O amor mora na Rua da Paciência

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Um casal na mesa ao lado pede uma sangria de vinho branco com limão-siciliano e morango. Às 19h30. Em plena terça-feira. Lá fora, pasme, acontecem congestionamentos e buzinas e ônibus cheios e pessoas cansadas e sonolentas e desamadas. Eu acho completamente louco. Quem, no mundo pós-moderno, tem tempo pra beber taças de vinho, no início da semana, sem pressa? Quem, na plasticidade do mundo, onde se relaciona como se estivesse seguindo um manual de revista, tem tempo pra acreditar em mãos dadas e encontros e conversas ao pé do ouvido?

Mando uma mensagem no WhatsApp pra Felipe: “eu acho completamente louco”. Eles sorriem sem olhar pros lados. Estão dentro daquela história, fazendo o próprio filme. Nada e nem ninguém interessa. Apaixonados, roupas bem passadas, pele linda. Transpiram cheiro de rosa, alecrim, manjericão. Quero levantar e pedir uma salva de palmas. Quero que a música de Chico não pare. Quero fotografar a cena. Quero fingir que conheço, acompanhá-los na mesa e pedir uma taça. Quero pagar aquela conta como um presente. Quero que o mundo inteiro pare pra ver e entender o sentimento mais lindo do mundo.

Eu havia acabado de sair da aula de literatura quando percebi que já era noite e eu não comia há cinco horas. Andei pelo Rio Vermelho e aproveitei que passava pela Rua da Paciência para matar a vontade da tortilha de batata com chouriço, pimentões, gorgonzola e abobrinha no La Taperia, um dos meus restaurantes preferidos da cidade.

Escolhi uma mesa discreta, fiz o pedido, abri o meu bloquinho e comecei a fazer listas — um velho vício que me acompanha desde a infância e que sempre volta quando minha vida vira uma profusão de incontroláveis pendências ou quando sinto o descontrole em cento e oitenta quilômetros por hora e preciso fingir que posso manter tudo sob controle. Marcar dentista. Responder e-mails. Mandar mensagens pros meus amigos pedindo desculpas por estar tão cheio de coisas pra fazer e não ter tempo pra nada. Ver o filme de Almodóvar. Ver, principalmente, o de Anna Muylaert. Terminar um artigo. Escrever mais um capítulo do livro. Revisar o capítulo anterior do livro. Combinar alguma coisa pro aniversário de Letícia, mesmo odiando aniversários e mesmo sem tempo pra organizar aniversários. Ligar para a assistência técnica da máquina de lavar.

Então o garçom desfila com aquela jarra de vinho branco, suada, e serve ao casal na mesa ao lado. Não consegui olhar pra outra coisa a não ser a mesa do casal. Chico tocando. Olho pelo canto dos olhos e percebo que eles não têm mais do que vinte e seis anos. Talvez vinte e oito. Ela vinte e seis e ele vinte e oito. Ou o contrário? Ou os dois com a mesma idade? O garçom serve as duas taças. Eles falam com amor sobre Gilberto Gil e Dostoievski. Planejam viajar para Espanha ou Chile em junho do ano que vem. Aqui e ali, ela divaga sobre como podem economizar. Depois, breve e delicado, ele cochicha algo no ouvido dela. Risos eternos. Será que ele comentou que ela está linda? Será que ele falou alguma sacanagem das boas? Será que foi uma piadinha interna? Ela gostou. Ele gostou dela ter gostado. Eles se olham nos olhos muito mais profundos do que antes.

Estou completamente apaixonado por aquele casal que fala com entusiasmo sobre escritores e músicos, que planeja viajar para o Chile, que ouve jazz e MPB, toma vinho sem pressa, esquece a vida lá fora, tudo isso no comecinho da noite de uma terça. Quase não consigo respirar. Sinto tanto amor dentro de mim que posso explodir com a quentura e bolinhas de corações vermelhas atingirem a Espanha. A sensação maravilhosamente absurda que é sair um pouco de dentro da gente e ver o outro. Ou, ainda, a sensação maravilhosamente absurda que é ver o outro e sentir dentro do fígado o que a gente acredita.

No segundo em que a inveja alcançou o pico mais alto, fechei o bloquinho — que se danem as minhas listas e pendências e todo o resto. Pedi uma sangria do mesmo vinho, sequer olhei as horas, e o item “Separar roupas que não quero mais”, de uma lista anterior, ficou pra depois.

Eu quero agradecer àquele casal. Me livrou do bloquinho, da rotina. Me fez companhia mesmo em mesas separadas. Me fez acordar para a vida que vale a pena. Aquela que se mostra mais bonita durante as pausas do que a gente se adaptou a chamar de vida, com minutos contados, com prazos que não são perdoados, em que cada passo está anotado em bloquinhos.

Agora toca Vinícius. Peço mais uma taça. Eles se beijam. Sem alarde. Natural, vivo, bonito. Numa fase em que todo mundo vai embora da minha vida porque é mais fácil desistir do que tentar continuar, ser espectador de romances desconhecidos me faz flertar com a ingenuidade, me faz sentir novamente um garotinho virgem de treze anos que acredita numa sinopse com final feliz. O mundo é de quem ama. De quem ama com paciência. O mundo é dos que bebem vinho branco com limão-siciliano e morango no comecinho da noite de uma terça-feira.

Quarta passada me achei muito sexy

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Um menino magricelo, de bicicleta, passou por mim voando no calçadão do Porto da Barra, na quarta, e gritou: “Olha a bike, tio!”. E eu ri, mas depois passei meia hora bem deprimido. Cheguei em casa, tirei a roupa assim meio rápido e fiquei só de cueca olhando detalhadamente pro meu corpo inteirinho na frente do enorme espelho do quarto. Vi a pele atrás do meu joelho, durinha e hidratada, e cheguei à conclusão que “tio é o filho da mãe do seu pai porque ainda dou um bom caldo”.

Não satisfeito em ver o fiozinho de cabelo caído que deixava minha nuca mais bonita do que de costume, coloquei Caetano pra tocar no Spotify, desfilei com a toalha amarrada um pouco caída na virilha e tomei um ventinho na varanda, com o rosto branco de creme clareador de manchas, toca de hidratação no cabelo, sem vergonha de ser observado pelos quinze andares do prédio vizinho, me achando muito sexy.

Não satisfeito com os pelos que nasciam ainda tímidos na batata da perna – o que consequentemente me deixava mais misterioso, o que consequentemente me deixava mais atraente -, deixei a toalha cair no meio da casa e me joguei na ducha. Eram cinco da tarde, nem dia e nem noite, e a iluminação fria invadia o basculante do banheiro, favorecendo poeticamente algumas partes do meu corpo. Tudo bem que a estria fininha ao lado esquerdo da nádega quebrava a simetria das minhas coxas tão torneadas, mas eu nunca reparei a beleza desse resto solitário de pelo nos joelhos e como ficava tão bem alinhado aos dedos dos pés tortos e corcundas.

À medida que a espuma escorria em direção ao ralo, meu mamilo direito, com um sinalzinho marrom escuro em alto-relevo, insistia em ficar excitado toda vez que a esponja passava a dois centímetros de distância. Achei aquilo bastante provocativo e, somando ao fato de estar com a barriga desinchada por ter feito a digestão do almoço há quase três horas, comecei a perceber que “caramba, como eu sou gostoso!”, que “nossa, como eu não me reparei antes?”, que “meu Deus, eu bem que poderia me pegar”.

O exibicionismo implorava por um nude: faz besteira, por favor; se expõe, por favor. O superego não pensou duas vezes e ligou a câmera do celular. Primeiro saiu uma foto inocente da metade do pescoço e do peitoral lisinho. Mas achei bobinho demais e pensei que, sexy do jeito que eu estava me sentindo, poderia ser melhor do que aquilo. Inclinei a câmera e olha lá, a foto capturava um pouco do tórax, um pouco da virilha, um pouco dos pelinhos recém-nascidos da virilha.

Meu namorado foi a primeira opção a ser descartada da obsessão “pra quem eu vou mandar essa belezura”, porque 1) ele me vê pelado sempre, inclusive forçando a porta do banheiro pra saber “onde está a Neosaldina?”; 2) ele me responderia “eita, mais tarde a gente resolve isso”; 3) ele, inocente, perguntaria se o carocinho quase invisível da picada de inseto, perto da costela, era alergia. Melhor não.

Pensei em mandar para Pedro, meu psicólogo, uma legenda como “você acha que eu tô ficando louco?, “você acha que eu tô perdendo a noção?”. Mas ele é casado e poderia ser um problemão explicar pra mente neurótica da mulher dele que é coisa de cliente, que é terapia humanista. Melhor não. Também não considerei nenhum amigo do jornal. Eles certamente me responderiam: “porra, Murilo, em fechamento de matéria sobre a obra que tá travando o subúrbio e você mandando putaria”. Melhor não.

Nem cogitei a possibilidade de mandar para o grupinho de homens que “serve como reserva caso eu leve um pé na bunda”, porque, como me conheço muito bem, sei que jamais mandaria para seres que não são nada uma foto exibindo um pouco do tórax, um pouco da virilha, um pouco dos pelinhos recém-nascidos da virilha.

Olhei a foto incansáveis vezes e pensei que aquela obra-prima precisava ser compartilhada. Facebook, o parquinho virtual da superexposição. Melhor não. Vai que meus ex-editores veem isso, vai que meu chefe vê isso, vai que… Melhor não.

Era quase meia-noite e eu já estava ansioso e desesperado. Na cama, revirei os contatos do WhatsApp e vi algumas possibilidades. Mas mandar pra minha mãe seria uma boa opção? Descartei no mesmo segundo. Seria um jeito de me livrar dessa angústia, mas ela certamente iria rir e murmurar algo como “nunca foi certinho da cabeça”, “esse não cresce nunca”, “continua bobalhão” e depois excluiria sem dó. Não surtiria efeito. Melhor não.

Já eram quase quatro da manhã e eu precisava mandar aquilo o quanto antes. Rolei o dedo na tela e cheguei até ele, meu amigo sincero. Deixamos de nos falar há alguns meses depois que dizemos coisas horríveis. Comportamento típico de quem se conhece muito, de quem se gosta muito. Mandei a foto num impulso. “Tô bem?”. Eu queria sinceridade.

Peguei no sono com o celular na mão. Acordei no dia seguinte com o barulhinho do WhatsApp apitando e corri pra ver. Era ele mandando a foto da barriguinha de cerveja. Me olhei no espelho e lá estava eu: me achando feio, cheio de olheiras, a pele desidratada, o cabelo seco, a coluna torta e a cara amassada. Nenhuma roupa do armário parecia se adequar ao meu corpo e me deixar incrível como ontem. A vida voltava ao tédio e ao marco zero da libido.

O regador assassino

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Estou há mais de uma hora sentado num banco alto de uma festa no Lalá “que talvez mais tarde você apareça”. Sinto o sapato apertar o ossinho do calcanhar, mas eu me digo o tempo inteiro: aguenta mais um pouco. Garçons me olham triste e me perguntam se eu preciso de mais um copo. Ignoro o globo de luz e a música da moda. Pessoas acompanhadas sorriem com suposta piedade, disfarçam e comentam com as outras: a companhia dele não chega. Gente bêbada fala comigo e eu concordo com um sorriso automático, procurando sentido onde não vejo, como se eu fosse um equipamento mal-estruturado tentando sobreviver ao mundo dos robôs. De dez em dez minutos troco o lado da perna cruzada. De dez em dez minutos mexo na bolsa. De dez em dez minutos reviro o celular procurando o que nem eu sei o que é. De dez em dez minutos vou ao banheiro. Não é xixi. É ansiedade.

Decido voltar pra casa. Qualquer tortura no mundo é melhor do que bocejar. Estou cansado, estou com as pálpebras tremendo, estou com dor no flanco, estou com a lombar e os ombros tensos, entediados por esperas. As duzentas esperas dos seus duzentos corredores sem fim. Meus olhos lacrimejam tanto que algum desatento pode confundir com brilho, mas as olheiras adiantam o que meia dúzia de palavras inventaria. Você suga toda água do meu corpo e me deixa seco como um ET.

Pago a cerveja, ajeito o cabelo e penso: talvez mais tarde você apareça. Eu posso pedir outra cerveja, eu posso ir ao banheiro de novo, eu posso fazer amizade instantânea, eu posso ir lá fora, eu posso ficar aqui brincando de me enganar mais uma vez, eu posso bancar o palhacinho e me divertir com todos esses bêbados que se afogam em mais uma dose de tequila porque cansaram de entender a vida. Mas prefiro ir embora. Olhar pra porta sem piscar os olhos e confundir todos os homens com você é como buscar um pouquinho de calor, pelado, numa cidade do sul com temperatura abaixo de zero.

Mais vinte. Não. Só mais cinco minutos, melhor assim? Nem pensar. O táxi está parado do outro lado da pista, eu me aviso. Você aparece na porta com aquele seu cabelo seboso de banda de rock londrina. Não fico nem um pouco feliz. Não tenho mais vontade de te ver. Não quero passar o resto da noite tentando ser o homem que nem você quer. E então você sorri com sua cara séria e nunca sei se você tá gostando de tudo ou se tá apenas sendo simpático. E então começo a produzir sêmens dentro do meu cérebro. E me lembro de tudo que a gente foi. E invento. E fecundo em buracos de tudo que é você. E me jogo em seus braços quentinhos de quem ama no minuto certo. E te conto que estou desnutrido, ossudo, de tanto me alimentar de pensamentos vazios. Eu estou sem células, sem fígado, sem saliva, sem alma.

Você segura a minha mão e me roda. Olhe fundo nos meus olhos e dance, você diz. Não pense, não queira, não reclame, não espere, não tente entender, você diz. Respondo que não sei dançar. Você revira os olhos e me encaixa nos seus braços. E me joga pra trás, pro alto, pro seu peito. E estica as minhas pernas. Acho estranho que duas pessoas que se conhecem há tão pouco tempo consigam ter uma sintonia tão perfeita. A festa inteira para pra ver a gente rodopiar. Me escondo em seu peito, minúsculo, como um filhote que precisa de abrigo. Eu gosto que você é um começo daquela plantinha com raiz seca que desperta em mim o regador assassino de doze milhões de gotas d’água por segundo. E eu te afogo. E você não entende. E você prefere morrer do que ter que aguentar a enxurrada de gotinhas desproporcionais.

Tenho a impressão de que seus cílios são do tamanho exato dos fios do pelo da minha mão esquerda. Que seus braços largos e compridos têm o tamanho exato de uma volta na minha cintura. Que seu dedão do pé é do tamanho exato do meu ouvido. Tenho a impressão de que se eu passar um pouco mal depois de tanto dançar com você nessa festa, você pode me colocar numa posição lateral e fazer respiração boca a boca, e então eu continuo incrivelmente bem. Mas se eu não sobreviver, por favor, continue essa vida por mim.

Tenho a impressão de que eu consigo te amar a cada detalhe bobo e insignificante. Consigo gostar de você apenas com o meu sangue que circula quente ainda que seja a mil metros de contato com a energia do seu corpo. Eu vejo sua mão grande e fria segurar meu ombro com cuidado e eu penso que isso é amor. Eu ouço você murmurar qualquer coisa como “não faz desse jeito pra não parecer que você quer” e eu penso que isso é amor. Mas eu sei que são apenas sêmens fecundando nesses buracos que você deixa. Quanta coisa bonita a gente nega pra obedecer regras estúpidas e colocar freios na intensidade.

Quero perguntar, agora que me confundo na dança, por que você prefere o mundo seco. Quero entender, agora que você me ajeita na dança, por que a gente precisa voltar pra casa, mais uma vez, sem entender nada. Você me solta um pouco dos seus braços, posiciona os óculos e diz: “Você coloca o bolo no forno e fica olhando impaciente querendo que o fermento atropele as etapas e se desenvolva da sua forma. O bolo fica inchado, inconsistente, sem vida”.

Lembro de você, no comecinho, me dizendo que queria respirar, que não conseguia respirar, mas que você precisava respirar. E eu tentei, juro que tentei, de todas as formas, deixar uma passagem de ar entre a terra e a raiz pra te manter vivo. Mas quem consegue não asfixiar quando a saída é nadar em cem metros rasos de possibilidades?

De repente abro os olhos e sinto o golpe que é você me deixar no meio da festa pra viver todo o resto. Os pés que te trazem tão devagar são os mesmos que te levam tão depressa. E então minha cabeça acode os atropelos do peito. E eu fico, outra vez, sem som, sem cor, sem sentidos humanos. Te ver sumindo no meio da multidão é lembrar a cada segundo o peso absurdo que é balancear todas as razões de fora com as emoções de dentro.​

 

Compraram a camisa de listrinha azul

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

As roupas estão enfileiradinhas no armário de madeira que não é de madeira e tudo isso me faz pensar um pouco com as mãos no queixo na ponta da cama. Talvez, e só talvez, a camisa jeans que não é jeans me deixe bonitinho pra essa festa que talvez eu me divirta. Lavo o rosto pra diminuir a oleosidade da pele e penso mais um pouco. Talvez, e só talvez, a camisa de botão que tem uns barquinhos que não são barquinhos me deixe bonitinho pra essa festa no Portela que eu nem quero ir. Deixo as camisas enfileiradinhas no armário e resolvo que talvez, e só talvez, comprar uma peça nova resolva o meu problema.

Revirei araras e vitrines de lojas em busca de alguma coisa interessante numa dessas “coleções incríveis primavera-verão”. Antes de desistir, parei no Rio Vermelho pra olhar uma dessas boutiques de novos estilistas soteropolitanos. Gostei logo de cara de uma camisa de listrinha azul que estava na vitrine de umas dessas boutiques de novos estilistas soteropolitanos. Tecido de algodão macio, cor viva, linha bonita, tão charmosa. Quando experimentei senti algo especial, próprio, adequado, familiar. Caía muito bem no meu corpo e combinava muito bem com tudo.

Mas qualquer pessoa que gosta de se vestir bem sabe que não pode ficar com a primeira roupa que aparece. Listrinha nunca sai de moda, e, talvez por isso, qualquer pessoa que usa listrinha sabe que corre o risco de ter mais uns quinze usando a mesma peça. Enfim, continuarei procurando. Depois daquela camisa vi pelo menos mais umas cinquenta, mas a dita cuja não saía da minha cabeça. As listrinhas de um azul tão bonito, o tecido tão confortável e fresco, a gola tão apropriada. Eu estava completamente apaixonado. Mas não, né? A gente não pode sair colocando assim na sacola. O mundo da moda tem tantas opções, não é mesmo? A gente não pode levar pra casa a primeira que encontra. Ainda mais uma primeira tão cara e estranha: as mangas tinham um corte não-reto e eu ficava o tempo inteiro pensando nessas mangas. Coisa estranha. Melhor não.

A semana passou, camisas modernas de grandes grifes apareceram, mais baratas, com estampas mais incríveis e até mesmo com um caimento melhor passaram, e eu nunca tirei a camisa de listrinha azul da cabeça. Eu me dizia o tempo inteiro: “mas é só uma camisa de listrinha. Imagina, camisa de listrinha a gente acha em qualquer canto”. E seguia a vida tranquilo, acreditando que a hora que eu quisesse ela estaria lá na vitrine esperando por mim. Eu precisava experimentar outras peças, eu precisava entrar em outras lojas, eu precisava conhecer outras marcas, não, de maneira alguma eu poderia me deixar levar pela falsa ideia de roupa perfeita assim à primeira vista. Um dia, se esse dia chegasse, eu estaria pronto pra usar uma camisa com mangas não-retas. Um dia, se esse dia chegasse, eu poderia ser dela e então ela seria minha.

Ontem resolvi passar por lá. Não pra experimentar de novo e nem pra comprar. Apenas pra continuar paquerando aquela peça na vitrine, de longe, sem nenhum contrato de fidelidade. Quando fui chegando perto não pude conter o assombro: a camisa de listrinha azul não estava no manequim. No lugar, uma peça sem cor, sobreposta por um casaco verde musgo. Mas quem usa casaco no verão? Que coleção é essa? À medida que eu atravessava a pista, meu coração era dominado por um ódio imenso, tão imenso que chegava a controlar a minha mente. Entrei na loja querendo saber da vendedora: “Cadê?”. Mas a peça pode estar na remarcação, na seção da coleção antiga, no quartinho de estoque. “Compraram”.  “Mas o quê?”. “Sim, compraram. Um rapaz assim bem parecido com o estilo do senhor comprou ontem! Mas temos outra aqui que eu…”.

Atravessei a rua em prantos. Começou com um choro minúsculo, apenas umas lágrimas tímidas e descompensadas. Depois as lágrimas foram ficando gordas e gordas e gordas. Peguei um Uber e chorei, do Rio Vermelho até a Barra, o choro mais profundo e desmedido que possa existir. O choro infantil e verdadeiro que já chorei em toda a minha vida. Me recordei, como num filme cruel e sem pausas, de todas as pessoas e coisas que perdi por ter deixado pra depois; por ter achado, por arrogância, que eu poderia ter mais do que aquilo que era oferecido; por ainda não me sentir preparado para elas ou, ainda, por ter a curiosidade de saber tudo do mundo ou, ainda, por ter dificuldade com o que é duradouro.

Me recordei de centenas de lugares que trabalhei e acabei indo embora porque eu estava de saco cheio de ficar com meu rabo preso numa cadeira por doze horas por dia. Mas eu fazia o que eu gostava, eram lugares com pessoas tão incríveis e chefes tão bons. Por que eu ia embora? A ilusão de que podia existir, em algum lugar do mundo, o emprego dos sonhos.

Me recordei de todos os meus namorados que eu simplesmente mandei ir pro inferno porque é difícil entender que as histórias acabam mesmo. Descartar pessoas, como se elas nunca tivessem existido, no fim das contas, não é humano. Quem ama não joga fora.

Me recordei de todos os amigos e parentes, aqueles que fizeram histórias comigo, aqueles que viveram momentos de dor, medo, raiva, alegria, expectativa, aqueles que eu sempre deixo pra depois porque eu ando sem tempo e porque eu tenho preguiça e porque eles moram muito longe ou porque eu mudei muito e todos se tornaram muito diferentes de mim. Aqueles que eu sempre penso: “talvez no fim da semana que vem”. Mas o fim da semana que vem nunca chega.

Chorei por todos os meus amigos que foram embora do país e eu não fui pra despedida porque eu odeio despedida. A falsa esperança de que um dia nos veremos de novo. E, finalmente, chorei por nunca ter conseguido ser bonito, engraçado e inteligente. Chorei o fim de tudo e, chorei muito mais, pelos começos que têm fins previsíveis. Assim é a vida: uma morte a cada capítulo.

Depois, como era de se esperar, passei a mão no rosto, enxuguei as lágrimas e continuei procurando pela minha camisa com a cara limpa. Eu descobri, ontem, que estar em busca de outras opções e ficar insatisfeito com a maioria que aparece, na verdade, é o que faz a gente continuar.

Sexo é o que a gente tem pra hoje

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Só eu sei como é difícil desatar os cadarços desses sapatinhos brancos. E me questionar pela milésima vez em frente ao enorme espelho se tudo bem tirar essas meias com listrinhas coloridas, se tudo bem deixar à mostra esses dedinhos compridos, se tudo bem deixar exposto esses pés ressecados, se tudo bem essa mania esquisita de tentar consertar a coluna, estalar os dedos das mãos mil vezes, contrair os joelhos. Tudo bem aceitar a agonia dos meus ossos e da minha alma? Tudo bem querer chegar a algum lugar sem querer andar? Eu tenho medo de não conseguir pisar com firmeza nos lugares onde nunca andei e muito menos nos lugares onde já andei de tudo quanto foi jeito. Enfim, sapatinhos brancos tirados.

Eles saltam dos pés com dificuldades, fazem barulho quando caem, esperam calados ao lado da cama, ficam de bruços. Me avisam que já não estou mais protegido dos cacos, alfinetes e poeiras. Me avisam que existe chão e que até chão dói. Agora é a vez da camisa. Faz muito frio. Eu quero te pedir: por favor, calma. Desabotoa devagar. Desabotoa sem deixar o nó na garganta me sufocar. Eu sei, eu já tirei essa camisa tantas vezes. Não sou nenhum rapaz inexperiente. Mas você me deixa mole desse jeito, tonto, como se tudo fosse a primeira vez. Faz as pernas tremerem, o frio chegar, exatamente como um rapazinho inexperiente se sente.

Eu tenho medo de acabar fechando os botões da camisa depois que você abrir. Tenho medo de sair correndo e me trancar no banheiro e vomitar no vaso e chorar sentado na tampa da privada cinza com as pernas prendendo a porta, repetindo a cena que eu fiz com todos os outros caras antes de você. Tenho medo do que ainda não aconteceu. Medo do barulhinho do relógio que o tempo inteiro me avisa no escuro que já vai acontecer. Tenho medo da tristeza descontrolada. Tenho medo da alegria sem freios. E de você cantar ao pé do meu ouvido a bossa nova mais bonitinha do João Gilberto e eu me sentir tão bem e tão seguro e tão apaixonado a ponto de perder os freios e começar a tremer, a gaguejar, a me esconder entre seus braços quentinhos e compridos e ser obrigado a te mostrar o quanto não pertenço a esse planeta.

E tenho muito medo de você perceber o meu jeito alienígena e se encantar pela minha parte alienígena e ficar admirando minha parte alienígena e de nunca mais eu fechar os botões da minha camisa e não conseguir voltar a calçar meus sapatinhos brancos. Eu tenho muito medo de me esquentar no seu peito e pegar no sono e nunca mais fugir do frio e nunca mais acordar. Mas ainda eu sinto frio. Então, se eu tremer, não fala nada, continua me olhando como se fôssemos companheiros desse disco voador que trouxe a gente pra esse mundo feinho de pessoas que não tremem, que não sentem, que não se apegam, que não enlouquecem.

E seus olhos me mostram que agora é a vez da calça. Olha, desabotoa lentamente. Abra o zíper devagar. Não faz piada com isso. Porque eu tô desde o começo tão nervoso. A dor da virgindade da alma é maior do que qualquer dor que se possa ter na adolescência.

E me explica, antes de você tirar a roupa, por que você tem tantos pôsteres de filmes italianos antigos colados na parede do quarto e por que a sua geladeira não tem luz e por que você tem uma pilha de VHS de 1998 no canto da sala e por que você não olha seu celular de cinco em cinco minutos como todo mundo faz. Me conta? E você diz que é tão chato ficar falando coisas e coisas e mais coisas e perder olhares e cheiros e abraços. E isso já me diz mais do que eu precisava ouvir. Tirar a roupa é tão fácil. Mas ficar pelado é mais difícil. Então, não faz piada com isso. Eu vesti todas essas peles com muito cuidado. Ficar pelado, pra esse sexo que a gente começou a ter há poucos meses, não é tão simples. Quanto mais eu tiro uma pele pra alguém, mais pelado eu fico. E eu cansei de ficar pelado pra quem não interessa, pra quem não merece.

E só porque você subiu por escada os dois mil andares complicados do meu prédio e não me achou louco quando eu abri a porta, eu resolvi ficar pelado. Então cuida dessas feridas que estão expostas. Me ajuda a cicatrizar o que parece não ter remendo. Estimula meu sangue que já não circula. Controla as minhas células que não entendem por que precisam rejuvenescer. E acalma o meu peito querendo expulsar meu coração que bate tão forte, causando essa taquicardia que não me deixa dizer nada do que não sou.

E você me olha cansado. Da vida, dos amores imensos, dos começos que não continuam. Me olha do mesmo jeito que eu olho pra você. E eu sinto vontade de te dizer que eu sei que você também tem medo do que vai acontecer depois que fechar o zíper da calça. Que eu sei que você também treme, soluça, mas disfarça porque precisa sempre ser forte pra ter que aguentar. Porque deve ser muito intimidador e corajoso e revelador e assustador um homem desse seu tamanho mostrar que treme. E te dizer que por trás de todo esse tesão da alma entre nós dois, em que o corpo implora pelo corpo do outro sem fazer isso com as palavras, o que transborda é carência, falta, abandono, desgosto. E mesmo que a gente não fale, só agora, olhando a gente por esse ângulo transparente, eu entendo nosso sexo. Não há mais peça nenhuma pra tirar. É a noite mais fria do ano. E eu e você estamos pelados. E seu corpo também treme. E a gente se aquece tremendo. E isso se transforma na coisa mais profunda que alguém pode sentir.

O que mais me deixa confiante em seus braços, a ponto de não sentir vergonha de estar pelado, a ponto de não me importar em mais uma vez estar pelado, é que eu sei que, caso você suma no dia seguinte, como todo mundo sempre faz, valeu todo o meu esforço de ficar do jeito que eu vim ao mundo.

Eu não me importo mais

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Cansei. E isso resume tudo que eu tenho a dizer. Eu simplesmente cansei. Desisti. E isso é a coisa mais triste que pode acontecer a qualquer ser humano. E isso é a coisa mais triste que pôde acontecer na minha vida. Não reclamo mais de nada, não tenho mais interesse em entender nada, não faço mais questão de esperar por nada. Eu cansei. E quer saber? Desistir, talvez, tenha sido a melhor coisa que eu fiz até hoje. O melhor bem que eu fiz por mim até hoje.

Saio com os meus amigos, ouço a opinião de todo mundo numa roda. Gente discutindo sobre aborto, racismo, homofobia, feminismo, saudade, carência, medo de morrer. Coisa que eu acho intolerante e que eu quero apontar o dedo na cara, outras que eu quero complementar, mas eu deixo tudo lá. Não sinto vontade. Não quero. Não mexo um dedo. Eu deixo tudo lá. Sem culpa. Todo mundo querendo ter razão de tudo com suas frases de efeito. Nem aí pra essas pessoas que medem cada palavrinha pra levar um prêmio pelo melhor discurso. Nem aí.

Odeio inglês e odeio mais ainda quem usa frases em inglês no meio de texto em português, mas o tempo inteiro fico repetindo “i’m not interested”. Me recuso a discutir mais uma vez. Pra quê? Cansei de brincar de ser Deus. Passei 25 anos da minha vida sendo o irritadinho da turma. O enjoadinho. Aquele que queria tudo do seu jeito. Aquele que fechava a cara por qualquer coisa. Amor só é verdadeiro se for desse jeito aqui. Felicidade só existe se for desse jeito aqui. Festa tem que ser assim. Emprego é assim, namorar é assim, viver é assim, se vestir é assim, se comportar é assim, respirar é assim, perdão só pode ser dado assim. E eu ia culpando a vida, xingando a vida, de cara fechada. O tempo todo. O tempo todo querendo tudo no meu minuto. Querendo consertar a burrice do mundo e a sala brega da minha sogra. Chega.

Agora eu não me importo mais. Mesmo. Não avalio mais o que é feio ou bonito. O que é bom ou ruim. De verdade. Chega. Não me importo se eu cair e ralar o joelho. Não me importo mais com a dor. Com o sangue escorrendo. Com o latejar que incomoda. Com a febre que avisa que tem alguma coisa errada. Eu não me importo mais com o álbum incrível do Caetano Veloso. Com o filme badaladinho do Almodóvar. Pro último capítulo da novela das nove. Pro show tão esperado da Marisa Monte no TCA. I’m not interested.

Se um merda de um cara abre a boca pra falar sandices numa reunião, eu conto até cem pra não explodir na cara dele. Eu não grito mais, eu não esperneio. Deixo tudo lá. Mas quando a reunião acaba, eu sou o primeiro a sair. Pego a minha bolsa e vou embora. Sem culpa. Se um velho parar no meu caminho quando eu estiver andando de bicicleta no Porto da Barra, eu simplesmente freio e fico ali parado, olhando pro nada, até que ele suma da minha frente. Se alguém furar a fila, eu não reclamo. Se a pulseirinha quebrar, fica no chão. Eu deixo tudo lá. Chega de querer mandar na vida. Chega.

Não quero consertar, remendar, explicar, mostrar que estou certo. Não quero correr atrás, ter outra chance, ganhar, passar, subir no pódio, estar antenado com tudo, saber falar sobre tudo. Pra quê? Eu quero não me preocupar com nada, não sentir nada, não me estressar com nada. Sentar num banquinho de madeira da praça e ver a vida passar tão lenta como a Bossa Nova. Sem sentir nada. Quero a emoção blasé, o riso sem sal, a conversa beirando a superfície, dormir por mil anos. Sem culpa.

Tanta gente me viu tão histérico, agora vai me ver domado. Sonolento. Caladinho. Sem dar um pio. Caladinho. Eu quis tanto ser feliz. Quis tanto ter uma vida completa. Tanto. Meus olhos brilhavam esperando por isso. Eu tinha um sorriso enorme. Eu tinha tanta expectativa. Eu acreditava tanto. Tanto. Chegava a ser doentio. Mas nem era maldade. Eu só queria dar certo no meio de tanta coisa errada. Só isso. Eu só queria ser estranho e cabeludo e corcunda e magricelo e fútil e alienado e completamente feliz.

Ninguém acredita que uma bolha gigante que roubou todo ar do planeta sobreviva a mais de dois metros. Todo mundo sabe que uma hora essa porcaria estoura no ar. E quer saber? Até eu. A bolha gigante guarda tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto que não aguenta e explode. Chega. Cansei de ser a bolha gigante. Não quero mais carregar nenhum peso. Nem do ar. Minha intenção não é mais ser feliz nem triste nem nada. Eu me recuso a ter esperança, essa coisa vagabunda. Eu me recuso acreditar que alguma coisa vai dar certo, seja ela qual for, pela milésima vez. Eu tenho aceitado a vida como ela é. Desde que eu continue anestesiado no meu banquinho de madeira.

Não ser ouvido pelo mundo, meu maior medo, finalmente ganhou um papel secundário. Minha maior felicidade agora é ver as pessoas gritando.

 

Mas o diabo é que eu não consigo dizer não para a vida

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Largo o texto da coluna pela metade pra ver o celular que apitou. É Júlia me convidando pra sair: “o que você acha de beber uma cerveja no Rio Vermelho?”. Estou cheio de atividades de literatura pra entregar, um roteiro enorme de programa de rádio pra escrever e prazos curtos pra cumprir. Estou tão atolado que sequer consigo respirar, comer, dormir. Claro que eu não vou. Retorno a mensagem: “tá, que horas?”. Esqueço – ou finjo que esqueço – que estou com a agenda abarrotada de pendências. Quero me arrumar, ficar bem bonito, ver gente, me sentir vivo, essas coisas. Esquentou um pouco e já consigo sentir a cerveja descendo bem gelada na garganta enquanto a gente fala sobre a vida. Não resisto e vou.

Leio uma matéria no jornal sobre o Panorama Internacional Coisa de Cinema. É o festival dos descolados. É o festival da galera alternativa e cheia de boas referências. Vários cineastas batendo papo, numa roda, sobre as dificuldades dos seus trabalhos, vários filmes sendo exibidos em várias sessões e oficina de crítica cinematográfica. Fico pensando: “mas se eu for, vou perder psicólogo, pedalada e aula de criação literária. Melhor não”. Compro o ingresso de um dia ou logo do festival inteiro?

Corte só este tanto. Mas é só este tanto mesmo. Vê lá. Carrego uma faca dentro da minha ecobag contra cabeleireiros que ousam cortar um centímetro a mais do que eu pedi. O rapaz do salão sorri. Explica que meu cabelo está mais seco por causa do verão, cheio de pontas duplas e frizz. Um banho de hidratação com um produto que custa o dobro do meu salário resolve fácil. Um corte em degradê vai deixar o meu cabelo tipo o do Rafael Vitti. Me pego gostando da ideia: “demora?”. “Não, imagina. Coisa de minuto”. Só saio de lá três horas depois, com a vida atrasada, e-mails importantes não respondidos e o cabelo tipo Rafael Vitti duzentos anos de ressaca.

Quarta teve aniversário surpresa da Clara. Avisei logo que eu não poderia ir porque precisava terminar, finalmente, o roteiro do meu curta. Fiz uma listinha de tudo o que preciso fazer pra fazer o curta. E se eu não seguir essa listinha, eu acabo não fazendo o curta. Então melhor obedecer a listinha e não ir ao aniversário da Clara e escrever o curta. Adulto, adulto. Me peguei na seção de doces perguntando pra Luíza: “recheio de Nutella ou brigadeiro?”.

Minha mãe abre a porta do quarto: “você não usa este tênis há mais de um ano. Vai querer ou junto com o resto das coisas pra doação?”. Por causa de um tênis, decido que preciso reavaliar tudo o que tenho. Largo o e-mail não respondido, a pesquisa incompleta, o artigo pela metade. Abro o armário e coloco tudo pra fora. Limpo gavetas, caixas e cabides. Preciso disso mesmo? Posso doar? Jogar fora? Fazer um bazar entre amigos? Remédios vencidos, fones de ouvido sem borrachinha, óculos sem hastes. Que bagunça. Muita coisa aqui que não quero. Vou aproveitar e organizar o quarto inteiro.

Sou do tipo que ama estender programas. A gente marcou um cinema, mas depois pode ir a um barzinho e ficar até sabe lá Deus que horas. E daí que amanhã eu tenho reunião às sete? Tô sempre topando a nona saideira. Topando ficar mais um pouco. Topando conhecer a turma incrível que vai chegar. Não posso comer esse docinho antes do almoço. Mas é só um docinho. Mas tem a endoscopia. Mas é só um docinho. É horário de pico, então a gente pode ficar aqui conversando até o trânsito dar uma acalmada. Amanhã tem aula cedo, mas o que é que tem assistir mais dois episódios de Sherlock Holmes? Desligo o despertador seis vezes. O que é que tem dormir mais dez minutos? Durmo. Quando vou ver, já tô atrasado duas horas. Já perdi a reunião, o encontro, o médico, o voo.

Eu não sei dizer não. Nem pros outros e muito menos pra mim. Não aguento um “só mais um pouquinho”, um “vamos”, um “é rapidinho”. Sempre acho que dá mesmo pra deixar pra mais tarde, pra amanhã de manhã, pra segunda-feira. Planejo a vida esperando dela quarenta e oito horas em um dia, mil dias em um ano. Minha agenda vive riscada com prazos cancelados. Quero fazer tudo e mais um pouco. Se digo não, fico com a sensação horrível de que deixei alguma coisa pra trás. Sei que se eu fosse mais metódico e mais responsável, eu já teria o novo livro pronto, a peça de teatro toda costurada, outros projetos saindo do papel. Mas vira e mexe tem sempre alguma coisa bem mais interessante, mais divertida, mais curiosa pra fazer. A armadilha pra eu sair dos conformes mora ao lado.

Posso ser chamado de irresponsável, inconsequente, impontual, mas jamais dirão que eu não aproveitei a vida.

Oprimido

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Foi na varanda apertada do seu apartamento. Acho super louco que palavras tenham significados diferentes apenas por causa de um fonema. Pensei nas palavras “mote”, “note”, “bote”. Ia falar sobre como, sem querer, fazemos rimas em textos. Mas você iria respirar forte, revirar os olhos, fazer um barulho com a língua e os dentes e recostar na poltrona: “mania de escritor iniciante”. À tarde, você vai à reunião do trabalho. Tudo acaba por volta das sete, mas você só volta pra casa oito da noite. Das oito e meia às nove? Preparo um copo de leite com duas colheres de Nescau e coloco ao lado do seu computador. Tudo pra aliviar a sua raiva do dia e não fazer seu mau-humor rotineiro me ofender. Uma vez que tudo te irrita, tudo te parece insuportável, tolo e minúsculo, qualquer frase que eu expulse da boca soa como um prédio sem estrutura que desaba previsivelmente, e seus ouvidos arrogantes disfarçados de razão entendem absurdos,  como tijolos que caem pra machucar e causar algum estrago, tentemos diferente. Eu sou completamente apaixonado pela linha reta e funda das suas costas e se vejo em você tanta profundidade sempre penso em colocar ali um pouco do meu peso. Suas pintinhas espalhadas pelos ombros, digo, as sardas mal desenhadas e sem texto, podemos usá-las. Apesar do seu músculo semi-espinhoso contrair pro outro lado como parágrafos, apesar das frases soltas que ousam em ficar gravadas na minha cabeça como poesia, apesar das pintinhas que formam letras e do edredom que cobre a sua pele como pontuação, eu gosto da beleza simples dos seus fragmentos.

Foi no Café Terrasse. Aquele lugar cheio de gente meio igual e completamente diferente. O povo do cinema, do teatro, das artes plásticas. Eu cumprimentei Nina pelo espetáculo no Vila Velha. Você me disse que não aguenta mais ter que aturar os meus amigos de esquerda que acham que fazer peça com nudez é fazer arte. Eu pensei em explicar, baixinho, o motivo da nudez no texto. Mas você sorriu ironicamente com sua maldade disfarçada de educação e bebeu, sem vontade, mais um gole do cappuccino: “não deixa de ser um roteiro de merda”. Eu não preciso dizer nada pra você discorrer que estou errado. Não à toa seu sarcasmo me calando, não à toa seus olhares me diminuindo. Suas referências teóricas pra me barrar ainda que seja numa conversa banal. Suas mãos gesticulando além da conta. Eu sou completamente apaixonado pelas suas mãos grandes e largas. Gente do céu, teve uma vez, numa rua escura do Rio Vermelho, que eu tava tão assustado, tão assustado, e você segurou a minha mão com tanta força, com tanta força, que eu voltei pra casa me sentindo a pessoa mais segura do mundo. Eu passei as minhas mãos no meu corpo inteiro imaginando as suas, apertando o travesseiro imaginando as suas, me contraindo na cama imaginando as suas mãos me devorando por completo. Eu cato as suas digitais no meu corpo pra te manter vivo. Eu sempre morro pra te manter vivo. É impressionante.

Foi no seu quarto escuro. Você não vê importância em me levar pra jantar, luz baixa, roupinha bonitinha, pessoas, namorar um pouquinho, conversar. Eu tento entender, mas você sempre usa tudo contra mim. Não à toa, “namorar um pouquinho”, pra você, significa um discurso de pessoas imaturamente apaixonadas, intensas e sem emprego. Eu pensei em te perguntar o que significa “alvissareiro”, mas você iria respirar forte, revirar os olhos, fazer um barulho com a língua e os dentes e levantar furioso da cama pra tomar uma ducha: “te falta leitura boa e não essas besteiras que você lê na imprensa”. Eu amo a sua voz. Gente do céu, teve uma vez, dentro do seu carro, que você me ajudou a mudar umas coisas num texto: “melhor deixar assim pra não parecer que você forçou”, e eu fiquei sem ar por meia hora. Eu amo suas camisas penduradas na cadeira, seus livros arrumados por ordem alfabética, sua geladeira sem luz.

Nem sei direito onde foi. Mas lembro que fechei o Word bem entediado e, do nada, pensei em você nu. Fiquei mais de meia hora com a sua imagem me perturbando. Você parecia estar de terno preto, smoking, gravatinha borboleta, casaco de lã, mas completamente nu. Gosto de como a gente transa em intervalos curtos e você, cansado, cochila a nuca, peito e os braços suados por cima de mim, ainda nu. O seu topete meio duro por causa do suor seco. Seus lábios vermelhos. As duas marcas que deixo só porque encostei de leve no seu pescoço. Nunca quis você por sexo. Nunca foi isso. Você é comum, desinteressado. Também não são seus gostos, suas viagens, sua vida acadêmica, seu portfólio. Nem suas camisas lindas. Nem sua capacidade de falar sobre tudo. Nem é você. Já foram uns quinze que não eram nada, assim como você. Eles abafavam a minha angústia, raiva, banalidade, medo de morrer. Não é nem questão de passar esses dias tristes admirando a linha reta e funda das suas costas pra passar o tempo. Ou de me sentir seguro com a sua mão firme. Ou de enlouquecer com a sua voz incrível. Ou da gente transar e eu poder tocar a linha reta e funda das suas costas e sentir suas mãos grandes e largas pelo meu corpo e ouvir, baixinho, a sua voz no pé do ouvido. Não é isso.

Foi na varanda apertada do seu apartamento. Não havia sol, mas não fazia frio. Você estava com o seu pijama de listrinhas finas que tem uma gola azul meio desbotada. Você estava fumando na janela com a boca enorme, sem medo, espalhando fumaça pelos outros quinhentos apartamentos. A boca enorme que eu não vou esquecer nem daqui a cem anos, porque ela sempre me dizia coisas terríveis. A boca enorme que sempre fazia me sentir impróprio, inadequado, burro. E ali, pela primeira vez, eu queria mandar você morrer mil vezes. Mas, por sempre me sentir oprimido, a única reação que consegui foi arrumar a bolsa. E ali, pela primeira vez, eu fiquei pensando nas suas costas, nas suas mãos grandes e largas, na sua voz. Fiquei pensando o quanto que aquilo tudo era pequeno pra continuar. E cheguei à conclusão, guiado por cenas soltas na cabeça, que toda a minha raiva pela sua existência só fazia você existir. Fui embora enjoado, enojado, nervoso, morto, tremendo, feio, estranho, passando pelo meio dos carros com a mente em tumulto, ainda meio corcunda. Do alto do seu prédio estava você, pela primeira vez, olhando pra baixo – contrariando sua coluna sempre reta e peitos estufados -, pela primeira vez me enxergando maiúsculo. Eu me senti, pela primeira vez, vivo, inteiro, dono da minha vida.

Eu nunca fui feliz no Réveillon

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Já tá tudo combinado pra passar o Ano-Novo na Praia do Forte. Cada um dos oito amigos paga dois mil quatrocentos e vinte e nove reais. Pelas contas, esse valor inclui aluguel de uma casa imensa com uma vista maravilhosa, limpeza feita pelo caseiro, almoço e jantar feitos pela mulher do caseiro, segurança feita pelos filhos do caseiro, e muitas garrafas de espumantes e outras bebidas que obviamente vão acabar bem antes do previsto. Pensei em pedir um desconto porque eu bebo pouco. Mas não quero ninguém me dizendo que paguei menos do que todo mundo e por isso tenho que ficar num quarto vagabundo. Prefiro pagar o que tenho que pagar do que ficar com uma calculadora atrás dos outros. Ninguém gosta de dificuldade na hora de pagar conta. Muito menos eu. Mas espero, sinceramente, que quando der onze da noite e toda bebida tenha acabado e façam aquela rodinha pra abrir carteiras e arrecadar dinheiro tenham a decência de não me pedir um centavo. Porque eu bebo pouco.

Faço a mala sob a condição de “vou porque quero e volto quando quero”, mesmo que pareça loucura voltar meia hora depois de chegar. Eu nem queria ir pra esse negócio. Eu nem gosto do Réveillon. Eu tenho, na verdade, pavor do Réveillon. Nunca gostei do último dia de nada. De um emprego, aula, viagem, namoro. Muito menos do último dia do ano. Por mais que eu quisesse que aquilo acabasse, por mais que eu sentisse que não dava mais, por mais que eu precisasse do fim de alguma coisa pra começar alguma coisa. Nunca passei qualquer fim que seja sem ter chorado desesperadamente. O último dia sempre me assusta, sempre me traz mais angústia, sempre me deixa com um nó na garganta que não desata. Comemorar o fim sempre me pareceu tão triste, cruel, estranho, perverso, devastador. A sensação de desespero sem socorro. A vontade impulsionada de me isolar. A vontade enorme de sair andando, andando, andando, andando, andando, andando, andando, andando até que eu chegue a algum lugar que eu não sei onde é. O pavor que o tempo inteiro me pede calma. O sorriso assustado de puro nervosismo. Os pés frios, as mãos suadas, o sangue passando quente pelas veias.

Vinte para meia-noite e meus amigos já estão alegres demais e piadistas demais e teóricos demais e penso que eles estão bêbados demais. Os fogos começam e acho isso tão triste, cruel, estranho, perverso, devastador. A praia em frente está muito bonita, com gente muito bonita andando de branco, e o teto cheio de bexigas brancas. Tudo tão bonito. Mas a minha estética psíquica enxerga feiura. Aí eu largo o corpo com a bebida do verão. Aí eu deixo o prato com o pedaço de peru. Aí eu sumo. Aí eu desapareço. E todo mundo começa a fazer piada com isso: “deixa, ele é assim mesmo”. Uma bola de pelo sufoca a minha garganta e eu quero algo que não é nem a minha mãe e nem a minha casa e nem o meu cachorro. Ou talvez seja tudo isso. Olho os táxis parados ao redor da praia e a bola de pelo vai se desfazendo aos poucos. Eu posso ir embora. Mas de onde? Mas pra onde? Eu sempre querendo ir embora. Tá, mas pra onde? Quero um abraço e um colo que nunca conheci. Mas não é de homem, de amor, de carinho que eu preciso. O que é, então? Sinto tanta coisa dentro de mim e ao mesmo tempo não sinto nada. Sinto a fúria da vozinha que mora na minha cabeça. Sinto o buraco sem fundo do poço desmedido da vida. Uma queimadura no estômago que não é azia. Uma ânsia que não é de fome. Um enjoo que não faz vomitar. Um frio que não precisa de casaco.

Sento sozinho no banquinho do jardim e choro. Não existe motivo específico nem uma dor específica. Será que eu choro por que perdi a pureza da infância? Por que sinto saudade da adolescência, quando eu fazia listas enormes e milhares de planos pra ser feliz na vida adulta? Será que é a realidade à tona de que a cada ano perco mais um ano? Será que é o pavor por saber que a cada segundo eu fico mais velho? Será, então, que é o medo da morte? Mas se eu não tenho mais vontade de viver como antes, por que eu tenho medo da morte? Será que é o medo da morte da minha mãe? Da minha irmã? Das minhas sobrinhas? Dos meus amigos? Será que choro a certeza de que tudo chega ao fim?

Me destruo de chorar por tudo isso e por nada disso. Choro pela violência no mundo e a minha falta de bunda. Choro porque, enquanto eu e outras milhares de pessoas comemoram com suas taças na praia descolada, com a roupa descolada e a bebida descolada, outras milhares de pessoas passam frio, fome, tentam sobreviver em filas de hospitais, embaixo de viadutos. Choro pela minha intensidade que não cabe em mim, pela minha arrogância que não me leva a nada, pela minha superficialidade maior do que o universo, pela minha falta de tempo em cuidar da saúde da minha mãe. Choro por causa do cara certo que foi embora e se ele foi embora é porque ele não é certo, então choro ao agradecer por ele ter ido embora. Choro porque todo ano eu peço pra ser feliz. Choro porque desisti de fazer simpatia pra ser feliz. Choro porque sou a pessoa mais sozinha do planeta e, ao mesmo tempo, por ter uma família linda e milhares de amigos lindos me cercando. Abro a agenda do smartphone. Pra quem eu quero ligar? Ninguém. Pra quem eu sinto vontade de ligar? Ninguém. Nem é saudade de gente. Nem é necessidade de falar e ouvir coisas bonitas. E aí, faço o que com isso?

Chama Murilo porque faltam cinco minutos pra meia-noite. Não, deixa ele no jardim. Ele é assim mesmo. É falta da família, do namorado, da cama? Não, ele é assim. Deixa ele. Daqui a pouco ele tá escrevendo no escuro do quarto. Tá chorando sentado no vaso. Tá tomando mais um banho pra limpar o que não é sujeira. Deixa, ele é assim mesmo. Coloca aí “Lígia”, de João Gilberto, pra eu chorar mais? Quando ele diz que não gosta de chuva e não gosta de sol, eu me identifico. É tão estranho parecer que não pertence. Não é de gosto, mas é de não gostar. Entende? Coloca? Não, Murilo. Ninguém quer ouvir João Gilberto no Réveillon, tá louco? A gente vai colocar Chiclete com Banana. Oi? Isso. Sério? Sério. E eu, mais uma vez, me pergunto por que saio de Salvador no dia que mais tenho pavor de viver. Por que eu me meto no Litoral Norte se eu não suporto isso aqui? Por que eu tento, mais uma vez, parecer normal pra tanta gente que não é normal? Mas se eu contar isso pra uma das meninas que está na casa, ela vai me pedir calma porque “bad de bebida é assim mesmo” e que “um café bem forte resolve”. Então eu nem conto pra uma das meninas. Mas se eu contar pra um dos meninos que está na casa, ele vai me pedir calma porque “o ano foi bem tenso mesmo” e que “tomar um banho de mar resolve”. Então eu nem conto pra um dos meninos.

Não é efeito de bebida. Não é problema com os problemas do ano. Não é de café que eu preciso. Não é de banho de mar que eu preciso. Ninguém entende nada. Então eu fico no jardim olhando a agenda do celular. Não quero falar com ninguém. Olho essa agenda, apenas, pra lembrar que existe uma lista de pessoas que faz parte de coisas do meu dia a dia. Que uma hora essa rotina volta. Daqui a pouco eu volto e tudo volta. E isso que eu sinto passa. Falta um minuto e as pessoas esperam entusiasmadas. Acabou. O ano virou. Ufa. Acabou. Eu olhando pros fogos fingindo emoção com medo de que alguém, na euforia, derrube a taça de champanhe na minha roupa. Acabou. Daqui a pouco todos estarão tão bêbados e cansados que eu poderei ser estranho, patético, infeliz, insuportável. E poderei, finalmente, tirar a fantasia de gente feliz e otimista imposta pela ditadura da alegria. E poderei, finalmente, respirar. Ou dormir. Ou fazer cocô. Ou sumir de vez sem ter que dar explicação. Acabou.

Três e meia da manhã, em meio a bexigas murchas, gente caída no canto da casa, conversas desconexas de gente bêbada e iPhones descarregados, sinto a felicidade chegando como um orgasmo múltiplo, desses que chegam bem tímidos, mas que, no fundo, são fortes e necessários pra melhorar a alma e a pele. Canto bem alto Chiclete com Banana. Rebolo a minha bunda dançando Chiclete com Banana. Abraço o resto das pessoas sonolentas e sem energia que sobram no resto da festa. Encho a minha taça de champanhe. Agora é a minha vez. Enquanto todos acabam de festejar o fim do ano, começo a festejar o fim dos festejos de fim de ano. Acabou o Natal e o Ano-Novo. Agora que não me obrigam a ser feliz quero sorrir pra tudo. Agora que todo mundo pode dormir em paz, quero correr pela praia de canto a canto. Eu nunca fui feliz no Réveillon. Eu nunca fui feliz no fim de nada. Mas sempre dou um jeito de ser feliz quando eu consigo suportar chegar até o fim.

Domingo é Natal, mas você não tem culpa

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Matheus Gazola

O elevador do meu prédio não demora mais do que contar até nove. Mas até chegar ao sexto andar sou agraciado por uma enxurrada de “Feliz Natal” e “muita saúde, paz e prosperidade”, somada com mãozinhas que acariciam casaco, sorrisos de canto a canto e olhares de suposta bondade de vizinhos que sequer me dão bom dia de janeiro até meados de dezembro.

A louca do apartamento ao lado que não me deixa dormir porque passa a noite inteira discutindo com o gato na ausência do namorado. O lindão do apartamento de cima que tá sempre perfumado, que tá sempre engravatado, que tá sempre tão educado ao telefone, mas nem agradece a seu Amadeu por abrir o portão da garagem, porque tá sempre atrasado. A bonitinha do apartamento de baixo que todo dia detona a filha adolescente porque ela é gorda, que detona o marido porque ele ganha pouco, que detona a sogra porque ela é velha, que detona a empregada porque ela é pobre: FELIZ NATAL PRA VOCÊ, VACA.

Eu não sei qual é o problema das pessoas. Mas o meu problema é que eu odeio o típico clima natalino imposto e suas atitudes robóticas impostas e essas pessoas falsas pra cacete. É algo como “você PRECISA esquecer que eu te sacaneei o ano inteiro e confirmar presença nesse amigo secreto” ou “eu sei que a gente mal se olha no corredor do trabalho, eu sei que se eu pudesse você nem estava mais aqui, eu sei que eu caguei pra você o ano inteiro, mas AGORA, na data do nascimento de Cristo, a gente PRE-CI-SA deixar de rancor”.

Semana passada, por exemplo. Me toquei que eu nunca simpatizei com a decoração de Natal de Salvador. Porque 1) ela é tosca; 2) quem decora parece estar pouco se lixando pro espírito natalino, mas sim preocupado em exibir a marca do patrocinador; 3) ela, quando você lembra que os assaltos no Campo Grande ainda existem, faz você entender que essa felicidade reluzente não te livra da angústia.

Ontem, por exemplo. A região do Iguatemi fica a menos de vinte minutos de casa. Mas, como estamos às vésperas de Natal — e a multidão lota loucamente o Shopping da Bahia, e a multidão lota loucamente as passarelas, e a multidão reduz loucamente a velocidade  dos carros pra poder estacionar, e a multidão atravessa loucamente pelo meio dos carros sem se importar com o sinal aberto —, a região do Iguatemi pode ficar a mais de sete horas de casa. A região do Iguatemi pode ficar a “vou ter que desmarcar tudo que eu planejei pro resto da vida” de casa dependendo do dia e da hora que eu decida seguir a minha vida. A região do Iguatemi pode ficar a “que merda eu tô fazendo aqui?” dependendo da hora que eu decida ir. A região do Iguatemi, com mil vias, mil estabelecimentos e mil obras, pode ficar a “caramba, você vai de bicicleta a Marte?”, dependendo da hora que eu decida voltar.

Todos os meus namorados, todos os anos, sempre me culpando: “a gente deveria ter ido pelo caminho que falei, mas você nunca me ouve”, “se você não demorasse tanto pra se arrumar, talvez a gente não pegasse essa merda de trânsito”, “não aguento mais essa cidade e essas festas e esse trânsito vagabundo e você cada dia mais se prendendo a isso aqui”. Não é impressão, muito menos coisa da sua cabeça: todo mundo resolveu mesmo se locomover na cidade pra comprar presentinho nessa época do ano, mas a culpa não é sua.

Domingo agora, por exemplo. Mais uma vez a família inteira reunida na casa de tia Izildinha. Mais uma vez as cobranças, o barulho das crianças, as risadas altas dos adultos, as histórias do Natal de 1972. E, como o Natal de todas as famílias é igual, mais uma vez vão te culpar por tudo que puderem. Sua avó vai, mais uma vez, dizer que não aguenta mais as dores na cervical e na lombar. Vai dizer, mais uma vez, que é melhor pra ela e pra todo mundo que ela morra logo no próximo ano. E você, que é um dos netos que pouco visita, vai se sentir culpado pelo desejo de morte da vovó. Mas grava isso: você não tem culpa.

Sua tia vai reforçar que você sumiu do mapa. Tudo bem que você trabalha o dia inteiro, estuda, faz parte de mil projetos profissionais e precisa ganhar dinheiro pra se sustentar, mas custa aparecer pra rever pela milésima vez o álbum da família? Ela vai explicar que bolo pode solar se você abrir o forno antes dos 30 minutos. Vai explicar que bolo pode solar se você colocar uma ML a mais de leite. E porque você está cansado de todo o trabalho que fez durante 360 dias no ano, você simplesmente vai cochilar enquanto ela fala. Ela vai dizer, mais uma vez, que você tá sempre desinteressado nos assuntos da família. Mas grava isso: você não tem culpa.

Seu tio vai contar aquelas piadas velhas de sempre. E, bêbado, vai dizer que “bunda de viado fica intacta no caixão porque o que é do homem o bicho não come”, e você, reacionário, vai ser o único a não rir. A namorada de voz nasalada do seu primo vai comentar o concurso de beleza do programa de TV, dizendo que acha a loira mais bonita do que a “moreninha” e nem tente dizer que é racismo. Vão chamar travesti no masculino, dizer que mulher precisa se dar o respeito pra não ser assediada, que cinema brasileiro é uma bosta. Se você tentar explicar, vão revirar os olhos e dizer que você sempre leva tudo muito a sério, mas grava isso: você não tem culpa.

Ando muito cansado das famílias e suas árvores de Natal enfeitadas de mágoa, ignorância e preconceito. E os doces e empanadas das tias com gosto de mágoa, ignorância e preconceito. E as crianças arrumadinhas, com seus cabelos arrumadinhos, correndo pela casa inteira, querendo que o priminho morra porque de novo ganhou mais presentes. E eu, por mais um ano, forçado a fazer coisas terríveis.

A melhor parte do Natal é quando, lá pelas duas horas da manhã, eu vou para o terraço da casa de tia Izildinha e fico em silêncio olhando as luzes dos apartamentos, aos poucos, se apagarem. A melhor parte do Natal é quando tudo fica escuro e eu, finalmente, me sinto sozinho.

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