Categoria: Comemoração

Eu nunca fui feliz no Réveillon

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Já tá tudo combinado pra passar o Ano-Novo na Praia do Forte. Cada um dos oito amigos paga dois mil quatrocentos e vinte e nove reais. Pelas contas, esse valor inclui aluguel de uma casa imensa com uma vista maravilhosa, limpeza feita pelo caseiro, almoço e jantar feitos pela mulher do caseiro, segurança feita pelos filhos do caseiro, e muitas garrafas de espumantes e outras bebidas que obviamente vão acabar bem antes do previsto. Pensei em pedir um desconto porque eu bebo pouco. Mas não quero ninguém me dizendo que paguei menos do que todo mundo e por isso tenho que ficar num quarto vagabundo. Prefiro pagar o que tenho que pagar do que ficar com uma calculadora atrás dos outros. Ninguém gosta de dificuldade na hora de pagar conta. Muito menos eu. Mas espero, sinceramente, que quando der onze da noite e toda bebida tenha acabado e façam aquela rodinha pra abrir carteiras e arrecadar dinheiro tenham a decência de não me pedir um centavo. Porque eu bebo pouco.

Faço a mala sob a condição de “vou porque quero e volto quando quero”, mesmo que pareça loucura voltar meia hora depois de chegar. Eu nem queria ir pra esse negócio. Eu nem gosto do Réveillon. Eu tenho, na verdade, pavor do Réveillon. Nunca gostei do último dia de nada. De um emprego, aula, viagem, namoro. Muito menos do último dia do ano. Por mais que eu quisesse que aquilo acabasse, por mais que eu sentisse que não dava mais, por mais que eu precisasse do fim de alguma coisa pra começar alguma coisa. Nunca passei qualquer fim que seja sem ter chorado desesperadamente. O último dia sempre me assusta, sempre me traz mais angústia, sempre me deixa com um nó na garganta que não desata. Comemorar o fim sempre me pareceu tão triste, cruel, estranho, perverso, devastador. A sensação de desespero sem socorro. A vontade impulsionada de me isolar. A vontade enorme de sair andando, andando, andando, andando, andando, andando, andando, andando até que eu chegue a algum lugar que eu não sei onde é. O pavor que o tempo inteiro me pede calma. O sorriso assustado de puro nervosismo. Os pés frios, as mãos suadas, o sangue passando quente pelas veias.

Vinte para meia-noite e meus amigos já estão alegres demais e piadistas demais e teóricos demais e penso que eles estão bêbados demais. Os fogos começam e acho isso tão triste, cruel, estranho, perverso, devastador. A praia em frente está muito bonita, com gente muito bonita andando de branco, e o teto cheio de bexigas brancas. Tudo tão bonito. Mas a minha estética psíquica enxerga feiura. Aí eu largo o corpo com a bebida do verão. Aí eu deixo o prato com o pedaço de peru. Aí eu sumo. Aí eu desapareço. E todo mundo começa a fazer piada com isso: “deixa, ele é assim mesmo”. Uma bola de pelo sufoca a minha garganta e eu quero algo que não é nem a minha mãe e nem a minha casa e nem o meu cachorro. Ou talvez seja tudo isso. Olho os táxis parados ao redor da praia e a bola de pelo vai se desfazendo aos poucos. Eu posso ir embora. Mas de onde? Mas pra onde? Eu sempre querendo ir embora. Tá, mas pra onde? Quero um abraço e um colo que nunca conheci. Mas não é de homem, de amor, de carinho que eu preciso. O que é, então? Sinto tanta coisa dentro de mim e ao mesmo tempo não sinto nada. Sinto a fúria da vozinha que mora na minha cabeça. Sinto o buraco sem fundo do poço desmedido da vida. Uma queimadura no estômago que não é azia. Uma ânsia que não é de fome. Um enjoo que não faz vomitar. Um frio que não precisa de casaco.

Sento sozinho no banquinho do jardim e choro. Não existe motivo específico nem uma dor específica. Será que eu choro por que perdi a pureza da infância? Por que sinto saudade da adolescência, quando eu fazia listas enormes e milhares de planos pra ser feliz na vida adulta? Será que é a realidade à tona de que a cada ano perco mais um ano? Será que é o pavor por saber que a cada segundo eu fico mais velho? Será, então, que é o medo da morte? Mas se eu não tenho mais vontade de viver como antes, por que eu tenho medo da morte? Será que é o medo da morte da minha mãe? Da minha irmã? Das minhas sobrinhas? Dos meus amigos? Será que choro a certeza de que tudo chega ao fim?

Me destruo de chorar por tudo isso e por nada disso. Choro pela violência no mundo e a minha falta de bunda. Choro porque, enquanto eu e outras milhares de pessoas comemoram com suas taças na praia descolada, com a roupa descolada e a bebida descolada, outras milhares de pessoas passam frio, fome, tentam sobreviver em filas de hospitais, embaixo de viadutos. Choro pela minha intensidade que não cabe em mim, pela minha arrogância que não me leva a nada, pela minha superficialidade maior do que o universo, pela minha falta de tempo em cuidar da saúde da minha mãe. Choro por causa do cara certo que foi embora e se ele foi embora é porque ele não é certo, então choro ao agradecer por ele ter ido embora. Choro porque todo ano eu peço pra ser feliz. Choro porque desisti de fazer simpatia pra ser feliz. Choro porque sou a pessoa mais sozinha do planeta e, ao mesmo tempo, por ter uma família linda e milhares de amigos lindos me cercando. Abro a agenda do smartphone. Pra quem eu quero ligar? Ninguém. Pra quem eu sinto vontade de ligar? Ninguém. Nem é saudade de gente. Nem é necessidade de falar e ouvir coisas bonitas. E aí, faço o que com isso?

Chama Murilo porque faltam cinco minutos pra meia-noite. Não, deixa ele no jardim. Ele é assim mesmo. É falta da família, do namorado, da cama? Não, ele é assim. Deixa ele. Daqui a pouco ele tá escrevendo no escuro do quarto. Tá chorando sentado no vaso. Tá tomando mais um banho pra limpar o que não é sujeira. Deixa, ele é assim mesmo. Coloca aí “Lígia”, de João Gilberto, pra eu chorar mais? Quando ele diz que não gosta de chuva e não gosta de sol, eu me identifico. É tão estranho parecer que não pertence. Não é de gosto, mas é de não gostar. Entende? Coloca? Não, Murilo. Ninguém quer ouvir João Gilberto no Réveillon, tá louco? A gente vai colocar Chiclete com Banana. Oi? Isso. Sério? Sério. E eu, mais uma vez, me pergunto por que saio de Salvador no dia que mais tenho pavor de viver. Por que eu me meto no Litoral Norte se eu não suporto isso aqui? Por que eu tento, mais uma vez, parecer normal pra tanta gente que não é normal? Mas se eu contar isso pra uma das meninas que está na casa, ela vai me pedir calma porque “bad de bebida é assim mesmo” e que “um café bem forte resolve”. Então eu nem conto pra uma das meninas. Mas se eu contar pra um dos meninos que está na casa, ele vai me pedir calma porque “o ano foi bem tenso mesmo” e que “tomar um banho de mar resolve”. Então eu nem conto pra um dos meninos.

Não é efeito de bebida. Não é problema com os problemas do ano. Não é de café que eu preciso. Não é de banho de mar que eu preciso. Ninguém entende nada. Então eu fico no jardim olhando a agenda do celular. Não quero falar com ninguém. Olho essa agenda, apenas, pra lembrar que existe uma lista de pessoas que faz parte de coisas do meu dia a dia. Que uma hora essa rotina volta. Daqui a pouco eu volto e tudo volta. E isso que eu sinto passa. Falta um minuto e as pessoas esperam entusiasmadas. Acabou. O ano virou. Ufa. Acabou. Eu olhando pros fogos fingindo emoção com medo de que alguém, na euforia, derrube a taça de champanhe na minha roupa. Acabou. Daqui a pouco todos estarão tão bêbados e cansados que eu poderei ser estranho, patético, infeliz, insuportável. E poderei, finalmente, tirar a fantasia de gente feliz e otimista imposta pela ditadura da alegria. E poderei, finalmente, respirar. Ou dormir. Ou fazer cocô. Ou sumir de vez sem ter que dar explicação. Acabou.

Três e meia da manhã, em meio a bexigas murchas, gente caída no canto da casa, conversas desconexas de gente bêbada e iPhones descarregados, sinto a felicidade chegando como um orgasmo múltiplo, desses que chegam bem tímidos, mas que, no fundo, são fortes e necessários pra melhorar a alma e a pele. Canto bem alto Chiclete com Banana. Rebolo a minha bunda dançando Chiclete com Banana. Abraço o resto das pessoas sonolentas e sem energia que sobram no resto da festa. Encho a minha taça de champanhe. Agora é a minha vez. Enquanto todos acabam de festejar o fim do ano, começo a festejar o fim dos festejos de fim de ano. Acabou o Natal e o Ano-Novo. Agora que não me obrigam a ser feliz quero sorrir pra tudo. Agora que todo mundo pode dormir em paz, quero correr pela praia de canto a canto. Eu nunca fui feliz no Réveillon. Eu nunca fui feliz no fim de nada. Mas sempre dou um jeito de ser feliz quando eu consigo suportar chegar até o fim.

Domingo é Natal, mas você não tem culpa

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Matheus Gazola

O elevador do meu prédio não demora mais do que contar até nove. Mas até chegar ao sexto andar sou agraciado por uma enxurrada de “Feliz Natal” e “muita saúde, paz e prosperidade”, somada com mãozinhas que acariciam casaco, sorrisos de canto a canto e olhares de suposta bondade de vizinhos que sequer me dão bom dia de janeiro até meados de dezembro.

A louca do apartamento ao lado que não me deixa dormir porque passa a noite inteira discutindo com o gato na ausência do namorado. O lindão do apartamento de cima que tá sempre perfumado, que tá sempre engravatado, que tá sempre tão educado ao telefone, mas nem agradece a seu Amadeu por abrir o portão da garagem, porque tá sempre atrasado. A bonitinha do apartamento de baixo que todo dia detona a filha adolescente porque ela é gorda, que detona o marido porque ele ganha pouco, que detona a sogra porque ela é velha, que detona a empregada porque ela é pobre: FELIZ NATAL PRA VOCÊ, VACA.

Eu não sei qual é o problema das pessoas. Mas o meu problema é que eu odeio o típico clima natalino imposto e suas atitudes robóticas impostas e essas pessoas falsas pra cacete. É algo como “você PRECISA esquecer que eu te sacaneei o ano inteiro e confirmar presença nesse amigo secreto” ou “eu sei que a gente mal se olha no corredor do trabalho, eu sei que se eu pudesse você nem estava mais aqui, eu sei que eu caguei pra você o ano inteiro, mas AGORA, na data do nascimento de Cristo, a gente PRE-CI-SA deixar de rancor”.

Semana passada, por exemplo. Me toquei que eu nunca simpatizei com a decoração de Natal de Salvador. Porque 1) ela é tosca; 2) quem decora parece estar pouco se lixando pro espírito natalino, mas sim preocupado em exibir a marca do patrocinador; 3) ela, quando você lembra que os assaltos no Campo Grande ainda existem, faz você entender que essa felicidade reluzente não te livra da angústia.

Ontem, por exemplo. A região do Iguatemi fica a menos de vinte minutos de casa. Mas, como estamos às vésperas de Natal — e a multidão lota loucamente o Shopping da Bahia, e a multidão lota loucamente as passarelas, e a multidão reduz loucamente a velocidade  dos carros pra poder estacionar, e a multidão atravessa loucamente pelo meio dos carros sem se importar com o sinal aberto —, a região do Iguatemi pode ficar a mais de sete horas de casa. A região do Iguatemi pode ficar a “vou ter que desmarcar tudo que eu planejei pro resto da vida” de casa dependendo do dia e da hora que eu decida seguir a minha vida. A região do Iguatemi pode ficar a “que merda eu tô fazendo aqui?” dependendo da hora que eu decida ir. A região do Iguatemi, com mil vias, mil estabelecimentos e mil obras, pode ficar a “caramba, você vai de bicicleta a Marte?”, dependendo da hora que eu decida voltar.

Todos os meus namorados, todos os anos, sempre me culpando: “a gente deveria ter ido pelo caminho que falei, mas você nunca me ouve”, “se você não demorasse tanto pra se arrumar, talvez a gente não pegasse essa merda de trânsito”, “não aguento mais essa cidade e essas festas e esse trânsito vagabundo e você cada dia mais se prendendo a isso aqui”. Não é impressão, muito menos coisa da sua cabeça: todo mundo resolveu mesmo se locomover na cidade pra comprar presentinho nessa época do ano, mas a culpa não é sua.

Domingo agora, por exemplo. Mais uma vez a família inteira reunida na casa de tia Izildinha. Mais uma vez as cobranças, o barulho das crianças, as risadas altas dos adultos, as histórias do Natal de 1972. E, como o Natal de todas as famílias é igual, mais uma vez vão te culpar por tudo que puderem. Sua avó vai, mais uma vez, dizer que não aguenta mais as dores na cervical e na lombar. Vai dizer, mais uma vez, que é melhor pra ela e pra todo mundo que ela morra logo no próximo ano. E você, que é um dos netos que pouco visita, vai se sentir culpado pelo desejo de morte da vovó. Mas grava isso: você não tem culpa.

Sua tia vai reforçar que você sumiu do mapa. Tudo bem que você trabalha o dia inteiro, estuda, faz parte de mil projetos profissionais e precisa ganhar dinheiro pra se sustentar, mas custa aparecer pra rever pela milésima vez o álbum da família? Ela vai explicar que bolo pode solar se você abrir o forno antes dos 30 minutos. Vai explicar que bolo pode solar se você colocar uma ML a mais de leite. E porque você está cansado de todo o trabalho que fez durante 360 dias no ano, você simplesmente vai cochilar enquanto ela fala. Ela vai dizer, mais uma vez, que você tá sempre desinteressado nos assuntos da família. Mas grava isso: você não tem culpa.

Seu tio vai contar aquelas piadas velhas de sempre. E, bêbado, vai dizer que “bunda de viado fica intacta no caixão porque o que é do homem o bicho não come”, e você, reacionário, vai ser o único a não rir. A namorada de voz nasalada do seu primo vai comentar o concurso de beleza do programa de TV, dizendo que acha a loira mais bonita do que a “moreninha” e nem tente dizer que é racismo. Vão chamar travesti no masculino, dizer que mulher precisa se dar o respeito pra não ser assediada, que cinema brasileiro é uma bosta. Se você tentar explicar, vão revirar os olhos e dizer que você sempre leva tudo muito a sério, mas grava isso: você não tem culpa.

Ando muito cansado das famílias e suas árvores de Natal enfeitadas de mágoa, ignorância e preconceito. E os doces e empanadas das tias com gosto de mágoa, ignorância e preconceito. E as crianças arrumadinhas, com seus cabelos arrumadinhos, correndo pela casa inteira, querendo que o priminho morra porque de novo ganhou mais presentes. E eu, por mais um ano, forçado a fazer coisas terríveis.

A melhor parte do Natal é quando, lá pelas duas horas da manhã, eu vou para o terraço da casa de tia Izildinha e fico em silêncio olhando as luzes dos apartamentos, aos poucos, se apagarem. A melhor parte do Natal é quando tudo fica escuro e eu, finalmente, me sinto sozinho.

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