Categoria: Colunistas

Na sexta, saia sem a bolsa

Assim que desci do Uber pra entrar no Chupito uma amiga correu pra me avisar: “Ó, você se prepara. Ele tá aí. E tá muito bem acompanhado”. Eu sabia, eu sabia. Minha intuição não falha. Eu ia direto da Ufba pra curtir a sexta-feira no Rio Vermelho com meu jeans surrado, meu All Star branco encardido, uma camiseta básica qualquer e duas bolsas com vinte livros cada quando tive a ideia maravilhosa de voltar pra casa e mudar minha roupa inteira. Eu era agora um homem muito bem penteado, com um corte de cabelo moderno, barba feita, jaqueta jeans da Reserva, calça com caimento justo e um perfume que fazia rostos desconhecidos virarem a duas quadras de mim. Um arraso.

Ah, ele então arranjou tempo, pela primeira vez na vida, e resolveu sair pra se divertir no fim de semana? Ele então esqueceu que existem prazos e relatórios e planejamentos, pela primeira vez na vida, pra poder beber com o novo namorado? Ele então aprendeu a gostar de frequentar bares de vinte metros quadrados e de música alta sem reclamar? Sem problemas. Eu não vou embora, não. Eu vou ficar, eu vou pra pista, eu vou aproveitar que estou sem bolsa e dançar até o chão todas as músicas pop, ragga, zouk, salsa eletrônica, funk, com a bunda que nunca tive.

Abracei um DJ desconhecido, falei com todos os bartenders, cumprimentei pessoas aleatórias só pra ele ver que depois que a gente terminou eu havia me transformado no rato da noitada. Escolhi o melhor ângulo (aquele que mesmo com uma venda ainda dava pra me ver), pedi o chupito número 1, depois o 2, 3, 15, comecei a dançar ridiculamente pela pista abraçando um ou outro amigo e me esfregando no balcão do bar. E ria, ria, eu só fazia rir. Eu era a pessoa mais feliz do universo.

Um amigo correu pra falar no meu ouvido: “Ele tá lá na frente pegando uma ficha pra comprar bebida com aquele cara bonitão que você conhece”. Eu não tô nem aí. O bonitão burrinho e interesseiro que passa o dia inteiro na academia e tem uma franja gigante pra esconder a testa gigante não vai estragar a minha noite. Tudo bem que eu tô ficando com uma barriguinha aqui, um pouco flácido ali, mas ao menos sei conversar uma ou outra coisinha com ele e nunca andei de mãos dadas com a função de manequim só pra ganhar presente em troca. Foda-se.

Depois vem outra amiga (tô começando a desconfiar dessas amizades), puxa meu abraço, me leva pro canto, e me conta discretamente: “Você viu o menino que ele tá? O nerd. Diz que ele faz doutorado, morou na França e tem sete livros publicados”. Um nerd? Não era o clássico burrinho gostoso? Que seja, foda-se. Um nerd não iria estragar minha noite, não. Eu estava com um corte de cabelo maravilhoso, com barba alinhada, jaqueta jeans da Reserva, calça com caimento justo e um perfume caríssimo. Tava tudo certo.

Porque eu estava sem bolsa, saí procurando pelo Chupito pra conferir. Pra ter uma opinião. Pra dar um pouquinho de risada. Pra me sentir um pouquinho deprimido. Pra constatar o que, talvez, fosse doloroso. Será que o bonitão da academia a essa altura tava aos beijos com ele? Será que o nerd-doutorando-poliglota-escritor estava num papo intelectual sobre Proust, Monet e Deleuze? Porque eu estava sem bolsa, continuei procurando pelo Chupito pra conferir até que o encontrei parado na varandinha perto da escada com dois botões abertos da camisa e o mesmo Vans preto e branco de sempre.

Enquanto ele experimentava um chote de aperol, espumante e laranja das mãos do bonitão da academia, o nerd-doutorando-poliglota-escritor esfregava os braços nele, falava mais próximo da boca dele, dançava mais coladinho dele. A varandinha ainda abarcava um loirinho meio surfista, um negão careca (e também bombado), um branquelo sem sal (tão sem sal que às vezes nem parecia estar ali) e um ser grandão quase curvado com um brinco gigante que eu não sei se era trans, travesti, não-binário, gay ou hétero descolado. Todos em volta dele. Todos falando coisinhas no ouvido. E dando bebida aqui, beijinho ali. Ele não estava com o bonitão da academia nem com o nerd. Ele estava num harém, numa festa Baco.

Eu imagino ele tirando o cartão de débito da carteira e passando de mão em mão na roda pra comprar o que eles quiserem. Eu imagino ele convidando todos da roda pra prolongar a baladinha na casa dele de oito andares: copos, piscina, música, gritaria, fumaça.

Eu parado na porta. Ele finge que não me vê, mas me vê olhando. Fecha um botão da camisa, depois o outro. Se ajeita no banco de madeira. Conserta um pouco a franja ensebada. Aperta com um braço a cintura do bonitão da academia e com o outro a cintura do nerd-doutorando-poliglota-escritor.

Chega, chega. Cansei. Isso é demais pra mim. Chega. Ainda que eu ficasse com os trezentos homens que me paqueram nesse bar, ainda que eu subisse no balcão pelado e dançasse Britney Spears, eu não ganharia dele. Ele tinha convencido que estava bem, por cima, acompanhado, tranquilo, feliz, interessante, mudado. Agora só restava me convencer a ir embora. Tudo bem, tudo bem. Respirei fundo e contei até cem até o Uber chegar. Quantas vezes eu tinha saído com caras mais bonitos e mais interessantes do que ele? Quantas vezes ele já havia ido me buscar no jornal pra um jantar e eu tinha dado um ‘não’ por pura preguiça? Quantas vezes ele já havia me ligado implorando por uma praia, por um cinema? Ele só estava me dando o troco.

Cheguei em casa arrasado, triste, mal-humorado. Arranquei aquela jaqueta ridícula da Reserva que impregnava o perfume ridículo e arremesei a calça com caimento justo ridículo o mais longe do quarto. Coloquei, querendo morrer, minha samba-canção de listrinhas e pensei que a essa altura ele certamente transava com aqueles duzentos homens que certamente usavam cuecas muito mais sexy.

Bento, meu cachorrinho, pulou na cama, se encolheu junto ao meu corpo e deu um respiro fundo. Que dor pra esse pobre rapaz de cabelo bem penteado e barba feita ter que apagar as luzes e dormir no escuro, sozinho, em plena sexta-feira, com o coração dilacerado, enquanto o ex encoxa duzentos homens na balada. A velha e cruel sensação de que o planeta inteiro é relaxado, o planeta inteiro dá a volta por cima, o planeta inteiro é desejado, o planeta inteiro é leve, o planeta inteiro se diverte, dança de verdade, transa, goza, se dá bem, faz a vida acontecer… e eu continuo forçando um corte de cabelo, forçando uma roupa da moda, forçando um sorriso, forçando mais uma noitada.

O primeiro estágio do meu sono foi interrompido com o celular vibrando na mesinha lateral da minha cama. Era ele com a vozinha carinhosa que, depois de tantas brigas, eu nem lembrava mais como era: “Posso dormir aí com você? Aqui tá chato. As pessoas são chatas. Eu me sinto triste. Conversa comigo. Quero abraçar você. Acho que te amo”.

Você não é especial

Nosso namoro acabou durante uma festinha de gente alternativa que odeia jornalismo e ama literatura, mas adora jornalista e detesta ler. Na varanda: “É porque, Murilo, você tá o tempo inteiro dando notas pras almas. O tempo inteiro analisando, julgando. Então eu fico me podando o tempo inteiro pra te fazer feliz. Eu me sinto mal com essa relação-prova-final”. Ele passou quase um ano me dizendo que queria me ver, mas os dias eram complicados. Eu dizendo pra uma amiga o quanto eu queria que ele me encontrasse, mas ele era complicado. Porque todo o resto do mundo precisava dele e eu era apenas uma das demandas da agenda. Quando ele me chamou de demanda, um nó travou na garganta e eu tive certeza que não merecia aquilo.

Antes dele teve outro. O outro que eu não sei bem o que foi porque ele era aficionado por começos. Eternamente “numas de namorado, mas ainda estamos nos conhecendo”. Eternamente numa busca pelo que acaba daqui a pouco e que não se repete ou não se prolonga. No Outback: “Fica sussa. Acontece se tiver que acontecer”. E eu me disse: “Puta merda, nem esse cara sabe quem ele é”. E resolvi ir embora pra sempre.

Quarenta e cinco dias depois, conheci o homem mais leve que eu já conheci na vida. Eu estava cansado de ser taxado pelas pessoas por causa do meu trabalho de escritor. “Ah, é Jornalista, blogueiro, vendido pela mídia golpista, escritor de um livro só, se acha o dono da verdade, só escreve sobre a vida dele, só fala sobre macho, mas isso é literatura?, quem é esse garoto?, rodado, não passa de três meses com um namorado, quem vai ficar com um problemático?, quem ele está pegando pra ter coluna em site e jornal?, sem noção, bicha azeda, eu preferia o outro Murilo, aquele que escrevia sobre amor inocente, mas agora ele fala de sexo, agora ele fala de ansiedade, histérico, se expõe o tempo inteiro, tem que tomar remédio mesmo pra deixar de ser louco, coitado, vai morrer sozinho”. Até que encontrei nele calmaria. Até que ele foi deixando camisas e cuecas e escova de dente na minha casa. Até que um dia, acho, ele percebeu que eu não servia pra ele. Até que um dia, acho, ele percebeu que tudo que dizem sobre mim possivelmente é verdade. Até que um dia ele foi embora.

Depois veio outro namorado. Dois meses planejando uma viagem ao Capão. Eu me contorcendo com bolsa térmica gel, tomando Omeprazol pra não morrer com gastrite, e ele realmente preocupado se no dia seguinte choveria muito na Fumaça, ou algo parecido, pra ele fazer trilha. “Olha bem pra mim”, eu morria de vontade de dizer pra ele. Eu estava completamente preocupado se minha mãe morreria no São João, mesmo ela ainda sendo muito jovem e saudável. Preocupado se haveria congestionamento até a Ufba, se eu corria o risco de pegar um ônibus com um louco que sempre grita “tô muito louco”, almoçar em horário de almoço, dormir oito horas por dia, morrer sem sentir dor.

Ele era bem lindo. Passei a tarde inteira me perguntando, ao colocar o moletom, a manta e o cachecol de lã na mala, se valia a pena tudo aquilo. A barraca de camping, o fato de ele ser lindo, o mato e todos os mosquitos que compõem a cena de amor. Fiquei imaginando a festa que haveria todos os dias e todas as horas até o amanhecer, com todos aqueles jovens libertários que acordam assim zero enxaqueca e sem precisar de relaxante muscular, aturando aquela conversa de “energia”, “inferno astral”, “vida que segue” pós-banhos de cachoeira e adoração ao sol. E meu grito, com um efeito de eco de esgoto, no meio daquela música alta. “Você vai adorar os meus amigos”, ele dizia. Fechei a mala e fui. Eu sempre vou.

Daí eu perguntava pra ele o que esses jovens libertários faziam da vida e ele não entendia por que eu queria saber essas coisas. E daí se uma das meninas já passou dos vinte e cinco anos e ainda não sabe se é arquitetura, biologia ou fisioterapia, se um dos caras não trabalha porque já tem um pai que trabalha e recebe uma bolada de mesada? E daí que todo mundo tem uma necessaire com LSD e cocaína e bala e ecstasy? E daí que eram apenas jovens libertários curtindo o agora?

Eu a noite inteira tentando uma conversa consistente com algum jovem libertário. Quis perguntar a uma das meninas maconheiras amiga dele: “mas me conta, que horas do dia você sente angústia?”. “E crise do pânico?”. Quis perguntar a um dos amigos dele que bebia vodca há três dias sem parar: “Cê acha que um dia a gente para de sentir vontade de vomitar as aflições do mundo?”. Eu desistindo e largando todos eles com seus copos e fumaças – talvez meio enjoado, talvez meio entediado, talvez com saudade da minha bolha – e me trancando na barraca, fazendo exercícios de respiração e implorando pra que a minha pressão voltasse ao normal. E todos eles lá fora comentando: “Que viado doido. Podia estar aqui agora com a gente”. E ele lá fora preocupado com a fogueira, com o vento, a porra da lua e todo o resto do planeta. Chegou a hora de eu ter a minha liberdade.

Passei um século da minha vida dividindo a rotina, a mesa do café, as sacolas do supermercado, o controle remoto, a louça suja, a panela de brigadeiro, as festas, a mesa no restaurante, o braço da poltrona do cinema com trezentos mil meninos que no fundo só eram meninos. Lembro da voz da minha analista: “Você precisa cuidar da sua vida”.

A gente perde muito tempo com gente que não faz sentido, com gente que não tem nada a ver. E tenta e se descabela e se doa e tenta de novo. O tempo inteiro sendo alguém que nem o outro quer. O tempo inteiro sendo alguém que nem o outro faz questão da existência.

A gente perde muito tempo com gente.

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