Como ser amigo de um homem lindo

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Acho que de todos os exemplos, o do cabelo é o mais desumano. Ele tem um cabelo que parece ter feito mechas, meio claro, meio médio, meio loiro, liso, com uns cachos grandes nas pontas, extremamente brilhante. No sol, o brilho e a cor ficam mais vivas e todo mundo sempre quer saber: “que cor incrível é essa?”. E ele responde: “Nunca pintei, acredita?”. E diz que já enjoou dele. Que talvez pintar seja uma boa. E fecha a cara meio depressivo. O cabelo é tão maravilhoso, mas tão maravilhoso, que pra cuidar ele usa xampu vagabundo, daqueles de mercado que não passam de dez reais. E os meros mortais torrando todo o salário com centenas de fórmulas da Europa pra conseguir sair de casa sem parecer um mendigo da Praça da Sé.

Ele aparece na piscina da casa de uma amiga apenas com um short que favorece a barriga enxuta e as pernas torneadas. Não é academia, nem pilates e muito menos Crossfit. “Que dieta é essa? Chá verde, hibisco, chia?”. E ele responde: “nenhuma. Só como besteira, acredita?”. Aí coloca um Ray ban e exibe sem querer exibir o belo corpo na espreguiçadeira. Todos, inclusive eu, querendo morrer com bochechas e pancinhas.

Quando chamo ele pra me acompanhar na padaria, ele diz: “me dá vinte minutos pra eu me arrumar, não posso sair feio do jeito que estou” e eu fico olhando e pensando que nem em uma semana num SPA, eu alcançaria a perfeição que ele é capaz de ter apenas de regata, samba-canção, cabelo bagunçado, barba por fazer, chinelo e creme de limpeza na cara. Ter como melhor amigo um homem lindo é receber um soco na boca do estômago todos os dias. É mentir que não tem azia, é inventar que você jamais usaria base líquida pra esconder manchas de espinha. Você atrasado, a padaria ao lado… e ele vem, lindo, com creme de limpeza na cara e samba-canção, e termina de te socar. E você apenas sorri: “tá bom, migo, eu espero…”.

Quando ele tá meio bêbado e fica desolado (sim, gente bonita também tem angústia), ele sempre lembra de algum amigo que sumiu. E enche os olhos de lágrimas, com saudade. Mas também, né? É preciso muita autoestima, força de vontade e masoquismo pra estar ao lado de uma pessoa tão bonita quanto ele. Ele diz: “não entendo, Gabriel vivia aqui, saía todo final de semana comigo, de repente… sumiu”. E eu imagino, com vontade de falar em voz alta,  que “antes de sumir, o coitado do Gabriel deve ter tentado cirurgias plásticas, terapia, cremes, drenagem, ácidos, peeling, dietas, exercícios… quando viu que nada dava jeito, o melhor mesmo era fazer de conta que você não existe”.

Mas acho que mais cruel do que ter a companhia dele é não ter a companhia dele. Vai sempre aparecer um desgraçado do outro lado da pista que me vê entre ônibus e corre no meio da rua pra falar comigo. “Murilo, quanto tempo!!! Precisava MESMO falar com você”. E eu já imagino que falar comigo é falar sobre meu amigo lindo. É sempre pra perguntar se meu esteticamente afortunado amigo que viram na festinha de sábado está finalmente solteiro. E ficamos então parados no meio da calçada num papo cíclico. Lindo, né? Meu Deus, muito. Bem lindo mesmo. Porra, lindo pra caralho. É, nossa, lindo demais. E a boca? Nossa… E então eles começam a pedir Facebook, pedir pra apresentar, pedir pra levar na outra festinha de sábado. Só pedem. E eu já nem ligo mais, mas no fundo sempre ligo.

Em outubro do ano passado fui ao show do Bailinho de Quinta. Comprei uma roupa nova, tadinho. Me arrumei todo, tadinho. Deixei a barba alinhada, tadinho. Usei um perfume caríssimo. Tadinho. O cara que eu tava saindo até gostava de mim, até falava que “nossa, como eu não te conheci antes?”, até me achava bonito, mas eu lembro do segundo exato em que ele, ao notar meu amigo numa camiseta cinza sem sal (lindo mesmo numa camiseta cinza sem sal), dividiu o mundo entre antes e depois. E eu ficaria o resto da eternidade no antes.

Ir aos lugares ao lado do meu estonteante melhor amigo é aceitar pra sempre não ter o pódio. É ficar satisfeito pra sempre com o prêmio de consolação. É escolher pra sempre ser “o rapaz ao lado”, “o amigo do”, “o outro”, “aquele que tá com”. É me fantasiar de Carmen Miranda em dias comuns e ainda estar tão longe do centro das atenções. É ensebar a franja de tanto que dói não ser notado pelo resto do mundo.

Em nome de uma vida mais digna e sem humilhações, eu poderia, assim como fez Gabriel e uns 70 amigos mais frágeis, ter sumido. Mas o negócio é que na madrugada de uma sexta para sábado, me dopei com Dramin, Rivotril e outras dezenas de remédios para dores musculares e fui dormir. Eu estava com febre emocional por causa do fim do meu namoro e a única coisa que eu queria era acordar depois de vinte dias. Foi aí que a belezura universal em forma de melhor amigo teve por mim uma paciência jamais vista nem nos dias mais doces da minha mãe. Ele foi até a minha casa e cuidou de mim. Dormia e acordava de meia em meia hora para ver como eu estava. E eu, às 4h55 da manhã, estava ainda muito drogado, mas pude acompanhar suas pernas incrivelmente torneadas dando passinhos lindos pelo corredor, tudo pra ter certeza que eu ainda estava vivo.

Em nome de uma vida mais digna e sem humilhações, eu poderia ter dito “gatinho, não dá mais, fui, tô vazando, quero que você e a sua beleza incrivelmente fantástica sejam para sempre felizes lá na putaqueopariu”, mas o negócio é que o Deus Grego é a porra do meu melhor amigo. É ele quem me liga todos os dias pra saber como estou. É quem segura minha mão quando eu faço endoscopia. É quem se importa de verdade com a minha vida, os meus projetos, enjoos, colites intestinais e crises emocionais.

Gente muito bonita sabe que, em seu triste carma de perfeição solitária, só lhe resta ser tão gentil, mas tão gentil, que o gentil seja ainda mais superior do que sua barriga enxuta, sua pele hidratada, seu cabelo incrível e sua batata da perna. Já o homem como eu, “inteligente e engraçado”, rótulo que nos dão no ginásio e o qual nos agarramos por toda vida, cabe calcular o benefício disso e transformar o resto em piada.

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