Categoria: Cotidiano

Eu não me importo mais

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Cansei. E isso resume tudo que eu tenho a dizer. Eu simplesmente cansei. Desisti. E isso é a coisa mais triste que pode acontecer a qualquer ser humano. E isso é a coisa mais triste que pôde acontecer na minha vida. Não reclamo mais de nada, não tenho mais interesse em entender nada, não faço mais questão de esperar por nada. Eu cansei. E quer saber? Desistir, talvez, tenha sido a melhor coisa que eu fiz até hoje. O melhor bem que eu fiz por mim até hoje.

Saio com os meus amigos, ouço a opinião de todo mundo numa roda. Gente discutindo sobre aborto, racismo, homofobia, feminismo, saudade, carência, medo de morrer. Coisa que eu acho intolerante e que eu quero apontar o dedo na cara, outras que eu quero complementar, mas eu deixo tudo lá. Não sinto vontade. Não quero. Não mexo um dedo. Eu deixo tudo lá. Sem culpa. Todo mundo querendo ter razão de tudo com suas frases de efeito. Nem aí pra essas pessoas que medem cada palavrinha pra levar um prêmio pelo melhor discurso. Nem aí.

Odeio inglês e odeio mais ainda quem usa frases em inglês no meio de texto em português, mas o tempo inteiro fico repetindo “i’m not interested”. Me recuso a discutir mais uma vez. Pra quê? Cansei de brincar de ser Deus. Passei 25 anos da minha vida sendo o irritadinho da turma. O enjoadinho. Aquele que queria tudo do seu jeito. Aquele que fechava a cara por qualquer coisa. Amor só é verdadeiro se for desse jeito aqui. Felicidade só existe se for desse jeito aqui. Festa tem que ser assim. Emprego é assim, namorar é assim, viver é assim, se vestir é assim, se comportar é assim, respirar é assim, perdão só pode ser dado assim. E eu ia culpando a vida, xingando a vida, de cara fechada. O tempo todo. O tempo todo querendo tudo no meu minuto. Querendo consertar a burrice do mundo e a sala brega da minha sogra. Chega.

Agora eu não me importo mais. Mesmo. Não avalio mais o que é feio ou bonito. O que é bom ou ruim. De verdade. Chega. Não me importo se eu cair e ralar o joelho. Não me importo mais com a dor. Com o sangue escorrendo. Com o latejar que incomoda. Com a febre que avisa que tem alguma coisa errada. Eu não me importo mais com o álbum incrível do Caetano Veloso. Com o filme badaladinho do Almodóvar. Pro último capítulo da novela das nove. Pro show tão esperado da Marisa Monte no TCA. I’m not interested.

Se um merda de um cara abre a boca pra falar sandices numa reunião, eu conto até cem pra não explodir na cara dele. Eu não grito mais, eu não esperneio. Deixo tudo lá. Mas quando a reunião acaba, eu sou o primeiro a sair. Pego a minha bolsa e vou embora. Sem culpa. Se um velho parar no meu caminho quando eu estiver andando de bicicleta no Porto da Barra, eu simplesmente freio e fico ali parado, olhando pro nada, até que ele suma da minha frente. Se alguém furar a fila, eu não reclamo. Se a pulseirinha quebrar, fica no chão. Eu deixo tudo lá. Chega de querer mandar na vida. Chega.

Não quero consertar, remendar, explicar, mostrar que estou certo. Não quero correr atrás, ter outra chance, ganhar, passar, subir no pódio, estar antenado com tudo, saber falar sobre tudo. Pra quê? Eu quero não me preocupar com nada, não sentir nada, não me estressar com nada. Sentar num banquinho de madeira da praça e ver a vida passar tão lenta como a Bossa Nova. Sem sentir nada. Quero a emoção blasé, o riso sem sal, a conversa beirando a superfície, dormir por mil anos. Sem culpa.

Tanta gente me viu tão histérico, agora vai me ver domado. Sonolento. Caladinho. Sem dar um pio. Caladinho. Eu quis tanto ser feliz. Quis tanto ter uma vida completa. Tanto. Meus olhos brilhavam esperando por isso. Eu tinha um sorriso enorme. Eu tinha tanta expectativa. Eu acreditava tanto. Tanto. Chegava a ser doentio. Mas nem era maldade. Eu só queria dar certo no meio de tanta coisa errada. Só isso. Eu só queria ser estranho e cabeludo e corcunda e magricelo e fútil e alienado e completamente feliz.

Ninguém acredita que uma bolha gigante que roubou todo ar do planeta sobreviva a mais de dois metros. Todo mundo sabe que uma hora essa porcaria estoura no ar. E quer saber? Até eu. A bolha gigante guarda tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto que não aguenta e explode. Chega. Cansei de ser a bolha gigante. Não quero mais carregar nenhum peso. Nem do ar. Minha intenção não é mais ser feliz nem triste nem nada. Eu me recuso a ter esperança, essa coisa vagabunda. Eu me recuso acreditar que alguma coisa vai dar certo, seja ela qual for, pela milésima vez. Eu tenho aceitado a vida como ela é. Desde que eu continue anestesiado no meu banquinho de madeira.

Não ser ouvido pelo mundo, meu maior medo, finalmente ganhou um papel secundário. Minha maior felicidade agora é ver as pessoas gritando.

 

Mas o diabo é que eu não consigo dizer não para a vida

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Largo o texto da coluna pela metade pra ver o celular que apitou. É Júlia me convidando pra sair: “o que você acha de beber uma cerveja no Rio Vermelho?”. Estou cheio de atividades de literatura pra entregar, um roteiro enorme de programa de rádio pra escrever e prazos curtos pra cumprir. Estou tão atolado que sequer consigo respirar, comer, dormir. Claro que eu não vou. Retorno a mensagem: “tá, que horas?”. Esqueço – ou finjo que esqueço – que estou com a agenda abarrotada de pendências. Quero me arrumar, ficar bem bonito, ver gente, me sentir vivo, essas coisas. Esquentou um pouco e já consigo sentir a cerveja descendo bem gelada na garganta enquanto a gente fala sobre a vida. Não resisto e vou.

Leio uma matéria no jornal sobre o Panorama Internacional Coisa de Cinema. É o festival dos descolados. É o festival da galera alternativa e cheia de boas referências. Vários cineastas batendo papo, numa roda, sobre as dificuldades dos seus trabalhos, vários filmes sendo exibidos em várias sessões e oficina de crítica cinematográfica. Fico pensando: “mas se eu for, vou perder psicólogo, pedalada e aula de criação literária. Melhor não”. Compro o ingresso de um dia ou logo do festival inteiro?

Corte só este tanto. Mas é só este tanto mesmo. Vê lá. Carrego uma faca dentro da minha ecobag contra cabeleireiros que ousam cortar um centímetro a mais do que eu pedi. O rapaz do salão sorri. Explica que meu cabelo está mais seco por causa do verão, cheio de pontas duplas e frizz. Um banho de hidratação com um produto que custa o dobro do meu salário resolve fácil. Um corte em degradê vai deixar o meu cabelo tipo o do Rafael Vitti. Me pego gostando da ideia: “demora?”. “Não, imagina. Coisa de minuto”. Só saio de lá três horas depois, com a vida atrasada, e-mails importantes não respondidos e o cabelo tipo Rafael Vitti duzentos anos de ressaca.

Quarta teve aniversário surpresa da Clara. Avisei logo que eu não poderia ir porque precisava terminar, finalmente, o roteiro do meu curta. Fiz uma listinha de tudo o que preciso fazer pra fazer o curta. E se eu não seguir essa listinha, eu acabo não fazendo o curta. Então melhor obedecer a listinha e não ir ao aniversário da Clara e escrever o curta. Adulto, adulto. Me peguei na seção de doces perguntando pra Luíza: “recheio de Nutella ou brigadeiro?”.

Minha mãe abre a porta do quarto: “você não usa este tênis há mais de um ano. Vai querer ou junto com o resto das coisas pra doação?”. Por causa de um tênis, decido que preciso reavaliar tudo o que tenho. Largo o e-mail não respondido, a pesquisa incompleta, o artigo pela metade. Abro o armário e coloco tudo pra fora. Limpo gavetas, caixas e cabides. Preciso disso mesmo? Posso doar? Jogar fora? Fazer um bazar entre amigos? Remédios vencidos, fones de ouvido sem borrachinha, óculos sem hastes. Que bagunça. Muita coisa aqui que não quero. Vou aproveitar e organizar o quarto inteiro.

Sou do tipo que ama estender programas. A gente marcou um cinema, mas depois pode ir a um barzinho e ficar até sabe lá Deus que horas. E daí que amanhã eu tenho reunião às sete? Tô sempre topando a nona saideira. Topando ficar mais um pouco. Topando conhecer a turma incrível que vai chegar. Não posso comer esse docinho antes do almoço. Mas é só um docinho. Mas tem a endoscopia. Mas é só um docinho. É horário de pico, então a gente pode ficar aqui conversando até o trânsito dar uma acalmada. Amanhã tem aula cedo, mas o que é que tem assistir mais dois episódios de Sherlock Holmes? Desligo o despertador seis vezes. O que é que tem dormir mais dez minutos? Durmo. Quando vou ver, já tô atrasado duas horas. Já perdi a reunião, o encontro, o médico, o voo.

Eu não sei dizer não. Nem pros outros e muito menos pra mim. Não aguento um “só mais um pouquinho”, um “vamos”, um “é rapidinho”. Sempre acho que dá mesmo pra deixar pra mais tarde, pra amanhã de manhã, pra segunda-feira. Planejo a vida esperando dela quarenta e oito horas em um dia, mil dias em um ano. Minha agenda vive riscada com prazos cancelados. Quero fazer tudo e mais um pouco. Se digo não, fico com a sensação horrível de que deixei alguma coisa pra trás. Sei que se eu fosse mais metódico e mais responsável, eu já teria o novo livro pronto, a peça de teatro toda costurada, outros projetos saindo do papel. Mas vira e mexe tem sempre alguma coisa bem mais interessante, mais divertida, mais curiosa pra fazer. A armadilha pra eu sair dos conformes mora ao lado.

Posso ser chamado de irresponsável, inconsequente, impontual, mas jamais dirão que eu não aproveitei a vida.

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