não avalio mais o que é feio ou bonito. O que é bom ou ruim. De verdade. Chega. Não me importo se eu cair e ralar o joelho. Não me importo mais com a dor. Com o sangue escorrendo. Com o latejar que incomoda. Com a febre que avisa que tem alguma coisa errada. Eu não me importo mais com o álbum incrível do Caetano Veloso. Com o filme badaladinho do Almodóvar. Pro último capítulo da novela das nove. Pro show tão esperado da Marisa Monte no TCA. I’m not interested.

Se um merda de um cara abre a boca pra falar sandices numa reunião, eu conto até cem pra não explodir na cara dele. Eu não grito mais, eu não esperneio. Deixo tudo lá. Mas quando a reunião acaba, eu sou o primeiro a sair. Pego a minha bolsa e vou embora. Sem culpa. Se um velho parar no meu caminho quando eu estiver andando de bicicleta no Porto da Barra, eu simplesmente freio e fico ali parado, olhando pro nada, até que ele suma da minha frente. Se alguém furar a fila, eu não reclamo. Se a pulseirinha quebrar, fica no chão. Eu deixo tudo lá. Chega de querer mandar na vida. Chega.

Não quero consertar, remendar, explicar, mostrar que estou certo. Não quero correr atrás, ter outra chance, ganhar, passar, subir no pódio, estar antenado com tudo, saber falar sobre tudo. Pra quê? Eu quero não me preocupar com nada, não sentir nada, não me estressar com nada. Sentar num banquinho de madeira da praça e ver a vida passar tão lenta como a Bossa Nova. Sem sentir nada. Quero a emoção blasé, o riso sem sal, a conversa beirando a superfície, dormir por mil anos. Sem culpa.

Tanta gente me viu tão histérico, agora vai me ver domado. Sonolento. Caladinho. Sem dar um pio. Caladinho. Eu quis tanto ser feliz. Quis tanto ter uma vida completa. Tanto. Meus olhos brilhavam esperando por isso. Eu tinha um sorriso enorme. Eu tinha tanta expectativa. Eu acreditava tanto. Tanto. Chegava a ser doentio. Mas nem era maldade. Eu só queria dar certo no meio de tanta coisa errada. Só isso. Eu só queria ser estranho e cabeludo e corcunda e magricelo e fútil e alienado e completamente feliz.

Ninguém acredita que uma bolha gigante que roubou todo ar do planeta sobreviva a mais de dois metros. Todo mundo sabe que uma hora essa porcaria estoura no ar. E quer saber? Até eu. A bolha gigante guarda tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto que não aguenta e explode. Chega. Cansei de ser a bolha gigante. Não quero mais carregar nenhum peso. Nem do ar. Minha intenção não é mais ser feliz nem triste nem nada. Eu me recuso a ter esperança, essa coisa vagabunda. Eu me recuso acreditar que alguma coisa vai dar certo, seja ela qual for, pela milésima vez. Eu tenho aceitado a vida como ela é. Desde que eu continue anestesiado no meu banquinho de madeira.

Não ser ouvido pelo mundo, meu maior medo, finalmente ganhou um papel secundário. Minha maior felicidade agora é ver as pessoas gritando.

 

Mas o diabo é que eu não consigo dizer não para a vida

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Largo o texto da coluna pela metade pra ver o celular que apitou. É Júlia me convidando pra sair: “o que você acha de beber uma cerveja no Rio Vermelho?”. Estou cheio de atividades de literatura pra entregar, um roteiro enorme de programa de rádio pra escrever e prazos curtos pra cumprir. Estou tão atolado que sequer consigo respirar, comer, dormir. Claro que eu não vou. Retorno a mensagem: “tá, que horas?”. Esqueço – ou finjo que esqueço – que estou com a agenda abarrotada de pendências. Quero me arrumar, ficar bem bonito, ver gente, me sentir vivo, essas coisas. Esquentou um pouco e já consigo sentir a cerveja descendo bem gelada na garganta enquanto a gente fala sobre a vida. Não resisto e vou.

Leio uma matéria no jornal sobre o Panorama Internacional Coisa de Cinema. É o festival dos descolados. É o festival da galera alternativa e cheia de boas referências. Vários cineastas batendo papo, numa roda, sobre as dificuldades dos seus trabalhos, vários filmes sendo exibidos em várias sessões e oficina de crítica cinematográfica. Fico pensando: “mas se eu for, vou perder psicólogo, pedalada e aula de criação literária. Melhor não”. Compro o ingresso de um dia ou logo do festival inteiro?

Corte só este tanto. Mas é só este tanto mesmo. Vê lá. Carrego uma faca dentro da minha ecobag contra cabeleireiros que ousam cortar um centímetro a mais do que eu pedi. O rapaz do salão sorri. Explica que meu cabelo está mais seco por causa do verão, cheio de pontas duplas e frizz. Um banho de hidratação com um produto que custa o dobro do meu salário resolve fácil. Um corte em degradê vai deixar o meu cabelo tipo o do Rafael Vitti. Me pego gostando da ideia: “demora?”. “Não, imagina. Coisa de minuto”. Só saio de lá três horas depois, com a vida atrasada, e-mails importantes não respondidos e o cabelo tipo Rafael Vitti duzentos anos de ressaca.

Quarta teve aniversário surpresa da Clara. Avisei logo que eu não poderia ir porque precisava terminar, finalmente, o roteiro do meu curta. Fiz uma listinha de tudo o que preciso fazer pra fazer o curta. E se eu não seguir essa listinha, eu acabo não fazendo o curta. Então melhor obedecer a listinha e não ir ao aniversário da Clara e escrever o curta. Adulto, adulto. Me peguei na seção de doces perguntando pra Luíza: “recheio de Nutella ou brigadeiro?”.

Minha mãe abre a porta do quarto: “você não usa este tênis há mais de um ano. Vai querer ou junto com o resto das coisas pra doação?”. Por causa de um tênis, decido que preciso reavaliar tudo o que tenho. Largo o e-mail não respondido, a pesquisa incompleta, o artigo pela metade. Abro o armário e coloco tudo pra fora. Limpo gavetas, caixas e cabides. Preciso disso mesmo? Posso doar? Jogar fora? Fazer um bazar entre amigos? Remédios vencidos, fones de ouvido sem borrachinha, óculos sem hastes. Que bagunça. Muita coisa aqui que não quero. Vou aproveitar e organizar o quarto inteiro.

Sou do tipo que ama estender programas. A gente marcou um cinema, mas depois pode ir a um barzinho e ficar até sabe lá Deus que horas. E daí que amanhã eu tenho reunião às sete? Tô sempre topando a nona saideira. Topando ficar mais um pouco. Topando conhecer a turma incrível que vai chegar. Não posso comer esse docinho antes do almoço. Mas é só um docinho. Mas tem a endoscopia. Mas é só um docinho. É horário de pico, então a gente pode ficar aqui conversando até o trânsito dar uma acalmada. Amanhã tem aula cedo, mas o que é que tem assistir mais dois episódios de Sherlock Holmes? Desligo o despertador seis vezes. O que é que tem dormir mais dez minutos? Durmo. Quando vou ver, já tô atrasado duas horas. Já perdi a reunião, o encontro, o médico, o voo.

Eu não sei dizer não. Nem pros outros e muito menos pra mim. Não aguento um “só mais um pouquinho”, um “vamos”, um “é rapidinho”. Sempre acho que dá mesmo pra deixar pra mais tarde, pra amanhã de manhã, pra segunda-feira. Planejo a vida esperando dela quarenta e oito horas em um dia, mil dias em um ano. Minha agenda vive riscada com prazos cancelados. Quero fazer tudo e mais um pouco. Se digo não, fico com a sensação horrível de que deixei alguma coisa pra trás. Sei que se eu fosse mais metódico e mais responsável, eu já teria o novo livro pronto, a peça de teatro toda costurada, outros projetos saindo do papel. Mas vira e mexe tem sempre alguma coisa bem mais interessante, mais divertida, mais curiosa pra fazer. A armadilha pra eu sair dos conformes mora ao lado.

Posso ser chamado de irresponsável, inconsequente, impontual, mas jamais dirão que eu não aproveitei a vida.

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