487 gostos

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino 

Eu gosto das luzinhas amarelas, vermelhas e violetas que aparecem em seus olhos por causa da incidência de luz. São essas luzinhas que me fazem lembrar a vida como lâmpadas de apartamentos que salvam ruas tristes e noturnas de uma grande metrópole. Você entope minha vida de cor que eu nem sei se existe e me deixa bem mais humano do que o resto do mundo.

Eu gosto dos dois ossos saltados nos seus ombros e se vejo eles descobertos pelas alças da camiseta de listrinhas tenho vontade de dedilhar como violino. Suas partes me lembram notas de clássicos de músicas francesas e se você me convence a dançar, eu rodopio sorrindo pelo salão inteiro entre garçons, mesas e convidados.

Eu gosto da sua camisa azul de botão que você sempre usa quando acorda atrasado e não sabe o que usar. E se ela desabotoa, no fim do dia, deixando à mostra alguns fios esquecidos e desinteressados de pelo do peito, eu fico segurando o cós da calça tentando controlar a ânsia de arrancar cada botão. Você insiste em dizer que “é só uma camisa velha” e eu, na minha completa arrogância, digo que não há como explicar o que não é passível de explicação. No meio de tudo isso, você sorri pra mim reto, direto, calmo, largo, amando sem preocupação, sem euforia.

Eu gosto da sua espinha ilíaca ântero-superior, a curva profunda concentrada entre o seu abdômen e a virilha quando você coloca a bermuda de moletom leve e fica pelado da cintura pra cima. É ali que você deposita todo o charme despretensioso de homem feito contrapondo o rosto de menino. Então fica a briga dos olhos sob os ombros e do peito sob a espinha ilíaca.

Eu gosto que seus ombros sobem e descem quando a sua respiração é profunda, que os ossos da sua mão aparecem quando você relaxa, que os dedos dos seus pés encolhem por algum motivo. E eu não sei bem se é por frio ou se é mania.

Eu gosto que seu cabelo seca ao longo do dia e seu topete fica aquela coisa meio dura, estática, eu acho bonito. Eu gosto de como você me espera na porta do meu trabalho no fim do dia. Eu vejo poesia na espera. Seus olhinhos fechados de cansaço pelo vidro do carro, a boca pálida porque você sempre esquece de beber água, suas costas meio suadas marcando a camisa, seu som repetindo We don’t talk anymore parecendo cena de novela.

Eu gosto quando você abre as janelas do carro, o vento não pede licença e seu cabelo perde a forma. E daí você me faz viver um elevador de sensações: eu dou risada com sua voz baixa querendo disfarçar alguma sinceridade muito alta; eu fico bravo quando você interrompe o assunto com aquele “deixa pra lá” que me mata mais do que tudo. Sua leveza dura a vida inteira, mas chega pra mim com a intensidade e duração de um cronômetro em contagem regressiva a dois segundos do fim.

Eu gosto quando eu chego em sua casa sem avisar, com sacolas de supermercado, e você, tão alto, me olha como menino e me abraça e me levanta e me roda e eu me sinto bem menor do que já sou. E então eu me refugio em seus braços, não me movo, pareço não ter sangue. Eu gosto de olhar sua mão por sete minutos e imaginar que você poderia me tocar mesmo que eu estivesse num mundo só meu e você num mundo só seu. Suas mãos grandes e largas invadem qualquer espaço do meu corpo com total respeito.

Eu gosto como o jeans cai perfeitamente em sua cintura sem precisar de cinto. Seu método sexy e egoísta que provoca inveja em qualquer produtor de videoclipe do Justin Timberlake. Você é bonito demais pra alguém tão inteligente e é quase injusto pro mundo existir alguém com tanto das duas coisas quando se olha ao redor e percebe que é difícil achar uma só. Eu pergunto o que é isso que deixa seu rosto tão interessante e você me diz, me achando hiperbólico, que é mistura de grego com gente do mato. Sério que não tem nada de alemão, italiano, galego? Você fica vermelho de tanto rir. Você sempre fica assim quando eu extrapolo os limites da realidade. E logo depois fala algo bem íntimo, quase sussurrando no meu ouvido, e percebe que não era hora pra isso.

Eu gosto quando você me acorda e procura putaria lá pelas cinco da manhã, no segundo em que a noite ameaça ser dia. Eu gosto quando você deita, cansado, e pede pra que hoje você fique por baixo. Eu gosto da força das suas mãos apertando o travesseiro e depois o meu cabelo e depois as minhas mãos. Eu gosto da loucura que é o seu gemido e o meu gemido e o suor pelos corpos e a falsa quietude que fica quando os dois viram pro lado. Eu poderia gravar seu gemido no iPod e sair com fones gigantes ouvindo pela cidade inteira nesses dias que a gente se desencontra, como um aparelhinho erótico ambulante.

Eu gosto que todas as suas camisas parecem azuis mesmo não sendo. Eu gosto da sua janela de madeira que não é madeira e que combina com a varanda e com a persiana. Eu gosto do papel de parede da sua cozinha. Eu gosto que você sorri quando digo que não existe poesia no meu exagero barato. Eu gosto do seu telefone com a tecla três quebrada. Eu gosto que o seu interfone deixa sua voz meio roca.

Eu gosto que você fica pilhado sem perder um traço sereno e intocável nos olhos, como se a vida fosse muito curta pra perder a calma. Eu gosto que quando tudo é felicidade, tédio ou tristeza seus olhos não perdem o brilho de dor. Eu gosto que você não sabe como, mas queria, por pura bondade, ajudar a velhinha passando mal no avião.

Tem vinte segundos que eu deixei você no elevador do meu prédio, mas já gostei de você 487 vezes até fechar a porta de casa. Eu gosto que você é um caminhão de luz que me cega na frente de todo mundo. Você acelera e eu, com medo de ser esmagado, ando pra frente confiando apenas no tato. Mas eu gosto mais ainda que você se esconde na esquina entre meu terceiro olho e a minha sobrancelha e o seu mistério, de tão saudável, não me deixa com aquele medo errado que só dá vertigem e me faz tropeçar.

 

Aviso

Excepcionalmente, o colunista não escreve nesta quarta-feira (13).

Sexo casual com amigo é só sexo casual com amigo, entendeu?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Pegue a xícara na mesinha de centro e beba um gole de café. Agora imagine que você tem um amigo divertido e que fala sobre todos os assuntos do mundo. Um amigo agradável que topa seus convites de última hora e que nunca se importou com seus esquecimentos de datas especiais. Pegue um biscoitinho de aveia na tigela, ao lado do pires, e mastigue bem devagar. Agora imagine que, desde que vocês se conheceram, isso lá na adolescência, fase em que os dois eram bem feinhos, você jamais evitou passar um segundo sequer longe dele. Porque ele, até então, era o que mudava seus dias de tédio. Coloque a xícara e o que sobrou do biscoito, na mesinha de centro, e encoste na poltrona. Agora imagine que, de repente, apenas porque vocês passaram da conta na cerveja e porque, muito loucos, dançaram bem juntinhos uma música argentina no Chupito e todos pararam pra olhar e sua mão boba percorreu o corpo dele e a mão dele percorreu o seu corpo e a coisa começou a ficar quente, mais quente do que você um dia ousou imaginar, você resolveu passar o resto da noite dando uma transada com esse rapaz adorável.

Pronto. É isso que eu quero entender. Exatamente essa cara assustada que você fez pra mim agora. Esse “eitaaaa!!!!”. Esse gritinho. Essa risada depois do gritinho. Esse seu queixo caído. Esses olhos que não piscam. Me explique. Por que amigos não podem transar? Que vergonha é essa que se instaurou no seu comportamento daí em diante? Que ameaça gigantesca é essa que uma mensagem com um simples “oi” pode causar? Que preocupação é essa de “pelo amor de Deus, esqueça que eu gozo”, correspondente às grandes profundidades dos oceanos e lagos ou do que é formado a grandes profundidades na terra, que você não pode encarar isso com total naturalidade? Mas se você se diz tão desconstruído, mas se vocês falavam tão abertamente sobre sexo, mas se você leva mais da metade do mundo pra cama, o que há de errado em, desta vez, ser com o seu amigão querido? Que palhaçada.

O que vai acontecer se — meu Jesus Cristinho; nossa, que difícil; vixe, que terrível; ai, que gastrite maluca — você continuar amigo do rapazinho todo depilado que, apesar de ter sim um corpo nu agora com cada centímetro irremediavelmente reconhecível por baixo daquelas calças e casaquinhos da Zara, só gostaria de, às vezes, lembrá-lo que tirar a roupa, que se embolar num edredom, que acordar deitado no peito do outro, que toda essa intimidade recém-adquirida não tem muito a ver com compromisso, mas sim com o rompimento da fronteira entre o normal e o patológico, com a energia dos instintos sexuais, com a comemoração de um contrato de momento (que acaba ali em algumas horas e, por isso mesmo, deveria ser tratado com total despreocupação).

Celebrar o gozo descompromissado é brindar o “amor prematuro que não foi adiante” e é preciso ser muito sensível de intenções para se emocionar com o amor perfeito que morre antes de ser e maduro suficiente pra entender que “tudo bem, isso foi ali e acabou”. Onde, em pleno 2017, está escrito ou gravado em vídeo que o tal rapazinho vai querer trocar alianças, vai sonhar em ser pedido em namoro, vai pensar em viagens românticas e exigir conhecer parentes que você nem se importa muito? Onde está escrito ou gravado em vídeo que após a pulsão noturna entre duas pessoas existe a obrigatoriedade de alteração no estado civil?

Por que você gostava dele te contando, repetidas vezes, quase todas as noites, sobre sentir angústia na virada do ano, de dor de barriga no Natal, de peixe estragado na Páscoa, de sentir um negócio que ninguém explica quando ninguém sente (e, sobretudo, de não sentir algo que alguém sente quando todo mundo sente) e agora, só porque abriu o botão da calça e o viu por outro ângulo, tudo se transformou num nível “um pouco demais pra sua vidinha de homem com total controle de tudo”? Vocês já conversaram sobre tantos assuntos profundos e tantas sinceridades extremas e tantas maldades e concordaram arrogâncias. Falaram no ouvido um do outro, dez segundos antes do beijo, dançando muito loucos a música argentina no Chupito, que estavam sentindo vertigem, mas que não poderiam parar. E agora vai correr desse rapazinho companheiro de vertigem?

Nem todo rapazinho que dorme com um homem bonito como você está em busca de um amor salvador. Nem todo rapazinho que tira você das suas expectativas organizadas está te esperando com uma corda no pescoço em um precipício. Eu tenho dezesseis médicos no Hospital Português que, toda vez que eu me desespero, seguram a minha cintura, mandam eu respirar e explicam que “ninguém morre de colite”. E me sinto maravilhosamente bem com esses dezesseis homens que me consolam em poucas horas. Médicos são amores passageiros, assim como você foi. Não sou um homem em busca de um amor pavimentado ou de alguém que me liberte de carências afetivas. Talvez um dia eu tenha sido, mas hoje não mais, e você sabe disso.

Do “amor prematuro que não foi adiante”, eu só queria a quebra do sigilo cósmico de saber que, em algum lugar do universo, embora a nossa amizade afinada acabasse, nos mantemos afinadíssimos com nossa amizade secreta e inabalável em algum lugar da atmosfera. O desejo sem imposição, a dedicação sem apego, a intensidade do suor dos corpos sem culpa, sem ressaca. É isso e nada mais. Dividir um yakisoba de camarão, falar mal das pessoas da faculdade e do trabalho, rir das histórias de família, talvez mais alguma coisa que surja de forma tão espontânea como sempre foi.

A cena da reviravolta

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz 

Ele foi me buscar em casa contra a vontade. Reclamando. Fazendo birra. Xingando. Andando angustiado pra lá e pra cá por todos os cômodos da minha casa. Eu dei risada. Achei engraçado. “Às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais”. Tava tocando isso no rádio. E eu dançando. E eu cantando debaixo do chuveiro. E eu nem aí. No elevador, ele sempre reclama. Ele detesta a demora do elevador do meu prédio. E desiste. E sempre fala: “caralho, puta merda. Essa porra desse elevador velho e fodido”. E não aguenta ter que esperar e desce as escadas xingando mais que isso. E me espera lá embaixo, agoniado. E eu nem aí. Ele já não me aflige mais.

No carro dele, no banco de trás, um casaquinho azul piscina tamanho P. De algum garoto magrinho, que certamente não sou eu, que certamente ele tá pegando. Deve ser da noite anterior. Ou de anteontem. Ou da semana passada. Mais um menino. Isso não vai mudar nem daqui a cem anos. Ele é cheio de garotos e, pela primeira vez nestes anos todos que o conheço, eu dei risada ao pensar nisso. Como que ele não faria sucesso entre os meninos? Bonito, inteligente, formado, com um bom papo, com uma boa família, com um bom emprego e com safadeza nos olhos. Que garoto não morre loucamente apaixonado por ele? Eu. Eu não morro mais de paixão por ele.

O que me faz viver sem achar que eu posso enlouquecer no próximo minuto. O que possibilita um relacionamento de verdade, com os pés no chão, sem aquela idealização bonita e babaca. O que deixa claro que, agora, posso falar tranquilamente dos meus medos e andar ao lado dele sem odiar a minha roupa e enfim esbravejar meu mau-humor, minha acidez, minha loucura. E posso falar com ele ao telefone uma vez por dia sem achar que a última vez que nos falamos foi há um ano. E posso sair com ele uma vez na semana, sem achar que uma vez na semana é uma década. E posso deixar ele ir embora, sem ficar com o coração apertado, sem voltar pro quarto e dormir pra não ter que pensar que ele realmente foi embora. Consigo até sorrir de verdade quando ele dá as costas, do portão. Consigo até dar um tchauzinho firme. Vai, querido, vai. Vou subir e comer meu pedaço de torta. Vai, querido, vai. Mais um ser que eu conheço neste planeta imenso.

Peço pra ele parar na Feira do Japão, na Liberdade, pra poder comprar caixotes. Quero fazer uma estante pra colocar meus novos livros. Explico que tá na moda e desço do carro. Ele também desce do carro e briga comigo. “Isso aqui é uma confusão de gente, Murilo”. “Por que você não compra uma estante barata?”. “Como que você vai fazer uma estante de caixote?”. “Olha, você inventa viu, Murilo?”. “Mau gosto da porra”. E diz que eu gosto de ir arrumadinho nessas feiras pra chamar atenção, pra que todo mundo perceba que eu não sou dali. E diz que eu amo ser educado com gente simples pra poder conseguir promoção. Que eu chego falando português complicado de propósito só pra me fazer de culto.

Eu não faço nada disso, mas eu é que não vou ficar me explicando pra ele ou brigar porque ele me julgou errado. Eu dei risada. Se eu estivesse apaixonado por ele, eu encostaria num canto qualquer daquela feira e começaria a chorar, a pedir desculpas, a me avaliar. Como assim eu vou arrumadinho pra poder chamar atenção? Como assim eu complico português pra me fazer de culto? Eu ia ficar com isso na cabeça pra sempre. Ia voltar pra minha psicóloga pra tentar entender. Ia passar mais tempo na feira, como um curso intensivo, pra tentar ser mais humilde. Mas apenas achei engraçado e comprei uma água de coco. Se eu estivesse apaixonado por ele, eu beberia essa água de coco e depois sairia correndo atrás de um banheiro pra vomitar, ainda remoendo tudo o que ele me falou. Mas como não tô nem aí pra ele, bebo duas águas de coco.

Depois fomos à mostra de esculturas do amigo dele, no Rio Vermelho. Eu tive nojo de usar aquelas luvinhas amarelas não descartáveis pra poder percorrer as mãos nas obras. Porque eu sei que o mundo todo usou aquelas luvinhas amarelas não descartáveis. E ele me olhando com cara de tédio. “Ai, Murilo, francamente, como você é fresco”. E eu aceitei ser fresco pra ele e não usei a porra da luvinha amarela não descartável e pronto. E deixei ele lá me julgando. E dei as costas. E deixei ele sozinho. Se eu tivesse apaixonado por ele, ia usar aquela luva querendo morrer de agonia. Ou ia explicar algo louco pra ele não entender. Ou ia inventar um telefonema e sumir dali. Ou ser sincero e ter que explicar quem eu sou. E pedir desculpas por eu ser assim, fresco. Mas eu achei engraçado. Ele me dizer que sou fresco e eu beber um suco light de cacau tem o mesmo efeito sobre mim. Nenhum.

No final da tarde fomos até a casa de uns amigos dele, na Pituba. E eu lá, no meio de todos eles, pela primeira vez nestes anos todos, gostando dos amigos dele. E ouvindo e rindo e dando conselhos e contando umas histórias minhas e sendo engraçado. Ficando amigo de alguns dos garotos que possivelmente ele já levou pra cama. A galera da maconha que vai em bando pro “reggae massa que vai ter sábado, mas antes tem que passar na praia pra pegar uma onda”. E ele me olhando lá no canto, de longe, pensando. Ah, Murilo, se você tivesse agido assim antes. Se você se comportasse desse jeito. Assim tão normal, tão leve, tão da galera, tão gente boa, tão simpático, tão engraçado, tão como todo mundo é. Ao invés de ter levado tudo muito a sério, sabe? Ao invés daqueles surtos de insegurança, daquela cara emburrada por bobagem, daquela cobrança pra o amor ser mais forte, mais intenso, mais sincero. Ao invés daquela necessidade de acordar de madrugada pra saber se era amor, daquela arrogância por ter opinião formada sobre aborto, drogas, relacionamentos e solidão. Se você, Murilo, tivesse se confiado. E deixasse acontecer sem pressa, sem sede. Se você, Murilo, tivesse se apaixonado sem essa paixão louca. Ou me amasse como todo mundo ama por aí, assim, como se fosse um pedaço de concreto, sem sentir à flor da pele, a gente daria certo. E eu lá rindo absurdamente com os amigos dele. E eu lá, vendo os olhos dele apaixonados por mim, justamente porque eu não sou mais apaixonado. A cena da reviravolta que a vida dá é sempre mais prazerosa.

Quando ele me deixa em casa, lá pras onze e tanta da noite, a frase que eu não esperava é dita. “Quer sair comigo sexta?”. Eu sabia, eu sabia. Todo garoto feliz consigo mesmo, que não tem medo de ser quem é, que não se importa em mostrar frescura, deixa saudade. Mas eu não quero sair com ele sexta-feira. Não mais. Eu quero continuar sendo esse garoto que tem muito de tristeza e de drama e só faz o que tem que se fazer se for movido pela paixão. Eu vou deixar ele com saudade. E ser mais um desses meninos que ele ficou por ficar. E desta vez fazer ele se arrepender. Tem coisas na vida que não voltam mais. A cena da reviravolta que a vida dá é sempre mais prazerosa.

Talvez eu vá

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

As pessoas seguram uma risada como se me achassem louco, querendo me entender com um olhar quase de pena. Mas se vocês combinaram que não iria passar disso, mas se ele nem mora em Salvador, mas se não tem como, mas se ele não ficou mais do que duas semanas com você, mas se faz quase um mês que ele já foi, sem nunca chegar a ter sido muita coisa, então. Então o quê? Nem eu sei. Só sei dessa dor de cabeça infeliz que já dura quase um mês. Dos meus olhos pesados. Da minha nuca tensa. Do choro entalado na garganta. Do meu coração que quer sair pela boca. Dessa vozinha mimada gritando que sente falta e pronto.  

Eu sinto falta de me encontrar com você, no horário do almoço do jornal, e ouvir você me dizendo que é pra eu ficar tranquilo porque vai dar tudo certo. E de achar graça da vida, num sorriso quilométrico, mesmo estando numa fila gigantesca pra pagar uma conta na Lotérica, embaixo daqueles 97 graus de Salvador. Não há muita explicação nem profundidade nas palavras: o amor faz a gente ser feliz mesmo numa merda de fila. 

Eu sinto falta de você interfonando pra minha casa desesperado. Você reclamando que eu demoro muito pra me arrumar e que desse jeito a gente não vai encontrar nenhum cinema aberto na cidade. E de você me explicando que embora seus olhos pareçam ser azuis, na verdade são verdes. Eu insistia em chamar de azul e você brigava comigo.

Eu sinto falta de querer fazer amigos em qualquer festa só pra conhecer gente louca e te contar depois. E fazer você rir com as minhas descrições de roupas e jeitos e comportamentos e diálogos e histórias. Agora eu fico pelos cantos das festas, estranho, calado, voltei a achar todo mundo feio e chato e sem assunto. Porque, no fundo, eu acho que gostava mais das pessoas só porque te via em tudo. Agora as pessoas voltaram a me deixar de mau-humor. E eu voltei a me arrastar, a ter que fazer muita força pra sair de casa.
 
Sexta, por exemplo, teve aniversário de Bia. Tive a ideia de comemorar, organizar a festa, convidar todos os nossos amigos. Eu pensei no bolo, no recheio, na cobertura. Eu pensei nas cores das bolas, nas músicas. Ajudei a decorar a casa inteira, a pintar os cartazes. Produzi tudo. Mas na hora da festa, todo mundo no apartamento, todo mundo agoniado pra apagar as velas, eu não fui. E fiquei em casa, cheio de angústias, sozinho. 
 
Sábado, por exemplo, uma amiga me mandou um flyer de uma festa no Lalá. Mas ficar até tarde numa festa cheia de gente que fala pausadamente tentando medir palavras pra poder agradar? Aquele povo do Lalá tudo igual e que nunca tem problemas? Mas o Lalá não era aquele lugar que você adorava, Murilo? Não é aquele lugar que você ia todo sábado? Combinei com ela às sete. Não fui. Passei a noite inteira mudando o canal da TV, procurando o que nem eu sabia.
  
Terça, por exemplo, um amigo quer comemorar a formatura no Outback do Barra, o lugar que você adorava comer coxinhas assadas de frango. Talvez eu vá. Mas cadê você? Quando vai dando assim essa hora, tipo umas cinco e meia da tarde, o horário que a gente se ligava ou mandava mensagem só pra saber como foi hoje e como vai ser amanhã, só pra saber que dá pra terminar o dia sentindo algum conforto. Quando vai dando esse horário, olha, eu nem sei. É tão triste abraçar algo pra fugir do mundo e, do nada, precisar principalmente desabraçar pra fugir desse algo. E daí, vai pra onde? 

Sexta à tarde fui muito feliz

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Mandar o texto da revista pra minha editora, por e-mail, até duas horas. Mas, antes disso, pegar umas duas aspas com a psicóloga pra fechar o último parágrafo da matéria de comportamento que vai sair na próxima edição. Antes de mandar o texto e antes de ligar pra pegar as aspas com a psicóloga, preciso responder uns e-mails atrasados de outra matéria, inclusive o de um cara que trabalha na assessoria de um cara que é assistente da menina que me liga de meia em meia hora e que eu não sei se o nome dela é com W ou com V. Wanessa? Vanessa? Sacanagem escrever nome errado.

Procuro os e-mails atrasados ao mesmo tempo que ligo do telefone fixo para a psicóloga ao mesmo tempo que cancelo a ligação no meu celular ao mesmo tempo que abaixo o som da caixinha ao mesmo tempo que tento não deixar a porta do armário bater ao mesmo tempo que aviso pro cara da NET que eu não quero fazer um combo de TV e internet. Desço as escadas da Redação desesperadamente em busca de café. Na volta, abro o Word e reviso o texto. Enquanto não encontro um sinônimo melhor para a palavra “fechar”, escrevo bem grande na agenda que segunda que vem tem DENTISTA. O computador trava, a menina da arte, irritada, me avisa que o texto da matéria de moda estourou a página, minha editora quer saber se a matéria de economia já tá pronta.

De repente. De repente. Você me manda uma foto sua, de ponta-cabeça no chão da minha casa, fazendo careta, tentando equilibrar uma maçã em cada pé. Dou risada alta e minha editora me olha torto sem entender nada. A Redação em fechamento e eu com tempo pra ser feliz? Entrego a matéria e vou embora da Revista.

Mandar o roteiro dos monólogos pra diretora de teatro, por email, até as quatro. Pego um Uber, abro o notebook, revejo os monólogos. Ainda não é nada disso que eu quero pro roteiro, vou ter que reescrever. Chego em casa e tenho outro texto pra terminar. Tem que ser às pressas. É uma crítica de TV que escrevo semanalmente pro iBahia. Se demorar muito, o assunto fica velho. Bebo mais um iogurte e como mais um pedaço de bolo por pura ansiedade. De novo toca o telefone e é minha mãe querendo saber se eu já almocei. O zelador quer saber, pelo interfone, se tem lixo no apartamento. A diretora do teatro quer saber cadê os monólogos. Negocio o prazo. Me ligam da Revista querendo que eu faça um guia, de última hora, pra seção de turismo. Mas cadê os outros repórteres? Só eu escrevo nessa porra? E o texto pro guia, que tamanho é? Ouço a voz da menina da arte no fundo da ligação, irritada, pedindo pra que me falem pra eu não estourar a página com tanto texto. Relaxa, gata, capaz de nem ter texto.

De repente. De repente. Eu sentado no sofá. Você deitado no tapete, colocando o resto que sobra da sua cabeça na pontinha do meu pé. Uma mecha do seu cabelo caído no tapete enquanto você se diverte com um joguinho idiota no iPad. Esses dias eu tô corrido. Mas tô ficando há três meses e vinte e oito dias com você, um menino de vinte e nove anos que não larga o joguinho idiota do iPad. Depois, do nada. Do nada. Eu deitado no sofá. Finjo que estou dormindo. E você passa as pontas dos dedos nos meus pés pra que eu sinta cócegas. E eu olho rápido pra flagrar você, mas você faz de conta que está roncando no tapete, abraçado com o meu cachorro. No mesmo segundo, a gente dá a mão. E dá a outra. E daria uma terceira se fosse possível. E você beija a minha nuca e fala com a voz mais doce do mundo que não queria ter que ir embora. E eu te imploro, com a voz mais doce do mundo, pra você desistir de tudo e ficar só mais uma semana. Daí fingimos que é sono. E dá vontade de rir porque nem era a hora e nem era pra isso.

Metade dos textos dos monólogos reescritos e não tem como renegociar. Entregar os textos do guia em meia hora é quase impossível. Falta mais da metade da crítica e eu tenho que entregar hoje. Minha garganta dói muito. Tá quente, mas é inverno, mas tá abafado. Minha mãe me liga de novo. Dessa vez ela quer saber se eu tô me virando bem nesses dias que ela está viajando. Alguém me manda uma mensagem pra beber uma cerveja porque hoje é sexta. Estão me ligando e eu não sei quem é. Preciso reler as coisas e fazer mais e mais e mais. Preciso pagar milhares de contas. Preciso entender por que a máquina de lavar não liga. Preciso pensar em pautas legais pra entregar amanhã pra minha editora da Yacht. Amanhã tem a festa de Felipe. Marcella tá indo embora pra Minas domingo e eu nem liguei. Preciso inventar novas cenas pros monólogos, pensar em um lugar que eu possa almoçar barato nas próximas semanas, ler quarenta e nove páginas da xerox pra aula de segunda, trocar de celular, tomo Rivotril ou Ritalina? Preciso pagar cinco mil reais pra minha mãe. Oi? Não tenho nem os 100 reais pra moça da faxina.

De repente. De repente. Você me conta que não tem dó de matar os insetos que os livros de biologia não explicam o que são e nem pra que servem. Esses insetos que querem entrar no nosso nariz sem nenhum medo de morrer. Aí depois, do nada. Do nada. Você coça os olhos muito forte e levanta pra arrumar as coisas e ir embora. E desiste. E diz que tem muito medo de coisas como essa que tá acontecendo entre a gente. Dessa coisa de gostar além do sexo. E eu penso que, no fundo, nem tão fundo assim, tenho medo também, demais.

Aí depois, do nada. Do nada. Você dispara flashes da câmera do celular. E eu falo que eu odeio quando você tira foto minha sem avisar. E lá vou eu, sem disfarçar, rir da sua careta e ficar besta com os nossos sorrisos perfeitos em cada foto mal tirada, sem foco, fotos que juntando mil não valem uma. E quando vou ver, já estou embolando na cama com você. Já estou te amando bem mais do que deveria, bem mais do que a vida me permite. Desisti desse dia corrido. Nunca fui tão feliz como hoje. Você me dá uma ansiedade boa, um frio na barriga desses que eu não sentia mais. Então preciso aproveitar.

Se até o próximo Carnaval você ainda gostar de mim, eu juro gostar também de você.

Antes de ir

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff 

Meu voo pra São Paulo sai às quatorze horas. Mas eu não consigo parar de regar as plantinhas da varanda de casa. Tenho aprendido muito com o jardim, me apegado muito às plantas e flores que nascem timidamente e crescem mais e mais e mais o tempo todo. Gente me diz que preciso investigar esse apego. Gente me diz que eu me vejo como uma dessas plantinhas que nascem timidamente e crescem mais e mais e mais o tempo inteiro. Gente me diz que isso tudo é ansiedade, controle e medo de ir. Aí fico postergando, aí me sinto menos solitário, as pessoas dizem.

Tenho que me arrumar às pressas porque meu voo pra São Paulo sai daqui a duas horas. Tenho que almoçar, ligar pra minha mãe, desmarcar gastroenterologista, chamar um táxi, mas eu não consigo parar de regar os girassóis que ficam mais perto da janela. Mas se os girassóis estão encharcados, mas se os girassóis gostam de sol, por que eu continuo regando? A água na terra já transborda o vaso. Vejo uma das raízes encolhidas. O girassol mais sensível da varanda me olha timidamente, assustado, e implora: “eu não aguento mais”.

Mas e o asfalto seco e as paredes secas e o céu sem nuvens e esse sol que quase faz rachar o vidro da janela? “O mundo está seco”, me defendo pros girassóis. Em algum lugar da minha mente inquieta, sei que esse exagero vai acabar com a vida da plantinha, mas estou obcecado pela ideia obsessiva de que, se eu sair de casa sem encharcá-las, quando eu voltar vou encontrá-las secas, mortas. Tenho medo de dobrar a esquina de casa e deixá-las aqui. Então, por precaução, fico ali com o regador. Regando, regando, regando, regando, regando.

Preciso estar no aeroporto daqui a uma hora pra fazer o check-in, mas eu não consigo tirar as mãos do queixo enquanto olho, sem piscar, o guarda-roupa aberto. A mala entupida no chão. Tento me dizer que todas as coisas que guardei na mala gigante e na bagagem gigante de mão são suficientes pra ir a São Paulo. Mas continuo ali, sem tirar as mãos do queixo, olhando tudo ao meu redor.

Mas se o zíper da mala já não fecha, por que eu continuo olhando o armário indiscretamente? Na minha cabeça neurótica e alarmista, um sinal vermelho me avisa que falta alguma coisa nessa bagagem, que há alguma coisa errada nessa bagagem. Então, por precaução, fico ali olhando, olhando, olhando, olhando, olhando.

Preciso ir pra sala de embarque daqui a cinco minutos, mas eu não consigo soltar a mão do meu namorado. Antes de ir, confirmo os números dos nossos celulares, confirmo se os nossos números estão salvos, confirmo de novo se os números são aqueles mesmo. Não sei se são manias, crises de pânico, fobias ou angústias extremas. Ele ri e me olha com cara de “como assim, Murilo? A gente se fala toda hora”. E me diz um “vai com Deus” que não me acalma em nada.

Aeroporto é um lugar horrível, muito parecido com UTI (nunca fiquei em UTI, nem sequer visitei alguém numa UTI, mas sei que é parecido) porque soma as cinco coisas mais horríveis do universo: despedida, fila, gente desconhecida ao redor, linguagem não-verbal em placas que te forçam a seguir em frente e esperança. Então fico ali segurando a mão dele, ignorando o tempo, ignorando o voo que já vai decolar.

Mas se a gente passou a semana inteira se despedindo, mas se até hoje cedo eu estava tão tranquilo, mas se tá tudo tão bem, mas se eu quis tanto viajar, mas se São Paulo me faz feliz, mas se ele vai se encontrar comigo daqui a dois dias, por que eu continuo segurando a mão dele com tanta força? O suor desliza as mãos, a quentura incomoda os dedos, o aperto quase quebra os ossinhos, as pessoas correm desesperadas, a moça da Gol se prepara pra fechar a porta, a sala de embarque me avisa que o mundo inteiro foi embora. Em algum lugar da minha cabeça neurótica, uma certeza de que talvez eu nunca mais o veja. É medo de ir seja aonde for. De nunca mais voltar. Da pressão cair e não ter em quem segurar. Então, por precaução, fico ali segurando a mão dele. Segurando, segurando, segurando, segurando, segurando.

Assédio literário

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Os meus amigos mais próximos me diziam: “Murilo, cê toma cuidado com esse cara”. Mas ele é um assassino, um psicopata, um serial killer? “Não. Ele é especialista em golpe baixo”. Mas o quê? “É. Ele é um safado. Ele conquista quem ele quer, enlouquece quem ele quer e você, uma hora, acaba cedendo. Não tem como fugir”. Mas assim são as pessoas, amigo. Não são? “Mas ele é mais. Ele é mais. Tô te falando”. Sério? “Sério. Um canalha!”. Tudo bem, tudo bem. Eu jamais iria pra cama com um homem desse tipo.

Ele marcou um jantar na casa dele e eu fui. Era a minha chance de mostrar pra ele que não, comigo não. Era a minha chance de acabar com essa palhaçada toda. Passei um creme caríssimo no corpo inteiro. Perfume na nuca e em partes estratégicas da roupa. Fui com uma camisa mais aberta e uma calça mais justa. Dei três mordidinhas nos meus lábios pra deixá-los mais vermelhos e, depois, molhei a boca com um batonzinho de manteiga de cacau pra causar o efeito “tô a perigo”. Um volume no cabelo com secador pra equilibrar. Quando ele der o primeiro sinal que quer sexo, eu caio fora.

Óbvio que ele queria sexo. Safado. Nenhum homem marca jantar em casa, às 22h, com outro cara que ele já sai há um mês e duas semanas só pra conversar. Não foi café na Livraria Cultura às cinco da tarde ou almoço na casa de um amigo de infância. Não foi um chá desses que a turma cult bebe no Cinema do Museu pra falar sobre projetos de arte. Foi um jantar, às 22h, na casa dele, com luz de vela e Johnny Hooker e Chico Buarque e vinho, com um cara que ele já sai há um mês e duas semanas.

Foi horrível. Ele dançou comigo juntinho, lá pra quase meia-noite, naquele momento em que todo rapaz reservado com a visão turva e a bexiga cheia de vinho espera ouvir “essa calça está me apertando, não quer tirar lá dentro do quarto?” e disse: “Seu livro, Murilo. Nossa, seu livro. Li em uma noite, reli em outra noite. Seu livro”. Mas o quê??????????? “É, seu livro. Meu Deus”.

Ele falou sobre Foucalt, Barthes, Boudelaire, realidade virtual e pós-verdade, mas eu foquei nos dois dedos do zíper aberto da calça dele. Depois, ele cruzou as pernas e o ar de homem feito e intelectual cordial pouco me importou. Eu queria mesmo era terminar de abrir aquele zíper, falar pra ele calar a boca e desligar a luz, porque eu queria sacanagem das boas. Mas ele, sério, me falou que o circuito contemporâneo do literário cada vez mais abre espaço pra youtuber, blogueiro, porque precisa vender livros. Ah, é? E eu preciso abrir todos os botões desta sua camisa e sair quebrando tudo até a gente se encaixar.

Quando ele colocou as mãos na minha coxa, e eu pensei que ele, finalmente, fosse mostrar o cara escroto e safado que ele é, ele me disse: “Meu pai é um pernambucano extraordinário que era pobre e foi pra São Paulo e virou empresário. Parece clichê, né? Mas eu adoraria que alguém escrevesse a história dele”. Achei de uma grosseria sem tamanho, pensei em levantar da poltrona e gritar que não estava lá pra isso, quem ele pensa que é? O que ele acha que eu sou? Mas naquele segundo, imobilizado pela vergonha, embriagado pela narrativa nordestina, só consegui me sentir fragilizado e com medo daquele golpe baixo feito por um homem gato e conquistador. Eu abandonei os ansiolíticos que me deixavam sem libido. Eu esperei o convite pra esse jantar por um mês e duas semanas. É muito cansativo ter que provar o tempo todo que sou um rapaz de vinte e seis anos com apetite sexual de adolescente quando os homens só conseguem ver crônicas e livros e colunas e autoficção e editoras e lançamentos. Olha essa camisa mostrando o sinalzinho do meu peito, querido. Eu vim sem cueca, você sabia? “Espera, vamos pensar como será o prefácio”. Sabia que eu sei fazer coisas incríveis com a boca? “Você acha que fica pronto até dezembro?” A boca? “Não, o livro”.

Estou farto. Bem que me avisaram pra eu tomar cuidado. Que ele enlouquece e não tem como fugir. Quase duas da manhã, né? Tentei chegar mais perto. A gente até se olha por uns minutos. A gente até roça um pouquinho a perna um no outro, a gente encosta a mão uma na outra. E entrelaça. E sente a quentura. E aperta um pouco sem machucar. E a gente se beija. Mas logo o macho branco opressor me deixou de lado: “só você, Murilo, pode escrever a história desse pernambucano pobre e determinado que foi ao Sudeste sem ter o que comer e deu uma reviravolta na vida”.

Deixa eu te contar a história de um rapaz soteropolitano e com a libido em alta que, depois de terminar um relatório imenso e passar por três intermináveis reuniões, correu pra Pelo Zero pra fazer uma depilação a laser e voltou pra casa às pressas e tomou um banho maravilhoso e caríssimo de óleo de rosa mosqueta. Todo esse esforço pra gente passar a noite sem nenhuma putaria, discutindo a saga de mais um nordestino que se dá bem na vida? Tentei mostrar que estava excitado. Mordi o lábio dele, fui limpar os cantos da boca dele com um guardanapo e olhei mais safado do que já olhei a minha vida inteira pra qualquer homem. Mas não teve jeito. Logo ele voltou a falar de livros e escritores e músicos e músicos que escrevem livros e do pai pernambucano. Ele não tá nem aí pra mim. Ele quer mesmo é falar sobre literatura. Ele não tá interessado na minha depilação, no meu óleo de rosa mosqueta. Ele tá mesmo é interessado nos meus textos. Olha que desgraça. O homem bonito, alto, inteligente, cheiroso e gente boa está interessado nos meus textos. “Ah, como você escreve bem”. Ah, se você soubesse o que eu faço bem. E ele riu. Todos eles sempre riem. E ele falou que eu era engraçado. Todos eles dizem isso. E usou o argumento que, infelizmente, mesmo sendo tão agressivo, nunca consegui negar a um homem safado: escreve esse livro, escreve bem gostoso, eu costumo pagar bem.

Hoje não tem texto

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Peço perdão ao leitor que acompanha este espaço semanalmente, mas hoje não publicarei crônica nem crônica meio conto, como queiram chamar. Tentei falar com André Uzêda, mas não consegui. Não sei o que exatamente um editor faria numa situação dessas. Talvez ele avisasse a vocês, leitores, algo como “hoje, excepcionalmente, o colunista surtou”.

Eu poderia argumentar que voltei a ter crises de ansiedade terríveis que impedem, entre outras mil coisas, cumprir prazos. E seria verdade. Eu poderia argumentar que enjoei do barulhinho dos meus dedos saltitando no teclado, do meu cisto sinovial que cresce no meu punho esquerdo, da minha crise alérgica que me faz espirrar sem parar no auge da inspiração – o que faz debandar pra não inspiração -, do quanto eu acordo exausto por sonhar com trechos dos meus textos e por falar frases dos meus textos enquanto durmo.

Mas o motivo real é que são oito e quarenta e seis da manhã de quarta-feira. Sentei aqui na escrivaninha de casa pra escrever o texto da coluna de hoje, mas eu não consegui escrever nada, juro que tentei escrever, mas não saiu nada e. Eu não sei o que dizer e. Não tenho nada pra falar. Ou quase nada. Ou talvez essas coisas que eu diga só interessam a mim, não ao leitor. Então, hoje, vocês precisam exercitar a tolerância e a compreensão comigo. Hoje tem melancolia, prantos e descontentamentos.

Vejam só que loucura: resolvi mexer com matemática e concluí que há sete meses escrevo aqui, uma vez por semana. São pelo menos 32 semanas, pelo menos 32 crônicas ou crônicas meio conto, como queiram chamar. É assustador. Virei uma máquina literária. Um escritor mercadológico que escreve, escreve, escreve e escreve o tempo inteiro. Sofro de ansiedade quando escrevo e sofro mais ainda quando publico. Sofro porque me exponho. Sofro porque eu não exponho o que tenho de normal, tenho pavor de ser normal. Essa intimidade que a gente pode ter com o público, de falar sobre nossa vida, eu gosto. Mas isso me dá uma canseira danada.

Acho que esse é o problema: ando cansado. Cansado porque a vida te bate, te afunda no poço, te obriga a escalar e sair desse poço. E você recomeça. E você acredita. E você não sabe onde isso vai dar. E o pior é que a vida te bate de novo e você se afunda de novo e você escala pra sair do poço de novo e recomeça e acredita de novo. Esse círculo se repete e cansa. Agora imagina eternizar isso num texto?!

Escrevo geralmente dia de sexta ou aos sábados ou quando vou a algum boteco sozinho, quando canso de ficar em casa. Bebo duas ou três cervejas e entupo o bloco de notas com parágrafos. Mas desde quarta-feira começo a sofrer pelos cantos. Nos últimos meses tem sido mais grave. Pra ser mais sincero, nas últimas semanas. Porque ando muito – digamos – com preguiça do mundo. Eu olho daquele jeito blasé, daquele jeito que só dá vontade de olhar pra ele e ficar calado. Mas sou ácido, crítico, maldoso, e se guardo pra mim o que vejo, tenho medo de criar um câncer. Então vou pra alguns lugares, fico escondido escrevendo. É o meu trabalho. Uns bares, umas noites.

Escrevo rápido demais, por impulso, escrita vomitada – me adaptei ao meu tempo e ao meu ofício de jornalista, com editor gritando em jornal pra entregar matéria. Mas, às vezes, escrevo lento demais, quase parando. Preciso criar, ter cuidado pra não me repetir, reler, reescrever. Às vezes sai umas duas ou quatro laudas de word, mas o que interessa é a frase do meio, a frase final, então apago tudo e volto pro quase zero. Mas isso complica, porque preciso mandar tudo pros meus ilustradores, Igor Queiroz ou Lucas Leopoldino (depende da semana).

Uma sexta-feira inteira não é suficiente. Ultrapasso sábados, domingos, terças. Há sete meses tenho ultrapassado fins de semanas e me enfiado em textos – justamente o fim de semana em que todo mundo sai pra desestressar, namorar, fazer festinha na casa de amigo, conhecer lugares e pessoas. Os outros fazem, não eu. Eu me tranco em casa, com a coluna doendo por ficar repetidas horas todo torto na cadeira da escrivaninha. O mais ridículo é que, para escrever, é preciso sair, desestressar, namorar, fazer festinha na casa de amigo, conhecer lugares e pessoas. Eu não tiro esses textos do nada. Os textos surgem a partir de coisas que vivo ou que vejo alguém fazendo. Como um fotógrafo de palavras.

Há 32 semanas vivo muito pouco, pra dentro, fechado. Porque além dessa coluna, estudo literatura na Ufba, que exige mais do que tudo; escrevo os roteiros do programa de Olívia Libório pra Rádio Transamérica; escrevo reportagens pra Uol; dou aula em cursinho e escola; produzo meus livros e outros projetos. Cansa.

Esse acúmulo de trabalho e falta de tempo se reflete, também, na bagunça da bolsa e do quarto. E da escrivaninha. Post-it colado em todos os cantos: “ligar para a assessora”, “Estreia de Lucas Nascimento como cantor no Casarão Barabadá”, “Terminar a pesquisa”; pilhas de livros que nunca termino de ler (um Mia Couto aqui, uma Ana C. ali); se olhar para o lado, há também revistas e colunas de amigos pra ler e textos teóricos que nunca acabam de sair da impressora. Eu tenho que resolver problemas com o FGTS e terminar o relatório da pesquisa e submeter trabalhos em congressos e apresentar esses trabalhos e estudar para provas imensas e participar de reuniões imensas e preparar aulas e ter ideias de textos e… Deus do céu, a minha vida implorando pela fuga do vácuo. Os bares cheios, os amigos convidando. Mas se eu terminar a coluna, eu vou. Daí os amigos reclamam: você não responde mais mensagem, não aparece, não sai mais, não marca nada. Tem gente que pede pra sair comigo, tem gente que está interessada em mim, mas logo desiste porque “puta que pariu, ninguém entende essa sua vida doida de tanto trabalho”. Tem gente que quer que eu durma na casa, tem gente que me implora: “pelo menos fique dez minutos no meu aniversário”. E eu digo “sim” pra todo mundo. E, às vezes, eu não vou. Esqueço, me perco no meio dos post-its. Cobram, cobram, reclamam, reclamam.

Depois de ouvir tanta melancolia, tantos prantos e descontentamentos, vocês me perguntam: tá, e daí? Daí que ando extremamente cansado, meio triste, mas triste por causa do cansaço ou de outra coisa que eu não sei o que é. Deixei o espaço da coluna de hoje pra me deixar outra vez mais transparente, pra me permitir, pra escrever sobre esse cansaço múltiplo, sobre minha falta de tempo, sobre a falta de ordem que se instaurou em minha vida porque eu permiti. Por trás de todo esse discurso, um alerta: o perigo que corro, todo dia, comigo mesmo. Escrevo para sobreviver, mas acabo morrendo pra me manter vivo. Hoje, ao menos, não teve texto. Dei um foda-se. Talvez, esta semana, seja o momento de viver sem ser aquele rapaz que precisa escrever sobre tudo que vive.

Homem babaca gosta de sacanear em bando

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Estou numa mesa do Salvador Dalí com meu namorado e uma amiga diretora de teatro. Almoço importante pra argumentar o roteiro de uma peça que estou escrevendo. Quero pedir um suflê de queijo, mas o diabo é que queijo tem me dado enjoo. Quero pedir um camarão ao molho de limão, mas o diabo é que limão tem me dado gases e refluxo. Reviro o cardápio doze vezes e nada. Hoje nada nesse restaurante me agrada.

Penso em voz alta, ao que parece, porque, ao fim do meu pensamento, todos estão sem graça na mesa e o garçom me olha feio, sorrindo com simpatia forçada. “Tenho certeza que o senhor vai gostar do arroz de polvo com trindade de filés”. Eu é que não sou louco de não aceitar. Eu é que não sou louco de bancar o antipático e despertar ódio em garçom.

A menos de um metro de distância da minha mesa, cinco ou seis marmanjos, com seus vinte e três a vinte e seis anos, falam alto e dão risada alta e bagunçam o cabelo um do outro e se xingam e contam umas piadinhas particulares e falam histórias picotadas que ninguém entende e ninguém tem interesse em entender. Todos aparentam ser felizes, descontraídos, sem problemas, com o mesmo tênis de skatista e camisetas da mesma marca. São soltinhos, sem culpas nem traumas. Umas gracinhas.

O barbudo de camisa listrada, o que está ao lado do surfista, me olha intensamente a ponto de me deixar sem graça. E comenta alguma coisa no ouvido do de camisa amarelinha. E me olha novamente. Não consigo conversar com meu namorado e minha amiga. Mas se eu não estudei com esse menino, mas se eu nunca fiquei com esse menino, mas se eu nunca vi esse menino na minha vida, por que esse menino me olha desse jeito intenso? Isso tudo é coisa da minha cabeça. Minha cabeça, sempre muito rápida e esperta, ironiza: mas existe alguma coisa do mundo que não seja coisa da sua cabeça, Murilo? Chega. Dou bronca em silêncio pra mim mesmo. Chega.

Ele tá a fim de mim, é isso? Não. Amizade instantânea algum dia em mesa de bar? Não. Amigo de amigo que viajou comigo há dez anos pra um acampamento com quinze adolescentes e um banheiro? Não. Sorrio pra ele na esperança infantil dele sorrir em retribuição e tudo ficar bem. Se ele sorrir, amigável, pronto, acaba, minha mente neurótica descansa feliz. Se ele sorrir, jocoso, deve ser amigo de algum ex-namorado meu que falou mal de mim. Ele não sorri, ele apenas me encara. Puta merda. E me encara forte, sem desviar os olhos, profundamente. Eu sorrio mais, eu sorrio além da conta. Pelo amor de Deus, amigo, sorria de volta. Vamos, sorria e me liberte. Sorria e me diga quem é você. Ele sorri.

Mas ele sorri em bando. Dois disfarçam, mas riem com a cabeça baixa. Agora todos me olham e riem descontroladamente. Ouço batidas nas mesas. Certeza que estão me sacaneando. Ele então fala baixinho no ouvido do cara de dread. Coisa de cinco segundos. Sim, sim, sim: está falando de mim. Um cutuca o outro. Um mostra o celular pro outro e vai passando o celular na roda até que chegue na mão do último e volte para o primeiro. Tem sacanagem aí. Bando de palhaços.Toda gozação de homem babaca é feita em grupo. Homem babaca, sozinho, não sabe sacanear. Homem babaca gosta mesmo é de sacanear em bando. É mais interessante mostrar pros amiguinhos que ele pode ser sacana. Bando de palhaços.

Ao final do almoço, meu namorado vai buscar o carro e minha amiga vai ao banheiro. Estou sozinho. Ele levanta da cadeira e se aproxima até a minha mesa. Meu coração a mil. Eu quero saber qual é a piada. Mesmo. Ele nem me conhece, olha pra mim e já vai rindo assim? Ele então me surpreende, senta-se na minha mesa, respira profundamente, ajeita-se na cadeira. O que é que esse homem quer? MEU DEUS. O grande momento chegou. É agora que ele vai abrir o jogo e contar toda a sacanagem que ele e os amigos estão armando pra mim.

Mas, ao invés disso, ele estende a mão, lindo. E aperta a minha mão. E me abraça muito forte. Meu Deus, quem é esse homem? É agora. Ele se aproxima e diz bem devagar e baixinho no meu ouvido: “você é Murilo, né?”. E me entrega um bilhete com seu nome e número de telefone. “Eu sou seu leitor. Eu acompanho seus textos sempre. Eu amo tudo o que você escreve. E sinto muito por esses caras sacanas que você se relaciona. Meus amigos estão rindo porque eles acham que eu estou louco. Mas eu mostrei sua foto que está na sua coluna da internet”, ele confessa. Eu sorrio, finalmente, aliviado. Ele continua: “E posso te dizer uma coisa? Você é muito louco. Mas que homem não se apaixonaria por você e pela sua loucura?”.

Meio vesgo, meio errado, numas preguiças que só

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Todo mundo é um pouco vesgo, comentou um amigo quando percebeu que eu estava certo: meu olho esquerdo, na foto, deveria ser mais para a direita, mais centralizado. Será que eu mexi os olhos na hora do clique? Não, não, eu tenho certeza que não. E esse mamilo do peito direito? Não era pra ser mais redondinho igual o mamilo do peito esquerdo? Mas o que me incomoda agora, que eu fiz vinte e seis anos, não é exatamente o fato de ter um dos olhos tortos como todo mundo, não é exatamente o fato de ter uma parte do meu corpo meio errada como todo mundo, mas o simples fato de eu ter descoberto que era tudo mentira. Era mentira que a vida se resolve depois dos vinte e cinco. Com dezoito anos a gente acha que tudo vai se resolver depois dos vinte: nosso corpo e nossa autoestima e nossa conta bancária e nosso peito vazio e nossa vida amorosa e todo o resto de faltas que não são de vidas amorosas e de nada disso que a gente sabe o que é. Era mentira.

Mas eu continuo meio vesgo, meio errado, e se bobear a coisa só piorou. Pior: finalmente eu me toquei e tenho certeza que não estarei menos vesgo aos trinta. Nem aos quarenta. Nem aos cinquenta. Muito menos aos sessenta. Essa imensa e absoluta transformação era tudo coisa da minha cabeça aos dezoito. E aos vinte e seis, em plena imensa e absoluta transformação, eu descubro isso. Todo mundo é um pouco vesgo, penso enquanto como cereal com leite e decido não ir nem a pau ao Rio Vermelho. Ando mais do que meio vesgo, ando enxergando o mundo meio torto e isso me dá tontura, prefiro curtir a novela das nove esticado no meu sofá. Vezenquando fico numas preguiças que só. Vezenquando eu troco gente por TV.

Sábado, a Rua da Paciência lotada de jovens que dançam no meio dos carros. O que eu vou fazer lá? Dançar no meio dos carros no Point do Japa igual a todo mundo só pra chamar atenção e afirmar que sou jovem? Confirmar pela milésima vez que odeio multidão e odeio esse clima de paquera cheio de plasticidade? Tentar falar sobre algum assunto com alguém que puxa assunto, mas não tem assunto? Tô fora. Não li esse monte de livros e não repensei milhões de vezes a minha existência pra ser reduzido a isso. Dançar as mesmas músicas e ver as mesmas pessoas. Que graça tem?

Zapeio os canais da TV a cabo. Fotos e fotos no Instagram de gente na balada. Convites, por WhatsApp, pra sair. Chats e chats querendo saber onde você está. A solidão da noite de sábado te convida o tempo inteiro pra abandonar o silêncio e aguentar o silêncio no meio do barulho da boemia. Aí uma voz chata pra cacete grita dentro de mim: Sai dessa. Se arruma. Você vai sim, seu velhoto encalhado. Que ficar esticado no sofá que nada. Novela? Tá doido? Enquanto o mundo faz sexo você vai passar mais um sábado vendo novela? Vou. Vou sim. Porque tô me lixando pro mundo que faz sexo.

Aí eu tomo banho. É tão simples: colocar o pijaminha e dormir. Pelo menos eu não passo o domingo de ressaca. Saio do banho super decidido a não ir ao Rio Vermelho e… é, eu sofro em colocar um pijaminha em plenas nove horas da noite. Cedo, né? O mundo inteiro faz sexo e eu aqui com esse pijaminha feio. Como é que eu vou arranjar alguém desse jeito? Não vou. Essa coisa de que a gente só conhece o homem certo durante o dia. Sei não. Quem é que vai me parar na padaria e dizer: “oi, lindo. Vamos nos conhecer agora que é dia?”. Todo mundo só paquera bebendo cerveja. Não rola. E no trabalho? Não rola. Na época que eu era repórter de jornal fiquei com todos os meus colegas e estagiários e assessores de imprensa e publicitários e os meninos da arte. Mas agora, escritor, com quem eu vou flertar se trabalho sozinho em casa? E digo mais: pegar geral combina com dezoito anos. Com vinte e seis você começa a chorar quando vê sua melhor amiga grávida, seu melhor amigo casando. Chorar em casamento. De raiva ou de inveja. E, principalmente, chorar porque ainda não tem perspectiva de casar e nem de ter filhos.

Tudo bem. Então eu vou. Troco o pijaminha feio por uma calça da moda. Vai que. Vai que hoje conheço alguém legal. Eu sei, nos últimos dez anos de balada (comecei com dezesseis) nunca conheci. E olha que na adolescência qualquer um que desse um sorriso e se vestisse mais ou menos e fosse cheiroso tava valendo. Mas vai que. Não? Não, Murilo. Pensa bem. Pra que perder tempo escolhendo roupa? Pra que perder tempo querendo parecer com todos esses meninos que se parecem com você? Olha sua caminha lá. Tá vendo? Tá te esperando. Seus livros. Suas séries. Sua novela. Seus filmes. O creminho de fazer massagem nos pés. Tá vendo a luzinha do modem? 100 MB de internet e você pode rodar o mundo. Pra que lavar o cabelo se você vai voltar fedendo a cigarro? Pra que ver gente que se odeia fazendo uma coisa que só as pessoas que se amam muito deveriam fazer juntas: tentar ser feliz. Aqueles mesmos meninos se pegando nos mesmos cantos. Um bando de gente perdida, confusa, andando pelas ruas feito baratas tontas no calor. Em busca de alguma coisa. Mas que coisa, gente? Amor é que não é. Ou é?

Meu Deus, o que mais me dói é lembrar que eu tinha certeza que já estaria fora dessa vida com vinte e seis anos. Como eu sou típico. Como eu sou o estereótipo da minha geração. O jovem adulto urbano brasileiro antenado conectado que não consegue sair da bolha de jovens adultos urbanos brasileiros antenados conectados. Eu sou como todos eles: um misto de cultura literária e entretenimento pop. Triste.

Depois dos vinte e cinco? Eu pensava. Já vou estar formado, com um emprego fixo, planejando o meu casamento. Escolhendo a minha casa. Fazendo as minhas compras. Bem resolvido. Cozinhando. Feliz. Sem medo que minha mãe morra. Com a voz firme. O abdômen enxuto. E vou ajudar alguma instituição de caridade. E vou ter bunda. E vou ter cara, roupas e postura de homem.

Mas eu tive que fazer uma segunda faculdade pra me sentir completo, eu vivo de freelancer pra sobreviver, meus relacionamentos são tão instáveis que podem acabar no próximo minuto. Eu continuo sem bunda. E ainda não posso sair da casa da minha mãe porque, como falei, vivo de freelancer. Eu não sei ligar uma máquina de lavar sem antes perguntar para a minha mãe se tá tudo certo. Eu não sei cozinhar sem antes perguntar para a minha mãe se tá tudo certo. E, por ter mencionado três vezes a minha mãe só nesse parágrafo, já deu pra perceber que ainda faço terapia por puro medo que ela morra. O que um ser com idade mental de adolescente vai fazer num mundo sem mãe?

Mas eu não vou ao Rio Vermelho. Nem a pau. O mundo inteiro tá fazendo sexo agora e eu não tô nem aí. O mundo inteiro faz sexo toda hora e eu não tô nem aí também. Eu não vou. Decidi que eu só vou beber se eu estiver bem acompanhado. Restaurante chique. Ar condicionado. Música boa. Roupa mais adulta. Falando assim me toco que pareço alguém com mais de vinte e cinco anos. Rio Vermelho é pra quem tem dezoito. Ou vinte. Beber a dois num barzinho calmo do Centro é pra quem tem vinte e seis. Mas aí está o problema. Perceberam? Eu não tenho, nesse momento, ninguém para dividir comigo as maravilhas e as incertezas de se ter vinte e seis anos. Então, acabo me perguntando: será que eu não deveria ir ao Rio Vermelho?

Eu não sei amar em doses homeopáticas

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Começou quando você sorriu pra mim naquela festinha cheia de jornalista que discutia política e eu achei tudo tão chato e sonolento e quis voltar pra casa. Os amigos da assessoria de imprensa que você trabalha continuaram rodando pelo apartamento, criando novelas políticas, bebendo e rindo como idiotas, e você parou do lado da fruteira, com uma daquelas suas camisetas descoladas da Osklen, e ficou ali, em pé, observando em silêncio. E você me olhou. Você enxergou alguma coisa bonita em mim e eu te amei sem pensar.

Como um menino que fica esquisito quando está aprontando, você disfarçou um pouco e se encostou ao meu lado. E cochichou alguma coisa no meu ouvido que não deu pra entender muito bem, algo como “te conheci hoje, mas sinto que nos conhecemos há vidas”. E eu achei a frase tão clichê e medíocre e podre e brega, mas você encostou a mão na minha cintura, de leve, e eu te amei pra sempre. Depois você pediu desculpas por ter que levantar, e foi até a cozinha. E voltou com duas garrafinhas de cervejas e quis saber se eu era uma destas pessoas chatas que não bebem cerveja. E eu ri porque você sabia que eu bebia cerveja. E você riu porque sabia que eu sabia que você sabia que eu bebia cerveja. E a gente riu junto, tão alto, e todo mundo percebeu, pela forma como a gente se olhava, o que acontecia entre a gente.

Eu te amava com uma mistura de todos os personagens que criei, de todos os homens incríveis que construí na minha cabeça desde a infância e, por isso, tão intensamente. Eu era um rapaz deslumbrado que gostava de ver seus projetos por aí, era um rapaz carente que gostava de ver em você o homem certo pra ser o pai dos meus filhos, um rapaz neurótico em produção que ficou produzido com você, um depressivo-claustrofóbico que se sustentava das suas piadas que deixavam tudo leve e tudo livre, até sua falta e impossibilidade eu gostava com a maior força do mundo. Eu te olhava de cima, interfonando pra minha casa, e tinha vontade de voar pela janela. Eu queria grudar em você pra sempre, eu queria as saídas sem volta pra casa, eu queria as viagens que não acabavam. Até que cheguei ao ponto de te amar sem ter motivo aparente. Eu simplesmente amava você pelo simples prazer de amar.

Eu nunca consegui dormir de verdade ao seu lado pra não deixar escapar nenhum dos segundos passageiros e maravilhosos que você me dava. Eu prestava atenção nas batidas do seu coração, na sua respiração calma. Eu queria sua mudança num caminhão parado na esquina do meu prédio. Eu queria suas malas imensas e seus espaços vazios falsamente sossegados no canto pichado de um corredor morto e escuro, esperando a minha vida, a minha luz.

Agora elas estão lá, em algum caminhão, em algum corredor, tanto faz, eu nem sinto vontade de saber onde. Por que você sempre me achou louco quando a minha maior vontade era te arrastar pelos braços e fazer loucuras com você pelo mundo? Por que você sempre fez cara de tédio pra minha intensidade? Fazendo pouco caso das minhas urgências, amando sem imediatismo, testando gostar um pouquinho de mim nas horas vagas, gota a gota, degrau por degrau.

Um dia seu perfume começou a me dar enjoos, repulsa, um azedo na alma. Suas camisetas descoladas passaram a ser apenas camisetas. Depois seu jeito, uma preguiça de continuar gostando daquilo. Sua conversa, um tratamento ótimo contra a insônia. Era a vozinha na minha cabeça controlando tudo, me implorando pra que finalmente eu parasse de sofrer. Relacionamentos também morrem por causa de saudade, sabia? E eu tinha saudade de te amar transparente, de te amar querendo, de te amar grande.

Você sempre soube que a felicidade me escravizava e quanto mais eu ganhava carinho, mais eu ficava carente e implorava por carinho. Por isso você era um desses remédios tarja preta com efeito colateral. Você era, em doses homeopáticas, o homem mais carinhoso do universo e também a pessoa mais fria do mundo. Cheio no vazio, gigante no minúsculo, talvez no nunca, nunca mais todos os dias.

Mas agora você se entretém com as três passagens que comprou: uma para você e duas para o seu novo namoradinho, que de tão contemplado com músculos precisa de dois lugares no avião. Ele não me parece um ser neurótico que calcula pesos mentalmente, mas, se não for mesmo, cuidado: com tantos pacotes de albumina, creatina e whey protein, sua mala provavelmente será despachada.

Eu não quero saber se ele faz crossfit ou se toca não sei o quê em festa de fim de semana não sei onde. Não é inveja, não é ciúme, não é dor, é cansaço dessa superficialidade toda que me dá ânsia e vontade de vomitar toda a minha intensidade até ficar seco por dentro. Por que as pessoas são assim tão medianas e descartáveis? Por que é preciso criar uma listinha de razões pra não ser de alguém apenas pelo medo infantil de ir além? É bode de imaginar suas cascas grossas e as cascas grossas de quem você gosta um pouquinho. As cascas grossas que te protegem por fora, mas que te deixam oco por dentro. É nojo de saber que você e quem você gosta e o mundo inteiro que você vive amam assim: esperando, calmo, finito, desinteressado, saciado, morto.

Paris não é uma festa

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Um a um, eles vão chegando ao Meia Oito. As garrafas verdinhas sendo colocadas na mesa e, minutos depois, as garrafas verdinhas completamente vazias sendo enfileiradas no pé da mesa. O cinzeiro fazendo andares com cinco, nove, doze bitucas de várias marcas e cores de filtros de cigarros. Conversas e mais conversas sobre homem, cabelo, viagem, cinema, promoção de loja. Todo mundo na mesa tentando ser social, normal, simpático, com piadas totalmente adaptáveis ao ambiente pra parecer enturmadinho.

Pedro serviu a cerveja copo a copo. Abriu as pernas. Acendeu mais um cigarro. Depois, bebeu longos goles e reclamou do casamento de três anos. Tudo não está mais como antes. O sexo diminuiu e as responsabilidades aumentaram. Mas só são três anos. Cinco se contar com o namoro. Ele disse que sente saudade de quem ele não é mais. E que ele só tem vinte e sete anos. E que ter que pagar contas, todo mês, é um saco. Ele acendeu outro cigarro e fumou rapidamente. Tragos longos, profundos, com força. Um cigarro atrás do outro. Um trago atrás do outro. E, pra não parecer chato, mudou de assunto. Porque só ele falava na mesa. E todo mundo olhava com pena.

Daí, ele contou um pouco sobre o trabalho dele. E que ele pensa em pedir demissão do jornal que trabalha. E que o chefe é um sacana por ter promovido como editor um repórter mais novo e com menos experiência do que ele. E que ele cansou de escrever reportagens sobre saúde. E que ele não vai ao médico há anos. E que ele fuma muito. E que escrever sobre saúde e fumar e não ir ao médico é uma fusão entre a ironia e a hipocrisia. Ele bateu o cigarro, nervosamente, três vezes no cinzeiro, até que se apagasse por completo, como se precisasse se livrar daquilo. Depois, acendeu outro cigarro. Ele sabia que precisava mudar, queria mudar, mas não sabia exatamente o quê.

Camila serviu a cerveja copo a copo. Mudou de cadeira. Tirou a jaqueta jeans. Depois, bebeu longos goles e reclamou do calor e do trânsito e desses motoristas que estacionam na calçada e de pessoas que falam alto. Falou sobre os caras que sempre procuram ela quando nem ela lembra mais que eles existem. E que ela não entende essas pessoas que gostam de prolongar relacionamentos que sempre serão errados. E que ela não entende por que as pessoas perdoam traição. E que ela não consegue mais acreditar em homem algum. E que ela cansa de todos os caras logo no primeiro encontro. Depois, ela mudou de cadeira novamente. E contou pra todo mundo que se sente feia, gorda e velha agora que fez vinte e cinco anos. E que o corte de cabelo dela ficou horrível. E que o rosto está inchado. E que nenhuma roupa cabe nela.

E então ela reclamou que o mestrado é um saco, que nenhum filme em cartaz no cinema presta, que o dinheiro do mês tá acabando, que jornalismo em Salvador é feito por uma panelinha de gente que acha que sabe escrever. E depois ela bebeu mais um gole longo de cerveja. E ajeitou a roupa, o cabelo. E foi ao banheiro. E voltou usando a jaqueta jeans. E mudou de cadeira outra vez. Ela não se sentia bem e adequada em nada. Sabia que precisava mudar, queria mudar, mas não sabia exatamente o quê.

André serviu a cerveja copo a copo. Levantou da mesa. Atendeu o celular. Discutiu com alguém na linha. Voltou. Depois, bebeu longos goles e reclamou do ciúme do namorado. Que ele já não suporta dar explicação de tudo. O tempo inteiro. E que o namorado de agora não é como o namorado anterior. Que ele preferia o outro namorado porque era mais tranquilo. E que o de agora é totalmente inseguro. Mas, parando pra pensar, ele não foi feliz nem com o anterior e nem com esse. E que ele queria ter coragem de terminar tudo e ficar sozinho, de viajar por um tempo pra algum lugar que nem ele faz ideia.

Depois, ele levantou da mesa. Atendeu o celular outra vez. Discutiu com alguém na linha. Voltou. E pediu desculpas por toda hora ter que atender o telefone. Foi o namorado de novo querendo saber onde ele estava. Depois, evitando olhar pro iPhone, ele falou que podia fazer doutorado. Aqui ou em Portugal. Mas que ele queria mesmo era mudar de área, sair dessa coisa do jornalismo. Mas que ele tá sem saco pra estudar mais. E que ele tá sem saco pra esse mundo acadêmico. Escrever artigo é um saco, defender tese é um saco, aguentar professor falando numa aula de cinco horas é um saco, ter um namorado ciumento e possessivo é um saco. Que tudo é um saco. Ele sabia que precisava mudar, queria mudar, mas não sabia exatamente o quê.

Eu servi a cerveja copo a copo. Cruzei as pernas. Revirei a bolsa. E você, Murilo… E você? Oi? Eu o quê? Eu balançava as pernas por nervoso e bebia metade do copo da cerveja sem vontade, goles curtos, copo que nunca esvaziava. Eles, finalmente, descobriram que a felicidade é coisa momentânea. Que a vida adulta, num mundo cheio de convenções, é uma merda. Descobriram, finalmente, que é preciso trabalhar doze horas por dia e que nada disso traz recompensa, não à toa o mundo inteiro quer virar instagrammer, porque talvez seja mais fácil tirar foto à beira da piscina exibindo um copo de suco de alguma marca detox do que ter que encarar a realidade. Descobriram, finalmente, que pessoas traem, que casamento não é SPA, que pessoas boas sofrem em filas de hospitais, que inocentes morrem, que fatura de cartão de crédito chega e ninguém, além deles, vai pagar. Eles, finalmente, descobriram que Paris não é uma festa.

Foi então que entenderam, pela minha cara de “zero surpresa”, que a vida é essa escrotidão mesmo. Eu perdi completamente o deslumbramento com o amor, com o trabalho, com pessoas. Eu descobri que relacionamento cansa, trabalho não é diversão e pessoas bonitas mentem. Mas eles permaneciam, o resto da noite, com suas garrafas verdinhas enfileiradas, com suas bitucas de cigarro transbordando o cinzeiro, falando sobre todos os assuntos e comprovando mais uma vez que não eram felizes em nada. Falavam que o namoro deles é um porre. Falavam que o trabalho deles é um porre. Falavam que o lugar onde eles têm frequentado é um porre. Nos últimos meses, eu fiz as pazes comigo, com a vida. Eu consegui me livrar de tudo que atrasa. Minha vida não é um porre.

Todo encontro do Tinder é ficção

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

“Dizer ‘sim’ ou ‘não’ pra um rosto sem movimento é triste pra caralho”. Falei isso, enquanto avaliava perfis no Tinder, e minha amiga riu, revirou os olhos, disse que eu tava me comportando como um velho chato e cheio de moralismo. “Não é isso, mas para pra pensar: antes do ‘sim’ ou ‘não’, o Tinder não dá chance pro rosto sem movimento mostrar que existe profundidade. São fotografias cheias de efeitos de Photoshop e filtros e ângulos e poses e lugares descolados e roupas da moda. A gente tá sempre escolhendo ‘o melhor eu’”. Falei isso, enquanto lia a descrição do perfil de um menino, e minha outra amiga fechou a cara, fez barulho com a língua e os dentes, explicou que era assim que a modernidade se relacionava agora, ou eu me acostumava com isso ou eu estava fora do jogo.

Como folhear um cardápio, escolhi ele. Combinamos um encontro, sexta, às 14h, no Urbe, uma cafeteria na Consolação. Ele é branquelo e vive meio desempregado. Não gosta de nenhum emprego muito sério, não gosta de nenhum emprego que atrapalhe a viagem “com uns caras” pro Vale do Pati, não gosta de nenhum emprego que obrigue a cortar a barba, não gosta de nenhum emprego que tire ele de São Paulo. Em suma: tá sempre sem emprego. Mas no Tinder escreveu “paulistano cineasta” e colocou uma foto abraçado com uma torre de Heineken, fazendo careta, acompanhado da turma “faço cinema cabeça”. Os óculos espelhados, típicos de maconheiro, escondem 70% do rosto, deixando uma onda de mistério e galanteio.

Ele me conta que tá tendo umas ideias de projetos. Pensando em fazer um documentário sobre a seca no Nordeste. “Imagina que louco, Murilo, fazer um documentário sobre os encantos da cultura do povo que sobrevive na seca… Consegue imaginar?”. Eu balanço a cabeça, dou risada sem mostrar os dentes, incentivo, falo “nossa, que legal”, mas, no fundo, eu quero mesmo é encerrar aquela conversa, me despedir daquele desconhecido com papinho hipster confuso, pegar o metrô e voltar pra casa. Depois de passar duas horas falando sobre ele, os ex-namorados dele, os projetos de cinema dele, ele me conta que foi muito bom ME CONHECER, que “a gente vai se falando”. Eu quis encontrar nele a narrativa construída virtualmente. O homem que eu criei, editei, e que não existia. Foi tudo ficção.

Como folhear um cardápio, escolhi ele. Combinamos um encontro, sábado, às 14h, no Urbe. Ele é muito alto e passa os dias como militante de rede social. Lá, ele fala sobre negros, gays, direitos de mulheres, visibilidade trans, a luta por melhores salários e o absurdo que é essa reforma trabalhista. Ele fala sobre todos os assuntos do mundo, mas não consegue explicar direito o que faz da vida. Se formou em artes cênicas, mas nunca quis ser ator. Agora, ele faz mestrado sobre alguma coisa que ninguém sabe muito bem o que é, numa área que ninguém sabe pra que serve. No Tinder, ele se diz “produtor de vídeo marketing”, mas isso, ele conta, foi há anos. Depois, ele foi vendedor de loja, DJ, chef de cozinha, telemarketing, gerente de banco, redator publicitário de enxaguante bucal, ilustrador de panfletos de uma marca de antiácido.

Mas ele me conta que há quatro anos tá focado num livro que não sai da página onze. São contos de terror relatados por moradores de uma cidade fictícia. “Poxa, Murilo, se você lesse. Se você lesse”. Eu balanço a cabeça, finjo estar muito interessado, impressionado, mas, no fundo, eu quero mesmo é encerrar aquela conversa chata, me despedir daquele desconhecido chato, mandar ele voltar pra vida politizada de Facebook, pegar o metrô e voltar pra casa. Depois de passar duas horas falando sobre ele, os trabalhos dele, sobre TODOS os problemas sociais, ele me conta que foi muito bom ME CONHECER, que “a gente vai se falando”. Eu quis encontrar nele a narrativa construída virtualmente. O homem que eu criei, editei, e que não existia. Foi tudo ficção.

Como folhear um cardápio, escolhi ele. Combinamos um encontro, domingo, às 14h, no Urbe. Ele é arquiteto recém-formado e tem medo do que vai acontecer agora que precisa sair do estágio. Tem aluguel, comida, conta da internet pra pagar. E me pede desculpas por ter chegado meia hora atrasado. E me conta que roda São Paulo inteira com Amoxicilina, capa de chuva, água, resto de biscoito e iPod dentro da mochila. Depois ele me pergunta se eu também tenho fobia de multidão. E me abraça. E me pede pra sair dali. Lugares com mais de dez pessoas, pra ele, já é multidão. E a gente ri junto. Foi o melhor cara que conheci no Tinder. Quem diria, né? Quem diria que depois de tantos caras estranhos, babacas e confusos isso aqui pudesse dar certo.

Ele me conta que nós já estamos acostumados. Acostumados com o quê? Com fobias em multidões? Não, com a solidão de todos os dias, com a solidão urbana, a solidão que sentimos quando estamos cercados de desconhecidos, a solidão do delivery, do excesso de canais a cabo, da Netflix, das mensagens no WhatsApp, dos emails, das inúmeras fotos no Instagram, das centenas de músicas disponíveis no Spotify, como se a gente tivesse tempo pra consumir tudo isso.

Daí a gente vai junto pra casa. O metrô cheio. E a gente ri junto da multidão. E ele me mostra como aquilo está entupido, mas as pessoas estão sozinhas, caladas, preocupadas, pensando na vida amanhã. E ele segura a minha mão e me conta que ele tem insônia, que passou a noite inteira pesquisando sintomas de doenças no Google. A gente mora no mesmo bairro, na mesma quadra, em prédios que ficam um em frente ao outro. Janelas abertas que, no meio da confusão do cotidiano, não mostram quem está do outro lado. O resultado é que a gente nunca se viu e, talvez, promover encontros, independente do final, seja o papel do Tinder.

Ele me conta, andando pela Vila Madalena, que os arquitetos, engenheiros civis e construtores de edifícios são os culpados por esses descaminhos. Eles criam verdadeiras barreiras humanas, de todas as formas, cores e tamanhos, e isso tudo embaralha e dificulta demais as relações. São milhares e milhares de edifícios, paredes que separam, pessoas que se desencontram em escadas e elevadores. Ele fala sobre relações e, cada vez que ele abre a boca, eu fico mais encantado.

Depois, ele me apresenta a casa dele. Por que ele coleciona cartão telefônico? Por que ele tem uma cadeira sem fundo no meio de cadeiras com fundo? E eu fico fascinado por um quadro que eu não sei pronunciar o nome do artista, enquanto ele estoura o plástico bolha de quase três metros. E a gente se beija, não lembro exatamente quando, mas a gente se beija. E a TV dele passa um filme sobre alienígenas e a gente dá risada disso. E eu, mais uma vez sem entender o que está acontecendo comigo, me digo pra ir embora. E a gente se despede. E ele segura a minha mão, do lado de fora do prédio, sem medo da multidão que transita pela rua, e me pergunta se a gente ainda vai se falando. “Vai se falando?”.

E meus olhos brilham, mais até do que deveriam. E então eu olho pra ele, no meio da multidão que ainda me assusta, e digo, na tentativa de ser racional: “eu sei bem o que você quer comigo. Mas olha, vou ser sincero com você. Você é gente boa, talvez mereça saber. Eu canso as pessoas. Você entende? Sei como é, só porque eu tenho livro publicado e uso estes óculos de aros grossos e tenho esta barba e viajo nas ideias com você, falando coisas meio doidas que ninguém nunca fala sobre conflitos internos e me sinto seguro em falar sobre a dificuldade dos amores imensos nos tempos do Tinder, com seus olhos você enxerga um cara intelectualizado, maduro, inteligente, capaz de colocar cor na sua vida. Eu não sou nada disso. É só figurino e roteiro. É só idealização. É só ficção. Com o tempo você percebe: eu não tenho graça nenhuma”.

Sou completamente infeliz, mas pelo menos tenho namorado

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Há anos tenho que aturar dois grupos de amigos: a turma que namora, incluindo o subgrupo “sei que ele me trai, mas eu sou oficial”, e a turma solteirona, incluindo o subgrupo “é melhor ficar sozinho do que mal-acompanhado”. Odeio os dois grupos e, consequentemente, seus subgrupos por um motivo óbvio: TODOS são infelizes e dão a cara a tapa que não.

Em nome da minha sanidade mental, desativei meu Facebook e o Instagram dois dias antes do Dia dos Namorados. Vedação completa contra gente chata que precisa provar pro mundo que é feliz, mas, no fundo, transborda carência. Eu queria evitar selfies e textões egocêntricos de paixão eterna. Eu queria evitar (MUITO) fotos de cachorros e gatos, postadas por donos deprimidos-revoltados-putos-da-vida, com legenda do tipo “o único amor sincero que existe”. Eu queria evitar memes idiotas, tiradas publicitárias, fotos de cesta de café da manhã, rosas e bombom em celofane. Desliguei o computador e mandei na lata: tô cagando pra vocês.

Mas eles foram muito mais rápidos. Acordei na véspera do Dia dos Namorados adicionado em dois grupos de WhatsApp. O primeiro, o “Tá caído?” (por que mesmo eles colocaram esse nome?), aparentemente o mais divertido, combinava um encontrão de solteiros and simpatizantes da vida solteira and gente que pega geral and recém-solteiros. O segundo, o “Cervejetarianos”, aparentemente o mais organizado, pretendia fazer um encontrão de namorados and simpatizantes da vida monogâmica and gente que namora à distância and gente sem relacionamento definido.

Os dois tinham algo em comum: pretendiam fazer um churrasco na casa de algum amigo que, gentilmente, cedesse a casa pra toda essa bagunça. Clássico. Na minha casa é que jamais seria. Existe coisa mais deprimente do que churrasco de solteiros no Dia dos Namorados? Existe coisa mais deprimente do que todos os seus amigos saberem que seu relacionamento é uma bosta e você, na maior cara de pau, convidar todos esses mesmos amigos pra um churrasco pra comemorar o Dia dos Namorados?

Pensei em sair, imediatamente, dos grupos. Pensei em inventar uma desculpa, algo como “é que eu preciso fazer exame de sangue amanhã” ou “vou estar em São Paulo”. Mas ano retrasado dei essa desculpa, ano passado também dei essa desculpa. Há dez anos dou essa desculpa. Eu ouviria algo como: “taquepariu, Murilo. De novo?”.

Seria impossível estar em dois churrascos ao mesmo tempo. Então tive a brilhante ideia de unir o churrasco dos solteiros e o churrasco dos namorados em um churrasco só. Era algo como “podemos fazer apenas um teatro e poupar meu saco e meu tempo com vocês”. A princípio estranharam. Depois me disseram vários desaforos. Por último gritaram: “só topo se você dançar Asa de Águia”. Oi? Topei. Mas óbvio que eu jamais dançaria.

No churrasco, os dois grupos eram iguais. A não ser pelo desespero nítido de provar quem era mais feliz. Transformaram o amor numa competição para ver quem ama mais e melhor, quem é o par certo, quem faz chorar, quem faz rir, quem faz tremer, qual declaração dá mais impacto, quem é o solteiro mais porra louca e feliz por ser porra louca, quem vai sair mais cedo pra mostrar pra todo mundo que vai passar o resto do dia transando.

Na área de serviço, uma garota, amiga de amigos de outros amigos, visivelmente triste, mas fingindo estar bem, como todo mundo sempre faz, bebia e fumava e conversava e bebia mais um pouco e fumava mais ainda e bebia de novo. O cinzeiro transbordava bitucas. Fui com ela ao banheiro querendo descobrir o que ela carregava na bolsa além de calmante. Ela me contou, meio bêbada, que namorava há cinco anos. São cinco anos dividindo espaço, o banco do cinema, contas, despertador, viagens, planos, doenças sexualmente transmissíveis com um cara que sempre voltava pra casa sem se interessar se ela estava bem de verdade.

Depois, chorando, enquanto retocava o batom, ela me contou que a relação era uma tonelada de incertezas. Ele não gostava de DR, não gostava de sair, não gostava de ser contrariado, comparava ela com a ex, criticava ela o tempo todo. Era uma relação sem conversa, sem tesão. Eles não transavam há mais de um mês “porque não tinha clima”, mas hoje, Dia dos Namorados, decidiram ir ao motel. Depois, ela falou que era melhor ser completamente infeliz do que não ter alguém pra chamar de namorado. Que essa coisa de “sempre apaixonados” não existe. Que essa coisa de “relacionamento sem problema” não existe. Que quem exige demais, no fim das contas, acaba sozinho. Melhor ter um namorado mesmo, assim do jeito que ele é, porque ninguém é feliz em relação alguma. Imagina ir às festas sem estar acompanhada? Imagina estar nesse churrasco sem um homem? Imagina voltar pra casa sozinha? Imagina ficar cercada de amigas que têm namorado? Imagina ficar encalhada?

Na varanda, um garoto, amigo de amigo de outros amigos, visivelmente triste, mas fingindo estar bem, como todo mundo sempre faz, olhava o celular de cinco em cinco minutos pra saber se o menino que ele tava saindo mandava mensagem. Não mandava. Fui com ele ao banheiro querendo descobrir o que ele carregava na bolsa além de calmante. Ele me contou, meio bêbado, bem baixinho, enquanto colocava um pouco mais de perfume, que não é feliz quando se relaciona e não é feliz quando não se relaciona. Mas que ele acha melhor ser infeliz sozinho do que infeliz acompanhado, porque quando ele está gostando de alguém, ele pesa mil quilos de angústia.

Ao voltar pra casa, depois de um dia repleto de frases de efeitos, autoafirmações, gritarias, gente bêbada, vômito no tapetinho da sala e infelicidade escondida por maquiagem e perfume, vi um velhinho com uma bengala, numa floricultura, no largo Dois de Julho, comprando um buquê enorme. Foi a cena mais bonita e honesta que vi no dia.

Sexo depressivo

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Olho a cueca arrumadinha na gaveta e penso: “é sem compromisso”. Com ele, desde que conheci, ficou combinado que seria assim: nada mais do que sair de vez em quando, nada mais do que uma cerveja, nada mais do que sexo. Sem cobrança, sem entrega, sem romantismo. E a gente volta pra casa sem esperar nada do dia seguinte. Com mãos que não levam, com corpos que não esquentam.

Tomo banho, coloco uma roupa bonitinha e penso: “eu posso desistir”. Eu posso inventar uma reunião, inventar que esqueci de um jantar importante com meu chefe, inventar que preciso visitar uma amiga na maternidade. Eu posso criar histórias ou, pior ainda, sumir. Desligar o celular, tirar o telefone do gancho. Sumir. Mas, por algum motivo que desconheço, decido ir.

Pego um táxi, olho as ruas em movimento. Casais felizes em sorveterias, restaurantes, passeios, livrarias, e tudo isso me faz engolir o choro. A cada volta e paradas em semáforos morre em mim mais e mais do rapaz deslumbrado com romance de telenovela. O carro anda mais um pouco e me digo: “eu posso voltar pra casa”. Eu posso colocar uma música do Phill Veras e dar uma volta no shopping. Eu posso, num impulso, ir ao cinema. Beber alguma coisa num bar, rodar numa exposição na Caixa Cultural. Tenho um pouco de medo da rua dele. E da árvore imensa que faz uma sombra muito escura em volta do prédio. Mas, por algum motivo que desconheço, decido ir.

Ele não vê sentido em beijo, perfume, creme de pele, depilação, cueca bonita. Ele não se interessa em criar um clima, em me levar pra um daqueles restaurantes com luzinhas coloridas no centro da cidade, em ser um pouco misterioso, em me fazer rir. Ele não interpreta minhas frases de interesse, meus abraços demorados. Ele não entende meu medo de ir, minha ânsia de querer ficar. Não à toa, “não quero ir embora”, pra ele, significa “a gente pode prolongar essa noite de sexo”. Não à toa, “meu corpo está quente”, pra ele, significa “podemos avançar as preliminares”. Ele acha muito importante não ir além da superfície e por isso diz com todas as letras e partes do corpo dele, com a boca enorme de palavras, que não: não crie.

Ele não entende e passa a língua no meu pescoço e dá beijinhos nos meus ombros e pequenas mordidas no biquinho do meu peito e lambuza minhas costas e a minha barriga e a cintura que me faz contorcer de cócegas e segue. Ele continua como um predador sem culpa por ter capturado a caça tão fragilizada e dependente, como um faminto feliz pelo delivery que chegou depois de um dia exausto de trabalho.

A mão dele toca a minha nuca e eu penso que isso, de alguma forma, quer dizer proteção. A voz dele alcança meus ouvidos e eu penso que isso, de alguma forma, é amor. Mas é só sacanagem. É só tentativa de escapar do tédio. São apenas palavras ditas num surto de tesão, numa descarga de energia, num segundo passageiro que nunca se prolonga, que nunca se completa. E assim ele continua. E assim eu continuo. Uma hora e meia, talvez menos. A cada segundo perco mais e mais e mais de uma coisa que eu não sei o que é. A gente termina e cada um vira pra um canto da cama. Mais uma camisinha, mais um gemido, mais um suor, mais um banho.

Mas se eu não sinto frio na barriga, fiquei me perguntando por que eu precisava aguentar aquilo, fiquei me perguntando o que eu tava fazendo ali. Se as horas se arrastavam, se eu implorava pra Deus pra que aquilo acabasse, se eu tava voltado pra minha própria dor, se eu não me sentia à vontade, se eu não me importava mais de não estar vivo com ele, se meu coração não se emocionava mais, se relação descartável não me interessa, o que é que eu tava fazendo ali? Sexo sem estar apaixonado eu tenho nojo.

Mais uma vez e ele, a essa altura, dorme abraçado a um daqueles travesseiros grandões espalhados pela cama pra suprir faltas, achando que transar é suficiente pra suprir carência. Mais uma vez e ele, a essa altura, dorme demais como sempre e já deve ter me esquecido, mesmo lembrando de mim de vez em quando, nessas horas que ele tá de saco cheio dos trezentos contatos que ele já levou pra cama.

Mais uma vez e eu volto pra casa, com a coluna curvada, e vejo tudo cinza. Me sentindo feio, sujo, exposto, absurdamente sozinho. Mas dessa vez foi diferente de todas as outras vezes. Dessa vez fiquei pensando nesses desgastes, nessas entregas sem reciprocidade, nessas dependências descabidas. Dessa vez chorei ininterruptamente por meia hora no chão do banheiro. Foi o choro mais alto que chorei na vida. A água fria pra me fazer acordar. A água em jatos fortes tentando limpar o que não era sujeira, o sabão escorrendo no ralo tentando levar o que eu não conseguia esquecer.

Fechei a porta e o quarto escuro me trazia mais dor. Fui inundado por um vazio profundo, invencível, inexplicável. Me encolhi no edredom sentindo um frio que não existia, me perguntando por que eu fazia aquilo comigo. Pensei no homem de verdade que eu sempre esperei e que nunca aparecia. Depois, como um mantra, apertei o travesseiro e me disse: vai chegar, vai chegar, vai chegar, vai chegar. Dois minutos depois, dormi meio soluçando.

No dia seguinte, mais vazio (ou seria mais cheio?), fui devolvido às ruas. Olhei as pessoas, no táxi em movimento, e percebi que não existia beleza em nenhuma delas. Não existe amor em lugar algum, em porra de pessoa alguma. E eu mais uma vez me perguntei como as pessoas conseguem viver no meio de intenções e futuros mortos. Por que as pessoas se relacionam com total superficialidade? Como é que acorda no dia seguinte sem sentir dor? Como é que se doa sem se entregar de corpo e alma? Nunca soube.

Tenho vontade de ligar pra ele — na esperança boba de que o coração dele tão cheio de desimportâncias saia do automático e me ame um pouquinho — e perguntar: você não gosta nem um tiquinho de mim? Nem sequer um tiquinho de nada? Mas a resposta parece óbvia. Digitei “Céu” no Spotify. Desci as escadas do jornal. A vida continua.

 

 

Irrelevante

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

E mais uma vez, eu abri o seu perfil no Facebook e fiquei olhando sua foto. Deus do céu, como eu já sorri olhando praquilo, como eu já fiquei bobo com todas as suas publicações, você não tem ideia. Mas nos últimos dias, infelizmente, não é sorrindo que eu olho, não é bobo que eu olho. É com desânimo, com saudade, com raiva, com tristeza profunda.

Lembro de você, uma vez, deitado numa daquelas espreguiçadeiras à beira da piscina da sua casa. Você olhava minhas olheiras tentando entender meus cansaços. E me colocou de conchinha e me deu o abraço que disparava corações em mim como se eu tivesse um em cada célula do corpo. E comeu chocolatinhos suíços dizendo que cacau curava cansaços e olheiras. E me falou, com sua voz tão bonita, a mais bonita que eu já ouvi, que você tinha cavado o lugar certo e encontrado o ossinho certo.

Por que você me fez acreditar na ideia do ossinho escondido? Por que você cavou, cavou e cavou a terra fingindo ter encontrado o ossinho que não existia? Você ter morrido. Você ter assassinado o que eu sentia. Você ter me feito fingir estar vivo pra todo mundo. Me feito chorar todas as vezes em que eu deveria dar risada. Eu permaneci e isso foi a coisa mais triste e insuportável e autodestrutiva que alguém pode fazer na vida.

Tenho vontade de te procurar no seu trabalho e de invadir a sua sala no meio de uma reunião importante. E de te esmurrar na frente dos seus colegas retinhos e engravatados e mais machos do que todo o resto do mundo. E arremessar vários chocolatinhos suíços no seu peito pra você perceber que não quero curar minhas olheiras e cansaços. E de te dizer que você é um grande idiota, um grande babaca, um grande merda, um grande imbecil. Nunca passou disso.

Nunca uma piada sua foi engraçada, nunca você foi interessante, nunca seus projetos foram bons, nunca você me surpreendeu. Nunca. Mas eu não consigo sair de dentro desta coisa que eu sinto. Sua mania de me ligar pra saber se eu cheguei em casa bem. Seu repente em sair pra algum lugar tarde da noite. Sua voz, que não é sua voz, me grita no meio da rua e meu corpo treme. Não consigo deixar de pensar em você, a cada dia, a cada raiva, a cada vontade de parar de pensar. E não consigo frear o vício de escrever sobre você, o vício de falar em você, o vício de te ver em todas as coisas.

E quando eu procuro outras pessoas, pra deletar tudo o que sinto, eu peço a Deus que você me veja. Eu peço a Deus que você me encontre por aí dançando com outro numa festa, bebendo um chope com outro num boteco, beijando outro na porta do meu prédio. E peço a Deus que você sinta muito ódio de mim. Porque sentir ódio é maravilhoso, triste mesmo é ter indiferença. Eu quero que você veja que eu já fui embora. O bobinho que esperava, que perdoava, que aceitava o muito pouco, simplesmente foi embora. Você que já me fez perder a hora, que já me fez gostar da vida, que já me fez acreditar em coisas que eu não acreditava mais, hoje não é nada. Não passa de uma foto numa rede social.

Eu me matriculei num curso novo, eu comecei a fazer musculação, eu tô lendo psicanálise, eu tenho visto mais filmes, eu tenho conhecido muitos lugares. Mas se tudo isso tem me feito bem, por que eu continuo stalkeando seu Facebook? Por que eu olho quem curte e comenta todas as suas publicações e stalkeio quem curte e comenta todas as suas publicações? Por que eu sinto ciúme dessas pessoas? Por que eu continuo te olhando? Por que eu sempre volto aqui de madrugada, na hora do almoço do trabalho, no fim do dia? Por que eu preciso dessa regressão? Por quê?

Você não vale esse tempo perdido. Mas eu faço. Eu continuo fazendo. Como alguém tão novo que morreu subitamente. Mas acontece que você não morreu de verdade, da forma que eu preferia que você morresse. Você está aí vivo, tranquilo, feliz, fazendo suas coisas. Você acorda, toma café, vai pra academia, almoça, trabalha, se aborrece no trânsito, se distrai num filme, sai com alguém na sexta-feira, transa com mais um no fim de semana. Você continua vivendo sua vida, sem culpa, sem raiva, sem saudade, sem olhar minha foto em rede social. E eu fico aqui no seu Facebook te vendo se perder nessas coisas rotineiras em que eu nunca estou presente.

Por que eu não consigo sair do seu perfil sem sentir uma pontada no fígado? Por que você não foi apenas mais um como todos sempre se tornam? Eu esperei muito de você? Não. Eu não esperei metade do que esperei dos duzentos homens que já conheci. Eu entendi tudo o que você me explicou, eu entendi o que ninguém entenderia, eu entendi o que nem eu deveria entender. Eu respeitei. Eu aceitei. Eu fiz como você quis. Tudo. No seu minuto, passo a passo. Eu voltei atrás. Eu me pedi pra ter calma. Eu aguentei problemas. Eu chorei, eu fiquei com febre, eu pedi desculpas, eu aguentei besteiras, defeitos, desaforos. Suportei tudo. E você sempre seguindo sem se importar.

E dói muito, porque você sabe que ninguém no planeta é capaz de ocupar o lugar. E você perde a fome. E você sente falta. E sente vontade de chorar. E você só pode respirar fundo, segurar as lágrimas e seguir em frente, porque todo mundo prefere dizer que você é fraco do que humano. Vai passar, né? Eu sei, todo mundo diz. Com o tempo eu não vou mais olhar sua foto, nem lamentar, nem sofrer, nem odiar sua vida idiota, nem pensar o quanto é infeliz tudo o que aconteceu. Com o tempo vai se tornar irrelevante. Espero muito que passe logo. Porque a vontade de te ressuscitar, quase sempre, principalmente agora, nesse exato minuto, me domina.

 

Nunca fui honesto

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

No meio do filme no cinema, ele aponta para um grupo de jovens estranhos sentados na fileira em frente e cochicha no meu ouvido algo como “esses pseudo-neuróticos, com seus fetiches de dores e fuga do tédio existencial”, fazendo referência ao filme de Xavier Dolan, e eu dou risada alta no cinema. Todo mundo olha feio pra mim, inclusive o grupo de jovens estranhos, e ele me abraça na tentativa de abafar meu descontrole, se prendendo mais ainda pra não rir também.

Depois ele me olha querendo saber se tudo bem. Tudo bem tirar da ecobag a vasilhinha com trinta e seis claras e comer ali mesmo na frente de cinco mil pessoas? Tudo bem não sair mais tarde pra beber uma cerveja comigo e uns amigos da Facom porque cerveja tem carboidrato? Tudo bem nada. Mas eu é que não digo. Eu é que não reclamo. Porque tô completamente apaixonado por ele e porque acho ele leve e engraçado, aceito a vida fitness, aceito o projeto de “barriga trincada em 90 dias”, aceito as conversas sobre proteína com os amigos da academia, aceito que aquelas claras frias estão sem sal porque sal retém líquido.

Desde que o nosso namoro começou, suportei calado as claras, os shakes e as somas das calorias nas embalagens dos alimentos. Nunca fui honesto. Nunca disse que achava aquele exagero ridículo. E seguia. Fingindo que não via, que não me importava, que eu não tinha que me meter naquilo, afinal, eu precisava aceitar ele do jeito que era. Quando a coisa chegou no suco de hibisco com gengibre, três vezes ao dia, e no detox de alface com agrião, em substituição ao jantar de um ano de namoro que preparei, percebi que já não dava mais. E até hoje, até a publicação desse texto, ele não sabe que eu odiava as claras, os amigos, os shakes, as somas, o suco, o detox, porque eu nunca fui honesto.

Depois dele, conheci outro cara. “Mas ele não tem nada a ver com você”, meus amigos diziam. Eu gostava da voz dele, dos intervalos longos entre um pensamento e outro, das frases que eu poderia legendá-las a cada lembrança fotográfica que surgia dele no meio do dia. Gostava quando ele falava sobre Lula, quando ele colocava adoçante no café preto sem contar as gotinhas, quando ele me ligava no começo da manhã e falava “sono pra caralho”. Eu sabia que aquilo era pouco pra gostar e ficar com alguém, mas eu não conseguia me imaginar sem aquela voz grave no primeiro minuto do dia.

Pouco mais de dois meses juntos, fui percebendo que ele não tinha mesmo nada a ver comigo. Gostava de ioga, reiki e meditação, e isso tudo me dava muito sono. Ele enchia a casa de incenso de manjericão e patchouli e fechava as janelas. Eu sofria com insuficiência respiratória, suportava crises de rinite e longas filas na emergência pra tomar nebulização. E ele nunca soube disso porque eu nunca fui honesto. Quando ele me levou pra uma sessão de budismo e eu me peguei olhando o celular a cada dois minutos, remexendo a coluna e as pernas a cada dois minutos e me levantando pra ir ao banheiro a cada dois minutos, comecei a perceber que eu estava indo longe demais. Ele dizia que eu precisava ser menos ansioso porque isso dificultava o fluxo de energia e daí muita coisa na minha vida iria dar errado.

Uma semana depois, ele me levou num curso chamado “Rolando na Grama”. Um encontro com gente ansiosa e deprimida, numa casa em Vilas do Atlântico, com o objetivo de encontrar a luz. Devíamos ir com roupas bem confortáveis, e o tratamento consistia em nove passos: 1) mentalizar uma coisa boa; 2) abraçar a coisa boa; 3) rolar na grama sem soltar a coisa boa; 4) imaginar a coisa boa do coleguinha; 5) rolar pela grama tocando em todas as partes do corpo do coleguinha até sentir a coisa boa do coleguinha; 6) rolar pela grama imaginando a coisa boa flutuar; 7) nos transformar no animal que estivéssemos a fim; 8) fazer o animal devorar a coisa boa; 9) ficar deitados na grama, respirando lentamente, com uma mão em alguma parte do corpo do coleguinha, pensando sobre tudo isso.

Só que rolar naquela grama me deixava ansioso. Não saber em que lugar eu chegaria quando eu rolasse me deixava mais ansioso. Saber que eu não conseguia relaxar pra deixar de ser ansioso me deixava mais ainda ansioso. Parei de frequentar o curso por cinco motivos: 1) percebi que a coisa que a instrutora procurava era o pau dele. E eu, neurótico, desconfiei desde o primeiro minuto que aquilo era uma masturbação mútua; 2) as pessoas não usavam desodorante; 3) as pessoas eram completamente deprimidas e ansiosas; 4) eu usava desodorante e não era tão deprimido e ansioso; 5) sério que eu me meti nisso? Achei justo, com ele e comigo, terminar. E até hoje, até a publicação desse texto, ele não sabe que eu odiava os incensos, os encontros de budismo e o curso de terapia na grama, porque eu nunca fui honesto.

Depois dele, conheci outro cara. Tomava remédio o tempo inteiro porque o tempo inteiro ele tinha vontade de morrer. No meio do show, ele saiu às pressas porque havia esquecido o Diazepam e estava com vontade de morrer. Descobri também, no almoço de bodas de prata da mãe dele, que ele tomava Prozac, Alprazolam e Tegretol, e que tudo isso ajudava ele a não ter vontade de morrer. Mas foi quando abri o porta-luvas do carro dele que me deparei com o Leponex. Pesquisei rápido no Google e descobri que Leponex é remédio pra esquizofrênico. Ele não gostava de teatro, não gostava de assistir televisão, não gostava de ficar numa sala escura de cinema, não gostava de barzinho, não gostava de falar ao celular, não gostava de beijar na boca toda hora, não gostava de viajar. E o tempo inteiro me dizia que não ia dar certo porque era impossível me agradar.

Numa festinha na casa de Nanda, encontrei ele fedendo a cigarro de cravo, chorando escondido no chão da área de serviço. E então ele me disse que essa vontade de morrer não iria embora nunca, então ele iria parar de tomar os remédios e ficar só na maconha. Ele passava o dia inteiro lendo livros ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que excluía arquivos inúteis do computador ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que via uns vídeos no YouTube ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que conversava com sete pessoas no Facebook ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que escrevia poesias. Passou a fumar tanta maconha que os móveis já tinham cheiro de maconha, o beijo dele tinha gosto de maconha, o cabelo dele tinha formato de maconha. E ele queria saber se sair com um cara maconheiro era um problema pra mim. E eu nunca fui honesto.

Eu já não aguentava mais os piores restaurantes e os piores filmes e as conversas sobre a morte. Quando fomos parados pela blitz e o carro dele tinha quase trezentos quilos de maconha, tive medo de ser detido. Mas ele me dizia pra ter calma “porque aquilo não daria em nada”. Peguei um táxi e voltei pra casa tremendo. Ali eu tive certeza que não valia a pena continuar porque a nossa relação não daria em nada. E até hoje, até a publicação desse texto, ele não sabe que eu odiava os remédios, a maconha, os restaurantes ruins, porque eu nunca fui honesto.

Cheguei em casa, remexi armários, caixas e gavetas, e joguei fora tudo o que não servia. Num repente, decidi que mesmo tendo pavor do tédio, eu jamais suportaria o insuportável só pra ter alguém. Só por uma companhia. Relações que me faziam mal, que não me faziam ser eu. Decidi que ser sincero seria mesmo a melhor saída, ainda que isso me custasse muito caro. Decidi que eu precisava ser honesto nas relações. Eu precisava não me sentir culpado. Eu precisava jogar aberto. Só assim consegui viver um relacionamento mais sólido. Só assim consegui me sentir vivo, inteiro, verdadeiro, feliz. Todo o resto, antes do repente, era só uma possibilidade.

Minúsculo

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Eu quase consegui fazer compras semana passada. Foi muito quase. Rodei o supermercado inteiro por vinte minutos até que eu perguntei onde é que ficava o caqui. E me deu uma tristeza e uma saudade profunda fazer essa pergunta. Porque eu não gosto de caqui, só compro porque você gosta. Só compro por hábito. Só compro porque é molinho e a gente não acha em qualquer esquina e tem a cara mais inofensiva do universo. Caqui não faz mal pra ninguém. Não tem espinho como abacaxi, não mancha como o caju. Um aperto de leve e você machuca. Se você estiver na rua o dia inteiro sem comer, morrendo de fome, suado, vai conseguir comer caqui sem precisar descascar. Tinha um vermelho mais clarinho, o vermelho mais maduro e uns mais parecidos com tomate. Todos em redinhas amarelas. Todos espremidos dentro de redinhas amarelas. Vi um cartão especial do dia dos namorados, misturados com revistas numa prateleira, enquanto eu esperava na fila do caixa, e aquilo endureceu meus ombros. Algo sobre um cadastro “pra ter desconto pra família e namorado” foi perguntado e aquilo me deprimiu demais. Pelo vidro, vi um casal com um bebê, no estacionamento, colocando as compras dentro do porta-malas do carro, e aquilo me deixou mais triste do que deveria. Larguei os caquis espremidos na redinha amarela e todas as compras no carrinho. Eu simplesmente larguei tudo lá. A menina do caixa gritou por mim, sem entender. Atravessei a rua correndo e nunca mais voltei.

Eu quase consegui abraçar alguém sábado. Durante dois segundos eu fechei os olhos e apertei a cintura com muita força e pensei que, finalmente, eu estava conseguindo esvaziar meu peito de você. Foi realmente por pouco. Acho que, devagar, como uma criança que solta as mãos de um adulto pra dar o primeiro passo, talvez um dia eu consiga andar pra frente.

Domingo ri tanto no rodízio, tanto, que por pouco me senti feliz de novo. Os amigos mais engraçados que eu tenho, e que eu não via há um tempo, me contaram as loucuras que fizeram no intercâmbio. Dei muita risada com a história de uma amiga que foi pega pelo segurança em um envolvimento quase sexual com outro segurança atrás do Museu do Louvre. Mas aí lembrei, no meio da minha risada alta, como eu queria voltar pra casa e contar pra você detalhe por detalhe dessas histórias. E fiquei triste de novo.

Anteontem acordei me sentindo mais forte e chamei todos os meus amigos pra ir ao Alfredo di Roma, o restaurante que você me levava. Eu gosto de tanta coisa lá e tenho tantas boas lembranças que não queria fingir que esse restaurante não existe. Mas quando eu vi o sorvete do petit gâteau de doce de leite derretendo no pratinho, lembrei de você e comecei a chorar. E deixei todo mundo no restaurante e fui embora. E ninguém entendeu nada. Por pouco eu consegui ter uma noite bonita. Por pouco eu consegui me distrair. Por pouco eu deletei a sua existência.

Ontem eu topei ir até a casa do cara que eu saio há um tempo. Um aperto de mão que não me dizia nada, um beijo que não me dizia nada. Achei desonesto transar com o homem mais bonito e gente boa do mundo e lembrar de você justamente nessa hora. Eu parei tudo, coloquei a cueca e fui embora. E chorei na janela do ônibus o caminho inteiro, de soluçar, vendo a mistura das luzinhas dos faróis dos carros. Por pouco eu senti prazer de novo. Por pouco eu permiti que outro cara me tocasse. Por pouco eu deletei os seus flashes da minha cabeça.

Um amigo me disse hoje, por telefone, que tem um amigo pra me apresentar. Que eu e ele combinamos muito. Que ele é bem fofo. Que ele me viu no lançamento do livro de outro amigo e que se apaixonou por mim. Quem diria, hein? Quem diria. Alguém apaixonado por mim. E o mais doido dessa história toda nem é isso. O mais doido é que eu fico curioso com esse negócio de gostarem de mim. Por pouco eu me animo com esse homem fofo. Por pouco eu me animo em gostar de alguém. Mas pensar em gostar de alguém me lembra você. E fico triste de novo.

Pedro, meu psicólogo, dizque eu preciso me distrair com outras coisas, conhecer novas coisas. Cadu, meu amigo, dizque eu preciso pensar mais em mim, na minha vida daqui pra frente. Luana, a moça que faz faxina na minha casa, dizque eu preciso parar de colocar minha felicidade na mão dos outros, principalmente de homem.

Eu pensei que quando a gente dividisse o corredor sem se olhar, eu pensei que quando eu te visse numa festinha com outro cara, eu pensei que quando eu jogasse todos os seus presentes fora, eu pensei que quando eu rasgasse todos os canhotos de cinema e apagasse a nossa conversa do celular, eu pensei que quando passasse semanas e meses, eu pensei que quando finalmente eu te visse mudado, vivo e indiferente, eu pensei que quando eu entendesse que não tinha mais volta, eu pensei que passaria. Não deixa de doer nunca, mas quase para de doer todos os dias.

Ficar triste deixou de ser momentâneo e naturalizou. Chorar deixou de ter um motivo e virou um hábito diário de quem sente por tudo. Perder a autoestima se tornou comum e passou a ser normal, me convencendo que tudo bem não sair mais de casa, tudo bem não ler mais nada, tudo bem não assistir mais nada, tudo bem não pentear o cabelo.

Você, que já foi o motivo dos dias mais incríveis da minha vida, agora me puxa pro fundo do poço mais desmedido dos dias mais tristes. Um poço que não me deixa ser inteiro em nada, realizado em nada, satisfeito com nada, feliz em nada.

Por pouco eu consigo não te odiar, por pouco eu consigo não odiar aquela foto com aqueles garotos, por pouco eu não escrevo esse texto. Todos os dias eu quase te mando uma mensagem, eu quase te ligo, eu quase falo com você quando te encontro, eu quase consigo ser leve, eu quase consigo te tratar como nada. E quase dou um foda-se pra tudo, quase perco a razão, quase desisto de continuar. E quase consigo, sem sentir um buraco no estômago, achar que vai dar tudo certo, que hoje só foi mais um dia com um resto de quase e que uma hora esse resto de quase, de tão minúsculo, finalmente, vira um nada.

Por que eu acho que é amor

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Imagine que carrego uma mochila extremamente pesada nas costas, com dois bilhões em moedinhas e tabletes de ouro. Estou na Lapa. Ando assustado no meio da multidão, suado, corcunda, achando que a qualquer momento posso ser roubado. Enforco as alças no meu pescoço e prendo alguns nós na cintura e nos braços.

Vez em quando, alguém por ali, correndo, colando ao meu lado, pedindo informação, sorrindo pra parecer simpático, ousa colocar as mãos dentro da minha mochila pra tentar roubar as moedinhas valiosas, como eu previa. Porém, ainda que eu não aguente o peso e pense em pedir ajuda e reclame das dores na cervical, me atiro ao chão e, ciente dos riscos, percebo do que sou capaz de fazer: matar ou morrer pela mochila. Automaticamente, quero gritar que tudo bem, tudo bem: qualquer coisa contra mim, menos a mochila. Como se, numa compaixão fraternal, protegesse um filho de um tiroteio.

Daí, também, vez em quando, alguém por ali, correndo, colando ao meu lado, pedindo informação, vincando a testa com piedade, se oferece pra segurar a mochila pesada. Ou pra entregar no lugar de destino. Ou pra dividir, ao menos, o peso das alças. Também não consigo olhar pra essas pessoas e enxergar gentileza. Não consigo confiar na bondade delas a ponto de entregar uma das alças.

Porém, vez em quando, alguém por ali, como aconteceu com você, aparece no meio da multidão com uns olhos brilhando de pureza. Aparece uma pessoa que não me pede nada em troca, não repara na mochila, não tem segundas intenções, apenas caminha ao meu lado com leveza. Aparece uma pessoa que me faz sentir vontade de entregar cada moedinha, cada tablete de ouro da minha pobre mochila. Aceite, guarde, não economize, faça chuva de prata com elas em plena Avenida Sete ou, quem sabe, na Manoel Dias.

Eu não sou egoísta. Eu sou uma espécie em extinção. Eu sou um mendigo pelo avesso. Eu ando por todas as ruas movimentadas do mundo, me arriscando no meio da multidão, pra encontrar alguém com os olhos brilhando de pureza. Eu ando por todas as ruas movimentadas do mundo implorando pra que alguma alma honesta, no meio da multidão interesseira, aceite de bom grado toda a minha riqueza. Tenho um banquinho nas praças da cidade onde ouço as dores dos outros, onde faço piada da vida, pra animar pessoas de almas bondosas com olhares tristes. Próximo aos meus pés há um chapéu imenso e cheio de dinheiro. Embora tenha escrito em uma plaquinha “Obrigado, não quero sua ajuda”, ninguém lê, ninguém entende. Embora eu grite no alto-falante “pelo amor de Deus, eu não quero sua ajuda”, ninguém ouve, ninguém entende. Mas você me leu. Você me ouviu.

Posso ficar séculos tentando te explicar por que eu acho que é amor. Você tem um redemoinho de pelo abandonado e solitário abaixo do dedo mindinho da mão esquerda. Você tem intervalos curtos entre os dentes incisivos centrais. Você desfia o cabelo com os dedos da mão direita quando está nervoso. Você joga sua cabeça pra frente quando a risada é de timidez. Você joga sua cabeça pra trás quando a risada é de felicidade. Você atravessou a rua feito um louco no meio dos carros, com as mãos forçando os bolsos do jeans, só porque não sabia o melhor momento de me pedir em namoro. Você pede desculpa pela sua parte mauricinho de ser com a fragilidade e a sinceridade de um poeta francês. Você me convida pra comer num japonês, exatamente onde terminamos e, porque sabe ser sacana e piadista do mesmo jeito que combina comigo, explica nos mínimos detalhes onde é o lugar. Como se, algum dia, eu fosse capaz de esquecer.

Eu vejo a palavra “amor” num jornal velho e, só porque tem três de sete letras do seu nome, sinto de leve minha pressão cair. Eu vejo um vulto de alguém dobrando a esquina a cem metros e, só porque tem exatamente a sua altura, sinto de leve um chutinho atrás dos meus joelhos. Eu tenho uma doença que ainda é desconhecida pela medicina: eu vejo coraçõezinhos telemáticos espalhados pela cidade. Saltitando, atravessando pistas, em cartazes publicitários, sendo jogados em lixeiras, sendo vomitados em bares por gente solitária que enche o copo de cerveja porque não sabe mais como controlar todo o resto. Eu poderia ficar séculos tentando te explicar por que eu acho que é amor.

Semana passada você fez o contrário do que eu acredito. Você tentou me explicar por que você acha que não é amor. Falou das minhas dúvidas, inconstâncias e chatices, das minhas noites com calmantes que me fazem ficar sem libido, do quanto odiava quando eu tentava sugar mais e mais e mais do seu coração protegido pelas várias camisetinhas modernas que parecem casaquinhos finos e, por fim, quis explicar que prefere um daqueles meninos da San Sebastian que some na semana seguinte, porque você é viciado mesmo em comecinhos.

Não são por essas coisas que se afirma que é amor. Não são por essas coisas que não se afirma que é amor. Essas são apenas coisas que observamos e conseguimos expulsar da garganta ou revelar com os olhos enquanto no encaramos com medo. No fundo, no meio da multidão, correndo assustados, carregamos mochilas pesadas de moedinhas e tabletes de ouros. São sentimentos, belezas e fantasmas. E, no minuto exato, quando acontece, e ninguém consegue explicar isso sem parecer bobinho e arrogante, entregamos a mochila pra alguém que nos leve embora de becos inóspitos. Para um lugar que a gente sempre esteve pronto pra ir.

Eu te vejo atravessando a rua em passos de câmera lenta, com as mãos quase dentro de uma das suas camisas que parecem casaquinhos finos, e quero te colocar dentro desse táxi e te levar pra esse lugar que todo mundo espera ir, que eu fui e que você sempre foge. Você me lê, você me ouve, mas você não me entende, você não enxerga, você nunca está preparado, você ignora.

Mas, no último milésimo do sinal vermelho, fui tomado por uma raiva desmedida. Sem tempo para pensar, escancarei a janela do táxi e arremessei com toda força do mundo a mochila com bilhões de moedas e tabletes de ouro. Toma aí pra você e me deixe pobre. A mochila não te alcançou, caiu a dois palmos antes do seu último passo. E você, mais uma vez, continuou de costas. Nem o som dos meus dentes rígidos provocados pela força de quando perco o controle, nem o meu coração apodrecendo sendo transmitido por telas, nem o cheiro do meu cabelo esvoaçando pelo vidro aberto, nem a luz da minha caridade possessiva. Nem nada abala você.

A mochila abriu em pleno meio-dia da Avenida Tancredo Neves, caótica pelo sol intenso e pela véspera do natal. Os mendigos, os interesseiros, os egoístas, os mentirosos, os desonestos e todos os outros seres que dilaceram mochilas nas metrópoles, se amontoaram pra tirar proveito do amor que, de tanto escolhido a ser entregue, de tanto insistir em ser levado pra algum lugar, agora ficou pisoteado, exposto em bueiros, como resto de peixe de feira.

 

© 2017 - TV Aratu - Todos Direitos Reservados
Rua Pedro Gama, 31, Federação. Tel: 71 3339-8088 - Salvador - BA