Gata, sai daqui com seu glitter

Texto: Murilo Melo

Meus vizinhos do prédio em frente fizeram um protesto dia desses porque o síndico anunciou aumento no condomínio. Por que cobrar mais cinco reais na conta do mês de “pobres jovens universitários estagiários que pra pagar o Uber dependem do cartão do pai que é fazendeiro no mesmo interior que Zezinho não sei das quantas” só pra aumentar o salário do porteiro, do zelador e do jardineiro? Por que, senhor? Pra quê? Mas o engraçado (ou triste mesmo) é que, no Carnaval, eles alugam minitrios, compram fantasias e caixas e caixas e mais caixas de cervejas por preços exorbitantes. Vaquinha?

Às 8h de sexta-feira, os grupos desses pobres jovens universitários e dos seus amigos pobres jovens universitários ainda não estavam formados, mas, do alto da minha casa, pude ver o empenho de alguns deles em montar barracas e caixas de som e isopor, gritando, de minuto em minuto, “Ôeêh”, em coro audível até a França, anunciando pra se preparar porque “hoje tem”. O trânsito em nada atrapalha, imagina, essa não é a intenção da turma dos bloquinhos, embora, vezenquando, motoristas estressados soquem as buzinas (porque duplas dançam algum funk no meio da rua), somando ódio de tudo isso com um desejo quase inconsciente de ajudar no caos. Prepare-se, hoje tem.

Eu, um ser cansado por uma cobertura jornalística carnavalesca de site, só queria dormir mais um pouco. Dona Iraci, vizinha de porta, de 68 anos, só não queria mais ter enxaquecas e arritmias e não sentir as paredes tremendo por um pancadão. Seu Luiz, marido de dona Iraci, só queria passear com o cachorrinho em paz e transitar no meio da multidão sem pisar em xixi e sem levar cerveja na cara. Mas nem eu, nem dona Iraci, nem seu Luiz, nem ninguém dos doze prédios espalhados pela rua fala nada. Vai fazer o quê? Tacar ovo? Chamar a Sucom? Nos calamos sob o pedido de paciência mental de que “deixe de ser chato, é Carnaval” ou, pior, “pode parecer mais inveja do que direito”. Um misto de indefesa e tolerância.

Eu não tenho problemas com você que acorda cedo pra pular Carnaval. Desde que você não grite na minha porta como se não houvesse amanhã. Eu não tô nem aí pra você que passa o dia inteiro no sol, sem desodorante e sem filtro contra raios UVA e UVB, só porque precisa ver Baiana System, só porque precisa pertencer àquele mar de gente, só porque precisa sentir aqueles batuques e aquele cheiro de maconha que considera terapêutico. Eu não tenho problemas com você que vem andando da Avenida Sete até Ondina. Que compra bebidas que corroem fígados como ácidos, que bebe e pula e fuma e bebe mais e não vomita nem passa mal com a pressão cinco por dois e nem com a hipoglicemia e nem morre.

Eu não tô nem aí pra você que pisou em setenta e duas pocinhas de xixi e depois vai pisar com os sapatos no tapete da sala de casa. Que faz xixi em qualquer canto sem nojos e sem medo de câmeras e olhares curiosos. Que sai abraçando centenas de pessoas e, consequentemente, tem centenas de suores da raiz do cabelo até a sola dos pés. Que acha graça em colocar lantejoulas até no pau (sim, essa é pra você). Que não sente pânico quando não alcança o chão no meio do bloco.

Eu não me importo que você sai fantasiado de “baranga” sem nenhuma vergonha de encontrar seu quase sogro e chefe sério e aquela tia que sempre achou você “meio gay”. Eu não tô nem aí pra você que, no fim da folia, não aguentou o sapato apertado e deitou no mesmo cantinho do mendigão. Eu não tenho problemas com você, do meu prédio em frente ou que nem mora na minha rua, mas veio pra cá encher o saco, e ejaculou e cagou na minha porta. Foda-se vocês e a alegria de vocês. Foda-se que você estudou jornalismo, design, publicidade, letras, cinema, arquitetura, usa anel no dedo do pé e ouve MC Loma. Eu sei, você enlouqueceu, você não trabalhou, você foi feliz, você tem amigos, você não sente angústia, você não se apega, você é descolado, você adora relacionamento aberto, você não quer aperto de mente, você só quer bebeeeeeeer. FO-DA-SE.

Mas eu tenho problema com você que, ao me ver andando na minha paz, com medo de perfurar o All Star com vidro de retrovisor quebrado, sai do bloquinho (pingando cerveja e sem desodorante e com resquícios de xixi e de suor e de lantejoulas do pau dos outros) e corre em saltos longos e desesperados pra me dar um abraço e acaba deixando meio quilo de glitter em mim. Essa porcaria que não serve pra nada a não ser aumentar a conta de água. Mas tudo bem, esse ano eu tolerei. Tem brilho até no meu estômago. Mas ano que vem, se Deus quiser, tem mais! E quando você passar pela minha porta gritando “Ôeêh” oito horas da manhã, vai levar um balde inteiro de glitter na cabeça. Feliz Carnaval!