Até quando você vai brincar de ser louquinho?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Semana passada marquei um café com um amigo no Glauber Rocha. Volta e meia discutimos em festinhas, bares, telefone, rede social. Falamos umas coisas horríveis em grau que ultrapassa o nível escroto e sumimos — comportamento típico de quem se ama e se conhece muito. Mas, nesse dia do café, a gente conversou sem brigar. Até que ele me disse a grande lição do dia: “chega uma hora na vida que você precisa deixar de ser um leão pra poder manter amigos, emprego e relacionamento. Ou você pode escolher devorar todo mundo e viver sozinho”.

No meu último freela, quando fui comunicar que eu não prestava mais pra trabalhar ali, e por isso estava desistindo do trabalho, ouvi do meu chefe: “não quer ficar, tudo bem. Mas não esquece: toda essa sua mania de ser louquinho e falar o que pensa não vai te levar a lugar algum”. Meu ex-namorado uma vez me disse: “essa sua capacidade de sempre achar que está certo consegue te fazer mais arrogante do que você já é”. Uma amiga, dessas que a gente confia muito, me disse: “quem briga por tudo, acha que pode tudo e quer controlar tudo, na verdade só está tentando provar pra si mesmo que não é um merda”.

Já caguei pra tudo isso que me disseram. Já senti muita raiva, já chorei, já cheguei a dizer que nenhum deles me entendia. Mas acho que, no fundo, todos eles têm razão. E venho tentando — com respiração e autoanálise e terapia e oração e mantras e escrita — ser uma pessoa mais equilibrada e paciente, uma pessoa menos impulsiva e pesada.  Mas a verdade é que eu detesto o equilíbrio, a paciência, o controle e a leveza. Caramba, se eu tô puto, eu tô puto! Não dá pra fingir que não tô puto e sorrir amarelo pro mundo. Se eu tô com ciúme, não vou fingir que tá tudo bem e “agora não” e “não estraga” só pra parecer seguro, controlado e bem resolvido.

Se o cara que levanta a mão numa reunião é um filho da puta e fala besteira o tempo inteiro, eu não vou engolir o discurso calado, eu vou mais é esbravejar, berrar, liberar todo o ódio de dentro do meu estômago: você, com seu discurso bosta, é um grande filho da puta! Se a vaca que atende na pipoca do cinema me tratar mal, eu vou mais é falar mesmo que ela é uma grosseira e mal-educada e nem deveria estar ali. O sangue ferve a ponto de fazer bolhas aqui dentro, o suor desce em litros por puro nervosismo, e eu não quero fingir de jeito nenhum que nada tá acontecendo e tudo bem guardar essa raiva e tudo bem mostrar pro mundo que você não peita e tudo bem aguentar um pouquinho.

Eu não quero contar até mil, eu quero esmurrar a porta do elevador se ele demora três segundos pra abrir. Quero morder a orelha do meu namorado que apenas joga videogame e se esparrama no sofá, seguro e relaxado de tudo, enquanto eu me desfaço em prantos porque amar é complicado pra caralho. Eu não quero largar o carrinho e ter que sair pra respirar na porta do supermercado, eu quero que a menina do caixa pare de bater papo com a outra que não para de bater papo com mais duas que não param de bater papo e que todas elas atendam as três mil pessoas na fila. Quero colocar TODAS as pessoas do meu trabalho que falam MuLiro colocando o L no lugar do R, achando isso engraçadíssimo, dentro de um quarto fechado e abrir o gás. E não tem como fazer tudo isso sem ser olhado como arrogante, louco, dono da verdade, cruel.

Eu sou antipático mesmo, eu sou insuportável mesmo. O mundo tá cheio de gente burra e brega e eu tenho todo o direito de não querer olhar na cara delas. Não tô fazendo mal a ninguém, só tô fazendo bem a mim mesmo.

É tão triste saber que vocês esperam o fim de semana chegar pra colocar uma roupinha da moda e morrer esperando na fila de uma daquelas festas idiotas da Commons. É tão triste ver todos vocês voltando pra casa sem saber o que fazer daqui a dez minutos. Voltando vazio pra casa, com ressaca e o corpo entupido de fumaça de cigarro, acordando de manhã sem nada na alma.  É tão triste ver todos os casais que não se amam, mas já estão há dez anos juntos por puro comodismo e só sobrevivem pra fazer concorrência a outros casais que só sobrevivem pra fazer concorrência a outros casais. É mais triste ainda aceitar que as contas do final do mês (e isso inclui condomínio, SKY, GVT, Netflix) valham a minha bunda sentada mais de sete horas por dia que só me faz lembrar o tempo inteiro o quanto eu odeio essa gente que se acha cult porque fez um curso enrolation no exterior, mas nunca leu metade dos livros que eu já li e não tem metade do meu portfólio.

Parem de achar que tá tudo muito bom, humanos filhos da puta. Parem de sorrir pra tudo, de gostar de tudo, de ser feliz com tudo. Confessem que vocês não fazem a menor ideia do que fazem nesse universo. Confessem a raiva de estar feio, e confessem que estar bonito, depois de tanta produção, não adianta merda nenhuma.

Mas eu não movo um dedo. Eu continuo sendo como todos eles. Eu continuo esperando o fim de semana pra usar uma merda de roupinha da moda, numa festinha hipster da moda, no meio de um monte de merdas com óculos de aros grossos e camisa xadrez que se parecem comigo. Eu quero o cabelo fedendo a cigarro pra ser bem aceito porque, quando você faz parte de um grupinho, a dor não existe. E se existe, ela não é visível. E, no fundo, todo mundo sabe que a dor existe, mas é melhor que ela seja invisível mesmo. E eu sigo voltando pra casa vazio, acordando no dia seguinte perdido, sozinho, triste, com ressaca do álcool e da vida, achando tudo falso, pequeno e banal. Acordando mais uma vez, todos os dias da minha vida, sem saber direito o que vai ser daqui a dez minutos.

Assim é a vida. Você dá mais um gole na Coca-Cola pra não reparar que o bonitinho da mesa ao lado se interessou pelo seu namorado, e seu namorado, como qualquer ser humano normal, gostou do bonitinho ter gostado. Você revira o Spotify inteiro pra não reparar que a menina de treze anos, se pegando em frente à escola com um cara escroto de 28, já tem malícia, mas não sabe escolher sapato. Você inventa, se desculpa, passa a vida cego para poder viver. Porque enxergar a vida como ela é, cá pra nós, dói muito e enlouquece, e louco acaba numa poltrona, de um sobrado vazio, reclamando com gato.

Você passa a vida sem poder enxergar, mentindo, não dando importância, perdoando, teatralizando o personagem que sempre precisa dar a volta por cima, que sempre controla, que sempre espera, e nunca desce do salto. Só que o esse salto um dia quebra, e você morre sem nunca ter vivido, sem nunca ter gritado, e você deixa de existir porque não sabe gritar. Você é mais um bonitinho produzido na fotografia de mais uma festa produzida, é um coadjuvante insosso dessa palhaçada de teatro que é a vida.

Você aceita voltar pra casa dez da noite, depois de mais um dia estressante no trabalho. Você aguenta mais um artigo da faculdade. Você suporta mais dez minutos na fila do Restaurante Universitário. Você aceita a vida, porque é o que a gente acaba fazendo, no fim das contas, pra não se jogar do prédio ou jogar algum imbecil que escuta você reclamar horas sem fim das raivas e incertezas da vida e responde sem maior importância: relaaaaaaaaaaxa! Eu não vou usar nenhuma droga, eu não vou beber até passar vergonha no meio de uma festa, eu não vou dançar a noite inteira pra fingir que não tenho problema,  eu não vou engolir, eu não vou desistir de querer me encontrar, de saber em mais uma terapia que porra é essa que me entristece tanto dia após dias, de tentar entender por que eu nunca me achei normal. Eu não vou relaxaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar.

A única coisa que me deixa calado e, vez ou outra, me transforma em alguém incrivelmente normal é que ser um louquinho, que fala o que pensa, só vale a pena se você tiver alguém, no fim do dia, pra contar o quanto você faz a vida valer a pena.

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