Geração cabelo azul

Tô obcecado pela lojinha de Ju, uma amiga designer-estilista-hipster que abriu uma “pequena boutique” no Instagram. Na verdade, preciso confessar publicamente que estou fissurado por todos os meus amigos de 25 anos que fazem coisas lindas, que vendem “bugigangas diferentes” a preço de banana pela internet com parceria em loja física não sei onde. Mando mensagem pra ela perguntando onde ou como faço pra comprar um dos óculos vintage com armação tartaruga e uma bolsa listrada amarelinha (tô obcecado!!!!) que ela oferta no perfil: “Tem como mandar?”. E ela responde: “poxa, amigo, só trabalho de terça a quinta, das 8h às 10h, e esta semana tem feira vegana, não vou abrir a loja nem pra dar informação, muito menos pra fazer pedido”. Ju tem a minha idade, mas, ao contrário de mim, se adaptou fácil a uma geração que não quer ter chefe e prefere posar de empresária, com produtos bons e descolados, mas sem disposição pra puxar saco do cliente. Não quer paparicar, não quer ser persuasiva, não tá muito interessada em vender, é o mesmo que “sou atriz, mas não quero que você assista minha peça, arte nasceu pra morrer na gaveta, gato”.

Não sei se é porque nasci pobre (nem tão pobre assim), mas eu sempre fui muito desesperado pra vender, obcecado por ganhar dinheiro, pra fazer acontecer, pra mostrar que vale a pena em qualquer coisa que envolva capital. E essa galera hoje em dia faz como? Se realmente se sustenta, como não passa por crises financeiras e fome e está sempre em sua vidinha luxuosa? Peguei bode também porque Ju (e outros amiguinhos de vinte e poucos anos) pagam de independentes, mercadológicos-sustentáveis-conscientes e que conseguem pagar TO-DAS as contas morando na Vitória “sendo donos do próprio negócio”, mas, na real, sabemos que por trás dessa pessoa que deu certo na vida antes do trinta tem o papai milionário que tá bancando a porra toda. Até quando?

Algo similar acontece com Bia. Essa não fica em trabalho nenhum porque “não é muito a cara dela”. Ex-publicitária, ex-assessora de imprensa, ex-psicanalista, ex-traficante, agora estuda cinema. Há seis meses topou trabalhar numa produtora porque tinha “uma galera bonita e happy hour às sextas”. Trabalhava seis horas por dia, três vezes por semana e ganhava o triplo do que eu ganhava trabalhando em jornal de domingo a domingo. Passava metade do dia almoçando qualquer coisa de cor verde, conversando sobre “Game of Thrones” com a “galera”, assistia vídeo de baboseira no YouTube (e qual não é?) e cochilava no sofazinho que às vezes servia como cenário pras filmagens. O chefe dela permitiu que um feriadão prolongado de quatro dias em Boipeba virasse uma semana, que o lanche da tarde de um delivery esquema permuta fosse substituído por hambúrguer de soja ou torrada integral de aveia orgânica. Não estava bom. “Emprego fodido do caralho”. Fazia birra com o chefe, igualzinha a uma adolescente, embora já fosse adulta. E reclamava, reclamava, só sabia reclamar do “sistema capitalista bosta”, no Facebook, enquanto passava álcool em gel nas mãos. Pediu pra sair porque não aguentava tanta exploração: às vezes pediam pra ela ficar alguns minutinhos a mais, às vezes reclamavam que ‘não ficou legal’, daí é dose refazer o trabalho, né não, Murilo?

André, um amigo que fez intercâmbio na Europa, sabe falar quatro idiomas. Abandonou o curso de medicina pra vagar pelas ruas do Rio Vermelho quase irreconhecível com seu kit mendigão: roupas nudes zurrapa (a gente não sabe se é sujeira, se a roupa é velha, doada, de brechó ou se é estilo mesmo), sandália de couro, tatuagem da Shiva e Che Guevara e dreads com cheiro de lavanda, ofertando pulseirinhas e colares de linha e palha que ele produz cantando Nirvana sentado no chão perto do semáforo do Point do Japa. Por que mudou assim de uma hora pra outra? “Precisava de tempo livre pra me encontrar, me entender, fazer meu disco, minhas caminhadas, beber meus chás”. E seu disco é sobre o quê? “Eu quero esse tempo justamente pra descobrir, pra ter inspiração”. Mas, na maior parte do tempo, ele estava cercado de gente muito parecida com ele, com um baseado e bebendo sobras de São Jorge, achando que Woodstock foi ontem. Até quando?

Desde o fim da adolescência (isso há nove anos) até há poucos minutos, eu ouvi que precisava trabalhar mais e mais e mais e ter que refazer de novo e de novo e de novo. E que eu não teria tempo (nem dinheiro na conta) pra escolher trabalho A ou B. Seria eu uma pessoa explorada enquanto esses meus amigos despertaram pra um “mundo ultrajovem onde todo mundo tá cansado de viver num sistema trabalhista sacana, então vamos morrer de fome e achar tudo isso bonito”? Seria eu um velho, chato e resmungão só porque nasci na geração conectada, com os olhos vidrados e os dedos tocando a tela, e que acha que “tudo tem seu tempo e agora preciso me concentrar nesse projeto”, mas isso é um absurdo?

Meus amigos da mesma geração que eu não têm e não fizeram metade do que fiz na vida. Talvez, se eu fosse igual a eles, estaria agora sem freelas assistindo Netflix o dia inteiro e compartilhando meme de signo no Twitter. Ou no Facebook postando textões políticos com frases de efeito. Ou no Instagram fazendo selfie com cara de ryco e phyno em alguma piscina de hotel de luxo. Ou numa dessas raves que todo mundo vai pra cadeia e todo mundo tem overdose e some e ninguém mais ouve falar. Talvez eu largasse tudo pra rodar o mundo “porque é muito fácil, basta querer”. Ou eu processasse todos os meus chefes porque eu almocei em frente ao computador porque não deu pra cumprir o deadline. Ou passasse o dia inteiro, durante sete anos, na graminha da Ufba, sem saber “por que e pra que eu faço esse curso”. Ou saísse por aí gritando em postos de combustíveis ou levasse setenta gatos de rua pra casa ou estivesse encrencado em relacionamentos abertos e poliamorosos ou, por fim, chorasse em frente ao espelho do banheiro com meu cabelo azul ultrajovem “porque esta vida é difícil pra cacete”, mas na real é porque não aguento quinze minutos de responsabilidade.

Todos os dias agradeço com um sorriso de canto a canto por ter arriscado e engolido alguns sapos e trabalhos que eu nem sabia por onde começar de tão tediosos. Eu já sofri com emprego cretino e chefes burros, loucos e escrotos, mas digo com toda certeza: valeu a pena cada segundo.

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