Taquepariu, tô a cara do meu tio Bebeto!

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Meses atrás eu estava com os cabelos com tons claros, num corte undercut, morava com um amigo numa casa enorme na Barra, frequentava uns lugares descolados e recebia pelo celular, diariamente, dezenas de convites sem rodeios pra um bom sexo sem amor nas noites de sexta (ou sábado ou domingo ou segunda…). Era uma vida muito parecida com a que levei desde que fiz dezoito anos (o que me fazia, trilhões de vezes, pensar, agir, falar e me vestir como alguém com dezoito anos), mas eu já tinha vinte e cinco.

De repente, no comecinho dos vinte e seis, fui tomado por uma raiva, por um ódio, por um nojo, por um enjoo de tudo, de todos e de como eu me comportava, só não consegui sentir raiva, ódio, nojo e muito menos enjoo por bebês, poodles e varandas decoradas de amigos maduros. No meio de tanta coisa que o mundo me ofertava, o que me fazia romantizar a vida com emoção era encontrar cachorros com a língua pra fora no calçadão da orla, flagrar a sonolência de amigas grávidas e a minha insana admiração por varandas de prédios altos com luzes de pisca-pisca de Natal. Falei pra minha psicóloga que estava cansado de ter dezoito anos e que, finalmente, queria assumir meus vinte e seis. Ela sorriu animada ao saber que, finalmente, meus seiscentos e cinquenta e sete reais mensais estavam funcionando pra alguma coisa.

Cortei meu cabelo mais formal, bem curtinho e desfiado, estilo “gente, olha só como eu estou mais elegante e discreto”. Comprei uns sapatos novos Peter Pan, estilo “eu sei, eu sei, não vou negar: tô um gato, amorzinho”, saí num sábado à noite pro La Taperia (lugar que só frequenta gente elegante e discreta), querendo gritar pro mundo “engula meu bom gosto, seus bregas” e doei todas as minhas roupas “porra louca, adolescente, emocore, listrada, quadriculada, e casacos bonitinhos, mas sem frio pra usar em Salvador” pra caridade (ok, tudo mentira, vendi num bazar pela internet) e engordei dois quilos (ok, tudo mentira, foram quatro and couting).

Troquei dois caras do jornal que trabalho (um repórter casado e um estagiário pau amigo) por um mozão que se esparrama no meu sofá reclinável e me manda “resolver” o peixe grelhado dele, enquanto recebe “uns caras do trampo”, queima minhas revistas do mês com bituca de cigarro, tira da minha novela das nove e coloca em algum “episódio foda” de Game Of Thrones.

Ao invés da tatuagem que sempre quis fazer, meu peitoral ganhou flacidez. Se existe pecado e existe castigo, a flacidez no peitoral é o recheio na torta da vingança divina do sedentarismo.

Me olhei agora no espelho, com um roupão de seda de tiozão, e dei um grito bem alto: “taquepariu, tô a cara do meu tio Bebeto!”. E o pior é que eu não tenho nenhum tio chamado Bebeto. No mesmo segundo, eu quis voltar a ser aquele que eu era. Resolvi colocar mais três tatuagens e um alargador de dezesseis milímetros. Rasgar todas as minhas roupas e sair no estilo “deu na telha”, exatamente como na época que eu era estagiário de jornal.

Todo rapaz gay na putaria, em algum momento dos vinte e poucos anos, sonha com uma vida sossegada em que ele possa ser bem careta em paz à la tio Bebeto. Todo tiozão gay com a vida sossegada, tipo tio Bebeto, em algum momento, sonha ter cabelos com tons claros, num corte undercut, morar com um amigo numa casa enorme na Barra, frequentar uns lugares descolados e receber pelo celular, diariamente, dezenas de convites sem rodeios pra um bom sexo sem amor com um bando de cafajestes. Todos os dois tipos de homens são francos, desacreditados na vida e esperam por alguma coisa que nunca chega.

Nenhum gay romântico, sincero, neurótico, apaixonado e intenso é feliz.

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