Mãe é uma coisa bem doida

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Minha mãe reuniu todo mundo em casa pra comemorar o aniversário de 51 anos dela. Tia Izildinha jurou que iria moderar nos aperitivos: só uma torta e algumas empadas, afinal de contas, era uma reuniãozinha de família. Acontece que, lá pelas seis e quarenta e cinco, faltando quinze minutos para a festa, tia Izildinha, sempre exagerada, apareceu com canapés e docinhos e barquete e torta salgada e empanada: “Não gosto de nada mixuruca”, reclamou.

Minha avó, 82 anos, gosta desses momentos “família”, e recupera recordações tristes e um tanto constrangedoras. “Se seu avô estivesse vivo, ele não iria aceitar essa festinha. Iria fazer um baita churrasco ou levaria todo mundo pra um desses restaurantes caros e com comida ruim”, disse ela enquanto ajeitava o vestido. Depois, enquanto recostava no sofá, empilhou álbuns, descansou os óculos no nariz, e olhou fotografias antigas (algumas um pouco desfocadas e desgastadas por causa do tempo).

Em uma delas, minha mãe aparece numa espreguiçadeira branca no Porto da Barra. Ela, com um biquíni lilás que favorecia o corpo, aproveitando toda a vitamina D do dia com bronzeador Neutrogena. Eu, meio tímido, odiando o sol e me escondendo debaixo do sombreiro com a cara e os ombros entupidos de protetor solar Adcos. Em volta, meus primos fazendo castelinho de areia, bebendo Coca-Cola e chupando picolé. Eu, um menino de sete anos, alérgico, pele sensível, com os olhos vermelhos, angustiado, sempre com enjoo.

Lembro de todos os meus primos fazendo fila pra pegar queijo coalho assado na brasa e eu perguntando à minha mãe: “Alguém morre se comer esses negócios de praia, mãe?”. E ela respondeu algo como “morre quem não tem o que comer”. E lembro que nessa época (e pra falar a verdade até hoje), ela não gostava que eu não gostasse de comida. Eu tinha que comer tudo e qualquer coisa que fosse oferecido “pra não ser uma pessoa fresca”: “Vai escolher o que comer quando chegar na casa dos outros?”. Lembro dela revoltada, aos berros na cozinha, porque fiz birra e não quis comer bife de fígado: “Você faz ideia de quantas pessoas no mundo comem lixo pra poder sobreviver?”. Foi a primeira vez que eu pensei na fome.

Depois, vejo outra fotografia dela. Ela com a blusa de listrinha preta e branca que eu tinha uma obsessão a ponto de um dia esperá-la voltar do trabalho na esquina da rua e abraçar uma mulher desconhecida, com a mesma blusa, por engano. E lembro que nessa época eu roubei uma agenda dela, espécie de diário, e me tranquei no banheiro pra ler. Ela invadiu e me perguntou se eu gostaria de que, algum dia, ela lesse as minhas descobertas da adolescência num desses meus caderninhos de folhas pardas. Congelei. Foi a primeira vez que eu pensei, sem egoísmo, sobre privacidade.

Em outra fotografia, mamãe aparece com um cabelo mais curtinho. Ela tinha feito amizade com Wanda, nossa vizinha e cabelereira, e, num vício quase demoníaco, queria o tempo inteiro mudar o cabelo. Começou com um corte nas pontas até parar num chanelzinho. Tive medo de voltar da escola, um dia, e encontrá-la careca. E lembro que nessa época, Adelaine, minha melhor amiga da infância (filha de Adelaide e sobrinha de Wanda, todas vizinhas), ficou doente. Eu dizia: “Mãe, Adelaine está com sarampo. Eu também estou. Olha essas pintas vermelhas”. E ela revirava os olhos e falava: “Você já teve sarampo, agora deve ser sarampo ‘emocional’, você é muito saudável pra ter essas coisas duas vezes”.

Um dia, mamãe foi internada às pressas no Hospital das Clínicas. Estava com uma bactéria na garganta. Ela se maquiou toda quando soube que eu ia visitá-la, e disse ao me ver com os olhos inchados de chorar: “não é nada. Se eu não reagir bem aos antibióticos, vão enfiar um tubo na minha garganta e depois que eu melhorar costuram de novo, mas não é nada”. Minha mãe era uma força espetacular da natureza, sempre achava que as coisas no fim das contas dariam certo. E eu, aos nove anos, já era trágico, fóbico e estranho.

Uma vez, coloquei detergente de prato dentro do frango cozido. Ela percebeu a espuma e me perguntou se eu fazia ideia de que colocar produto químico dentro de comida poderia matar todo mundo da família, inclusive ela: “Como você sobreviveria sozinho no mundo aos oito anos?”. Foi a primeira vez que eu pensei na morte.

Em outra fotografia, vejo mamãe com uma minissaia vermelha no aniversário da minha irmã. Lembro que uma vez ela chegou em casa contando que, ao sair da reunião de pais da minha escola, com essa minissaia vermelha coladinha, saltos extremamente altos, decote cavado, cabelão Farrah Fawcett versão morena, foi a grande culpada por um acidente de carros na avenida Paulo Sexto. Eles perderam o controle e colidiram ao vê-la passar. Ela chegou narrando a cena, preocupada, assustada. Meu padrasto fez um escândalo, quis sumir com a saia, e dizia “se você sair por essa porta, eu pulo daqui do décimo andar”. Ela saiu e ele não pulou, mas até dia desses, quando ainda eram casados, ele ficava nervoso quando ela chegava.

Ela vai ler este texto e brigar comigo. “Você me descreveu como chata, louca e fútil, você não contou que eu trabalhava mil horas por dia e voltava pra casa com os pés inchados pra te dar tudo o que você queria”. Tá contado, mãe. Ela me ensinou coisas incríveis que nenhuma outra pessoa seria capaz de me ensinar. Mas é que, apesar de tudo isso, o que eu lembro com mais carinho é da sua parte chata, louca e fútil. Nunca vi nada de errado nisso. Mãe não tem explicação lógica. Mãe é uma coisa bem doida.

Nas últimas fotografias do álbum, encontro uma que estou abraçado com ela no sofá. Eu tinha 12 anos. Foi ali que percebi que seria impossível amar alguém como eu amava a minha mãe. Minha obsessão à la Norman Bates. Minha obsessão pela sua estética maternal jamais vista em outra mãe. Eu sentado no chão do banheiro te vendo tomar banho pela neblina do box. Eu tentando guardar o cheiro da sua nuca enquanto você dormia. Eu abraçado com seu travesseiro quando você viajava. Eu olhando você com uma perna na cama e outra no chão pra passar creme de ameixa antes de dormir.

Eu amava o chulé que ficava nas pontinhas da sua meia-calça e o gosto do bolo de milho verde que surgia na boca quando eu passava mais de seis horas sem vê-la e as sapatilhas e sapatos altos de várias cores espalhados pela casa e como ela falava ao telefone enquanto cozinhava. Amava que no sábado à noite, depois que chegava do trabalho com um pote de sorvete de pavê, ela pedia pizza meia margherita meia mussarela numa pizzaria chamada Bella Massa, e eu e minha irmã pulava na cama de felicidade. Amava que, quando meu padrasto viajava, era eu que dormia com ela.

Eu gostava de ver minha mãe pelada, gostava de abrir a gaveta de calcinhas arrumadas, gostava de ver a pilha de sabonetes “caros que ela ganhou de presente da mulher do seu chefe”, gostava que ela arranhava as unhas pra tirar os cravos das minhas costas e só por isso eu me sentia amado e dormia em paz, gostava da loucura dela de reclamar de sujeiras e coisas fora do lugar, irritada, durante a noite. Eu amava uma calça bege que ela usava em dias frios, uma bem quentinha. Ela tem até hoje e, quando eu vejo essa calça, me dá vontade de chorar. Ela nunca superou o fato de eu ter crescido e ainda me enxerga como um menino, embora quando eu peça alguma coisa e falo “você precisa cuidar do seu filho”, ela diga que “quem tem filho grande é elefante”.

Talvez porque cresci ouvindo que eu era a cara do meu pai, talvez por causa da minha obsessão, talvez porque ela sempre foi bonita, talvez porque ela dava a vida dela pelos filhos, eu sempre quis parecer com ela. Semana passada, comprei um tapete que ela pediu. Ela não gostou. Dizemos coisas horríveis um ao outro. Foi triste. Ela me disse que não conseguia me odiar porque eu era muito parecido com ela: reclamava de tudo e explodia com tudo na maior sinceridade. Obrigado, mãe, aos 26 anos, finalmente fiquei parecido com você.

Este texto é sobre perder pessoas

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Filipe Jardim

Sim, terei a imensa cara de pau e a redundância consciente de escrever – justo neste site de notícias que fala de política, economia e ciências – sobre pessoas que vão embora da minha vida. Eu posso imaginar você, 50 e muitos anos, camisa de botão, barba, óculos, entortando a boca e revirando a cabeça: “O que eu tenho a ver com a descartabilidade da vida desse fulano? A quem interessa ler esse drama cheio de futilidades?”. Este é um texto sobre pessoas que fecham portas. Você e outros milhares de leitores, num exemplo “ao vivo”, já nem devem mais estar aqui.

Há algumas semanas, puliquei no Facebook um texto curto falando sobre como as pessoas ignoram completamente a violência no Rio de Janeiro e, como antas, tiram selfies em morros, no Leblon, no Pão de Açúcar ou, até mesmo, com policiais marombas segurando fuzis e metralhadoras em algum calçadão (Ipanema?). Em cinco minutos, perdi 667 seguidores. Me chamaram de “louco”, “sem noção”, “levado pelo que lê e assiste na mídia golpista”. Disseram que eu escrevi um texto cheio de frases de efeito, que peguei o ranço que São Paulo tem pelo Rio, que eu estava querendo tirar o direito de ir e vir das pessoas.

Uma amiga, com letras garrafais, foi até o meu “inbox”, e disse que “carinhosamente estava me excluindo do Facebook” e que “não vou surpreendê-la se, nas próximas eleições, eu votar em Bolsonaro”. Fiquei extasiado ao ler aquilo, mas o que eu poderia fazer? Eu apanhei porque falei sobre ser humano. Porque disse que achava surreal chamar de #CidadeMaravilhosa no Instagram, numa imagem photoshopada no Rock in Rio, enquanto 22 eram mortos em um tiroteio na Rocinha. Eu apanhei porque abri mão do aplauso do mainstream e tirei sarro dos deslumbrados de alguma praia carioca mega descolada, porque deixei claro que o Rio é a única cidade do Brasil que perdeu completamente o controle de segurança pública e vive numa guerra civil há anos. As pessoas invertem o que você fala pra te escrotizar. Ninguém tá muito preocupado em dar a cara pra bater numa rede social. Vão no seguro e bem aceito, é mais fácil e menos doloroso.

Há alguns dias, escrevi, novamente no Facebook, um texto curto criticando pessoas que fazem do Enem espécie de “passeio de shopping”, aquela gente que não sabe por que bosta faz a prova pela milésima vez. Até que eu não apanhei tanto por esse. Não mais do que o outro texto, que escrevi há um ano, confessando que me sinto muito mais seguro morando em São Paulo do que em Salvador. Por esse perdi, novamente, cerca de 300 seguidores. Muitos soteropolitanos e alguns paulistanos que odeiam São Paulo. Entrei nos comentários e eram 200 pessoas me xingando. Os revoltados on line. Eles me apelidaram de pseudo-sudestino e se despediram de mim com mensagens bonitas tais quais “Até o dia que você morrer num assalto na Sé”, “É porque você não sai da Zona Oeste”, “Vá na Luz pra você ver” e “Skinhead bate em gay, você sabia?”. Li todas as mensagens e pensei: “Caguei”. Mas, meia hora depois, senti minha gastrite urrar silenciosamente. Cheguei à conclusão que é impossível ter olhar crítico no Facebook sem receber 52 mensagens “inbox” de amigos dizendo que enlouqueci e que estou desconvidado de suas festinhas. Não há muito o que discorrer sobre esse perfil: são pessoas que deletam, que tratam com prazo de validade, como uma latinha de milho verde.

Eu sei, eu sei. Em algum momento, em vários deles ou definitivamente, as pessoas sempre vão embora. É a coisa mais triste que eu posso dizer na vida. Foi assim com meu melhor amigo do ginásio, foi assim com aquela amiga da faculdade que se mudou pra Tailândia, foi assim com aquele cara que disse que era impossível não gostar de mim, mas, porque estava bêbado quando falou isso, sumiu no dia seguinte.

Há mais de um ano, Felipe, um grande amigo, foi embora porque não gostava de ser corrigido. E eu, que sempre tive personalidade forte, fui pro ataque. Ele gostava de ser bom em tudo e eu, porque também sempre gostei de ser bom em tudo, e talvez porque amava ele a ponto de querer que ele fosse bom em tudo, apontei dezenas de erros em um documento de trabalho e tudo mudou pra gente. Foi por besteira. Mas talvez, no mundo em que se vive, não precise de muito pra alguém ir embora.

Há dez meses, o outro Felipe, outro grande amigo (tô começando a achar que nenhum Felipe nasceu pra ser meu amigo), foi embora porque não gostou de ouvir que ele estava ficando com uma amiga em comum, mas ainda estava completamente apaixonado pela ex. Ele me disse que eu não era exemplo de relacionamento pra ninguém. Que eu me achava tão bom no assunto, mas estava sozinho. Passei meses pedindo desculpas para ele, a cada desentendimento, por ser quem eu sou, com medo de perdê-lo. E ele SEMPRE incapaz de deixar o orgulho de lado, mesmo quando ofende e está errado. Gente como ele, que não se importa em pedir desculpas, que não procura pra conversar, que enterra com a maior facilidade do mundo, não merece décimas chances.

Há dois anos, um namorado foi embora. Eu falava sobre saudade, sobre faltas, e ele olhava fixamente pra qualquer outra coisa do planeta, menos pra minha existência. Fazia sempre a mesma cara de tédio e de busca por alguma novidade que nem ele sabia o que era. E eu querendo que ele descansasse um pouco de ser ele o tempo todo, mas ele tem muito medo de não ser ele, talvez porque ele não saiba o que ele é. Ele me perdia o tempo inteiro porque precisava descobrir quem ele era, ou pra lembrar que ele era o mesmo de sempre que nunca soube quem era. Ele sempre ia embora antes da gente ser alguma coisa juntos. Até que um dia ele foi embora de vez sem nunca saber quem era. Acho que ele é essa busca que não chega a lugar algum, e chegar a lugar algum talvez seja chegar a algum lugar.

Antes dele ainda teve outro que sempre me deletava da vida dele na certeza de que existia alguém melhor do que eu, mas não ia embora de vez porque não é todo dia que aparece alguém mais interessante do que eu. Um dia ele encontrou um rapaz. Ele até que é bonito e tal, não parece tão complicado e intenso, e passei a achar que mediocridade seja o suficiente que uma pessoa precise pra ser feliz. Mas a última vez que ele resolveu me deletar definitivamente, que finalmente a gente percebeu que estava perdendo um ao outro de vez, antes ele me deu um abraço daqueles que congela. O abraço e o seu olhar de quem nunca sabe direito por que pessoas se perdem ficaram pra sempre comigo.

Antes dele ainda teve outro que foi embora a primeira vez porque estava bêbado demais e “amanhã precisava trabalhar”, foi embora a segunda porque ficou tarde pra ficar num show de banda alternativa cheio de adolescentes na Commons, foi embora a terceira porque teve medo de ficar pra sempre porque “não sabia como lidar com essas coisas”, foi embora durante alguns longos meses porque era muito ocupado e todo o resto do mundo precisava dele pra alguma coisa (a mãe, a avó, o primo, o chefe, o ex-namorado, a vizinha, a amiga, a babá do sobrinho) e eu era apenas uma das demandas de uma lista imensa que precisava de ordem. Da última vez que a gente se despediu, tocou aquela do The XX que diz algo como “Eu não posso sentir tudo que você sempre sentiu” e você fez aquela carinha fofa de “desculpa” que desmonta qualquer pessoa raivosa como eu.

Em algum momento, em vários deles ou definitivamente, as pessoas sempre chegam em nossas vidas. Talvez seja a melhor coisa que eu possa falar no mundo. Como naquela crônica que não lembro, daquele escritor que não lembro, e sobre o qual você me contou no escuro do quarto de um jeito que eu nunca mais vou esquecer: “no fim das contas, a gente acaba mesmo numa esquina qualquer, num bar vazio que toca Belchior, com recordações um pouco tristes e bastante engraçadas de alguém que um dia chegou e depois foi embora, perplexo”.

“Tá demais, vai ver na terapia o que é isso aí”, diz ex-namorado em resposta à carta aberta

Texto: Gabriel Amaral | Ilustração: Igor Queiroz

RESUMO Neste texto, escritor convidado responde crônica publicada na coluna do Aratu na quarta-feira (1º) e reflete sobre exposição e reações depois do fim do relacionamento. Para ele, vige no ex-namorado esperas descabidas e espaço literário de poder que não admite opinião divergente ou questionamentos e que, ao se prender ao passado, anula a possibilidade de viver e ser feliz.

***

Eu te vi. Semana passada, saindo da padaria, eu te vi, mas disfarcei. Preferia não ter visto.

Semana passada, cometi um erro. Um mísero, um ínfimo delito. Meu erro foi ter acordado com um desejo incontível e inexplicável de ir à praia com o meu namorado. Talvez pra me desculpar pelo desentendimento que tivemos no dia anterior. Talvez pra fazer com que ele, de alguma forma, se sinta seguro na relação. Não sei se você sabe, mas ele, mesmo sendo bonito e inteligente, é completamente inseguro. Parece que eu atraio gente insegura. Assim como você e outros trinta caras que eu me relacionei, como você mesmo disse na sua carta.

Porque ele não gosta de passar muito tempo brigado comigo, ele topou ir. Peguei a motocicleta e fomos até a Barra. Ele pediu pra parar no Bompreço e comprar uma revista. Aproveitei e comprei gorgonzola, massa e um vinho branco pro almoço. Depois caminhamos até a orla e ficamos conversando, assistindo às ondas quase brancas sob o reflexo do sol, como um mar de leite. Gosto quando a voz dele se confunde com o barulho do mar e eu fico estonteado sem saber se essa confusão é música ou poesia feita por um desses poetas que tem a capacidade de fazer esquecer, por uns minutos, os desalentos da vida.

Porque ele tem problema com o sol, meia hora depois decidimos ir embora. Foi quando eu te vi. Do outro lado da rua, de pé, segurando um saco de papel, analisando o movimento de pessoas e carros e lojas e ambulantes e barulhos em volta, como se esperasse alguma coisa. Você estava de pijama. Aquele pijama que você colocava, querendo morrer, porque a cor te fazia lembrar o colchão antialérgico laranja que sua mãe comprou na sua adolescência e que, na verdade, não era antialérgico. Eu amava quando você esquecia a neura dos espirros e usava esse pijama. Eu te achava bonito mesmo de pijama laranja e olheiras.

Porque eu gostava de você usando roupa de dormir, comecei a divagar, lembrando de quando você acordava cedo e saía da cama sem fazer barulho pra ficar lendo na varanda. Aquelas revistas literárias com gente que escreve achando que sabe tudo. Aqueles jornais que você reclamava que os repórteres escreviam mal. Eu achava tão lindo (você lendo, você reclamando) que até tirei foto. Até hoje a única foto sua que não consegui jogar fora. Me fazia pensar: “Esse homem não precisa de nada pra ser feliz”.

Num repente, puxei meu namorado pelo braço. Um carro passou ao nosso lado. Começou a tocar uma música de Bethânia. Quando dei por mim, estávamos praticamente dançando na rua como nas cenas daqueles musicais antigos e sentindo uma pontinha de vergonha. O resto é o que você já sabe. Eu não sabia que você também tinha me visto. Isso até a última quarta-feira, quando vi circulando nas redes sociais o seu último texto publicado, ao lado de uma foto sua 3 por 4. Sua mania de escrever sobre o outro com uma propriedade arrogante. Começa um exagero, que acho mais ódio de quebra de expectativas daquilo que você esperava de uma relação do que o desejo de colocar no papel o que você sente. Realmente não sei o que espera ganhar com isso. Mais angustiante: não sei o que você espera de mim. Um pedido de desculpas por não tê-lo cumprimentado? Por não ter tido a mínima ideia do que fazer ao encontrar o meu ex enquanto andava com o meu atual?

Percebi o óbvio ululante: eu não te devo nada. Foi você quem tentou me expor publicamente, não o oposto. A única coisa que fiz foi sair na rua com meu namorado, como fiz praticamente todos os dias nos últimos quatro meses. A única coisa que talvez tenha feito demais foi não acenar e dizer um “oi, tudo bem?” por educação. E sabe, muito mais do que a sua loucura de estar inseguro, de querer provar o tempo inteiro que está certo e de arranjar um namorado e fazer dele um personagem, foi exatamente as suas esperas descabidas a razão de nós termos terminado.

Porque mesmo depois de passado quase um ano do nosso rompimento, você ainda espera. Ainda espera que eu acene. Ainda espera que eu diga “oi, tudo bem?”, mesmo quando não tenho o menor interesse em como você está. Ainda espera que eu lhe dê atenção no meio do Jazz no MAM, no meio da confusão da vida. Ainda espera que eu perca meu medo de ir à praia e fique apenas no raso quando é na profundeza que mora o desconhecido. Tá demais, vai ver na terapia o que é isso aí. Vou te dar um último conselho. Não porque ache que você vá dar ouvidos, mas porque, apesar de tudo, também sinto ainda algum afeto residual que sobrou da nossa relação. Meu conselho é: não espere, viva. Faça acontecer. A espera é a morte antecipada.

Talvez fique feliz em saber – ou talvez fique um pouco amargurado – que eu mostrei a ele o seu texto. Ele achou um pouco triste, mas depois riu um pouco. O bacana é que você nos ajudou com o desentendimento do dia anterior. A gente conversou e ele disse que concordava com alguns pontos que você trazia na carta. Disse que, às vezes, eu ficava muito quieto e aquilo o incomodava, o fazia sofrer. Acho que melhorei nessa coisa do diálogo, graças ao que aprendi com você e, agora, com ele. Aliás, graças ao seu texto tivemos a oportunidade de conversar sobre você, que pra mim sempre foi tumultuado lembrar e contar. Ainda estamos juntos, melhores do que antes, eu diria. Por enquanto sua previsão não se realiza. Não se termina uma relação por ser intenso. Não se termina uma relação por não ser intenso. Quero que saiba que desejo a sua felicidade e que também possa encontrar alguém que te entenda e que possa amá-lo como eu não pude.

Carta aberta ao atual do meu ex-namorado

Texto: Murilo Melo | Ilustração: José Manuel Hortelano

Hoje pela manhã, ao sair da padaria, encontrei meu ex-namorado com você. Senti um misto de susto e ciúme. Ele segurava com a mão esquerda uma sacola de supermercado e, com a outra, a sua mão. Eu ainda estava de pijama, chinelo e cabelo bagunçado, bem feinho. Mas isso, pelo visto, não interessou: vocês não me notaram. Aliás, que loucura. Ao que parece, vocês não se importam com ninguém em volta. Parece que o mundo se transforma num lugar invisível, sem brilho e sem som quando vocês estão juntos, o que me fez ficar com o coração um pouco apertado.

Admito que, a princípio, fiquei com um pouco de inveja ao ver vocês sorrindo, e me recriminei por meia hora. Depois, segurando firme a sacolinha de papel de pão, me pedi pra ter calma: é normal sentir inveja e susto e ciúme e ter um pouco do coração apertado quando se esbarra com o ex que a gente ainda guarda um pouquinho de afeto. A gente sempre guarda um pouquinho de alguma coisa por todos os ex.

Fiquei observando tudo até vocês subirem na motocicleta. É impressionante como ele se sente bem com você. Solto, certo do que quer, apaixonado. Exatamente como ele se sentia comigo nos primeiros dias e totalmente diferente do nosso último encontro. Vocês estavam perambulando pelas ruas da Barra, desfilando ao lado de uma fila de táxi, como se estivessem flutuando no meio de bolhas gigantes de corações que não estouram.

Um carro passou e dava pra ouvir a música que tocava. Era algo como “mas o importante é perceber que a nossa vida em comum depende só e unicamente de nós dois”, de Bethânia. Achei que esse trecho, de alguma forma, unia nós três. Vocês dançavam sem dançar, deslizavam pela calçada sem deslizar, rodopiavam sem rodopiar. Uma moça passou ao seu lado, numa bicicleta, apressada, e ele, sempre atento, te afastou com aqueles braços imensos que protegem de toda a maldade do mundo.

Quando ele apertou sua cintura contra o corpo dele, num gesto mais contemplativo que alguém que gosta pode fazer, sei lá, lembrei dele me dizendo, sem perder a paciência, que eu precisava relaxar. Ele sabia que o meu maior problema era querer saber onde ia dar ter sete meses de namoro, onde ia dar me arrumar pra sair todo sábado, onde ia dar conhecer os amigos, a família, os restaurantes mais charmosos da cidade. Onde ia dar? Eu fui, pra ele, um clichê de ansiedade e insegurança.

Quando ele te deu um beijo na testa, num gesto mais carinhoso que existe no universo, sei lá, lembrei dele me olhando sério, no meio do Jazz do MAM, e me pedindo pra parar com essa mania chata e descabida de querer medir o amor: “Não é porque você está disponível pra sair que você ama mais. Não é porque eu sumi por mais da metade do dia que eu te amo menos. Não é porque você escreve sobre o que vê que você entende o que vê”.

Quando você tentou largar a mão dele e ele te puxou de volta, num gesto que marcava presença, sei lá, lembrei dele me explicando, sem saber como, que não gostava mais de mim. A maneira educada de falar uma sinceridade alta. A necessidade cruel de ser honesto. A maior dor do mundo dita pelo melhor namorado do mundo.

Tenho medo de você não conseguir cuidar dele como eu cuidei nos últimos tempos, por isso escrevo esta carta. Cueca esquecida no chão do banheiro, toalha molhada em cima da cama, roupa amassada. Eu gostava de cuidar do homem imenso que se comportava como um menino. Gostava que ele, ora era fofo, ora era estranho, esquizofrênico. Eu chamava ele de esqui-fofo e ele, mesmo sendo a pessoa mais inteligente que eu conheço no mundo, nunca conseguiu decifrar o apelido.

Eu não sei se ele já te mostrou algum projeto de arquitetura dele. Mas se ele mostrar qualquer rabisco, qualquer ideia, ainda que pra você pareça tudo muito solto e surreal, estimule. Isso é muito importante pra ele. Você talvez não entenda nada, eu nunca entendi, mas, no fim das contas, ele sempre faz uma coisa fantástica.

Eu não sei se você sabe, mas ele tem medo do mar. Ele sempre se lembra da história do milagre, na infância, que o salvou do quase afogamento. Eu tentei diversas vezes fazer com que ele esquecesse o episódio. Tentei convencê-lo a ficar no raso. Tentei convencê-lo a ir a uma praia mais calminha. Mas ele não consegue. Talvez, você, agora que assumiu o posto de namorado, e porque ele mudou tanto nos últimos meses, consiga fazer com que ele esqueça esse trauma.

Eu não sei se você sabe, mas ele não consegue dormir na véspera de Natal. Ele sempre se lembra da mãe dele que morreu tão repentinamente. E chorava. E me ligava. E pedia desculpas por um tanto de coisas que nem precisavam de pedido de desculpas. Foi assim no Natal passado e, eu sei, deve se repetir. Nunca me senti preparado pra cuidar dele na véspera do Natal. Então, não espera ele ligar. Liga primeiro. Diz que está ali pra qualquer coisa. Tenta preencher esse vazio que nunca será preenchido.

Eu sei, eu não te conheço, mas este texto é pra te pedir, em público, a coisa mais importante que alguém que sonha ter um filho com ele (e pelo visto você parece querer) tem que ter: paciência. Eu não sei se você sabe como ele funciona, mas com ele é devagar. É por degrau, aos poucos, no momento certo, quando tiver que ser. Se você não der conta da loucura que é gostar de alguém com calma, se você não conseguir aguentar não aguentar, se você não suportar esperar o minuto dele, se você for tão intenso quanto eu e acordar no meio da madrugada, exausto, querendo saber se é mesmo amor, assim como trinta caras que vieram antes de mim fizeram com ele, eu sinto muito em lhe dizer: seu namoro, infelizmente, não vai durar.

Desproporcional

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Olhos tão arregalados pra não perder nenhum vulto. Pra devorar, como um predador. Pra se vender, como um produto de baixo custo, quase de graça, quase uma doação, na prateleira do mercado: “me coloque no carrinho, vale a pena, me leve pra casa, ignore todo o resto, eu não aguento mais ficar na poeira”. Pra conquistar tudo de mais interessante que você gosta, de um jeito que me faz ficar horas te olhando quase sem piscar.

Os vencedores têm um holofote gigante na alma e apesar de você ter me notado numa prateleira cheia de boas opções e feito tanto e sido mais do que tantos homens que tentaram bastante, é claro que a luz no centro do palco você deve guardar para o seu caminho que, não precisa ser vidente pra saber, será maravilhoso.

Eu sou estragado demais pra pertencer ao seu mundo simples, leve e sem agrotóxico. E sei que agora você deve estar por aí percorrendo seções infinitas atrás de alguém mais orgânico, mais parecido com você. A publicidade nas relações custa cara, e não adianta uma embalagem bonitinha e trocadilhos engraçados. Conquistar alguém e fazer tudo isso dar certo é ter pescoços esticados pra ver um outdoor genial, é ganhar o prêmio principal, é subir no pódio com a certeza da reciprocidade.

Olhar com amor requer um tempo que pessoas passageiras e imediatistas não podem e não devem fazer, arriscar. E eu, tolo, na urgência, tentei ser aquele maluco da plateia que saiu correndo do show pra agarrar o artista inalcançável. Você, protegido por milhares de seguranças, entrou num daqueles carros enormes, e eu fui obrigado a aceitar o corredor solitário, onde gente louca fica. Você está certo em exibir ao mundo uma boca com tantos dentes e tão incrivelmente brancos. Eu é que estou errado quando fecho a cara pra pensar com tristeza esses sustos previsíveis do amor, que de tão previsíveis não deveriam assustar mais.

Não tem mais você cantando, freneticamente e despreocupado, The XX debaixo do chuveiro, enquanto eu olhava a rua vazia e sem chão, do alto do seu apartamento, angustiado, sem saber que porra de dor era aquela que eu sentia no peito. Eu achava louco, eu não aceitava, eu queria entender: como pode alguém gostar de outro assim em tão pouco tempo?

Não tem mais você tirando sarro quando eu não aguentava o nó na garganta e te falava no escuro que era alguma coisa parecida com amor, talvez amor. Era amor mesmo, ainda é. Alguma coisa deu errado em mim quando você segurou a minha mão no portão de casa, no comecinho de tudo, e confessou que a pior parte do dia era quando você me deixava e ia embora.

Não tem mais você me ligando no meio da noite pra saber se estava tudo bem quando não estava. O meu desespero em ouvir sua voz era tão grande que eu dormia com o celular embaixo do travesseiro, porque até uma ligação sua, com voz de sono, cansado, de madrugada, era melhor do que o silêncio. Você dizia que o meu maior problema era não saber esperar pelo dia seguinte. E eu te odiei mil vezes porque minhas esperas pareciam durar uma eternidade, mas pra você viravam dois segundos.

Mas meu corpo todo enfrenta tumulto quando gosto de alguém. Me armo inteiro pra correr pro lugar mais distante e pra lutar com unhas imensas quem tentar impedir. Me sinto péssimo e choro em posição fetal quando constato o quanto é ridículo ficar com saudade só porque você foi tomar banho. Ter que sentir ciúme ou raiva ou solidão ou insegurança e sorrir pra não parecer louco. Me irrita ir ao cinema e pensar que depois do filme você vai embora. E ter a certeza que eu vou te ver em qualquer buraco da sua agenda que nunca tem buraco. Pareço um adolescente quando você está por perto e você é homem demais pra suportar esse comportamento de menino. Eu sinto de um tamanho que eu não tenho e, então, desproporcional, começo a adoecer, como sempre.

Eu não sou louco. Eu só não tenho pele pra proteger e sobrevivo em carne viva, e quando você toca em mim, ainda que de leve, eu sinto seus dedos e veias e batidas e olhos e salivas invadindo todos os meus órgãos. E você não precisa entender o medo que isso me dá, mas quem sabe, numa outra vida, num outro planeta, você entenda que tudo o que eu quis era carinho.

Aviso

Excepcionalmente, o colunista não escreve nesta quarta-feira (18).

Como ser amigo de um homem lindo

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Acho que de todos os exemplos, o do cabelo é o mais desumano. Ele tem um cabelo que parece ter feito mechas, meio claro, meio médio, meio loiro, liso, com uns cachos grandes nas pontas, extremamente brilhante. No sol, o brilho e a cor ficam mais vivas e todo mundo sempre quer saber: “que cor incrível é essa?”. E ele responde: “Nunca pintei, acredita?”. E diz que já enjoou dele. Que talvez pintar seja uma boa. E fecha a cara meio depressivo. O cabelo é tão maravilhoso, mas tão maravilhoso, que pra cuidar ele usa xampu vagabundo, daqueles de mercado que não passam de dez reais. E os meros mortais torrando todo o salário com centenas de fórmulas da Europa pra conseguir sair de casa sem parecer um mendigo da Praça da Sé.

Ele aparece na piscina da casa de uma amiga apenas com um short que favorece a barriga enxuta e as pernas torneadas. Não é academia, nem pilates e muito menos Crossfit. “Que dieta é essa? Chá verde, hibisco, chia?”. E ele responde: “nenhuma. Só como besteira, acredita?”. Aí coloca um Ray ban e exibe sem querer exibir o belo corpo na espreguiçadeira. Todos, inclusive eu, querendo morrer com bochechas e pancinhas.

Quando chamo ele pra me acompanhar na padaria, ele diz: “me dá vinte minutos pra eu me arrumar, não posso sair feio do jeito que estou” e eu fico olhando e pensando que nem em uma semana num SPA, eu alcançaria a perfeição que ele é capaz de ter apenas de regata, samba-canção, cabelo bagunçado, barba por fazer, chinelo e creme de limpeza na cara. Ter como melhor amigo um homem lindo é receber um soco na boca do estômago todos os dias. É mentir que não tem azia, é inventar que você jamais usaria base líquida pra esconder manchas de espinha. Você atrasado, a padaria ao lado… e ele vem, lindo, com creme de limpeza na cara e samba-canção, e termina de te socar. E você apenas sorri: “tá bom, migo, eu espero…”.

Quando ele tá meio bêbado e fica desolado (sim, gente bonita também tem angústia), ele sempre lembra de algum amigo que sumiu. E enche os olhos de lágrimas, com saudade. Mas também, né? É preciso muita autoestima, força de vontade e masoquismo pra estar ao lado de uma pessoa tão bonita quanto ele. Ele diz: “não entendo, Gabriel vivia aqui, saía todo final de semana comigo, de repente… sumiu”. E eu imagino, com vontade de falar em voz alta,  que “antes de sumir, o coitado do Gabriel deve ter tentado cirurgias plásticas, terapia, cremes, drenagem, ácidos, peeling, dietas, exercícios… quando viu que nada dava jeito, o melhor mesmo era fazer de conta que você não existe”.

Mas acho que mais cruel do que ter a companhia dele é não ter a companhia dele. Vai sempre aparecer um desgraçado do outro lado da pista que me vê entre ônibus e corre no meio da rua pra falar comigo. “Murilo, quanto tempo!!! Precisava MESMO falar com você”. E eu já imagino que falar comigo é falar sobre meu amigo lindo. É sempre pra perguntar se meu esteticamente afortunado amigo que viram na festinha de sábado está finalmente solteiro. E ficamos então parados no meio da calçada num papo cíclico. Lindo, né? Meu Deus, muito. Bem lindo mesmo. Porra, lindo pra caralho. É, nossa, lindo demais. E a boca? Nossa… E então eles começam a pedir Facebook, pedir pra apresentar, pedir pra levar na outra festinha de sábado. Só pedem. E eu já nem ligo mais, mas no fundo sempre ligo.

Em outubro do ano passado fui ao show do Bailinho de Quinta. Comprei uma roupa nova, tadinho. Me arrumei todo, tadinho. Deixei a barba alinhada, tadinho. Usei um perfume caríssimo. Tadinho. O cara que eu tava saindo até gostava de mim, até falava que “nossa, como eu não te conheci antes?”, até me achava bonito, mas eu lembro do segundo exato em que ele, ao notar meu amigo numa camiseta cinza sem sal (lindo mesmo numa camiseta cinza sem sal), dividiu o mundo entre antes e depois. E eu ficaria o resto da eternidade no antes.

Ir aos lugares ao lado do meu estonteante melhor amigo é aceitar pra sempre não ter o pódio. É ficar satisfeito pra sempre com o prêmio de consolação. É escolher pra sempre ser “o rapaz ao lado”, “o amigo do”, “o outro”, “aquele que tá com”. É me fantasiar de Carmen Miranda em dias comuns e ainda estar tão longe do centro das atenções. É ensebar a franja de tanto que dói não ser notado pelo resto do mundo.

Em nome de uma vida mais digna e sem humilhações, eu poderia, assim como fez Gabriel e uns 70 amigos mais frágeis, ter sumido. Mas o negócio é que na madrugada de uma sexta para sábado, me dopei com Dramin, Rivotril e outras dezenas de remédios para dores musculares e fui dormir. Eu estava com febre emocional por causa do fim do meu namoro e a única coisa que eu queria era acordar depois de vinte dias. Foi aí que a belezura universal em forma de melhor amigo teve por mim uma paciência jamais vista nem nos dias mais doces da minha mãe. Ele foi até a minha casa e cuidou de mim. Dormia e acordava de meia em meia hora para ver como eu estava. E eu, às 4h55 da manhã, estava ainda muito drogado, mas pude acompanhar suas pernas incrivelmente torneadas dando passinhos lindos pelo corredor, tudo pra ter certeza que eu ainda estava vivo.

Em nome de uma vida mais digna e sem humilhações, eu poderia ter dito “gatinho, não dá mais, fui, tô vazando, quero que você e a sua beleza incrivelmente fantástica sejam para sempre felizes lá na putaqueopariu”, mas o negócio é que o Deus Grego é a porra do meu melhor amigo. É ele quem me liga todos os dias pra saber como estou. É quem segura minha mão quando eu faço endoscopia. É quem se importa de verdade com a minha vida, os meus projetos, enjoos, colites intestinais e crises emocionais.

Gente muito bonita sabe que, em seu triste carma de perfeição solitária, só lhe resta ser tão gentil, mas tão gentil, que o gentil seja ainda mais superior do que sua barriga enxuta, sua pele hidratada, seu cabelo incrível e sua batata da perna. Já o homem como eu, “inteligente e engraçado”, rótulo que nos dão no ginásio e o qual nos agarramos por toda vida, cabe calcular o benefício disso e transformar o resto em piada.

Ninguém precisa transar para estar transando

Texto: Murilo Melo | Arte: T Jalf Sparnaay

Na semana passada, ele pintou um pontinho com canetinha verde neon no meu nariz e apagou a luz do abajur da salinha de reuniões da agência de publicidade que a gente trabalha. Isso foi a coisa que me deu mais tesão nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. Um pontinho de canetinha colorida no nariz. Minhas mãos começaram a soar, minha respiração travou e a ânsia de querer mais e mais pontinhos pelo corpo já não sabia como se controlar. Um pontinho de canetinha colorida no nariz. Imaginar a voz dele ao pé do meu ouvido é preliminar. Imaginar o hálito da boca dele passando entre meus cílios equivale a abrir o zíper da calça, o anúncio do sexo. A língua que descamba da testa para a orelha é pau. A língua penetrando no ouvido é pau e bunda. A língua que passeia entre a bochecha e vai até o céu da boca é pau e bunda. Mas um pontinho de canetinha colorida verde neon é como um pau e bunda nunca visto antes na existência do planeta. Não sei explicar muito bem, mas o pontinho de canetinha colorida no nariz foi mil vezes mais sexual do que pau e bunda.

Na semana passada, ele colocou um bilhetinho dentro da minha ecobag dizendo que iria fazer uma serenata depois que eu saísse do banho só pra me ver dançando pelado. Acho que era o trecho de alguma música ou de algum livro desses milhares de livros que ele lê, mas foi a coisa mais sexual que li nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. E então me imaginei completamente nu, desfilando entre banheiro, sala, quarto e cozinha, enquanto ele tentava se concentrar nas notas musicais, me bisbilhotando, por debaixo dos óculos, entre uma pausa e outra da melodia. Tive orgasmos consecutivos que nenhuma penetração seria capaz de me dar em sete vidas.

Na semana passada, ele encostou o braço no meu braço quando pediu meu lápis emprestado. Eu emprestei, ele anotou o número de telefone de algum cliente, e depois descobri que ele é canhoto. Então o quê? Então nada. Mas sei que aquele braço roçando no meu braço foi a coisa mais sexual que me aconteceu nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. Esqueci o que eu estava digitando no e-mail, esqueci de beber o resto da água no copinho descartável, esqueci de atender o telefone. Meus dentes prenderam bravamente os meus lábios. Uma vontade sem fim de me enfiar mil vezes num buraco dentro do meu próprio buraco. Nem nos olhamos. Ele sem tirar os olhos do computador o dia inteiro. Photoshop e Ilustrator. O dia inteiro isso. Mal trocamos palavras. Ele anda rápido pela agência. Demanda, problemas, prazos apertados. Diz que vai resolver. Em um minuto, mas às vezes só dá no dia seguinte. Atende telefone. E depois outro. Nem sei o nome dele, só o apelido.

Mas eu gosto quando ele se ajeita no espaço dele, tão pequeno pra altura e, por descuido, chuta minha cadeira, no meio de uma reunião chata, e pede desculpas sinceras, franzindo a testa como um gatinho sem dono abandonado em caixas de papelão. “Desculpa”, e fala meu nome. E então dou um foda-se pra toda aquela merda de reunião e bloqueio nos meus ouvidos todo o resto que não me interessa. Eu me excito ao sentir os poucos centímetros do pé dele entre a rodinha da cadeira e a minha perna. E de saber que daqui a pouco ele chuta mais um pouco. E pede desculpas sinceras de novo. “Desculpa”, e fala meu nome. Tudo isso é minha vida sexual do momento. O toque que dá possibilidade. Possibilidades que não se concretizam. A transa do toque de possibilidades.

Eu transo quando, no elevador, ele encosta um pouco da barba no meu queixo pra apertar o andar e eu fecho os olhos e respiro fundo, quase gemendo, quase gozando. Quando ele pega um cafezinho e se espreguiça no meio do grupinho de publicitários e do outro diretor de arte. E então mostra, sem querer, o pedacinho de barriga que me estimula a pensar que tem o tamanho exato de uma lambida rápida. Essas coisas que ele nem sabe que eu penso. Essas loucuras que quando vou ver, já pensei. Não, eu não quero revisar o texto, repensar o post, pensar numa frase melhor pra propaganda. Eu queria mesmo era saber se lamber suas costas inteira secaria a minha língua numa lambida sem intervalo. E chego mesmo a abrir um pouco a boca, mas quando ele olha pra mim, finjo que estou bocejando.

No fim da semana passada, porque todo mundo da agência saiu pra beber uma cerveja num bar que só frequenta gente descolada – e ele me achou tão engraçado e tão interessante, e então criamos intimidade -, ele beliscou com muita força a minha cintura. E eu gritei. E ele disse “nossa, que menino fresco”, e riu mais do que a dor que senti. Nos conhecemos há sete mil anos, apesar de ser apenas semana passada. E eu retribui com uma mordidinha no braço dele. E ele fez aquela carinha de ” eu aguento, eu sou forte”. E riu com minha mordidinha. E depois bebeu um gole na garrafinha de Heineken, o que me deixou bastante enfurecido. Tudo isso foi a coisa mais sexual que me aconteceu nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. São tantas obrigações entre uma sala e outra, contas pra pagar, poucas horas de sono, textos pra ler, escrever e revisar, e ele aparece como minha única fantasia sexual, uma distração.

No fim dessa noite, do fim da semana passada, ele sugeriu que eu “esticasse a noite na casa dele ouvindo Nina Simone e bebendo todas as cervejas do frigobar”. Não tinha nada pra comer, ele avisou. Ovo frito? Ele riu. Eu não fui. Passei a gostar do homem que eu vejo do outro lado da pista. Se ele atravessa, perco o encantamento. Passei a gostar do comecinho do amor, da conquista, do que não chega a ser, mas que por algum ângulo já é. O negócio é que talvez eu nunca mais cruze com ele, porque só fiz um freela na agência e ele é interessante demais pra minha insegurança e eu nem sinto nada de bonito. Mas, por via das dúvidas, me depilei e tenho sorrido mais. Ninguém precisa transar para estar transando.

Hoje visitei meu próprio cemitério

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Uma velhinha, com duas sacolas de supermercado em cada mão, do nada atravessa a pista no sinal verde e o motorista do Uber dá uma freada brusca e o carro faz um barulho estranho. Meu corpo vai um pouco pra frente e, em menos de meio segundo, volta batendo contra o banco.

No calçadão da Barra, uma menina corre com um tênis rosa e verde, calça de ginástica de elástico frouxo e camisão. O carro anda um pouco e, em Ondina, eu vejo uma menina comendo salgadinho de cebola dentro do ônibus, uma banca estampando inúmeras revistas com fotos de atores globais, um casal sem papo digitando em seus iPhones na varanda de um restaurante caríssimo.

Do lado esquerdo, um skatista gigante, calçando um tênis gigante, passeia com um cachorro gigante. A rua parece ser pequena para eles. Mais à frente, uma mulher com uma bolsa, com um desenhinho de pinguim, anda impaciente no ponto de ônibus. Do alto, num prédio, acho que nono andar, no Rio Vermelho, um homem com a barba por fazer, parado na janela, olha pro nada.

O carro dobra numa rua, aguarda um pequeno congestionamento, faz novamente um barulho estranho, e é justamente quando vejo ele. Na porta da Tropos, um daqueles bares descolados que ele sempre vai. Ele viu um rapaz entrando e colocou a mão no bolso. Depois bebeu um pouco de água numa garrafinha. Depois pegou o celular, acho que pra ver as horas. Depois passou a mão na nuca. De um jeito diferente. Colocou as mãos na nuca e foi descendo, deslizando. Foi de uma forma que ele nunca fez, mas eram os gestos dele.

O carro andou um pouco, mas eu ainda podia ver tudo. Ver, por exemplo, um rapaz saindo do bar com duas cervejas e, depois, rindo com ele. Mais um namoro que ele tenta dar certo, talvez. O carro arrasta, desaparece no meio de prédios e ruas, e ele fica pra trás. O motorista do Uber explica que é apaixonado pelo carro, mas cansou de consertar pela centésima vez. E que, talvez, a melhor coisa mesmo seja comprar um carro novo e se livrar desses barulhos estranhos.

Em menos de um minuto você se lembra de tudo. Você se lembra o motivo e a cena ou os motivos e as cenas que fizeram tudo se perder. E você se dá conta que não tem culpa e que, talvez, ele também não tenha culpa. Relacionamentos acabam quando têm que acabar. Assim é a vida, ainda que doa dizer. Você se dá conta que o grande amor da sua vida. O maior. O homem que um dia você achou que finalmente havia encontrado. Aquele que você nunca superou. Aquele que gostava de você dizendo que tinha medo das noites solitárias de domingo.

Você se dá conta que ele é o tipo de homem que faz questão de ficar a noite inteira longe de você – não só dia de domingo, mas todas as outras noites -, só porque acha misterioso ficar longe de você e não porque quis mesmo ficar longe de você. Ele prefere ser da turma com cinquenta pessoas que falam de tudo, menos de amor, porque é mais bacana ser descolado do que humano. E você se dá conta do que sentia mesmo estando acompanhado: solidão profunda. E você se dá conta que ele acha que saudade, amor, carinho e qualquer outro tipo de afeto se resumem a sexo todas as vezes que vocês ficavam a sós. E que, para ele, discutir relação é “coisa chata e amanhã tem trabalho”.

Você se dá conta que a vida dele, que você tanto admirou, que você tanto contou pros seus amigos com um orgulho imenso, pode ser um pouco comum, boba e até mesmo triste, tão solitária quanto ele fazia você se sentir (com estantes caríssimas, mas sem valor; com apartamentos enormes e vistas incríveis, mas que ficam desocupados mais da metade do dia; com geladeiras e agendas cheias que só servem pra alimentar fomes passageiras; com carros que levam a qualquer lugar, onde e quando quiser; com cartões de crédito gastos com coisas sem amor, olhares tortos de síndico que reclama de barulho, filmes onde musculosos se comem e amigos que ligam no meio da noite de sábado achando que ir a alguma boate nova pode ser uma opção legal pra levar gente pra cama).

Em um minuto você se dá conta o que te trouxe até aqui, tão longe dele, tão longe de todos os planos. Me senti dando vida ao meu próprio cemitério, numa visita inesperada e dolorosa. Com o homem que eu mais amei na vida enterrado. Com o cara que a gente desenterra de vez em quando só pra ter certeza que a melhor coisa que fizemos na vida foi ter escolhido enterrá-lo. O rapaz que a gente, nesses minutos de lembranças, lamenta a distância e até mesmo o final. Ele já foi tão importante e… Por que a gente não começa tudo de novo e tenta dar certo desta vez? O homem que a gente tenta se agarrar por minuciosidades que não voltam, num misto de melancolia e falta, talvez por medo de lembrar que a vida caminha pra frente e isso significa alguma perda. Nossos amores vão ficando pra trás. Nós também ficamos. Assim é a vida, ainda que doa dizer.

Mas a lição que eu aprendi, hoje, é que não vale a pena consertar um carro pela centésima vez. É melhor esquecer o antigo e comprar um novo. Afinal, eu passei meses tentando consertar um relacionamento e só ganhei mais e mais desgastes. Mais e mais problemas. Mais e mais poses. Menos e menos verdades. Ter um namoro de fachada é assumir a incapacidade de ser só. Ainda que doa deixar o homem da sua vida morrer, se agarrar a ele é viver mal-assombrado pro resto dos dias.

487 gostos

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino 

Eu gosto das luzinhas amarelas, vermelhas e violetas que aparecem em seus olhos por causa da incidência de luz. São essas luzinhas que me fazem lembrar a vida como lâmpadas de apartamentos que salvam ruas tristes e noturnas de uma grande metrópole. Você entope minha vida de cor que eu nem sei se existe e me deixa bem mais humano do que o resto do mundo.

Eu gosto dos dois ossos saltados nos seus ombros e se vejo eles descobertos pelas alças da camiseta de listrinhas tenho vontade de dedilhar como violino. Suas partes me lembram notas de clássicos de músicas francesas e se você me convence a dançar, eu rodopio sorrindo pelo salão inteiro entre garçons, mesas e convidados.

Eu gosto da sua camisa azul de botão que você sempre usa quando acorda atrasado e não sabe o que usar. E se ela desabotoa, no fim do dia, deixando à mostra alguns fios esquecidos e desinteressados de pelo do peito, eu fico segurando o cós da calça tentando controlar a ânsia de arrancar cada botão. Você insiste em dizer que “é só uma camisa velha” e eu, na minha completa arrogância, digo que não há como explicar o que não é passível de explicação. No meio de tudo isso, você sorri pra mim reto, direto, calmo, largo, amando sem preocupação, sem euforia.

Eu gosto da sua espinha ilíaca ântero-superior, a curva profunda concentrada entre o seu abdômen e a virilha quando você coloca a bermuda de moletom leve e fica pelado da cintura pra cima. É ali que você deposita todo o charme despretensioso de homem feito contrapondo o rosto de menino. Então fica a briga dos olhos sob os ombros e do peito sob a espinha ilíaca.

Eu gosto que seus ombros sobem e descem quando a sua respiração é profunda, que os ossos da sua mão aparecem quando você relaxa, que os dedos dos seus pés encolhem por algum motivo. E eu não sei bem se é por frio ou se é mania.

Eu gosto que seu cabelo seca ao longo do dia e seu topete fica aquela coisa meio dura, estática, eu acho bonito. Eu gosto de como você me espera na porta do meu trabalho no fim do dia. Eu vejo poesia na espera. Seus olhinhos fechados de cansaço pelo vidro do carro, a boca pálida porque você sempre esquece de beber água, suas costas meio suadas marcando a camisa, seu som repetindo We don’t talk anymore parecendo cena de novela.

Eu gosto quando você abre as janelas do carro, o vento não pede licença e seu cabelo perde a forma. E daí você me faz viver um elevador de sensações: eu dou risada com sua voz baixa querendo disfarçar alguma sinceridade muito alta; eu fico bravo quando você interrompe o assunto com aquele “deixa pra lá” que me mata mais do que tudo. Sua leveza dura a vida inteira, mas chega pra mim com a intensidade e duração de um cronômetro em contagem regressiva a dois segundos do fim.

Eu gosto quando eu chego em sua casa sem avisar, com sacolas de supermercado, e você, tão alto, me olha como menino e me abraça e me levanta e me roda e eu me sinto bem menor do que já sou. E então eu me refugio em seus braços, não me movo, pareço não ter sangue. Eu gosto de olhar sua mão por sete minutos e imaginar que você poderia me tocar mesmo que eu estivesse num mundo só meu e você num mundo só seu. Suas mãos grandes e largas invadem qualquer espaço do meu corpo com total respeito.

Eu gosto como o jeans cai perfeitamente em sua cintura sem precisar de cinto. Seu método sexy e egoísta que provoca inveja em qualquer produtor de videoclipe do Justin Timberlake. Você é bonito demais pra alguém tão inteligente e é quase injusto pro mundo existir alguém com tanto das duas coisas quando se olha ao redor e percebe que é difícil achar uma só. Eu pergunto o que é isso que deixa seu rosto tão interessante e você me diz, me achando hiperbólico, que é mistura de grego com gente do mato. Sério que não tem nada de alemão, italiano, galego? Você fica vermelho de tanto rir. Você sempre fica assim quando eu extrapolo os limites da realidade. E logo depois fala algo bem íntimo, quase sussurrando no meu ouvido, e percebe que não era hora pra isso.

Eu gosto quando você me acorda e procura putaria lá pelas cinco da manhã, no segundo em que a noite ameaça ser dia. Eu gosto quando você deita, cansado, e pede pra que hoje você fique por baixo. Eu gosto da força das suas mãos apertando o travesseiro e depois o meu cabelo e depois as minhas mãos. Eu gosto da loucura que é o seu gemido e o meu gemido e o suor pelos corpos e a falsa quietude que fica quando os dois viram pro lado. Eu poderia gravar seu gemido no iPod e sair com fones gigantes ouvindo pela cidade inteira nesses dias que a gente se desencontra, como um aparelhinho erótico ambulante.

Eu gosto que todas as suas camisas parecem azuis mesmo não sendo. Eu gosto da sua janela de madeira que não é madeira e que combina com a varanda e com a persiana. Eu gosto do papel de parede da sua cozinha. Eu gosto que você sorri quando digo que não existe poesia no meu exagero barato. Eu gosto do seu telefone com a tecla três quebrada. Eu gosto que o seu interfone deixa sua voz meio roca.

Eu gosto que você fica pilhado sem perder um traço sereno e intocável nos olhos, como se a vida fosse muito curta pra perder a calma. Eu gosto que quando tudo é felicidade, tédio ou tristeza seus olhos não perdem o brilho de dor. Eu gosto que você não sabe como, mas queria, por pura bondade, ajudar a velhinha passando mal no avião.

Tem vinte segundos que eu deixei você no elevador do meu prédio, mas já gostei de você 487 vezes até fechar a porta de casa. Eu gosto que você é um caminhão de luz que me cega na frente de todo mundo. Você acelera e eu, com medo de ser esmagado, ando pra frente confiando apenas no tato. Mas eu gosto mais ainda que você se esconde na esquina entre meu terceiro olho e a minha sobrancelha e o seu mistério, de tão saudável, não me deixa com aquele medo errado que só dá vertigem e me faz tropeçar.

 

Aviso

Excepcionalmente, o colunista não escreve nesta quarta-feira (13).

Sexo casual com amigo é só sexo casual com amigo, entendeu?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Pegue a xícara na mesinha de centro e beba um gole de café. Agora imagine que você tem um amigo divertido e que fala sobre todos os assuntos do mundo. Um amigo agradável que topa seus convites de última hora e que nunca se importou com seus esquecimentos de datas especiais. Pegue um biscoitinho de aveia na tigela, ao lado do pires, e mastigue bem devagar. Agora imagine que, desde que vocês se conheceram, isso lá na adolescência, fase em que os dois eram bem feinhos, você jamais evitou passar um segundo sequer longe dele. Porque ele, até então, era o que mudava seus dias de tédio. Coloque a xícara e o que sobrou do biscoito, na mesinha de centro, e encoste na poltrona. Agora imagine que, de repente, apenas porque vocês passaram da conta na cerveja e porque, muito loucos, dançaram bem juntinhos uma música argentina no Chupito e todos pararam pra olhar e sua mão boba percorreu o corpo dele e a mão dele percorreu o seu corpo e a coisa começou a ficar quente, mais quente do que você um dia ousou imaginar, você resolveu passar o resto da noite dando uma transada com esse rapaz adorável.

Pronto. É isso que eu quero entender. Exatamente essa cara assustada que você fez pra mim agora. Esse “eitaaaa!!!!”. Esse gritinho. Essa risada depois do gritinho. Esse seu queixo caído. Esses olhos que não piscam. Me explique. Por que amigos não podem transar? Que vergonha é essa que se instaurou no seu comportamento daí em diante? Que ameaça gigantesca é essa que uma mensagem com um simples “oi” pode causar? Que preocupação é essa de “pelo amor de Deus, esqueça que eu gozo”, correspondente às grandes profundidades dos oceanos e lagos ou do que é formado a grandes profundidades na terra, que você não pode encarar isso com total naturalidade? Mas se você se diz tão desconstruído, mas se vocês falavam tão abertamente sobre sexo, mas se você leva mais da metade do mundo pra cama, o que há de errado em, desta vez, ser com o seu amigão querido? Que palhaçada.

O que vai acontecer se — meu Jesus Cristinho; nossa, que difícil; vixe, que terrível; ai, que gastrite maluca — você continuar amigo do rapazinho todo depilado que, apesar de ter sim um corpo nu agora com cada centímetro irremediavelmente reconhecível por baixo daquelas calças e casaquinhos da Zara, só gostaria de, às vezes, lembrá-lo que tirar a roupa, que se embolar num edredom, que acordar deitado no peito do outro, que toda essa intimidade recém-adquirida não tem muito a ver com compromisso, mas sim com o rompimento da fronteira entre o normal e o patológico, com a energia dos instintos sexuais, com a comemoração de um contrato de momento (que acaba ali em algumas horas e, por isso mesmo, deveria ser tratado com total despreocupação).

Celebrar o gozo descompromissado é brindar o “amor prematuro que não foi adiante” e é preciso ser muito sensível de intenções para se emocionar com o amor perfeito que morre antes de ser e maduro suficiente pra entender que “tudo bem, isso foi ali e acabou”. Onde, em pleno 2017, está escrito ou gravado em vídeo que o tal rapazinho vai querer trocar alianças, vai sonhar em ser pedido em namoro, vai pensar em viagens românticas e exigir conhecer parentes que você nem se importa muito? Onde está escrito ou gravado em vídeo que após a pulsão noturna entre duas pessoas existe a obrigatoriedade de alteração no estado civil?

Por que você gostava dele te contando, repetidas vezes, quase todas as noites, sobre sentir angústia na virada do ano, de dor de barriga no Natal, de peixe estragado na Páscoa, de sentir um negócio que ninguém explica quando ninguém sente (e, sobretudo, de não sentir algo que alguém sente quando todo mundo sente) e agora, só porque abriu o botão da calça e o viu por outro ângulo, tudo se transformou num nível “um pouco demais pra sua vidinha de homem com total controle de tudo”? Vocês já conversaram sobre tantos assuntos profundos e tantas sinceridades extremas e tantas maldades e concordaram arrogâncias. Falaram no ouvido um do outro, dez segundos antes do beijo, dançando muito loucos a música argentina no Chupito, que estavam sentindo vertigem, mas que não poderiam parar. E agora vai correr desse rapazinho companheiro de vertigem?

Nem todo rapazinho que dorme com um homem bonito como você está em busca de um amor salvador. Nem todo rapazinho que tira você das suas expectativas organizadas está te esperando com uma corda no pescoço em um precipício. Eu tenho dezesseis médicos no Hospital Português que, toda vez que eu me desespero, seguram a minha cintura, mandam eu respirar e explicam que “ninguém morre de colite”. E me sinto maravilhosamente bem com esses dezesseis homens que me consolam em poucas horas. Médicos são amores passageiros, assim como você foi. Não sou um homem em busca de um amor pavimentado ou de alguém que me liberte de carências afetivas. Talvez um dia eu tenha sido, mas hoje não mais, e você sabe disso.

Do “amor prematuro que não foi adiante”, eu só queria a quebra do sigilo cósmico de saber que, em algum lugar do universo, embora a nossa amizade afinada acabasse, nos mantemos afinadíssimos com nossa amizade secreta e inabalável em algum lugar da atmosfera. O desejo sem imposição, a dedicação sem apego, a intensidade do suor dos corpos sem culpa, sem ressaca. É isso e nada mais. Dividir um yakisoba de camarão, falar mal das pessoas da faculdade e do trabalho, rir das histórias de família, talvez mais alguma coisa que surja de forma tão espontânea como sempre foi.

A cena da reviravolta

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz 

Ele foi me buscar em casa contra a vontade. Reclamando. Fazendo birra. Xingando. Andando angustiado pra lá e pra cá por todos os cômodos da minha casa. Eu dei risada. Achei engraçado. “Às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais”. Tava tocando isso no rádio. E eu dançando. E eu cantando debaixo do chuveiro. E eu nem aí. No elevador, ele sempre reclama. Ele detesta a demora do elevador do meu prédio. E desiste. E sempre fala: “caralho, puta merda. Essa porra desse elevador velho e fodido”. E não aguenta ter que esperar e desce as escadas xingando mais que isso. E me espera lá embaixo, agoniado. E eu nem aí. Ele já não me aflige mais.

No carro dele, no banco de trás, um casaquinho azul piscina tamanho P. De algum garoto magrinho, que certamente não sou eu, que certamente ele tá pegando. Deve ser da noite anterior. Ou de anteontem. Ou da semana passada. Mais um menino. Isso não vai mudar nem daqui a cem anos. Ele é cheio de garotos e, pela primeira vez nestes anos todos que o conheço, eu dei risada ao pensar nisso. Como que ele não faria sucesso entre os meninos? Bonito, inteligente, formado, com um bom papo, com uma boa família, com um bom emprego e com safadeza nos olhos. Que garoto não morre loucamente apaixonado por ele? Eu. Eu não morro mais de paixão por ele.

O que me faz viver sem achar que eu posso enlouquecer no próximo minuto. O que possibilita um relacionamento de verdade, com os pés no chão, sem aquela idealização bonita e babaca. O que deixa claro que, agora, posso falar tranquilamente dos meus medos e andar ao lado dele sem odiar a minha roupa e enfim esbravejar meu mau-humor, minha acidez, minha loucura. E posso falar com ele ao telefone uma vez por dia sem achar que a última vez que nos falamos foi há um ano. E posso sair com ele uma vez na semana, sem achar que uma vez na semana é uma década. E posso deixar ele ir embora, sem ficar com o coração apertado, sem voltar pro quarto e dormir pra não ter que pensar que ele realmente foi embora. Consigo até sorrir de verdade quando ele dá as costas, do portão. Consigo até dar um tchauzinho firme. Vai, querido, vai. Vou subir e comer meu pedaço de torta. Vai, querido, vai. Mais um ser que eu conheço neste planeta imenso.

Peço pra ele parar na Feira do Japão, na Liberdade, pra poder comprar caixotes. Quero fazer uma estante pra colocar meus novos livros. Explico que tá na moda e desço do carro. Ele também desce do carro e briga comigo. “Isso aqui é uma confusão de gente, Murilo”. “Por que você não compra uma estante barata?”. “Como que você vai fazer uma estante de caixote?”. “Olha, você inventa viu, Murilo?”. “Mau gosto da porra”. E diz que eu gosto de ir arrumadinho nessas feiras pra chamar atenção, pra que todo mundo perceba que eu não sou dali. E diz que eu amo ser educado com gente simples pra poder conseguir promoção. Que eu chego falando português complicado de propósito só pra me fazer de culto.

Eu não faço nada disso, mas eu é que não vou ficar me explicando pra ele ou brigar porque ele me julgou errado. Eu dei risada. Se eu estivesse apaixonado por ele, eu encostaria num canto qualquer daquela feira e começaria a chorar, a pedir desculpas, a me avaliar. Como assim eu vou arrumadinho pra poder chamar atenção? Como assim eu complico português pra me fazer de culto? Eu ia ficar com isso na cabeça pra sempre. Ia voltar pra minha psicóloga pra tentar entender. Ia passar mais tempo na feira, como um curso intensivo, pra tentar ser mais humilde. Mas apenas achei engraçado e comprei uma água de coco. Se eu estivesse apaixonado por ele, eu beberia essa água de coco e depois sairia correndo atrás de um banheiro pra vomitar, ainda remoendo tudo o que ele me falou. Mas como não tô nem aí pra ele, bebo duas águas de coco.

Depois fomos à mostra de esculturas do amigo dele, no Rio Vermelho. Eu tive nojo de usar aquelas luvinhas amarelas não descartáveis pra poder percorrer as mãos nas obras. Porque eu sei que o mundo todo usou aquelas luvinhas amarelas não descartáveis. E ele me olhando com cara de tédio. “Ai, Murilo, francamente, como você é fresco”. E eu aceitei ser fresco pra ele e não usei a porra da luvinha amarela não descartável e pronto. E deixei ele lá me julgando. E dei as costas. E deixei ele sozinho. Se eu tivesse apaixonado por ele, ia usar aquela luva querendo morrer de agonia. Ou ia explicar algo louco pra ele não entender. Ou ia inventar um telefonema e sumir dali. Ou ser sincero e ter que explicar quem eu sou. E pedir desculpas por eu ser assim, fresco. Mas eu achei engraçado. Ele me dizer que sou fresco e eu beber um suco light de cacau tem o mesmo efeito sobre mim. Nenhum.

No final da tarde fomos até a casa de uns amigos dele, na Pituba. E eu lá, no meio de todos eles, pela primeira vez nestes anos todos, gostando dos amigos dele. E ouvindo e rindo e dando conselhos e contando umas histórias minhas e sendo engraçado. Ficando amigo de alguns dos garotos que possivelmente ele já levou pra cama. A galera da maconha que vai em bando pro “reggae massa que vai ter sábado, mas antes tem que passar na praia pra pegar uma onda”. E ele me olhando lá no canto, de longe, pensando. Ah, Murilo, se você tivesse agido assim antes. Se você se comportasse desse jeito. Assim tão normal, tão leve, tão da galera, tão gente boa, tão simpático, tão engraçado, tão como todo mundo é. Ao invés de ter levado tudo muito a sério, sabe? Ao invés daqueles surtos de insegurança, daquela cara emburrada por bobagem, daquela cobrança pra o amor ser mais forte, mais intenso, mais sincero. Ao invés daquela necessidade de acordar de madrugada pra saber se era amor, daquela arrogância por ter opinião formada sobre aborto, drogas, relacionamentos e solidão. Se você, Murilo, tivesse se confiado. E deixasse acontecer sem pressa, sem sede. Se você, Murilo, tivesse se apaixonado sem essa paixão louca. Ou me amasse como todo mundo ama por aí, assim, como se fosse um pedaço de concreto, sem sentir à flor da pele, a gente daria certo. E eu lá rindo absurdamente com os amigos dele. E eu lá, vendo os olhos dele apaixonados por mim, justamente porque eu não sou mais apaixonado. A cena da reviravolta que a vida dá é sempre mais prazerosa.

Quando ele me deixa em casa, lá pras onze e tanta da noite, a frase que eu não esperava é dita. “Quer sair comigo sexta?”. Eu sabia, eu sabia. Todo garoto feliz consigo mesmo, que não tem medo de ser quem é, que não se importa em mostrar frescura, deixa saudade. Mas eu não quero sair com ele sexta-feira. Não mais. Eu quero continuar sendo esse garoto que tem muito de tristeza e de drama e só faz o que tem que se fazer se for movido pela paixão. Eu vou deixar ele com saudade. E ser mais um desses meninos que ele ficou por ficar. E desta vez fazer ele se arrepender. Tem coisas na vida que não voltam mais. A cena da reviravolta que a vida dá é sempre mais prazerosa.

Talvez eu vá

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

As pessoas seguram uma risada como se me achassem louco, querendo me entender com um olhar quase de pena. Mas se vocês combinaram que não iria passar disso, mas se ele nem mora em Salvador, mas se não tem como, mas se ele não ficou mais do que duas semanas com você, mas se faz quase um mês que ele já foi, sem nunca chegar a ter sido muita coisa, então. Então o quê? Nem eu sei. Só sei dessa dor de cabeça infeliz que já dura quase um mês. Dos meus olhos pesados. Da minha nuca tensa. Do choro entalado na garganta. Do meu coração que quer sair pela boca. Dessa vozinha mimada gritando que sente falta e pronto.  

Eu sinto falta de me encontrar com você, no horário do almoço do jornal, e ouvir você me dizendo que é pra eu ficar tranquilo porque vai dar tudo certo. E de achar graça da vida, num sorriso quilométrico, mesmo estando numa fila gigantesca pra pagar uma conta na Lotérica, embaixo daqueles 97 graus de Salvador. Não há muita explicação nem profundidade nas palavras: o amor faz a gente ser feliz mesmo numa merda de fila. 

Eu sinto falta de você interfonando pra minha casa desesperado. Você reclamando que eu demoro muito pra me arrumar e que desse jeito a gente não vai encontrar nenhum cinema aberto na cidade. E de você me explicando que embora seus olhos pareçam ser azuis, na verdade são verdes. Eu insistia em chamar de azul e você brigava comigo.

Eu sinto falta de querer fazer amigos em qualquer festa só pra conhecer gente louca e te contar depois. E fazer você rir com as minhas descrições de roupas e jeitos e comportamentos e diálogos e histórias. Agora eu fico pelos cantos das festas, estranho, calado, voltei a achar todo mundo feio e chato e sem assunto. Porque, no fundo, eu acho que gostava mais das pessoas só porque te via em tudo. Agora as pessoas voltaram a me deixar de mau-humor. E eu voltei a me arrastar, a ter que fazer muita força pra sair de casa.
 
Sexta, por exemplo, teve aniversário de Bia. Tive a ideia de comemorar, organizar a festa, convidar todos os nossos amigos. Eu pensei no bolo, no recheio, na cobertura. Eu pensei nas cores das bolas, nas músicas. Ajudei a decorar a casa inteira, a pintar os cartazes. Produzi tudo. Mas na hora da festa, todo mundo no apartamento, todo mundo agoniado pra apagar as velas, eu não fui. E fiquei em casa, cheio de angústias, sozinho. 
 
Sábado, por exemplo, uma amiga me mandou um flyer de uma festa no Lalá. Mas ficar até tarde numa festa cheia de gente que fala pausadamente tentando medir palavras pra poder agradar? Aquele povo do Lalá tudo igual e que nunca tem problemas? Mas o Lalá não era aquele lugar que você adorava, Murilo? Não é aquele lugar que você ia todo sábado? Combinei com ela às sete. Não fui. Passei a noite inteira mudando o canal da TV, procurando o que nem eu sabia.
  
Terça, por exemplo, um amigo quer comemorar a formatura no Outback do Barra, o lugar que você adorava comer coxinhas assadas de frango. Talvez eu vá. Mas cadê você? Quando vai dando assim essa hora, tipo umas cinco e meia da tarde, o horário que a gente se ligava ou mandava mensagem só pra saber como foi hoje e como vai ser amanhã, só pra saber que dá pra terminar o dia sentindo algum conforto. Quando vai dando esse horário, olha, eu nem sei. É tão triste abraçar algo pra fugir do mundo e, do nada, precisar principalmente desabraçar pra fugir desse algo. E daí, vai pra onde? 

Sexta à tarde fui muito feliz

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Mandar o texto da revista pra minha editora, por e-mail, até duas horas. Mas, antes disso, pegar umas duas aspas com a psicóloga pra fechar o último parágrafo da matéria de comportamento que vai sair na próxima edição. Antes de mandar o texto e antes de ligar pra pegar as aspas com a psicóloga, preciso responder uns e-mails atrasados de outra matéria, inclusive o de um cara que trabalha na assessoria de um cara que é assistente da menina que me liga de meia em meia hora e que eu não sei se o nome dela é com W ou com V. Wanessa? Vanessa? Sacanagem escrever nome errado.

Procuro os e-mails atrasados ao mesmo tempo que ligo do telefone fixo para a psicóloga ao mesmo tempo que cancelo a ligação no meu celular ao mesmo tempo que abaixo o som da caixinha ao mesmo tempo que tento não deixar a porta do armário bater ao mesmo tempo que aviso pro cara da NET que eu não quero fazer um combo de TV e internet. Desço as escadas da Redação desesperadamente em busca de café. Na volta, abro o Word e reviso o texto. Enquanto não encontro um sinônimo melhor para a palavra “fechar”, escrevo bem grande na agenda que segunda que vem tem DENTISTA. O computador trava, a menina da arte, irritada, me avisa que o texto da matéria de moda estourou a página, minha editora quer saber se a matéria de economia já tá pronta.

De repente. De repente. Você me manda uma foto sua, de ponta-cabeça no chão da minha casa, fazendo careta, tentando equilibrar uma maçã em cada pé. Dou risada alta e minha editora me olha torto sem entender nada. A Redação em fechamento e eu com tempo pra ser feliz? Entrego a matéria e vou embora da Revista.

Mandar o roteiro dos monólogos pra diretora de teatro, por email, até as quatro. Pego um Uber, abro o notebook, revejo os monólogos. Ainda não é nada disso que eu quero pro roteiro, vou ter que reescrever. Chego em casa e tenho outro texto pra terminar. Tem que ser às pressas. É uma crítica de TV que escrevo semanalmente pro iBahia. Se demorar muito, o assunto fica velho. Bebo mais um iogurte e como mais um pedaço de bolo por pura ansiedade. De novo toca o telefone e é minha mãe querendo saber se eu já almocei. O zelador quer saber, pelo interfone, se tem lixo no apartamento. A diretora do teatro quer saber cadê os monólogos. Negocio o prazo. Me ligam da Revista querendo que eu faça um guia, de última hora, pra seção de turismo. Mas cadê os outros repórteres? Só eu escrevo nessa porra? E o texto pro guia, que tamanho é? Ouço a voz da menina da arte no fundo da ligação, irritada, pedindo pra que me falem pra eu não estourar a página com tanto texto. Relaxa, gata, capaz de nem ter texto.

De repente. De repente. Eu sentado no sofá. Você deitado no tapete, colocando o resto que sobra da sua cabeça na pontinha do meu pé. Uma mecha do seu cabelo caído no tapete enquanto você se diverte com um joguinho idiota no iPad. Esses dias eu tô corrido. Mas tô ficando há três meses e vinte e oito dias com você, um menino de vinte e nove anos que não larga o joguinho idiota do iPad. Depois, do nada. Do nada. Eu deitado no sofá. Finjo que estou dormindo. E você passa as pontas dos dedos nos meus pés pra que eu sinta cócegas. E eu olho rápido pra flagrar você, mas você faz de conta que está roncando no tapete, abraçado com o meu cachorro. No mesmo segundo, a gente dá a mão. E dá a outra. E daria uma terceira se fosse possível. E você beija a minha nuca e fala com a voz mais doce do mundo que não queria ter que ir embora. E eu te imploro, com a voz mais doce do mundo, pra você desistir de tudo e ficar só mais uma semana. Daí fingimos que é sono. E dá vontade de rir porque nem era a hora e nem era pra isso.

Metade dos textos dos monólogos reescritos e não tem como renegociar. Entregar os textos do guia em meia hora é quase impossível. Falta mais da metade da crítica e eu tenho que entregar hoje. Minha garganta dói muito. Tá quente, mas é inverno, mas tá abafado. Minha mãe me liga de novo. Dessa vez ela quer saber se eu tô me virando bem nesses dias que ela está viajando. Alguém me manda uma mensagem pra beber uma cerveja porque hoje é sexta. Estão me ligando e eu não sei quem é. Preciso reler as coisas e fazer mais e mais e mais. Preciso pagar milhares de contas. Preciso entender por que a máquina de lavar não liga. Preciso pensar em pautas legais pra entregar amanhã pra minha editora da Yacht. Amanhã tem a festa de Felipe. Marcella tá indo embora pra Minas domingo e eu nem liguei. Preciso inventar novas cenas pros monólogos, pensar em um lugar que eu possa almoçar barato nas próximas semanas, ler quarenta e nove páginas da xerox pra aula de segunda, trocar de celular, tomo Rivotril ou Ritalina? Preciso pagar cinco mil reais pra minha mãe. Oi? Não tenho nem os 100 reais pra moça da faxina.

De repente. De repente. Você me conta que não tem dó de matar os insetos que os livros de biologia não explicam o que são e nem pra que servem. Esses insetos que querem entrar no nosso nariz sem nenhum medo de morrer. Aí depois, do nada. Do nada. Você coça os olhos muito forte e levanta pra arrumar as coisas e ir embora. E desiste. E diz que tem muito medo de coisas como essa que tá acontecendo entre a gente. Dessa coisa de gostar além do sexo. E eu penso que, no fundo, nem tão fundo assim, tenho medo também, demais.

Aí depois, do nada. Do nada. Você dispara flashes da câmera do celular. E eu falo que eu odeio quando você tira foto minha sem avisar. E lá vou eu, sem disfarçar, rir da sua careta e ficar besta com os nossos sorrisos perfeitos em cada foto mal tirada, sem foco, fotos que juntando mil não valem uma. E quando vou ver, já estou embolando na cama com você. Já estou te amando bem mais do que deveria, bem mais do que a vida me permite. Desisti desse dia corrido. Nunca fui tão feliz como hoje. Você me dá uma ansiedade boa, um frio na barriga desses que eu não sentia mais. Então preciso aproveitar.

Se até o próximo Carnaval você ainda gostar de mim, eu juro gostar também de você.

Antes de ir

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff 

Meu voo pra São Paulo sai às quatorze horas. Mas eu não consigo parar de regar as plantinhas da varanda de casa. Tenho aprendido muito com o jardim, me apegado muito às plantas e flores que nascem timidamente e crescem mais e mais e mais o tempo todo. Gente me diz que preciso investigar esse apego. Gente me diz que eu me vejo como uma dessas plantinhas que nascem timidamente e crescem mais e mais e mais o tempo inteiro. Gente me diz que isso tudo é ansiedade, controle e medo de ir. Aí fico postergando, aí me sinto menos solitário, as pessoas dizem.

Tenho que me arrumar às pressas porque meu voo pra São Paulo sai daqui a duas horas. Tenho que almoçar, ligar pra minha mãe, desmarcar gastroenterologista, chamar um táxi, mas eu não consigo parar de regar os girassóis que ficam mais perto da janela. Mas se os girassóis estão encharcados, mas se os girassóis gostam de sol, por que eu continuo regando? A água na terra já transborda o vaso. Vejo uma das raízes encolhidas. O girassol mais sensível da varanda me olha timidamente, assustado, e implora: “eu não aguento mais”.

Mas e o asfalto seco e as paredes secas e o céu sem nuvens e esse sol que quase faz rachar o vidro da janela? “O mundo está seco”, me defendo pros girassóis. Em algum lugar da minha mente inquieta, sei que esse exagero vai acabar com a vida da plantinha, mas estou obcecado pela ideia obsessiva de que, se eu sair de casa sem encharcá-las, quando eu voltar vou encontrá-las secas, mortas. Tenho medo de dobrar a esquina de casa e deixá-las aqui. Então, por precaução, fico ali com o regador. Regando, regando, regando, regando, regando.

Preciso estar no aeroporto daqui a uma hora pra fazer o check-in, mas eu não consigo tirar as mãos do queixo enquanto olho, sem piscar, o guarda-roupa aberto. A mala entupida no chão. Tento me dizer que todas as coisas que guardei na mala gigante e na bagagem gigante de mão são suficientes pra ir a São Paulo. Mas continuo ali, sem tirar as mãos do queixo, olhando tudo ao meu redor.

Mas se o zíper da mala já não fecha, por que eu continuo olhando o armário indiscretamente? Na minha cabeça neurótica e alarmista, um sinal vermelho me avisa que falta alguma coisa nessa bagagem, que há alguma coisa errada nessa bagagem. Então, por precaução, fico ali olhando, olhando, olhando, olhando, olhando.

Preciso ir pra sala de embarque daqui a cinco minutos, mas eu não consigo soltar a mão do meu namorado. Antes de ir, confirmo os números dos nossos celulares, confirmo se os nossos números estão salvos, confirmo de novo se os números são aqueles mesmo. Não sei se são manias, crises de pânico, fobias ou angústias extremas. Ele ri e me olha com cara de “como assim, Murilo? A gente se fala toda hora”. E me diz um “vai com Deus” que não me acalma em nada.

Aeroporto é um lugar horrível, muito parecido com UTI (nunca fiquei em UTI, nem sequer visitei alguém numa UTI, mas sei que é parecido) porque soma as cinco coisas mais horríveis do universo: despedida, fila, gente desconhecida ao redor, linguagem não-verbal em placas que te forçam a seguir em frente e esperança. Então fico ali segurando a mão dele, ignorando o tempo, ignorando o voo que já vai decolar.

Mas se a gente passou a semana inteira se despedindo, mas se até hoje cedo eu estava tão tranquilo, mas se tá tudo tão bem, mas se eu quis tanto viajar, mas se São Paulo me faz feliz, mas se ele vai se encontrar comigo daqui a dois dias, por que eu continuo segurando a mão dele com tanta força? O suor desliza as mãos, a quentura incomoda os dedos, o aperto quase quebra os ossinhos, as pessoas correm desesperadas, a moça da Gol se prepara pra fechar a porta, a sala de embarque me avisa que o mundo inteiro foi embora. Em algum lugar da minha cabeça neurótica, uma certeza de que talvez eu nunca mais o veja. É medo de ir seja aonde for. De nunca mais voltar. Da pressão cair e não ter em quem segurar. Então, por precaução, fico ali segurando a mão dele. Segurando, segurando, segurando, segurando, segurando.

Assédio literário

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Os meus amigos mais próximos me diziam: “Murilo, cê toma cuidado com esse cara”. Mas ele é um assassino, um psicopata, um serial killer? “Não. Ele é especialista em golpe baixo”. Mas o quê? “É. Ele é um safado. Ele conquista quem ele quer, enlouquece quem ele quer e você, uma hora, acaba cedendo. Não tem como fugir”. Mas assim são as pessoas, amigo. Não são? “Mas ele é mais. Ele é mais. Tô te falando”. Sério? “Sério. Um canalha!”. Tudo bem, tudo bem. Eu jamais iria pra cama com um homem desse tipo.

Ele marcou um jantar na casa dele e eu fui. Era a minha chance de mostrar pra ele que não, comigo não. Era a minha chance de acabar com essa palhaçada toda. Passei um creme caríssimo no corpo inteiro. Perfume na nuca e em partes estratégicas da roupa. Fui com uma camisa mais aberta e uma calça mais justa. Dei três mordidinhas nos meus lábios pra deixá-los mais vermelhos e, depois, molhei a boca com um batonzinho de manteiga de cacau pra causar o efeito “tô a perigo”. Um volume no cabelo com secador pra equilibrar. Quando ele der o primeiro sinal que quer sexo, eu caio fora.

Óbvio que ele queria sexo. Safado. Nenhum homem marca jantar em casa, às 22h, com outro cara que ele já sai há um mês e duas semanas só pra conversar. Não foi café na Livraria Cultura às cinco da tarde ou almoço na casa de um amigo de infância. Não foi um chá desses que a turma cult bebe no Cinema do Museu pra falar sobre projetos de arte. Foi um jantar, às 22h, na casa dele, com luz de vela e Johnny Hooker e Chico Buarque e vinho, com um cara que ele já sai há um mês e duas semanas.

Foi horrível. Ele dançou comigo juntinho, lá pra quase meia-noite, naquele momento em que todo rapaz reservado com a visão turva e a bexiga cheia de vinho espera ouvir “essa calça está me apertando, não quer tirar lá dentro do quarto?” e disse: “Seu livro, Murilo. Nossa, seu livro. Li em uma noite, reli em outra noite. Seu livro”. Mas o quê??????????? “É, seu livro. Meu Deus”.

Ele falou sobre Foucalt, Barthes, Boudelaire, realidade virtual e pós-verdade, mas eu foquei nos dois dedos do zíper aberto da calça dele. Depois, ele cruzou as pernas e o ar de homem feito e intelectual cordial pouco me importou. Eu queria mesmo era terminar de abrir aquele zíper, falar pra ele calar a boca e desligar a luz, porque eu queria sacanagem das boas. Mas ele, sério, me falou que o circuito contemporâneo do literário cada vez mais abre espaço pra youtuber, blogueiro, porque precisa vender livros. Ah, é? E eu preciso abrir todos os botões desta sua camisa e sair quebrando tudo até a gente se encaixar.

Quando ele colocou as mãos na minha coxa, e eu pensei que ele, finalmente, fosse mostrar o cara escroto e safado que ele é, ele me disse: “Meu pai é um pernambucano extraordinário que era pobre e foi pra São Paulo e virou empresário. Parece clichê, né? Mas eu adoraria que alguém escrevesse a história dele”. Achei de uma grosseria sem tamanho, pensei em levantar da poltrona e gritar que não estava lá pra isso, quem ele pensa que é? O que ele acha que eu sou? Mas naquele segundo, imobilizado pela vergonha, embriagado pela narrativa nordestina, só consegui me sentir fragilizado e com medo daquele golpe baixo feito por um homem gato e conquistador. Eu abandonei os ansiolíticos que me deixavam sem libido. Eu esperei o convite pra esse jantar por um mês e duas semanas. É muito cansativo ter que provar o tempo todo que sou um rapaz de vinte e seis anos com apetite sexual de adolescente quando os homens só conseguem ver crônicas e livros e colunas e autoficção e editoras e lançamentos. Olha essa camisa mostrando o sinalzinho do meu peito, querido. Eu vim sem cueca, você sabia? “Espera, vamos pensar como será o prefácio”. Sabia que eu sei fazer coisas incríveis com a boca? “Você acha que fica pronto até dezembro?” A boca? “Não, o livro”.

Estou farto. Bem que me avisaram pra eu tomar cuidado. Que ele enlouquece e não tem como fugir. Quase duas da manhã, né? Tentei chegar mais perto. A gente até se olha por uns minutos. A gente até roça um pouquinho a perna um no outro, a gente encosta a mão uma na outra. E entrelaça. E sente a quentura. E aperta um pouco sem machucar. E a gente se beija. Mas logo o macho branco opressor me deixou de lado: “só você, Murilo, pode escrever a história desse pernambucano pobre e determinado que foi ao Sudeste sem ter o que comer e deu uma reviravolta na vida”.

Deixa eu te contar a história de um rapaz soteropolitano e com a libido em alta que, depois de terminar um relatório imenso e passar por três intermináveis reuniões, correu pra Pelo Zero pra fazer uma depilação a laser e voltou pra casa às pressas e tomou um banho maravilhoso e caríssimo de óleo de rosa mosqueta. Todo esse esforço pra gente passar a noite sem nenhuma putaria, discutindo a saga de mais um nordestino que se dá bem na vida? Tentei mostrar que estava excitado. Mordi o lábio dele, fui limpar os cantos da boca dele com um guardanapo e olhei mais safado do que já olhei a minha vida inteira pra qualquer homem. Mas não teve jeito. Logo ele voltou a falar de livros e escritores e músicos e músicos que escrevem livros e do pai pernambucano. Ele não tá nem aí pra mim. Ele quer mesmo é falar sobre literatura. Ele não tá interessado na minha depilação, no meu óleo de rosa mosqueta. Ele tá mesmo é interessado nos meus textos. Olha que desgraça. O homem bonito, alto, inteligente, cheiroso e gente boa está interessado nos meus textos. “Ah, como você escreve bem”. Ah, se você soubesse o que eu faço bem. E ele riu. Todos eles sempre riem. E ele falou que eu era engraçado. Todos eles dizem isso. E usou o argumento que, infelizmente, mesmo sendo tão agressivo, nunca consegui negar a um homem safado: escreve esse livro, escreve bem gostoso, eu costumo pagar bem.

Hoje não tem texto

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Peço perdão ao leitor que acompanha este espaço semanalmente, mas hoje não publicarei crônica nem crônica meio conto, como queiram chamar. Tentei falar com André Uzêda, mas não consegui. Não sei o que exatamente um editor faria numa situação dessas. Talvez ele avisasse a vocês, leitores, algo como “hoje, excepcionalmente, o colunista surtou”.

Eu poderia argumentar que voltei a ter crises de ansiedade terríveis que impedem, entre outras mil coisas, cumprir prazos. E seria verdade. Eu poderia argumentar que enjoei do barulhinho dos meus dedos saltitando no teclado, do meu cisto sinovial que cresce no meu punho esquerdo, da minha crise alérgica que me faz espirrar sem parar no auge da inspiração – o que faz debandar pra não inspiração -, do quanto eu acordo exausto por sonhar com trechos dos meus textos e por falar frases dos meus textos enquanto durmo.

Mas o motivo real é que são oito e quarenta e seis da manhã de quarta-feira. Sentei aqui na escrivaninha de casa pra escrever o texto da coluna de hoje, mas eu não consegui escrever nada, juro que tentei escrever, mas não saiu nada e. Eu não sei o que dizer e. Não tenho nada pra falar. Ou quase nada. Ou talvez essas coisas que eu diga só interessam a mim, não ao leitor. Então, hoje, vocês precisam exercitar a tolerância e a compreensão comigo. Hoje tem melancolia, prantos e descontentamentos.

Vejam só que loucura: resolvi mexer com matemática e concluí que há sete meses escrevo aqui, uma vez por semana. São pelo menos 32 semanas, pelo menos 32 crônicas ou crônicas meio conto, como queiram chamar. É assustador. Virei uma máquina literária. Um escritor mercadológico que escreve, escreve, escreve e escreve o tempo inteiro. Sofro de ansiedade quando escrevo e sofro mais ainda quando publico. Sofro porque me exponho. Sofro porque eu não exponho o que tenho de normal, tenho pavor de ser normal. Essa intimidade que a gente pode ter com o público, de falar sobre nossa vida, eu gosto. Mas isso me dá uma canseira danada.

Acho que esse é o problema: ando cansado. Cansado porque a vida te bate, te afunda no poço, te obriga a escalar e sair desse poço. E você recomeça. E você acredita. E você não sabe onde isso vai dar. E o pior é que a vida te bate de novo e você se afunda de novo e você escala pra sair do poço de novo e recomeça e acredita de novo. Esse círculo se repete e cansa. Agora imagina eternizar isso num texto?!

Escrevo geralmente dia de sexta ou aos sábados ou quando vou a algum boteco sozinho, quando canso de ficar em casa. Bebo duas ou três cervejas e entupo o bloco de notas com parágrafos. Mas desde quarta-feira começo a sofrer pelos cantos. Nos últimos meses tem sido mais grave. Pra ser mais sincero, nas últimas semanas. Porque ando muito – digamos – com preguiça do mundo. Eu olho daquele jeito blasé, daquele jeito que só dá vontade de olhar pra ele e ficar calado. Mas sou ácido, crítico, maldoso, e se guardo pra mim o que vejo, tenho medo de criar um câncer. Então vou pra alguns lugares, fico escondido escrevendo. É o meu trabalho. Uns bares, umas noites.

Escrevo rápido demais, por impulso, escrita vomitada – me adaptei ao meu tempo e ao meu ofício de jornalista, com editor gritando em jornal pra entregar matéria. Mas, às vezes, escrevo lento demais, quase parando. Preciso criar, ter cuidado pra não me repetir, reler, reescrever. Às vezes sai umas duas ou quatro laudas de word, mas o que interessa é a frase do meio, a frase final, então apago tudo e volto pro quase zero. Mas isso complica, porque preciso mandar tudo pros meus ilustradores, Igor Queiroz ou Lucas Leopoldino (depende da semana).

Uma sexta-feira inteira não é suficiente. Ultrapasso sábados, domingos, terças. Há sete meses tenho ultrapassado fins de semanas e me enfiado em textos – justamente o fim de semana em que todo mundo sai pra desestressar, namorar, fazer festinha na casa de amigo, conhecer lugares e pessoas. Os outros fazem, não eu. Eu me tranco em casa, com a coluna doendo por ficar repetidas horas todo torto na cadeira da escrivaninha. O mais ridículo é que, para escrever, é preciso sair, desestressar, namorar, fazer festinha na casa de amigo, conhecer lugares e pessoas. Eu não tiro esses textos do nada. Os textos surgem a partir de coisas que vivo ou que vejo alguém fazendo. Como um fotógrafo de palavras.

Há 32 semanas vivo muito pouco, pra dentro, fechado. Porque além dessa coluna, estudo literatura na Ufba, que exige mais do que tudo; escrevo os roteiros do programa de Olívia Libório pra Rádio Transamérica; escrevo reportagens pra Uol; dou aula em cursinho e escola; produzo meus livros e outros projetos. Cansa.

Esse acúmulo de trabalho e falta de tempo se reflete, também, na bagunça da bolsa e do quarto. E da escrivaninha. Post-it colado em todos os cantos: “ligar para a assessora”, “Estreia de Lucas Nascimento como cantor no Casarão Barabadá”, “Terminar a pesquisa”; pilhas de livros que nunca termino de ler (um Mia Couto aqui, uma Ana C. ali); se olhar para o lado, há também revistas e colunas de amigos pra ler e textos teóricos que nunca acabam de sair da impressora. Eu tenho que resolver problemas com o FGTS e terminar o relatório da pesquisa e submeter trabalhos em congressos e apresentar esses trabalhos e estudar para provas imensas e participar de reuniões imensas e preparar aulas e ter ideias de textos e… Deus do céu, a minha vida implorando pela fuga do vácuo. Os bares cheios, os amigos convidando. Mas se eu terminar a coluna, eu vou. Daí os amigos reclamam: você não responde mais mensagem, não aparece, não sai mais, não marca nada. Tem gente que pede pra sair comigo, tem gente que está interessada em mim, mas logo desiste porque “puta que pariu, ninguém entende essa sua vida doida de tanto trabalho”. Tem gente que quer que eu durma na casa, tem gente que me implora: “pelo menos fique dez minutos no meu aniversário”. E eu digo “sim” pra todo mundo. E, às vezes, eu não vou. Esqueço, me perco no meio dos post-its. Cobram, cobram, reclamam, reclamam.

Depois de ouvir tanta melancolia, tantos prantos e descontentamentos, vocês me perguntam: tá, e daí? Daí que ando extremamente cansado, meio triste, mas triste por causa do cansaço ou de outra coisa que eu não sei o que é. Deixei o espaço da coluna de hoje pra me deixar outra vez mais transparente, pra me permitir, pra escrever sobre esse cansaço múltiplo, sobre minha falta de tempo, sobre a falta de ordem que se instaurou em minha vida porque eu permiti. Por trás de todo esse discurso, um alerta: o perigo que corro, todo dia, comigo mesmo. Escrevo para sobreviver, mas acabo morrendo pra me manter vivo. Hoje, ao menos, não teve texto. Dei um foda-se. Talvez, esta semana, seja o momento de viver sem ser aquele rapaz que precisa escrever sobre tudo que vive.

Homem babaca gosta de sacanear em bando

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Estou numa mesa do Salvador Dalí com meu namorado e uma amiga diretora de teatro. Almoço importante pra argumentar o roteiro de uma peça que estou escrevendo. Quero pedir um suflê de queijo, mas o diabo é que queijo tem me dado enjoo. Quero pedir um camarão ao molho de limão, mas o diabo é que limão tem me dado gases e refluxo. Reviro o cardápio doze vezes e nada. Hoje nada nesse restaurante me agrada.

Penso em voz alta, ao que parece, porque, ao fim do meu pensamento, todos estão sem graça na mesa e o garçom me olha feio, sorrindo com simpatia forçada. “Tenho certeza que o senhor vai gostar do arroz de polvo com trindade de filés”. Eu é que não sou louco de não aceitar. Eu é que não sou louco de bancar o antipático e despertar ódio em garçom.

A menos de um metro de distância da minha mesa, cinco ou seis marmanjos, com seus vinte e três a vinte e seis anos, falam alto e dão risada alta e bagunçam o cabelo um do outro e se xingam e contam umas piadinhas particulares e falam histórias picotadas que ninguém entende e ninguém tem interesse em entender. Todos aparentam ser felizes, descontraídos, sem problemas, com o mesmo tênis de skatista e camisetas da mesma marca. São soltinhos, sem culpas nem traumas. Umas gracinhas.

O barbudo de camisa listrada, o que está ao lado do surfista, me olha intensamente a ponto de me deixar sem graça. E comenta alguma coisa no ouvido do de camisa amarelinha. E me olha novamente. Não consigo conversar com meu namorado e minha amiga. Mas se eu não estudei com esse menino, mas se eu nunca fiquei com esse menino, mas se eu nunca vi esse menino na minha vida, por que esse menino me olha desse jeito intenso? Isso tudo é coisa da minha cabeça. Minha cabeça, sempre muito rápida e esperta, ironiza: mas existe alguma coisa do mundo que não seja coisa da sua cabeça, Murilo? Chega. Dou bronca em silêncio pra mim mesmo. Chega.

Ele tá a fim de mim, é isso? Não. Amizade instantânea algum dia em mesa de bar? Não. Amigo de amigo que viajou comigo há dez anos pra um acampamento com quinze adolescentes e um banheiro? Não. Sorrio pra ele na esperança infantil dele sorrir em retribuição e tudo ficar bem. Se ele sorrir, amigável, pronto, acaba, minha mente neurótica descansa feliz. Se ele sorrir, jocoso, deve ser amigo de algum ex-namorado meu que falou mal de mim. Ele não sorri, ele apenas me encara. Puta merda. E me encara forte, sem desviar os olhos, profundamente. Eu sorrio mais, eu sorrio além da conta. Pelo amor de Deus, amigo, sorria de volta. Vamos, sorria e me liberte. Sorria e me diga quem é você. Ele sorri.

Mas ele sorri em bando. Dois disfarçam, mas riem com a cabeça baixa. Agora todos me olham e riem descontroladamente. Ouço batidas nas mesas. Certeza que estão me sacaneando. Ele então fala baixinho no ouvido do cara de dread. Coisa de cinco segundos. Sim, sim, sim: está falando de mim. Um cutuca o outro. Um mostra o celular pro outro e vai passando o celular na roda até que chegue na mão do último e volte para o primeiro. Tem sacanagem aí. Bando de palhaços.Toda gozação de homem babaca é feita em grupo. Homem babaca, sozinho, não sabe sacanear. Homem babaca gosta mesmo é de sacanear em bando. É mais interessante mostrar pros amiguinhos que ele pode ser sacana. Bando de palhaços.

Ao final do almoço, meu namorado vai buscar o carro e minha amiga vai ao banheiro. Estou sozinho. Ele levanta da cadeira e se aproxima até a minha mesa. Meu coração a mil. Eu quero saber qual é a piada. Mesmo. Ele nem me conhece, olha pra mim e já vai rindo assim? Ele então me surpreende, senta-se na minha mesa, respira profundamente, ajeita-se na cadeira. O que é que esse homem quer? MEU DEUS. O grande momento chegou. É agora que ele vai abrir o jogo e contar toda a sacanagem que ele e os amigos estão armando pra mim.

Mas, ao invés disso, ele estende a mão, lindo. E aperta a minha mão. E me abraça muito forte. Meu Deus, quem é esse homem? É agora. Ele se aproxima e diz bem devagar e baixinho no meu ouvido: “você é Murilo, né?”. E me entrega um bilhete com seu nome e número de telefone. “Eu sou seu leitor. Eu acompanho seus textos sempre. Eu amo tudo o que você escreve. E sinto muito por esses caras sacanas que você se relaciona. Meus amigos estão rindo porque eles acham que eu estou louco. Mas eu mostrei sua foto que está na sua coluna da internet”, ele confessa. Eu sorrio, finalmente, aliviado. Ele continua: “E posso te dizer uma coisa? Você é muito louco. Mas que homem não se apaixonaria por você e pela sua loucura?”.

Meio vesgo, meio errado, numas preguiças que só

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Todo mundo é um pouco vesgo, comentou um amigo quando percebeu que eu estava certo: meu olho esquerdo, na foto, deveria ser mais para a direita, mais centralizado. Será que eu mexi os olhos na hora do clique? Não, não, eu tenho certeza que não. E esse mamilo do peito direito? Não era pra ser mais redondinho igual o mamilo do peito esquerdo? Mas o que me incomoda agora, que eu fiz vinte e seis anos, não é exatamente o fato de ter um dos olhos tortos como todo mundo, não é exatamente o fato de ter uma parte do meu corpo meio errada como todo mundo, mas o simples fato de eu ter descoberto que era tudo mentira. Era mentira que a vida se resolve depois dos vinte e cinco. Com dezoito anos a gente acha que tudo vai se resolver depois dos vinte: nosso corpo e nossa autoestima e nossa conta bancária e nosso peito vazio e nossa vida amorosa e todo o resto de faltas que não são de vidas amorosas e de nada disso que a gente sabe o que é. Era mentira.

Mas eu continuo meio vesgo, meio errado, e se bobear a coisa só piorou. Pior: finalmente eu me toquei e tenho certeza que não estarei menos vesgo aos trinta. Nem aos quarenta. Nem aos cinquenta. Muito menos aos sessenta. Essa imensa e absoluta transformação era tudo coisa da minha cabeça aos dezoito. E aos vinte e seis, em plena imensa e absoluta transformação, eu descubro isso. Todo mundo é um pouco vesgo, penso enquanto como cereal com leite e decido não ir nem a pau ao Rio Vermelho. Ando mais do que meio vesgo, ando enxergando o mundo meio torto e isso me dá tontura, prefiro curtir a novela das nove esticado no meu sofá. Vezenquando fico numas preguiças que só. Vezenquando eu troco gente por TV.

Sábado, a Rua da Paciência lotada de jovens que dançam no meio dos carros. O que eu vou fazer lá? Dançar no meio dos carros no Point do Japa igual a todo mundo só pra chamar atenção e afirmar que sou jovem? Confirmar pela milésima vez que odeio multidão e odeio esse clima de paquera cheio de plasticidade? Tentar falar sobre algum assunto com alguém que puxa assunto, mas não tem assunto? Tô fora. Não li esse monte de livros e não repensei milhões de vezes a minha existência pra ser reduzido a isso. Dançar as mesmas músicas e ver as mesmas pessoas. Que graça tem?

Zapeio os canais da TV a cabo. Fotos e fotos no Instagram de gente na balada. Convites, por WhatsApp, pra sair. Chats e chats querendo saber onde você está. A solidão da noite de sábado te convida o tempo inteiro pra abandonar o silêncio e aguentar o silêncio no meio do barulho da boemia. Aí uma voz chata pra cacete grita dentro de mim: Sai dessa. Se arruma. Você vai sim, seu velhoto encalhado. Que ficar esticado no sofá que nada. Novela? Tá doido? Enquanto o mundo faz sexo você vai passar mais um sábado vendo novela? Vou. Vou sim. Porque tô me lixando pro mundo que faz sexo.

Aí eu tomo banho. É tão simples: colocar o pijaminha e dormir. Pelo menos eu não passo o domingo de ressaca. Saio do banho super decidido a não ir ao Rio Vermelho e… é, eu sofro em colocar um pijaminha em plenas nove horas da noite. Cedo, né? O mundo inteiro faz sexo e eu aqui com esse pijaminha feio. Como é que eu vou arranjar alguém desse jeito? Não vou. Essa coisa de que a gente só conhece o homem certo durante o dia. Sei não. Quem é que vai me parar na padaria e dizer: “oi, lindo. Vamos nos conhecer agora que é dia?”. Todo mundo só paquera bebendo cerveja. Não rola. E no trabalho? Não rola. Na época que eu era repórter de jornal fiquei com todos os meus colegas e estagiários e assessores de imprensa e publicitários e os meninos da arte. Mas agora, escritor, com quem eu vou flertar se trabalho sozinho em casa? E digo mais: pegar geral combina com dezoito anos. Com vinte e seis você começa a chorar quando vê sua melhor amiga grávida, seu melhor amigo casando. Chorar em casamento. De raiva ou de inveja. E, principalmente, chorar porque ainda não tem perspectiva de casar e nem de ter filhos.

Tudo bem. Então eu vou. Troco o pijaminha feio por uma calça da moda. Vai que. Vai que hoje conheço alguém legal. Eu sei, nos últimos dez anos de balada (comecei com dezesseis) nunca conheci. E olha que na adolescência qualquer um que desse um sorriso e se vestisse mais ou menos e fosse cheiroso tava valendo. Mas vai que. Não? Não, Murilo. Pensa bem. Pra que perder tempo escolhendo roupa? Pra que perder tempo querendo parecer com todos esses meninos que se parecem com você? Olha sua caminha lá. Tá vendo? Tá te esperando. Seus livros. Suas séries. Sua novela. Seus filmes. O creminho de fazer massagem nos pés. Tá vendo a luzinha do modem? 100 MB de internet e você pode rodar o mundo. Pra que lavar o cabelo se você vai voltar fedendo a cigarro? Pra que ver gente que se odeia fazendo uma coisa que só as pessoas que se amam muito deveriam fazer juntas: tentar ser feliz. Aqueles mesmos meninos se pegando nos mesmos cantos. Um bando de gente perdida, confusa, andando pelas ruas feito baratas tontas no calor. Em busca de alguma coisa. Mas que coisa, gente? Amor é que não é. Ou é?

Meu Deus, o que mais me dói é lembrar que eu tinha certeza que já estaria fora dessa vida com vinte e seis anos. Como eu sou típico. Como eu sou o estereótipo da minha geração. O jovem adulto urbano brasileiro antenado conectado que não consegue sair da bolha de jovens adultos urbanos brasileiros antenados conectados. Eu sou como todos eles: um misto de cultura literária e entretenimento pop. Triste.

Depois dos vinte e cinco? Eu pensava. Já vou estar formado, com um emprego fixo, planejando o meu casamento. Escolhendo a minha casa. Fazendo as minhas compras. Bem resolvido. Cozinhando. Feliz. Sem medo que minha mãe morra. Com a voz firme. O abdômen enxuto. E vou ajudar alguma instituição de caridade. E vou ter bunda. E vou ter cara, roupas e postura de homem.

Mas eu tive que fazer uma segunda faculdade pra me sentir completo, eu vivo de freelancer pra sobreviver, meus relacionamentos são tão instáveis que podem acabar no próximo minuto. Eu continuo sem bunda. E ainda não posso sair da casa da minha mãe porque, como falei, vivo de freelancer. Eu não sei ligar uma máquina de lavar sem antes perguntar para a minha mãe se tá tudo certo. Eu não sei cozinhar sem antes perguntar para a minha mãe se tá tudo certo. E, por ter mencionado três vezes a minha mãe só nesse parágrafo, já deu pra perceber que ainda faço terapia por puro medo que ela morra. O que um ser com idade mental de adolescente vai fazer num mundo sem mãe?

Mas eu não vou ao Rio Vermelho. Nem a pau. O mundo inteiro tá fazendo sexo agora e eu não tô nem aí. O mundo inteiro faz sexo toda hora e eu não tô nem aí também. Eu não vou. Decidi que eu só vou beber se eu estiver bem acompanhado. Restaurante chique. Ar condicionado. Música boa. Roupa mais adulta. Falando assim me toco que pareço alguém com mais de vinte e cinco anos. Rio Vermelho é pra quem tem dezoito. Ou vinte. Beber a dois num barzinho calmo do Centro é pra quem tem vinte e seis. Mas aí está o problema. Perceberam? Eu não tenho, nesse momento, ninguém para dividir comigo as maravilhas e as incertezas de se ter vinte e seis anos. Então, acabo me perguntando: será que eu não deveria ir ao Rio Vermelho?

© 2017 - TV Aratu - Todos Direitos Reservados
Rua Pedro Gama, 31, Federação. Tel: 71 3339-8088 - Salvador - BA