Homem babaca gosta de sacanear em bando

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Estou numa mesa do Salvador Dalí com meu namorado e uma amiga diretora de teatro. Almoço importante pra argumentar o roteiro de uma peça que estou escrevendo. Quero pedir um suflê de queijo, mas o diabo é que queijo tem me dado enjoo. Quero pedir um camarão ao molho de limão, mas o diabo é que limão tem me dado gases e refluxo. Reviro o cardápio doze vezes e nada. Hoje nada nesse restaurante me agrada.

Penso em voz alta, ao que parece, porque, ao fim do meu pensamento, todos estão sem graça na mesa e o garçom me olha feio, sorrindo com simpatia forçada. “Tenho certeza que o senhor vai gostar do arroz de polvo com trindade de filés”. Eu é que não sou louco de não aceitar. Eu é que não sou louco de bancar o antipático e despertar ódio em garçom.

A menos de um metro de distância da minha mesa, cinco ou seis marmanjos, com seus vinte e três a vinte e seis anos, falam alto e dão risada alta e bagunçam o cabelo um do outro e se xingam e contam umas piadinhas particulares e falam histórias picotadas que ninguém entende e ninguém tem interesse em entender. Todos aparentam ser felizes, descontraídos, sem problemas, com o mesmo tênis de skatista e camisetas da mesma marca. São soltinhos, sem culpas nem traumas. Umas gracinhas.

O barbudo de camisa listrada, o que está ao lado do surfista, me olha intensamente a ponto de me deixar sem graça. E comenta alguma coisa no ouvido do de camisa amarelinha. E me olha novamente. Não consigo conversar com meu namorado e minha amiga. Mas se eu não estudei com esse menino, mas se eu nunca fiquei com esse menino, mas se eu nunca vi esse menino na minha vida, por que esse menino me olha desse jeito intenso? Isso tudo é coisa da minha cabeça. Minha cabeça, sempre muito rápida e esperta, ironiza: mas existe alguma coisa do mundo que não seja coisa da sua cabeça, Murilo? Chega. Dou bronca em silêncio pra mim mesmo. Chega.

Ele tá a fim de mim, é isso? Não. Amizade instantânea algum dia em mesa de bar? Não. Amigo de amigo que viajou comigo há dez anos pra um acampamento com quinze adolescentes e um banheiro? Não. Sorrio pra ele na esperança infantil dele sorrir em retribuição e tudo ficar bem. Se ele sorrir, amigável, pronto, acaba, minha mente neurótica descansa feliz. Se ele sorrir, jocoso, deve ser amigo de algum ex-namorado meu que falou mal de mim. Ele não sorri, ele apenas me encara. Puta merda. E me encara forte, sem desviar os olhos, profundamente. Eu sorrio mais, eu sorrio além da conta. Pelo amor de Deus, amigo, sorria de volta. Vamos, sorria e me liberte. Sorria e me diga quem é você. Ele sorri.

Mas ele sorri em bando. Dois disfarçam, mas riem com a cabeça baixa. Agora todos me olham e riem descontroladamente. Ouço batidas nas mesas. Certeza que estão me sacaneando. Ele então fala baixinho no ouvido do cara de dread. Coisa de cinco segundos. Sim, sim, sim: está falando de mim. Um cutuca o outro. Um mostra o celular pro outro e vai passando o celular na roda até que chegue na mão do último e volte para o primeiro. Tem sacanagem aí. Bando de palhaços.Toda gozação de homem babaca é feita em grupo. Homem babaca, sozinho, não sabe sacanear. Homem babaca gosta mesmo é de sacanear em bando. É mais interessante mostrar pros amiguinhos que ele pode ser sacana. Bando de palhaços.

Ao final do almoço, meu namorado vai buscar o carro e minha amiga vai ao banheiro. Estou sozinho. Ele levanta da cadeira e se aproxima até a minha mesa. Meu coração a mil. Eu quero saber qual é a piada. Mesmo. Ele nem me conhece, olha pra mim e já vai rindo assim? Ele então me surpreende, senta-se na minha mesa, respira profundamente, ajeita-se na cadeira. O que é que esse homem quer? MEU DEUS. O grande momento chegou. É agora que ele vai abrir o jogo e contar toda a sacanagem que ele e os amigos estão armando pra mim.

Mas, ao invés disso, ele estende a mão, lindo. E aperta a minha mão. E me abraça muito forte. Meu Deus, quem é esse homem? É agora. Ele se aproxima e diz bem devagar e baixinho no meu ouvido: “você é Murilo, né?”. E me entrega um bilhete com seu nome e número de telefone. “Eu sou seu leitor. Eu acompanho seus textos sempre. Eu amo tudo o que você escreve. E sinto muito por esses caras sacanas que você se relaciona. Meus amigos estão rindo porque eles acham que eu estou louco. Mas eu mostrei sua foto que está na sua coluna da internet”, ele confessa. Eu sorrio, finalmente, aliviado. Ele continua: “E posso te dizer uma coisa? Você é muito louco. Mas que homem não se apaixonaria por você e pela sua loucura?”.

Meio vesgo, meio errado, numas preguiças que só

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Todo mundo é um pouco vesgo, comentou um amigo quando percebeu que eu estava certo: meu olho esquerdo, na foto, deveria ser mais para a direita, mais centralizado. Será que eu mexi os olhos na hora do clique? Não, não, eu tenho certeza que não. E esse mamilo do peito direito? Não era pra ser mais redondinho igual o mamilo do peito esquerdo? Mas o que me incomoda agora, que eu fiz vinte e seis anos, não é exatamente o fato de ter um dos olhos tortos como todo mundo, não é exatamente o fato de ter uma parte do meu corpo meio errada como todo mundo, mas o simples fato de eu ter descoberto que era tudo mentira. Era mentira que a vida se resolve depois dos vinte e cinco. Com dezoito anos a gente acha que tudo vai se resolver depois dos vinte: nosso corpo e nossa autoestima e nossa conta bancária e nosso peito vazio e nossa vida amorosa e todo o resto de faltas que não são de vidas amorosas e de nada disso que a gente sabe o que é. Era mentira.

Mas eu continuo meio vesgo, meio errado, e se bobear a coisa só piorou. Pior: finalmente eu me toquei e tenho certeza que não estarei menos vesgo aos trinta. Nem aos quarenta. Nem aos cinquenta. Muito menos aos sessenta. Essa imensa e absoluta transformação era tudo coisa da minha cabeça aos dezoito. E aos vinte e seis, em plena imensa e absoluta transformação, eu descubro isso. Todo mundo é um pouco vesgo, penso enquanto como cereal com leite e decido não ir nem a pau ao Rio Vermelho. Ando mais do que meio vesgo, ando enxergando o mundo meio torto e isso me dá tontura, prefiro curtir a novela das nove esticado no meu sofá. Vezenquando fico numas preguiças que só. Vezenquando eu troco gente por TV.

Sábado, a Rua da Paciência lotada de jovens que dançam no meio dos carros. O que eu vou fazer lá? Dançar no meio dos carros no Point do Japa igual a todo mundo só pra chamar atenção e afirmar que sou jovem? Confirmar pela milésima vez que odeio multidão e odeio esse clima de paquera cheio de plasticidade? Tentar falar sobre algum assunto com alguém que puxa assunto, mas não tem assunto? Tô fora. Não li esse monte de livros e não repensei milhões de vezes a minha existência pra ser reduzido a isso. Dançar as mesmas músicas e ver as mesmas pessoas. Que graça tem?

Zapeio os canais da TV a cabo. Fotos e fotos no Instagram de gente na balada. Convites, por WhatsApp, pra sair. Chats e chats querendo saber onde você está. A solidão da noite de sábado te convida o tempo inteiro pra abandonar o silêncio e aguentar o silêncio no meio do barulho da boemia. Aí uma voz chata pra cacete grita dentro de mim: Sai dessa. Se arruma. Você vai sim, seu velhoto encalhado. Que ficar esticado no sofá que nada. Novela? Tá doido? Enquanto o mundo faz sexo você vai passar mais um sábado vendo novela? Vou. Vou sim. Porque tô me lixando pro mundo que faz sexo.

Aí eu tomo banho. É tão simples: colocar o pijaminha e dormir. Pelo menos eu não passo o domingo de ressaca. Saio do banho super decidido a não ir ao Rio Vermelho e… é, eu sofro em colocar um pijaminha em plenas nove horas da noite. Cedo, né? O mundo inteiro faz sexo e eu aqui com esse pijaminha feio. Como é que eu vou arranjar alguém desse jeito? Não vou. Essa coisa de que a gente só conhece o homem certo durante o dia. Sei não. Quem é que vai me parar na padaria e dizer: “oi, lindo. Vamos nos conhecer agora que é dia?”. Todo mundo só paquera bebendo cerveja. Não rola. E no trabalho? Não rola. Na época que eu era repórter de jornal fiquei com todos os meus colegas e estagiários e assessores de imprensa e publicitários e os meninos da arte. Mas agora, escritor, com quem eu vou flertar se trabalho sozinho em casa? E digo mais: pegar geral combina com dezoito anos. Com vinte e seis você começa a chorar quando vê sua melhor amiga grávida, seu melhor amigo casando. Chorar em casamento. De raiva ou de inveja. E, principalmente, chorar porque ainda não tem perspectiva de casar e nem de ter filhos.

Tudo bem. Então eu vou. Troco o pijaminha feio por uma calça da moda. Vai que. Vai que hoje conheço alguém legal. Eu sei, nos últimos dez anos de balada (comecei com dezesseis) nunca conheci. E olha que na adolescência qualquer um que desse um sorriso e se vestisse mais ou menos e fosse cheiroso tava valendo. Mas vai que. Não? Não, Murilo. Pensa bem. Pra que perder tempo escolhendo roupa? Pra que perder tempo querendo parecer com todos esses meninos que se parecem com você? Olha sua caminha lá. Tá vendo? Tá te esperando. Seus livros. Suas séries. Sua novela. Seus filmes. O creminho de fazer massagem nos pés. Tá vendo a luzinha do modem? 100 MB de internet e você pode rodar o mundo. Pra que lavar o cabelo se você vai voltar fedendo a cigarro? Pra que ver gente que se odeia fazendo uma coisa que só as pessoas que se amam muito deveriam fazer juntas: tentar ser feliz. Aqueles mesmos meninos se pegando nos mesmos cantos. Um bando de gente perdida, confusa, andando pelas ruas feito baratas tontas no calor. Em busca de alguma coisa. Mas que coisa, gente? Amor é que não é. Ou é?

Meu Deus, o que mais me dói é lembrar que eu tinha certeza que já estaria fora dessa vida com vinte e seis anos. Como eu sou típico. Como eu sou o estereótipo da minha geração. O jovem adulto urbano brasileiro antenado conectado que não consegue sair da bolha de jovens adultos urbanos brasileiros antenados conectados. Eu sou como todos eles: um misto de cultura literária e entretenimento pop. Triste.

Depois dos vinte e cinco? Eu pensava. Já vou estar formado, com um emprego fixo, planejando o meu casamento. Escolhendo a minha casa. Fazendo as minhas compras. Bem resolvido. Cozinhando. Feliz. Sem medo que minha mãe morra. Com a voz firme. O abdômen enxuto. E vou ajudar alguma instituição de caridade. E vou ter bunda. E vou ter cara, roupas e postura de homem.

Mas eu tive que fazer uma segunda faculdade pra me sentir completo, eu vivo de freelancer pra sobreviver, meus relacionamentos são tão instáveis que podem acabar no próximo minuto. Eu continuo sem bunda. E ainda não posso sair da casa da minha mãe porque, como falei, vivo de freelancer. Eu não sei ligar uma máquina de lavar sem antes perguntar para a minha mãe se tá tudo certo. Eu não sei cozinhar sem antes perguntar para a minha mãe se tá tudo certo. E, por ter mencionado três vezes a minha mãe só nesse parágrafo, já deu pra perceber que ainda faço terapia por puro medo que ela morra. O que um ser com idade mental de adolescente vai fazer num mundo sem mãe?

Mas eu não vou ao Rio Vermelho. Nem a pau. O mundo inteiro tá fazendo sexo agora e eu não tô nem aí. O mundo inteiro faz sexo toda hora e eu não tô nem aí também. Eu não vou. Decidi que eu só vou beber se eu estiver bem acompanhado. Restaurante chique. Ar condicionado. Música boa. Roupa mais adulta. Falando assim me toco que pareço alguém com mais de vinte e cinco anos. Rio Vermelho é pra quem tem dezoito. Ou vinte. Beber a dois num barzinho calmo do Centro é pra quem tem vinte e seis. Mas aí está o problema. Perceberam? Eu não tenho, nesse momento, ninguém para dividir comigo as maravilhas e as incertezas de se ter vinte e seis anos. Então, acabo me perguntando: será que eu não deveria ir ao Rio Vermelho?

Eu não sei amar em doses homeopáticas

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Começou quando você sorriu pra mim naquela festinha cheia de jornalista que discutia política e eu achei tudo tão chato e sonolento e quis voltar pra casa. Os amigos da assessoria de imprensa que você trabalha continuaram rodando pelo apartamento, criando novelas políticas, bebendo e rindo como idiotas, e você parou do lado da fruteira, com uma daquelas suas camisetas descoladas da Osklen, e ficou ali, em pé, observando em silêncio. E você me olhou. Você enxergou alguma coisa bonita em mim e eu te amei sem pensar.

Como um menino que fica esquisito quando está aprontando, você disfarçou um pouco e se encostou ao meu lado. E cochichou alguma coisa no meu ouvido que não deu pra entender muito bem, algo como “te conheci hoje, mas sinto que nos conhecemos há vidas”. E eu achei a frase tão clichê e medíocre e podre e brega, mas você encostou a mão na minha cintura, de leve, e eu te amei pra sempre. Depois você pediu desculpas por ter que levantar, e foi até a cozinha. E voltou com duas garrafinhas de cervejas e quis saber se eu era uma destas pessoas chatas que não bebem cerveja. E eu ri porque você sabia que eu bebia cerveja. E você riu porque sabia que eu sabia que você sabia que eu bebia cerveja. E a gente riu junto, tão alto, e todo mundo percebeu, pela forma como a gente se olhava, o que acontecia entre a gente.

Eu te amava com uma mistura de todos os personagens que criei, de todos os homens incríveis que construí na minha cabeça desde a infância e, por isso, tão intensamente. Eu era um rapaz deslumbrado que gostava de ver seus projetos por aí, era um rapaz carente que gostava de ver em você o homem certo pra ser o pai dos meus filhos, um rapaz neurótico em produção que ficou produzido com você, um depressivo-claustrofóbico que se sustentava das suas piadas que deixavam tudo leve e tudo livre, até sua falta e impossibilidade eu gostava com a maior força do mundo. Eu te olhava de cima, interfonando pra minha casa, e tinha vontade de voar pela janela. Eu queria grudar em você pra sempre, eu queria as saídas sem volta pra casa, eu queria as viagens que não acabavam. Até que cheguei ao ponto de te amar sem ter motivo aparente. Eu simplesmente amava você pelo simples prazer de amar.

Eu nunca consegui dormir de verdade ao seu lado pra não deixar escapar nenhum dos segundos passageiros e maravilhosos que você me dava. Eu prestava atenção nas batidas do seu coração, na sua respiração calma. Eu queria sua mudança num caminhão parado na esquina do meu prédio. Eu queria suas malas imensas e seus espaços vazios falsamente sossegados no canto pichado de um corredor morto e escuro, esperando a minha vida, a minha luz.

Agora elas estão lá, em algum caminhão, em algum corredor, tanto faz, eu nem sinto vontade de saber onde. Por que você sempre me achou louco quando a minha maior vontade era te arrastar pelos braços e fazer loucuras com você pelo mundo? Por que você sempre fez cara de tédio pra minha intensidade? Fazendo pouco caso das minhas urgências, amando sem imediatismo, testando gostar um pouquinho de mim nas horas vagas, gota a gota, degrau por degrau.

Um dia seu perfume começou a me dar enjoos, repulsa, um azedo na alma. Suas camisetas descoladas passaram a ser apenas camisetas. Depois seu jeito, uma preguiça de continuar gostando daquilo. Sua conversa, um tratamento ótimo contra a insônia. Era a vozinha na minha cabeça controlando tudo, me implorando pra que finalmente eu parasse de sofrer. Relacionamentos também morrem por causa de saudade, sabia? E eu tinha saudade de te amar transparente, de te amar querendo, de te amar grande.

Você sempre soube que a felicidade me escravizava e quanto mais eu ganhava carinho, mais eu ficava carente e implorava por carinho. Por isso você era um desses remédios tarja preta com efeito colateral. Você era, em doses homeopáticas, o homem mais carinhoso do universo e também a pessoa mais fria do mundo. Cheio no vazio, gigante no minúsculo, talvez no nunca, nunca mais todos os dias.

Mas agora você se entretém com as três passagens que comprou: uma para você e duas para o seu novo namoradinho, que de tão contemplado com músculos precisa de dois lugares no avião. Ele não me parece um ser neurótico que calcula pesos mentalmente, mas, se não for mesmo, cuidado: com tantos pacotes de albumina, creatina e whey protein, sua mala provavelmente será despachada.

Eu não quero saber se ele faz crossfit ou se toca não sei o quê em festa de fim de semana não sei onde. Não é inveja, não é ciúme, não é dor, é cansaço dessa superficialidade toda que me dá ânsia e vontade de vomitar toda a minha intensidade até ficar seco por dentro. Por que as pessoas são assim tão medianas e descartáveis? Por que é preciso criar uma listinha de razões pra não ser de alguém apenas pelo medo infantil de ir além? É bode de imaginar suas cascas grossas e as cascas grossas de quem você gosta um pouquinho. As cascas grossas que te protegem por fora, mas que te deixam oco por dentro. É nojo de saber que você e quem você gosta e o mundo inteiro que você vive amam assim: esperando, calmo, finito, desinteressado, saciado, morto.

Paris não é uma festa

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Um a um, eles vão chegando ao Meia Oito. As garrafas verdinhas sendo colocadas na mesa e, minutos depois, as garrafas verdinhas completamente vazias sendo enfileiradas no pé da mesa. O cinzeiro fazendo andares com cinco, nove, doze bitucas de várias marcas e cores de filtros de cigarros. Conversas e mais conversas sobre homem, cabelo, viagem, cinema, promoção de loja. Todo mundo na mesa tentando ser social, normal, simpático, com piadas totalmente adaptáveis ao ambiente pra parecer enturmadinho.

Pedro serviu a cerveja copo a copo. Abriu as pernas. Acendeu mais um cigarro. Depois, bebeu longos goles e reclamou do casamento de três anos. Tudo não está mais como antes. O sexo diminuiu e as responsabilidades aumentaram. Mas só são três anos. Cinco se contar com o namoro. Ele disse que sente saudade de quem ele não é mais. E que ele só tem vinte e sete anos. E que ter que pagar contas, todo mês, é um saco. Ele acendeu outro cigarro e fumou rapidamente. Tragos longos, profundos, com força. Um cigarro atrás do outro. Um trago atrás do outro. E, pra não parecer chato, mudou de assunto. Porque só ele falava na mesa. E todo mundo olhava com pena.

Daí, ele contou um pouco sobre o trabalho dele. E que ele pensa em pedir demissão do jornal que trabalha. E que o chefe é um sacana por ter promovido como editor um repórter mais novo e com menos experiência do que ele. E que ele cansou de escrever reportagens sobre saúde. E que ele não vai ao médico há anos. E que ele fuma muito. E que escrever sobre saúde e fumar e não ir ao médico é uma fusão entre a ironia e a hipocrisia. Ele bateu o cigarro, nervosamente, três vezes no cinzeiro, até que se apagasse por completo, como se precisasse se livrar daquilo. Depois, acendeu outro cigarro. Ele sabia que precisava mudar, queria mudar, mas não sabia exatamente o quê.

Camila serviu a cerveja copo a copo. Mudou de cadeira. Tirou a jaqueta jeans. Depois, bebeu longos goles e reclamou do calor e do trânsito e desses motoristas que estacionam na calçada e de pessoas que falam alto. Falou sobre os caras que sempre procuram ela quando nem ela lembra mais que eles existem. E que ela não entende essas pessoas que gostam de prolongar relacionamentos que sempre serão errados. E que ela não entende por que as pessoas perdoam traição. E que ela não consegue mais acreditar em homem algum. E que ela cansa de todos os caras logo no primeiro encontro. Depois, ela mudou de cadeira novamente. E contou pra todo mundo que se sente feia, gorda e velha agora que fez vinte e cinco anos. E que o corte de cabelo dela ficou horrível. E que o rosto está inchado. E que nenhuma roupa cabe nela.

E então ela reclamou que o mestrado é um saco, que nenhum filme em cartaz no cinema presta, que o dinheiro do mês tá acabando, que jornalismo em Salvador é feito por uma panelinha de gente que acha que sabe escrever. E depois ela bebeu mais um gole longo de cerveja. E ajeitou a roupa, o cabelo. E foi ao banheiro. E voltou usando a jaqueta jeans. E mudou de cadeira outra vez. Ela não se sentia bem e adequada em nada. Sabia que precisava mudar, queria mudar, mas não sabia exatamente o quê.

André serviu a cerveja copo a copo. Levantou da mesa. Atendeu o celular. Discutiu com alguém na linha. Voltou. Depois, bebeu longos goles e reclamou do ciúme do namorado. Que ele já não suporta dar explicação de tudo. O tempo inteiro. E que o namorado de agora não é como o namorado anterior. Que ele preferia o outro namorado porque era mais tranquilo. E que o de agora é totalmente inseguro. Mas, parando pra pensar, ele não foi feliz nem com o anterior e nem com esse. E que ele queria ter coragem de terminar tudo e ficar sozinho, de viajar por um tempo pra algum lugar que nem ele faz ideia.

Depois, ele levantou da mesa. Atendeu o celular outra vez. Discutiu com alguém na linha. Voltou. E pediu desculpas por toda hora ter que atender o telefone. Foi o namorado de novo querendo saber onde ele estava. Depois, evitando olhar pro iPhone, ele falou que podia fazer doutorado. Aqui ou em Portugal. Mas que ele queria mesmo era mudar de área, sair dessa coisa do jornalismo. Mas que ele tá sem saco pra estudar mais. E que ele tá sem saco pra esse mundo acadêmico. Escrever artigo é um saco, defender tese é um saco, aguentar professor falando numa aula de cinco horas é um saco, ter um namorado ciumento e possessivo é um saco. Que tudo é um saco. Ele sabia que precisava mudar, queria mudar, mas não sabia exatamente o quê.

Eu servi a cerveja copo a copo. Cruzei as pernas. Revirei a bolsa. E você, Murilo… E você? Oi? Eu o quê? Eu balançava as pernas por nervoso e bebia metade do copo da cerveja sem vontade, goles curtos, copo que nunca esvaziava. Eles, finalmente, descobriram que a felicidade é coisa momentânea. Que a vida adulta, num mundo cheio de convenções, é uma merda. Descobriram, finalmente, que é preciso trabalhar doze horas por dia e que nada disso traz recompensa, não à toa o mundo inteiro quer virar instagrammer, porque talvez seja mais fácil tirar foto à beira da piscina exibindo um copo de suco de alguma marca detox do que ter que encarar a realidade. Descobriram, finalmente, que pessoas traem, que casamento não é SPA, que pessoas boas sofrem em filas de hospitais, que inocentes morrem, que fatura de cartão de crédito chega e ninguém, além deles, vai pagar. Eles, finalmente, descobriram que Paris não é uma festa.

Foi então que entenderam, pela minha cara de “zero surpresa”, que a vida é essa escrotidão mesmo. Eu perdi completamente o deslumbramento com o amor, com o trabalho, com pessoas. Eu descobri que relacionamento cansa, trabalho não é diversão e pessoas bonitas mentem. Mas eles permaneciam, o resto da noite, com suas garrafas verdinhas enfileiradas, com suas bitucas de cigarro transbordando o cinzeiro, falando sobre todos os assuntos e comprovando mais uma vez que não eram felizes em nada. Falavam que o namoro deles é um porre. Falavam que o trabalho deles é um porre. Falavam que o lugar onde eles têm frequentado é um porre. Nos últimos meses, eu fiz as pazes comigo, com a vida. Eu consegui me livrar de tudo que atrasa. Minha vida não é um porre.

Todo encontro do Tinder é ficção

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

“Dizer ‘sim’ ou ‘não’ pra um rosto sem movimento é triste pra caralho”. Falei isso, enquanto avaliava perfis no Tinder, e minha amiga riu, revirou os olhos, disse que eu tava me comportando como um velho chato e cheio de moralismo. “Não é isso, mas para pra pensar: antes do ‘sim’ ou ‘não’, o Tinder não dá chance pro rosto sem movimento mostrar que existe profundidade. São fotografias cheias de efeitos de Photoshop e filtros e ângulos e poses e lugares descolados e roupas da moda. A gente tá sempre escolhendo ‘o melhor eu’”. Falei isso, enquanto lia a descrição do perfil de um menino, e minha outra amiga fechou a cara, fez barulho com a língua e os dentes, explicou que era assim que a modernidade se relacionava agora, ou eu me acostumava com isso ou eu estava fora do jogo.

Como folhear um cardápio, escolhi ele. Combinamos um encontro, sexta, às 14h, no Urbe, uma cafeteria na Consolação. Ele é branquelo e vive meio desempregado. Não gosta de nenhum emprego muito sério, não gosta de nenhum emprego que atrapalhe a viagem “com uns caras” pro Vale do Pati, não gosta de nenhum emprego que obrigue a cortar a barba, não gosta de nenhum emprego que tire ele de São Paulo. Em suma: tá sempre sem emprego. Mas no Tinder escreveu “paulistano cineasta” e colocou uma foto abraçado com uma torre de Heineken, fazendo careta, acompanhado da turma “faço cinema cabeça”. Os óculos espelhados, típicos de maconheiro, escondem 70% do rosto, deixando uma onda de mistério e galanteio.

Ele me conta que tá tendo umas ideias de projetos. Pensando em fazer um documentário sobre a seca no Nordeste. “Imagina que louco, Murilo, fazer um documentário sobre os encantos da cultura do povo que sobrevive na seca… Consegue imaginar?”. Eu balanço a cabeça, dou risada sem mostrar os dentes, incentivo, falo “nossa, que legal”, mas, no fundo, eu quero mesmo é encerrar aquela conversa, me despedir daquele desconhecido com papinho hipster confuso, pegar o metrô e voltar pra casa. Depois de passar duas horas falando sobre ele, os ex-namorados dele, os projetos de cinema dele, ele me conta que foi muito bom ME CONHECER, que “a gente vai se falando”. Eu quis encontrar nele a narrativa construída virtualmente. O homem que eu criei, editei, e que não existia. Foi tudo ficção.

Como folhear um cardápio, escolhi ele. Combinamos um encontro, sábado, às 14h, no Urbe. Ele é muito alto e passa os dias como militante de rede social. Lá, ele fala sobre negros, gays, direitos de mulheres, visibilidade trans, a luta por melhores salários e o absurdo que é essa reforma trabalhista. Ele fala sobre todos os assuntos do mundo, mas não consegue explicar direito o que faz da vida. Se formou em artes cênicas, mas nunca quis ser ator. Agora, ele faz mestrado sobre alguma coisa que ninguém sabe muito bem o que é, numa área que ninguém sabe pra que serve. No Tinder, ele se diz “produtor de vídeo marketing”, mas isso, ele conta, foi há anos. Depois, ele foi vendedor de loja, DJ, chef de cozinha, telemarketing, gerente de banco, redator publicitário de enxaguante bucal, ilustrador de panfletos de uma marca de antiácido.

Mas ele me conta que há quatro anos tá focado num livro que não sai da página onze. São contos de terror relatados por moradores de uma cidade fictícia. “Poxa, Murilo, se você lesse. Se você lesse”. Eu balanço a cabeça, finjo estar muito interessado, impressionado, mas, no fundo, eu quero mesmo é encerrar aquela conversa chata, me despedir daquele desconhecido chato, mandar ele voltar pra vida politizada de Facebook, pegar o metrô e voltar pra casa. Depois de passar duas horas falando sobre ele, os trabalhos dele, sobre TODOS os problemas sociais, ele me conta que foi muito bom ME CONHECER, que “a gente vai se falando”. Eu quis encontrar nele a narrativa construída virtualmente. O homem que eu criei, editei, e que não existia. Foi tudo ficção.

Como folhear um cardápio, escolhi ele. Combinamos um encontro, domingo, às 14h, no Urbe. Ele é arquiteto recém-formado e tem medo do que vai acontecer agora que precisa sair do estágio. Tem aluguel, comida, conta da internet pra pagar. E me pede desculpas por ter chegado meia hora atrasado. E me conta que roda São Paulo inteira com Amoxicilina, capa de chuva, água, resto de biscoito e iPod dentro da mochila. Depois ele me pergunta se eu também tenho fobia de multidão. E me abraça. E me pede pra sair dali. Lugares com mais de dez pessoas, pra ele, já é multidão. E a gente ri junto. Foi o melhor cara que conheci no Tinder. Quem diria, né? Quem diria que depois de tantos caras estranhos, babacas e confusos isso aqui pudesse dar certo.

Ele me conta que nós já estamos acostumados. Acostumados com o quê? Com fobias em multidões? Não, com a solidão de todos os dias, com a solidão urbana, a solidão que sentimos quando estamos cercados de desconhecidos, a solidão do delivery, do excesso de canais a cabo, da Netflix, das mensagens no WhatsApp, dos emails, das inúmeras fotos no Instagram, das centenas de músicas disponíveis no Spotify, como se a gente tivesse tempo pra consumir tudo isso.

Daí a gente vai junto pra casa. O metrô cheio. E a gente ri junto da multidão. E ele me mostra como aquilo está entupido, mas as pessoas estão sozinhas, caladas, preocupadas, pensando na vida amanhã. E ele segura a minha mão e me conta que ele tem insônia, que passou a noite inteira pesquisando sintomas de doenças no Google. A gente mora no mesmo bairro, na mesma quadra, em prédios que ficam um em frente ao outro. Janelas abertas que, no meio da confusão do cotidiano, não mostram quem está do outro lado. O resultado é que a gente nunca se viu e, talvez, promover encontros, independente do final, seja o papel do Tinder.

Ele me conta, andando pela Vila Madalena, que os arquitetos, engenheiros civis e construtores de edifícios são os culpados por esses descaminhos. Eles criam verdadeiras barreiras humanas, de todas as formas, cores e tamanhos, e isso tudo embaralha e dificulta demais as relações. São milhares e milhares de edifícios, paredes que separam, pessoas que se desencontram em escadas e elevadores. Ele fala sobre relações e, cada vez que ele abre a boca, eu fico mais encantado.

Depois, ele me apresenta a casa dele. Por que ele coleciona cartão telefônico? Por que ele tem uma cadeira sem fundo no meio de cadeiras com fundo? E eu fico fascinado por um quadro que eu não sei pronunciar o nome do artista, enquanto ele estoura o plástico bolha de quase três metros. E a gente se beija, não lembro exatamente quando, mas a gente se beija. E a TV dele passa um filme sobre alienígenas e a gente dá risada disso. E eu, mais uma vez sem entender o que está acontecendo comigo, me digo pra ir embora. E a gente se despede. E ele segura a minha mão, do lado de fora do prédio, sem medo da multidão que transita pela rua, e me pergunta se a gente ainda vai se falando. “Vai se falando?”.

E meus olhos brilham, mais até do que deveriam. E então eu olho pra ele, no meio da multidão que ainda me assusta, e digo, na tentativa de ser racional: “eu sei bem o que você quer comigo. Mas olha, vou ser sincero com você. Você é gente boa, talvez mereça saber. Eu canso as pessoas. Você entende? Sei como é, só porque eu tenho livro publicado e uso estes óculos de aros grossos e tenho esta barba e viajo nas ideias com você, falando coisas meio doidas que ninguém nunca fala sobre conflitos internos e me sinto seguro em falar sobre a dificuldade dos amores imensos nos tempos do Tinder, com seus olhos você enxerga um cara intelectualizado, maduro, inteligente, capaz de colocar cor na sua vida. Eu não sou nada disso. É só figurino e roteiro. É só idealização. É só ficção. Com o tempo você percebe: eu não tenho graça nenhuma”.

Sou completamente infeliz, mas pelo menos tenho namorado

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Há anos tenho que aturar dois grupos de amigos: a turma que namora, incluindo o subgrupo “sei que ele me trai, mas eu sou oficial”, e a turma solteirona, incluindo o subgrupo “é melhor ficar sozinho do que mal-acompanhado”. Odeio os dois grupos e, consequentemente, seus subgrupos por um motivo óbvio: TODOS são infelizes e dão a cara a tapa que não.

Em nome da minha sanidade mental, desativei meu Facebook e o Instagram dois dias antes do Dia dos Namorados. Vedação completa contra gente chata que precisa provar pro mundo que é feliz, mas, no fundo, transborda carência. Eu queria evitar selfies e textões egocêntricos de paixão eterna. Eu queria evitar (MUITO) fotos de cachorros e gatos, postadas por donos deprimidos-revoltados-putos-da-vida, com legenda do tipo “o único amor sincero que existe”. Eu queria evitar memes idiotas, tiradas publicitárias, fotos de cesta de café da manhã, rosas e bombom em celofane. Desliguei o computador e mandei na lata: tô cagando pra vocês.

Mas eles foram muito mais rápidos. Acordei na véspera do Dia dos Namorados adicionado em dois grupos de WhatsApp. O primeiro, o “Tá caído?” (por que mesmo eles colocaram esse nome?), aparentemente o mais divertido, combinava um encontrão de solteiros and simpatizantes da vida solteira and gente que pega geral and recém-solteiros. O segundo, o “Cervejetarianos”, aparentemente o mais organizado, pretendia fazer um encontrão de namorados and simpatizantes da vida monogâmica and gente que namora à distância and gente sem relacionamento definido.

Os dois tinham algo em comum: pretendiam fazer um churrasco na casa de algum amigo que, gentilmente, cedesse a casa pra toda essa bagunça. Clássico. Na minha casa é que jamais seria. Existe coisa mais deprimente do que churrasco de solteiros no Dia dos Namorados? Existe coisa mais deprimente do que todos os seus amigos saberem que seu relacionamento é uma bosta e você, na maior cara de pau, convidar todos esses mesmos amigos pra um churrasco pra comemorar o Dia dos Namorados?

Pensei em sair, imediatamente, dos grupos. Pensei em inventar uma desculpa, algo como “é que eu preciso fazer exame de sangue amanhã” ou “vou estar em São Paulo”. Mas ano retrasado dei essa desculpa, ano passado também dei essa desculpa. Há dez anos dou essa desculpa. Eu ouviria algo como: “taquepariu, Murilo. De novo?”.

Seria impossível estar em dois churrascos ao mesmo tempo. Então tive a brilhante ideia de unir o churrasco dos solteiros e o churrasco dos namorados em um churrasco só. Era algo como “podemos fazer apenas um teatro e poupar meu saco e meu tempo com vocês”. A princípio estranharam. Depois me disseram vários desaforos. Por último gritaram: “só topo se você dançar Asa de Águia”. Oi? Topei. Mas óbvio que eu jamais dançaria.

No churrasco, os dois grupos eram iguais. A não ser pelo desespero nítido de provar quem era mais feliz. Transformaram o amor numa competição para ver quem ama mais e melhor, quem é o par certo, quem faz chorar, quem faz rir, quem faz tremer, qual declaração dá mais impacto, quem é o solteiro mais porra louca e feliz por ser porra louca, quem vai sair mais cedo pra mostrar pra todo mundo que vai passar o resto do dia transando.

Na área de serviço, uma garota, amiga de amigos de outros amigos, visivelmente triste, mas fingindo estar bem, como todo mundo sempre faz, bebia e fumava e conversava e bebia mais um pouco e fumava mais ainda e bebia de novo. O cinzeiro transbordava bitucas. Fui com ela ao banheiro querendo descobrir o que ela carregava na bolsa além de calmante. Ela me contou, meio bêbada, que namorava há cinco anos. São cinco anos dividindo espaço, o banco do cinema, contas, despertador, viagens, planos, doenças sexualmente transmissíveis com um cara que sempre voltava pra casa sem se interessar se ela estava bem de verdade.

Depois, chorando, enquanto retocava o batom, ela me contou que a relação era uma tonelada de incertezas. Ele não gostava de DR, não gostava de sair, não gostava de ser contrariado, comparava ela com a ex, criticava ela o tempo todo. Era uma relação sem conversa, sem tesão. Eles não transavam há mais de um mês “porque não tinha clima”, mas hoje, Dia dos Namorados, decidiram ir ao motel. Depois, ela falou que era melhor ser completamente infeliz do que não ter alguém pra chamar de namorado. Que essa coisa de “sempre apaixonados” não existe. Que essa coisa de “relacionamento sem problema” não existe. Que quem exige demais, no fim das contas, acaba sozinho. Melhor ter um namorado mesmo, assim do jeito que ele é, porque ninguém é feliz em relação alguma. Imagina ir às festas sem estar acompanhada? Imagina estar nesse churrasco sem um homem? Imagina voltar pra casa sozinha? Imagina ficar cercada de amigas que têm namorado? Imagina ficar encalhada?

Na varanda, um garoto, amigo de amigo de outros amigos, visivelmente triste, mas fingindo estar bem, como todo mundo sempre faz, olhava o celular de cinco em cinco minutos pra saber se o menino que ele tava saindo mandava mensagem. Não mandava. Fui com ele ao banheiro querendo descobrir o que ele carregava na bolsa além de calmante. Ele me contou, meio bêbado, bem baixinho, enquanto colocava um pouco mais de perfume, que não é feliz quando se relaciona e não é feliz quando não se relaciona. Mas que ele acha melhor ser infeliz sozinho do que infeliz acompanhado, porque quando ele está gostando de alguém, ele pesa mil quilos de angústia.

Ao voltar pra casa, depois de um dia repleto de frases de efeitos, autoafirmações, gritarias, gente bêbada, vômito no tapetinho da sala e infelicidade escondida por maquiagem e perfume, vi um velhinho com uma bengala, numa floricultura, no largo Dois de Julho, comprando um buquê enorme. Foi a cena mais bonita e honesta que vi no dia.

Sexo depressivo

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Olho a cueca arrumadinha na gaveta e penso: “é sem compromisso”. Com ele, desde que conheci, ficou combinado que seria assim: nada mais do que sair de vez em quando, nada mais do que uma cerveja, nada mais do que sexo. Sem cobrança, sem entrega, sem romantismo. E a gente volta pra casa sem esperar nada do dia seguinte. Com mãos que não levam, com corpos que não esquentam.

Tomo banho, coloco uma roupa bonitinha e penso: “eu posso desistir”. Eu posso inventar uma reunião, inventar que esqueci de um jantar importante com meu chefe, inventar que preciso visitar uma amiga na maternidade. Eu posso criar histórias ou, pior ainda, sumir. Desligar o celular, tirar o telefone do gancho. Sumir. Mas, por algum motivo que desconheço, decido ir.

Pego um táxi, olho as ruas em movimento. Casais felizes em sorveterias, restaurantes, passeios, livrarias, e tudo isso me faz engolir o choro. A cada volta e paradas em semáforos morre em mim mais e mais do rapaz deslumbrado com romance de telenovela. O carro anda mais um pouco e me digo: “eu posso voltar pra casa”. Eu posso colocar uma música do Phill Veras e dar uma volta no shopping. Eu posso, num impulso, ir ao cinema. Beber alguma coisa num bar, rodar numa exposição na Caixa Cultural. Tenho um pouco de medo da rua dele. E da árvore imensa que faz uma sombra muito escura em volta do prédio. Mas, por algum motivo que desconheço, decido ir.

Ele não vê sentido em beijo, perfume, creme de pele, depilação, cueca bonita. Ele não se interessa em criar um clima, em me levar pra um daqueles restaurantes com luzinhas coloridas no centro da cidade, em ser um pouco misterioso, em me fazer rir. Ele não interpreta minhas frases de interesse, meus abraços demorados. Ele não entende meu medo de ir, minha ânsia de querer ficar. Não à toa, “não quero ir embora”, pra ele, significa “a gente pode prolongar essa noite de sexo”. Não à toa, “meu corpo está quente”, pra ele, significa “podemos avançar as preliminares”. Ele acha muito importante não ir além da superfície e por isso diz com todas as letras e partes do corpo dele, com a boca enorme de palavras, que não: não crie.

Ele não entende e passa a língua no meu pescoço e dá beijinhos nos meus ombros e pequenas mordidas no biquinho do meu peito e lambuza minhas costas e a minha barriga e a cintura que me faz contorcer de cócegas e segue. Ele continua como um predador sem culpa por ter capturado a caça tão fragilizada e dependente, como um faminto feliz pelo delivery que chegou depois de um dia exausto de trabalho.

A mão dele toca a minha nuca e eu penso que isso, de alguma forma, quer dizer proteção. A voz dele alcança meus ouvidos e eu penso que isso, de alguma forma, é amor. Mas é só sacanagem. É só tentativa de escapar do tédio. São apenas palavras ditas num surto de tesão, numa descarga de energia, num segundo passageiro que nunca se prolonga, que nunca se completa. E assim ele continua. E assim eu continuo. Uma hora e meia, talvez menos. A cada segundo perco mais e mais e mais de uma coisa que eu não sei o que é. A gente termina e cada um vira pra um canto da cama. Mais uma camisinha, mais um gemido, mais um suor, mais um banho.

Mas se eu não sinto frio na barriga, fiquei me perguntando por que eu precisava aguentar aquilo, fiquei me perguntando o que eu tava fazendo ali. Se as horas se arrastavam, se eu implorava pra Deus pra que aquilo acabasse, se eu tava voltado pra minha própria dor, se eu não me sentia à vontade, se eu não me importava mais de não estar vivo com ele, se meu coração não se emocionava mais, se relação descartável não me interessa, o que é que eu tava fazendo ali? Sexo sem estar apaixonado eu tenho nojo.

Mais uma vez e ele, a essa altura, dorme abraçado a um daqueles travesseiros grandões espalhados pela cama pra suprir faltas, achando que transar é suficiente pra suprir carência. Mais uma vez e ele, a essa altura, dorme demais como sempre e já deve ter me esquecido, mesmo lembrando de mim de vez em quando, nessas horas que ele tá de saco cheio dos trezentos contatos que ele já levou pra cama.

Mais uma vez e eu volto pra casa, com a coluna curvada, e vejo tudo cinza. Me sentindo feio, sujo, exposto, absurdamente sozinho. Mas dessa vez foi diferente de todas as outras vezes. Dessa vez fiquei pensando nesses desgastes, nessas entregas sem reciprocidade, nessas dependências descabidas. Dessa vez chorei ininterruptamente por meia hora no chão do banheiro. Foi o choro mais alto que chorei na vida. A água fria pra me fazer acordar. A água em jatos fortes tentando limpar o que não era sujeira, o sabão escorrendo no ralo tentando levar o que eu não conseguia esquecer.

Fechei a porta e o quarto escuro me trazia mais dor. Fui inundado por um vazio profundo, invencível, inexplicável. Me encolhi no edredom sentindo um frio que não existia, me perguntando por que eu fazia aquilo comigo. Pensei no homem de verdade que eu sempre esperei e que nunca aparecia. Depois, como um mantra, apertei o travesseiro e me disse: vai chegar, vai chegar, vai chegar, vai chegar. Dois minutos depois, dormi meio soluçando.

No dia seguinte, mais vazio (ou seria mais cheio?), fui devolvido às ruas. Olhei as pessoas, no táxi em movimento, e percebi que não existia beleza em nenhuma delas. Não existe amor em lugar algum, em porra de pessoa alguma. E eu mais uma vez me perguntei como as pessoas conseguem viver no meio de intenções e futuros mortos. Por que as pessoas se relacionam com total superficialidade? Como é que acorda no dia seguinte sem sentir dor? Como é que se doa sem se entregar de corpo e alma? Nunca soube.

Tenho vontade de ligar pra ele — na esperança boba de que o coração dele tão cheio de desimportâncias saia do automático e me ame um pouquinho — e perguntar: você não gosta nem um tiquinho de mim? Nem sequer um tiquinho de nada? Mas a resposta parece óbvia. Digitei “Céu” no Spotify. Desci as escadas do jornal. A vida continua.

 

 

Irrelevante

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

E mais uma vez, eu abri o seu perfil no Facebook e fiquei olhando sua foto. Deus do céu, como eu já sorri olhando praquilo, como eu já fiquei bobo com todas as suas publicações, você não tem ideia. Mas nos últimos dias, infelizmente, não é sorrindo que eu olho, não é bobo que eu olho. É com desânimo, com saudade, com raiva, com tristeza profunda.

Lembro de você, uma vez, deitado numa daquelas espreguiçadeiras à beira da piscina da sua casa. Você olhava minhas olheiras tentando entender meus cansaços. E me colocou de conchinha e me deu o abraço que disparava corações em mim como se eu tivesse um em cada célula do corpo. E comeu chocolatinhos suíços dizendo que cacau curava cansaços e olheiras. E me falou, com sua voz tão bonita, a mais bonita que eu já ouvi, que você tinha cavado o lugar certo e encontrado o ossinho certo.

Por que você me fez acreditar na ideia do ossinho escondido? Por que você cavou, cavou e cavou a terra fingindo ter encontrado o ossinho que não existia? Você ter morrido. Você ter assassinado o que eu sentia. Você ter me feito fingir estar vivo pra todo mundo. Me feito chorar todas as vezes em que eu deveria dar risada. Eu permaneci e isso foi a coisa mais triste e insuportável e autodestrutiva que alguém pode fazer na vida.

Tenho vontade de te procurar no seu trabalho e de invadir a sua sala no meio de uma reunião importante. E de te esmurrar na frente dos seus colegas retinhos e engravatados e mais machos do que todo o resto do mundo. E arremessar vários chocolatinhos suíços no seu peito pra você perceber que não quero curar minhas olheiras e cansaços. E de te dizer que você é um grande idiota, um grande babaca, um grande merda, um grande imbecil. Nunca passou disso.

Nunca uma piada sua foi engraçada, nunca você foi interessante, nunca seus projetos foram bons, nunca você me surpreendeu. Nunca. Mas eu não consigo sair de dentro desta coisa que eu sinto. Sua mania de me ligar pra saber se eu cheguei em casa bem. Seu repente em sair pra algum lugar tarde da noite. Sua voz, que não é sua voz, me grita no meio da rua e meu corpo treme. Não consigo deixar de pensar em você, a cada dia, a cada raiva, a cada vontade de parar de pensar. E não consigo frear o vício de escrever sobre você, o vício de falar em você, o vício de te ver em todas as coisas.

E quando eu procuro outras pessoas, pra deletar tudo o que sinto, eu peço a Deus que você me veja. Eu peço a Deus que você me encontre por aí dançando com outro numa festa, bebendo um chope com outro num boteco, beijando outro na porta do meu prédio. E peço a Deus que você sinta muito ódio de mim. Porque sentir ódio é maravilhoso, triste mesmo é ter indiferença. Eu quero que você veja que eu já fui embora. O bobinho que esperava, que perdoava, que aceitava o muito pouco, simplesmente foi embora. Você que já me fez perder a hora, que já me fez gostar da vida, que já me fez acreditar em coisas que eu não acreditava mais, hoje não é nada. Não passa de uma foto numa rede social.

Eu me matriculei num curso novo, eu comecei a fazer musculação, eu tô lendo psicanálise, eu tenho visto mais filmes, eu tenho conhecido muitos lugares. Mas se tudo isso tem me feito bem, por que eu continuo stalkeando seu Facebook? Por que eu olho quem curte e comenta todas as suas publicações e stalkeio quem curte e comenta todas as suas publicações? Por que eu sinto ciúme dessas pessoas? Por que eu continuo te olhando? Por que eu sempre volto aqui de madrugada, na hora do almoço do trabalho, no fim do dia? Por que eu preciso dessa regressão? Por quê?

Você não vale esse tempo perdido. Mas eu faço. Eu continuo fazendo. Como alguém tão novo que morreu subitamente. Mas acontece que você não morreu de verdade, da forma que eu preferia que você morresse. Você está aí vivo, tranquilo, feliz, fazendo suas coisas. Você acorda, toma café, vai pra academia, almoça, trabalha, se aborrece no trânsito, se distrai num filme, sai com alguém na sexta-feira, transa com mais um no fim de semana. Você continua vivendo sua vida, sem culpa, sem raiva, sem saudade, sem olhar minha foto em rede social. E eu fico aqui no seu Facebook te vendo se perder nessas coisas rotineiras em que eu nunca estou presente.

Por que eu não consigo sair do seu perfil sem sentir uma pontada no fígado? Por que você não foi apenas mais um como todos sempre se tornam? Eu esperei muito de você? Não. Eu não esperei metade do que esperei dos duzentos homens que já conheci. Eu entendi tudo o que você me explicou, eu entendi o que ninguém entenderia, eu entendi o que nem eu deveria entender. Eu respeitei. Eu aceitei. Eu fiz como você quis. Tudo. No seu minuto, passo a passo. Eu voltei atrás. Eu me pedi pra ter calma. Eu aguentei problemas. Eu chorei, eu fiquei com febre, eu pedi desculpas, eu aguentei besteiras, defeitos, desaforos. Suportei tudo. E você sempre seguindo sem se importar.

E dói muito, porque você sabe que ninguém no planeta é capaz de ocupar o lugar. E você perde a fome. E você sente falta. E sente vontade de chorar. E você só pode respirar fundo, segurar as lágrimas e seguir em frente, porque todo mundo prefere dizer que você é fraco do que humano. Vai passar, né? Eu sei, todo mundo diz. Com o tempo eu não vou mais olhar sua foto, nem lamentar, nem sofrer, nem odiar sua vida idiota, nem pensar o quanto é infeliz tudo o que aconteceu. Com o tempo vai se tornar irrelevante. Espero muito que passe logo. Porque a vontade de te ressuscitar, quase sempre, principalmente agora, nesse exato minuto, me domina.

 

Nunca fui honesto

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

No meio do filme no cinema, ele aponta para um grupo de jovens estranhos sentados na fileira em frente e cochicha no meu ouvido algo como “esses pseudo-neuróticos, com seus fetiches de dores e fuga do tédio existencial”, fazendo referência ao filme de Xavier Dolan, e eu dou risada alta no cinema. Todo mundo olha feio pra mim, inclusive o grupo de jovens estranhos, e ele me abraça na tentativa de abafar meu descontrole, se prendendo mais ainda pra não rir também.

Depois ele me olha querendo saber se tudo bem. Tudo bem tirar da ecobag a vasilhinha com trinta e seis claras e comer ali mesmo na frente de cinco mil pessoas? Tudo bem não sair mais tarde pra beber uma cerveja comigo e uns amigos da Facom porque cerveja tem carboidrato? Tudo bem nada. Mas eu é que não digo. Eu é que não reclamo. Porque tô completamente apaixonado por ele e porque acho ele leve e engraçado, aceito a vida fitness, aceito o projeto de “barriga trincada em 90 dias”, aceito as conversas sobre proteína com os amigos da academia, aceito que aquelas claras frias estão sem sal porque sal retém líquido.

Desde que o nosso namoro começou, suportei calado as claras, os shakes e as somas das calorias nas embalagens dos alimentos. Nunca fui honesto. Nunca disse que achava aquele exagero ridículo. E seguia. Fingindo que não via, que não me importava, que eu não tinha que me meter naquilo, afinal, eu precisava aceitar ele do jeito que era. Quando a coisa chegou no suco de hibisco com gengibre, três vezes ao dia, e no detox de alface com agrião, em substituição ao jantar de um ano de namoro que preparei, percebi que já não dava mais. E até hoje, até a publicação desse texto, ele não sabe que eu odiava as claras, os amigos, os shakes, as somas, o suco, o detox, porque eu nunca fui honesto.

Depois dele, conheci outro cara. “Mas ele não tem nada a ver com você”, meus amigos diziam. Eu gostava da voz dele, dos intervalos longos entre um pensamento e outro, das frases que eu poderia legendá-las a cada lembrança fotográfica que surgia dele no meio do dia. Gostava quando ele falava sobre Lula, quando ele colocava adoçante no café preto sem contar as gotinhas, quando ele me ligava no começo da manhã e falava “sono pra caralho”. Eu sabia que aquilo era pouco pra gostar e ficar com alguém, mas eu não conseguia me imaginar sem aquela voz grave no primeiro minuto do dia.

Pouco mais de dois meses juntos, fui percebendo que ele não tinha mesmo nada a ver comigo. Gostava de ioga, reiki e meditação, e isso tudo me dava muito sono. Ele enchia a casa de incenso de manjericão e patchouli e fechava as janelas. Eu sofria com insuficiência respiratória, suportava crises de rinite e longas filas na emergência pra tomar nebulização. E ele nunca soube disso porque eu nunca fui honesto. Quando ele me levou pra uma sessão de budismo e eu me peguei olhando o celular a cada dois minutos, remexendo a coluna e as pernas a cada dois minutos e me levantando pra ir ao banheiro a cada dois minutos, comecei a perceber que eu estava indo longe demais. Ele dizia que eu precisava ser menos ansioso porque isso dificultava o fluxo de energia e daí muita coisa na minha vida iria dar errado.

Uma semana depois, ele me levou num curso chamado “Rolando na Grama”. Um encontro com gente ansiosa e deprimida, numa casa em Vilas do Atlântico, com o objetivo de encontrar a luz. Devíamos ir com roupas bem confortáveis, e o tratamento consistia em nove passos: 1) mentalizar uma coisa boa; 2) abraçar a coisa boa; 3) rolar na grama sem soltar a coisa boa; 4) imaginar a coisa boa do coleguinha; 5) rolar pela grama tocando em todas as partes do corpo do coleguinha até sentir a coisa boa do coleguinha; 6) rolar pela grama imaginando a coisa boa flutuar; 7) nos transformar no animal que estivéssemos a fim; 8) fazer o animal devorar a coisa boa; 9) ficar deitados na grama, respirando lentamente, com uma mão em alguma parte do corpo do coleguinha, pensando sobre tudo isso.

Só que rolar naquela grama me deixava ansioso. Não saber em que lugar eu chegaria quando eu rolasse me deixava mais ansioso. Saber que eu não conseguia relaxar pra deixar de ser ansioso me deixava mais ainda ansioso. Parei de frequentar o curso por cinco motivos: 1) percebi que a coisa que a instrutora procurava era o pau dele. E eu, neurótico, desconfiei desde o primeiro minuto que aquilo era uma masturbação mútua; 2) as pessoas não usavam desodorante; 3) as pessoas eram completamente deprimidas e ansiosas; 4) eu usava desodorante e não era tão deprimido e ansioso; 5) sério que eu me meti nisso? Achei justo, com ele e comigo, terminar. E até hoje, até a publicação desse texto, ele não sabe que eu odiava os incensos, os encontros de budismo e o curso de terapia na grama, porque eu nunca fui honesto.

Depois dele, conheci outro cara. Tomava remédio o tempo inteiro porque o tempo inteiro ele tinha vontade de morrer. No meio do show, ele saiu às pressas porque havia esquecido o Diazepam e estava com vontade de morrer. Descobri também, no almoço de bodas de prata da mãe dele, que ele tomava Prozac, Alprazolam e Tegretol, e que tudo isso ajudava ele a não ter vontade de morrer. Mas foi quando abri o porta-luvas do carro dele que me deparei com o Leponex. Pesquisei rápido no Google e descobri que Leponex é remédio pra esquizofrênico. Ele não gostava de teatro, não gostava de assistir televisão, não gostava de ficar numa sala escura de cinema, não gostava de barzinho, não gostava de falar ao celular, não gostava de beijar na boca toda hora, não gostava de viajar. E o tempo inteiro me dizia que não ia dar certo porque era impossível me agradar.

Numa festinha na casa de Nanda, encontrei ele fedendo a cigarro de cravo, chorando escondido no chão da área de serviço. E então ele me disse que essa vontade de morrer não iria embora nunca, então ele iria parar de tomar os remédios e ficar só na maconha. Ele passava o dia inteiro lendo livros ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que excluía arquivos inúteis do computador ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que via uns vídeos no YouTube ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que conversava com sete pessoas no Facebook ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que escrevia poesias. Passou a fumar tanta maconha que os móveis já tinham cheiro de maconha, o beijo dele tinha gosto de maconha, o cabelo dele tinha formato de maconha. E ele queria saber se sair com um cara maconheiro era um problema pra mim. E eu nunca fui honesto.

Eu já não aguentava mais os piores restaurantes e os piores filmes e as conversas sobre a morte. Quando fomos parados pela blitz e o carro dele tinha quase trezentos quilos de maconha, tive medo de ser detido. Mas ele me dizia pra ter calma “porque aquilo não daria em nada”. Peguei um táxi e voltei pra casa tremendo. Ali eu tive certeza que não valia a pena continuar porque a nossa relação não daria em nada. E até hoje, até a publicação desse texto, ele não sabe que eu odiava os remédios, a maconha, os restaurantes ruins, porque eu nunca fui honesto.

Cheguei em casa, remexi armários, caixas e gavetas, e joguei fora tudo o que não servia. Num repente, decidi que mesmo tendo pavor do tédio, eu jamais suportaria o insuportável só pra ter alguém. Só por uma companhia. Relações que me faziam mal, que não me faziam ser eu. Decidi que ser sincero seria mesmo a melhor saída, ainda que isso me custasse muito caro. Decidi que eu precisava ser honesto nas relações. Eu precisava não me sentir culpado. Eu precisava jogar aberto. Só assim consegui viver um relacionamento mais sólido. Só assim consegui me sentir vivo, inteiro, verdadeiro, feliz. Todo o resto, antes do repente, era só uma possibilidade.

Minúsculo

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Eu quase consegui fazer compras semana passada. Foi muito quase. Rodei o supermercado inteiro por vinte minutos até que eu perguntei onde é que ficava o caqui. E me deu uma tristeza e uma saudade profunda fazer essa pergunta. Porque eu não gosto de caqui, só compro porque você gosta. Só compro por hábito. Só compro porque é molinho e a gente não acha em qualquer esquina e tem a cara mais inofensiva do universo. Caqui não faz mal pra ninguém. Não tem espinho como abacaxi, não mancha como o caju. Um aperto de leve e você machuca. Se você estiver na rua o dia inteiro sem comer, morrendo de fome, suado, vai conseguir comer caqui sem precisar descascar. Tinha um vermelho mais clarinho, o vermelho mais maduro e uns mais parecidos com tomate. Todos em redinhas amarelas. Todos espremidos dentro de redinhas amarelas. Vi um cartão especial do dia dos namorados, misturados com revistas numa prateleira, enquanto eu esperava na fila do caixa, e aquilo endureceu meus ombros. Algo sobre um cadastro “pra ter desconto pra família e namorado” foi perguntado e aquilo me deprimiu demais. Pelo vidro, vi um casal com um bebê, no estacionamento, colocando as compras dentro do porta-malas do carro, e aquilo me deixou mais triste do que deveria. Larguei os caquis espremidos na redinha amarela e todas as compras no carrinho. Eu simplesmente larguei tudo lá. A menina do caixa gritou por mim, sem entender. Atravessei a rua correndo e nunca mais voltei.

Eu quase consegui abraçar alguém sábado. Durante dois segundos eu fechei os olhos e apertei a cintura com muita força e pensei que, finalmente, eu estava conseguindo esvaziar meu peito de você. Foi realmente por pouco. Acho que, devagar, como uma criança que solta as mãos de um adulto pra dar o primeiro passo, talvez um dia eu consiga andar pra frente.

Domingo ri tanto no rodízio, tanto, que por pouco me senti feliz de novo. Os amigos mais engraçados que eu tenho, e que eu não via há um tempo, me contaram as loucuras que fizeram no intercâmbio. Dei muita risada com a história de uma amiga que foi pega pelo segurança em um envolvimento quase sexual com outro segurança atrás do Museu do Louvre. Mas aí lembrei, no meio da minha risada alta, como eu queria voltar pra casa e contar pra você detalhe por detalhe dessas histórias. E fiquei triste de novo.

Anteontem acordei me sentindo mais forte e chamei todos os meus amigos pra ir ao Alfredo di Roma, o restaurante que você me levava. Eu gosto de tanta coisa lá e tenho tantas boas lembranças que não queria fingir que esse restaurante não existe. Mas quando eu vi o sorvete do petit gâteau de doce de leite derretendo no pratinho, lembrei de você e comecei a chorar. E deixei todo mundo no restaurante e fui embora. E ninguém entendeu nada. Por pouco eu consegui ter uma noite bonita. Por pouco eu consegui me distrair. Por pouco eu deletei a sua existência.

Ontem eu topei ir até a casa do cara que eu saio há um tempo. Um aperto de mão que não me dizia nada, um beijo que não me dizia nada. Achei desonesto transar com o homem mais bonito e gente boa do mundo e lembrar de você justamente nessa hora. Eu parei tudo, coloquei a cueca e fui embora. E chorei na janela do ônibus o caminho inteiro, de soluçar, vendo a mistura das luzinhas dos faróis dos carros. Por pouco eu senti prazer de novo. Por pouco eu permiti que outro cara me tocasse. Por pouco eu deletei os seus flashes da minha cabeça.

Um amigo me disse hoje, por telefone, que tem um amigo pra me apresentar. Que eu e ele combinamos muito. Que ele é bem fofo. Que ele me viu no lançamento do livro de outro amigo e que se apaixonou por mim. Quem diria, hein? Quem diria. Alguém apaixonado por mim. E o mais doido dessa história toda nem é isso. O mais doido é que eu fico curioso com esse negócio de gostarem de mim. Por pouco eu me animo com esse homem fofo. Por pouco eu me animo em gostar de alguém. Mas pensar em gostar de alguém me lembra você. E fico triste de novo.

Pedro, meu psicólogo, dizque eu preciso me distrair com outras coisas, conhecer novas coisas. Cadu, meu amigo, dizque eu preciso pensar mais em mim, na minha vida daqui pra frente. Luana, a moça que faz faxina na minha casa, dizque eu preciso parar de colocar minha felicidade na mão dos outros, principalmente de homem.

Eu pensei que quando a gente dividisse o corredor sem se olhar, eu pensei que quando eu te visse numa festinha com outro cara, eu pensei que quando eu jogasse todos os seus presentes fora, eu pensei que quando eu rasgasse todos os canhotos de cinema e apagasse a nossa conversa do celular, eu pensei que quando passasse semanas e meses, eu pensei que quando finalmente eu te visse mudado, vivo e indiferente, eu pensei que quando eu entendesse que não tinha mais volta, eu pensei que passaria. Não deixa de doer nunca, mas quase para de doer todos os dias.

Ficar triste deixou de ser momentâneo e naturalizou. Chorar deixou de ter um motivo e virou um hábito diário de quem sente por tudo. Perder a autoestima se tornou comum e passou a ser normal, me convencendo que tudo bem não sair mais de casa, tudo bem não ler mais nada, tudo bem não assistir mais nada, tudo bem não pentear o cabelo.

Você, que já foi o motivo dos dias mais incríveis da minha vida, agora me puxa pro fundo do poço mais desmedido dos dias mais tristes. Um poço que não me deixa ser inteiro em nada, realizado em nada, satisfeito com nada, feliz em nada.

Por pouco eu consigo não te odiar, por pouco eu consigo não odiar aquela foto com aqueles garotos, por pouco eu não escrevo esse texto. Todos os dias eu quase te mando uma mensagem, eu quase te ligo, eu quase falo com você quando te encontro, eu quase consigo ser leve, eu quase consigo te tratar como nada. E quase dou um foda-se pra tudo, quase perco a razão, quase desisto de continuar. E quase consigo, sem sentir um buraco no estômago, achar que vai dar tudo certo, que hoje só foi mais um dia com um resto de quase e que uma hora esse resto de quase, de tão minúsculo, finalmente, vira um nada.

Por que eu acho que é amor

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Imagine que carrego uma mochila extremamente pesada nas costas, com dois bilhões em moedinhas e tabletes de ouro. Estou na Lapa. Ando assustado no meio da multidão, suado, corcunda, achando que a qualquer momento posso ser roubado. Enforco as alças no meu pescoço e prendo alguns nós na cintura e nos braços.

Vez em quando, alguém por ali, correndo, colando ao meu lado, pedindo informação, sorrindo pra parecer simpático, ousa colocar as mãos dentro da minha mochila pra tentar roubar as moedinhas valiosas, como eu previa. Porém, ainda que eu não aguente o peso e pense em pedir ajuda e reclame das dores na cervical, me atiro ao chão e, ciente dos riscos, percebo do que sou capaz de fazer: matar ou morrer pela mochila. Automaticamente, quero gritar que tudo bem, tudo bem: qualquer coisa contra mim, menos a mochila. Como se, numa compaixão fraternal, protegesse um filho de um tiroteio.

Daí, também, vez em quando, alguém por ali, correndo, colando ao meu lado, pedindo informação, vincando a testa com piedade, se oferece pra segurar a mochila pesada. Ou pra entregar no lugar de destino. Ou pra dividir, ao menos, o peso das alças. Também não consigo olhar pra essas pessoas e enxergar gentileza. Não consigo confiar na bondade delas a ponto de entregar uma das alças.

Porém, vez em quando, alguém por ali, como aconteceu com você, aparece no meio da multidão com uns olhos brilhando de pureza. Aparece uma pessoa que não me pede nada em troca, não repara na mochila, não tem segundas intenções, apenas caminha ao meu lado com leveza. Aparece uma pessoa que me faz sentir vontade de entregar cada moedinha, cada tablete de ouro da minha pobre mochila. Aceite, guarde, não economize, faça chuva de prata com elas em plena Avenida Sete ou, quem sabe, na Manoel Dias.

Eu não sou egoísta. Eu sou uma espécie em extinção. Eu sou um mendigo pelo avesso. Eu ando por todas as ruas movimentadas do mundo, me arriscando no meio da multidão, pra encontrar alguém com os olhos brilhando de pureza. Eu ando por todas as ruas movimentadas do mundo implorando pra que alguma alma honesta, no meio da multidão interesseira, aceite de bom grado toda a minha riqueza. Tenho um banquinho nas praças da cidade onde ouço as dores dos outros, onde faço piada da vida, pra animar pessoas de almas bondosas com olhares tristes. Próximo aos meus pés há um chapéu imenso e cheio de dinheiro. Embora tenha escrito em uma plaquinha “Obrigado, não quero sua ajuda”, ninguém lê, ninguém entende. Embora eu grite no alto-falante “pelo amor de Deus, eu não quero sua ajuda”, ninguém ouve, ninguém entende. Mas você me leu. Você me ouviu.

Posso ficar séculos tentando te explicar por que eu acho que é amor. Você tem um redemoinho de pelo abandonado e solitário abaixo do dedo mindinho da mão esquerda. Você tem intervalos curtos entre os dentes incisivos centrais. Você desfia o cabelo com os dedos da mão direita quando está nervoso. Você joga sua cabeça pra frente quando a risada é de timidez. Você joga sua cabeça pra trás quando a risada é de felicidade. Você atravessou a rua feito um louco no meio dos carros, com as mãos forçando os bolsos do jeans, só porque não sabia o melhor momento de me pedir em namoro. Você pede desculpa pela sua parte mauricinho de ser com a fragilidade e a sinceridade de um poeta francês. Você me convida pra comer num japonês, exatamente onde terminamos e, porque sabe ser sacana e piadista do mesmo jeito que combina comigo, explica nos mínimos detalhes onde é o lugar. Como se, algum dia, eu fosse capaz de esquecer.

Eu vejo a palavra “amor” num jornal velho e, só porque tem três de sete letras do seu nome, sinto de leve minha pressão cair. Eu vejo um vulto de alguém dobrando a esquina a cem metros e, só porque tem exatamente a sua altura, sinto de leve um chutinho atrás dos meus joelhos. Eu tenho uma doença que ainda é desconhecida pela medicina: eu vejo coraçõezinhos telemáticos espalhados pela cidade. Saltitando, atravessando pistas, em cartazes publicitários, sendo jogados em lixeiras, sendo vomitados em bares por gente solitária que enche o copo de cerveja porque não sabe mais como controlar todo o resto. Eu poderia ficar séculos tentando te explicar por que eu acho que é amor.

Semana passada você fez o contrário do que eu acredito. Você tentou me explicar por que você acha que não é amor. Falou das minhas dúvidas, inconstâncias e chatices, das minhas noites com calmantes que me fazem ficar sem libido, do quanto odiava quando eu tentava sugar mais e mais e mais do seu coração protegido pelas várias camisetinhas modernas que parecem casaquinhos finos e, por fim, quis explicar que prefere um daqueles meninos da San Sebastian que some na semana seguinte, porque você é viciado mesmo em comecinhos.

Não são por essas coisas que se afirma que é amor. Não são por essas coisas que não se afirma que é amor. Essas são apenas coisas que observamos e conseguimos expulsar da garganta ou revelar com os olhos enquanto no encaramos com medo. No fundo, no meio da multidão, correndo assustados, carregamos mochilas pesadas de moedinhas e tabletes de ouros. São sentimentos, belezas e fantasmas. E, no minuto exato, quando acontece, e ninguém consegue explicar isso sem parecer bobinho e arrogante, entregamos a mochila pra alguém que nos leve embora de becos inóspitos. Para um lugar que a gente sempre esteve pronto pra ir.

Eu te vejo atravessando a rua em passos de câmera lenta, com as mãos quase dentro de uma das suas camisas que parecem casaquinhos finos, e quero te colocar dentro desse táxi e te levar pra esse lugar que todo mundo espera ir, que eu fui e que você sempre foge. Você me lê, você me ouve, mas você não me entende, você não enxerga, você nunca está preparado, você ignora.

Mas, no último milésimo do sinal vermelho, fui tomado por uma raiva desmedida. Sem tempo para pensar, escancarei a janela do táxi e arremessei com toda força do mundo a mochila com bilhões de moedas e tabletes de ouro. Toma aí pra você e me deixe pobre. A mochila não te alcançou, caiu a dois palmos antes do seu último passo. E você, mais uma vez, continuou de costas. Nem o som dos meus dentes rígidos provocados pela força de quando perco o controle, nem o meu coração apodrecendo sendo transmitido por telas, nem o cheiro do meu cabelo esvoaçando pelo vidro aberto, nem a luz da minha caridade possessiva. Nem nada abala você.

A mochila abriu em pleno meio-dia da Avenida Tancredo Neves, caótica pelo sol intenso e pela véspera do natal. Os mendigos, os interesseiros, os egoístas, os mentirosos, os desonestos e todos os outros seres que dilaceram mochilas nas metrópoles, se amontoaram pra tirar proveito do amor que, de tanto escolhido a ser entregue, de tanto insistir em ser levado pra algum lugar, agora ficou pisoteado, exposto em bueiros, como resto de peixe de feira.

 

A gente sempre procura a felicidade quando já é feliz

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Ontem fiquei procurando depois que você dormiu. Não sabia se era vontade de comer mais um pedaço de pizza abandonado na geladeira ou de tomar outro banho bem gelado — pra você me xingar que tomo banho demais e que vou ser o culpado por acabar com toda a água do planeta. Não sabia se era aquela coisa de me encolher no cantinho da varanda e ficar tentando adivinhar que luz é aquela que nunca apaga no apartamento em frente. Não sabia se era aquela coisa de te acordar de novo pra pedir que você me ensine a falar direito as letras das músicas da Radiohead que eu canto tudo errado. Você sempre foi melhor em inglês do que eu e o único que nunca perdeu a paciência de me ensinar. Eu te acordo e você canta meio dormindo as músicas que mesmo sem sair do tom vão ficando mais baixinhas com seu sono e fica tudo tão bonito.

Eu fiquei procurando, procurando, arrumei as gavetas, as caixas, as suas cuecas misturadas, as suas camisas sempre tão cheirosas e deixei tudo esticadinho, com as meias e as gravatas e o relógio e o celular e a carteira e as chaves do carro. E arrumei o armário do banheiro com seus cremes para a barba. Tudo um do ladinho do outro, bonitinho, corretinho. E joguei fora as embalagens vazias de xampu. E troquei a sua toalha mesmo estando sempre branca e sempre limpinha. Era isso ou comer mais um pedaço velho de pizza na geladeira ou tomar outro banho ou ir pra varanda ver a luz do prédio que fica do outro lado da rua. Mas eu poderia estar lá na cama com você, dormindo de conchinha, cheirando a sua nuca, ouvindo a sua respiração. Mas eu fico aqui procurando, perdendo tempo com coisas que não dizem nada.

E você ri, ronca, se espalha na cama, vira de bruços, de lado, tira o cabelo do rosto, se coça, tenta matar algum mosquito, se cobre, tira o edredom, ronca de novo. E você acorda no meio da noite e, com a voz um pouco rouca, pede pra eu cometer alguma loucura, sei lá, tipo beber a água da garrafinha aberta que tá no seu carro há mais de uma semana. Imagina só. Isso seria a maior loucura que eu faria na vida. Isso seria o maior atentado contra a minha saúde. Eu digo que jamais faria isso e você me carrega no colo, dizendo que vai me levar à força até o carro pra que eu beba a tal água da garrafinha. Eu reluto e você acha graça. Aí me coloca no chão, rindo mais ainda. E depois me diz que não existe garrafinha nenhuma. E eu te bato porque nunca sei quando você está mentindo. E você me beija infinitas vezes. E eu te odeio muito e te bato muito mais.

E depois você vai ver um pouco a tevê. Quase duas horas da manhã e você reclama que precisa acordar cedo. E zapeia os canais da tevê. Até que para num filme velho com atores bonitos que fumam charuto o tempo inteiro. E você pega no sono com o controle na mão. E daí eu quero te acordar. De novo. Mas pra quê? Pra que mesmo? Se eu pensar, lá no fundinho do fundinho do fundinho, não é pra você cantar as músicas da Radiohead e nem pra você me ensinar inglês e nem pra tirar sarro que minha orelha tem um formato estranho e nem porque acho sexy você de cueca, cabelo bagunçado, assistindo um desses filmes preto e branco. É pra isso também, porque você é das poucas pessoas que me dão vontade de acordar cedo no dia seguinte e correr num parque sem saber onde vou chegar e sem saber por que eu corro tanto.

Mesmo eu passando um fim de semana inteiro na sua casa e você sem tempo por duas semanas pra ir ao cinema comigo. Mesmo eu nunca indo embora e sempre jurando, pedindo sempre pro carro parar, pedindo sempre a conta, pegando sempre a bolsa, desligando sempre o telefone. Mesmo o tempo inteiro me dizendo que foi a última vez porque não gosto muito de você. A última vez que a gente sai, que a gente transa, que a gente briga, que a gente cozinha. Pra que eu quero te acordar? Penso enquanto tomo banho e arrumo minhas coisas e me encolho no cantinho da varanda pra ver a luz que nunca apaga no apartamento em frente.

Eu procuro, procuro, o tempo inteiro eu procuro, enquanto você dorme, e não acho nada. Nunca. Talvez o cara que atravessa a rua com a camisa desabotoada, talvez aquelas pessoas que estão no bar, talvez a festinha cheia de universitário que se pega o tempo todo e sorri pra foto o tempo todo, talvez algum cara mais bonito que você, mais inteligente que você, algum cara que ainda não chegou e eu nem sei por onde anda e eu nem sei se vai chegar. Ou talvez não seja nada disso. Talvez não seja nenhum deles. Não sei se é fácil encontrar alguém que dance de cueca e de meias coloridas enquanto cozinha. Se é fácil encontrar alguém que conte tantas piadas velhas e me faça rir com as mesmas piadas velhas. Se é fácil encontrar alguém que acorda assustado no meio da noite querendo saber se tá tudo bem.

Não sei por que eu procuro em tantos rostos o que já encontrei em você, o que gosto em você. Se mesmo dizendo que vou embora, eu quero mesmo ficar. Se mesmo achando que a felicidade tá lá fora, você acaba me suprindo em tudo. Querer mais, mais, mais. Mais o quê? Depois de muitas horas, durmo também. Com a mesma calma morta e sorridente que faz com que eu perambule pela sua casa e que você continue perambulando na minha vida e que a gente perambule juntos por todo o resto. Eu não sei o que vai ser da gente amanhã, semana que vem, daqui a um mês. Mas agora, hoje, nesse minuto, grava isso: eu sou muito feliz com você, só com você.

Criar uma lista de suposições é o único êxtase possível de um neurótico

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Acordei, de repente, sentado na cama, impactado, com a mão no queixo: Meu Deus, eu preciso saber. Sonhei que uma cartomante chamada Cidinha me dizia, incisivamente, que alguém que eu amava muito escondia de mim algo muito sério. Eu nunca mais esqueceria a cara de espanto e o nome da cartomante, e, mais do que isso, eu jamais conseguiria esquecer cada letrinha da frase “alguém que você ama muito esconde de você algo muito grave” – que ficaria rondando e martelando a cabeça por semanas, meses, séculos até que eu fosse capaz de descobrir o grande culpado pela omissão.

Sem considerar que era apenas um sonho e, logo, resposta do meu inconsciente, saí de casa de moletom, chinelo, cabelos despenteados e com resto de ácido clareador de manchas pelos cantos do rosto decidido a alimentar minha neurose. Fui ao trabalho do meu namorado. Obviamente ele seria o primeiro a passar pelo interrogatório. Cheguei com uma lista de suposições, que crescia à medida que eu sentia um misto de ânsia e êxtase pra saber a verdade. Ele precisava fazer mil ligações e responder mil e-mails. Em meia hora, ele teria uma reunião com o chefe nada amigável e, pra piorar, nem havia tomado café da manhã.

Que palhaçada é essa de me esconder algo? Até quando você ia esconder essa verdade de mim? Ele me olha tentando manter a calma apesar do dia errado. Meu Deus, eu preciso saber. “Não lembro de te esconder nada”, ele se defende. Depois, com mais calma ainda, talvez pra evitar gaguejar e piorar tudo, admite que já me escondeu coisinhas, mas nada tão grave que não pudesse ser perdoado. Talvez foi no jogo de “verdade ou consequência”, na casa dos amigos da época da faculdade, que ele participou “porque todo mundo queria lembrar da adolescência”. Sei. Quem sabe a consequência foi um selinho que parou numa língua aqui e lá no cara que ele sempre sentiu atração? Quem nunca? Talvez tivesse perdido mesmo aquele jeans lindo e caríssimo, presente meu de aniversário, e a desculpa “esqueci na casa dos meus pais” fosse, como eu imaginava, falta de coragem pra abrir o jogo. Sim, aquele dia que ele desistiu de me levar pra jantar, depois que eu já estava pronto, não foi o churrasco que desceu errado, foi preguiça de sair de casa.

Fui até a casa da minha mãe. A segunda a ser interrogada. Ela precisava terminar um telefonema importante com minha tia Zeca e depois fazer o almoço. Talvez o suco de mamão com laranja, que ela faz todo dia pela manhã, tinha pepino, e ela jamais me contou. Talvez aquele pedacinho de torta bem doce que ela não pode comer por causa da diabete, mas exagera toda tarde. As passagens pra São Paulo, super baratas, nunca foram “uma coisa de sorte”: ela pagava muito mais do que dizia só pra me fazer feliz. A real é que aquele cara que ela disse ter encontrado no teatro, não foi por acaso: eles já namoravam há quase um ano, só não sabia como contar. Eu criava tantas suposições na minha lista que eu iria durar semanas para descobrir tudo. Eram tópicos importantes, mas duvido muito que era algo muito grave. Talvez o suco.

Certeza que minha editora esconde alguma coisa de mim: quando precisou de alguém pra escrever comportamento na revista, ela escolheu outra repórter, me deixou na editoria de saúde, mas não teve coragem de contar pra mim que preferiu a bonitinha loira. Certeza que meu amigo não conheceu o namorado novo através de um amigo em comum: deve ter sido por aplicativo, mas ele ficou com vergonha de contar. Certeza que minha outra amiga não conseguiu mudar de cargo por competência: ela deu pro chefe.

Fiz uma festinha em casa, convidei TODOS os meus amigos, incentivei TODOS a beberem vodca, vinho, cerveja e tudo que embebedasse o mais rápido possível, e quis ouvir um sincerão: pronto, gente, me conta tudo. Quem é feliz aqui? Ouvi relatos tristes e óbvios como “ninguém, no fundo, é feliz solteiro” e “ninguém é feliz depois que encontra o amor da vida” e “inventaram a felicidade”. Descobri que uns dez amigos meus falam mal de mim. Coisas leves, nada muito grave. Daí pensei em colocar todo mundo pra fora da minha casa, deletar a porra toda do Facebook, dormir odiando a humanidade. Daí lembrei que eu falo mal deles também, e de muitos outros. Coisas leves, nada demais. E repensei toda a minha existência enquanto ser humano, cogitando a dureza de encarar a realidade maligna de que não passo de um filho da puta escroto mais falso que os dez amigos que falam mal de mim. Daí pensei que todo mundo deveria me colocar pra fora da minha casa e me deletar do Facebook. Daí lembrei que todos esses amigos de quem falo mal, falam mal dos nossos outros amigos que, por coincidência, são os mesmos dez que falam mal de mim. E cheguei a uma maravilhosa conclusão a respeito da vida: é normal. Ficamos no sofá, chapados de álcool, embaixo de edredons, abraçados, tentando ver qualquer coisa na TV.

No dia seguinte, quando Luana, a diarista que trabalha aqui em casa, estava aspirando a sala, ouvi um grito. Ao tirar a manta pra lavar, ela encontrou um buracão na poltrona, feito por Bento, meu cachorro. Era a poltrona que ganhei de presente da minha avó Maria. Uma relíquia portuguesa do século passado. Ele escondeu muito bem escondido tudo o que aprontou e, por isso, me rejeitava nos últimos dias. Preciso encontrar essa cartomante chamada Cidinha.

 

Até quando você vai brincar de ser louquinho?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Semana passada marquei um café com um amigo no Glauber Rocha. Volta e meia discutimos em festinhas, bares, telefone, rede social. Falamos umas coisas horríveis em grau que ultrapassa o nível escroto e sumimos — comportamento típico de quem se ama e se conhece muito. Mas, nesse dia do café, a gente conversou sem brigar. Até que ele me disse a grande lição do dia: “chega uma hora na vida que você precisa deixar de ser um leão pra poder manter amigos, emprego e relacionamento. Ou você pode escolher devorar todo mundo e viver sozinho”.

No meu último freela, quando fui comunicar que eu não prestava mais pra trabalhar ali, e por isso estava desistindo do trabalho, ouvi do meu chefe: “não quer ficar, tudo bem. Mas não esquece: toda essa sua mania de ser louquinho e falar o que pensa não vai te levar a lugar algum”. Meu ex-namorado uma vez me disse: “essa sua capacidade de sempre achar que está certo consegue te fazer mais arrogante do que você já é”. Uma amiga, dessas que a gente confia muito, me disse: “quem briga por tudo, acha que pode tudo e quer controlar tudo, na verdade só está tentando provar pra si mesmo que não é um merda”.

Já caguei pra tudo isso que me disseram. Já senti muita raiva, já chorei, já cheguei a dizer que nenhum deles me entendia. Mas acho que, no fundo, todos eles têm razão. E venho tentando — com respiração e autoanálise e terapia e oração e mantras e escrita — ser uma pessoa mais equilibrada e paciente, uma pessoa menos impulsiva e pesada.  Mas a verdade é que eu detesto o equilíbrio, a paciência, o controle e a leveza. Caramba, se eu tô puto, eu tô puto! Não dá pra fingir que não tô puto e sorrir amarelo pro mundo. Se eu tô com ciúme, não vou fingir que tá tudo bem e “agora não” e “não estraga” só pra parecer seguro, controlado e bem resolvido.

Se o cara que levanta a mão numa reunião é um filho da puta e fala besteira o tempo inteiro, eu não vou engolir o discurso calado, eu vou mais é esbravejar, berrar, liberar todo o ódio de dentro do meu estômago: você, com seu discurso bosta, é um grande filho da puta! Se a vaca que atende na pipoca do cinema me tratar mal, eu vou mais é falar mesmo que ela é uma grosseira e mal-educada e nem deveria estar ali. O sangue ferve a ponto de fazer bolhas aqui dentro, o suor desce em litros por puro nervosismo, e eu não quero fingir de jeito nenhum que nada tá acontecendo e tudo bem guardar essa raiva e tudo bem mostrar pro mundo que você não peita e tudo bem aguentar um pouquinho.

Eu não quero contar até mil, eu quero esmurrar a porta do elevador se ele demora três segundos pra abrir. Quero morder a orelha do meu namorado que apenas joga videogame e se esparrama no sofá, seguro e relaxado de tudo, enquanto eu me desfaço em prantos porque amar é complicado pra caralho. Eu não quero largar o carrinho e ter que sair pra respirar na porta do supermercado, eu quero que a menina do caixa pare de bater papo com a outra que não para de bater papo com mais duas que não param de bater papo e que todas elas atendam as três mil pessoas na fila. Quero colocar TODAS as pessoas do meu trabalho que falam MuLiro colocando o L no lugar do R, achando isso engraçadíssimo, dentro de um quarto fechado e abrir o gás. E não tem como fazer tudo isso sem ser olhado como arrogante, louco, dono da verdade, cruel.

Eu sou antipático mesmo, eu sou insuportável mesmo. O mundo tá cheio de gente burra e brega e eu tenho todo o direito de não querer olhar na cara delas. Não tô fazendo mal a ninguém, só tô fazendo bem a mim mesmo.

É tão triste saber que vocês esperam o fim de semana chegar pra colocar uma roupinha da moda e morrer esperando na fila de uma daquelas festas idiotas da Commons. É tão triste ver todos vocês voltando pra casa sem saber o que fazer daqui a dez minutos. Voltando vazio pra casa, com ressaca e o corpo entupido de fumaça de cigarro, acordando de manhã sem nada na alma.  É tão triste ver todos os casais que não se amam, mas já estão há dez anos juntos por puro comodismo e só sobrevivem pra fazer concorrência a outros casais que só sobrevivem pra fazer concorrência a outros casais. É mais triste ainda aceitar que as contas do final do mês (e isso inclui condomínio, SKY, GVT, Netflix) valham a minha bunda sentada mais de sete horas por dia que só me faz lembrar o tempo inteiro o quanto eu odeio essa gente que se acha cult porque fez um curso enrolation no exterior, mas nunca leu metade dos livros que eu já li e não tem metade do meu portfólio.

Parem de achar que tá tudo muito bom, humanos filhos da puta. Parem de sorrir pra tudo, de gostar de tudo, de ser feliz com tudo. Confessem que vocês não fazem a menor ideia do que fazem nesse universo. Confessem a raiva de estar feio, e confessem que estar bonito, depois de tanta produção, não adianta merda nenhuma.

Mas eu não movo um dedo. Eu continuo sendo como todos eles. Eu continuo esperando o fim de semana pra usar uma merda de roupinha da moda, numa festinha hipster da moda, no meio de um monte de merdas com óculos de aros grossos e camisa xadrez que se parecem comigo. Eu quero o cabelo fedendo a cigarro pra ser bem aceito porque, quando você faz parte de um grupinho, a dor não existe. E se existe, ela não é visível. E, no fundo, todo mundo sabe que a dor existe, mas é melhor que ela seja invisível mesmo. E eu sigo voltando pra casa vazio, acordando no dia seguinte perdido, sozinho, triste, com ressaca do álcool e da vida, achando tudo falso, pequeno e banal. Acordando mais uma vez, todos os dias da minha vida, sem saber direito o que vai ser daqui a dez minutos.

Assim é a vida. Você dá mais um gole na Coca-Cola pra não reparar que o bonitinho da mesa ao lado se interessou pelo seu namorado, e seu namorado, como qualquer ser humano normal, gostou do bonitinho ter gostado. Você revira o Spotify inteiro pra não reparar que a menina de treze anos, se pegando em frente à escola com um cara escroto de 28, já tem malícia, mas não sabe escolher sapato. Você inventa, se desculpa, passa a vida cego para poder viver. Porque enxergar a vida como ela é, cá pra nós, dói muito e enlouquece, e louco acaba numa poltrona, de um sobrado vazio, reclamando com gato.

Você passa a vida sem poder enxergar, mentindo, não dando importância, perdoando, teatralizando o personagem que sempre precisa dar a volta por cima, que sempre controla, que sempre espera, e nunca desce do salto. Só que o esse salto um dia quebra, e você morre sem nunca ter vivido, sem nunca ter gritado, e você deixa de existir porque não sabe gritar. Você é mais um bonitinho produzido na fotografia de mais uma festa produzida, é um coadjuvante insosso dessa palhaçada de teatro que é a vida.

Você aceita voltar pra casa dez da noite, depois de mais um dia estressante no trabalho. Você aguenta mais um artigo da faculdade. Você suporta mais dez minutos na fila do Restaurante Universitário. Você aceita a vida, porque é o que a gente acaba fazendo, no fim das contas, pra não se jogar do prédio ou jogar algum imbecil que escuta você reclamar horas sem fim das raivas e incertezas da vida e responde sem maior importância: relaaaaaaaaaaxa! Eu não vou usar nenhuma droga, eu não vou beber até passar vergonha no meio de uma festa, eu não vou dançar a noite inteira pra fingir que não tenho problema,  eu não vou engolir, eu não vou desistir de querer me encontrar, de saber em mais uma terapia que porra é essa que me entristece tanto dia após dias, de tentar entender por que eu nunca me achei normal. Eu não vou relaxaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar.

A única coisa que me deixa calado e, vez ou outra, me transforma em alguém incrivelmente normal é que ser um louquinho, que fala o que pensa, só vale a pena se você tiver alguém, no fim do dia, pra contar o quanto você faz a vida valer a pena.

Você jamais faria sexo por Skype

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Sábado, duas da manhã. Depois que ele voltou de um encontro com amigos no Chupito. Depois que eu voltei de um encontro com amigos na casa de André. E a gente tá lá: online no Skype. Talvez ele esteja assistindo um filme de Hitchcock ou de Tarantino em outra tela. Ou lendo alguma coisa sobre inovações mobile, pré-sal, pau-brasil. Ou vendo um pornô. Fico olhando a foto dele ao lado esquerdo da tela. Como ele é bonito. Aquela foto com pose heroica, esquiando, que nunca muda. Aquele sorriso grande congelado.

A gente nunca combinou dia e nem horário. Mas a gente sempre se encontra. E eu sempre puxo assunto quando ele não puxa assunto comigo. E ele dizendo o quanto queria sair comigo de novo, “mas porra, tá foda”. E eu dizendo o quanto queria que ele realmente quisesse sair comigo de novo. Mas eu sei, tá foda. E ele me dizendo que bebeu um pouco no Chupito. E eu dizendo pra ele que bebi um pouco na casa de André. E ele focava a camerazinha e me mostrava: Olha, chazinho de hortelã pra me redimir do álcool. E eu focava a camerazinha e mostrava: Olha como eu fico feinho dentro de casa. Vou colocar outro chazinho no micro-ondas, tá? E ele levantava pra ir à cozinha e eu via que ele estava só com cueca. Os ombros largos, o peitoral cabeludo, o abdômen mais inchado — coisa de quem passa doze horas trabalhando em frente ao computador.

E ele voltava desfilando com a cueca branca. E eu me sentia meio incomodado, meio excitado, mas eu me dizia a cada calor: “Sem chance, eu jamais faria sexo por Skype”. Nem ele. Sério, eu fico estranho com esse pijaminha? E ele concordava rindo. Aquilo era basicamente um encontro e eu não poderia estar e nem me sentir ridículo. E eu estava me sentindo ridículo. Eu jamais abriria a porta pra receber ele em casa com esse pijaminha. Eu jamais me encontraria com ele com esse pijaminha. Lá vou eu colocar uma camisa bonita que comprei na Osklen semana passada. Uma coisa que não me fazia sentir nem velho nem adolescente. Enquanto vestia, eu me falava: “Nem pensar, eu jamais faria sexo por Skype”. Nem ele.

E ele ascendia um cigarrinho de maconha e soltava os cabelos. E tirava uma mecha de cabelo que insistia em cair nos olhos. E a mecha caía de novo. E então começava a briga dele com o cabelo. Um tira e cai. E eu colocava a perna em cima da escrivaninha. Abria a janela. Levantava a persiana. Meu Deus, como está quente aqui!!! E ele me conta que tem um fetiche. E eu mudo de assunto falando que Activia não regula nada no meu estômago. E ele não se importa com a minha minha flora intestinal e volta a falar do fetiche. E dá um trago no cigarrinho de maconha. E mexe de novo na mecha do cabelo que cai nos olhos. Que homem lindo.

E então ele me conta que encontrou aquele ator que ganhou o prêmio Braskem de Teatro e que dizem que é bissexual. E que ele tem fetiche em ir pra cama com dois caras, principalmente um bissexual. E eu comento que nunca transei com dois rapazes, mas, com ele e com o ator do prêmio Braskem… Nossa, super transaria. E ele me diz que também nunca quis saber de dois ao mesmo tempo. Sei lá, ele gosta de exclusividade, de fazer bem feito. Mas que comigo e com o ator que ganhou o prêmio Brasken… Nossa, até que não seria má ideia.

E ele pega no pau, pensa que eu não vejo. Será que ele tá excitado? E eu, nossa, eu tô com muito calor. Ele não vai ver se eu tirar essa bermuda jeans que sufoca as minhas coxas. Não tenho culpa dos setenta e oito graus de Salvador. A camerazinha só me pega dos ombros pra cima. Logo, se eu tirar a bermuda, ele não vai ver! Mas eu estou com a camiseta que comprei semana passada e o short do pijaminha. Não existe bermuda. Caramba, então por que essa vontade de tirar a bermuda? Não sei de nada, só sei que ele é um homem bonito, interessante, inteligente, bem-humorado, ganha bem, charmoso, pegador. Não precisa trepar com outro homem pelo Skype. E eu, bom, eu tenho aí uns três ou quatro amiguinhos que me visitam num desses dias mais calorentos. Jamais na vida precisei trepar com uma camerazinha, com a imaginação e com umas frases seguidas por emojis felizes, surpresos e amarelos.

Ele me mostra um livro de Marília Garcia. Eu mostro um livro de Paulo Mendes Campos. Nossa conversa literária não dura dois minutos: ele quer putaria. E ele quer voltar ao assunto do sexo a três, com o ator do prêmio Braskem. E eu comento, assim, na brincadeira, juro, que eu queria experimentar o tal ator, mas só se ele estivesse comigo também. E ele para de falar comigo alguns segundos. E acende outro cigarrinho de maconha. E bebe mais um gole do chazinho de hortelã. E mexe no cabelo. E então ele volta e fala que adoraria me ver, assim, na brincadeira, ele jura, experimentando o tal ator.

E eu começo a achar que essa conversa tá indo longe demais, sabe? Caramba, sexo pela internet é tão MSN. É tão adolescente. É tão 2006. É tão internet discada. É coisa desses caras meio doentes, não? Desses caras preguiçosos que preferem bater uma rapidinha do que levar alguém pro motel. E desses garotos feios e tímidos. É coisa de gente que não tem capacidade pra conquistar ao vivo. Ou de nerd com espinha que joga vídeo-game o dia inteiro, sei lá. E ele é um puta publicitário. E ele é um puta escritor. E ele é um puta roteirista. Não é nerd, não é feio, não é tímido, não é preguiçoso. E eu sou maior legal. E dei uma melhorada nos últimos anos.

E ele vira o último gole do chazinho e coloca a xícara na mesa. E lambe os lábios. E passa, pela trigésima vez, a mão pelos cabelos. E me manda um beijo. E eu enlouqueço naqueles cabelos e naquela boca e naquela língua. Mas já são quase quatro da manhã e a gente tá meio bêbado e ele mora em Vilas. A coisa que eu mais queria era estar lá com ele, bebendo chazinho, fumando com ele, passando a mão naqueles cabelos, mordendo aquela boca. E então, imediatamente sem pensar, ele escreve “enquanto você beija ele, eu beijo o seu corpo inteiro”. E eu, imediatamente sem pensar, respondo “enquanto beijo ele, é o seu gosto que eu sinto”. Depois disso, a coisa piora muito. Escrivaninha, sofá, corredor, armário da cozinha, elevador, piscina. A gente transa loucamente em todos os lugares possíveis. Eu, ele e o ator do prêmio Braskem.

Eu, que jamais pensei em fazer sexo virtual e muito menos a três, quando vi estava fazendo os dois ao mesmo tempo. Lembrei da série Looking, depois lembrei da série Queer as Folk. Os personagens que faziam isso eram descolados demais pro meu gosto. Mas tudo bem. Agora eu estava na pia da área de serviço, ou melhor, em cima da máquina de lavar. Não era a melhor hora pra pensar em série. No fim das contas ele brochou. Ou melhor: a imagem travou e ficou lenta, o que dá no mesmo que brochar. E no dia seguinte, ele fez o que todo homem sempre faz comigo: sumiu. Não apareceu no Skype, não respondeu mensagem, não atendeu o telefone. Ele simplesmente sumiu. É impressionante como até a maneira de fazer sexo mudou, mas a dificuldade em entender relações continua igual desde o tempo das cavernas.

Minha única dívida é um pedido de desculpas

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Há pelo menos seis meses, toda terça-feira, oito e trinta e cinco da manhã, recebo uma ligação do Bradesco: “Senhor Gilberto Costa, temos uma oportunidade irrecusável pro senhor parcelar e liquidar a sua dívida no banco”. Eu sempre dizia ao atendente que eu não me chamava Gilberto Costa e desligava o telefone. Mas, há pelo menos três meses, toda terça-feira, quatro e trinta e cinco da tarde, recebo outra ligação do Bradesco, sempre atrapalhando aula, reunião, sexo, cinema, lançamento de livro, aniversário, dor na emergência. É uma ligação mais enérgica como: “Senhor Gilberto Costa, caso o senhor não parcele a dívida até o dia 29, seu nome será encaminhado para o Serviço de Proteção ao Crédito”.

Já expliquei que nunca me chamei Gilberto Costa, que nunca ouvi falar nessa criatura. Não é primo, não é irmão, não é pai, não é namorado, não é. Já implorei pra excluírem meu número desse mailing de devedores. Até que semana passada, uma dessas atendentes, uma alma bondosa, sentindo o peso na minha voz de sofreguidão, fez uma leitura de honestidade no meu discurso de quase uma hora: “mas o senhor não deve nada mesmo?”. Desliguei o telefone sem sentir culpa. Em nenhum espacinho de cérebro existia culpa: eu não devia a absolutamente ninguém. Nem um almoço a uma amiga, nem uma cervejinha a um amigo, muito menos a um banco. Eu não devia a absolutamente ninguém.

Tomei banho, lavei a louça, dobrei algumas roupas, molhei as plantas e passei mais da metade do dia com a pergunta da atendente de alma bondosa: “mas o senhor não deve nada mesmo?”. Um carro do ovo passa lá longe. Esse carro não sabe, mas foram quase oito anos ouvindo você imitar a voz do homem que fala no microfone do carro do ovo. E nos últimos cinco anos eu passei a ouvir carros e passei a ouvir gente bêbada e passei a ouvir buzinas e passei a ouvir ruas e não ouço a sua voz. Mas a sua voz existe e não imita mais o carro do ovo e não me diz nada. Eu sei, você é chato, idiota, irritante e grosseiro, e eu vivia com nojo de você porque você nunca lavava as meias, mas você conseguiu o que o mundo inteiro nem quis tentar: você me amou de verdade.

Lembrei que, por anos, você foi o único que entendeu as minhas angústias no Réveillon. O único que entendeu as minhas angústias sempre quando apagavam as luzes pra comemorar qualquer aniversário. E o único que sempre permitiu também, depois, que eu chorasse sem me pedir pra parar, sem me achar louco. Eu sempre alérgico, com enjoo, reclamando, e você sempre entendendo tudo. Outro dia eu encontrei um vídeo, de 2012, num pen drive antigo. E lá você me pedia em casamento, de brincadeira, no meio de todos os meus amigos. Senti um misto de saudade e de melancolia ao assistir o vídeo incontáveis vezes em menos de meia hora. Mesmo vendo você como amigo e tratando todo o resto como o homem da minha vida, você me mostrou que todos sempre foram meninos perto de você.

Lembrei que, por anos, mesmo enxergando você apenas como amigo, eu desmarquei jantares e cinemas com todos os meus namorados e fui ao Bailinho de Quinta com você. Porque você sempre sentiu a energia da banda da mesma forma que eu sinto. Porque você sempre pulou e dançou e cantou todas as músicas de cor numa intensidade incrível, como se não fosse viver no próximo segundo.

Depois lembrei de você, largado no sofá da casa de Bia, meio morgado de tanto fumar maconha. Você com um daqueles óculos azuis espelhados típicos de maconheiro, e eu com o All Star todo rabiscado com nomes de banda de rock, com as pernas em cima das suas. Eu não sei por que exatamente eu não te pedi desculpas quando não apareci na sua formatura. Você passou meses falando disso comigo e me ligou a noite inteira querendo saber se ao menos eu não iria aparecer na festa.

Eu não sei por que exatamente eu não te pedi desculpas quando te deixei de cueca na cama, menti que ia ao banheiro e fui embora. Foi a primeira vez que tinha acontecido uma coisa mais quente entre a gente e, na real, eu que tinha provocado. Ou quando eu te pedi companhia quando meu namorado estava viajando e você me olhou querendo dizer “eu só sirvo pra isso, né?”. Também não sei por que eu nunca te pedi desculpas quando eu deixei você sozinho no hospital naquele dia que sua mãe estava morrendo com cetoacidose. Eu deixei um bilhetinho ao lado da sua mochila escrito “tô com muita dor no estômago”, mas era tudo mentira. A verdade é que eu tinha ido pra casa assistir Dexter e comer brigadeiro de panela.

Aí depois lembrei que você, depois de um tempo, finalmente tinha cansado das minhas angústias e dos meus enjoos e das minhas alergias e das minhas fugas e das minhas ausências, principalmente das minhas ausências de pedidos de desculpas. E você foi embora. Você mudou de casa, de carro, de emprego, de roupa, de amigos e, finalmente, mudou comigo também. Você, finalmente, se apaixonou por um cara sem alergia, sem enjoo, sem angústia e esqueceu de mim.

Eu tenho saudade de duzentas coisas e todas essas duzentas coisas sempre me levam pra mesma única coisa de que eu tenho muita saudade. Eu tenho saudade de tudo. De você me carregando no colo até a casa da minha mãe. E das sopas. E os soluços. E o choro baixinho. E as suas taquicardias estranhas no meio da noite. E a vontade de te jogar debaixo do chuveiro quando você começou a gostar daquele cara que sabia inglês, sabia francês, sabia discotecar, sabia escolher sapato, mas não sabia cuidar de você. E a vontade de te sacudir e te dizer pra acordar pra vida. E o meu nó na garganta quando eu te deixei no aeroporto. E a saudade quando você viajou. E o meu ciúme quando você me mandou fotos com os seus novos amigos da Tailândia. E a minha ansiedade ao te esperar na fila de desembarque. E o seu sorriso sem jeito tentando esconder a sua raiva por causa dos meus atrasos. E a sua risada descontrolada quando eu falava algum sarcasmo.

Eu já namorei tantos caras, mas não eram deles que eu gostava. Juro, eu tentei gostar muito deles, tentei me divertir, tentei dançar com eles até perder o fôlego em todos os shows do Bailinho de Quinta, mas eles não mexiam comigo. Eu não consigo ficar com eles além de meia hora. Eles não têm a sua ânsia de começo de festa e sua energia de fim de festa. Não são eles. Esse texto é meu pedido de desculpas pra você, esse homem chato, idiota, irritante e grosseiro. É pra você, o homem que imitava o carro do ovo. O homem que me pedia em casamento. O homem que me fazia feliz de verdade. É a minha tentativa de quitar a dívida. É a minha tentativa de consertar todas as vezes que fui chato, idiota, irritante e grosseiro, mesmo sabendo que essas coisas, uma vez que foi, a gente não conserta mais.

Mas eu não suporto ela

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Encontrei, dentro da Zara, uma chata com quem eu trabalhei há três anos num freela pra um jornal. Cheia de pulseiras e brincos e colares pesados. Salto agulha gigante fazendo barulho a cada passo, batom rosa choque na boca, decotão e meio litro de perfume no meio dos seios. Pensei que a chata me faria aquelas velhas perguntas previsíveis de quem se encontra por acaso, depois me daria um beijo no rosto e cairia fora, afinal, a gente nunca teve intimidade. Mas ela foi além.

Falando cuspindo, falando tocando, ela me mostrou duzentas fotos do filho no Instagram e, não satisfeita, me fez ver os vídeos do bebezinho dizendo “papai”, enquanto comia papinha de banana, o que me obrigou a fazer carinhas fofas. Falou que Dom, um Shih Tzu da família, anda aprontando muito dentro de casa e que ninguém consegue controlar o vício dele de rasgar papel higiênico, o que me fez dar dicas de como educar cãezinhos. Disse que sente saudades dos três meses que morou na Europa “porque lá é outro mundo”, o que me obrigou a aconselhá-la a economizar dinheiro e, quem sabe, voltar pra lá. Quando eu já não aguentava mais ser uma espécie de coaching de vida para ela, passei a repetir entre um diálogo e outro expressões como “Nossa”, “Sério?”, “Não acredito!”, “Meu Deus” automaticamente.

Ela quis saber sobre minha vida como jornalista, quis saber sobre meu namorado, quis saber se morar na orla era caro, quis saber minha opinião sobre a novela das nove, quis saber, quis saber, quis saber. Me irrito porque, sempre que ela conversa, parece ter acabado de sair da primeira aula de teatro de um curso vagabundo de bairro. Os olhos arregalados como se estivesse tendo um AVC, o peito ofegante como se seus sentimentos fossem exclusivos e incríveis. As mãos dançando pelo ar como uma bailarina de programa de auditório mal-produzido. Sempre marcando os dentes de verde neon, numa risada exagerada.

Pra não parecer antipático, elogiei a pele dela, o cabelo dela, a roupa dela. Disse pra combinarmos algo qualquer dia desses: “quem sabe um café, hein? Pra colocar o papo em dia”. Enquanto sorria para a chata, eu disse silenciosamente: “fica esperando por esse café, vaca”. Por fim, ajeitei o cachecol da criatura, alisei o ombro dela e falei que Salvador continua bipolar como sempre: não sabe se faz sol, não sabe se chove. Quando pensei que enfim me livraria da chata, ao contar a mentirinha “estou muito atrasado, mas vamos nos falando”, ela segurou meu braço querendo saber em qual loja comprei meus sapatos porque eles eram muito bonitos. Expliquei que vi numa lojinha virtual, me apaixonei e comprei. Ela pediu, com a testa franzida, que eu mandasse o link porque pensou em dar de presente um par parecido ao marido. Enquanto eu sorria para a chata, eu disse silenciosamente: “fica esperando pelo link, vaca”.

Ao dar as costas e revirar uma arara de roupas, me culpei: MAS EU NÃO SUPORTO ELA. Por que abracei aquela mulher, por que falei sobre minha vida, por que dei risada, por que sugeri um café, por que permiti que a conversa excedesse dez minutos, por que eu elogiei a pele e a roupa e o cabelo dela? Seria eu, então, uma daquelas pessoas falsas pra cacete? Seria eu, então, o rei da falsidade? Seria eu, então, a pessoa mais cretina do mundo? Cheguei até mesmo a correr pela loja para encontrar a chata e dizer a verdade: “a real é que eu te acho péssima”. Cheguei até mesmo a correr pelo shopping atrás da chata pra dizer que eu só queria ser simpático: “a real é que eu não te suporto! Morra!!!!”.

Quis encontrar a criatura e falar que o cachorrinho dela um dia morreria entalado de tanto comer papel higiênico, que a pele dela parecia um mix de arroz doce com doce de leite: entupida de tanto cravo coberta com base líquida; que o cabelo dela estava mais horrível do que quando a conheci – resto de tinta loira nas pontas dos fios imitando californianas que nunca existiram era o fim da picada. Quis anotar na agenda dela o número de uma amiga fonoaudióloga pra ajudá-la a melhorar a dicção, até porque, que porre aguentar o tempo inteiro ela falando pelo nariz, abusando das fricativas e lábio-dental. Quis pegar umas duas peças na seção feminina da loja e dizer: “veste isso aqui pra você ser menos brega, filhinha”.

Mas não encontrei a chata. E agora? Teria que conviver pra sempre com a angústia da minha consciência gritando “falso pra cacete”? Teria que ir, naquela loja, naquele horário, naquele dia, pelo resto da vida, até me esbarrar com aquela criatura? Ou teria eu sido movido por uma bondade repentina, simpatia repentina, afeição repentina, dominado pela psique que acredita no que se convém apropriado no momento? Passei oito horas do dia me culpando.

Corri para casa. Abri o Facebook. Chat, o meu parquinho de verdades. Queria dizer que não, eu não suportava ela. Queria dizer, sem medir as palavras, que a existência dela era desnecessária. Escrever que eu tinha pavor àquela mulher para aquela mulher me faria ser menos cínico, menos dissimulado. Digitei, assim meio rápido, concentradíssimo. Textão. Senti, mais uma vez, culpa. Parei de digitar. No cosmo da vida, no poço mais profundo do meu inconsciente, me perguntei o que aquela criatura fez de ruim pra mim. Seria uma antipatia de outra vida? Seria implicância minha? Por que eu tremia de raiva ao ouvir a voz nasalada dela? Por que eu não aceitava, de bom grado, que ela pudesse ser brega, mas ser uma boa pessoa? Achei violência gratuita. Apaguei o textão e mandei o link da lojinha virtual. Aconselhei a compra dos sapatos à vista pra poder ganhar desconto. Me senti uma pessoa má, escrota, desumana. Passei oito horas do dia me culpando. Ao secar o cabelo com a toalha, pensei: “Coitada, aquela criatura chata nunca me fez mal algum”. Abri o Facebook de novo. Chat, o meu parquinho da redenção. Marquei um café com ela na terça.

O que você vai fazer mais tarde?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

“Ele também gostava dessa bebida”, ele disse, ao meu lado, no balcão do Bar Cravinho, encostando as pontas dos dedos no meu braço, enquanto eu pedia, no calor e no aperto, uma dose de Senzala. Ele quem? Quis perguntar, mas fiquei sem reação. Eu tinha ido a um show com uns amigos no TCA e tudo o que eu mais queria, agora que estava sozinho, era beber um pouco. O trânsito do Campo Grande até o Centro Histórico, sempre tão calmo, estava ruim. Fiquei preso por mais de meia hora num congestionamento na Avenida Sete. Aí, quando eu finalmente chego e peço uma dose de Senzala, ele encosta as pontinhas dos dedos no meu braço e, como se fosse um velho conhecido ou como se eu soubesse toda a história que ele tem na cabeça, larga essa: “Ele também gostava dessa bebida”.

Minha curiosidade pra saber de quem ele falava foi contida porque ele logo continuou: “Foi aqui que a gente se conheceu. Neste mesmo balcão. Há oito anos. 12 de março de 2009. Hoje faríamos oito anos juntos. Até que há três anos… Nem gosto de lembrar disso. Talvez tenha sido melhor assim. Talvez ele esteja num lugar bem melhor”. Ele então baixou a cabeça e, discretamente, consegui ver uma lágrima presa nos olhos. Havia um silêncio alto entre a gente, entre um diálogo e outro, quando o desabafo foi interrompido pelo atendente do bar que me entregou a bebida. As pessoas andavam para lá e para cá, as pessoas faziam pedidos, as pessoas riam e falavam mais alto do que de costume, as pessoas seguiam suas vidas. No meio da confusão do bar e do nó na garganta, consegui expulsar um “força”. “Eu agradeço. Mas até que hoje em dia me sinto melhor. Não que eu tenha me conformado, porque eu ainda sinto muita saudade dele. E quem sente saudade não se conforma nunca. O problema é que com o tempo a gente vai sentindo falta das pequenas coisas. Essas pequenas coisas vão se juntando e crescendo e crescendo, crescendo tanto que começam a ficar difíceis de suportar. Mas a gente acaba suportando”. “Tipo datas especiais?”. “Antes fosse isso. Eu sinto falta do cheiro do cabelo dele no travesseiro. Não é o cheiro do xampu que ele usava. Talvez seja a mistura do cheiro do xampu com o cheiro natural do cabelo. Mas o certo é que eu procuro, procuro, todos os dias eu procuro, só Deus sabe o quanto eu procuro, mas não acho esse cheiro em lugar algum. Não vende na farmácia”. Concordei com a cabeça enquanto dava goles curtos na bebida. Aproveitei o silêncio pra saber: “Você guardou as fotos que tirou com ele?”. “Todas. Até mesmo as que ele se achava feio. Olhar essas fotos me faz bem. Mas são fotografias de lugares que a gente ia, sabe? Fotos com poses, com sorrisos de foto, sempre muito bem arrumado. Por exemplo, tem foto da gente no terceiro casamento da minha mãe, na nossa viagem pra França, na cobertura do W. Zarzur, tomando um sorvete na Cubana. Mas ele não era daquele jeito, entende? Óculos escuros no rosto, camisa bem passada, cabelo lambido. Ele não era. Eu queria imagens dele fazendo as coisas que ele sempre fazia, as coisas que ele gostava de fazer, por exemplo, ler com toalha. Eu não tenho foto dele, distraído, lendo de toalha. Não tenho uma foto dele arrumando os livros na estante, mas tenho foto dele num restaurante que a gente nunca ia e nunca voltaria. É estranho. Eu me arrependo de não ter uma foto dele no supermercado escolhendo fruta, colocando iogurte no carrinho. Eu tenho essa imagem dele na cabeça, mas eu nunca registrei. Por que eu não tenho uma foto dele, descendo do ônibus, todos os dias, sorrindo pra mim? Por que a gente não registra essas imagens se são essas imagens que no fim das contas valem a pena? A foto que eu mais amo dele é uma que tirei no terraço do Glauber Rocha, olhando a Baía de Todos-os-Santos. Eu acho a vista de lá maravilhosa. O problema é a fiação elétrica. Esses fios desordenados poluem qualquer resquício de doçura que possa existir. Mas você sabe o jeito que eu mais lembro dele? De samba-canção. Nossa, ele ficava muito lindo de samba-canção. Mas ele nunca ficava de samba-canção quando tinha visita, quando a gente ia tirar foto. Ele sempre saía correndo pra colocar uma bermuda e uma camiseta e ser quem ele não era. As fotografias fazem isso, né? Ou a gente que faz isso com as fotografias?”. “Não sei”. “Quer que eu pague outra dessa pra você?”. “Não precisa, obrigado”. “Hoje, mais do que todos os outros dias, me deu uma agonia, saudade dele. Aí vim pra cá, onde a gente se conheceu. E fico olhando pra porta. Fico vendo as pessoas passarem. Esse finalzinho de tarde é triste, né? Tá todo mundo cansado, cabisbaixo, voltando pra casa sem vida, jogado pelos cantos do metrô, se apertando nos ônibus. São corpos mortos perambulando pela metrópole. Era pra ele que eu contava tudo do meu dia. Isso me fazia bem, me fazia vivo, eu não era mais um corpo morto perambulando pela metrópole”. “E agora, você faz como?”. “Hoje faríamos oito anos juntos. Continuo sentindo falta dele todos os dias. Todos os dias. Conheci outros caras, rapazes bons, inteligentes, bonitos, sérios, com boa formação cultural, mas amor, amor mesmo, só com ele. Mas não tem mais ele, cê tá acompanhando? Nem nos lugares. A arquitetura muda e leva ele embora. Aqui nesse bar, por exemplo, não tinha aquele banquinha, não tinha essa pintura. Eu lembro bem: nessa hora assim, a gente tava se olhando, aqui nesse mesmo bar, ele tava ali no canto onde colocaram essa banquinha. E ele sorriu pra mim tão feliz, mas meio tímido. Ele era meio tímido mesmo. Eu gostei. Eu encontrei naquele sorriso a graça da vida. Eu via nele o homem certo pra ser o outro pai dos meus filhos. Aí eu fico aqui agora, assim, achando que a qualquer momento ele pode chegar. O bom da vida é que a gente pode inventar o tempo inteiro”.

Paguei a conta, dei um abraço forte e me despedi. “Vai dar tudo certo”. “Espero. De qualquer forma, taí uma história bonita pra você não desistir do amor. Você já amou alguém assim como eu amo? Você ama alguém? Você tem cara que ama. E ama muito”. “Como é ter cara de que ama?”. “Seus olhos brilham mais do que o normal”. “Ah”. “O que você vai fazer mais tarde? Vai voltar pra casa, mais uma vez, triste, e fingir que não se importa? Vai voltar pra casa, mais uma vez, com os ombros pesados, e de novo dormir soluçando, aguentando não aguentar, se dizendo que uma hora isso passa? Como é encostar a cabeça no travesseiro, todas as noites, sentindo culpa, falta, um vazio? Liga pra ele. Você tem cara que tá sempre sabendo de tudo, né? Então. Fala que você sente falta. Fala que ele mudou alguma coisa na sua vida. Sai pra jantar. Aproveita o mundo com ele porque a arquitetura muda, a arquitetura estraga o passado. Depois cê volta pra casa, tira várias fotos dele, distraído, das coisas que ele sempre faz, das coisas que ele gosta de fazer. Eu não posso, mas você ainda tem essa chance”.

O amor em tempos de WhatsApp

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

20h57 — Eu fui ao clínico e ele achou estranha essa dor que eu sinto no flanco. Eu acho que é problema renal. Ele acha que é só espasmo muscular. Não sei. Daí ele pediu uns exames. Até hoje não saiu o resultado. Fico angustiado pensando nisso todas as vezes que sinto dor no flanco.

21h01 — Eu tava com tanta fome que comi de uma vez só toda a comida que eu trouxe na mochila pra comer o dia inteiro na Ufba. Era uma fome imensa. Eu tô sempre com fome.

21h02 — Hoje eu passei por uma daquelas academias com fachada de vidro, na Orla, e me empolguei um pouco. Sei lá, aquelas pessoas parecem tão dispostas correndo na esteira pela vitrine, com um objetivo, mais felizes do que eu. Você acha que eu engordei um pouco? Você acha que eu ficaria bonito com os ombros mais definidos? Sinto minha barriga maior, o abdômen estranho, a pele do braço mais molinha. Ter vinte e seis anos é um problema.

21h20 — Eu não acho que você está gordo. Eu acho que você sempre está bonito. Eu é que nunca me achei bonito. Alinhei a barba, comprei umas roupas, mas não sei. Você reclama dos vinte e seis porque nunca teve trinta e dois. Você acha que eu me visto bem? Nunca me achei interessante pra você.

21h21 — Eu amo a sua camisa polo branca que tem uma mancha amarelada de desodorante debaixo da manga.

22h01 — Não é só de roupa que eu tô falando.

22h02 — Você me perguntou: “você acha que eu me visto bem?”. Às vezes eu não consigo entender você.

22h17 — É de música, cinema, teatro, lugares interessantes. É disso que preciso me vestir. Eu poderia saber de cor todos os filmes que concorrem ao Oscar. Melhor: eu poderia dar bons palpites sobre os filmes que merecem ganhar o Oscar. Eu poderia saber criticar um texto de uma peça apresentada no Martins Gonçalves quando eu te acompanho. Mas a única coisa que eu sei falar é sobre essas séries populares da Netflix.

22h18 — Eu também assisto as séries populares da Netflix.

22h25 — Eu sei… Mas eu vejo você tão culto com sua turma culta falando tão bem sobre Almodóvar e Chico Buarque numa rodada de cerveja no Meia Oito e eu me sinto meio pra baixo. Eu não consigo acompanhar você. Eu deveria assistir mais filmes de arte. Eu sou um cara meio sozinho, eu deveria ver mais filmes de arte.

22h26 — Você sempre dorme quando assiste um filme de arte comigo. Da última vez roncou no cinema e as pessoas começaram a olhar pra minha cara e eu fiquei morrendo de vergonha.

22h49 — É que eu vivo com sono. Tipo agora. Tô caindo de sono aqui. Tenho que ir. Depois a gente se fala.

22h26 — Você devia começar vendo um filme chamado O Lobo da Estepe. É sobre Harry Haller, um cara solitário e cheio de conflitos pessoais que não consegue se relacionar com ninguém. Ele parece muito com você. Eu sempre me relaciono com homens que não sabem se relacionar. Mereço sair no Guinness.

22h31 — Quinze dias pra entender o que está acontecendo, pra você, é não saber se relacionar?

22h31 — Você funciona por deadline. O amor não é feito de prazos.

22h33 — Você me deu de presente de Natal uma caixa com discos do Caetano Veloso e não mexo nisso porque preciso continuar provando para as pessoas que trabalham comigo que eu sou um cara forte. Se vamos nos tornar inimigos, amigos, se vamos casar, não sei, de verdade. Te pedi quinze dias, só passaram seis. A gente não deveria se falar, se ver, revirar Instagram e Facebook, mas você não respeita esse tempo. Só sei que eu quero ficar sem te ver por esses dias. Eu deveria ter saudade de você o tempo todo, mas eu não tenho. Eu deveria te ligar quando eu chego da agência, mas eu não ligo. Eu deveria te dar tantos presentes bonitos. Eu deveria fazer terapia. Minha cabeça roda muito, minha nuca dói muito. Eu deleto tudo que eu não consigo resolver. Eu deleto você. Saber que você sofre porque eu sofro toma uma proporção enorme dentro de mim. Nesses seis dias eu precisei me esforçar muito pra não pensar em você porque precisava mostrar pra aqueles caras que eu não sou um moleque, que eu consigo ter uma relação séria com alguém. E esse alguém é você. E não dá pra mostrar isso pra eles e pra você ao mesmo tempo. Ter trinta e dois anos é um problema. Você quer que eu vá te buscar no jornal semana que vem? Quer dormir lá em casa? Eu faço café da manhã pra você. Eu quero que a gente dê certo. Eu não sei assim dizer que te amo, aqui, agora, mas eu já anotei no bloquinho do celular como meta pro ano que vem. Eu não quero te perder. Eu só quero quinze dias. É difícil?

22h34 — Quinze dias, pra mim, é uma eternidade. Uma hora sem você, pra mim, é o maior descaso que pode acontecer no mundo. Às vezes eu acho que esse tempo que você me pediu nada mais é do que a desculpa cruel e vagabunda de colocar fim no que a gente tem, mas você não sabe como. Eu preciso saber se você comeu bem, se você acordou bem, se você chegou em casa bem. A droga do trânsito que atrasa a sua vida, a falta de ânimo pra beber com seus amigos no fim de semana, sua falta de paciência pra esperar a comida descongelar no micro-ondas, sua preguiça de pegar um café do lado de fora da sua sala. Eu preciso saber dessas coisas o tempo inteiro. Fico roendo as unhas se você não me conta cada minuto do seu dia. Gente que ama como se estivesse seguindo um manual de instrução me irrita. Você tá gostando de outro cara? Não me conta, por favor.

22h37 — Eu não consigo ver você chorando, no banho, depois que a gente transa, e continuar fingindo que está tudo bem porque não está. Eu não consigo dar o amor que você espera. Uma vez você me disse que faltava entrega, doação, intensidade, romantismo, que eu estava sempre montado numa armadura do amor. Eu não gosto de ser o homem de ferro, mas eu sou esse homem. Mas se eu sou esse homem, o que eu posso fazer? Eu queria muito lembrar de datas, as nossas datas. Eu queria muito ser aquele cara que te leva espontaneamente pra esses restaurantes charmosos que você tanto gosta. Aquele cara que faz declaração de amor todos os dias. Mas eu acabo sendo o namorado que some o dia inteiro. Não é porque eu quero. Não é charminho. É que eu sou meio desligado mesmo. É que ando entupido de obrigações e prazos apertados. Me sinto mal por ver nos seus olhos essa dor, por ver nos seus olhos, no banho, depois que a gente transa, que você quer mais do que sexo. Eu quero aquela relação dos primeiros dias. Aquela relação que era só poesia, vinho, pizza, que o sexo ficava em segundo plano. Você merece uma relação que seja mais do que sexo, cê tá entendendo?

22h38 — Eu choro no banho, mas, antes disso, eu amo chupar seu pau.

22h45 — Eu amo quando você chupa meu pau… Não quero lembrar disso agora. Não estou bem. Preciso mesmo ir. Depois te chamo.

22h46 — Eu não consigo esperar por quinze dias pra saber o que está acontecendo. Minha ânsia de amar é tão grande que me apaixonei criança pela fumacinha da vela do meu bolo de aniversário e até hoje fico olhando pro ar pegando tudo que vejo pela frente pra tentar preencher essa falta. Eu vi em alguém, pela primeira vez, a fumacinha da vela. Eu vi em você, pela primeira vez, algo que pode preencher a falta. Eu inventei você. Eu inventei o amor. O maior troco que um personagem pode dar ao roteirista é passar a ter vida própria. Eu não respeito os seus quinze dias. Pra mim não importa se você não entende a gente. Não importa se você não me entende.

23h51 — Você diz que me ama, mas quem ama espera. Quinze dias ou dez anos. Você tem um roteiro de filme de arte na cabeça. Nesse roteiro, você criou um homem que se veste como você imagina, que gosta do que você imagina, que segue as cenas que você imagina. Você tem uma varanda na sua cabeça. Uma varanda com um homem sentado numa poltrona no centro dela. Esse homem tem uma xícara com café preto sem açúcar, uns livros de Dostoiévski empilhados na mesa, uns vasinhos de flores ao redor, um tapete persa e um quadro. Esse homem fuma maconha o tempo inteiro. Ele tem algo intelectualizado, meio pilhado, angustiado, de esquerda. Você não ama esse homem, você ensaia com o ator a cena que tem na sua cabeça. Esse homem pode te amar muito, mas você não consegue ou não quer entender que a forma dele te amar é completamente diferente da sua forma de amar, porque você simplesmente não aceita as improvisações da vida e se prende ao seu roteiro. Você quer saber exatamente o que eu gosto desde que seja exatamente o que você quer que eu goste. Você quer que eu saia com você, mas você quer ir exatamente aonde você quer ir. Seus cenários, suas idealizações banais. Você diz que sou frio, mas frieza mesmo é usar o outro pra ficcionalizar a relação que você sempre quis ter. Quinze dias não é descaso. Descaso mesmo é desconsiderar a outra pessoa como você faz. É querer tudo no seu minuto. É coagir a outra pessoa. É impor a sua realidade e os seus desejos como se eles fossem mais importantes do que a realidade e os desejos do outro. O maior troco que um personagem pode dar ao roteirista é passar a ter vida própria e eu tenho vida própria e você não suporta esse troco. Toda a sua arrogância não foi capaz de controlar o mundo e então você anda por aí dia após dia com suas raivas e ironias e sarcasmos e cansaços e dores no flanco. Como se todo mundo te devesse perdão eterno por não seguir a sua escaleta. Estar numa relação é ser humilde. O amor é bem mais do que isso que você sente. Isso é vontade impulsiva e vontade impulsiva torta. E porque não é amor, você planta uma sementinha que não é semente e fica olhando a terra até a primeira folha nascer. Você olha o vazio e se entrega ao vazio onde sua folha idealizada nunca nasce e nem nunca vai nascer.

23h52 — Agora quem precisa ir sou eu. Daqui a nove dias a gente se fala.

Nossa, como você tá bonito! É sexo?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Tênis surrado, camisa grande e barba por fazer. Esfriou um pouco e a vontade imensa de cair num balde de gelo finalmente vai embora. O casaco fininho cai, deixa os ombros um pouco à mostra e, por algum motivo que desconheço, desperto atenção de quem passa pelo corredor do prédio. “Que pele incrível é essa?”, já logo no elevador. “Ah, deve ser o protetor solar”. Bom dia, bom dia. “Murilo, o fim de semana foi bom, né? Ninguém acorda com essa cara bonita na segunda!”, ouço de seu Augusto, meu síndico, ​ao passar pela portaria. “Ah, devo ter dormido bem, finalmente!”. Bom dia, bom dia.

“Olha, você tá muito bonito hoje”, as pessoas falam no jornal. Um olha, comenta, outro concorda. Bom trabalho pra você, bom trabalho pra você também. No café, sorrisos e olhares admirados dão continuidade aos elogios. O que é? Que novidade é essa? Com quem ele está saindo? Que segredo ele guarda?  

Em frente ao computador, em paz, escrevendo a matéria, um ou outro chega sutilmente e tira a minha concentração. “Nossa, como você tá bonito! É sexo?”, as pessoas supõem. “Não tá reclamando de nada esses dias… É sexo?”, as pessoas brincam. “Ah, conta. Quem é o cara? Como ele é? É jornalista também? É arquiteto de novo? Alto, baixo, forte, magro, tem pancinha e barba… Como ele é? Vocês estão namorando? Se conheceram em algum aplicativo? Deixa eu adivinhar… Tinder? Vocês vão a um daqueles restaurantes do Rio Vermelho? Você nunca mais falou dessas suas histórias. Fala, quem é o cara que você tá saindo?”, meus amigos querem saber.

Ao andar na rua perguntam: voltou de viagem? No supermercado perguntam: voltou com alguém? É ele, aquele cara que você era completamente apaixonado? No bar, bebendo sozinho, a garçonete que sempre me atende quer saber quem vai chegar: ele vem? Na mesa em frente, um namorado antigo me vê e levanta pra cumprimentar: “Nossa, como você deu uma mudada. É sexo todo dia? Conta vai, eu aguento ouvir”. Contar o quê, gente?

No espelho do banheiro, depois de cantar mil vezes músicas recém-baixadas dRadiohead, depois de cuspir o creme dental, fecho os olhos, respiro fundo e me conto o segredo: ninguém. Não gostar de ninguém. Nem um pouquinho. Nem daquele cara de quase três anos, nem do outro de duas semanas, nem o do bar e muito menos daquele de uma noite. Nem da história incrível que acabou mês passado e nem da história incrível que possa começar mês que vem. Nada. Não gostar de ninguém. Nenhum ser no mundo me interessa. Essa pele linda não é sexo. É o resultado de uma hidratação incrível na alma que é se dar um tempo, se permitir, se conhecer, pra tentar entender quem a gente é. Sozinho, em paz. Agora dedico a minha vida inteira pras minhas futilidades tão amadas. A partir de agora uma vida inteira sem lamúrias, sem ansiedade, sem entrega ao outro. Sozinho, em paz.  

Um coração que bate mais calmo, sem desespero, se importando em mandar sangue para os momentos felizes de trabalho, cinema, estudo, teatro, terapia, massagem, sono, jantar com amigos, pilates, viagens, revistas, comer, escrever, rir, cabelo, roupas, séries, comprar, ler. É isso. Uma agenda imensa que me ocupa em ser o que gosto de ser e nem sequer sobra uma linha de dia pra lamentar existências e faltas e angústias. Uma agenda imensa pra tentar descobrir o que eu quero de verdade, pra saber o que eu vou fazer daqui a dez minutos ou dez anos. Pra enxergar a vida e gostar da vida. Pra dormir transbordando do que me faz bem e do que me faz continuar.

Eu não quero ser como o meu amigo que se descabela todos os dias pra manter um namoro que já acabou há tanto tempo e só ele não percebeu. Eu não quero ser como a minha vizinha que vive discutindo com o namorado no elevador porque ele não dá atenção que ela espera. Eu não quero a loucura d​a mensagem visualizada e não respondida, o stalker no Facebook, a ansiedade da ligação que não chega dele, bêbado, na madrugada, porque tudo parece ser melhor do que o silêncio. Tudo isso me deixa muito feio.

Com essa pele linda, eu sigo. Sem reclamar da vida, eu sigo. Bonito e feliz como nunca me viram. Com o pijaminha de bolinha que me deixa confortável, eu sigo. Dia após dia me esparramando no sofá, com um balde de pipoca, assistindo Please Like Me, sem precisar ser simpático com ninguém. Eu posso dormir até a hora que quiser sem precisar cobrar um pouquinho de amor e sem ficar esperando por um pouquinho de amor.

​O que antes eu tinha mais medo de falar e aceitar, agora eu repito em voz alta sem nenhum assombro: eu tô cada vez mais sozinho e em paz.

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