Você não é especial

Nosso namoro acabou durante uma festinha de gente alternativa que odeia jornalismo e ama literatura, mas adora jornalista e detesta ler. Na varanda: “É porque, Murilo, você tá o tempo inteiro dando notas pras almas. O tempo inteiro analisando, julgando. Então eu fico me podando o tempo inteiro pra te fazer feliz. Eu me sinto mal com essa relação-prova-final”. Ele passou quase um ano me dizendo que queria me ver, mas os dias eram complicados. Eu dizendo pra uma amiga o quanto eu queria que ele me encontrasse, mas ele era complicado. Porque todo o resto do mundo precisava dele e eu era apenas uma das demandas da agenda. Quando ele me chamou de demanda, um nó travou na garganta e eu tive certeza que não merecia aquilo.

Antes dele teve outro. O outro que eu não sei bem o que foi porque ele era aficionado por começos. Eternamente “numas de namorado, mas ainda estamos nos conhecendo”. Eternamente numa busca pelo que acaba daqui a pouco e que não se repete ou não se prolonga. No Outback: “Fica sussa. Acontece se tiver que acontecer”. E eu me disse: “Puta merda, nem esse cara sabe quem ele é”. E resolvi ir embora pra sempre.

Quarenta e cinco dias depois, conheci o homem mais leve que eu já conheci na vida. Eu estava cansado de ser taxado pelas pessoas por causa do meu trabalho de escritor. “Ah, é Jornalista, blogueiro, vendido pela mídia golpista, escritor de um livro só, se acha o dono da verdade, só escreve sobre a vida dele, só fala sobre macho, mas isso é literatura?, quem é esse garoto?, rodado, não passa de três meses com um namorado, quem vai ficar com um problemático?, quem ele está pegando pra ter coluna em site e jornal?, sem noção, bicha azeda, eu preferia o outro Murilo, aquele que escrevia sobre amor inocente, mas agora ele fala de sexo, agora ele fala de ansiedade, histérico, se expõe o tempo inteiro, tem que tomar remédio mesmo pra deixar de ser louco, coitado, vai morrer sozinho”. Até que encontrei nele calmaria. Até que ele foi deixando camisas e cuecas e escova de dente na minha casa. Até que um dia, acho, ele percebeu que eu não servia pra ele. Até que um dia, acho, ele percebeu que tudo que dizem sobre mim possivelmente é verdade. Até que um dia ele foi embora.

Depois veio outro namorado. Dois meses planejando uma viagem ao Capão. Eu me contorcendo com bolsa térmica gel, tomando Omeprazol pra não morrer com gastrite, e ele realmente preocupado se no dia seguinte choveria muito na Fumaça, ou algo parecido, pra ele fazer trilha. “Olha bem pra mim”, eu morria de vontade de dizer pra ele. Eu estava completamente preocupado se minha mãe morreria no São João, mesmo ela ainda sendo muito jovem e saudável. Preocupado se haveria congestionamento até a Ufba, se eu corria o risco de pegar um ônibus com um louco que sempre grita “tô muito louco”, almoçar em horário de almoço, dormir oito horas por dia, morrer sem sentir dor.

Ele era bem lindo. Passei a tarde inteira me perguntando, ao colocar o moletom, a manta e o cachecol de lã na mala, se valia a pena tudo aquilo. A barraca de camping, o fato de ele ser lindo, o mato e todos os mosquitos que compõem a cena de amor. Fiquei imaginando a festa que haveria todos os dias e todas as horas até o amanhecer, com todos aqueles jovens libertários que acordam assim zero enxaqueca e sem precisar de relaxante muscular, aturando aquela conversa de “energia”, “inferno astral”, “vida que segue” pós-banhos de cachoeira e adoração ao sol. E meu grito, com um efeito de eco de esgoto, no meio daquela música alta. “Você vai adorar os meus amigos”, ele dizia. Fechei a mala e fui. Eu sempre vou.

Daí eu perguntava pra ele o que esses jovens libertários faziam da vida e ele não entendia por que eu queria saber essas coisas. E daí se uma das meninas já passou dos vinte e cinco anos e ainda não sabe se é arquitetura, biologia ou fisioterapia, se um dos caras não trabalha porque já tem um pai que trabalha e recebe uma bolada de mesada? E daí que todo mundo tem uma necessaire com LSD e cocaína e bala e ecstasy? E daí que eram apenas jovens libertários curtindo o agora?

Eu a noite inteira tentando uma conversa consistente com algum jovem libertário. Quis perguntar a uma das meninas maconheiras amiga dele: “mas me conta, que horas do dia você sente angústia?”. “E crise do pânico?”. Quis perguntar a um dos amigos dele que bebia vodca há três dias sem parar: “Cê acha que um dia a gente para de sentir vontade de vomitar as aflições do mundo?”. Eu desistindo e largando todos eles com seus copos e fumaças – talvez meio enjoado, talvez meio entediado, talvez com saudade da minha bolha – e me trancando na barraca, fazendo exercícios de respiração e implorando pra que a minha pressão voltasse ao normal. E todos eles lá fora comentando: “Que viado doido. Podia estar aqui agora com a gente”. E ele lá fora preocupado com a fogueira, com o vento, a porra da lua e todo o resto do planeta. Chegou a hora de eu ter a minha liberdade.

Passei um século da minha vida dividindo a rotina, a mesa do café, as sacolas do supermercado, o controle remoto, a louça suja, a panela de brigadeiro, as festas, a mesa no restaurante, o braço da poltrona do cinema com trezentos mil meninos que no fundo só eram meninos. Lembro da voz da minha analista: “Você precisa cuidar da sua vida”.

A gente perde muito tempo com gente que não faz sentido, com gente que não tem nada a ver. E tenta e se descabela e se doa e tenta de novo. O tempo inteiro sendo alguém que nem o outro quer. O tempo inteiro sendo alguém que nem o outro faz questão da existência.

A gente perde muito tempo com gente.

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