Por que você não deve assistir aos jogos da Copa com seu namorado

Acordei no sábado com o barulho do grupo de WhatsApp intitulado “Bora Brasil, Minha Porra”, criado por Bernardo com a intenção de reunir alguns amigos e seus respectivos namorados no domingo, primeiro jogo da seleção brasileira na Copa. Comprei azeitona, salgadinhos, pães e queijos. Os outros meninos compraram carne, amendoim, licor e cerveja. Me vesti de verde e amarelo. Fiquei ansioso, mas não por causa do jogo, mas porque nunca sei se a quantidade de comida é suficiente, se tudo tá muito limpo, se a geladeira tem espaço e se a minha casa pode aconchegar tanta gente.

No início foi até legal. Os namorados dos meus amigos (e aqui, obviamente, incluo o meu) ajudaram a decorar a casa, prepararam a churrasqueira, colocaram as cervejas no freezer. Grupos dispersos pela casa faziam confissões. Um amigo aproveitou que o namorado foi ao banheiro e disse que tá “pensando em sugerir relacionamento aberto porque não tá dando certo”. O outro, na cozinha, sem o namorado por perto, avisou que queria viajar sozinho, mas o namorado é ciumento. Já o outro contou, baixinho, que comeu o estagiário. O quê? O foco todo se virou pra ele. Conta! Conta! Galvão Bueno apareceu na TV anunciando o jogo. Medo do namorado chegar na área de serviço e descobrir tudo. Tenso, mas conta: quem é o estagiário? Tem foto dele no Instagram? Tem? Corremos todos pra ver. Ah, não é ruim, não, hein? Mas eu não tenho coragem de trair. Nem eu. Muito menos eu. Enquanto isso, meu namorado colocou umas músicas “sofrência” só pra fazer palhaçada no meio da sala e todo mundo se animar. Latinhas vazias de cerveja começaram a ser jogadas na lixeira e quadradinhos de queijos foram devorados por segundo.

O jogo começou e a coisa foi ficando chata. “O Brasil ganhar com esta seleção fraca?”, o namorado de um dos amigos perguntou. “Neymar só faz cair”, disse o outro. “Já era, Brasil”. “Olha que árbitro filho da puta”. “Quase sai gol”. “Foi falta”. “Tite tem que mexer no time”, reclamou meu namorado. E eu e os meus amigos nem aí. Vimos apenas que o goleiro Alisson Becker é uma delícia, mas como comentar isso sem receber olhares tortos do namorado? O Brasil quase faz gol. Esse aí da Suíça é o Ricardo Rodríguez? Vimos também que o uniforme da Suíça cai bem neles e que os cortes de cabelo são muito parecidos. A Suíça começou a reagir e os nossos namorados ficaram tensos com a porra toda. O Brasil marcou um gol, mas eu e os meus amigos comentamos, escondido, do tamanho das mãos do atacante Gabriel. E todos caíram na risada, lembrando de experiências com rapazes grandiosos. Teve o… e Teve também… Meu Deus e teve… Nossa, fala baixo. Casemiro recebe seu primeiro cartão amarelo e não estamos nem aí. Olha o tamanho da bunda do meia Paulinho, alguém comenta. Eu tenho o álbum da Copa, mas só colo os que eu acho bonito e gostoso, um amigo comenta, também escondido, ao pegar mais uma cerveja.

Deu o intervalo. O namorado de Lucas não tá legal porque bebeu mais do que deveria e agora tá com refluxo, principalmente porque pulou muito na hora do gol. O meu namorado e os outros três namorados dos meus amigos vão juntos comprar mais bebida. Quem não tá bebendo pra poder dirigir?, um deles perguntou. Todos entraram no carro em direção ao primeiro supermercado com cerveja gelada e em promoção.

Eu e os meus amigos, finalmente, ficamos em casa rindo, pulando e dançando, um pouco alcoolizados, a sós, sem bisbilhotagem de namorados. Depois, loucos, decidimos sair pelo prédio abraçando pessoas que encontrássemos pela frente, como o síndico, o filho dele, a mulher do filho que tinha um resto de gorfo do bebê na blusa e uns turistas bonitos recém-chegados. Desta vez o hexa sai! Eles comemoravam uniformizados com camisas do Brasil, animados, suados, bronzeados. Senti que abraçava o país inteiro. Mas era pouco. Liguei pra minha família, falei com minha avó, meus amigos buzinaram em várias campainhas do prédio, batemos papo com um cachorrinho que estava tremendo com medo dos fogos. Saímos pelas ruas do Rio Vermelho contagiando e sendo contagiados por um clima de Copa que não pode morrer e que de certa forma une as pessoas. Desta vez o hexa sai! Eu passava por todos os bares mexendo com a galera “verde e amarelo” e batuquei no “capô” de um Uber que estava se desculpando com uma senhora porque não tinha troco. Mas ela avisou que não queria dinheiro, queria o marido que havia morrido há dois anos. “Ele fazia alegria, achava a Copa importante, mas não tá mais aqui pra ver”, disse ela ao Uber.

Abracei a senhora e o cabelo dela tinha cheiro de ovo. Amei aquele cheiro porque é Copa. Pedi pra ela ser a alegria que o marido era. Pude perceber o sorriso dela se abrindo. Eu e os meus amigos então resolvemos fazer gritos de guerra e mais gente foi se juntando. Deus do céu, como eu estava apaixonado por aquelas pessoas que se vestiam muito mal e que eu nunca tinha visto na vida. Como elas eram bonitas! E sentamos no asfalto, um ao lado do outro, e comemos queijo coalho com orégano e mel. E os nossos namorados?, alguém perguntou. Devem estar em casa, tensos, pessimistas e reclamando do jogo. Caímos na risada. Fugimos dos namorados e não voltamos mais pra casa, graças a Deus. Bora Brasil, minha porraaaaaaa!