Na sexta, saia sem a bolsa

Assim que desci do Uber pra entrar no Chupito uma amiga correu pra me avisar: “Ó, você se prepara. Ele tá aí. E tá muito bem acompanhado”. Eu sabia, eu sabia. Minha intuição não falha. Eu ia direto da Ufba pra curtir a sexta-feira no Rio Vermelho com meu jeans surrado, meu All Star branco encardido, uma camiseta básica qualquer e duas bolsas com vinte livros cada quando tive a ideia maravilhosa de voltar pra casa e mudar minha roupa inteira. Eu era agora um homem muito bem penteado, com um corte de cabelo moderno, barba feita, jaqueta jeans da Reserva, calça com caimento justo e um perfume que fazia rostos desconhecidos virarem a duas quadras de mim. Um arraso.

Ah, ele então arranjou tempo, pela primeira vez na vida, e resolveu sair pra se divertir no fim de semana? Ele então esqueceu que existem prazos e relatórios e planejamentos, pela primeira vez na vida, pra poder beber com o novo namorado? Ele então aprendeu a gostar de frequentar bares de vinte metros quadrados e de música alta sem reclamar? Sem problemas. Eu não vou embora, não. Eu vou ficar, eu vou pra pista, eu vou aproveitar que estou sem bolsa e dançar até o chão todas as músicas pop, ragga, zouk, salsa eletrônica, funk, com a bunda que nunca tive.

Abracei um DJ desconhecido, falei com todos os bartenders, cumprimentei pessoas aleatórias só pra ele ver que depois que a gente terminou eu havia me transformado no rato da noitada. Escolhi o melhor ângulo (aquele que mesmo com uma venda ainda dava pra me ver), pedi o chupito número 1, depois o 2, 3, 15, comecei a dançar ridiculamente pela pista abraçando um ou outro amigo e me esfregando no balcão do bar. E ria, ria, eu só fazia rir. Eu era a pessoa mais feliz do universo.

Um amigo correu pra falar no meu ouvido: “Ele tá lá na frente pegando uma ficha pra comprar bebida com aquele cara bonitão que você conhece”. Eu não tô nem aí. O bonitão burrinho e interesseiro que passa o dia inteiro na academia e tem uma franja gigante pra esconder a testa gigante não vai estragar a minha noite. Tudo bem que eu tô ficando com uma barriguinha aqui, um pouco flácido ali, mas ao menos sei conversar uma ou outra coisinha com ele e nunca andei de mãos dadas com a função de manequim só pra ganhar presente em troca. Foda-se.

Depois vem outra amiga (tô começando a desconfiar dessas amizades), puxa meu abraço, me leva pro canto, e me conta discretamente: “Você viu o menino que ele tá? O nerd. Diz que ele faz doutorado, morou na França e tem sete livros publicados”. Um nerd? Não era o clássico burrinho gostoso? Que seja, foda-se. Um nerd não iria estragar minha noite, não. Eu estava com um corte de cabelo maravilhoso, com barba alinhada, jaqueta jeans da Reserva, calça com caimento justo e um perfume caríssimo. Tava tudo certo.

Porque eu estava sem bolsa, saí procurando pelo Chupito pra conferir. Pra ter uma opinião. Pra dar um pouquinho de risada. Pra me sentir um pouquinho deprimido. Pra constatar o que, talvez, fosse doloroso. Será que o bonitão da academia a essa altura tava aos beijos com ele? Será que o nerd-doutorando-poliglota-escritor estava num papo intelectual sobre Proust, Monet e Deleuze? Porque eu estava sem bolsa, continuei procurando pelo Chupito pra conferir até que o encontrei parado na varandinha perto da escada com dois botões abertos da camisa e o mesmo Vans preto e branco de sempre.

Enquanto ele experimentava um chote de aperol, espumante e laranja das mãos do bonitão da academia, o nerd-doutorando-poliglota-escritor esfregava os braços nele, falava mais próximo da boca dele, dançava mais coladinho dele. A varandinha ainda abarcava um loirinho meio surfista, um negão careca (e também bombado), um branquelo sem sal (tão sem sal que às vezes nem parecia estar ali) e um ser grandão quase curvado com um brinco gigante que eu não sei se era trans, travesti, não-binário, gay ou hétero descolado. Todos em volta dele. Todos falando coisinhas no ouvido. E dando bebida aqui, beijinho ali. Ele não estava com o bonitão da academia nem com o nerd. Ele estava num harém, numa festa Baco.

Eu imagino ele tirando o cartão de débito da carteira e passando de mão em mão na roda pra comprar o que eles quiserem. Eu imagino ele convidando todos da roda pra prolongar a baladinha na casa dele de oito andares: copos, piscina, música, gritaria, fumaça.

Eu parado na porta. Ele finge que não me vê, mas me vê olhando. Fecha um botão da camisa, depois o outro. Se ajeita no banco de madeira. Conserta um pouco a franja ensebada. Aperta com um braço a cintura do bonitão da academia e com o outro a cintura do nerd-doutorando-poliglota-escritor.

Chega, chega. Cansei. Isso é demais pra mim. Chega. Ainda que eu ficasse com os trezentos homens que me paqueram nesse bar, ainda que eu subisse no balcão pelado e dançasse Britney Spears, eu não ganharia dele. Ele tinha convencido que estava bem, por cima, acompanhado, tranquilo, feliz, interessante, mudado. Agora só restava me convencer a ir embora. Tudo bem, tudo bem. Respirei fundo e contei até cem até o Uber chegar. Quantas vezes eu tinha saído com caras mais bonitos e mais interessantes do que ele? Quantas vezes ele já havia ido me buscar no jornal pra um jantar e eu tinha dado um ‘não’ por pura preguiça? Quantas vezes ele já havia me ligado implorando por uma praia, por um cinema? Ele só estava me dando o troco.

Cheguei em casa arrasado, triste, mal-humorado. Arranquei aquela jaqueta ridícula da Reserva que impregnava o perfume ridículo e arremesei a calça com caimento justo ridículo o mais longe do quarto. Coloquei, querendo morrer, minha samba-canção de listrinhas e pensei que a essa altura ele certamente transava com aqueles duzentos homens que certamente usavam cuecas muito mais sexy.

Bento, meu cachorrinho, pulou na cama, se encolheu junto ao meu corpo e deu um respiro fundo. Que dor pra esse pobre rapaz de cabelo bem penteado e barba feita ter que apagar as luzes e dormir no escuro, sozinho, em plena sexta-feira, com o coração dilacerado, enquanto o ex encoxa duzentos homens na balada. A velha e cruel sensação de que o planeta inteiro é relaxado, o planeta inteiro dá a volta por cima, o planeta inteiro é desejado, o planeta inteiro é leve, o planeta inteiro se diverte, dança de verdade, transa, goza, se dá bem, faz a vida acontecer… e eu continuo forçando um corte de cabelo, forçando uma roupa da moda, forçando um sorriso, forçando mais uma noitada.

O primeiro estágio do meu sono foi interrompido com o celular vibrando na mesinha lateral da minha cama. Era ele com a vozinha carinhosa que, depois de tantas brigas, eu nem lembrava mais como era: “Posso dormir aí com você? Aqui tá chato. As pessoas são chatas. Eu me sinto triste. Conversa comigo. Quero abraçar você. Acho que te amo”.

Você não é especial

Nosso namoro acabou durante uma festinha de gente alternativa que odeia jornalismo e ama literatura, mas adora jornalista e detesta ler. Na varanda: “É porque, Murilo, você tá o tempo inteiro dando notas pras almas. O tempo inteiro analisando, julgando. Então eu fico me podando o tempo inteiro pra te fazer feliz. Eu me sinto mal com essa relação-prova-final”. Ele passou quase um ano me dizendo que queria me ver, mas os dias eram complicados. Eu dizendo pra uma amiga o quanto eu queria que ele me encontrasse, mas ele era complicado. Porque todo o resto do mundo precisava dele e eu era apenas uma das demandas da agenda. Quando ele me chamou de demanda, um nó travou na garganta e eu tive certeza que não merecia aquilo.

Antes dele teve outro. O outro que eu não sei bem o que foi porque ele era aficionado por começos. Eternamente “numas de namorado, mas ainda estamos nos conhecendo”. Eternamente numa busca pelo que acaba daqui a pouco e que não se repete ou não se prolonga. No Outback: “Fica sussa. Acontece se tiver que acontecer”. E eu me disse: “Puta merda, nem esse cara sabe quem ele é”. E resolvi ir embora pra sempre.

Quarenta e cinco dias depois, conheci o homem mais leve que eu já conheci na vida. Eu estava cansado de ser taxado pelas pessoas por causa do meu trabalho de escritor. “Ah, é Jornalista, blogueiro, vendido pela mídia golpista, escritor de um livro só, se acha o dono da verdade, só escreve sobre a vida dele, só fala sobre macho, mas isso é literatura?, quem é esse garoto?, rodado, não passa de três meses com um namorado, quem vai ficar com um problemático?, quem ele está pegando pra ter coluna em site e jornal?, sem noção, bicha azeda, eu preferia o outro Murilo, aquele que escrevia sobre amor inocente, mas agora ele fala de sexo, agora ele fala de ansiedade, histérico, se expõe o tempo inteiro, tem que tomar remédio mesmo pra deixar de ser louco, coitado, vai morrer sozinho”. Até que encontrei nele calmaria. Até que ele foi deixando camisas e cuecas e escova de dente na minha casa. Até que um dia, acho, ele percebeu que eu não servia pra ele. Até que um dia, acho, ele percebeu que tudo que dizem sobre mim possivelmente é verdade. Até que um dia ele foi embora.

Depois veio outro namorado. Dois meses planejando uma viagem ao Capão. Eu me contorcendo com bolsa térmica gel, tomando Omeprazol pra não morrer com gastrite, e ele realmente preocupado se no dia seguinte choveria muito na Fumaça, ou algo parecido, pra ele fazer trilha. “Olha bem pra mim”, eu morria de vontade de dizer pra ele. Eu estava completamente preocupado se minha mãe morreria no São João, mesmo ela ainda sendo muito jovem e saudável. Preocupado se haveria congestionamento até a Ufba, se eu corria o risco de pegar um ônibus com um louco que sempre grita “tô muito louco”, almoçar em horário de almoço, dormir oito horas por dia, morrer sem sentir dor.

Ele era bem lindo. Passei a tarde inteira me perguntando, ao colocar o moletom, a manta e o cachecol de lã na mala, se valia a pena tudo aquilo. A barraca de camping, o fato de ele ser lindo, o mato e todos os mosquitos que compõem a cena de amor. Fiquei imaginando a festa que haveria todos os dias e todas as horas até o amanhecer, com todos aqueles jovens libertários que acordam assim zero enxaqueca e sem precisar de relaxante muscular, aturando aquela conversa de “energia”, “inferno astral”, “vida que segue” pós-banhos de cachoeira e adoração ao sol. E meu grito, com um efeito de eco de esgoto, no meio daquela música alta. “Você vai adorar os meus amigos”, ele dizia. Fechei a mala e fui. Eu sempre vou.

Daí eu perguntava pra ele o que esses jovens libertários faziam da vida e ele não entendia por que eu queria saber essas coisas. E daí se uma das meninas já passou dos vinte e cinco anos e ainda não sabe se é arquitetura, biologia ou fisioterapia, se um dos caras não trabalha porque já tem um pai que trabalha e recebe uma bolada de mesada? E daí que todo mundo tem uma necessaire com LSD e cocaína e bala e ecstasy? E daí que eram apenas jovens libertários curtindo o agora?

Eu a noite inteira tentando uma conversa consistente com algum jovem libertário. Quis perguntar a uma das meninas maconheiras amiga dele: “mas me conta, que horas do dia você sente angústia?”. “E crise do pânico?”. Quis perguntar a um dos amigos dele que bebia vodca há três dias sem parar: “Cê acha que um dia a gente para de sentir vontade de vomitar as aflições do mundo?”. Eu desistindo e largando todos eles com seus copos e fumaças – talvez meio enjoado, talvez meio entediado, talvez com saudade da minha bolha – e me trancando na barraca, fazendo exercícios de respiração e implorando pra que a minha pressão voltasse ao normal. E todos eles lá fora comentando: “Que viado doido. Podia estar aqui agora com a gente”. E ele lá fora preocupado com a fogueira, com o vento, a porra da lua e todo o resto do planeta. Chegou a hora de eu ter a minha liberdade.

Passei um século da minha vida dividindo a rotina, a mesa do café, as sacolas do supermercado, o controle remoto, a louça suja, a panela de brigadeiro, as festas, a mesa no restaurante, o braço da poltrona do cinema com trezentos mil meninos que no fundo só eram meninos. Lembro da voz da minha analista: “Você precisa cuidar da sua vida”.

A gente perde muito tempo com gente que não faz sentido, com gente que não tem nada a ver. E tenta e se descabela e se doa e tenta de novo. O tempo inteiro sendo alguém que nem o outro quer. O tempo inteiro sendo alguém que nem o outro faz questão da existência.

A gente perde muito tempo com gente.

Será você meramente mais um personagem efêmero da minha trama?

A luz do sol invade o basculante do banheiro enquanto ele ensaboa os cabelos, a barba, os braços e as pernas. O dia tá lindo lá fora e é a primeira vez que ele se sente disposto a acordar antes das sete numa segunda-feira. Às nove ele tem uma reuniãozinha chata com o chefe pra discutir lucros e orçamentos pra novos projetos, mas isso pouco importa. É no “não vai tirar a minha paz” que ele gosta de começar a semana. Ele desliza os dedos no cabelo ao dançar e cantar as músicas que tocam no autofalante do iPhone: Radiohead, Oasis, Phoenix, Foster the people. Cabe alguma música brasileira aí? Ele aproveita a neblina do chuveiro quente no box do banheiro porque acha poético e coloca Caetano e depois Cazuza e passa por Legião e para em Chico. E fica bobo ouvindo Chico. E repete. Ele tá obcecado. E lembra de mim ontem à noite explicando que sou apaixonado pelo ex de Marieta Severo. E lembra de mim interpretando cada música, dançando cada música e me entregando aos excessos sem colocar freios na intensidade.

Ele repete trechinhos e trechinhos e ri. É que em algumas partes ele lembra que foi ali que eu sorri diferente pra ele naquela festinha cheia de gente descolada, bonita, bem vestida, chata e com papo raso. Foi ali que aconteceu o primeiro beijo entre a gente. Foi ali que a gente percebeu que os sorrisos e os olhares e a quentura dos corpos basta. Ele quer de novo. A noite, a festinha e tudo que acompanha quando nós dois estamos juntos – os sorrisos, os olhares, a quentura. Como é que eu entendo um homem desses? Ele vivia dizendo pros amigos que estava bem sem ninguém. Que depois de terminar com o namorado, conhecer um menino aqui e outro ali, era tranquilo. E que ele já nem se lembra como é ter alguém pra gostar. Se adaptou a procurar. E diz que encontrar alguém dá uma insegurança danada. Medo, dúvida, ciúme, uma sensação estranha de estar se perdendo.

Ele corre, pega o celular, abre a minha foto de perfil do WhatsApp, fica lá olhando por dez minutos e se pergunta: “Como ele consegue ser tão solto e sincero desse jeito? Será que eu vou querer namorar com esse louco que fala mais do que tudo? Será que esse louco que fala mais do que tudo vai querer namorar comigo?”. Ele não pisca os olhos até o último gole do café, ainda ouvindo Chico sem parar, repetindo, trocando de álbum no Spotify. Tá obcecado.

Aí ele lembra. Puta que pariu. Eu escrevo. Sem pudor, sem nenhuma neura de expor a minha vida. Falaram pra ele. É mesmo: escreve assim na lata, sem ligar pro que os outros vão achar. Isso é perigoso. E se pergunta: “Será que já deve ter alguma crônica publicada na internet comentando sobre a noite de ontem? Será que eu vou ser mais um personagem dele pra vender livro? Será que ele gostou de mim? Será que ele gostou da nossa primeira vez? Será que ele vai publicar o meu desempenho na cama? Será que ele vai achar que foi só ontem e que eu sou tão escroto quanto mais da metade dos caras foi com ele?”.

Ele corre com o carro entre a Barra e a Pituba. O som um pouco mais alto do que nos outros dias. O trânsito maluco por causa da reforma que a prefeitura faz em Ondina já não incomoda. O banco do carona tem meu cheiro. Ele sorri bonito, de canto a canto. Os motoristas que param ao lado dele, no semáforo, não entendem. Ele vai trabalhar feliz depois de muito tempo. Ele espera uma velhinha atravessar ouvindo Chico. Caravanas? Sim, de novo. Vai ouvir o álbum o dia inteirinho. Certeza. Agora ele corre mais com o carro. Ele precisa chegar ao trabalho e revirar a minha coluna na internet. “A noite foi maravilhosa. Foi incrível. Ele não vai falar mal de mim. Nem vai falar bem. Não vai falar nada. Talvez isso seja bem pior. Vai parecer que não teve importância. Nenhuma”, ele pensa. Tadinho.

Como ele quer que eu seja misterioso. E suma durante todo o dia de hoje. E não ligue no fim da noite perguntando por que a gente precisa ser assim. Ele quer passar o dia inteiro ansioso querendo saber no que vai dar. E sentir o frio na barriga. E o nervoso pra saber se eu vou atender ou não o telefone quando ele voltar do trabalho. Não seja fácil, Murilo. Não seja burro. Não fica aí com o celular na mão pra atender no primeiro toque. Não escreve que gostou. Não vai dizer que na festa, no meio de três mil pessoas, você se sentiu sozinho até ele chegar. “Deixa eu sofrer um pouco. Deixa”, ele implora. 

Ele passa a reunião inteira pensando no site que eu escrevo. Roendo as unhas, agoniado, olhando as horas, suando frio. Espera ninguém passar por trás dele na sala e digita o site na URL do notebook. E erra o endereço da página. E pesquisa no Google. E acha. Não, não abre. A Vivo sacaneando. Será que precisa disso mesmo? Abriu. Tá lá. Um texto. Um texto pra ele. Um texto enorme pra ele. É o último publicado. Ele ainda não acredita. “Meu Deus, ele já escreveu?”. É a primeira vez que alguém escreve um texto pra ele. Sem contar com aquele otário da época da faculdade que pegava o caderno dele na hora da aula e escrevia frases do tipo “o que tiver que ser entre a gente vai ser”, nas últimas páginas da matéria de física. Frases que ele nem dava muita bola. Agora quem escreveu um texto pra ele foi um escritor de verdade. Ele ri alto porque se lembra de mim, no canto da festa, sem nenhuma vergonha e modéstia ao dizer que ele tava ficando com um escritor de verdade.

E é no meio dessa risada toda que ele percebe o tamanho da desgraça: ele tá gostando de mim pra valer. Não tem mais como fugir. É, dá medo, dá insegurança, mas dá vontade de gostar também. Eu também vivi tantas histórias com finais óbvios e dolorosos que cheguei a desistir disso. Gostar é aceitar que o inferno comece tudo de novo. Mas eu, quem diria, escrevi lá no texto, sem pudor, que aceito. Aceito a conquista, aceito as saídas, aceito as apresentações, aceito os defeitos, aceito a chegada do amor. Mesmo que o final dessa vez também seja óbvio e doloroso. E no finalzinho do texto, eu falo das orelhas limpas. E do cheirinho bom que ele tem. E de como gostaria de poder sentir de novo. E escrevo sem fazer mistério: “quero te ver hoje”. O que será que ele vai responder? Ele balança a cabeça e sai pelos corredores do trabalho rindo à toa, atrás de gente pra abraçar. E pega um café adoçado. Ninguém entende nada. Mas ele sabe, ele sabe. E entra e sai de sala cantarolando Chico como se a vida daqui pra frente fosse mudar: “Talvez nem me queira bem, porém faz um bem que ninguém me faz”.

Geração cabelo azul

Tô obcecado pela lojinha de Ju, uma amiga designer-estilista-hipster que abriu uma “pequena boutique” no Instagram. Na verdade, preciso confessar publicamente que estou fissurado por todos os meus amigos de 25 anos que fazem coisas lindas, que vendem “bugigangas diferentes” a preço de banana pela internet com parceria em loja física não sei onde. Mando mensagem pra ela perguntando onde ou como faço pra comprar um dos óculos vintage com armação tartaruga e uma bolsa listrada amarelinha (tô obcecado!!!!) que ela oferta no perfil: “Tem como mandar?”. E ela responde: “poxa, amigo, só trabalho de terça a quinta, das 8h às 10h, e esta semana tem feira vegana, não vou abrir a loja nem pra dar informação, muito menos pra fazer pedido”. Ju tem a minha idade, mas, ao contrário de mim, se adaptou fácil a uma geração que não quer ter chefe e prefere posar de empresária, com produtos bons e descolados, mas sem disposição pra puxar saco do cliente. Não quer paparicar, não quer ser persuasiva, não tá muito interessada em vender, é o mesmo que “sou atriz, mas não quero que você assista minha peça, arte nasceu pra morrer na gaveta, gato”.

Não sei se é porque nasci pobre (nem tão pobre assim), mas eu sempre fui muito desesperado pra vender, obcecado por ganhar dinheiro, pra fazer acontecer, pra mostrar que vale a pena em qualquer coisa que envolva capital. E essa galera hoje em dia faz como? Se realmente se sustenta, como não passa por crises financeiras e fome e está sempre em sua vidinha luxuosa? Peguei bode também porque Ju (e outros amiguinhos de vinte e poucos anos) pagam de independentes, mercadológicos-sustentáveis-conscientes e que conseguem pagar TO-DAS as contas morando na Vitória “sendo donos do próprio negócio”, mas, na real, sabemos que por trás dessa pessoa que deu certo na vida antes do trinta tem o papai milionário que tá bancando a porra toda. Até quando?

Algo similar acontece com Bia. Essa não fica em trabalho nenhum porque “não é muito a cara dela”. Ex-publicitária, ex-assessora de imprensa, ex-psicanalista, ex-traficante, agora estuda cinema. Há seis meses topou trabalhar numa produtora porque tinha “uma galera bonita e happy hour às sextas”. Trabalhava seis horas por dia, três vezes por semana e ganhava o triplo do que eu ganhava trabalhando em jornal de domingo a domingo. Passava metade do dia almoçando qualquer coisa de cor verde, conversando sobre “Game of Thrones” com a “galera”, assistia vídeo de baboseira no YouTube (e qual não é?) e cochilava no sofazinho que às vezes servia como cenário pras filmagens. O chefe dela permitiu que um feriadão prolongado de quatro dias em Boipeba virasse uma semana, que o lanche da tarde de um delivery esquema permuta fosse substituído por hambúrguer de soja ou torrada integral de aveia orgânica. Não estava bom. “Emprego fodido do caralho”. Fazia birra com o chefe, igualzinha a uma adolescente, embora já fosse adulta. E reclamava, reclamava, só sabia reclamar do “sistema capitalista bosta”, no Facebook, enquanto passava álcool em gel nas mãos. Pediu pra sair porque não aguentava tanta exploração: às vezes pediam pra ela ficar alguns minutinhos a mais, às vezes reclamavam que ‘não ficou legal’, daí é dose refazer o trabalho, né não, Murilo?

André, um amigo que fez intercâmbio na Europa, sabe falar quatro idiomas. Abandonou o curso de medicina pra vagar pelas ruas do Rio Vermelho quase irreconhecível com seu kit mendigão: roupas nudes zurrapa (a gente não sabe se é sujeira, se a roupa é velha, doada, de brechó ou se é estilo mesmo), sandália de couro, tatuagem da Shiva e Che Guevara e dreads com cheiro de lavanda, ofertando pulseirinhas e colares de linha e palha que ele produz cantando Nirvana sentado no chão perto do semáforo do Point do Japa. Por que mudou assim de uma hora pra outra? “Precisava de tempo livre pra me encontrar, me entender, fazer meu disco, minhas caminhadas, beber meus chás”. E seu disco é sobre o quê? “Eu quero esse tempo justamente pra descobrir, pra ter inspiração”. Mas, na maior parte do tempo, ele estava cercado de gente muito parecida com ele, com um baseado e bebendo sobras de São Jorge, achando que Woodstock foi ontem. Até quando?

Desde o fim da adolescência (isso há nove anos) até há poucos minutos, eu ouvi que precisava trabalhar mais e mais e mais e ter que refazer de novo e de novo e de novo. E que eu não teria tempo (nem dinheiro na conta) pra escolher trabalho A ou B. Seria eu uma pessoa explorada enquanto esses meus amigos despertaram pra um “mundo ultrajovem onde todo mundo tá cansado de viver num sistema trabalhista sacana, então vamos morrer de fome e achar tudo isso bonito”? Seria eu um velho, chato e resmungão só porque nasci na geração conectada, com os olhos vidrados e os dedos tocando a tela, e que acha que “tudo tem seu tempo e agora preciso me concentrar nesse projeto”, mas isso é um absurdo?

Meus amigos da mesma geração que eu não têm e não fizeram metade do que fiz na vida. Talvez, se eu fosse igual a eles, estaria agora sem freelas assistindo Netflix o dia inteiro e compartilhando meme de signo no Twitter. Ou no Facebook postando textões políticos com frases de efeito. Ou no Instagram fazendo selfie com cara de ryco e phyno em alguma piscina de hotel de luxo. Ou numa dessas raves que todo mundo vai pra cadeia e todo mundo tem overdose e some e ninguém mais ouve falar. Talvez eu largasse tudo pra rodar o mundo “porque é muito fácil, basta querer”. Ou eu processasse todos os meus chefes porque eu almocei em frente ao computador porque não deu pra cumprir o deadline. Ou passasse o dia inteiro, durante sete anos, na graminha da Ufba, sem saber “por que e pra que eu faço esse curso”. Ou saísse por aí gritando em postos de combustíveis ou levasse setenta gatos de rua pra casa ou estivesse encrencado em relacionamentos abertos e poliamorosos ou, por fim, chorasse em frente ao espelho do banheiro com meu cabelo azul ultrajovem “porque esta vida é difícil pra cacete”, mas na real é porque não aguento quinze minutos de responsabilidade.

Todos os dias agradeço com um sorriso de canto a canto por ter arriscado e engolido alguns sapos e trabalhos que eu nem sabia por onde começar de tão tediosos. Eu já sofri com emprego cretino e chefes burros, loucos e escrotos, mas digo com toda certeza: valeu a pena cada segundo.

Por que você não deve assistir aos jogos da Copa com seu namorado

Acordei no sábado com o barulho do grupo de WhatsApp intitulado “Bora Brasil, Minha Porra”, criado por Bernardo com a intenção de reunir alguns amigos e seus respectivos namorados no domingo, primeiro jogo da seleção brasileira na Copa. Comprei azeitona, salgadinhos, pães e queijos. Os outros meninos compraram carne, amendoim, licor e cerveja. Me vesti de verde e amarelo. Fiquei ansioso, mas não por causa do jogo, mas porque nunca sei se a quantidade de comida é suficiente, se tudo tá muito limpo, se a geladeira tem espaço e se a minha casa pode aconchegar tanta gente.

No início foi até legal. Os namorados dos meus amigos (e aqui, obviamente, incluo o meu) ajudaram a decorar a casa, prepararam a churrasqueira, colocaram as cervejas no freezer. Grupos dispersos pela casa faziam confissões. Um amigo aproveitou que o namorado foi ao banheiro e disse que tá “pensando em sugerir relacionamento aberto porque não tá dando certo”. O outro, na cozinha, sem o namorado por perto, avisou que queria viajar sozinho, mas o namorado é ciumento. Já o outro contou, baixinho, que comeu o estagiário. O quê? O foco todo se virou pra ele. Conta! Conta! Galvão Bueno apareceu na TV anunciando o jogo. Medo do namorado chegar na área de serviço e descobrir tudo. Tenso, mas conta: quem é o estagiário? Tem foto dele no Instagram? Tem? Corremos todos pra ver. Ah, não é ruim, não, hein? Mas eu não tenho coragem de trair. Nem eu. Muito menos eu. Enquanto isso, meu namorado colocou umas músicas “sofrência” só pra fazer palhaçada no meio da sala e todo mundo se animar. Latinhas vazias de cerveja começaram a ser jogadas na lixeira e quadradinhos de queijos foram devorados por segundo.

O jogo começou e a coisa foi ficando chata. “O Brasil ganhar com esta seleção fraca?”, o namorado de um dos amigos perguntou. “Neymar só faz cair”, disse o outro. “Já era, Brasil”. “Olha que árbitro filho da puta”. “Quase sai gol”. “Foi falta”. “Tite tem que mexer no time”, reclamou meu namorado. E eu e os meus amigos nem aí. Vimos apenas que o goleiro Alisson Becker é uma delícia, mas como comentar isso sem receber olhares tortos do namorado? O Brasil quase faz gol. Esse aí da Suíça é o Ricardo Rodríguez? Vimos também que o uniforme da Suíça cai bem neles e que os cortes de cabelo são muito parecidos. A Suíça começou a reagir e os nossos namorados ficaram tensos com a porra toda. O Brasil marcou um gol, mas eu e os meus amigos comentamos, escondido, do tamanho das mãos do atacante Gabriel. E todos caíram na risada, lembrando de experiências com rapazes grandiosos. Teve o… e Teve também… Meu Deus e teve… Nossa, fala baixo. Casemiro recebe seu primeiro cartão amarelo e não estamos nem aí. Olha o tamanho da bunda do meia Paulinho, alguém comenta. Eu tenho o álbum da Copa, mas só colo os que eu acho bonito e gostoso, um amigo comenta, também escondido, ao pegar mais uma cerveja.

Deu o intervalo. O namorado de Lucas não tá legal porque bebeu mais do que deveria e agora tá com refluxo, principalmente porque pulou muito na hora do gol. O meu namorado e os outros três namorados dos meus amigos vão juntos comprar mais bebida. Quem não tá bebendo pra poder dirigir?, um deles perguntou. Todos entraram no carro em direção ao primeiro supermercado com cerveja gelada e em promoção.

Eu e os meus amigos, finalmente, ficamos em casa rindo, pulando e dançando, um pouco alcoolizados, a sós, sem bisbilhotagem de namorados. Depois, loucos, decidimos sair pelo prédio abraçando pessoas que encontrássemos pela frente, como o síndico, o filho dele, a mulher do filho que tinha um resto de gorfo do bebê na blusa e uns turistas bonitos recém-chegados. Desta vez o hexa sai! Eles comemoravam uniformizados com camisas do Brasil, animados, suados, bronzeados. Senti que abraçava o país inteiro. Mas era pouco. Liguei pra minha família, falei com minha avó, meus amigos buzinaram em várias campainhas do prédio, batemos papo com um cachorrinho que estava tremendo com medo dos fogos. Saímos pelas ruas do Rio Vermelho contagiando e sendo contagiados por um clima de Copa que não pode morrer e que de certa forma une as pessoas. Desta vez o hexa sai! Eu passava por todos os bares mexendo com a galera “verde e amarelo” e batuquei no “capô” de um Uber que estava se desculpando com uma senhora porque não tinha troco. Mas ela avisou que não queria dinheiro, queria o marido que havia morrido há dois anos. “Ele fazia alegria, achava a Copa importante, mas não tá mais aqui pra ver”, disse ela ao Uber.

Abracei a senhora e o cabelo dela tinha cheiro de ovo. Amei aquele cheiro porque é Copa. Pedi pra ela ser a alegria que o marido era. Pude perceber o sorriso dela se abrindo. Eu e os meus amigos então resolvemos fazer gritos de guerra e mais gente foi se juntando. Deus do céu, como eu estava apaixonado por aquelas pessoas que se vestiam muito mal e que eu nunca tinha visto na vida. Como elas eram bonitas! E sentamos no asfalto, um ao lado do outro, e comemos queijo coalho com orégano e mel. E os nossos namorados?, alguém perguntou. Devem estar em casa, tensos, pessimistas e reclamando do jogo. Caímos na risada. Fugimos dos namorados e não voltamos mais pra casa, graças a Deus. Bora Brasil, minha porraaaaaaa!

Hoje eu chorei com o carro do ovo

A primeira coisa que eu vi quando abri os olhos foi uma camiseta sua do Radiohead esquecida no cabideiro perto da porta. Eram cinco da manhã e eu sabia que não conseguiria mais dormir, exatamente como nas noites anteriores. Ultimamente meu sono tem sido interrompido de meia em meia hora por banalidades: o ar-condicionado forte demais, o edredom esquentando demais, o travesseiro que incomoda o pescoço, a luz que entra pela fresta da janela, gotas d’águas pingando de alguma torneira em algum lugar.

Eu reviro pela cama e não sei se sinto enxaqueca sete vezes pior do que ter passado vinte dias sem beber água ou se é vontade de vomitar às pressas, similar quando se acorda de ressaca. Eu ajeito minha coluna, estiro minhas pernas, arregalo meus olhos pra um ponto fixo do teto, aperto minhas mãos com uma força brutal de unhas capazes de estourar pequenas e inofensivas veias das palmas, e deixo me inundar de dor. É impressionante, mas toda vez que faço isso, sinto meu estômago me sacudir inteiro, o pulmão me jogar numa profundidade de ar quase extinto e minhas lágrimas me afogarem por completo.

Tomo banho com a cabeça debaixo do chuveiro por quase uma hora porque, de alguma forma, preciso acordar. Eu, que nunca fui de rezar tanto e nem de acreditar tanto, abaixo a cabeça e peço a santo Expedito: “o senhor deve ter ajudado tanta gente a não morrer por amor, não deixe acontecer essa tragédia comigo”.

A entrega ao amor dói tanto que você compra cortinas novas e vasos pra decorar a casa. Você volta a lembrar que existe uma força maior, uma energia no universo, um anjo da guarda. Você se lembra de Deus, você se lembra da sua terapeuta falando de amor próprio, você se lembra do abraço da sua mãe, você se convence que existe vida após a morte. A doação ao amor dói tanto que você chuta a arrogância e olha de verdade pro mundo, onde crianças catam restos de comida em lixeiras e pessoas morrem em enchentes e filas de hospitais. E você abraça a humanidade com muito carinho e se destrói junto com ela.

A entrega ao amor dói tanto que, uma hora, parece que parou de doer. Mas, na verdade, a dor está ali estagnada, acostumada, muito bem acomodada. Você liga pra sua tia que faz chá pra tudo que é doença. Tenta consumir uma cacetada de discos, de filmes, de festas, de notícias. Talvez se matricular na natação, talvez melhorar o inglês, talvez viajar, talvez mudar de emprego, talvez pensar num novo livro. Você apela pra toda e qualquer religião. Apela pros ex-namorados, incluindo os canalhas. Espera, chora, não sai de casa, não sai da cama, implora: qualquer um, pelo amor de Deus, por favor, joga essa dor fora de mim.

Não adianta. Certeza que nada ajuda. Mas o que eu vou fazer? Meu trabalho me lembra você. A rua paralela da minha casa onde você estacionava o carro me lembra você. A banquinha de jornal onde você comprava cigarro me lembra você. A camiseta da radiohead esquecida na porra do cabideiro me lembra você. Garrafa de água, chocolate de laranja, biscoito integral: tudo me lembra você. Vou me arrumar e vou pra onde, hoje, no Dia dos Namorados? Passar pela rua paralela da minha casa e parar na banquinha de jornal? Ver TV, a série badalada na Netflix, marcar com quinze amigos numa festinha que só frequenta homem bonito, falar besteira ao telefone, passar duas horas na esteira, escrever, criar um site, usar floral contra desespero… Nada adianta, nem dormir.

É triste te acompanhar em todos os corredores e todas as reuniões e fingir que nada acontece só pra não me sentir fraco. É triste esperar que o telefone toque com uma mensagem fofa sua enquanto o mundo todo pega fila em motel pra comemorar o 12 de junho igualzinho como faz todos os dias. É triste ouvir você, a menos de cem metros da minha mesa, dizer pra estagiária “fala com Murilo”. Falar o quê? Que porra ela vai falar?????? Você com a cara no computador ignorando minha existência. Você retinho naquela cadeira, naquela sala, no mesmo espaço, no mesmo ar. Amar você me cansa, me dá uma surra. Um amor que insiste pra deixar pra lá, pra renascer em outro canto, puro e honesto. Mas eu continuo. Eu me agarro na pontinha da rejeição. Eu imploro que ele fique, ainda que eu não consiga carregar o peso.

Seu Carlos me entrega as correspondências amontoadas, aí eu choro porque eu lembro que você passava na portaria e pegava tudo. Está chovendo, e eu choro porque você ficava lindo com sua jaqueta jeans clarinha que faltava alguns botões, e você lindo me dava muita insegurança. Aí eu vou escovar os dentes, e choro porque você sacaneava meu limpador de língua, e choro porque o gosto do Listerine me lembra seu beijo de manhã cedo quando você ia me buscar. Depois eu faço xixi, e choro porque a gente tinha liberado fazer tudo no banheiro de portas abertas, como um casal que tem intimidade há vinte anos. Eu preciso escolher a roupa pra formatura de Bárbara, e choro porque não quero ficar bonito, eu não quero ir pra frente, eu não quero a volta por cima, eu não quero o recomeço, eu não quero foto de copinho com cerveja nas redes sociais só pra te mostrar que eu estou bem, que eu superei. Choro porque acho ridículo esconder que sinto saudades, acho ridículo ter que paquerar de novo outro homem, acho ridículo o jogo da conquista.

Quando finalmente eu consigo escolher uma roupa bonitinha e passar um corretivo pra disfarçar as olheiras, eu choro porque o carro do ovo passou e a vozinha do vendedor, naquele megafone velho e fodido, me lembra você imitando, tirando sarro e fazendo palhaçada pela casa. A desgraça do carro do ovo me lembra a desgraça da rotina, a desgraça do riso descomprometido, a desgraça da alegria, a desgraça da pureza que existia entre a gente. Nada, nada aconteceu para o mundo. As pessoas indo e voltando no metrô. As pessoas em filas de supermercado. As pessoas experimentando sapatos em lojas de grife. As pessoas com a cara pro sol na areia da praia. E eu me sinto perplexo, sozinho, frágil por não receber o afago da vida lá fora, por não ouvir nem um “sinto muito” após a nossa morte, por ter que aguentar nos ombros limpadores de língua, xixis, roupas de festas e anúncios de promoção de ovo em kombis descascadas.

Odeio a exatidão de tudo, odeio a ordem de tudo, odeio a palavra “funcional”. Odeio que o aplicativo resolva o que eu quero no minuto dele, que o celular conecte com a TV só quando tem conexão com a internet, que meu estômago me lembre que preciso comer, que grupos de adolescentes deem risada alta em fast food e, principalmente, que você dê risada longe de mim. Vou ao trabalho, mais uma vez, sem nada dentro de mim. Nem água eu bebo mais. Me alimento de raivas e desesperos e faltas e esperas. Estou seco, chupado, consumido, com os ossos à mostra, a bunda que nunca tive mais pra dentro. Minha mesa está lá, meus e-mails estão lá, minha lixeira está lá, minha cadeira com a rodinha torta está lá, a menina gigante que usa casaco PP, a gordinha com voz fina de menina mimada que não para de me olhar até que eu olhe pra ela, sorria e dê um tchauzinho amigável. Está tudo lá.

Me tranco no banheiro e choro, olha que novidade! Mas dessa vez porque consigo, como um raio-x, visualizar o vazio dentro mim. Eu era vivo, proporcional. Eu era seu, o seu menino, o seu homem, o tipo de gente que te dava orgulho, o escritor que te deixava de boca aberta com textos sarcásticos, o seu parceiro de prender risada junto no cinema pra não irritar os outros, o seu namorado com medo de vomitar, de ser chato demais, de amar pouco, de amar demais, assim como você foi. O seu melhor amigo pra falar sobre o câncer da sua mãe, pra falar sobre carências de fim de noite, pra falar sobre o salário baixo, pra fingir cenas de discussões só pra chamar atenção de desconhecidos, pra imitar sotaques de turistas. Eu era o homem que prendia a cabeça nos seus ombros, que queria ficar dormindo no seu peito mesmo com a nuca em péssima posição acusando dores insuportáveis. Eu era o homem que pedia pra você ir embora pra dormir e chorava de saudade quando você ia. Meus amigos me pedem pra eu ser meu, inclusive pra ser seu, mas o inferno disso tudo é que é difícil dissociar nós dois. E faço o que com essas lágrimas? Meto no cu? Que se foda a lição de moral da terapeuta, que se fodam as experiências de superação de A e B, que se foda a autoajuda, que se foda a psicanálise, que se foda a ioga. Se antes de ser namorado, eu já esperava por você, como eu posso deixar de te amar e te tratar como um nada agora que você tem forma, nome, endereço, alma e coração?

Eu sei que você quer, tá fazendo doce?

 

Eu era estagiário no jornal e porque escrevia na editoria de cultura e queria ser descolado, usava calça skinny justa e camisetas canoas decotadas. Hoje, só de pensar, sinto dores nos testículos e frio congelante nos ossos da clavícula. Agora, mais maduro e mais sensato, posso afirmar em letras garrafais e marcador neon laranja que aquilo não era elegante e nem discreto e nem descolado (coisas que nunca consegui), mas eu tinha o Facebook cheio de gente sociável e inteligente, milhares de amigos gente boa, paqueras pela vida de dar inveja a qualquer bonitão e era insuportavelmente feliz.

Eu ficava no jornal até tarde porque gostava de analisar quase compulsivamente como todos aqueles jornalistas renomados e tirados a intelectual se comportavam e, no fim de expediente de uma sexta-feira (num dia que poderia ser como outro qualquer), convidei um dos repórteres (e amigo) que trabalhava no jornal pra beber algumas garrafinhas de cerveja na porta de uma conveniência bombada de publicitários, arquitetos, cineastas, assessores de imprensa e designs. Eu havia saído de uma reunião horrível em que minha editora detonou uma reportagem que escrevi e, nos últimos goles da primeira garrafinha de cerveja, fiquei depenado de tanto chorar como uma criança de cinco anos que se deslumbra num supermercado gigante e se desespera quando se perde dos pais. Meu amigo me levou pro canto da conveniência, colocou as duas garrafinhas no chão, me deu um abraço forte e, tal qual um pai consola um filho mimado, me disse no ouvido: “A gente pode comprar cerveja aqui e beber lá em casa. Sabia que eu moro na próxima rua?”.

Eu estava entediado com a faculdade, com o TCC, com as exigências do estágio, com as discussões do meu padrasto com a minha mãe, e, pra piorar tudo, nenhum casinho bom que eu tinha sustentava duas semanas. Aceitei beber um pouco na casa dele e combinei comigo mesmo que lá pelas onze da noite eu pegava um táxi. Meu amigo foi muito educado. Ele me confortou. Ele me fez bem. Ele me ofereceu roupas mais leves, preparou petiscos de queijo, azeitona e amendoim e passou horas me contando piadas só pra me fazer rir e esquecer o que tinha passado. Estranhei quando ele se desculpou pra ir tomar banho, voltou e permaneceu na sala só de cueca sem nenhum pudor. Mas eu pensei “não, é normal, somos amigos”. Estranhei quando ele falou que “podia conseguir que eu fosse contratado no jornal”. Mas eu pensei “olha que bacana, ele é influente”. Estranhei quando ele deu um tapa na minha bunda quando abri a geladeira pra pegar mais lombo defumado. Mas eu pensei “você é chato, ele é muito sozinho e só quer ter intimidade”.

Só que à medida que as garrafinhas de cerveja se acumulavam ao lado do sofá, no segundo exato em que ele resolveu colocar música e dançar, acho que na metade de “Faz parte do meu show”, de Cazuza, ele tentou me empurrar pro quarto. Foi quando eu entendi tudo. Ele seguiu tentando, esfregando o corpo dele no meu, puxando meu braço com mais força, e eu consegui me soltar. “E o que eu faço agora que meu pau tá duro?”. Peguei minha mochila pra ir embora. Ele parou na porta, me impedindo de sair, e disse sem paciência: “Eu sei que você quer, tá fazendo doce?”. Eu não estava a fim. Ele era bonito, mas não havia clima. Não tinha cheiro. Não tinha coração pulsando forte querendo explodir. Não tinha pernas tremendo de ansiedade. Não, não, não, não, não era ele. Não era sexo. Não cabia. Era só casa, cerveja, bom papo e música. Sem nenhum parênteses, sem nenhuma aspa. APENAS.

Comecei a sentir uma série de sensações que, lembro, passeava pelo nojo, ânsia e raiva. Comportamento esse que me fez empurrá-lo e dar um grito tão forte e tão alto. Ele parou com a mão na cabeça e não falou mais nada. Dentro do táxi, eu só conseguia pensar como eu era péssimo estagiário, péssimo filho, péssimo aluno. Pra quem eu iria dizer o que tinha acontecido? Pros meus amigos que acham que estou tratando o caso como uma donzela sensível, pura, assediada e quase estuprada? Que iriam me perguntar por que fui parar na casa de um homem gay pra beber cerveja tarde da noite? Que iriam me questionar se eu, tão esperto, não tinha sacado nenhuma “investida” dele?

Passei os últimos anos ouvindo que “homens transam como bichos porque precisam se aliviar mais” e quase todos os meus amigos não veem problema nisso, indo pra cama, às vezes, com qualquer “mercadoria” que aparece. Por que todo homem acha que estar em um ambiente fechado com outro homem é sinal de que DEVE acontecer alguma putaria entre eles? Por que todo homem que sabe que eu escrevo quer bancar o Deus que vai me livrar de todas as aflições emocionais ao despertar a delícia que é o prazer sexual? O Deus-salvador da libido. O que vai, finalmente, me levar pra cama pra tratar tristezas, angústias, neuras e solidão. Os gemidos que libertam. O suor medicinal passageiro. O gozo que cura.

Eu não sou contra a putaria. Eu sempre gostei de ambientes (todos eles) em que todo mundo flerta, todo mundo cogita, todo mundo fantasia, todo mundo provoca, todo mundo se pega. Mas tudo isso de forma natural e saudável, quando tem que ser. O que ele não entendeu foi exatamente isto: não cabia entre a gente, faltou o tal do clima, a tal da química que pra mim importam mais do que tamanho de pau. Mas digo mais: além de não levar pra cama, ele perdeu um amigo. Tem gente que, além de insensata, é inconsequente.

Bons namorados se vestem muito mal

Meu namorado vez em quando recebe os amigos em casa, numa social de fim de semana, todos muito bem vestidos com jaquetas da Osklen e jeans da Levi’s, e coloca uma camiseta sem cor de 1993 com botões semiabertos (estilo Caetano Veloso nos anos 1970, no Porto da Barra), furada e com uma mancha amarelada de desodorante no sovaco.

Ele, no dia do casamento do próprio irmão, todo limpinho, cabelo muito bem penteado, terno muito bem passado e gravata combinando com todo o resto, inventou de colocar nos lindos pés um par de All Star que usava no ensino médio (sim, isso há uma década), surrado, com cadarço felpudo pelo desgaste e, aqui, pra não ser pesado, vamos chamar de terrivelmente sujo.

No meu celular, tenho guardado ​um vídeo dele dançando “almofadinha top”, um funk louco de trinta segundos que ele inventou por pura sacanagem só pra me fazer rir nas horas impróprias, em que ele passa uma almofada entre as pernas e se esquiva para os lados. No vídeo, ele usa, ao mesmo tempo, samba-canção bege com um furo gigantesco, meias de bichinhos e estrelinhas dois dedos abaixo do joelho e um moletom aberto com imagens de pequenos barquinhos. Ele dorme desse jeito todas as noites (e, às vezes, fica assim até meio-dia por pura preguiça) e isso, por algum motivo, me deixa feliz.

Às vezes, quando fico agoniado numa fila de supermercado ou quando quero gritar numa reunião de diretores brilhantemente insuportáveis, assisto o vídeo sem som. Em câmera lenta, consigo vê-lo me olhando com amor e, acima de tudo, com leveza, em seu figurino extremamente cafona. Seu sorriso de “fica calmo, vai dar certo”, mesclado com seu modelito mendigão, com dancinha de menino bobo que recebeu papinha de banana da mãe até os nove anos, mas com a segurança de homem feito, me conforta com o mesmo potencial de um útero.

Há duas semanas estou mal. Mas hoje, principalmente hoje, estou bem pior. A nuca inchada e dolorida me diz que é pressão alta, a dor de cabeça latejando em vários cantos do cérebro me diz que é enxaqueca, os pequenos “murrinhos” no pé da barriga me diz que é colite, a falta de sono me diz que é estresse. Mas acho mesmo que tudo isso é ansiedade. Já tomei chá de camomila, já fiz todos os exercícios de respiração que o Google indicou e estou desde terça carregando pra cima e pra baixo, parecendo um louco, uma garrafa com dois litros de água. Mesmo assim não adianta.

No fundo, sei que toda essa dor é algo jamais detectável pela medicina e que certamente sentirei pelo resto dos meus dias. Como também sei que afirmar isso é muito triste, resolvi chorar ouvindo músicas aleatórias de quando eu era adolescente e me sentia, na maioria dos dias, saudável. Mas antes da sessão #ChoroLivre, resolvi usar meu modelito da depressão. Trata-se de uma calça molinha cinza de 2009 e um moletom GG também cinza. Agora, completamente cinza, eu me sinto próximo a algo que se parece muito comigo.

Pra completar a cena, me cobri com meu edredom deixando apenas os olhos descobertos e abracei bem forte um travesseiro solitário com um desenho de pinguim na fronha. Você toma dois comprimidinhos de Rivotril e três de Dramin, aperta bem forte até sentir as penas de ganço do travesseiro entranhar seus poros e minutos depois sente um pouco mais de alívio.

Ele passa pelo corredor com o velho uniforme de dormir. Sei porque vi um pedaço da meia de bichinhos e estrelinhas dois dedos abaixo do joelho. Depois, ele para na porta do quarto e fica ali me olhando por dez minutos, em silêncio, vê que estou triste e com os olhos vermelhos de tanto chorar. E me diz que tá excitado. Mas hoje, amor? E tem que ter dia pra isso? Só que hoje eu… Você não percebeu nada? O quê? E me mostra a samba-canção nova que ele comprou, mais brega do que a anterior. Pelo menos essa é novinha em folha e dá pra gente se divertir. A gente então transa? Mas hoje, amor? E então ele abaixa um pouco o som do meu ipod, entra no meu edredom e aperta minha cintura, colocando minha cabeça em cima do moletom ridículo que ele usa. E eu vou, aos poucos, me acomodando no cantinho que ele quer me deixar até eu pegar no sono. Não me recordo, em nenhuma vida que passei, ter me sentido tão calmo e tão quente e tão seguro com alguém.

Sábado passei no Uber por uma daquelas boates no Rio Vermelho. Eu tenho saudade de me arrumar e ficar na porta dessas festas esperando o destino, com todo seu mistério, colocar alguém interessante na minha vida. Então eu vejo o vídeo dele dançando, sem som, e a vontade passa. Eu demorei mil anos conhecendo meninos em todos os fins de semana que saí de casa muito bem arrumado, mas agora, que finalmente troquei moleques por um homem, percebi que deu certo e quão maravilhoso é uma relação com creme de rachaduras para pé, roupa cafona, dor na cervical e samba-canção. Tem sido muito bonito.

O safado do 302

Ele comia o professor de filosofia do 201, comia um garoto do 504 recém-aprovado em medicina na Ufba que, de tão magro, cabeludo e branquelo, a gente só enxergava o olho, comia Leandro, que era noivo de uma mulher meio lésbica, e comia até a Paula, mãe da Clarinha, casada há sete anos e que vivia tossindo de tanto fumar.

No sábado, cheguei em casa tarde da noite e, por coincidência, ele também. Enquanto ele pedia o elevador, seu Carlos, meu porteiro, foi logo me contando: “Ele aí do 302 comeu o morador novo da cobertura e a amiga do cara na academia daqui do prédio, cê acredita?”. O morador novo, que ninguém sabe o nome, já era velho conhecido por festas, música alta, drogas e centenas de multas em sua cobertura master. O negócio é que seu Carlos, com os olhos arregalados e a boca entortando para todos os lados, continuou: “Deu pra ver tudo pelas câmeras, cê acredita, seu Murilo? Foi um filmão. Ele comeu ela primeiro, mandou ficar de quatro e ele mandou ver… Depois foi a vez do cara. Uma, duas, três vezes. Ele é um bicho, manda bem”.

Não sei ao certo se o safado do 302 pagava um jabá a seu Carlos pra fazer propaganda sobre seu desempenho, e por isso mesmo saía levando pra cama todo mundo do prédio, ou se aquilo era apenas mais uma fantasia de porteiro pra acabar com o tédio do trabalho noturno. Só sei que comecei a gostar tanto das histórias sexuais que até sentei no murinho que dá pro jardim só pra ouvir melhor.

Seu Carlos soltou uma gargalhada que durou três minutos contados, transbordou modernidade nos olhos e concluiu com empolgação: “Meus sobrinhos, assim da sua idade, dizem que é normal ficar com homem, mulher, que as coisas mudaram. E como mudaram!”. Concordei com os sobrinhos dele e me despedi. Antes que eu me levantasse do murinho, seu Carlos me interrompeu: “Ah, seu Murilo, assim que ele largou os dois lá na academia, caídos nos colchonetes, ele fez um tchauzinho pra câmera, cê acredita? Eu, o Geraldo e o Edson, a gente tava tudo lá assistindo ao vivo. Aplaudimos de pé”.

Os dias se passaram e eu comecei a perceber. Na piscina, ele tá sempre consertando a sunga pra chamar atenção. Nunca vi um homem que adora se exibir como ele. No elevador, ele tá sempre sem camisa. E me dá um ‘oi’ meio tímido. Sei, conheço bem esse tipo. O auge foi a academia do prédio. Por lá ele tá sempre gemendo num daqueles aparelhos de musculação. Acho bizarro, mas nele é do tipo que dá tesão até nos dias que minha libido só vai voltar ao nível cem daqui a um século.

Eu não precisava ouvir e ver mais nada pra ter certeza: eu ia pra cama com esse homem. Ou a gente transaria na piscina, no elevador, no jardim, na quadra… onde ele quisesse. Esse cara era um safado, filho da puta, sem pudor. Era um desses caras errados que a gente se diverte um pouco enquanto o amor não chega. Era o cara safado pra esquecer o romantismo e viver a viva carnal. Ou seja, o cara certo pra mim agora.

Sim, eu sou um homem bem-educado, prendado. Um homem que publicou livro, que fez cursos de roteiro e teatro e tem duas faculdades. Um homem decidido a morar sozinho, decidido a rodar o mundo, decidido a ser feliz sozinho num bar ou na vida, decidido a nunca mais aceitar um emprego idiota com diretores idiotas que só sabem mandar, mas não prendem o rabo numa cadeira pra fazer melhor. Com humor incrível, com bom gosto, independente, sensato, lúcido, que cuida do corpo e da alma, maduro… mas, vamo ser sincero, o cara mandou uma, duas, três na academia do prédio, e ainda deu tchauzinho pras câmeras, como se transar numa academia fosse comprar um pãozinho na esquina? Que se dane tudo que conquistei agora, todas as minhas ideologias. Meu ego precisava levar esse safado pra cama e pronto.

Usei minha tática infalível pra fazer com que esse homem desejasse me ver sem roupa: um dia, assim, sem ser planejado, mas há semanas aguardando acontecer, numa dessas surpresas de quando a gente abre o elevador, contei pra ele que eu era escritor. Sabe Deus o que acontece, mas quando um homem descobre que eu escrevo, os olhos brilham no mesmo instante, me colocando num paraíso que nenhum mero mortal será capaz de conseguir entrar. E aí é tudo ou nada pra me conquistar.

Não sou nenhum Michel Laub e nem ganhei nenhum prêmio do Jabuti, sou apenas um escritor que senta a bunda flácida de frente pro notebook e escreve futilidades da vida o dia inteiro. Mas esses homens não estão nem aí. É tipo um “não, prêmio literário você consegue com o tempo” ou “os melhores, de verdade, não são reconhecidos”. Mas é tudo papo furado. Eles querem chupar meus personagens, minha falta de vergonha na cara em me expor, minhas putarias, minha raiva por caras canalhas como eles, minhas neuroses, a fotinho preta e branca que sai na coluna, meus leitores do Facebook, meus nojos, essa coisa de fazer literatura sobre si, sei lá… “Um branquinho magrinho e barbudo que ainda sabe escrever mais de um parágrafo sem falar ‘pô, mano, tipo assim’? Desse tipo ainda não peguei”.

Apois. Como imaginei, foi meio caminho andado. No mesmo dia, com certeza assim que ele leu meus textos pela internet, chegou áudios e textões dele bancando o crítico literário sobre minhas crônicas. Elogios que não acabavam mais e, por fim, depois dessa enrolação, um convite pra ir ao cinema e depois jantar (mas torcendo pra que ele desviasse o caminho e me levasse logo pra um motel). Aceitei, mas corri pra depilação. Depois corri pra comprar um perfume mais sedutor. E, por último, corri pra me entupir de óleo Weleda. O safado que deu uma, duas, três na academia do prédio, e que provavelmente iria fazer loucuras comigo no cinema, merecia a produção mais sexy do mundo. Coloquei um pacotão de camisinha no bolso e fui.

Achei estranho quando, dentro do carro, ele disse que falou sobre mim para a mãe dele, e mais estranho ainda quando ele ficou meio nervoso e sem graça toda vez que respondia alguma pergunta minha, como se estivesse inseguro. Mas tudo bem, daqui a pouco o lado escroto dele ia surgir e faria o carro parar em qualquer beco meio escuro, talvez atrás de alguma igreja ou no banheiro do restaurante pra fazer comigo o que ele fez com todos do prédio. Certeza. Aquilo tudo era papo furado pra fazer um charminho de “eu não te chamei pra jantar só pra te levar pra cama como os outros dos seus textos fizeram”, mas querendo fazer tão igual ou pior. Certeza.

Ele fez questão de pedir um vinho malbec e ainda pediu que apagassem a luzinha de uma luminária que ficava acima da nossa mesa. Achei estranho. Segurou minhas mãos, mordeu os lábios, brilhou os olhos com ternura e falou quase sem saber como: “Hoje pela manhã você me fez chorar”. O quê? Que palhaçada é essa? Ele possivelmente deve ter confundido o verbo, acho que ele quis dizer: “hoje pela manhã você me fez gozar”, sei lá, bater uma, duas, três no banho, mas chorar? Que palhaçada é essa? Mas ele continuou: “Tenho me sentido sozinho, não aguento mais essas conquistas vazias, o beijo sem química, a companhia sem companheirismo, o sexo sem alma, a falta de um parceiro com papo inteligente para uma vida, sabe como é?”.

Ô se sei, mas justo na minha vez? Caramba, o professor de filosofia gemeu tanto que deu pra ouvir até na pizzaria de seu Flávio. Depois ele desvirginou o adolescente lá que passava o fim da tarde jogando playstation nos intervalos dos exercícios do pré-vestibular, depois tirou Leandro do armário, fez um farvozão pra Paula que via o mesmo pinto mole do marido há sete anos e por último comeu o drogado da cobertura e a amiga drogadinha do cara da cobertura como dois cachorros. Justo na minha vez esse filho da mãe quer assistir filme de comédia romântica francesa? Que palhaçada é essa?

Ele passou a noite inteira me admirando, querendo saber como era ser jornalista. Contou do trauma com a morte do irmão que morreu afogado numa ilha, da separação dos pais, do medo de altura, da dificuldade de engravidar da irmã, da vontade dele de ser pai, do quanto sente falta de ter um cachorro em casa, de como ele se sente triste todo fim de noite de domingo e que, talvez, se ele tivesse um namorado, alguém, isso mudasse. “Olha, eu encontrei em você o que eu sempre quis em uma cara e até então não havia achado: profundidade”.

Quando a gente entrou no elevador do nosso prédio, sob olhares curiosos de seu Carlos, ele apertou o andar dele e o meu, destruindo de vez qualquer possibilidade de acordar na cama depois de dar uma, duas, três. Se despediu com cara de completamente apaixonado e ainda me ligou quando eu já estava frustradamente sozinho na cama: “Hoje foi a noite mais incrível dos últimos tempos”. Acabei dormindo mais uma vez me sentindo usado pelos homens.

Ter contatinhos é uma coisa bem triste

Acabo de chegar em casa com sacolas imensas de roupas, sapatos, perfumes, xampus, cremes e um cachecol azul marinho. Se meu armário já não fecha mais com tantas roupas, sapatos, perfumes, xampus, cremes e mais um cachecol, por que comprei tudo isso? Isabela, minha psicóloga, disse que quando estou nesses dias de enfiar mil coisas dentro da sacola e não saber o motivo, é uma maneira de suprir carências afetivas. Empilho as sacolas no canto do quarto, pego uma cervejinha na geladeira e coloco meu smartphone na caixa de som porque preciso ouvir The XX. A banda é meu desespero e diz trechos tão dolorosamente bonitos em todas as músicas e me acalma quando tudo parece impossível. Tomo banho, coloco meu pijama de bolinha, me esparramo na cama. Preciso comer alguma coisa urgente porque estou com hipoglicemia.

Abro o iFood e peço um yakisoba pra dois, só que apenas eu vou comer. Coloco mais um episódio da última temporada de Bates Motel. Mando uma mensagem pra ele, que a essa altura volta de mais um dia de trabalho e já não aguenta mais um dia de trabalho. Ele me manda um áudio de dois minutos. Explica que precisa muito me ver, “mas a minha vida é uma loucura, cê sabe, né?”. E me manda uma foto dele, só de cueca, com um livro de economia no peito, deitado com um daqueles cachorros grandões que ele tem. “Semana que vem. Semana que vem sem falta, Murilo”. Mas há quase um mês a gente tenta se ver e sempre acontece uma falta. Penso na palavra “falta” e isso de alguma forma me deixa triste. Lembro quando a gente se viu pela primeira vez na Virada Cultural de arquitetura. Eu desci as escadas meio bêbado e lá estava ele, lindo, querendo parecer jovem descolado com uma camiseta brega manchada de pasta de dente. Eu caí da escada, todo mundo riu, e demorei horas pra me levantar, louco pra descobrir, ao menos, a marca da pasta de dente que ele usava.

Ouço algúem falar no interfone: “a entrega chegou”. Como todo o yakisoba e continuo com fome. Abro o iFood e peço um hambúrguer gourmet. Daqueles com carnes triplicadas e um quilo de alface e queijos e molhos e tudo. Pego outra cervejinha na geladeira. Coloco mais um episódio de Please Like Me. Mando uma mensagem pra ele, que a essa altura já foi dormir chapado de tanta maconha. De repente, ele fica online e me manda uma mensagem dizendo que “a coluna tá foda”, que eu dou “um tesão danado” a ele, mas que com a coluna desse jeito nem rola. Que a gente precisa se ver e finalmente transar. Mas que “tá foda”. E me manda uma foto dele, só de cueca, cercado de livros de Freud, Nietzsche, Sartre e bitucas de maconha. “Vai rolar, fique sussa. Ninquém mais do que eu quer isso. Semana que vem sem falta, Murilo”. Mas desde o ano passado ele fala isso. Desde o ano passado a gente combina e desmarca e combina de novo. Como todo o hamburguer enquanto converso com ele. Ele me fala sobre ‘sentir saudades de quem você era’ e isso me deixa um pouco triste. Lembro quando ele puxou conversa comigo, no terraço do Lalá, e me perguntou se iria pegar mal, nos primeiros trinta minutos de conversa, pegar meu telefone. Seu papo galanteador honesto me excitou de uma forma tão bonita que eu não conseguia olhar para os lados senão para os seus olhos.

Abro o iFood e peço uma pizza de gorgonzola tamanho família. Pego mais uma cervejinha na geladeira. Procuro álbuns e mais álbuns no Spotify. Talvez seja uma boa ouvir uns blues doloridos. Mando uma mensagem pra ele, que a essa altura já deixou o namorado em casa e voltou no carro grandão se sentindo vazio. Pego outra cervejinha na geladeira. Ele manda um áudio acompanhado de um emoji com carinha triste. “Não aguento mais meu relacionamento, cê entende?”. Eu explico pra ele que eu me sentiria muito mal saindo e indo pra cama com ele sabendo que tem namorado. Ele fala que ele “não quer isso, mas que ele quer”. “Quer vir pra cá pra casa agora?”. “Vem pra minha?”. “Mas cê mora um pouco longe”. “E eu tenho medo de ir ao Centro a essa hora”. Cê não prefere um motel no meio do caminho dos dois?”. “Eu prefiro que a gente deixe pra semana que vem”. Sei. Desde janeiro ele me promete terminar com o namorado e “finalmente acontecer alguma coisa”. Lembro quando ele, na mesa com o namorado, não parava de me olhar no rodízio que fui com os meus amigos. Ele me seguiu e na fila do banheiro fingiu se esbarrar sem querer e me pediu desculpas. Foi o sorriso mais safado e bonito que eu vi até hoje.

Faço mais um pedido no iFood, coloco mais música, mais episódios de séries, faço mais compras pela internet, bebo mais três, cinco, quinze cervejinhas, falo com mais trinta e dois contatos. Ninguém pode hoje. Ninguém pode agora. Só semana que vem. E então eu lembro dele, o cara que se ainda existisse me tirava desses consumos que não levam a nada. O cara que se não fosse embora, me colocaria de conchinha num abraço gigantesco, só pra me trazer de volta a sensação de que o resto do mundo não faz sentido. Mas eu não tenho mais esse cara. Você não acha triste ter uma lista de contatinhos quando você já conheceu o cara mais incrível do universo, mas esse cara surtou e sumiu? Me encolho na cama, em posição fetal, como todas as noites, e choro de novo. Eu estou cada vez mais louco, gordo, bêbado, triste, carente, falido, deprimido, cheio de contatos, mas sempre sozinho.

O cara que bebe Heineken e toca pandeiro no bar Velho Espanha

No meio de pessoas bêbadas, garrafas vazias de cerveja no canto da mesa, fumaça de cigarro deixando o bar todo branco e meus olhos embaçados, ele surgiu com leveza, sorriso largo e o pandeirinho na mão, se unindo a uma mesa gigante de amigos com leveza, sorrisos largos e vários instrumentos. O tédio de ouvir os mesmos problemas dos meus amigos me convidando pra ir embora estacionou naqueles olhos claros melancólicos e ao mesmo tempo inocentes. Ele me olhou com amor enquanto bebia mais um gole de Heineken e tocava um pouco de pandeiro e, então, ouvir meus amigos reclamando de tudo e chorando por tudo fez sentido e por alguma razão minha vida também.

Foram dois ou três anos de uma entrega que, além de beirar a obsessão, era ridícula: eu esperava horas no banquinho verde da Ufba até ele sair da aula e eu, finalmente, fingir “acaso”, “coincidência”; eu ia nos mesmos shows de rap do flyer que ele compartilhava no Facebook só pra mostrar pra ele que eu era legal; eu andava pelas ruas, farmácias e supermercados achando que todo cara a dois metros de mim era ele. Cheguei ao ponto de um dia sair correndo no meio dos carros em movimento só pra entrar no mesmo ônibus que ele. Passei a comprar roupas parecidas, cortar o cabelo parecido e até me olhar no espelho e também achar que eu era ele. Eu lia o que ele lia, comprava sorvete da marca que ele gostava, aprendi a gostar de beber Heineken só porque ele bebia. Fiquei louco de pedra mesmo. Eu não via mais TV, não comia direito, não saía com meus amigos, não achava graça de nada, não sabia por que eu precisava acordar no dia seguinte. Adotei um cachorro, tentei academia, cartomante, uma nova graduação, curso de astrologia, numerologia, centro espírita. Nada dava jeito. A única coisa que adiantava por alguns minutos era ir ao bar Velho Espanha todos os dias e esperar ele chegar lá com leveza, sorriso largo e o pandeirinho na mão. Mas ele não aparecia nunca. E eu, sozinho na mesa do bar, chorava a noite toda porque o tal do cara perfeito não queria saber de mim.

Até hoje meus amigos me levam no mesmo bar e me perguntam: “E cadê ele?”. Eu dou uma risada sem graça e respondo mais sem graça ainda: “Já foi. Era coisa de quando eu tinha 23 anos”, querendo me desculpar com o mundo por encher o saco por dois ou três anos com a minha monotemática de só falar sobre ele.

Toda vez que eu pensava em algum texto, projeto, trabalho, eu me inspirava na cidade que ele nasceu, na banda que ele adorava, nas frases dele no status do WhatsApp, no sinal que ele tem no pinto. Foi o único cara que eu amei de verdade. Lembro de um dia, na época, sentir uma coisa absurda: todas as vezes que o ônibus passava perto do cortiço que ele morava, eu tinha crises de ansiedade e pedia a Deus: “por favor, não posso morrer antes de dar um beijo nele pela última vez”.

A república de quatro quartos onde ele e mais 500 estudantes comunistas da Ufba dormiam ficava no beco mais escuro do Dois de Julho. As paredes eram cheias de colagens de cantores de rap, do Che Guevara, Karl Marx, pôster de palestras da USP em que ele foi de caravana e um ou outro recorte de jornal que fala sobre mudanças históricas como casamento gay legalizado. Eu sabia de cor a ordem das músicas de Chico, Cazuza, Caetano, Cartola e Gilberto Gil porque ele repetia os mesmos álbuns em todos os nossos encontros. A emoção que eu tinha em segurar a mão dele, de sentir o calor do abraço dele, de me acalentar no peitoral dele me fazia sentir completamente protegido. Eu sentia tudo tão em carne viva que eu sempre inventava uma desculpa e ia embora com medo de vomitar ou explodir.

Minha loucura de gostar tanto dele acabou junto com a faculdade. Ele sumiu numa daquelas trilhas da Chapada Diamantina onde todo mundo vive maconhado e eu fui atrás de um emprego. Tive um milhão de namorados, aprendi a gostar menos, o que foi uma pena. E aprendi a ser mais sarcástico com a vida, o que também foi lamentável, mas fundamental. Viver pra sempre tão entregue, bobo, burro, estúpido, cego e fazendo carnaval pra tudo teria sido desastroso.

Semana passada recebi uma ligação com um número desconhecido. A mesma voz de sempre, o mesmo jeito calmo de sempre, a mesma respiração de sempre, o mesmo nervosismo que sempre tive quando converso com ele. O desejo de beijá-lo ainda me fazia implorar a Deus pra que me desse uma última chance e não me fizesse morrer de dengue, febre amarela, H1N1. Eu ainda era aquele rapaz bobo, de 23 anos, que guardava as sobras obsessivas e puras do primeiro amor.

Coloquei uma roupa bem bonita, usei um perfume bem caro, fui o caminho inteiro me dizendo: “Agora você é um homem, comporte-se como um homem” e implorando a Deus para que ao menos desta vez me ajudasse a controlar as pernas que sempre tremiam e o coração que sempre disparava.

Quando eu cheguei, ele estava lá. Ele me mandou uma mensagem “olhe pra trás”. Estalei os dedos, mordi os lábios, suspirei forte pra controlar as batidas do coração sempre saindo pela boca, segurei as pernas disfarçadamente, fechei os olhos. Aproximei os óculos mais perto dos olhos, revirei o bar inteiro, olhei fixamente pra tudo, olhei de novo, olhei outra vez. Encontrei. Não. Sério? O que a vida fez com aquele cara que usava chinelo e tocava pandeiro no Velho Espanha? Ele se sentou ao meu lado, de paletó, gravata, barba alinhada e cabelos penteados com gel fixador. Todo bem vestido, mas com olhos claros apagados e limitados. Disse que abriu um escritório e mudou de vida. Disse que vez em quando sente saudade e toca seu pandeirinho no bar. Sozinho, na maioria das vezes, porque seus amigos “casaram e tiveram filhos ou continuam morando na mesma república”. Sua gravata era brega, o cheiro do seu perfume era forte demais e seu papo, agora, fazia sentido ter pernas descontroladas: dava muito sono.

Nos beijamos no bar, no carro do ano dele, no apartamento imenso dele de novecentos quartos. Não senti nada. Eu pedia a Deus pra que agora eu finalmente morresse. O cara perfeito dos olhos claros, da leveza, do sorriso largo, do show de rap, das colagens na parede do cortiço e das músicas maravilhosas pra abraçar e me fazer sentir seguro era agora apenas mais um cara desinteressante que tocava pandeiro e bebia Heineken. Como eu fui burro de quase morrer pelo cara do pandeiro? Me despedi dele e fui lá no Velho Espanha. Dancei e cantei com um grupo de caras de chinelo que tocava pandeirinho. Voltei meio bêbado pro meu apartamento vazio amando e odiando a passagem de tempo. Amando porque nada do que foi será, odiando porque nada do que foi será.

Coitado, Murilo, cê não tem pena?

Passei as férias inteiras na casa do meu namorado. Ou melhor, na casa da mãe dele, onde ele mora há 35 anos. Foram exatos trinta dias do que apelidei de “que porra eu tô fazendo aqui?”, num misto de “arrumo minhas coisas e volto pro meu apartamento agora” e “tudo bem, aguenta esse inferno mais um pouco”. Resumindo: passar as férias com o mozão numas de ‘pré-casado’ é a pior coisa que você pode fazer na sua vida.

Aqui, ao leitor, preciso explicar minha decepção: acho que eu tava ocupado demais nos últimos um ano e oito meses, talvez deslumbrando essa coisa toda de “olha que homem fofo”, que acabei não percebendo: eu tenho um namorado que acha tudo na mão e é superprotegido pela mãe, pela ‘moça que arruma a casa’, vizinhos e amigos do trabalho, do bar, do tempo da escola.

É por que ele desenvolveu uma mania terrível de, a cada cinco minutos, interromper a conversa pra dar pequenos arrotos silenciosos? É por que ele corre o Campo Grande sete vezes, volta pra casa e mistura roupa podre de suor com roupa que acabou de sair do varal (aquelas passadinhas e com cheiro de amaciante), com a desculpa de “eu sou meio desligado”? Não. É porque minha sogra, esse ser tão especial, acha graça dos arrotos e não vê problema em, pacientemente, tirar as roupas sujas do armário e colocar na lavanderia. E, pra completar, acha um absurdo quando brigo com ele, essa criança de 35 anos. “Esse ‘menino’ corre, estuda, trabalha o dia todo, traz trabalho pra casa, visita a avó que tá nas últimas todo dia, sai de reunião e entra em outra, o tempo inteiro isso, e ainda traz chocolate pra você no meio dessa confusão rotineira. Coitado, Murilo, cê não tem pena?”. Sei. Eu faço duzentos freelas, só como quando minha pressão e minha hipoglicemia me avisam que eu vou morrer e nenhum ser humano bondoso tem pena de mim. É pra brincar de comparar?

Cuecas abandonadas no banheiro, sapatos por debaixo de móveis, meias e camisas espalhadas pela casa, não precisa ser do signo de virgem pra saber que essa bagunça, além de fazer você tropeçar vinte vezes pelos cômodos, tira qualquer um do sério. Mas custa, Murilo, você sair recolhendo tudo e arrumar tudo e ele bagunçar tudo de novo e de novo e você arrumar de novo sorrindo? Cuecas, sapatos, meias e camisas nasceram mesmo pra ficar em cantinhos. Você é chato. Coitado dele!

Meu amigo que se mudou de São Paulo pra Salvador começou a namorar um cara. Aqui vamos chamá-lo de André (adoro que esse é exatamente o nome dele). Pra ter uma vida ‘mais sólida’, meu amigo batalhou muuuuuito por um emprego na área de cinema (sim, no começo, a produtora que ele arranjou um freela queria que ele mergulhasse no glamour e na pose de trabalhar pra uma empresa que tinha grandes ideias e grandes prêmios e nome bacana no mercado. Tá, mas quem paga as contas?). Até que ele arranjou ‘uma coisa que dá pra levar’. Dirigia mais de duas horas por dia, porque trabalhava na Pituba e ia lá pros lados da Região Metropolitana, das sete da manhã até as oito da noite. Apesar disso tudo, domingo, único dia dele descansar, era dia de receber o tal do André, vulgo mozão fofo dele (tô começando a ter um pé atrás com esses mozões fofos), pra almoçar, e cozinhar uma tonelada de comida (que ele levaria e comeria durante a semana no trabalho). “Coitado, Murilo, cê não tem pena? Ninguém cozinha pra ele! Quer que ele pegue anemia ou coma pastel e refrigerante pra ter logo uma gastrite e morrer?”. E André vivinho da Silva dando altas gargalhadas com um desenho babaca (e qual não é?) da Discovery Kids, largado no sofá da sala. Coitado!

Verinha, que trabalha na casa do meu namorado desde que ele nasceu, e muito culpada por fazer dele um ser que acha tudo na mão, não pôde ir ao serviço na segunda. Eu, voluntariamente, me candidatei a ir à feira e comprar frutas, legumes, castanha e outros condimentos. Nesses trinta dias na casa do meu namorado, ajudei a Verinha em tudo: lavar banheiro, tirar lençol de cama, passar o aspirador em lugares mais altos pra aliviar o “a coluna não deixa mais”, proferido todos os dias. Mas, nesse dia que ela faltou e que eu fui à feira, acabei esquecendo de comprar a bananinha que ela faz a vitamina dele com whey protein no café da manhã. Aturei, por longas horas, o “coitaaaaaado” ecoando por aquele apartamento gigantesco em que todo mundo me demoniza. “Como ele vai sair pro trabalho sem a vitamina?”. “Meu Deus, imagino ele, esse menino de 1.92 de altura, fraquinho”. “Coitado”. “E agora?”.

Na quinta, fiquei metade do dia no hospital, fazendo uma quantidade insuportável de exames porque minha pressão e minha hipoglicemia caíram (talvez os duzentos freelas que não me deixam comer, talvez por não ter quem faça pra mim vitamina de banana com whey protein). Meu namorado ficou lá comigo, ao lado da cama do hospital, parceiro, apaixonado, tirando foto fazendo carinha de triste ao lado do meu soro. Não é um fofo?! Na legenda? “Frio aqui e minha mãe tá demorando pra trazer o casaco”. E o que todos os amigos internéticos dele comentaram sobre isso? “Coitado, gente, ninguém tem pena?”. Alguém me mate nesse hospital, por favor.

Finalmente consegui eleger a coisa mais triste do mundo

Ficar triste é sempre uma coisa inédita. Todo ano eu fico triste, todo domingo, todo fim de tarde, todo dia. Já fiquei triste, mas dessa vez é diferente. Porque ficar triste hoje é muito diferente de ficar triste ontem. Tristeza é coisa inédita. Já fiquei bem mais triste do que estou agora, mas nunca tão triste quanto ontem. Porque o “mais” de ficar triste, quando é tristeza mesmo, é sempre mais, é sempre deprimente, perturbador, doloroso e é inédito. É sempre com o coração bruto e inocente e vítima que ficamos tristes. É sempre com dois anos de idade, com fome, pelado, com frio, dependente de carinho, procurando sentido por ter nascido, procurando sentido por morrer, com crises existenciais como nunca antes.

A tristeza é uma privada feia de uma festa com decoração linda que demorou dias pra ficar pronta, uma criança quebrando vidros de carro no semáforo com um olhar de ódio pra falta de amor que o mundo ofertou pra ela. Uma pista bem asfaltada que abriu uma cratera na primeira chuva. A tristeza é alguma coisa que incomoda dentro do sapato, um pedaço de vidro incomodando o dedo mindinho, a roupa apertada que agonia o tempo inteiro até o fim do dia. A tristeza é a TV ligada no último volume pra dar a falsa sensação de que tem alguém em casa até que pegue no sono. É ter que comer uma comida cara num restaurante caro, com amigos incríveis e bem resolvidos, quando seu maior desejo, na verdade, é se trancar no banheiro e vomitar no banheiro de casa, sozinho, abraçando o vaso marrom. E triste. Completamente triste.

Eu quero vomitar tudo. O suco de abacaxi com hortelã, o remédio pra amenizar a dor de cabeça, a água que foi junto com o remédio, a saliva estacionada na garganta, a língua que passa pela boca e não vai pra lugar algum, o seco da falta de umidade, a rinite que coça o nariz, o apartamento de duzentos metros quadrados inteiramente sem móveis que virou o meu peito. Quero vomitar meu toque e o toque do mundo que filtro na memória, meus olhos que enxergam tudo tão feio e tudo tão bonito, meu fígado que não aguenta mais excessos, minha mania de querer no meu minuto, minhas listas imensas de expectativas que nunca saem do papel. Eu quero tudo fora, tudo fora. Eu quero meu corpo fora. Eu quero ir pra bem longe de onde está tão deserto e de onde eu tinha colorido tudo com flores pra fazer uma foto sua sentado bem no centro. No centro do meu peito. O afago do peito dilacerado. você, com o holofote focando na minha esperança.

A tristeza me deu uma caixa de espectativas esta semana. Me fez construir um milhão de esperas. Me orientou a ter autoestima em frente ao espelho. Me fez pensar em um milhão de almoços e jantares e cinemas e cursos e pessoas e projetos. Eu sorrindo pra que eu consiga como o resto. Eu implorando pra ser normal e achar normal que tudo bem mais uma foto no Instagram com amigos na balada e copos de cerveja pela metade na mesa do bar.

A tristeza me fez cortar o cabelo doze vezes em um mês. E pintar. E deixar uma franja. E cortar a franja. E sentir falta da franja. E pensar que talvez um topete. Ou deixar a testa limpa como um presidiário. E me fez me matricular na natação, na academia, no pilates. E me fez flertar com vinte caras no bar que eu jamais vou dar uma chance. Odeio estas listas de “o que fazer pra sair dessa”. Não existe nada mais triste do que esse papo furado de dar a volta por cima e essas coisas de seguir o baile e essas coisas de andar pra frente e essas coisas de sacudir a poeira e essas coisas insuportáveis que a gente fala ou pensa ou ouve ou encontra em livro barato de blogueira “paz e amor” que resolveu ser escritora. A tristeza são frases que combinam com para-choque de caminhão, vazias e feitas e deprimentes sendo expulsa de bocas vazias e feitas e deprimentes.

A tristeza me fez repartir o Rivotril no meio. Agora uma parte. Depois outra. Porque nem tarja preta eu tô suportando engolir pela metade. Que pelo menos dentro do meu corpo triste alguma coisa possa se sentir inteira.

A tristeza ​é o despertador tocando cinco da manhã, é a rodinha empacada da cadeira, a mesinha de computador do trabalho, o café frio, uma parede, um celular, um elevador, um carro, um engarrafamento, uma mochila, a poeira do ar-condicionado, o voucher até dia 30. A tristeza são as ruas escuras e vazias, as ruas claras e cheias, o rapaz corcunda da floricultura, os velhos andando devagar na sua frente, os jovens andando devagar na sua frente, gente gorda suando, gente magra suando, o cinza, o laranja, o azul, o incolor. É a próxima música, a próxima esquina, a próxima hora. É ficar em casa, é sair de casa. É aceitar ser louco e detestar gente louca.

A tristeza é a angústia de não saber o que é. A tristeza é esperar porque ainda faltam seis dias, sete dias, quinze dias, trinta dias. A tristeza é a nossa última vez andando de mãos dadas juntos. É a nossa última vez juntos fazendo seis dias, sete dias, quinze dias, trinta dias. É o amor que aceita acabar, mas não vai embora. É tentar entender o que é amor e não saber o que é o fim e não saber o que é não saber o que é o fim. ​​

A tristeza dá bronca o tempo inteiro porque cansou de gente que quer tentar entender. Ela não quer entender mais nada. Ela só sabe que é triste. A tristeza é de uma humildade que a deixa ainda mais triste. É ficar em pé, é ficar sentado, é deitar. É reclamar, é ficar calado. Tentar, ir, ficar ou desistir carregam o mesmo nível de tristeza quando tudo não sai como a gente quer.

Meus dedos tocam nucas e mãos e braços e barbas e cabelos e paus e outras milhares de texturas. Todos os toques são extremamente tristes. O que as pessoas fazem com digitais de afagos que ficam grudadas em nucas e mãos e braços e barbas e cabelos e paus? Lavam com água e sabão? E vão pro ralo. E isso é triste. Amanhã vai ser triste, semana que vem vai ser triste, ontem foi triste. Hoje é o dia mais triste do mundo.

É por que eu tenho medo daquelas ruas escuras da Federação e do Corredor da Vitória e do Canela e da Orla? É por que eu fui assaltado em todos os bairros desta cidade? É por que eu uso samba-canção feia pra dormir? É por que eu sou egoísta, arrogante, louco, sempre quero ter razão e tenho um dente meio torto? É por que você sempre soltava um arroto alto sem querer e eu ria de você e ria da sua estante que não aguentava tanto livro e ria das suas músicas e ria dos seus filmes e ria do sorvete sujando sua barba e ria de nervoso e ansiedade porque eu amava tanto você que odiava você? É por que eu torci pra que o mundo explodisse com suas chatices e tristezas, mas antes preparei um lugar seguro pra você? É por que criei dez mil muros pra receber alguém e quando encontrei você quis esmurrar sem luvas, até sangrar, o seu único muro como se você também não precisasse de dez mil muros pra se proteger? Ou é só por que é assim mesmo? Assim: pouco, mas em excesso; simples, mas complicado. E triste.

Hoje – às cinco e trinta e seis da tarde, a hora mais triste do dia -, quando abri a porta de casa, me deparei com o que eu elegi o mais triste de tudo. É o banquinho de madeira que você pintou de amarelo e que você colocava a sua bolsa carteiro e sentava ao lado dela pra fumar maconha e que não guarda mais nada e nem espera mais ninguém pra sentar. Ele agora cumpre bem a função: é só mais um banquinho. Vazio, sem graça, carente, impotente, em sua grandiosa função de banquinho. Sua miserável, desgraçada, amarela, insignificante, triste e livre função de banquinho.

A família do meu namorado é de extrema direita

Texto: Murilo Melo

Minha sogra me mandou uma foto de um gatinho que ela achou na rua. Ele estava com fome, sujo, magrinho e com alguma doença de pele. Ela, com o maior coração do mundo, enrolou o filhote em uma toalha e levou pra casa. Deu banho, comida, “arranjou” veterinário e fez dele um novo residente. Nos dias posteriores, passei a receber, por WhatsApp, uma série de fotos do gatinho numa rotina que ela apelidou de “olha que coisa fofa e bagunceira”. Era o gatinho dormindo dentro do armário da área de serviço, esparramado no edredom e até na posição “colocando ovinho” em cima da mesa de leitura.

Eu estava na varanda, com minha mãe ao telefone, quando recebi um interfone do meu porteiro. Era meu sogro, na porta do prédio onde moro, com ânsia de dizer que deu tudo certo: conseguiu marcar a cirurgia da minha mãe sem precisar esperar a carência do plano de saúde. Como o senhor fez isso? Eu sou um dos melhores advogados de Salvador. Mas e daí? Entrei com uma ação judicial. O quê? Isso mesmo. Aquele homem, ali, salvou a vida da minha mãe e se tornou, pra mim e pra toda a minha família, espécie de Deus.

Quando eu me mudei da Cidade Baixa pra Orla, o irmão mais velho do meu namorado abdicou do único dia de folga pra me ajudar na mudança. Eram caixas imensas e sofás pesados e geladeira e fogão. Ele, prontamente, resolveu tudo com um sorriso enorme. Chamou uns amigos que eu nem conhecia e, em meia hora, eu já estava no apartamento novo. Não sei se ele me salvou tanto quanto o irmão mais novo dele, que, em dez minutos, resolveu o “apagão” do meu computador e recuperou todos os meus documentos e projetos que, por vacilo, não guardei na nuvem. Enfim, toda lembrança boa da família do meu namorado vem de gestos bonitos, de bondade, de delicadeza, de humanidade.

Nunca entendi por que sempre era um sacrifício pro meu namorado passar o Natal com a família. Nunca entendi por que, no comecinho de tudo, era sempre “outro dia eu te levo pra você conhecer” e isso por quase seis meses sem me apresentar, sem me levar às festas. Nunca entendi por que, numa roda de amigos, em que todo mundo falava sobre a infância, ele ficava impaciente e se levantava e mudava de assunto. Por que, um homem tão bom como ele, fugia de uma família tão boa? Por que, um homem que pensava em ter filhos, tão carinhoso e afetivo, tinha asco da própria família? Uma vez, dentro do carro, ele me perguntou: “cê acha que é possível nascer na família errada?”, e eu não entendi nada.

Lembro da primeira vez que ele me apresentou à família. O avô dele, nos intervalos de “este ano é meu último ano de vida”, me falou que “se arrepende de não ter saído do Brasil com tanto corrupto do PT”, e meu namorado, ao pé do meu ouvido, se desculpou dizendo que o avô não anda bem da cabeça. Uma vez, num churrasco do tio, o pai dele falou algo como “não acredito que estão fazendo com que as crianças achem que travesti é normal”, e meu namorado ficou super nervoso, inventou um assunto, puxou meu braço e me levou pra varanda. No fim do ano, a avó dele disse que “acha um absurdo gente ganhar Bolsa Família só porque é pobre” e “por que não trabalha?”, e meu namorado inventou pedir uma pizza quando ninguém estava com fome.

No domingo, no almoço de aniversário de 35 anos de casamento dos pais, achei que era uma boa chance de conhecer melhor a família dele. Talvez falar sobre cinema, artes plásticas, febre amarela. Talvez não falar quase nada e só ouvir. Afinal, com aquela mesa imensa e cheia de louças portuguesas ao estilo novela de Manoel Carlos, em pleno Corredor da Vitória, com 256 parentes presentes, talvez o melhor mesmo fosse não falar muita coisa. Mas como permanecer de boca fechada quando se ouve, enquanto você pede o salmão com molho de maracujá, que “finalmente, Lula, o líder da bandidagem, foi preso”, proferida da boca de um dos tios do meu querido namorado que há muito tempo não presta contas à Receita Federal? Como ficar de boca fechada quando a prima dele, uma baixinha malhada, aponta para a TV e diz que “as feministas que estão no protesto só estão nessa bagunça porque não têm marido e roupa pra lavar”?

Que remédio vocês tomam pra suportar gente que acredita nunca ter existido a ditadura e que talvez seja ‘tranquilão’ a intervenção militar? Que assiste aqueles noticiários sensacionalistas de meio-dia com o maior prazer do universo e sente o maior prazer do universo quando ouve o apresentador dizer “que a polícia tem que dar porrada e matar mesmo”?  Como você se sente quando o irmão mais velho do seu mozão bate palmas para as declarações parciais do tal Mourão “porque esse, sim, faz justiça”? O que você faz quando a mãe de um gay, do gay que você ama, diz achar “gay uma coisa normal, mas os que não são discretos e bem educados viram uma afronta séria e perigosa à vida das pessoas de bem”?

Como você consegue ficar de boca fechada, no meio de um almoço importante, quando os primos dele do Oficina se unem com o irmão mais novo dele do Anchieta e publicam vídeos imbecis dos discursos imbecis de Bolsonaro, Crivella e Feliciano “porque eles falam muitas coisas boas”, mas na verdade só querem ganhar like no YouTube? Que gente é essa que coloca ‘curtidas’ virtuais à frente de uma nação? O que você faz com esses adolescentes que passam o dia na internet publicando fake news de Pabllo Vittar e a Lei Rouanet? Que comemoram a prisão de Lula “porque agora Bolsonaro lidera a pesquisa”. Como amar a família do cara que você mais ama na vida, uma família que apoia um candidato à presidência da república com discursos sexistas, racistas e homofóbicos? A família que resolveu explodir o mundo e defender um homem sem projeto e com terrorismo no coração. Só quem odeia a vida e deseja que a humanidade morra pode gostar desse homem.

Quando o assunto descambou para “um analfabeto não deveria nem ser presidente de associação de bairro”, um nó travou na garganta e eu não suportei. Lembrei que nasci numa família petista. Quando Lula foi eleito pela primeira vez, lembro da minha mãe chorando na cozinha, acreditando, pela última vez, em um homem que poderia mudar a história deste país. Estar ali, no meio de tanta gente ignorante e sem boa leitura, era ofender a minha mãe, as minhas ideologias e a minha lucidez. Meu namorado, de esquerda como eu, apertou a minha mão firme e, ali, sem fazer isso com as palavras, me explicou por que tinha asco daquela parentada toda. Como uma “família do bem”, que adota animais e ajuda pessoas, acha normal que travesti seja morta?, perguntei para todos eles quando terminaram de comer o pudim. No meio de risadas altas, todo mundo ficou em silêncio. Fui embora. A mãe dele, que sempre me mandava mensagens do “gatinho fofo e bagunceiro”, se calou desde domingo. Hoje é quarta-feira. Ninguém falou comigo até agora. Graças a Deus.

Aviso

O colunista está em férias.

Até quanto você paga por um homem?

Texto: Murilo Melo

Acordei me esparramando na cama cheio de preguiça, assim meio sem ter o que fazer, uma vontade absurda de ter alguém pra rir ou pra ficar pelado. Tem desse modelo dois em um que dá pra rir e pra ficar pelado ao mesmo tempo, Zé? Claro que tem. É um dos mais vendidos, senhor. Se acostume, Zé, me chame de “moço”, por favor. “Senhor” me deixa velho pra caramba, e, pra completar, ainda ninguém quis casar comigo. É pra levar ou vai comer agora? Vou comer em casa. Embrulha, mas não capricha muito, não, porque eu tô com tanta fome que já vou chegar comendo.

É impressionante essa tecnologia dois em um. Eu realmente fico de boa dando risada a noite toda e quando meu estômago começa a doer de tanto rir, vai dando uns calores, uma vontade louca de ficar pelado. A indústria demorou, mas descobriu que o tesão do ser humano tá mesmo é na laringe. Quanto mais a gente se contorce de tantas gargalhadas, maior a vontade de tirar a roupa e ficar de quatro.

Boneco maravilhoso esse modelo bombadinho, né? Pena que vende em qualquer esquina, é descartável e todo mundo pode ter. Pena que ele é bem limitado e tem uma função irritante de postar foto de cueca, com barriga trincada, mostrando os pentelhos no Instagram. Pena que, no dia seguinte, começou a mostrar que tem prazo de validade curta: as piadas ficaram velhas, o sexo ficou uma imitação medonha de um pornô americano e o botão do amor logo deu pau.

Foi-se o tempo que a gente trocava peças de alguma mercadoria. Ninguém mais briga só pra mostrar que dá valor. Hoje em dia a oferta é tão grande, tudo ficou tão mais fácil, que escolher no cardápio e comprar outro sai mais barato do que tentar consertar. Tá lá o moço gostosão ao lado da lixeira gigante na porta do meu prédio. Ele tem uma musiquinha programada que só repete “academia” o tempo todo e me dá dor de cabeça. Talvez alguém cate pra fazer bonito com as visitas em casa, espécie de árvore de Natal; talvez algum tiozão deprimido e solitário faça bom uso como abajur.

Aí tava meio de bobeira andando pela rua e olha eu de novo na loja de Zé. Olhei a vitrine e pensei: por que não um desses rapazinhos com pele bonita e brilho nos olhos? Desses cheios de vontade de dar certo na vida e de conquistar o mundo. Adoro esses rapazinhos que não fedem a desistências e fracassos e que tentam desesperadamente parecer homens. Talvez eu adore eles porque eu também só tente parecer homem. As pessoas adoram também. Saquei alguns reais no caixa eletrônico da alma e, dessa vez, mais do que as outras, saí feliz da vida com uma imensa sacola da loja. Quem tinha um boneco livre de angústias como eu? Posso tirar a roupa dele, Zé? Pode, Murilo, mas depois não vá dizer que eu não avisei: o manual de instruções diz que no dia seguinte dá um vaziozinho no coração. Mas fique tranquilo, não é nada que não passe com as próximas compras. Mas, Zé, posso dormir assim abraçadinho com ele, né? Pode, mas o manual diz que aí piora mais um pouco. Antes um coração vazio e inteiro do que um todo despedaçado, porque isso aí a garantia não cobre de jeito nenhum. Mas vai lá, Murilo. Arrisca. É bom pra você aprender. Brinca o quanto você puder com ele, não pensa no depois, no dia seguinte. Ele é do tipo que gosta do agora. E fica tranquilo, quando ele se autodestruir em alguns segundos, você saca mais alguns reais e compra outro pra você. É simples. Mas não chora, não. Tá parecendo um menino bobo. Era só um rapazinho igual a 800 que têm nas lojas.

Que modelo você vai escolher agora? Quer o modelo que fala rolê, o que fala maior doideira ou o que fala insano? Ah, Zé, acho que vou mudar de tática. Vou  escolher alguém num perfil que meus amigos dizem que parece comigo. Quero um que fale coisas mais inteligentes e profundas, cansei de coisa superficial, tem desse? Vou ser sincero contigo: tem, mas custa bem caro porque é importado de outro planeta. Esse fica no estoque porque ninguém quer pagar. Mas hoje tô facilitando. Hoje dez vezes no cartão resolve seu problema.

Acho que preciso de ajuda, só que agora psiquiátrica. Talvez voltar à terapia. Vou levar todas as reservas da minha alma à falência se continuar gastando desesperante como eu estou. Nem bem fico de saco cheio de uma compra e já quero voltar de novo à loja, já quero sentir de novo o prazer passageiro de tirar a novidade da caixa. É um vício. Só gosto quando é novinho em folha. Oi, me diz, será que por acaso vocês não têm aí um modelo que já vem com bom papo? Tô meio carente desse mundão de gente chata e burra e sentindo uma falta gigantesca de ter com quem conversar. Mas claro que temos. Esse aqui é o modelo mais novo. Parece que foi feito pra você. Ele já vem com HD embutido com memória inteligente sobre cinema francês, urbanismo e política e você ainda leva as assinaturas da Piauí e Caros Amigos totalmente de graça. Volto pra casa com meu novo boneco ultrainteligente. Ele fala de Lula, critica Sérgio Moro e explica sobre a reforma da Previdência.

Não demora muito e eu fico um pouco cansado porque esse modelo vem num português bem rebuscado. É um problema pra mim que tem predileção por linguagem coloquial. Quase sinto falta do antigo boneco que com o mesmo comando falava ‘beleza’ e abaixava as calças. Mas acho que cansei desses modelos que abrem o zíper com facilidade, agora quero uma conquista mais difícil. O HD desse me excita mais do que programa vagabundo que fala frases de sacanagem. Taquepariu, colocaram toda tecnologia no cérebro e esqueceram do resto. Que modelo fodido é esse? Boneco chato pra caralho, tá louco?! Sexo que não canta musiquinha e coração que não pulsa com luzinha. Foi-se o tempo que os brinquedos impressionavam com pirotecnia. Esse é tão ridículo que se acha autossuficiente porque sabe falar sobre todos os assuntos. Fico bem irritado, a indústria e o comércio fazem de propósito: não existe o boneco que supra suas necessidades justamente pra você voltar na loja todos os dias.

Mas cansei de ficar olhando vitrine, panfleto e acreditar em papo de vendedor, não sou otário, não. Vou acabar com a conta bancária limpa desse jeito. Zé, você não tem aí um modelo diferenciado, que me faça rir, me dê tesão, me deixe pelado, seja inteligente, bom de papo e tenha coração? Ah, e de preferência que ature ansiedades e inseguranças. E que venha com vários HDs de assuntos que é pra eu não enjoar. Ei, Zé, e que tenha garantia, por favor. A pior coisa que a gente pode fazer é investir nesses bonecos sem nota. Ih, tem, não, moço. Esse muita gente procura. Tá em falta. Fizeram uma versão limitada e esgotou tudo no mesmo dia. Fiquei impressionado. Mas ó, deixa seu nome nesta lista de espera que quando chegar a gente manda um e-mail. Ah, Zé, peloamordeDeus. Meu nome já tá nessa merda de lista há 27 anos. Eu nasci querendo um desses. Desculpa, de verdade. Você vai ficar levando outros modelos até que esse que você quer chegue, só pra abafar o desejo. Hoje eu vou ficar devendo.

Tudo bem, Zé, eu já sabia. Mas já que é pra esperar sentado, me venda um boneco grandão que me dê de graça uma jockstrap com um furo bem grande na bunda​.

Gays são chatos

Texto: Murilo Melo

Há alguns meses um cineasta bissexual cismou comigo. Ah, seus textos isso, seus textos aquilo. Sua foto isso. Seu jeito de falar aquilo. Olha como você se veste. Olha como você sorri. Você, Murilo. Ah, que homem. Que delícia de homem é você. E durante seis meses ele me mandou mensagens por WhatsApp e Messenger, quase diárias, a respeito dessa adoração. Quero você, Murilo. Quero você!!!!!

Aí ele finalmente deixou o trabalho em São Paulo e veio lançar o filme no Panorama Internacional Coisa de Cinema, no Glauber Rocha. E quero te ver daqui, preciso te conhecer dali. Hoje não dá? Como assim? Mas ainda são duas da manhã! Você, Murilo. Ah, que homem. E o cara me mandava mensagem na metade do filme, pouquinho antes de começar, pouquinho depois de terminar. Uma loucura!

Durante as filmagens, Deus me livre, uma obsessão que nunca vi. Apaixonado, completamente apaixonado. E me mandava fotos de ingressos. E me dizia que podia guardar a cadeira no melhor lugar da sala do cinema. A cadeira estratégica pra eu ver o filme melhor do que todo mundo. E pode trazer quem você quiser, mas melhor que venha sozinho. Preciso te conhecer, preciso muito. Você, nossa, que homem. E eu fui. Ah, eu fui. Fui todo depilado e com cueca nova. Seis meses no meu pé, sempre com a mesma frase “preciso te conhecer”, sempre com essa obsessão. Eu fui. E achei ele lindo. E cheiroso. E interessante. E inteligente. E juro que ele foi, nesses últimos anos, o melhor beijo na boca e o melhor sexo que já fiz.

E a coisa crescia absurdamente. Ah, Murilo. O cheiro do seu cabelo, seu toque, seu sorriso, sua mania de falar pausadamente. O cara, se pudesse, comprava uma moldura e me colocava na parede da sala. Se pudesse, me fazia virar uma estátua na entrada do condomínio. Se pudesse, brigava com a Unesco pra que eu virasse patrimônio da humanidade. Juro, nunca ninguém ficou tão encantado por mim.

Ele chegou ao ponto de, no dia do filme ficar em cartaz pela primeira vez em São Paulo, agradecer a Deus olhando pra mim, que, mais uma vez estava babando o trabalho dele, que nem besta, na cadeira estratégica pra ver o filme. E me abraçou forte por meia hora, no final dos créditos, deixando com a cara pra cima todos os convidados que queriam cumprimentá-lo. Tipo: eu era Deus! Tipo: dane-se o resto.

E então, ele me levou pra casa dele e a coisa só piorou. Por que eu fui inventar de dormir com esse homem? Ah, Murilo. Porque você sem roupa, porque seus olhos fechados, porque você enrolado no meu edredom, porque você dormindo, porque você acordando, porque você me dando beijinhos, porque a gente transando quase de manhã, porque tomar banho com você, porque eu sei, homem da minha vida, escrita profunda, sensibilidade absurda, alma humana, humor genial, acidez charmosa, que homem, que homem, que homem, eu nunca mais vou conseguir viver sem você, não aguento ficar longe, não quero mais viajar e te deixar aqui, você pode o que você quiser, é você, é você.

E me levava pra conhecer os amigos de Salvador, de São Paulo, do Rio “se preparem pra amar esse homem pra sempre, porque é o que eu já tô fazendo”. E não existia segunda, nem terça e nem quarta. Todo dia era fim de semana. Todo dia era dia de me buscar no trabalho ou na Ufba e me levar pra um bar, um lugar que eu “precisava conhecer” e namorar e ouvir aquelas coisas todas. E de sempre, no final, me pedir pra ficar mais um pouco. E quando eu me dava conta, lá se foi mais duas horas.

E ele assistia filme comigo abraçado no sofá da sala, me apertando tanto, sem nem conseguir me deixar respirar. E pausava o filme pra me mostrar a foto dele quando criança dentro de um daqueles álbuns na mesinha lateral: “olha a cara do nosso filho”, “mas eu quero que tenha o mesmo sorriso que você”. E ai de mim se, por algum descuido, topasse sair com algum amigo ao invés de ir naquele apartamento gigantesco onde ele sempre me colocava no pedestal. E eu quieto, comendo mais uma caixa de Bis, vendo aquilo tudo. Querendo acreditar devagar, sem euforia, mas acreditando às pressas porque, afinal, a vida é uma bosta gigante e eu deveria mesmo merecer esse homem gato, inteligente e completamente apaixonado por mim. Por que não? Sim, sim, eu merecia! Eu não podia estragar. Eu merecia muito ser feliz.

E então, numa noite, depois de me levar no Pereira e me dar uma pulseirinha escrita “I love you” e me apresentar como namorado pra todos os garçons do restaurante, eu decidi que gostava desse cara. Mas era um gostar quase amor. Mas eu ainda não amava ele. Mas gostava tanto a ponto de querer que ele não fosse embora nunca mais. E porque decidi que então eu estava naquela relação intensa (e qualquer gay romântico e um pouco desacreditado na vida que decide isso precisa de algumas garantias pra não se sentir inseguro), achei que não teria problema em dizer pra ele o quanto eu sofria por não ter mais espaços em Salvador pra ele rodar o filme, que eu estava mal-humorado com o fim do Panorama, se não tinha como prolongar aquele mesão de chope com os amigos do cinema, se ele iria largar a produtora em São Paulo e voltaria a morar em Salvador ou se ao menos viria me ver toda semana, se ele ia se comportar em São Paulo, longe de mim, frequentando aqueles bares da Augusta cheios de viadinhos alternativos e barbudos da Escola de Atores Wolf Maya querendo fazer um teste de sofá pra ter uma chance no cinema, se ele queria mesmo ficar comigo, se ele sabe que desde criança eu quero ser pai. Aquela ladainha normal de qualquer gay romântico que quer que dessa vez dê certo, que se sente à vontade pra ser chato pra caralho depois que o cara confirma na tecla verde de que “curtiu o beijo, o sexo, conheceu a família e está insuportavelmente apaixonado e obcecado por você”.

E ele coçou o redemoinho do cabelo. E levantou do sofazinho. Espreguiçou. Fumou um cigarro na janela. Depois outro. Foi tomar banho sem falar nada. Silêncio. Ficou uma semana sem me ligar, sem me mandar mensagens. Silêncio total. E depois, porque quando deixam de me amar eu começo a amar, fui pra São Paulo, louco, desesperado, tudo bagunçado dentro da mala, pra tentar entender o que é que tava acontecendo. Eu precisava saber. Onde a gente tinha perdido a cor? Ele me disse, com uma frieza e descaso que até hoje me dilaceram e me fizeram duvidar mais ainda da existência do amor: “ah, Murilo, você é chato”. O quê? “Você é chato, seus textos são chatos, sua vida é chata. Eu prefiro mulheres, porque elas são chatas, mas já aprenderam que homem na maioria das vezes não vai ligar no dia seguinte”. É, gays são chatos mesmo. O que é melhor, infinitamente melhor, do que ser escroto como você.

Gata, sai daqui com seu glitter

Texto: Murilo Melo

Meus vizinhos do prédio em frente fizeram um protesto dia desses porque o síndico anunciou aumento no condomínio. Por que cobrar mais cinco reais na conta do mês de “pobres jovens universitários estagiários que pra pagar o Uber dependem do cartão do pai que é fazendeiro no mesmo interior que Zezinho não sei das quantas” só pra aumentar o salário do porteiro, do zelador e do jardineiro? Por que, senhor? Pra quê? Mas o engraçado (ou triste mesmo) é que, no Carnaval, eles alugam minitrios, compram fantasias e caixas e caixas e mais caixas de cervejas por preços exorbitantes. Vaquinha?

Às 8h de sexta-feira, os grupos desses pobres jovens universitários e dos seus amigos pobres jovens universitários ainda não estavam formados, mas, do alto da minha casa, pude ver o empenho de alguns deles em montar barracas e caixas de som e isopor, gritando, de minuto em minuto, “Ôeêh”, em coro audível até a França, anunciando pra se preparar porque “hoje tem”. O trânsito em nada atrapalha, imagina, essa não é a intenção da turma dos bloquinhos, embora, vezenquando, motoristas estressados soquem as buzinas (porque duplas dançam algum funk no meio da rua), somando ódio de tudo isso com um desejo quase inconsciente de ajudar no caos. Prepare-se, hoje tem.

Eu, um ser cansado por uma cobertura jornalística carnavalesca de site, só queria dormir mais um pouco. Dona Iraci, vizinha de porta, de 68 anos, só não queria mais ter enxaquecas e arritmias e não sentir as paredes tremendo por um pancadão. Seu Luiz, marido de dona Iraci, só queria passear com o cachorrinho em paz e transitar no meio da multidão sem pisar em xixi e sem levar cerveja na cara. Mas nem eu, nem dona Iraci, nem seu Luiz, nem ninguém dos doze prédios espalhados pela rua fala nada. Vai fazer o quê? Tacar ovo? Chamar a Sucom? Nos calamos sob o pedido de paciência mental de que “deixe de ser chato, é Carnaval” ou, pior, “pode parecer mais inveja do que direito”. Um misto de indefesa e tolerância.

Eu não tenho problemas com você que acorda cedo pra pular Carnaval. Desde que você não grite na minha porta como se não houvesse amanhã. Eu não tô nem aí pra você que passa o dia inteiro no sol, sem desodorante e sem filtro contra raios UVA e UVB, só porque precisa ver Baiana System, só porque precisa pertencer àquele mar de gente, só porque precisa sentir aqueles batuques e aquele cheiro de maconha que considera terapêutico. Eu não tenho problemas com você que vem andando da Avenida Sete até Ondina. Que compra bebidas que corroem fígados como ácidos, que bebe e pula e fuma e bebe mais e não vomita nem passa mal com a pressão cinco por dois e nem com a hipoglicemia e nem morre.

Eu não tô nem aí pra você que pisou em setenta e duas pocinhas de xixi e depois vai pisar com os sapatos no tapete da sala de casa. Que faz xixi em qualquer canto sem nojos e sem medo de câmeras e olhares curiosos. Que sai abraçando centenas de pessoas e, consequentemente, tem centenas de suores da raiz do cabelo até a sola dos pés. Que acha graça em colocar lantejoulas até no pau (sim, essa é pra você). Que não sente pânico quando não alcança o chão no meio do bloco.

Eu não me importo que você sai fantasiado de “baranga” sem nenhuma vergonha de encontrar seu quase sogro e chefe sério e aquela tia que sempre achou você “meio gay”. Eu não tô nem aí pra você que, no fim da folia, não aguentou o sapato apertado e deitou no mesmo cantinho do mendigão. Eu não tenho problemas com você, do meu prédio em frente ou que nem mora na minha rua, mas veio pra cá encher o saco, e ejaculou e cagou na minha porta. Foda-se vocês e a alegria de vocês. Foda-se que você estudou jornalismo, design, publicidade, letras, cinema, arquitetura, usa anel no dedo do pé e ouve MC Loma. Eu sei, você enlouqueceu, você não trabalhou, você foi feliz, você tem amigos, você não sente angústia, você não se apega, você é descolado, você adora relacionamento aberto, você não quer aperto de mente, você só quer bebeeeeeeer. FO-DA-SE.

Mas eu tenho problema com você que, ao me ver andando na minha paz, com medo de perfurar o All Star com vidro de retrovisor quebrado, sai do bloquinho (pingando cerveja e sem desodorante e com resquícios de xixi e de suor e de lantejoulas do pau dos outros) e corre em saltos longos e desesperados pra me dar um abraço e acaba deixando meio quilo de glitter em mim. Essa porcaria que não serve pra nada a não ser aumentar a conta de água. Mas tudo bem, esse ano eu tolerei. Tem brilho até no meu estômago. Mas ano que vem, se Deus quiser, tem mais! E quando você passar pela minha porta gritando “Ôeêh” oito horas da manhã, vai levar um balde inteiro de glitter na cabeça. Feliz Carnaval!

Plástico bolha

Texto: Murilo Melo | Arte: Agatha Rabelo

Estou há duas horas estourando bolha por bolha do plástico que veio embrulhado na máquina de lavar. Penso que todo esse ar não aguenta mais ficar sufocado dentro do espaço minúsculo e redondinho. Quero tirar todo oxigênio preso ali dentro. Quero deixar o plástico lisinho, sem nenhum resquício de ar abafado.

Há duas horas choro infinitamente, quase engasgando, quase secando por dentro, aos prantos, sem conseguir parar, e isso me dá um sinal. Choro porque a mãe encontrou o filho, depois de dez anos separados, na novela. Choro porque, no jornal da TV, um menino pede pra Deus um transplante de rim pra poder viver em paz. Choro porque tudo é muito lento e tudo é muito rápido e tudo é muito fácil e tudo é muito difícil e tudo é muito superficial e tudo é muito profundo.

Não estou apenas triste, não estou apenas com medo, não estou apenas com raiva, não estou querendo engolir o mundo e os juros do Santander e os congestionamentos e os prazos apertados e os assaltos pela cidade. Eu estou com tudo isso junto e toda essa coisa me emociona muito. Pensar frases que contenham as palavras grande, demais, todo, tudo, muito, infinitamente, exageradamente e imensamente me dão um sinal.

Suportei por quinze meses, quase enlouquecendo e quase morrendo, ficar sem tomar nenhum remédio. Pensei em tomar três comprimidinhos inocentes de Rivotril naquele dia que o voo enfrentou turbulência, naquele dia que o cara que eu gostava me deixou sozinho no teatro, naquele dia que eu estava entupido de provas e freelas e contas pra pagar e zero tempo pra tudo isso de uma vez. Mas, em todos esses “quase”, eu me disse “aguente”.

Se você é meu amigo e me levou pra alguma festa ou alguma baladinha sossegada ou exposição ou bar ou almoço ou jantar, vai se lembrar de algum momento repentino em que fiquei sério, distante, procurando sentido onde não existe, revirei bolsa ou celular e inventei alguma desculpa pra ir embora. Eu fui embora de todos os lugares em que estive por mais de meia hora nos últimos quinze meses. Meus amigos até brincam. Eles dizem que eu sofro de compulsão da fuga à francesa. Eu dou risada quando ouço isso, mas, em alguma parte de mim, sei que esse riso sem explicação é só uma desculpa da parte mais profunda de mim que implora pra “não quero falar sobre isso”. Esse riso, no fundo, não tem graça nenhuma.

Foram vinte e três anos sem nenhum remédio me perguntando “como faz pra aguentar essa merda toda”, três anos tomando remédios me perguntando “como faz pra voltar a sentir aquela coisa toda tão maravilhosamente maior do que estar dopado”, e quinze meses deslumbrando as palavras grande, demais, todo, tudo, muito, infinitamente, exageradamente e imensamente.

Eu disse que parei porque estava engordando, disse que parei porque “eu era maior do que tudo isso”, disse que parei porque queria ser normal, disse que parei porque me dava muito sono e eu precisava trabalhar pra pagar as contas, disse que parei porque eu precisava sentir o toque de um homem no lugar de um bocejo, disse que parei porque eu estava sem libido, disse que parei porque estava em outra, disse que parei porque os remédios me davam a falsa sensação de liberdade, disse que parei porque não queria ser dependente de nada, disse que parei porque não queria sentir vertigem. Mas a verdade é que parei porque eu não suportava mais sentir saudades de quem eu era antes de ser quem eu sou agora. Aquele que tinha expectativas de tudo e não esse que não espera por mais nada. Pedro, meu psicólogo, disse que estou exagerando. “Será que você mudou do que era ou se transformou no que você iria de qualquer forma se transformar?”.

Peço perdão a todos que foram para algum encontro que eu mesmo marquei e que eu mesmo não fui. Peço desculpas também a todos que, sem entender nada, me esperaram ir ao banheiro sem que eu voltasse; que, sem entender nada, me viram ir buscar uma cerveja e sumir na multidão e nunca mais voltar; que, sem entender nada, me viram pegar a mochila e desaparecer falando ao celular com ninguém na linha: “O quê? Oi? Não estou entendendo! Como? Chego em dez minutos”. Prometo que isso não vai mais acontecer.

Mando uma mensagem pra Vanessa, minha amiga da adolescência e consumidora assídua de todos os melhores ansiolíticos do mercado (eu só confio nos que têm SAC pra poder reclamar): “Preciso que você estoure as bolhas do plástico”. “Que bolha de plástico, Murilo? Tá doido? Vai dormir, já são duas da manhã”. Mando outra mensagem dizendo “cartela”. Ela entende e manda um emoji de ‘joinha’ “até que você demorou de pedir ar”.

Não vou mais esperar que a espuma do leite fique uniforme na xícara pra poder beber o café. Não vou mais passar horas e horas e horas arrumando camisas por cores análogas e por tamanho no cabide e depois me culpar que “fiz tudo errado”. Não vou mais achar que algum carro me segue e alguém me espera, dentro de um carro, na rua escura perto da minha casa. Não vou mais estalar o dia inteiro todos os ossos do corpo, por puro tédio, apenas porque tudo desagrada, angustia, não serve e acaba. Não vou mais achar que as pessoas da mesa ao lado do boteco falam mal de mim. Não vou mais tentar me provar, sempre que fico cinco minutos na janela de qualquer lugar alto, que sou capaz de ver meu próprio corpo atirado no asfalto. Em compensação, daqui a pouco, depois de três comprimidinhos, todas as músicas e filmes e livros e novelas e mulheres grávidas e amigos se casando e filhos encontrando mães e crianças transplantando rins vão me comover com o mesmo efeito que uma barrinha de cereal sabor artificial de banana é capaz de me sensibilizar: nenhum. O que me salva também me destrói.

Não sei se é a eterna espera ou apenas pânico, mas hoje eu estava na estação da Vila Madalena, eu vi quando o metrô chegou, eu vi várias pessoas entrando, mas eu não consegui. Fiquei intacto olhando o metrô sumir no vagão. Um grupo de amigos normais me diz que “sente muito”, eu respondo, aqui de casa, que “também sinto muito”, ainda tentando descobrir como faz pra estourar bolha por bolha e liberar todo o ar. Desculpa, este texto ficou triste, né? Pior que daqui a pouco, depois de três comprimidinhos, nem alegre nem triste. Amanhã nem isso, nada disso. Grande, demais, todo, tudo, muito, infinitamente, exageradamente e imensamente.

Onde encontrar pessoas interessantes pra paquerar em Salvador?

Texto: Murilo Melo

Não sei mais pra onde ir durante a semana. Nos fins de semana eu já combinei comigo mesmo não sair de casa: bares e boates lotadas de pessoas com dezessete, dezoito anos — faixa etária não tão absurdamente distante da minha, mas com bom senso bem longe. Nada contra adolescentes ou recém-adultos, alguns até conseguem ter diálogo além de “série” ou de falar, a cada frase, mil vezes a palavra “insano”. Aqui eu tô falando de proliferação desse tipo. Não quero dançar os hits da Jovem Pan ou de mais um MC babaca de Youtube e ter meu braço puxado por um garoto, aprendiz de idiota, bêbado quando ainda nem é madrugada, que fala rolê, véi, trampo. Tenho vontade de fazer a #loka e gritar “Sai daquiiiiiiiiiiii” até o DJ parar o set.

Há um mês decidi banir da minha vida qualquer coisa que seja sinônimo de “ferveção” e só sair de casa pra jantar em restaurantes com música baixa, ir aos cinemas de rua ou talvez um ou outro barzinho com gente que não grita, desses que têm aberto aos montes nas ruas escondidas do Rio Vermelho. Mas a verdade é que, por mais que eu seja apaixonado por meus amigos, filmes de arte e silêncio, meus hormônios de vinte e poucos anos começaram a implorar, quase explodindo de dentro da calça, um homem que aperte meu corpo contra o dele, esfregue a barba dele na minha e arranque um beijo desses de imobilizar a língua. Mas onde eu vou flertar em Salvador?

Já tentei paquerar alguns caras na Cultura e cafeterias como Terrasse. Nunca dá certo. Eles sempre me olham com aquela cara de “fica aí no seu mundo porque eu tô no meu”, ocupados com 549 livros pra ler até o fim do ano. Já tentei paquerar outros no Lalá. Também nunca dá certo. Eles sempre me olham com aquela cara de “gato, só vim ouvir uma boa música e beber uma cerveja com uns amigos, não crie”. Tentei aquelas sociais que os amigos sempre fazem num apê na Barra e que sempre criam a esperança de “se são seus amigos, provavelmente são interessantes”. Infelizmente essas sociais são cheias de casais querendo fazer sexo a três e me olham como “experimento”, e um ou outro esquizofrênico desesperado pra achar o primeiro que dá bola só porque os amigos estão todos acompanhados. Deus me livre de gente desesperada, ainda que eu seja quase um.

Botecos playbas, como o Bar do Guga, com garotos que olham pras bundas dos caras, exatamente onde fica a carteira, e rapazes que exibem a chave do Jaguar, eu tô fora. Lebowski ou Irish Pub, com roqueiros sebosos, drogados e com alargadores de trinta centímetro, também tô fora. Festinhas alternativas da Commons, como a Back in Bahia, com garotas alternativas hippie chique que falam sobre favela, mas nunca passaram por uma, insistindo naquela voz entre o nojo e o nasalado (elas conseguem unir a vontade de serem meigas com a vontade de serem manos com a vontade de serem patos) e rapazes garoto propaganda das camisetas Soul Dila, com bigode handlebar e cabelinhos sebosos samurai à la Tiago Iorc, bissexuais e com cheiro de maconha, tô mais do que fora.

Bares do Centro ou da Pituba, com atendimento bom, mas com suas mesas lotadas de rapazes que estão cansados de relacionamentos e já nem paqueram. O tipo assexuado que prefere bares abarrotados do que engarrafamentos, que reúne vários amigos da firma pra falar de trabalho, que se acha descolado só porque tirou a gravata e abriu dois botões da camisa e que fala tudo metade em inglês ao estilo “essa vida é uma bosta, but i love to live”, tô fora. O que sobra então? O samba no Santo Antônio? Gerônimo? Pra ficar em pé? Nem pensar. Até gosto da música, mas, em ambos os lugares, me sinto um ET. Ou todos são um ET e eu que não sou? Tenho vontade de vestir uma camiseta escrita “cansei” e, conformado com a minha condição, pedir um Uber e voltar pra casa pra assistir a reprise de people and arts.

Odeio sol, então, quando vou à praia (no Porto ou no Buracão), é pela manhã. E nesse horário, quem é interessante, além de se isolar com um fone imenso nos ouvidos e óculos imensos na cara, acorda cedo (quase de madrugada) e vai embora mais do que cedo, aí fica aquela sensação (verdadeira) de que, às nove da manhã, a hora que eu chego, só os idiotas, sem óculos e fones, vão à praia e às baladinhas praianas.

Voltei a frequentar as baladinhas alternativas de rock que eu frequentava na adolescência e que eu encontrava gente bem interessante. Os adolescentes agora são adultos. Gente mais velha, mais legal, roupas legais, jeito de falar legal, estilo legal, papo legal… Pessoas tão legais que se bastam e não acham ninguém legal pra nada além de um papo legal.

WhatsApp, Tinder, Facebook… Me pergunto onde foi parar a única coisa boa na conquista: a tal da química. Mas então onde, meu Deus? Onde estão as pessoas interessantes de Salvador? Até quando eu vou ficar trancafiado em casa, entediado pela mesmice e pelo vazio da vida social, sobretudo noturna? Até quando eu vou continuar sentindo dissintonia? Os anos estão passando, meus ex já estão quase todos casados, meus amigos já falam em ter um bebê, quando é domingo à noite, Réveillon ou lugares cheios de casais, eu sinto falta de ter alguém, eu sinto falta de tudo que se faz a dois. Até quando vou continuar insistindo nesses lugares idiotas, com pessoas idiotas, todas iguais, dizendo a mesma coisa, com a mesma roupa, com o mesmo cabelo, ouvindo o mesmo tipo de música idiota e me sentindo o mais idiota de todos?

Olha direito ao seu redor, meus amigos dizem. Tem alguém interessante. Tem sim. Ele chega tão bonito e me olha tão bonito e de repente beija outro cara que chega tão feio. O outro aparece com o sorriso enorme em uma boca que, em dez minutos, beija quinze e você não aceita ser o “dezesseis”. Meus amigos me criticam porque eu só ando nos mesmos lugares, em círculo. Mas pra onde vou nessa cidade? Pro Subúrbio? A 500 quilômetros da minha casa?

Foi então que eu descobri. Eu e o homem interessante nos desencontramos. Ele dança na pista e eu entro no banheiro. Ele espera o 99POP na porta e eu vou pegar outra cerveja. Ele vai no mesmo supermercado, mas ficamos em seções opostas, separados por uma prateleira gigante de enlatados. Ele está em casa, enrolado no edredom, com preguiça de escolher um sapato que combine com todo o resto. Por que ele sairia? Ele tem NET Now, Netflix, Globo Play, HBO. Ele está no mesmo lugar que eu, pensando nas mesmas coisas que eu.

Você não acha triste saber que quanto mais interessante um homem for, menor a chance de você se esbarrar com ele na rua? Você não acha triste pertencer a tudo e não pertencer a nada? Não acha triste voltar pra casa todo sábado querendo ser de alguém e, no domingo, acordar sentindo o maior vazio do mundo? Não é triste passar o débito mais uma vez e saber mais uma vez que o que realmente importa não se compra? Não é triste saber que o homem ideal pra você, aquele que odeia lugares cheios e música trincando o ouvido, está no mesmo lugar que você, mas vocês não se encontram? Não é triste saber que quando você decide ficar em casa, de pijama e pantufas, comendo brigadeirão de micro-ondas e assistindo um desses filmes de comédia romântica com final previsível, ele atende uma ligação no meio da noite e vai pra um desses inferninhos charmosos com gente que fuma, dança e bebe loucamente e ele, mesmo com todas essas opções, se sente deslocado? Não é triste saber que quando ele vai embora de uma dessas festinhas descoladas, você está chegando?

E aí, espera por quem?

 

Bar feio com quem a gente ama é tão bonito

Texto: Murilo Melo 

Olho pela varanda do meu apartamento e vejo ele chegando. Corro para o enorme espelho do meu quarto e me pergunto, pela milésima vez, “se tem alguma coisa errada”. Troco de calça seis vezes e troco de camisa seis vezes. Um ano de namoro. Ele quer fazer surpresa. Não posso aparecer feio. Coloco a minha melhor roupa e o meu melhor perfume. Ele fica meia hora me esperando dentro do carro, quietinho, com o farol aceso e ouvindo “Modern Nature”, de Sondre Lerche, na porta do meu prédio, sem reclamar.

Quando entro no carro, ele vai logo me avisando: “Vou levar você no lugar que mais gostava de ir antes de te conhecer”. Penso que é um daqueles restaurantes revestidos de vidro na Baía de Todos-os-Santos. Aqueles que a gente fica tentado a tirar foto com o mar e o pôr-do-sol de fundo, mas acha brega demais disparar flashes pra postar no Instagram. Me ajeito todo, mais uma vez, pelo retrovisor, e me pergunto, mais uma vez, “se tem alguma coisa errada”. A roupa tá legal? O cabelo tá bem penteado? Me sinto desarrumado pra ir a um lugar com pessoas deslumbrantes.

Ele estaciona num barzinho que eu não conheço, que fica num lugar que eu não conheço. Ajeito a roupa e o cabelo mais uma vez. Ele então desce do carro e eu, num repente, vejo que usa uma camiseta básica de R$ 29,90 e chinelo Havaianas meio desgastada, meio suja. Fico perplexo. Saio do carro e minha miopia esfrega na minha cara o que jamais idealizei pra comemorar qualquer aniversário de namoro: um bar com pintura de 1972, cartaz de deputado e homens com barba por fazer, desodorantes vencidos, jogando sinuca. Fico perplexo.

Aí ele grita antes mesmo de sentar na mesa: “ô Nelson, traz uma cerva aí”, com aquele sotaque paulistano que nele fica mais bonito que tudo. E Nelson traz. E ele cumprimenta todos os outros garçons com um tapinha nas costas. E me diz que “aqui ele se sente em casa”. E que ele “batia ponto” quase toda semana com os amigos da faculdade. E com os caras do trabalho. Fico perplexo. “Cê acredita que depois da formatura todo mundo veio pra cá?”. Imagino mulheres desfilando com vestido da Dior, pós-entrega do diploma, em um lugar que nem peças da Marisa caem bem. Peloamordedeus, como alguém pode gostar de um bar com cadeira de plástico bamba e copo americano com cheiro de ovo? Passei dez minutos numa fase deprimida que apelidei de “eu preferia virar noite no trabalho ou ser esquecido no dia do aniversário de namoro do que ser trazido pra cá”. Foi a pior noite estética com ele durante os últimos 12 meses.

Se você é do tipo que está acostumado a ir aos bares ruins and sujos and feios da cidade “porque a cerveja é barata pacas”, se você acha que “o que vale é o bom papo ou a boa intenção” entre amigos ou namorados, se você é o tipo obsessivamente engajado pelo “curta o momento e reclame menos”, te peço que não leia este texto. Eu não quero te perder só porque, ao contrário do meu namorado de “esquerda raiz”, eu me tornei “esquerda Nutella” que prefere bares com petit gâteau ao invés de moela cozida.

Admito que invejo seu bom gosto em ler Carta Capital, Caros Amigos e Piauí, seus amigos com argumentos filosóficos e sociais lúcidos e sua luta acirrada contra o machismo, a homofobia, o racismo e a favor de todo sistema de cotas. Mas eu quero aqui, lendo este texto, os que podem, assim como eu, passar horas em um bar feio, bastante deprimido, sofrendo com o óleo requentado de quinze dias que frita batatas e causa colites e gastrites e úlceras graves e incuráveis. Prefiro os que, assim como eu, almoçam na Casa do Comércio, com cozinheiros que usam touca e álcool em gel e vivem rodeados por uma equipe da Vigilância Sanitária.

Quando eu vejo o azulejo do bar, espécie de golfinhos quase indecifráveis de tão feios que são (estilo o que tia Izildinha mandou colocar na casa inteira de Castelo Branco porque ninguém vai mesmo), e eu penso em ficar mais deprimido, ele solta essa: “Eu só queria que você soubesse a importância de estar aqui comigo”. Paro a cerveja na garganta, quase engasgando. “É uma parte da minha vida. A outra. A que eu tinha antes de conhecer. Agora você faz parte das duas. Faz parte de tudo”. Foi a coisa mais bonita que alguém podia me falar num aniversário de namoro. Durante anos me relacionando com homens que achavam que comemorar aniversário de namoro em motel com cama redonda e café da manhã era o melhor presente do mundo, nunca ouvi nada tão sincero quanto. Aí acontece um fenômeno muito estranho comigo. O bar feio começa a liberar sêmens de coraçõezinhos dentro de mim. Quero um champanhe pra brindar, mas, eu sei, aqui não tem. Então, ele grita: “Ô Nelson, traz outra cerva aí”. Acho tão bonito quando ele fala assim “ô Nelson, traz outra cerva aí”, que tenho vontade de beber em goles longos e rápidos só pra ele gritar de novo. E de novo. E de novo.

Porque quando ele pede a cerveja. Quando ele pede. Olha, eu nem sei. Você esquece qualquer banheiro com papel jogado sem delicadeza, transbordando cesto. Esquece qualquer privada marrom porcamente amarelada que denuncia meses sem lavar. Você esquece que viu não sei quem do bar pegar em dinheiro, mexer no cabelo e nariz e depois preparar a vinagrete sem as luvas. Esquece ovos coloridos, isqueiros presos em cordões encardidos e tiozinhos barrigudos com cheiro de pinga que falam gritando sobre futebol no seu ouvido. Você simplesmente esquece que o bar não combina com seu óleo caríssimo de lavanda Weleda e se concentra nele.

É a delícia de ter alguém. A delícia de ter alguém de confiança. De ter um homem apaixonado ao seu lado. De não se sentir inseguro. De amar e se sentir amado. Aí ele se declara. E diz que continua apaixonado por mim exatamente como no primeiro dia que me viu. Só que agora ele acha que se apaixonou mais. Foi a primeira vez que eu tive coragem de falar sobre filhos com ele. E ele me pergunta com quem eu acho que o bebê vai se parecer. E depois ele me sacaneia. Diz que eu demorei tanto pra me arrumar e saí com uma camisa que parece pijama. Puta que pariu, essa porra custou mais de duzentos reais, pior é a dele que parece liquidação. E a gente ri. E ele chama Nelson de novo. E ele me ensina, sem dizer isso com as palavras, que talvez seja de simplicidade que a gente precisa pra ser feliz. Passei mais de vinte anos da minha vida pedindo, implorando a Santo Antônio entregas recíprocas. Só agora eu consegui.

“Ô Nelson, traz outra cerva aí”. A conta? Não, Nelson, que conta o quê? Tá louco? Não quero ir embora desse bar feio nunca mais.

Você também sente angústia depois que transa com seu ex?

Texto: Murilo Melo | Arte: Agatha Rabelo

Mais um sábado que você me liga. Exatamente como faz há uns sete ou oito meses. Você escolhe a camisa que valoriza os seus tríceps, confere o peitoral no espelho, coloca seu relógio imenso, usa um perfume amadeirado caro e vai, mais uma vez, desfilando no seu carro do ano pra um daqueles bares da Paulo Sexto com seus amigos da academia. Lá pelas duas e tanta da manhã, você finalmente pensa sem culpa no seu ex, boceja porque é tudo muito chato e porque o cara que você se interessa até que é bonito, mas não tem papo, e então você se dá conta que sua vida está prestes a ficar vazia – com mesa cheia, mas sem afeto; com pessoas que flertam, mas que não saem da superfície… Pronto: chegou a hora de me ligar.

Você não sabe ao certo por que corre atrás de mim, mas também não sabe ao certo por que não deveria correr. Você sabe que pode ter um homem mais inteligente do que eu, mais bonito, mais gostoso, com mais grana na conta, mais liberal e menos inseguro, que não leva as palavras “relacionamento” e “namoro” tão a sério. Mas, por alguma razão que eu desconheço, você prefere o gostoso garantido com cara de louco, o que conhece de cor suas manias insuportáveis, aquele que vai aos mesmos lugares de sempre, que ri das suas piadas idiotas, mesmo sendo as mesmas piadas idiotas de uns sete ou oito meses.

Aí você me liga, quando já não é noite, mas ainda não é dia. Me liga com a voz descompromissada e calminha de quem só quer conversar com um velho amigo. A voz de “você não sabe o quanto preciso de você”. A voz de “eu te pego em casa, eu pago tudo, eu te levo de volta”. E eu, pra ser sincero, não faço a menor ideia do que vejo em você. Eu sei que eu posso ter um homem mais inteligente, mais gostoso, mais comprometido, assim como eu já tive centenas de vezes. Mas, por alguma razão que eu desconheço, prefiro suas manias insuportáveis e suas piadas velhas. Você é um ogro, um infantil, um idiota, um chato. Mas você me lembra o mistério da vida. E talvez seja só por isso que eu continue insistindo em você: apesar de ter milhares de defeitos, você ainda me lembra o mistério da vida que o resto do mundo não tem.

Aí você vai me buscar em casa, mais uma vez, abalando no seu carro do ano, tentando me convencer a ser sua companhia no mesmo bar que você sempre vai, com os mesmos amigos babacas que você sempre anda: os sem cérebro, aqueles que só falam em carboidrato, proteína, treino e suplemento alimentar. A gente, passando de carro a orla inteira, com ruas vazias e luzes apagadas, sem saber ao certo o que faz ali, outro sábado, igualzinho há uns sete ou oito meses. E mais uma vez a gente se pergunta se vale a pena pertencer a mesas cheias e sem afetos, e acaba pulando o bar que nunca existiu e indo direto ao mesmo assunto de sete ou oito meses: o motel de sempre.

E aí uma bomba de sentimentos funciona como uma montanha russa dentro de mim. Mesmo quando é rápido, mesmo quando é devagar, mesmo quando é bom, mesmo quando é horrível, mesmo quando você está cansado, mesmo quando você está disposto, você sempre se comporta como uma criança egoísta, vira pro lado e vai dormir. Sem beijo, sem abraço, sem carinho. Ou volta pra sua vida ocupada. Com áudios em grupos de trabalho. Com viagens marcadas. Com casamentos de primos. Com festinhas de despedidas e projetos pra daqui a dez minutos ou dez anos. E em nada disso eu estou presente. E em nada disso você me inclui. E, ainda assim, eu sempre me apaixono por você. Todas as vezes que te vi, nesses últimos sete ou oito meses, num “oi” apressado ou no meio da multidão de homens parecidos com você ou num vulto ou numa foto nas redes sociais ou num supermercado ou atravessando a rua ou na cama de um motel, eu sempre me apaixonei por você. Eu sempre estive pronto pra suportar sua vida ocupada. Pra escutar uma piada nova. Pra andar de mãos dadas nesses bares de playboy que você frequenta. E você nunca deu importância pra isso, continuando na sua vidinha que sempre é interrompida pelo vazio das suas paqueras sem papo.

Você também sente uma pontada forte, rápida e descontrolada no coração depois que tem orgasmo com seu ex? Você também volta pra casa no banco de carona do carro dele sem dar uma palavra porque o nó na garganta te dá uma sensação de aperto, de sufocamento, que impede que isso seja possível?

Eu não vou entender nem daqui a mil anos. Eu não sei por que as coisas funcionam assim. Eu não sei por que a gente volta pra casa no fim do dia sentindo falta de alguém que está ao nosso lado, desejando alguém que deseja a gente e que os dois têm na lista de contatos. Eu só sei que eu vou voltar pra casa e tomar um banho bem gelado pra limpar tudo que sobra de você e esfregar a esponja bem forte na minha pele e chorar de novo e me odiar de novo e sentir a maior dor do mundo e me dizer, pela centésima vez, que eu já tinha decidido parar com isso.

Mas aí, daqui uns dias, exatamente como acontece há uns sete ou oito meses, você vai me ligar. Me escondendo como sempre, me querendo no escuro, passando na conveniência às pressas pra comprar camisinha, me levando pra um daqueles motéis de Pituaçu com mulheres de sobrancelhas pintadas a lápis e homens bombados com cheiro de suruba na recepção. E eu vou topar. Topo porque tenho pavor do tédio. Topo porque, assim como você, tenho pavor do vazio. Topo porque é assim que a gente faz com a nossa própria existência nesse mundão de gente tediosa e fútil: não entendemos porra nenhuma, mas continuamos insistindo.

 

Segurar a mão de alguém com diarreia no Ano-Novo é a maior prova de amor que existe

Texto: Murilo Melo | Arte: Agatha Rabelo

Olhei foto por foto de pousadas e praias do Litoral Norte da Bahia com a intenção de encontrar “um lugar sossegado e romântico pra curtir o Ano-Novo”. Convenci meu Namorado a passar dois dias em Arembepe, sob o forte argumento de que “todo casal precisa de um tempo longe de casa pra poder viver a relação”. Os dias se resumiriam a livros, músicas, conversas e amor. Escolhemos o quarto com banheiro de azulejo português e florzinhas violetas na janela. Eu coloquei na mala o livro “A teus pés”, de Ana Cristina Cesar, e ele levou “Poema sujo”, de Ferreira Gullar. No fim das contas, eu não consegui parar de ler uma revista Vida Simples antiga, largada na mesa de centro da recepção, e ele um joguinho maldito no iPhone “onde é possível conversar online com o adversário”.

No primeiro dia, fomos à praia, jantamos num restaurante com luz baixa, fizemos algumas selfies “pra mostrar pra família que estávamos bem”, bebemos taças de vinho no tapete do quarto, de cueca, enquanto a gente improvisava poesia, ria e se beijava. Depois, tarde da noite, transamos pra aliviar o “há muito tempo não fazemos isso”, antes impedido por sonos, cansaços, prazos apertados e falta de libido. No dia seguinte, no Réveillon, decidimos comer frutos do mar. Camarão, polvo, moqueca de peixe e lagosta. Onze e quarenta, a gente fugiu do restaurante, com tédio de adolescentes e medo de ser obrigados a dar abraços calorosos em desconhecidos, principalmente nos outros cinco casais hospedados na pousada, todos sorridentes e esperançosos por um ano melhor (e eu até pouco tempo acreditando que depois que a gente casa não precisa mais de sorriso forçado e nem de ter esperança de nada).

Nos trancamos no quarto. Deixamos apenas a luz do abajur ligada. Tiramos a roupa e ficamos de cueca. Apagamos a luz do abajur… daí, acendemos de novo a luz do abajur porque senti cheiro de barata e, num suspiro mais apurado, ele também sentiu cheiro de barata. Nenhum dos dois dormiria sabendo da existência de um ser asqueroso rondando cama, malas e paredes. Pela cortina, vimos as cores dos primeiros fogos. Eu, arrastando os móveis do lugar; ele, com uma sandália na mão pra matar o inseto abominável. Meia-noite em ponto, num impulso, interrompi os amassos intensos pra beber água. Virei uma jarra de um litro e meio que estava no criado-mudo e abafei o arroto no cobertor. Meia-noite e um, de repente, ele parou de lamber meu peito e virou para o lado, suando frio.

Meia-noite e três meu estômago deu sinais. Primeiro o anúncio proferido por um barulho estranho, depois uma queimação que subia como uma montanha russa até a garganta. Uma criança frágil e indefesa sendo levantada com uma mão só por um lutador monstruoso de jiu-jítsu que, com descaso, imagina levantar um troféu. Um ciclone pós-tropical saía do flanco e seguia em direção ao intestino, sugando, em um segundo, milhões de barquinhos. Enjoo era algo minúsculo perto do que eu sentia. Mas e aí, procuro um sinônimo melhor no Google? Talvez eu morresse na virada do ano (no quarto de uma pousada, com baratas devorando cada pedacinho do corpo). Mas como ter um momento digno de morte ao lado de um homem que, naquele segundo, de pau duro, não respeita seus últimos suspiros e pensa em sexo? A gente lembra como era querer demais sentir suor e beijos e quenturas antes de ser avassalado por azias e refluxos e cólicas. E as pessoas lá fora com seus sorrisos largos. E as pessoas pedindo paz, dinheiro, saúde. E as pessoas brindando. Morrer quando o mundo está feliz é de uma arrogância egocêntrica sem limites.

Meia-noite e cinco — educado, misterioso e disfarçando com um sorriso bege —, pedi que ele esperasse na cama por alguns minutos. Pensei que ele fosse fazer a cara de “puta que pariu, que corta clima”, mas, ao invés disso, continuou encostado na cabeceira da cama, suando frio. No banheiro de azulejo português, eu parecia estar possuído por um espírito demoníaco. Vomitei como quem espera por dias um prato de comida no deserto. Sentei no vaso, dramaticamente, prendendo minhas mãos nos joelhos, despejando tudo o que meu estômago não aguentava guardar. Desejei ficar sentado na privada para sempre, não fosse meu namorado, sem cautela e sem mistério, socando a porta do banheiro: “eu preciso entrar, Murilo. Eu não tô legal. Abre essa porta”.

Foi o camarão do jantar? Não, acho que foi o peixe, ele tava meio cru, meio estragado. É intoxicação alimentar, né? Tenho certeza. Você não tem medo? Tenho. E você? Muito. Qual o nível do seu medo? Acho que cem por cento. Antes ter ficado no suco de melancia com linhaça, e soja com cenoura orgânica e arroz integral. Vai ficar tudo bem, eu tô aqui pra cuidar de você. Sério? Serio. Cuida mesmo? Hein? Cê tá me ouvindo? Amor? Não, desculpa, eu tava com vontade de vomitar de novo. Se eu morrer, você publica meu livro? Se você morrer, eu vou morrer mil vezes, porque comi mais da metade da moqueca. Não fala em comer, por favor. Eu não quero comer nunca mais. Promete que não vai morrer? A gente não manda nessas coisas, né? Ninguém diz ‘não quero morrer’ e não morre. Mas eu preciso de alguém pra me levar pra casa, eu não sei dirigir. Pega um Uber. Nenhum Uber ouve Sondre Lerche e canta tão parecido quanto você. Liga na recepção e pede mais água. Mas a mulher da recepção estava bêbada desde as dez horas. Ela sempre está bêbada. Você acha melhor pedir pro segurança levar a gente na emergência? Ele também está bêbado desde as dez. Eu não tenho mais força. Tá vendo como minha perna está tremendo? Será que você vai perder as pernas? Acabei de pensar nisso. Eu dei um Google em intoxicação alimentar. E aí? Ninguém perde as pernas por causa disso.

Meia noite e vinte, estávamos completamente sem roupa, suados, descabelados, feios, deitados de mãos dadas no chão do banheiro. Nossa relação cercada de boas maneiras, agora adquiria o conforto de uma intimidade madura recém-adquirida pós-diarreia dupla. Nossas mãos geladas, por causa da pressão baixa, de tanto segurar firme, agora voltavam a esquentar. Aos poucos, devagarzinho, nossos corpos se juntavam mais, e eu pude ouvir o ritmo da pulsação voltar ao normal. Eu tô aqui pra cuidar de você, tá? Eu também. De verdade. Podemos morrer aqui, né? Podemos, quer dizer, não. Por que não? Por causa do filho que a gente quer ter. Tá. Então não morreremos. Que bom. Feliz Ano-Novo. Pra você também.

Foi o Réveillon mais bonito que eu tive.

De todos os presentes que você me deu no Natal, o melhor foi o pé na bunda

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Do olho mágico da porta da sua casa, você me viu parado, roupa esticadinha, coração a duzentos por hora. A porta se abriu e lá estava você: suado, sem camisa e sem graça porque, afinal de contas, era tudo mentira que sabia cozinhar. O cheiro de queimado do peru invadiu a sala e sua única saída foi pedir um delivery numa pizzaria vagabunda da esquina. Essa seria a nossa primeira ceia de Natal. Você me abraçou como se desculpasse por mais uma atrapalhada e ali eu tive certeza que te amava de forma absurda e infinitamente.

Eu tinha motivos reais pra te amar. Você é lindo, sua paciência é maior do que a de qualquer Buda, seu abraço quente acalma qualquer pessoa insegura, seu sorriso imenso humilha meu mau-humor, e você é bom em tudo (menos na cozinha), ainda que não queira sem bom em nada. Seu coração é gigante, tão gigante, que é incapaz de enxergar maldade.

Mas eu não te amei por causa da sua beleza, paciência, abraço, sorriso, coração e capacidades. Eu te amei absurda e infinitamente, mesmo, por causa do nosso primeiro Natal juntos. O Natal que você não tinha mais a sua mãe. O Natal que você chorou na área de serviço porque é muito triste e solitário ser adulto. O Natal que você me deu uma caixa com os CDs de Chico Buarque. O Natal do delivery vagabundo e do abraço suado de desculpas. E assim foi por um ano. Eu me perguntava quando amar você absurda e infinitamente teria fim.

Eu tinha motivos reais pra deixar de te amar. Você acompanhou, com olhos sofríveis e humilhados, passo a passo do seu ex naquela festa e eu continuei te amando absurda e infinitamente. Você mentiu que iria dar plantão no trabalho e foi à praia com seus amigos bombados. Você disse, com a boca cheia de certeza, que seu maior sonho era ter um filho, mas, meses depois, descobri que você não gostava de criança. Você achava que, obrigatoriamente, aproveitar qualquer minuto raro de carinho no sofá precisava terminar em sexo. Você me largou sozinho naquele hospital frio e imenso, com a minha mãe sem saber se tinha ou não diabetes, e foi beber com seu chefe num barzinho badalado.

E eu, mesmo me dizendo que não, mesmo me dizendo pra dar um fim, te ouvia, te entendia, te perdoava, insistia na gente. Até o nosso segundo Natal, quando você me mandou embora do seu quarto, da sua casa, do seu carro, das suas expectativas, da sua vida. Você simplesmente fechou as portas pra mim. E eu passei um ano quietinho, te esperando, descartando pessoas interessantes e interessadas por mim. Eu segui querendo ser um homem melhor pra você. Quem sabe mudando as roupas, o cabelo, ficando mais piadista ou mais inteligente, você não volta pra mim?

Foi assim que me matriculei simultaneamente no pilates, numa academia de ginástica, no teatro e em cursos de inglês e de roteiro. Nos meses que se seguiram eu me tornei um dos seres mais fitness e culto do mundo. E sabe o que aconteceu? Nada. Absolutamente nada. Você continuou com as portas fechadas, não lembrando que eu existia.

Foi então que passei 60 dias no Sul, exclusivamente em minha companhia, conhecendo lugares incríveis, controlando meu pânico em estar sozinho e meu medo de estar longe de casa, me tornando mais experiente, mais vivido. Voltei de viagem e nem sinal de vida. Nada. Absolutamente nada. Você continuou com as portas fechadas, não lembrando que eu existia.

Comecei um projeto de clipe literário com uns amigos, aprendi a fazer tântrica, mudei meu cabelo 135 vezes, aumentei as consultas na terapia, baixei uns 60 álbuns de bandas geniais, li mais uns 2oo livros, frequentei o espiritismo, estudei astrologia, rezei pra Santo Antônio umas sete mil vezes, pedindo, pedindo, pedindo, pedindo tanto pra que você enxergasse que amor maior do que o meu não existia.

Como última cartada pra mostrar que eu era um homem interessante, fiz uma festa em casa, coloquei a roupa mais bonita e com cheiro de loja, decorei tudo minuciosamente, servi um vinho branco maravilhoso e comidinhas feitas, claro, por mim, que, diferente de você, aprendi a cozinhar. Chamei todos os meus amigos e postei mil fotos no Instagram. Eu ia ao banheiro com o celular na mão. Resultado disso tudo: silêncio absoluto. Nada. Nem um e-mail, nem uma mensagem, nem uma ligação, nem uma curtida, nem uma conversa. Absolutamente nada.

Os meses passaram, eu continuei acordando e indo dormir todos os dias querendo ser mais interessante pra você, mais bonito pra você, mais homem pra você. E eu me perguntava, quase sem ar, quase sem conseguir me mover, quando eu finalmente cuidaria da minha vida? Quando eu iria finalmente superar você? E foi assim, sem me dar conta, que um dia eu acordei com a meta alcançada, me achando muito bonito, muito feliz, muito realizado, muito interessante, muito culto, muito homem, que eu acabei me tornando homem demais pra você.

O tempo me devolveu à vida e matou o homem que eu mais amei no mundo bem na noite do Natal deste ano. Enquanto todos, com seus sorrisos e ceias fartas, comemoravam o nascimento de Jesus, eu comemorava a sua morte. A morte do homem que eu já tinha sido mais crente, fiel, idólatra, escravo, masoquista e discípulo do que pra qualquer outro deus. Faltavam quinze minutos para a ceia e você me mandou um áudio pelo WhatsApp. Meu coração a duzentos por hora, exatamente como no nosso primeiro Natal. Apertei o play e ouvi sua voz firme e banal: “esse áudio não é uma recaída natalina, não. É apenas porque estou aqui, sozinho, no Natal, de bobeira, e pensei… quer comer pizza e transar?”. Não, eu não quero pizza, eu não quero transar.

O homem do delivery vagabundo e do abraço suado de desculpas se transformou num homem feio e solitário e infeliz e descartável. Sem mãe, sem namorado, sem sexo, sem ninguém pra passar o Natal. Pode até parecer dor de cotovelo, raivinha de ex, mas levar um pé na bunda foi o melhor presente que ganhei em todos os natais que já tive na vida. “Cadê ele, amigo?”. Ele quem mesmo?

O louco se rasgando em praça pública

Texto: Murilo Melo | Arte: Aquele Eita

Ao longo dos últimos sete anos trabalhando como jornalista e sendo convidado pra confraternizações de fim de ano, colecionei muitas situações e lugares pra passar mal. Lembro de quando, completamente chapadão de ansiolítico, fiquei tonto com o globo de luz da festa e, pra me distrair, insisti pro meu editor dançar funk comigo. O jornal A Tarde estava fazendo cem anos e resolveu dar uma festa no Zen, uma casa de eventos no Rio Vermelho.

Nem na minha maior crise distímica com “não quero levantar da cama hoje pra escrever casos de polícia” eu arreguei quando se tratava de questões profissionais. Já quando se tratava de confraternizações, principalmente de fim de ano, sempre me debati: preciso mesmo aturar crises de ansiedade, tédio, e ficar fóbico e enjoado e com diarreia e manias e nojos e raivas e nervosismo e tremedeira e ter que chorar e arrumar gavetas e caixas e livros e molhar plantas e criticar textos e detonar coisas e pessoas e lugares e antes da crise propriamente instaurada ter que me entupir de listas e mais listas e mais listas e mais listas de tudo que preciso fazer nos próximos quinze dias ou cinco anos da minha vida, apenas por causa de uma festinha em que todo mundo passou o ano inteiro falando mal na firma e agora abraça calorosamente e descompromissado?

Tudo isso me faz lembrar um elefante obeso que insiste em dormir em cima do meu estômago pós-feijoada extrema. Será que eu preciso mesmo carregar um elefante obeso no meu estômago e sentir azia e aguentar dores na cervical e na lombar só por causa de uma festinha cheia de publicitário descolado, cineasta papo-cabeça e jornalista hipster? Mas muitos amigos que trabalham nos maiores jornais sempre me disseram que sim. Para ser visto, crescer em qualquer veículo de comunicação e fazer uma lista de contatos, tão (ou até mais) importante quanto escrever bem é ser lembrado pela turma que vai julgar se você escreve bem ou não, se você é interessante além do cargo ou não. E, para ser lembrado, é preciso estar presente. E estar presente, em Salvador, é ir às festas – desde reuniõezinhas com seis pessoas em botecos do Dois de Julho até confraternizações com mil pessoas em boates do Rio Vermelho.

Quando minha chefe me convidou, na última sexta-feira, para a confraternização da agência de publicidade que trabalho, sentei no sofá de casa, prendi minhas pernas com os braços, repousei meu queixo nos joelhos e tive uma conversa séria comigo mesmo. Ir para festas é importante. Ir para festas é não ser lembrado como estranho. Ir para festas é ser adulto. Sim, eu sou um homem com 27 anos. Não dá mais pra ficar passando mal toda vez que eu ouvir as palavras ‘confraternização’, ‘festa’ e seus derivados.

Em dez minutos, decidi que nunca mais passaria mal nem tomaria remédios (nem um comprimidinho sequer. Nada. Nem um comprimidinho sequer). Decidi, com muita determinação, maturidade e força de vontade, que precisava me esforçar pra ser um pouco normal e estar inteiro e esperto nesses encontros. Não posso chegar lá chapado. Lesado. Com roupa bonita, mas com cara de sono. Não vou tomar, não vou tomar, não vou tomar.

Não tomei nenhum remédio e fui pra casa da minha chefe, no Jardim Apipema. Cheguei quase três horas depois do combinado. Estavam todos ainda muito bem arrumadinhos, gelos intactos, subdivididos em grupos de afinidade, sentados de pernas cruzadas com suas roupas bem passadas, da moda. A música mais alta do que a sinceridade. Todo mundo na linha horizontal, sem curvas. Sorriso na linha horizontal, sem curvas. E porque eu era novo na agência e não conhecia muita gente além do meu setor e porque eu não sabia nada pessoal sobre aquelas pessoas e, consequentemente, não pudesse dizer nada pessoal para aquelas pessoas, pensei em ficar na linha horizontal, sem curvas.

Se tem uma coisa que minha angústia não aguenta é essa situação ‘vida fake’ em que não posso ficar à vontade e que, hipocritamente, todos sabem que todos não estão à vontade. Quis arrotar nos primeiros goles da primeira cerveja. Mas e aí, como faz? Como faz pra arrotar com tanta gente arrumadinha no sofá, retinha na linha horizontal, sem curvas? Preciso sentir o abraço febril das pessoas. E constatar que aquele abraço serve como uma manta. Preciso logo conquistar o coração de todos pra suprir a minha incapacidade de participar de qualquer evento social sem sofrer. Preciso logo saber que meu arroto seria aceito ali, sem a necessidade das minhas idas urgentes ao banheiro. Justamente pra que eu nunca arrote, preciso saber que seria perdoado se, por descuido, eu arrotasse.

Na segunda cerveja, fiquei muito agoniado porque eles mediam cada letra das palavras que diziam e só faziam vomitar frases de efeito sobre viagens internacionais e séries da Netflix, como “Ah, ‘Narcos’ é boa, mas não vicia”. O tédio gritando por olhares silenciosos. Então quer dizer que iríamos passar a noite naquele apartamento na linha horizontal, sem curvas? Quer dizer que iríamos ficar sempre nos ajeitando nos pufes, preocupados com temáticas jogadas na roda e sendo podados pelas temáticas jogadas na roda?

Na terceira cerveja, começou a tremedeira e o elefante obeso insistiu em dormir em cima do meu estômago pós-feijoada extrema, e eu não suportei. Quando vi todo mundo morgando nos pufes, eu não suportei. Sempre fantasio que todos estão mortos de tédio e me responsabilizam pra que eu vire o jogo da vida. Quando não estou sedado por ansiolíticos, a minha ansiedade não me permite ficar na linha horizontal, sem curvas. Preciso logo fazer graça pra todo mundo rir. Preciso logo parecer louco pra todo mundo sentir que sou humano. Preciso tirar todas as minhas peles e ficar em carne viva. Preciso deixar a sensação de falta quando eu for embora. A sensação de falta quando eu não puder aparecer. A sensação de falta quando não me convidarem. A sensação de que, se não me convidarem, a festa não vai ser a mesma, não vai ter a mínima graça.

Em menos de meia hora na festa, com música chata e decoração natalina chinfrim, eu não suportei aquilo e dei início ao meu festival de horror. Contei que terminei com um cara porque ele acordava de madrugada pra desemperrar o basculante do banheiro que não estava emperrado; que terminei com outro porque ele não conseguia dormir: sentia falta da mãe, do pai que morreu e de quem ele era quando era criança. Disse, logo de cara, quais pessoas me impressionavam ali e passei mais da metade da noite perto delas, deixando claro que o resto não me interessava tanto. Dei uma bronca no diretor de arte porque ele fez xixi três vezes com a porta do banheiro aberta e eu achei aquilo um desrespeito, como se a casa fosse minha.

Remexi os armários da casa da minha chefe, sem ter liberdade, e passei cremes importados em braços e pernas apenas porque “me deu uma vontade louca de fazer isso”. Li, sem pedir licença, um texto que escrevi sobre solidão urbana. Contei, com a boca mais aberta do mundo, que tinha acabado de levar um pé na bunda de um jornalista conhecido do jornal Correio e expus tudo sobre ele. Fui falando que só aceitei o freela numa revista porque eu estava de olho no meu chefe que era muito gostoso, porque se dependesse do salário daquela merda ou de um salto na carreira nem lá eu aparecia.

Todo mundo riu. Todo mundo sempre ri. Claro, no meio de tanta gente se podando com assuntos que não comprometem, se aparece alguém que fala alguma insanidade no meio do tédio, interessa. Se aparece alguém desbocado, vale a pena ter feito depilação e saído de casa. Quando eles veem um louco, desses que se rasgam em praça pública, falar tanta barbaridade, anima. No mínimo um espetáculo particular. Um teatro pronto. A graça instantânea no meio do tédio. O trem descarrilado.

Na nona cerveja, na ânsia de logo pertencer àquele seleto grupo de apartamento, quando dei por mim, eu já estava na porta do banheiro da festa dando conselho pra uma menina meio deprimida que não entendia por que o cara que ela estava apaixonada sumiu. Quando dei por mim, eu já estava no sofá da sala, aos prantos, explicando pra um menino que eu nunca vi na vida, que eu não entendo por que mães morrem. Quando dei por mim, já tava rindo alto na cozinha, dançando numa roda em que ninguém dançava, muito menos eu, porque não sei dançar.

Me senti um palhacinho surtado que perambula pela festa pra sentir corações pulsando e se sentir vivo. Mas se eu não puder ser desbocado, em público, eu não tiro o pijama e não saio de casa. Se eu não puder rir da minha própria desgraça, em público, pra mim não interessa ficar. Se eu não puder expor as minhas angústias, em público, eu não mereço pertencer àquilo. Me acharam “uma figura”, “uma graça”, “melhor pessoa” e pegaram todos os meus contatos e me adicionaram nas redes sociais e prometeram me convidar pra festas, shows e barzinho.

Em casa, chorei por duas horas. Toda vez que me exponho assim, choro de soluçar em posição fetal na cama, enjoado da minha voz, esgotado de mim mesmo. É como se eu me assistisse num reality show querendo chamar atenção do público pra ganhar o prêmio. É como se eu estivesse me vendo o tempo inteiro fantasiado ou completamente nu com uma melancia na cabeça, somente porque não mereço estar em nenhum lugar do planeta a não ser que me sacrifique para entreter os outros.

No dia seguinte, como sempre, fiquei em silêncio a manhã inteira, me prometendo, pela centésima vez na vida, que nunca mais iria me expor desse jeito. Mas quando vou ver, já escrevi um texto em que me exponho e publiquei na internet.

Ô vidinha filha da puta essa, viu?

Nem vinte anos

Texto: Murilo Melo 

O interfone tocou pela primeira vez e ninguém ouviu. Pessoas procuravam Heinekens afundadas em gelos no enorme balde transparente no canto da sala, pessoas falavam sobre “tédio”, “mais tarde”, “quem sabe uma suruba”, e a única coisa que eu queria era ir embora. O interfone tocou pela segunda vez e eu corri pra atender. Foi tudo muito rápido. Eu tirei da linha e ele falou alguma coisa como “me libera daqui debaixo, por favor”. E eu me apaixonei por aquela voz de menino que ainda não era grossa, que ainda não era firme, mas tinha desespero em potência.

Cinco minutos depois, ele apareceu suado e sem graça porque subiu dez andares do prédio com um galão de água nas costas, porque, pra piorar, o elevador pifou. “Água?”. “Amanhã ninguém acorda de ressaca”. Eu caí da escada com aquele sorriso enorme e nunca mais consegui me levantar. Marcela, amiga e dona da festa, puxou meu braço e foi logo me avisando: “nem vinte”. “Oi?”. “Novinho. Só tem tamanho, mas não tem nem vinte anos”.

Ele não gosta de cinema francês. Não sabe o que é pós-verdade, metaficção, nunca ouviu falar no filme “Aquarius” e passa o dia lendo BuzzFeed. Ele é estagiário hard player de uma startup de games (daquelas que dão senha da Netflix, máquina de café e gaveta de doces), tem um carro cheio de apetrechos de animes, acha Chico Buarque “coisa de outro tempo”, faz questão absoluta de pagar meu almoço com ticket refeição, tem aqueles shortinhos descolados, floridos, que me lembram pijamas, e usa o mesmo Vans preto pra todos os lugares que vai. Quando elogio uma roupa, um acessório ou perfume, ele responde na lata: “Minha mãe que me deu”. Se você estiver com ele por vinte e quatro horas, nas vinte e quatro horas ele vai citar a mãe dele. Se você passar meia hora com ele, a cada cinco palavras, uma é “massa”, outra é “tipo assim” e as outras três podem ser intercaladas com “trollar”, “Se ligue” ou “se pá”. No áudio, no grupo de amigos do WhatsApp, ele sempre manda “pegar a visão”.

Se alguém me descrevesse esse tipo há alguns meses, eu, que sempre defendi romances com experientes e homens mais velhos extremamente cultos, certamente reviraria os olhos, daria uma risada alta e ignoraria tal existência, nem cogitando um simples “e aí” quanto mais beijo, sexo e relacionamento sério. Mas o que seria da minha vida se eu não mudasse em alguns meses? O que seria de mim sem a tecnologia dos prédios que transmitem vozes até o décimo andar através de um aparelhinho chamado interfone? Se o mundo não desmentisse minhas verdades absolutas?

Sempre achei o ideal gostar daquele tipo de homem que passa o dia inteiro no trabalho e vai me encontrar à noite, em algum restaurante romântico, com resto de perfume do dia no colarinho da camisa. Exausto, cheio de compromissos pro dia seguinte, mais preocupado com mensagens que não chegam do que com a nossa relação. Pois muito bem, fique com eles então, fique com os homens atarefados, pesados e problemáticos, porque eu ando satisfeito demais para lembrar que eles existem.

Imaginem a minha felicidade ao ver um casal, na mesa ao lado, com a cara fechada, discutindo a relação a dois, enquanto eu e meu menino de 19 anos discutíamos entre cheddar duplo ou chicken barbecue bacon. Sendo que eu preferia a primeira opção e ele a segunda. Esse era o nosso conflito. No fim, acabamos comendo o Burguer King do outro porque, enquanto o mundo adulto adere problemáticas que ferem a alma, a gente beija e transa um milhão de vezes pra esquecer o mundo.

Ele tem aquela pele limpa sem marcas de cansaço, sem preocupação. Ele é neutro de dores do mundo. Ele não pensa no amanhã, e talvez esse seja o segredo da juventude. Ele anda o dia inteiro entre uma sala e outra, resolvendo seus problemas de estagiário, com uma franja caída nos olhos, sua falta de pelos na cara e sua despreocupação desmedida. E eu vou junto. E apareço na startup de games que ele trabalha. E vejo Netflix. E bebo um cafezinho. E como doces da gaveta. E jogo Super Mario. Tudo no fim da tarde, quando o mundo se comporta como adulto. O dia inteiro entre uma sala e outra, o dia inteiro pra lá e pra cá enquanto ele vai, o dia inteiro disfarçando que não estou olhando quando ele vem. O dia inteiro desejando que ele acabe o trabalho pra me dar vida, e que ele vá trabalhar pra me dar ar.

Você esqueceria qualquer camisa passadinha em um homem sério se soubesse o quanto é divertido tentar traduzir frases em inglês numa daquelas camisetas divertidas que ele usa. Você esqueceria qualquer colo maduro se desse conta de que perdeu as horas naquele colo que nunca cansa, naquele colo tão forte e macio. Você esqueceria qualquer papo intelectual, num daqueles cafés de pré-estreia de filme de arte no Espaço Itaú de Cinema, se tivesse suas costas e nucas e cabelos massageados por horas, por mãos leves, por intenções leves, por momentos de paz jamais perturbados por celulares, e-mails, relatórios, obrigações e cobranças da vida adulta.

Eu poderia voltar pro meu ex que há meses me liga querendo “resolver isso aí”. Eu poderia sair com meu professor que há meses me pergunta “por que eu sou tão difícil”. Eu poderia ficar tentando e tentando e tentando mais uma vez com homens mais velhos pra suprir essa idealização que carrego desde a infância. Mas, por algum motivo, escolhi ele. Porque ele me olha safado quando ele sabe que eu sei que ele está mentindo, e eu gosto disso. Porque a mãe dele se preocupa quando a gente some o dia inteiro, e isso me faz lembrar a minha. Porque ele me lembra aquela coisa boa, que eu não sei explicar o que é, que eu sentia até o começo dos vinte, e só por isso eu me sentia vivo.

Tá na hora de parar com tudo isso. Ele é um menino adulto que não consegue entender o frio na barriga que causa só de chegar perto. Que não consegue acompanhar minha cabeça analítica, meio poeta, meio neurótica, meio atormentada por angústias existenciais. Que não sabe medir o tamanho do sorriso que ele coloca no meu rosto quando aparece. Que nunca vai aprender a colocar limites na minha vontade imensa de gostar dele. O problema é que ele me entende. Ele existe. Ele me salva da podridão do mundo. Consegue até o que nenhum homem, com barba na cara, relógios imensos e milhares de experiências nas costas, conseguiu: me deixar leve. Ele consegue, com um simples abraço quente e um “relaxa” bem baixinho, fazer com que eu me perdoe por apenas dormir e acordar sem questionar tanto.

Eu quero colocar um fim nessa loucura de querer tanto quem ainda tem tanto pra querer por aí. E aí eu me pergunto: Por que colocar fim nessa loucura? Se está tão bom, se me acalma, se é tão simples… Pra quê? Por quê? Ele me ensinou, dia desses, que a vida pode ser simples e maravilhosamente boa.

É isso, eu sei que vocês vêm aqui pra ler neuroses, mas, um aviso: estou de férias delas. Umas férias, tipo assim, se pá, muito massa.

Taquepariu, tô a cara do meu tio Bebeto!

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Meses atrás eu estava com os cabelos com tons claros, num corte undercut, morava com um amigo numa casa enorme na Barra, frequentava uns lugares descolados e recebia pelo celular, diariamente, dezenas de convites sem rodeios pra um bom sexo sem amor nas noites de sexta (ou sábado ou domingo ou segunda…). Era uma vida muito parecida com a que levei desde que fiz dezoito anos (o que me fazia, trilhões de vezes, pensar, agir, falar e me vestir como alguém com dezoito anos), mas eu já tinha vinte e cinco.

De repente, no comecinho dos vinte e seis, fui tomado por uma raiva, por um ódio, por um nojo, por um enjoo de tudo, de todos e de como eu me comportava, só não consegui sentir raiva, ódio, nojo e muito menos enjoo por bebês, poodles e varandas decoradas de amigos maduros. No meio de tanta coisa que o mundo me ofertava, o que me fazia romantizar a vida com emoção era encontrar cachorros com a língua pra fora no calçadão da orla, flagrar a sonolência de amigas grávidas e a minha insana admiração por varandas de prédios altos com luzes de pisca-pisca de Natal. Falei pra minha psicóloga que estava cansado de ter dezoito anos e que, finalmente, queria assumir meus vinte e seis. Ela sorriu animada ao saber que, finalmente, meus seiscentos e cinquenta e sete reais mensais estavam funcionando pra alguma coisa.

Cortei meu cabelo mais formal, bem curtinho e desfiado, estilo “gente, olha só como eu estou mais elegante e discreto”. Comprei uns sapatos novos Peter Pan, estilo “eu sei, eu sei, não vou negar: tô um gato, amorzinho”, saí num sábado à noite pro La Taperia (lugar que só frequenta gente elegante e discreta), querendo gritar pro mundo “engula meu bom gosto, seus bregas” e doei todas as minhas roupas “porra louca, adolescente, emocore, listrada, quadriculada, e casacos bonitinhos, mas sem frio pra usar em Salvador” pra caridade (ok, tudo mentira, vendi num bazar pela internet) e engordei dois quilos (ok, tudo mentira, foram quatro and couting).

Troquei dois caras do jornal que trabalho (um repórter casado e um estagiário pau amigo) por um mozão que se esparrama no meu sofá reclinável e me manda “resolver” o peixe grelhado dele, enquanto recebe “uns caras do trampo”, queima minhas revistas do mês com bituca de cigarro, tira da minha novela das nove e coloca em algum “episódio foda” de Game Of Thrones.

Ao invés da tatuagem que sempre quis fazer, meu peitoral ganhou flacidez. Se existe pecado e existe castigo, a flacidez no peitoral é o recheio na torta da vingança divina do sedentarismo.

Me olhei agora no espelho, com um roupão de seda de tiozão, e dei um grito bem alto: “taquepariu, tô a cara do meu tio Bebeto!”. E o pior é que eu não tenho nenhum tio chamado Bebeto. No mesmo segundo, eu quis voltar a ser aquele que eu era. Resolvi colocar mais três tatuagens e um alargador de dezesseis milímetros. Rasgar todas as minhas roupas e sair no estilo “deu na telha”, exatamente como na época que eu era estagiário de jornal.

Todo rapaz gay na putaria, em algum momento dos vinte e poucos anos, sonha com uma vida sossegada em que ele possa ser bem careta em paz à la tio Bebeto. Todo tiozão gay com a vida sossegada, tipo tio Bebeto, em algum momento, sonha ter cabelos com tons claros, num corte undercut, morar com um amigo numa casa enorme na Barra, frequentar uns lugares descolados e receber pelo celular, diariamente, dezenas de convites sem rodeios pra um bom sexo sem amor com um bando de cafajestes. Todos os dois tipos de homens são francos, desacreditados na vida e esperam por alguma coisa que nunca chega.

Nenhum gay romântico, sincero, neurótico, apaixonado e intenso é feliz.

Não sei explicar o que acontece com meu coração quando vejo oferta da Black Friday

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Dave Santana

 

Na última sexta-feira, fui convidado pela editora do jornal que trabalho pra tomar um chope no Madero, no Shopping Barra. Um encontro breve pra discutir ideias de pautas pro verão. Ela mandou um motorista me buscar na redação e, assim que cheguei ao local, o garçom foi logo avisando: comprou um chope, ganhou outro. Achamos aquilo maravilhoso e, enquanto pensávamos em lugares badalados da cidade, enquanto pensávamos sobre entrevistas e boates e restaurantes descoladas, fomos pedindo canecas e canecas e canecas e canecas de chope. Bebi doze.      
 
Tinha tudo pra ser um grande fim de tarde, uma grande reunião de projeto jornalístico, não fosse um pequeno e pesado detalhe. Assim que o identifiquei em meio à multidão, começou o meu martírio. O que é? Por que as pessoas mal conseguem entrar ali? Que confusão é aquela? Por que as pessoas estão sendo esmagadas e pisoteadas e completamente feliz?  Como eu não estou sabendo? Quem é a celebridade? Por que as pessoas estão ávidas e sedentas como zumbis naquele espaço?
 
Um adesivo vermelho gigante, colado no vidro esquerdo da loja, visto neblinado pelos meus olhos míopes afogados no álcool, anunciava o que a partir daquele segundo me faria ser uma espécie de hipoglicêmico há meses sem um docinho: “Black Friday: 70 % off”. A partir daquele segundo, minha vida começou a depender unicamente daquilo. Não sei explicar o que acontece com meu coração quando vejo “porcentagem” e as palavras “off” ou “promoção” na mesma linha. Alguma coisa dá muito errado dentro de mim e, se não reviro prateleiras e araras, fico com a eterna sensação de ter perdido uma grande chance. 
 
Menti pra minha editora que ia ao banheiro e nunca mais voltei. Quando dei por mim, estava meio bêbado, no meio da multidão, com a mãozinha pra cima, enfiando mil roupas e sapatos dentro de um sacolão. Comprei uma jaqueta jeans verde musgo e uma camisa que não combinava com nada que eu tinha no guarda-roupa (e, talvez, não combinasse com nada que um dia eu pudesse ter), e paguei com o cartão de crédito que coloco na carteira pra “caso aconteça uma emergência”.
 
Pensei em voltar pra casa, acabar com aquela compulsão mercadológica desenfreada. Mas a loja ao lado ofertava um depilador elétrico multipinças Satinelle por 20% de desconto. Tive orgasmos múltiplos só de imaginar duzentas pinças mutilando cada cantinho do meu corpo. O ponto alto do meu êxtase foi ver um tapete peludo, ultra felpudo, com um risquinho em cima dos R$ 499, por R$249. Tá certo de que aquele maravilhoso tapete me faria atacar a rinite a qualquer fim de semana, principalmente num dia em que a rinite não deveria atacar. Mas quem, em sã consciência, resiste a um risquinho em cima de um preço? Coloquei no carrinho sem aflição. 
 
Aproveitei e levei uma câmera fotográfica (prevendo fazer um curso de fotografia algum dia, mesmo sendo péssimo nisso) e um violão (prevendo aprender música algum dia, mesmo sendo péssimo nisso). Na prateleira ao lado, vi um porta-escova, solitário, laranja neon, olhando pra mim, implorando pra ser levado. Cheguei à conclusão de que aquilo era um sinal. Comprando aquele porta-escova, em promoção, eu faria um bem pra humanidade. Imagina, todos os irmãozinhos daquele porta-escova foram levados, menos ele. Tão triste essa história, né? Sem pensar duas vezes, registrei no caixa e paguei com o cartão de crédito que coloco na carteira pra “caso aconteça uma emergência”.  
 
Na Tok Stok, ao tentar comprar uma panelinha de arroz, tive o cartão recusado. “Oi?”. “Não autorizado, senhor”. “O quê?”. “Infelizmente”. Mandei uma mensagem pra Deisi: “Preciso do seu cartão pra aproveitar a Black Friday e comprar umas passagens aéreas”. Me peguei desnorteado, descendo as escadas rolantes do Barra, tentando equilibrar 32 sacolas e um sorvete de baunilha pingando no sapato. Senti o que todo ansioso impulsivo sente durante a ressaca de ansiedade e impulsão: culpa. Muita culpa. Culpa a ponto de eu achar que Deus se vingaria do meu consumo inconsciente e eu morreria em um ataque cardíaco ao cair e rolar as escadas rolantes.  
 
Enchi de gelo a pia do banheiro de casa e enfiei a minha cara. Eu pretendia ficar ali, sem respirar, até que a fatura chegasse (numa tentativa radical e suicida de acordar pra realidade), mas fui impedido pelo barulhinho do WhatsApp (sempre ele). Era Deisi me mandando o número do cartão, do CPF e da porra toda. Eu estava livre pra comprar as passagens aéreas e, se eu tivesse muita sorte, finalmente, a panelinha de arroz.

Mãe é uma coisa bem doida

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Minha mãe reuniu todo mundo em casa pra comemorar o aniversário de 51 anos dela. Tia Izildinha jurou que iria moderar nos aperitivos: só uma torta e algumas empadas, afinal de contas, era uma reuniãozinha de família. Acontece que, lá pelas seis e quarenta e cinco, faltando quinze minutos para a festa, tia Izildinha, sempre exagerada, apareceu com canapés e docinhos e barquete e torta salgada e empanada: “Não gosto de nada mixuruca”, reclamou.

Minha avó, 82 anos, gosta desses momentos “família”, e recupera recordações tristes e um tanto constrangedoras. “Se seu avô estivesse vivo, ele não iria aceitar essa festinha. Iria fazer um baita churrasco ou levaria todo mundo pra um desses restaurantes caros e com comida ruim”, disse ela enquanto ajeitava o vestido. Depois, enquanto recostava no sofá, empilhou álbuns, descansou os óculos no nariz, e olhou fotografias antigas (algumas um pouco desfocadas e desgastadas por causa do tempo).

Em uma delas, minha mãe aparece numa espreguiçadeira branca no Porto da Barra. Ela, com um biquíni lilás que favorecia o corpo, aproveitando toda a vitamina D do dia com bronzeador Neutrogena. Eu, meio tímido, odiando o sol e me escondendo debaixo do sombreiro com a cara e os ombros entupidos de protetor solar Adcos. Em volta, meus primos fazendo castelinho de areia, bebendo Coca-Cola e chupando picolé. Eu, um menino de sete anos, alérgico, pele sensível, com os olhos vermelhos, angustiado, sempre com enjoo.

Lembro de todos os meus primos fazendo fila pra pegar queijo coalho assado na brasa e eu perguntando à minha mãe: “Alguém morre se comer esses negócios de praia, mãe?”. E ela respondeu algo como “morre quem não tem o que comer”. E lembro que nessa época (e pra falar a verdade até hoje), ela não gostava que eu não gostasse de comida. Eu tinha que comer tudo e qualquer coisa que fosse oferecido “pra não ser uma pessoa fresca”: “Vai escolher o que comer quando chegar na casa dos outros?”. Lembro dela revoltada, aos berros na cozinha, porque fiz birra e não quis comer bife de fígado: “Você faz ideia de quantas pessoas no mundo comem lixo pra poder sobreviver?”. Foi a primeira vez que eu pensei na fome.

Depois, vejo outra fotografia dela. Ela com a blusa de listrinha preta e branca que eu tinha uma obsessão a ponto de um dia esperá-la voltar do trabalho na esquina da rua e abraçar uma mulher desconhecida, com a mesma blusa, por engano. E lembro que nessa época eu roubei uma agenda dela, espécie de diário, e me tranquei no banheiro pra ler. Ela invadiu e me perguntou se eu gostaria de que, algum dia, ela lesse as minhas descobertas da adolescência num desses meus caderninhos de folhas pardas. Congelei. Foi a primeira vez que eu pensei, sem egoísmo, sobre privacidade.

Em outra fotografia, mamãe aparece com um cabelo mais curtinho. Ela tinha feito amizade com Wanda, nossa vizinha e cabelereira, e, num vício quase demoníaco, queria o tempo inteiro mudar o cabelo. Começou com um corte nas pontas até parar num chanelzinho. Tive medo de voltar da escola, um dia, e encontrá-la careca. E lembro que nessa época, Adelaine, minha melhor amiga da infância (filha de Adelaide e sobrinha de Wanda, todas vizinhas), ficou doente. Eu dizia: “Mãe, Adelaine está com sarampo. Eu também estou. Olha essas pintas vermelhas”. E ela revirava os olhos e falava: “Você já teve sarampo, agora deve ser sarampo ‘emocional’, você é muito saudável pra ter essas coisas duas vezes”.

Um dia, mamãe foi internada às pressas no Hospital das Clínicas. Estava com uma bactéria na garganta. Ela se maquiou toda quando soube que eu ia visitá-la, e disse ao me ver com os olhos inchados de chorar: “não é nada. Se eu não reagir bem aos antibióticos, vão enfiar um tubo na minha garganta e depois que eu melhorar costuram de novo, mas não é nada”. Minha mãe era uma força espetacular da natureza, sempre achava que as coisas no fim das contas dariam certo. E eu, aos nove anos, já era trágico, fóbico e estranho.

Uma vez, coloquei detergente de prato dentro do frango cozido. Ela percebeu a espuma e me perguntou se eu fazia ideia de que colocar produto químico dentro de comida poderia matar todo mundo da família, inclusive ela: “Como você sobreviveria sozinho no mundo aos oito anos?”. Foi a primeira vez que eu pensei na morte.

Em outra fotografia, vejo mamãe com uma minissaia vermelha no aniversário da minha irmã. Lembro que uma vez ela chegou em casa contando que, ao sair da reunião de pais da minha escola, com essa minissaia vermelha coladinha, saltos extremamente altos, decote cavado, cabelão Farrah Fawcett versão morena, foi a grande culpada por um acidente de carros na avenida Paulo Sexto. Eles perderam o controle e colidiram ao vê-la passar. Ela chegou narrando a cena, preocupada, assustada. Meu padrasto fez um escândalo, quis sumir com a saia, e dizia “se você sair por essa porta, eu pulo daqui do décimo andar”. Ela saiu e ele não pulou, mas até dia desses, quando ainda eram casados, ele ficava nervoso quando ela chegava.

Ela vai ler este texto e brigar comigo. “Você me descreveu como chata, louca e fútil, você não contou que eu trabalhava mil horas por dia e voltava pra casa com os pés inchados pra te dar tudo o que você queria”. Tá contado, mãe. Ela me ensinou coisas incríveis que nenhuma outra pessoa seria capaz de me ensinar. Mas é que, apesar de tudo isso, o que eu lembro com mais carinho é da sua parte chata, louca e fútil. Nunca vi nada de errado nisso. Mãe não tem explicação lógica. Mãe é uma coisa bem doida.

Nas últimas fotografias do álbum, encontro uma que estou abraçado com ela no sofá. Eu tinha 12 anos. Foi ali que percebi que seria impossível amar alguém como eu amava a minha mãe. Minha obsessão à la Norman Bates. Minha obsessão pela sua estética maternal jamais vista em outra mãe. Eu sentado no chão do banheiro te vendo tomar banho pela neblina do box. Eu tentando guardar o cheiro da sua nuca enquanto você dormia. Eu abraçado com seu travesseiro quando você viajava. Eu olhando você com uma perna na cama e outra no chão pra passar creme de ameixa antes de dormir.

Eu amava o chulé que ficava nas pontinhas da sua meia-calça e o gosto do bolo de milho verde que surgia na boca quando eu passava mais de seis horas sem vê-la e as sapatilhas e sapatos altos de várias cores espalhados pela casa e como ela falava ao telefone enquanto cozinhava. Amava que no sábado à noite, depois que chegava do trabalho com um pote de sorvete de pavê, ela pedia pizza meia margherita meia mussarela numa pizzaria chamada Bella Massa, e eu e minha irmã pulava na cama de felicidade. Amava que, quando meu padrasto viajava, era eu que dormia com ela.

Eu gostava de ver minha mãe pelada, gostava de abrir a gaveta de calcinhas arrumadas, gostava de ver a pilha de sabonetes “caros que ela ganhou de presente da mulher do seu chefe”, gostava que ela arranhava as unhas pra tirar os cravos das minhas costas e só por isso eu me sentia amado e dormia em paz, gostava da loucura dela de reclamar de sujeiras e coisas fora do lugar, irritada, durante a noite. Eu amava uma calça bege que ela usava em dias frios, uma bem quentinha. Ela tem até hoje e, quando eu vejo essa calça, me dá vontade de chorar. Ela nunca superou o fato de eu ter crescido e ainda me enxerga como um menino, embora quando eu peça alguma coisa e falo “você precisa cuidar do seu filho”, ela diga que “quem tem filho grande é elefante”.

Talvez porque cresci ouvindo que eu era a cara do meu pai, talvez por causa da minha obsessão, talvez porque ela sempre foi bonita, talvez porque ela dava a vida dela pelos filhos, eu sempre quis parecer com ela. Semana passada, comprei um tapete que ela pediu. Ela não gostou. Dizemos coisas horríveis um ao outro. Foi triste. Ela me disse que não conseguia me odiar porque eu era muito parecido com ela: reclamava de tudo e explodia com tudo na maior sinceridade. Obrigado, mãe, aos 26 anos, finalmente fiquei parecido com você.

Este texto é sobre perder pessoas

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Filipe Jardim

Sim, terei a imensa cara de pau e a redundância consciente de escrever – justo neste site de notícias que fala de política, economia e ciências – sobre pessoas que vão embora da minha vida. Eu posso imaginar você, 50 e muitos anos, camisa de botão, barba, óculos, entortando a boca e revirando a cabeça: “O que eu tenho a ver com a descartabilidade da vida desse fulano? A quem interessa ler esse drama cheio de futilidades?”. Este é um texto sobre pessoas que fecham portas. Você e outros milhares de leitores, num exemplo “ao vivo”, já nem devem mais estar aqui.

Há algumas semanas, puliquei no Facebook um texto curto falando sobre como as pessoas ignoram completamente a violência no Rio de Janeiro e, como antas, tiram selfies em morros, no Leblon, no Pão de Açúcar ou, até mesmo, com policiais marombas segurando fuzis e metralhadoras em algum calçadão (Ipanema?). Em cinco minutos, perdi 667 seguidores. Me chamaram de “louco”, “sem noção”, “levado pelo que lê e assiste na mídia golpista”. Disseram que eu escrevi um texto cheio de frases de efeito, que peguei o ranço que São Paulo tem pelo Rio, que eu estava querendo tirar o direito de ir e vir das pessoas.

Uma amiga, com letras garrafais, foi até o meu “inbox”, e disse que “carinhosamente estava me excluindo do Facebook” e que “não vou surpreendê-la se, nas próximas eleições, eu votar em Bolsonaro”. Fiquei extasiado ao ler aquilo, mas o que eu poderia fazer? Eu apanhei porque falei sobre ser humano. Porque disse que achava surreal chamar de #CidadeMaravilhosa no Instagram, numa imagem photoshopada no Rock in Rio, enquanto 22 eram mortos em um tiroteio na Rocinha. Eu apanhei porque abri mão do aplauso do mainstream e tirei sarro dos deslumbrados de alguma praia carioca mega descolada, porque deixei claro que o Rio é a única cidade do Brasil que perdeu completamente o controle de segurança pública e vive numa guerra civil há anos. As pessoas invertem o que você fala pra te escrotizar. Ninguém tá muito preocupado em dar a cara pra bater numa rede social. Vão no seguro e bem aceito, é mais fácil e menos doloroso.

Há alguns dias, escrevi, novamente no Facebook, um texto curto criticando pessoas que fazem do Enem espécie de “passeio de shopping”, aquela gente que não sabe por que bosta faz a prova pela milésima vez. Até que eu não apanhei tanto por esse. Não mais do que o outro texto, que escrevi há um ano, confessando que me sinto muito mais seguro morando em São Paulo do que em Salvador. Por esse perdi, novamente, cerca de 300 seguidores. Muitos soteropolitanos e alguns paulistanos que odeiam São Paulo. Entrei nos comentários e eram 200 pessoas me xingando. Os revoltados on line. Eles me apelidaram de pseudo-sudestino e se despediram de mim com mensagens bonitas tais quais “Até o dia que você morrer num assalto na Sé”, “É porque você não sai da Zona Oeste”, “Vá na Luz pra você ver” e “Skinhead bate em gay, você sabia?”. Li todas as mensagens e pensei: “Caguei”. Mas, meia hora depois, senti minha gastrite urrar silenciosamente. Cheguei à conclusão que é impossível ter olhar crítico no Facebook sem receber 52 mensagens “inbox” de amigos dizendo que enlouqueci e que estou desconvidado de suas festinhas. Não há muito o que discorrer sobre esse perfil: são pessoas que deletam, que tratam com prazo de validade, como uma latinha de milho verde.

Eu sei, eu sei. Em algum momento, em vários deles ou definitivamente, as pessoas sempre vão embora. É a coisa mais triste que eu posso dizer na vida. Foi assim com meu melhor amigo do ginásio, foi assim com aquela amiga da faculdade que se mudou pra Tailândia, foi assim com aquele cara que disse que era impossível não gostar de mim, mas, porque estava bêbado quando falou isso, sumiu no dia seguinte.

Há mais de um ano, Felipe, um grande amigo, foi embora porque não gostava de ser corrigido. E eu, que sempre tive personalidade forte, fui pro ataque. Ele gostava de ser bom em tudo e eu, porque também sempre gostei de ser bom em tudo, e talvez porque amava ele a ponto de querer que ele fosse bom em tudo, apontei dezenas de erros em um documento de trabalho e tudo mudou pra gente. Foi por besteira. Mas talvez, no mundo em que se vive, não precise de muito pra alguém ir embora.

Há dez meses, o outro Felipe, outro grande amigo (tô começando a achar que nenhum Felipe nasceu pra ser meu amigo), foi embora porque não gostou de ouvir que ele estava ficando com uma amiga em comum, mas ainda estava completamente apaixonado pela ex. Ele me disse que eu não era exemplo de relacionamento pra ninguém. Que eu me achava tão bom no assunto, mas estava sozinho. Passei meses pedindo desculpas para ele, a cada desentendimento, por ser quem eu sou, com medo de perdê-lo. E ele SEMPRE incapaz de deixar o orgulho de lado, mesmo quando ofende e está errado. Gente como ele, que não se importa em pedir desculpas, que não procura pra conversar, que enterra com a maior facilidade do mundo, não merece décimas chances.

Há dois anos, um namorado foi embora. Eu falava sobre saudade, sobre faltas, e ele olhava fixamente pra qualquer outra coisa do planeta, menos pra minha existência. Fazia sempre a mesma cara de tédio e de busca por alguma novidade que nem ele sabia o que era. E eu querendo que ele descansasse um pouco de ser ele o tempo todo, mas ele tem muito medo de não ser ele, talvez porque ele não saiba o que ele é. Ele me perdia o tempo inteiro porque precisava descobrir quem ele era, ou pra lembrar que ele era o mesmo de sempre que nunca soube quem era. Ele sempre ia embora antes da gente ser alguma coisa juntos. Até que um dia ele foi embora de vez sem nunca saber quem era. Acho que ele é essa busca que não chega a lugar algum, e chegar a lugar algum talvez seja chegar a algum lugar.

Antes dele ainda teve outro que sempre me deletava da vida dele na certeza de que existia alguém melhor do que eu, mas não ia embora de vez porque não é todo dia que aparece alguém mais interessante do que eu. Um dia ele encontrou um rapaz. Ele até que é bonito e tal, não parece tão complicado e intenso, e passei a achar que mediocridade seja o suficiente que uma pessoa precise pra ser feliz. Mas a última vez que ele resolveu me deletar definitivamente, que finalmente a gente percebeu que estava perdendo um ao outro de vez, antes ele me deu um abraço daqueles que congela. O abraço e o seu olhar de quem nunca sabe direito por que pessoas se perdem ficaram pra sempre comigo.

Antes dele ainda teve outro que foi embora a primeira vez porque estava bêbado demais e “amanhã precisava trabalhar”, foi embora a segunda porque ficou tarde pra ficar num show de banda alternativa cheio de adolescentes na Commons, foi embora a terceira porque teve medo de ficar pra sempre porque “não sabia como lidar com essas coisas”, foi embora durante alguns longos meses porque era muito ocupado e todo o resto do mundo precisava dele pra alguma coisa (a mãe, a avó, o primo, o chefe, o ex-namorado, a vizinha, a amiga, a babá do sobrinho) e eu era apenas uma das demandas de uma lista imensa que precisava de ordem. Da última vez que a gente se despediu, tocou aquela do The XX que diz algo como “Eu não posso sentir tudo que você sempre sentiu” e você fez aquela carinha fofa de “desculpa” que desmonta qualquer pessoa raivosa como eu.

Em algum momento, em vários deles ou definitivamente, as pessoas sempre chegam em nossas vidas. Talvez seja a melhor coisa que eu possa falar no mundo. Como naquela crônica que não lembro, daquele escritor que não lembro, e sobre o qual você me contou no escuro do quarto de um jeito que eu nunca mais vou esquecer: “no fim das contas, a gente acaba mesmo numa esquina qualquer, num bar vazio que toca Belchior, com recordações um pouco tristes e bastante engraçadas de alguém que um dia chegou e depois foi embora, perplexo”.

“Tá demais, vai ver na terapia o que é isso aí”, diz ex-namorado em resposta à carta aberta

Texto: Gabriel Amaral | Ilustração: Igor Queiroz

RESUMO Neste texto, escritor convidado responde crônica publicada na coluna do Aratu na quarta-feira (1º) e reflete sobre exposição e reações depois do fim do relacionamento. Para ele, vige no ex-namorado esperas descabidas e espaço literário de poder que não admite opinião divergente ou questionamentos e que, ao se prender ao passado, anula a possibilidade de viver e ser feliz.

***

Eu te vi. Semana passada, saindo da padaria, eu te vi, mas disfarcei. Preferia não ter visto.

Semana passada, cometi um erro. Um mísero, um ínfimo delito. Meu erro foi ter acordado com um desejo incontível e inexplicável de ir à praia com o meu namorado. Talvez pra me desculpar pelo desentendimento que tivemos no dia anterior. Talvez pra fazer com que ele, de alguma forma, se sinta seguro na relação. Não sei se você sabe, mas ele, mesmo sendo bonito e inteligente, é completamente inseguro. Parece que eu atraio gente insegura. Assim como você e outros trinta caras que eu me relacionei, como você mesmo disse na sua carta.

Porque ele não gosta de passar muito tempo brigado comigo, ele topou ir. Peguei a motocicleta e fomos até a Barra. Ele pediu pra parar no Bompreço e comprar uma revista. Aproveitei e comprei gorgonzola, massa e um vinho branco pro almoço. Depois caminhamos até a orla e ficamos conversando, assistindo às ondas quase brancas sob o reflexo do sol, como um mar de leite. Gosto quando a voz dele se confunde com o barulho do mar e eu fico estonteado sem saber se essa confusão é música ou poesia feita por um desses poetas que tem a capacidade de fazer esquecer, por uns minutos, os desalentos da vida.

Porque ele tem problema com o sol, meia hora depois decidimos ir embora. Foi quando eu te vi. Do outro lado da rua, de pé, segurando um saco de papel, analisando o movimento de pessoas e carros e lojas e ambulantes e barulhos em volta, como se esperasse alguma coisa. Você estava de pijama. Aquele pijama que você colocava, querendo morrer, porque a cor te fazia lembrar o colchão antialérgico laranja que sua mãe comprou na sua adolescência e que, na verdade, não era antialérgico. Eu amava quando você esquecia a neura dos espirros e usava esse pijama. Eu te achava bonito mesmo de pijama laranja e olheiras.

Porque eu gostava de você usando roupa de dormir, comecei a divagar, lembrando de quando você acordava cedo e saía da cama sem fazer barulho pra ficar lendo na varanda. Aquelas revistas literárias com gente que escreve achando que sabe tudo. Aqueles jornais que você reclamava que os repórteres escreviam mal. Eu achava tão lindo (você lendo, você reclamando) que até tirei foto. Até hoje a única foto sua que não consegui jogar fora. Me fazia pensar: “Esse homem não precisa de nada pra ser feliz”.

Num repente, puxei meu namorado pelo braço. Um carro passou ao nosso lado. Começou a tocar uma música de Bethânia. Quando dei por mim, estávamos praticamente dançando na rua como nas cenas daqueles musicais antigos e sentindo uma pontinha de vergonha. O resto é o que você já sabe. Eu não sabia que você também tinha me visto. Isso até a última quarta-feira, quando vi circulando nas redes sociais o seu último texto publicado, ao lado de uma foto sua 3 por 4. Sua mania de escrever sobre o outro com uma propriedade arrogante. Começa um exagero, que acho mais ódio de quebra de expectativas daquilo que você esperava de uma relação do que o desejo de colocar no papel o que você sente. Realmente não sei o que espera ganhar com isso. Mais angustiante: não sei o que você espera de mim. Um pedido de desculpas por não tê-lo cumprimentado? Por não ter tido a mínima ideia do que fazer ao encontrar o meu ex enquanto andava com o meu atual?

Percebi o óbvio ululante: eu não te devo nada. Foi você quem tentou me expor publicamente, não o oposto. A única coisa que fiz foi sair na rua com meu namorado, como fiz praticamente todos os dias nos últimos quatro meses. A única coisa que talvez tenha feito demais foi não acenar e dizer um “oi, tudo bem?” por educação. E sabe, muito mais do que a sua loucura de estar inseguro, de querer provar o tempo inteiro que está certo e de arranjar um namorado e fazer dele um personagem, foi exatamente as suas esperas descabidas a razão de nós termos terminado.

Porque mesmo depois de passado quase um ano do nosso rompimento, você ainda espera. Ainda espera que eu acene. Ainda espera que eu diga “oi, tudo bem?”, mesmo quando não tenho o menor interesse em como você está. Ainda espera que eu lhe dê atenção no meio do Jazz no MAM, no meio da confusão da vida. Ainda espera que eu perca meu medo de ir à praia e fique apenas no raso quando é na profundeza que mora o desconhecido. Tá demais, vai ver na terapia o que é isso aí. Vou te dar um último conselho. Não porque ache que você vá dar ouvidos, mas porque, apesar de tudo, também sinto ainda algum afeto residual que sobrou da nossa relação. Meu conselho é: não espere, viva. Faça acontecer. A espera é a morte antecipada.

Talvez fique feliz em saber – ou talvez fique um pouco amargurado – que eu mostrei a ele o seu texto. Ele achou um pouco triste, mas depois riu um pouco. O bacana é que você nos ajudou com o desentendimento do dia anterior. A gente conversou e ele disse que concordava com alguns pontos que você trazia na carta. Disse que, às vezes, eu ficava muito quieto e aquilo o incomodava, o fazia sofrer. Acho que melhorei nessa coisa do diálogo, graças ao que aprendi com você e, agora, com ele. Aliás, graças ao seu texto tivemos a oportunidade de conversar sobre você, que pra mim sempre foi tumultuado lembrar e contar. Ainda estamos juntos, melhores do que antes, eu diria. Por enquanto sua previsão não se realiza. Não se termina uma relação por ser intenso. Não se termina uma relação por não ser intenso. Quero que saiba que desejo a sua felicidade e que também possa encontrar alguém que te entenda e que possa amá-lo como eu não pude.

Carta aberta ao atual do meu ex-namorado

Texto: Murilo Melo | Ilustração: José Manuel Hortelano

Hoje pela manhã, ao sair da padaria, encontrei meu ex-namorado com você. Senti um misto de susto e ciúme. Ele segurava com a mão esquerda uma sacola de supermercado e, com a outra, a sua mão. Eu ainda estava de pijama, chinelo e cabelo bagunçado, bem feinho. Mas isso, pelo visto, não interessou: vocês não me notaram. Aliás, que loucura. Ao que parece, vocês não se importam com ninguém em volta. Parece que o mundo se transforma num lugar invisível, sem brilho e sem som quando vocês estão juntos, o que me fez ficar com o coração um pouco apertado.

Admito que, a princípio, fiquei com um pouco de inveja ao ver vocês sorrindo, e me recriminei por meia hora. Depois, segurando firme a sacolinha de papel de pão, me pedi pra ter calma: é normal sentir inveja e susto e ciúme e ter um pouco do coração apertado quando se esbarra com o ex que a gente ainda guarda um pouquinho de afeto. A gente sempre guarda um pouquinho de alguma coisa por todos os ex.

Fiquei observando tudo até vocês subirem na motocicleta. É impressionante como ele se sente bem com você. Solto, certo do que quer, apaixonado. Exatamente como ele se sentia comigo nos primeiros dias e totalmente diferente do nosso último encontro. Vocês estavam perambulando pelas ruas da Barra, desfilando ao lado de uma fila de táxi, como se estivessem flutuando no meio de bolhas gigantes de corações que não estouram.

Um carro passou e dava pra ouvir a música que tocava. Era algo como “mas o importante é perceber que a nossa vida em comum depende só e unicamente de nós dois”, de Bethânia. Achei que esse trecho, de alguma forma, unia nós três. Vocês dançavam sem dançar, deslizavam pela calçada sem deslizar, rodopiavam sem rodopiar. Uma moça passou ao seu lado, numa bicicleta, apressada, e ele, sempre atento, te afastou com aqueles braços imensos que protegem de toda a maldade do mundo.

Quando ele apertou sua cintura contra o corpo dele, num gesto mais contemplativo que alguém que gosta pode fazer, sei lá, lembrei dele me dizendo, sem perder a paciência, que eu precisava relaxar. Ele sabia que o meu maior problema era querer saber onde ia dar ter sete meses de namoro, onde ia dar me arrumar pra sair todo sábado, onde ia dar conhecer os amigos, a família, os restaurantes mais charmosos da cidade. Onde ia dar? Eu fui, pra ele, um clichê de ansiedade e insegurança.

Quando ele te deu um beijo na testa, num gesto mais carinhoso que existe no universo, sei lá, lembrei dele me olhando sério, no meio do Jazz do MAM, e me pedindo pra parar com essa mania chata e descabida de querer medir o amor: “Não é porque você está disponível pra sair que você ama mais. Não é porque eu sumi por mais da metade do dia que eu te amo menos. Não é porque você escreve sobre o que vê que você entende o que vê”.

Quando você tentou largar a mão dele e ele te puxou de volta, num gesto que marcava presença, sei lá, lembrei dele me explicando, sem saber como, que não gostava mais de mim. A maneira educada de falar uma sinceridade alta. A necessidade cruel de ser honesto. A maior dor do mundo dita pelo melhor namorado do mundo.

Tenho medo de você não conseguir cuidar dele como eu cuidei nos últimos tempos, por isso escrevo esta carta. Cueca esquecida no chão do banheiro, toalha molhada em cima da cama, roupa amassada. Eu gostava de cuidar do homem imenso que se comportava como um menino. Gostava que ele, ora era fofo, ora era estranho, esquizofrênico. Eu chamava ele de esqui-fofo e ele, mesmo sendo a pessoa mais inteligente que eu conheço no mundo, nunca conseguiu decifrar o apelido.

Eu não sei se ele já te mostrou algum projeto de arquitetura dele. Mas se ele mostrar qualquer rabisco, qualquer ideia, ainda que pra você pareça tudo muito solto e surreal, estimule. Isso é muito importante pra ele. Você talvez não entenda nada, eu nunca entendi, mas, no fim das contas, ele sempre faz uma coisa fantástica.

Eu não sei se você sabe, mas ele tem medo do mar. Ele sempre se lembra da história do milagre, na infância, que o salvou do quase afogamento. Eu tentei diversas vezes fazer com que ele esquecesse o episódio. Tentei convencê-lo a ficar no raso. Tentei convencê-lo a ir a uma praia mais calminha. Mas ele não consegue. Talvez, você, agora que assumiu o posto de namorado, e porque ele mudou tanto nos últimos meses, consiga fazer com que ele esqueça esse trauma.

Eu não sei se você sabe, mas ele não consegue dormir na véspera de Natal. Ele sempre se lembra da mãe dele que morreu tão repentinamente. E chorava. E me ligava. E pedia desculpas por um tanto de coisas que nem precisavam de pedido de desculpas. Foi assim no Natal passado e, eu sei, deve se repetir. Nunca me senti preparado pra cuidar dele na véspera do Natal. Então, não espera ele ligar. Liga primeiro. Diz que está ali pra qualquer coisa. Tenta preencher esse vazio que nunca será preenchido.

Eu sei, eu não te conheço, mas este texto é pra te pedir, em público, a coisa mais importante que alguém que sonha ter um filho com ele (e pelo visto você parece querer) tem que ter: paciência. Eu não sei se você sabe como ele funciona, mas com ele é devagar. É por degrau, aos poucos, no momento certo, quando tiver que ser. Se você não der conta da loucura que é gostar de alguém com calma, se você não conseguir aguentar não aguentar, se você não suportar esperar o minuto dele, se você for tão intenso quanto eu e acordar no meio da madrugada, exausto, querendo saber se é mesmo amor, assim como trinta caras que vieram antes de mim fizeram com ele, eu sinto muito em lhe dizer: seu namoro, infelizmente, não vai durar.

Desproporcional

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Olhos tão arregalados pra não perder nenhum vulto. Pra devorar, como um predador. Pra se vender, como um produto de baixo custo, quase de graça, quase uma doação, na prateleira do mercado: “me coloque no carrinho, vale a pena, me leve pra casa, ignore todo o resto, eu não aguento mais ficar na poeira”. Pra conquistar tudo de mais interessante que você gosta, de um jeito que me faz ficar horas te olhando quase sem piscar.

Os vencedores têm um holofote gigante na alma e apesar de você ter me notado numa prateleira cheia de boas opções e feito tanto e sido mais do que tantos homens que tentaram bastante, é claro que a luz no centro do palco você deve guardar para o seu caminho que, não precisa ser vidente pra saber, será maravilhoso.

Eu sou estragado demais pra pertencer ao seu mundo simples, leve e sem agrotóxico. E sei que agora você deve estar por aí percorrendo seções infinitas atrás de alguém mais orgânico, mais parecido com você. A publicidade nas relações custa cara, e não adianta uma embalagem bonitinha e trocadilhos engraçados. Conquistar alguém e fazer tudo isso dar certo é ter pescoços esticados pra ver um outdoor genial, é ganhar o prêmio principal, é subir no pódio com a certeza da reciprocidade.

Olhar com amor requer um tempo que pessoas passageiras e imediatistas não podem e não devem fazer, arriscar. E eu, tolo, na urgência, tentei ser aquele maluco da plateia que saiu correndo do show pra agarrar o artista inalcançável. Você, protegido por milhares de seguranças, entrou num daqueles carros enormes, e eu fui obrigado a aceitar o corredor solitário, onde gente louca fica. Você está certo em exibir ao mundo uma boca com tantos dentes e tão incrivelmente brancos. Eu é que estou errado quando fecho a cara pra pensar com tristeza esses sustos previsíveis do amor, que de tão previsíveis não deveriam assustar mais.

Não tem mais você cantando, freneticamente e despreocupado, The XX debaixo do chuveiro, enquanto eu olhava a rua vazia e sem chão, do alto do seu apartamento, angustiado, sem saber que porra de dor era aquela que eu sentia no peito. Eu achava louco, eu não aceitava, eu queria entender: como pode alguém gostar de outro assim em tão pouco tempo?

Não tem mais você tirando sarro quando eu não aguentava o nó na garganta e te falava no escuro que era alguma coisa parecida com amor, talvez amor. Era amor mesmo, ainda é. Alguma coisa deu errado em mim quando você segurou a minha mão no portão de casa, no comecinho de tudo, e confessou que a pior parte do dia era quando você me deixava e ia embora.

Não tem mais você me ligando no meio da noite pra saber se estava tudo bem quando não estava. O meu desespero em ouvir sua voz era tão grande que eu dormia com o celular embaixo do travesseiro, porque até uma ligação sua, com voz de sono, cansado, de madrugada, era melhor do que o silêncio. Você dizia que o meu maior problema era não saber esperar pelo dia seguinte. E eu te odiei mil vezes porque minhas esperas pareciam durar uma eternidade, mas pra você viravam dois segundos.

Mas meu corpo todo enfrenta tumulto quando gosto de alguém. Me armo inteiro pra correr pro lugar mais distante e pra lutar com unhas imensas quem tentar impedir. Me sinto péssimo e choro em posição fetal quando constato o quanto é ridículo ficar com saudade só porque você foi tomar banho. Ter que sentir ciúme ou raiva ou solidão ou insegurança e sorrir pra não parecer louco. Me irrita ir ao cinema e pensar que depois do filme você vai embora. E ter a certeza que eu vou te ver em qualquer buraco da sua agenda que nunca tem buraco. Pareço um adolescente quando você está por perto e você é homem demais pra suportar esse comportamento de menino. Eu sinto de um tamanho que eu não tenho e, então, desproporcional, começo a adoecer, como sempre.

Eu não sou louco. Eu só não tenho pele pra proteger e sobrevivo em carne viva, e quando você toca em mim, ainda que de leve, eu sinto seus dedos e veias e batidas e olhos e salivas invadindo todos os meus órgãos. E você não precisa entender o medo que isso me dá, mas quem sabe, numa outra vida, num outro planeta, você entenda que tudo o que eu quis era carinho.

Aviso

Excepcionalmente, o colunista não escreve nesta quarta-feira (18).

Como ser amigo de um homem lindo

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Acho que de todos os exemplos, o do cabelo é o mais desumano. Ele tem um cabelo que parece ter feito mechas, meio claro, meio médio, meio loiro, liso, com uns cachos grandes nas pontas, extremamente brilhante. No sol, o brilho e a cor ficam mais vivas e todo mundo sempre quer saber: “que cor incrível é essa?”. E ele responde: “Nunca pintei, acredita?”. E diz que já enjoou dele. Que talvez pintar seja uma boa. E fecha a cara meio depressivo. O cabelo é tão maravilhoso, mas tão maravilhoso, que pra cuidar ele usa xampu vagabundo, daqueles de mercado que não passam de dez reais. E os meros mortais torrando todo o salário com centenas de fórmulas da Europa pra conseguir sair de casa sem parecer um mendigo da Praça da Sé.

Ele aparece na piscina da casa de uma amiga apenas com um short que favorece a barriga enxuta e as pernas torneadas. Não é academia, nem pilates e muito menos Crossfit. “Que dieta é essa? Chá verde, hibisco, chia?”. E ele responde: “nenhuma. Só como besteira, acredita?”. Aí coloca um Ray ban e exibe sem querer exibir o belo corpo na espreguiçadeira. Todos, inclusive eu, querendo morrer com bochechas e pancinhas.

Quando chamo ele pra me acompanhar na padaria, ele diz: “me dá vinte minutos pra eu me arrumar, não posso sair feio do jeito que estou” e eu fico olhando e pensando que nem em uma semana num SPA, eu alcançaria a perfeição que ele é capaz de ter apenas de regata, samba-canção, cabelo bagunçado, barba por fazer, chinelo e creme de limpeza na cara. Ter como melhor amigo um homem lindo é receber um soco na boca do estômago todos os dias. É mentir que não tem azia, é inventar que você jamais usaria base líquida pra esconder manchas de espinha. Você atrasado, a padaria ao lado… e ele vem, lindo, com creme de limpeza na cara e samba-canção, e termina de te socar. E você apenas sorri: “tá bom, migo, eu espero…”.

Quando ele tá meio bêbado e fica desolado (sim, gente bonita também tem angústia), ele sempre lembra de algum amigo que sumiu. E enche os olhos de lágrimas, com saudade. Mas também, né? É preciso muita autoestima, força de vontade e masoquismo pra estar ao lado de uma pessoa tão bonita quanto ele. Ele diz: “não entendo, Gabriel vivia aqui, saía todo final de semana comigo, de repente… sumiu”. E eu imagino, com vontade de falar em voz alta,  que “antes de sumir, o coitado do Gabriel deve ter tentado cirurgias plásticas, terapia, cremes, drenagem, ácidos, peeling, dietas, exercícios… quando viu que nada dava jeito, o melhor mesmo era fazer de conta que você não existe”.

Mas acho que mais cruel do que ter a companhia dele é não ter a companhia dele. Vai sempre aparecer um desgraçado do outro lado da pista que me vê entre ônibus e corre no meio da rua pra falar comigo. “Murilo, quanto tempo!!! Precisava MESMO falar com você”. E eu já imagino que falar comigo é falar sobre meu amigo lindo. É sempre pra perguntar se meu esteticamente afortunado amigo que viram na festinha de sábado está finalmente solteiro. E ficamos então parados no meio da calçada num papo cíclico. Lindo, né? Meu Deus, muito. Bem lindo mesmo. Porra, lindo pra caralho. É, nossa, lindo demais. E a boca? Nossa… E então eles começam a pedir Facebook, pedir pra apresentar, pedir pra levar na outra festinha de sábado. Só pedem. E eu já nem ligo mais, mas no fundo sempre ligo.

Em outubro do ano passado fui ao show do Bailinho de Quinta. Comprei uma roupa nova, tadinho. Me arrumei todo, tadinho. Deixei a barba alinhada, tadinho. Usei um perfume caríssimo. Tadinho. O cara que eu tava saindo até gostava de mim, até falava que “nossa, como eu não te conheci antes?”, até me achava bonito, mas eu lembro do segundo exato em que ele, ao notar meu amigo numa camiseta cinza sem sal (lindo mesmo numa camiseta cinza sem sal), dividiu o mundo entre antes e depois. E eu ficaria o resto da eternidade no antes.

Ir aos lugares ao lado do meu estonteante melhor amigo é aceitar pra sempre não ter o pódio. É ficar satisfeito pra sempre com o prêmio de consolação. É escolher pra sempre ser “o rapaz ao lado”, “o amigo do”, “o outro”, “aquele que tá com”. É me fantasiar de Carmen Miranda em dias comuns e ainda estar tão longe do centro das atenções. É ensebar a franja de tanto que dói não ser notado pelo resto do mundo.

Em nome de uma vida mais digna e sem humilhações, eu poderia, assim como fez Gabriel e uns 70 amigos mais frágeis, ter sumido. Mas o negócio é que na madrugada de uma sexta para sábado, me dopei com Dramin, Rivotril e outras dezenas de remédios para dores musculares e fui dormir. Eu estava com febre emocional por causa do fim do meu namoro e a única coisa que eu queria era acordar depois de vinte dias. Foi aí que a belezura universal em forma de melhor amigo teve por mim uma paciência jamais vista nem nos dias mais doces da minha mãe. Ele foi até a minha casa e cuidou de mim. Dormia e acordava de meia em meia hora para ver como eu estava. E eu, às 4h55 da manhã, estava ainda muito drogado, mas pude acompanhar suas pernas incrivelmente torneadas dando passinhos lindos pelo corredor, tudo pra ter certeza que eu ainda estava vivo.

Em nome de uma vida mais digna e sem humilhações, eu poderia ter dito “gatinho, não dá mais, fui, tô vazando, quero que você e a sua beleza incrivelmente fantástica sejam para sempre felizes lá na putaqueopariu”, mas o negócio é que o Deus Grego é a porra do meu melhor amigo. É ele quem me liga todos os dias pra saber como estou. É quem segura minha mão quando eu faço endoscopia. É quem se importa de verdade com a minha vida, os meus projetos, enjoos, colites intestinais e crises emocionais.

Gente muito bonita sabe que, em seu triste carma de perfeição solitária, só lhe resta ser tão gentil, mas tão gentil, que o gentil seja ainda mais superior do que sua barriga enxuta, sua pele hidratada, seu cabelo incrível e sua batata da perna. Já o homem como eu, “inteligente e engraçado”, rótulo que nos dão no ginásio e o qual nos agarramos por toda vida, cabe calcular o benefício disso e transformar o resto em piada.

Ninguém precisa transar para estar transando

Texto: Murilo Melo | Arte: T Jalf Sparnaay

Na semana passada, ele pintou um pontinho com canetinha verde neon no meu nariz e apagou a luz do abajur da salinha de reuniões da agência de publicidade que a gente trabalha. Isso foi a coisa que me deu mais tesão nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. Um pontinho de canetinha colorida no nariz. Minhas mãos começaram a soar, minha respiração travou e a ânsia de querer mais e mais pontinhos pelo corpo já não sabia como se controlar. Um pontinho de canetinha colorida no nariz. Imaginar a voz dele ao pé do meu ouvido é preliminar. Imaginar o hálito da boca dele passando entre meus cílios equivale a abrir o zíper da calça, o anúncio do sexo. A língua que descamba da testa para a orelha é pau. A língua penetrando no ouvido é pau e bunda. A língua que passeia entre a bochecha e vai até o céu da boca é pau e bunda. Mas um pontinho de canetinha colorida verde neon é como um pau e bunda nunca visto antes na existência do planeta. Não sei explicar muito bem, mas o pontinho de canetinha colorida no nariz foi mil vezes mais sexual do que pau e bunda.

Na semana passada, ele colocou um bilhetinho dentro da minha ecobag dizendo que iria fazer uma serenata depois que eu saísse do banho só pra me ver dançando pelado. Acho que era o trecho de alguma música ou de algum livro desses milhares de livros que ele lê, mas foi a coisa mais sexual que li nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. E então me imaginei completamente nu, desfilando entre banheiro, sala, quarto e cozinha, enquanto ele tentava se concentrar nas notas musicais, me bisbilhotando, por debaixo dos óculos, entre uma pausa e outra da melodia. Tive orgasmos consecutivos que nenhuma penetração seria capaz de me dar em sete vidas.

Na semana passada, ele encostou o braço no meu braço quando pediu meu lápis emprestado. Eu emprestei, ele anotou o número de telefone de algum cliente, e depois descobri que ele é canhoto. Então o quê? Então nada. Mas sei que aquele braço roçando no meu braço foi a coisa mais sexual que me aconteceu nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. Esqueci o que eu estava digitando no e-mail, esqueci de beber o resto da água no copinho descartável, esqueci de atender o telefone. Meus dentes prenderam bravamente os meus lábios. Uma vontade sem fim de me enfiar mil vezes num buraco dentro do meu próprio buraco. Nem nos olhamos. Ele sem tirar os olhos do computador o dia inteiro. Photoshop e Ilustrator. O dia inteiro isso. Mal trocamos palavras. Ele anda rápido pela agência. Demanda, problemas, prazos apertados. Diz que vai resolver. Em um minuto, mas às vezes só dá no dia seguinte. Atende telefone. E depois outro. Nem sei o nome dele, só o apelido.

Mas eu gosto quando ele se ajeita no espaço dele, tão pequeno pra altura e, por descuido, chuta minha cadeira, no meio de uma reunião chata, e pede desculpas sinceras, franzindo a testa como um gatinho sem dono abandonado em caixas de papelão. “Desculpa”, e fala meu nome. E então dou um foda-se pra toda aquela merda de reunião e bloqueio nos meus ouvidos todo o resto que não me interessa. Eu me excito ao sentir os poucos centímetros do pé dele entre a rodinha da cadeira e a minha perna. E de saber que daqui a pouco ele chuta mais um pouco. E pede desculpas sinceras de novo. “Desculpa”, e fala meu nome. Tudo isso é minha vida sexual do momento. O toque que dá possibilidade. Possibilidades que não se concretizam. A transa do toque de possibilidades.

Eu transo quando, no elevador, ele encosta um pouco da barba no meu queixo pra apertar o andar e eu fecho os olhos e respiro fundo, quase gemendo, quase gozando. Quando ele pega um cafezinho e se espreguiça no meio do grupinho de publicitários e do outro diretor de arte. E então mostra, sem querer, o pedacinho de barriga que me estimula a pensar que tem o tamanho exato de uma lambida rápida. Essas coisas que ele nem sabe que eu penso. Essas loucuras que quando vou ver, já pensei. Não, eu não quero revisar o texto, repensar o post, pensar numa frase melhor pra propaganda. Eu queria mesmo era saber se lamber suas costas inteira secaria a minha língua numa lambida sem intervalo. E chego mesmo a abrir um pouco a boca, mas quando ele olha pra mim, finjo que estou bocejando.

No fim da semana passada, porque todo mundo da agência saiu pra beber uma cerveja num bar que só frequenta gente descolada – e ele me achou tão engraçado e tão interessante, e então criamos intimidade -, ele beliscou com muita força a minha cintura. E eu gritei. E ele disse “nossa, que menino fresco”, e riu mais do que a dor que senti. Nos conhecemos há sete mil anos, apesar de ser apenas semana passada. E eu retribui com uma mordidinha no braço dele. E ele fez aquela carinha de ” eu aguento, eu sou forte”. E riu com minha mordidinha. E depois bebeu um gole na garrafinha de Heineken, o que me deixou bastante enfurecido. Tudo isso foi a coisa mais sexual que me aconteceu nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. São tantas obrigações entre uma sala e outra, contas pra pagar, poucas horas de sono, textos pra ler, escrever e revisar, e ele aparece como minha única fantasia sexual, uma distração.

No fim dessa noite, do fim da semana passada, ele sugeriu que eu “esticasse a noite na casa dele ouvindo Nina Simone e bebendo todas as cervejas do frigobar”. Não tinha nada pra comer, ele avisou. Ovo frito? Ele riu. Eu não fui. Passei a gostar do homem que eu vejo do outro lado da pista. Se ele atravessa, perco o encantamento. Passei a gostar do comecinho do amor, da conquista, do que não chega a ser, mas que por algum ângulo já é. O negócio é que talvez eu nunca mais cruze com ele, porque só fiz um freela na agência e ele é interessante demais pra minha insegurança e eu nem sinto nada de bonito. Mas, por via das dúvidas, me depilei e tenho sorrido mais. Ninguém precisa transar para estar transando.

Hoje visitei meu próprio cemitério

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Uma velhinha, com duas sacolas de supermercado em cada mão, do nada atravessa a pista no sinal verde e o motorista do Uber dá uma freada brusca e o carro faz um barulho estranho. Meu corpo vai um pouco pra frente e, em menos de meio segundo, volta batendo contra o banco.

No calçadão da Barra, uma menina corre com um tênis rosa e verde, calça de ginástica de elástico frouxo e camisão. O carro anda um pouco e, em Ondina, eu vejo uma menina comendo salgadinho de cebola dentro do ônibus, uma banca estampando inúmeras revistas com fotos de atores globais, um casal sem papo digitando em seus iPhones na varanda de um restaurante caríssimo.

Do lado esquerdo, um skatista gigante, calçando um tênis gigante, passeia com um cachorro gigante. A rua parece ser pequena para eles. Mais à frente, uma mulher com uma bolsa, com um desenhinho de pinguim, anda impaciente no ponto de ônibus. Do alto, num prédio, acho que nono andar, no Rio Vermelho, um homem com a barba por fazer, parado na janela, olha pro nada.

O carro dobra numa rua, aguarda um pequeno congestionamento, faz novamente um barulho estranho, e é justamente quando vejo ele. Na porta da Tropos, um daqueles bares descolados que ele sempre vai. Ele viu um rapaz entrando e colocou a mão no bolso. Depois bebeu um pouco de água numa garrafinha. Depois pegou o celular, acho que pra ver as horas. Depois passou a mão na nuca. De um jeito diferente. Colocou as mãos na nuca e foi descendo, deslizando. Foi de uma forma que ele nunca fez, mas eram os gestos dele.

O carro andou um pouco, mas eu ainda podia ver tudo. Ver, por exemplo, um rapaz saindo do bar com duas cervejas e, depois, rindo com ele. Mais um namoro que ele tenta dar certo, talvez. O carro arrasta, desaparece no meio de prédios e ruas, e ele fica pra trás. O motorista do Uber explica que é apaixonado pelo carro, mas cansou de consertar pela centésima vez. E que, talvez, a melhor coisa mesmo seja comprar um carro novo e se livrar desses barulhos estranhos.

Em menos de um minuto você se lembra de tudo. Você se lembra o motivo e a cena ou os motivos e as cenas que fizeram tudo se perder. E você se dá conta que não tem culpa e que, talvez, ele também não tenha culpa. Relacionamentos acabam quando têm que acabar. Assim é a vida, ainda que doa dizer. Você se dá conta que o grande amor da sua vida. O maior. O homem que um dia você achou que finalmente havia encontrado. Aquele que você nunca superou. Aquele que gostava de você dizendo que tinha medo das noites solitárias de domingo.

Você se dá conta que ele é o tipo de homem que faz questão de ficar a noite inteira longe de você – não só dia de domingo, mas todas as outras noites -, só porque acha misterioso ficar longe de você e não porque quis mesmo ficar longe de você. Ele prefere ser da turma com cinquenta pessoas que falam de tudo, menos de amor, porque é mais bacana ser descolado do que humano. E você se dá conta do que sentia mesmo estando acompanhado: solidão profunda. E você se dá conta que ele acha que saudade, amor, carinho e qualquer outro tipo de afeto se resumem a sexo todas as vezes que vocês ficavam a sós. E que, para ele, discutir relação é “coisa chata e amanhã tem trabalho”.

Você se dá conta que a vida dele, que você tanto admirou, que você tanto contou pros seus amigos com um orgulho imenso, pode ser um pouco comum, boba e até mesmo triste, tão solitária quanto ele fazia você se sentir (com estantes caríssimas, mas sem valor; com apartamentos enormes e vistas incríveis, mas que ficam desocupados mais da metade do dia; com geladeiras e agendas cheias que só servem pra alimentar fomes passageiras; com carros que levam a qualquer lugar, onde e quando quiser; com cartões de crédito gastos com coisas sem amor, olhares tortos de síndico que reclama de barulho, filmes onde musculosos se comem e amigos que ligam no meio da noite de sábado achando que ir a alguma boate nova pode ser uma opção legal pra levar gente pra cama).

Em um minuto você se dá conta o que te trouxe até aqui, tão longe dele, tão longe de todos os planos. Me senti dando vida ao meu próprio cemitério, numa visita inesperada e dolorosa. Com o homem que eu mais amei na vida enterrado. Com o cara que a gente desenterra de vez em quando só pra ter certeza que a melhor coisa que fizemos na vida foi ter escolhido enterrá-lo. O rapaz que a gente, nesses minutos de lembranças, lamenta a distância e até mesmo o final. Ele já foi tão importante e… Por que a gente não começa tudo de novo e tenta dar certo desta vez? O homem que a gente tenta se agarrar por minuciosidades que não voltam, num misto de melancolia e falta, talvez por medo de lembrar que a vida caminha pra frente e isso significa alguma perda. Nossos amores vão ficando pra trás. Nós também ficamos. Assim é a vida, ainda que doa dizer.

Mas a lição que eu aprendi, hoje, é que não vale a pena consertar um carro pela centésima vez. É melhor esquecer o antigo e comprar um novo. Afinal, eu passei meses tentando consertar um relacionamento e só ganhei mais e mais desgastes. Mais e mais problemas. Mais e mais poses. Menos e menos verdades. Ter um namoro de fachada é assumir a incapacidade de ser só. Ainda que doa deixar o homem da sua vida morrer, se agarrar a ele é viver mal-assombrado pro resto dos dias.

487 gostos

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino 

Eu gosto das luzinhas amarelas, vermelhas e violetas que aparecem em seus olhos por causa da incidência de luz. São essas luzinhas que me fazem lembrar a vida como lâmpadas de apartamentos que salvam ruas tristes e noturnas de uma grande metrópole. Você entope minha vida de cor que eu nem sei se existe e me deixa bem mais humano do que o resto do mundo.

Eu gosto dos dois ossos saltados nos seus ombros e se vejo eles descobertos pelas alças da camiseta de listrinhas tenho vontade de dedilhar como violino. Suas partes me lembram notas de clássicos de músicas francesas e se você me convence a dançar, eu rodopio sorrindo pelo salão inteiro entre garçons, mesas e convidados.

Eu gosto da sua camisa azul de botão que você sempre usa quando acorda atrasado e não sabe o que usar. E se ela desabotoa, no fim do dia, deixando à mostra alguns fios esquecidos e desinteressados de pelo do peito, eu fico segurando o cós da calça tentando controlar a ânsia de arrancar cada botão. Você insiste em dizer que “é só uma camisa velha” e eu, na minha completa arrogância, digo que não há como explicar o que não é passível de explicação. No meio de tudo isso, você sorri pra mim reto, direto, calmo, largo, amando sem preocupação, sem euforia.

Eu gosto da sua espinha ilíaca ântero-superior, a curva profunda concentrada entre o seu abdômen e a virilha quando você coloca a bermuda de moletom leve e fica pelado da cintura pra cima. É ali que você deposita todo o charme despretensioso de homem feito contrapondo o rosto de menino. Então fica a briga dos olhos sob os ombros e do peito sob a espinha ilíaca.

Eu gosto que seus ombros sobem e descem quando a sua respiração é profunda, que os ossos da sua mão aparecem quando você relaxa, que os dedos dos seus pés encolhem por algum motivo. E eu não sei bem se é por frio ou se é mania.

Eu gosto que seu cabelo seca ao longo do dia e seu topete fica aquela coisa meio dura, estática, eu acho bonito. Eu gosto de como você me espera na porta do meu trabalho no fim do dia. Eu vejo poesia na espera. Seus olhinhos fechados de cansaço pelo vidro do carro, a boca pálida porque você sempre esquece de beber água, suas costas meio suadas marcando a camisa, seu som repetindo We don’t talk anymore parecendo cena de novela.

Eu gosto quando você abre as janelas do carro, o vento não pede licença e seu cabelo perde a forma. E daí você me faz viver um elevador de sensações: eu dou risada com sua voz baixa querendo disfarçar alguma sinceridade muito alta; eu fico bravo quando você interrompe o assunto com aquele “deixa pra lá” que me mata mais do que tudo. Sua leveza dura a vida inteira, mas chega pra mim com a intensidade e duração de um cronômetro em contagem regressiva a dois segundos do fim.

Eu gosto quando eu chego em sua casa sem avisar, com sacolas de supermercado, e você, tão alto, me olha como menino e me abraça e me levanta e me roda e eu me sinto bem menor do que já sou. E então eu me refugio em seus braços, não me movo, pareço não ter sangue. Eu gosto de olhar sua mão por sete minutos e imaginar que você poderia me tocar mesmo que eu estivesse num mundo só meu e você num mundo só seu. Suas mãos grandes e largas invadem qualquer espaço do meu corpo com total respeito.

Eu gosto como o jeans cai perfeitamente em sua cintura sem precisar de cinto. Seu método sexy e egoísta que provoca inveja em qualquer produtor de videoclipe do Justin Timberlake. Você é bonito demais pra alguém tão inteligente e é quase injusto pro mundo existir alguém com tanto das duas coisas quando se olha ao redor e percebe que é difícil achar uma só. Eu pergunto o que é isso que deixa seu rosto tão interessante e você me diz, me achando hiperbólico, que é mistura de grego com gente do mato. Sério que não tem nada de alemão, italiano, galego? Você fica vermelho de tanto rir. Você sempre fica assim quando eu extrapolo os limites da realidade. E logo depois fala algo bem íntimo, quase sussurrando no meu ouvido, e percebe que não era hora pra isso.

Eu gosto quando você me acorda e procura putaria lá pelas cinco da manhã, no segundo em que a noite ameaça ser dia. Eu gosto quando você deita, cansado, e pede pra que hoje você fique por baixo. Eu gosto da força das suas mãos apertando o travesseiro e depois o meu cabelo e depois as minhas mãos. Eu gosto da loucura que é o seu gemido e o meu gemido e o suor pelos corpos e a falsa quietude que fica quando os dois viram pro lado. Eu poderia gravar seu gemido no iPod e sair com fones gigantes ouvindo pela cidade inteira nesses dias que a gente se desencontra, como um aparelhinho erótico ambulante.

Eu gosto que todas as suas camisas parecem azuis mesmo não sendo. Eu gosto da sua janela de madeira que não é madeira e que combina com a varanda e com a persiana. Eu gosto do papel de parede da sua cozinha. Eu gosto que você sorri quando digo que não existe poesia no meu exagero barato. Eu gosto do seu telefone com a tecla três quebrada. Eu gosto que o seu interfone deixa sua voz meio roca.

Eu gosto que você fica pilhado sem perder um traço sereno e intocável nos olhos, como se a vida fosse muito curta pra perder a calma. Eu gosto que quando tudo é felicidade, tédio ou tristeza seus olhos não perdem o brilho de dor. Eu gosto que você não sabe como, mas queria, por pura bondade, ajudar a velhinha passando mal no avião.

Tem vinte segundos que eu deixei você no elevador do meu prédio, mas já gostei de você 487 vezes até fechar a porta de casa. Eu gosto que você é um caminhão de luz que me cega na frente de todo mundo. Você acelera e eu, com medo de ser esmagado, ando pra frente confiando apenas no tato. Mas eu gosto mais ainda que você se esconde na esquina entre meu terceiro olho e a minha sobrancelha e o seu mistério, de tão saudável, não me deixa com aquele medo errado que só dá vertigem e me faz tropeçar.

 

Aviso

Excepcionalmente, o colunista não escreve nesta quarta-feira (13).

Sexo casual com amigo é só sexo casual com amigo, entendeu?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Pegue a xícara na mesinha de centro e beba um gole de café. Agora imagine que você tem um amigo divertido e que fala sobre todos os assuntos do mundo. Um amigo agradável que topa seus convites de última hora e que nunca se importou com seus esquecimentos de datas especiais. Pegue um biscoitinho de aveia na tigela, ao lado do pires, e mastigue bem devagar. Agora imagine que, desde que vocês se conheceram, isso lá na adolescência, fase em que os dois eram bem feinhos, você jamais evitou passar um segundo sequer longe dele. Porque ele, até então, era o que mudava seus dias de tédio. Coloque a xícara e o que sobrou do biscoito, na mesinha de centro, e encoste na poltrona. Agora imagine que, de repente, apenas porque vocês passaram da conta na cerveja e porque, muito loucos, dançaram bem juntinhos uma música argentina no Chupito e todos pararam pra olhar e sua mão boba percorreu o corpo dele e a mão dele percorreu o seu corpo e a coisa começou a ficar quente, mais quente do que você um dia ousou imaginar, você resolveu passar o resto da noite dando uma transada com esse rapaz adorável.

Pronto. É isso que eu quero entender. Exatamente essa cara assustada que você fez pra mim agora. Esse “eitaaaa!!!!”. Esse gritinho. Essa risada depois do gritinho. Esse seu queixo caído. Esses olhos que não piscam. Me explique. Por que amigos não podem transar? Que vergonha é essa que se instaurou no seu comportamento daí em diante? Que ameaça gigantesca é essa que uma mensagem com um simples “oi” pode causar? Que preocupação é essa de “pelo amor de Deus, esqueça que eu gozo”, correspondente às grandes profundidades dos oceanos e lagos ou do que é formado a grandes profundidades na terra, que você não pode encarar isso com total naturalidade? Mas se você se diz tão desconstruído, mas se vocês falavam tão abertamente sobre sexo, mas se você leva mais da metade do mundo pra cama, o que há de errado em, desta vez, ser com o seu amigão querido? Que palhaçada.

O que vai acontecer se — meu Jesus Cristinho; nossa, que difícil; vixe, que terrível; ai, que gastrite maluca — você continuar amigo do rapazinho todo depilado que, apesar de ter sim um corpo nu agora com cada centímetro irremediavelmente reconhecível por baixo daquelas calças e casaquinhos da Zara, só gostaria de, às vezes, lembrá-lo que tirar a roupa, que se embolar num edredom, que acordar deitado no peito do outro, que toda essa intimidade recém-adquirida não tem muito a ver com compromisso, mas sim com o rompimento da fronteira entre o normal e o patológico, com a energia dos instintos sexuais, com a comemoração de um contrato de momento (que acaba ali em algumas horas e, por isso mesmo, deveria ser tratado com total despreocupação).

Celebrar o gozo descompromissado é brindar o “amor prematuro que não foi adiante” e é preciso ser muito sensível de intenções para se emocionar com o amor perfeito que morre antes de ser e maduro suficiente pra entender que “tudo bem, isso foi ali e acabou”. Onde, em pleno 2017, está escrito ou gravado em vídeo que o tal rapazinho vai querer trocar alianças, vai sonhar em ser pedido em namoro, vai pensar em viagens românticas e exigir conhecer parentes que você nem se importa muito? Onde está escrito ou gravado em vídeo que após a pulsão noturna entre duas pessoas existe a obrigatoriedade de alteração no estado civil?

Por que você gostava dele te contando, repetidas vezes, quase todas as noites, sobre sentir angústia na virada do ano, de dor de barriga no Natal, de peixe estragado na Páscoa, de sentir um negócio que ninguém explica quando ninguém sente (e, sobretudo, de não sentir algo que alguém sente quando todo mundo sente) e agora, só porque abriu o botão da calça e o viu por outro ângulo, tudo se transformou num nível “um pouco demais pra sua vidinha de homem com total controle de tudo”? Vocês já conversaram sobre tantos assuntos profundos e tantas sinceridades extremas e tantas maldades e concordaram arrogâncias. Falaram no ouvido um do outro, dez segundos antes do beijo, dançando muito loucos a música argentina no Chupito, que estavam sentindo vertigem, mas que não poderiam parar. E agora vai correr desse rapazinho companheiro de vertigem?

Nem todo rapazinho que dorme com um homem bonito como você está em busca de um amor salvador. Nem todo rapazinho que tira você das suas expectativas organizadas está te esperando com uma corda no pescoço em um precipício. Eu tenho dezesseis médicos no Hospital Português que, toda vez que eu me desespero, seguram a minha cintura, mandam eu respirar e explicam que “ninguém morre de colite”. E me sinto maravilhosamente bem com esses dezesseis homens que me consolam em poucas horas. Médicos são amores passageiros, assim como você foi. Não sou um homem em busca de um amor pavimentado ou de alguém que me liberte de carências afetivas. Talvez um dia eu tenha sido, mas hoje não mais, e você sabe disso.

Do “amor prematuro que não foi adiante”, eu só queria a quebra do sigilo cósmico de saber que, em algum lugar do universo, embora a nossa amizade afinada acabasse, nos mantemos afinadíssimos com nossa amizade secreta e inabalável em algum lugar da atmosfera. O desejo sem imposição, a dedicação sem apego, a intensidade do suor dos corpos sem culpa, sem ressaca. É isso e nada mais. Dividir um yakisoba de camarão, falar mal das pessoas da faculdade e do trabalho, rir das histórias de família, talvez mais alguma coisa que surja de forma tão espontânea como sempre foi.

A cena da reviravolta

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz 

Ele foi me buscar em casa contra a vontade. Reclamando. Fazendo birra. Xingando. Andando angustiado pra lá e pra cá por todos os cômodos da minha casa. Eu dei risada. Achei engraçado. “Às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais”. Tava tocando isso no rádio. E eu dançando. E eu cantando debaixo do chuveiro. E eu nem aí. No elevador, ele sempre reclama. Ele detesta a demora do elevador do meu prédio. E desiste. E sempre fala: “caralho, puta merda. Essa porra desse elevador velho e fodido”. E não aguenta ter que esperar e desce as escadas xingando mais que isso. E me espera lá embaixo, agoniado. E eu nem aí. Ele já não me aflige mais.

No carro dele, no banco de trás, um casaquinho azul piscina tamanho P. De algum garoto magrinho, que certamente não sou eu, que certamente ele tá pegando. Deve ser da noite anterior. Ou de anteontem. Ou da semana passada. Mais um menino. Isso não vai mudar nem daqui a cem anos. Ele é cheio de garotos e, pela primeira vez nestes anos todos que o conheço, eu dei risada ao pensar nisso. Como que ele não faria sucesso entre os meninos? Bonito, inteligente, formado, com um bom papo, com uma boa família, com um bom emprego e com safadeza nos olhos. Que garoto não morre loucamente apaixonado por ele? Eu. Eu não morro mais de paixão por ele.

O que me faz viver sem achar que eu posso enlouquecer no próximo minuto. O que possibilita um relacionamento de verdade, com os pés no chão, sem aquela idealização bonita e babaca. O que deixa claro que, agora, posso falar tranquilamente dos meus medos e andar ao lado dele sem odiar a minha roupa e enfim esbravejar meu mau-humor, minha acidez, minha loucura. E posso falar com ele ao telefone uma vez por dia sem achar que a última vez que nos falamos foi há um ano. E posso sair com ele uma vez na semana, sem achar que uma vez na semana é uma década. E posso deixar ele ir embora, sem ficar com o coração apertado, sem voltar pro quarto e dormir pra não ter que pensar que ele realmente foi embora. Consigo até sorrir de verdade quando ele dá as costas, do portão. Consigo até dar um tchauzinho firme. Vai, querido, vai. Vou subir e comer meu pedaço de torta. Vai, querido, vai. Mais um ser que eu conheço neste planeta imenso.

Peço pra ele parar na Feira do Japão, na Liberdade, pra poder comprar caixotes. Quero fazer uma estante pra colocar meus novos livros. Explico que tá na moda e desço do carro. Ele também desce do carro e briga comigo. “Isso aqui é uma confusão de gente, Murilo”. “Por que você não compra uma estante barata?”. “Como que você vai fazer uma estante de caixote?”. “Olha, você inventa viu, Murilo?”. “Mau gosto da porra”. E diz que eu gosto de ir arrumadinho nessas feiras pra chamar atenção, pra que todo mundo perceba que eu não sou dali. E diz que eu amo ser educado com gente simples pra poder conseguir promoção. Que eu chego falando português complicado de propósito só pra me fazer de culto.

Eu não faço nada disso, mas eu é que não vou ficar me explicando pra ele ou brigar porque ele me julgou errado. Eu dei risada. Se eu estivesse apaixonado por ele, eu encostaria num canto qualquer daquela feira e começaria a chorar, a pedir desculpas, a me avaliar. Como assim eu vou arrumadinho pra poder chamar atenção? Como assim eu complico português pra me fazer de culto? Eu ia ficar com isso na cabeça pra sempre. Ia voltar pra minha psicóloga pra tentar entender. Ia passar mais tempo na feira, como um curso intensivo, pra tentar ser mais humilde. Mas apenas achei engraçado e comprei uma água de coco. Se eu estivesse apaixonado por ele, eu beberia essa água de coco e depois sairia correndo atrás de um banheiro pra vomitar, ainda remoendo tudo o que ele me falou. Mas como não tô nem aí pra ele, bebo duas águas de coco.

Depois fomos à mostra de esculturas do amigo dele, no Rio Vermelho. Eu tive nojo de usar aquelas luvinhas amarelas não descartáveis pra poder percorrer as mãos nas obras. Porque eu sei que o mundo todo usou aquelas luvinhas amarelas não descartáveis. E ele me olhando com cara de tédio. “Ai, Murilo, francamente, como você é fresco”. E eu aceitei ser fresco pra ele e não usei a porra da luvinha amarela não descartável e pronto. E deixei ele lá me julgando. E dei as costas. E deixei ele sozinho. Se eu tivesse apaixonado por ele, ia usar aquela luva querendo morrer de agonia. Ou ia explicar algo louco pra ele não entender. Ou ia inventar um telefonema e sumir dali. Ou ser sincero e ter que explicar quem eu sou. E pedir desculpas por eu ser assim, fresco. Mas eu achei engraçado. Ele me dizer que sou fresco e eu beber um suco light de cacau tem o mesmo efeito sobre mim. Nenhum.

No final da tarde fomos até a casa de uns amigos dele, na Pituba. E eu lá, no meio de todos eles, pela primeira vez nestes anos todos, gostando dos amigos dele. E ouvindo e rindo e dando conselhos e contando umas histórias minhas e sendo engraçado. Ficando amigo de alguns dos garotos que possivelmente ele já levou pra cama. A galera da maconha que vai em bando pro “reggae massa que vai ter sábado, mas antes tem que passar na praia pra pegar uma onda”. E ele me olhando lá no canto, de longe, pensando. Ah, Murilo, se você tivesse agido assim antes. Se você se comportasse desse jeito. Assim tão normal, tão leve, tão da galera, tão gente boa, tão simpático, tão engraçado, tão como todo mundo é. Ao invés de ter levado tudo muito a sério, sabe? Ao invés daqueles surtos de insegurança, daquela cara emburrada por bobagem, daquela cobrança pra o amor ser mais forte, mais intenso, mais sincero. Ao invés daquela necessidade de acordar de madrugada pra saber se era amor, daquela arrogância por ter opinião formada sobre aborto, drogas, relacionamentos e solidão. Se você, Murilo, tivesse se confiado. E deixasse acontecer sem pressa, sem sede. Se você, Murilo, tivesse se apaixonado sem essa paixão louca. Ou me amasse como todo mundo ama por aí, assim, como se fosse um pedaço de concreto, sem sentir à flor da pele, a gente daria certo. E eu lá rindo absurdamente com os amigos dele. E eu lá, vendo os olhos dele apaixonados por mim, justamente porque eu não sou mais apaixonado. A cena da reviravolta que a vida dá é sempre mais prazerosa.

Quando ele me deixa em casa, lá pras onze e tanta da noite, a frase que eu não esperava é dita. “Quer sair comigo sexta?”. Eu sabia, eu sabia. Todo garoto feliz consigo mesmo, que não tem medo de ser quem é, que não se importa em mostrar frescura, deixa saudade. Mas eu não quero sair com ele sexta-feira. Não mais. Eu quero continuar sendo esse garoto que tem muito de tristeza e de drama e só faz o que tem que se fazer se for movido pela paixão. Eu vou deixar ele com saudade. E ser mais um desses meninos que ele ficou por ficar. E desta vez fazer ele se arrepender. Tem coisas na vida que não voltam mais. A cena da reviravolta que a vida dá é sempre mais prazerosa.

Talvez eu vá

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

As pessoas seguram uma risada como se me achassem louco, querendo me entender com um olhar quase de pena. Mas se vocês combinaram que não iria passar disso, mas se ele nem mora em Salvador, mas se não tem como, mas se ele não ficou mais do que duas semanas com você, mas se faz quase um mês que ele já foi, sem nunca chegar a ter sido muita coisa, então. Então o quê? Nem eu sei. Só sei dessa dor de cabeça infeliz que já dura quase um mês. Dos meus olhos pesados. Da minha nuca tensa. Do choro entalado na garganta. Do meu coração que quer sair pela boca. Dessa vozinha mimada gritando que sente falta e pronto.  

Eu sinto falta de me encontrar com você, no horário do almoço do jornal, e ouvir você me dizendo que é pra eu ficar tranquilo porque vai dar tudo certo. E de achar graça da vida, num sorriso quilométrico, mesmo estando numa fila gigantesca pra pagar uma conta na Lotérica, embaixo daqueles 97 graus de Salvador. Não há muita explicação nem profundidade nas palavras: o amor faz a gente ser feliz mesmo numa merda de fila. 

Eu sinto falta de você interfonando pra minha casa desesperado. Você reclamando que eu demoro muito pra me arrumar e que desse jeito a gente não vai encontrar nenhum cinema aberto na cidade. E de você me explicando que embora seus olhos pareçam ser azuis, na verdade são verdes. Eu insistia em chamar de azul e você brigava comigo.

Eu sinto falta de querer fazer amigos em qualquer festa só pra conhecer gente louca e te contar depois. E fazer você rir com as minhas descrições de roupas e jeitos e comportamentos e diálogos e histórias. Agora eu fico pelos cantos das festas, estranho, calado, voltei a achar todo mundo feio e chato e sem assunto. Porque, no fundo, eu acho que gostava mais das pessoas só porque te via em tudo. Agora as pessoas voltaram a me deixar de mau-humor. E eu voltei a me arrastar, a ter que fazer muita força pra sair de casa.
 
Sexta, por exemplo, teve aniversário de Bia. Tive a ideia de comemorar, organizar a festa, convidar todos os nossos amigos. Eu pensei no bolo, no recheio, na cobertura. Eu pensei nas cores das bolas, nas músicas. Ajudei a decorar a casa inteira, a pintar os cartazes. Produzi tudo. Mas na hora da festa, todo mundo no apartamento, todo mundo agoniado pra apagar as velas, eu não fui. E fiquei em casa, cheio de angústias, sozinho. 
 
Sábado, por exemplo, uma amiga me mandou um flyer de uma festa no Lalá. Mas ficar até tarde numa festa cheia de gente que fala pausadamente tentando medir palavras pra poder agradar? Aquele povo do Lalá tudo igual e que nunca tem problemas? Mas o Lalá não era aquele lugar que você adorava, Murilo? Não é aquele lugar que você ia todo sábado? Combinei com ela às sete. Não fui. Passei a noite inteira mudando o canal da TV, procurando o que nem eu sabia.
  
Terça, por exemplo, um amigo quer comemorar a formatura no Outback do Barra, o lugar que você adorava comer coxinhas assadas de frango. Talvez eu vá. Mas cadê você? Quando vai dando assim essa hora, tipo umas cinco e meia da tarde, o horário que a gente se ligava ou mandava mensagem só pra saber como foi hoje e como vai ser amanhã, só pra saber que dá pra terminar o dia sentindo algum conforto. Quando vai dando esse horário, olha, eu nem sei. É tão triste abraçar algo pra fugir do mundo e, do nada, precisar principalmente desabraçar pra fugir desse algo. E daí, vai pra onde? 

Sexta à tarde fui muito feliz

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Mandar o texto da revista pra minha editora, por e-mail, até duas horas. Mas, antes disso, pegar umas duas aspas com a psicóloga pra fechar o último parágrafo da matéria de comportamento que vai sair na próxima edição. Antes de mandar o texto e antes de ligar pra pegar as aspas com a psicóloga, preciso responder uns e-mails atrasados de outra matéria, inclusive o de um cara que trabalha na assessoria de um cara que é assistente da menina que me liga de meia em meia hora e que eu não sei se o nome dela é com W ou com V. Wanessa? Vanessa? Sacanagem escrever nome errado.

Procuro os e-mails atrasados ao mesmo tempo que ligo do telefone fixo para a psicóloga ao mesmo tempo que cancelo a ligação no meu celular ao mesmo tempo que abaixo o som da caixinha ao mesmo tempo que tento não deixar a porta do armário bater ao mesmo tempo que aviso pro cara da NET que eu não quero fazer um combo de TV e internet. Desço as escadas da Redação desesperadamente em busca de café. Na volta, abro o Word e reviso o texto. Enquanto não encontro um sinônimo melhor para a palavra “fechar”, escrevo bem grande na agenda que segunda que vem tem DENTISTA. O computador trava, a menina da arte, irritada, me avisa que o texto da matéria de moda estourou a página, minha editora quer saber se a matéria de economia já tá pronta.

De repente. De repente. Você me manda uma foto sua, de ponta-cabeça no chão da minha casa, fazendo careta, tentando equilibrar uma maçã em cada pé. Dou risada alta e minha editora me olha torto sem entender nada. A Redação em fechamento e eu com tempo pra ser feliz? Entrego a matéria e vou embora da Revista.

Mandar o roteiro dos monólogos pra diretora de teatro, por email, até as quatro. Pego um Uber, abro o notebook, revejo os monólogos. Ainda não é nada disso que eu quero pro roteiro, vou ter que reescrever. Chego em casa e tenho outro texto pra terminar. Tem que ser às pressas. É uma crítica de TV que escrevo semanalmente pro iBahia. Se demorar muito, o assunto fica velho. Bebo mais um iogurte e como mais um pedaço de bolo por pura ansiedade. De novo toca o telefone e é minha mãe querendo saber se eu já almocei. O zelador quer saber, pelo interfone, se tem lixo no apartamento. A diretora do teatro quer saber cadê os monólogos. Negocio o prazo. Me ligam da Revista querendo que eu faça um guia, de última hora, pra seção de turismo. Mas cadê os outros repórteres? Só eu escrevo nessa porra? E o texto pro guia, que tamanho é? Ouço a voz da menina da arte no fundo da ligação, irritada, pedindo pra que me falem pra eu não estourar a página com tanto texto. Relaxa, gata, capaz de nem ter texto.

De repente. De repente. Eu sentado no sofá. Você deitado no tapete, colocando o resto que sobra da sua cabeça na pontinha do meu pé. Uma mecha do seu cabelo caído no tapete enquanto você se diverte com um joguinho idiota no iPad. Esses dias eu tô corrido. Mas tô ficando há três meses e vinte e oito dias com você, um menino de vinte e nove anos que não larga o joguinho idiota do iPad. Depois, do nada. Do nada. Eu deitado no sofá. Finjo que estou dormindo. E você passa as pontas dos dedos nos meus pés pra que eu sinta cócegas. E eu olho rápido pra flagrar você, mas você faz de conta que está roncando no tapete, abraçado com o meu cachorro. No mesmo segundo, a gente dá a mão. E dá a outra. E daria uma terceira se fosse possível. E você beija a minha nuca e fala com a voz mais doce do mundo que não queria ter que ir embora. E eu te imploro, com a voz mais doce do mundo, pra você desistir de tudo e ficar só mais uma semana. Daí fingimos que é sono. E dá vontade de rir porque nem era a hora e nem era pra isso.

Metade dos textos dos monólogos reescritos e não tem como renegociar. Entregar os textos do guia em meia hora é quase impossível. Falta mais da metade da crítica e eu tenho que entregar hoje. Minha garganta dói muito. Tá quente, mas é inverno, mas tá abafado. Minha mãe me liga de novo. Dessa vez ela quer saber se eu tô me virando bem nesses dias que ela está viajando. Alguém me manda uma mensagem pra beber uma cerveja porque hoje é sexta. Estão me ligando e eu não sei quem é. Preciso reler as coisas e fazer mais e mais e mais. Preciso pagar milhares de contas. Preciso entender por que a máquina de lavar não liga. Preciso pensar em pautas legais pra entregar amanhã pra minha editora da Yacht. Amanhã tem a festa de Felipe. Marcella tá indo embora pra Minas domingo e eu nem liguei. Preciso inventar novas cenas pros monólogos, pensar em um lugar que eu possa almoçar barato nas próximas semanas, ler quarenta e nove páginas da xerox pra aula de segunda, trocar de celular, tomo Rivotril ou Ritalina? Preciso pagar cinco mil reais pra minha mãe. Oi? Não tenho nem os 100 reais pra moça da faxina.

De repente. De repente. Você me conta que não tem dó de matar os insetos que os livros de biologia não explicam o que são e nem pra que servem. Esses insetos que querem entrar no nosso nariz sem nenhum medo de morrer. Aí depois, do nada. Do nada. Você coça os olhos muito forte e levanta pra arrumar as coisas e ir embora. E desiste. E diz que tem muito medo de coisas como essa que tá acontecendo entre a gente. Dessa coisa de gostar além do sexo. E eu penso que, no fundo, nem tão fundo assim, tenho medo também, demais.

Aí depois, do nada. Do nada. Você dispara flashes da câmera do celular. E eu falo que eu odeio quando você tira foto minha sem avisar. E lá vou eu, sem disfarçar, rir da sua careta e ficar besta com os nossos sorrisos perfeitos em cada foto mal tirada, sem foco, fotos que juntando mil não valem uma. E quando vou ver, já estou embolando na cama com você. Já estou te amando bem mais do que deveria, bem mais do que a vida me permite. Desisti desse dia corrido. Nunca fui tão feliz como hoje. Você me dá uma ansiedade boa, um frio na barriga desses que eu não sentia mais. Então preciso aproveitar.

Se até o próximo Carnaval você ainda gostar de mim, eu juro gostar também de você.

Antes de ir

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff 

Meu voo pra São Paulo sai às quatorze horas. Mas eu não consigo parar de regar as plantinhas da varanda de casa. Tenho aprendido muito com o jardim, me apegado muito às plantas e flores que nascem timidamente e crescem mais e mais e mais o tempo todo. Gente me diz que preciso investigar esse apego. Gente me diz que eu me vejo como uma dessas plantinhas que nascem timidamente e crescem mais e mais e mais o tempo inteiro. Gente me diz que isso tudo é ansiedade, controle e medo de ir. Aí fico postergando, aí me sinto menos solitário, as pessoas dizem.

Tenho que me arrumar às pressas porque meu voo pra São Paulo sai daqui a duas horas. Tenho que almoçar, ligar pra minha mãe, desmarcar gastroenterologista, chamar um táxi, mas eu não consigo parar de regar os girassóis que ficam mais perto da janela. Mas se os girassóis estão encharcados, mas se os girassóis gostam de sol, por que eu continuo regando? A água na terra já transborda o vaso. Vejo uma das raízes encolhidas. O girassol mais sensível da varanda me olha timidamente, assustado, e implora: “eu não aguento mais”.

Mas e o asfalto seco e as paredes secas e o céu sem nuvens e esse sol que quase faz rachar o vidro da janela? “O mundo está seco”, me defendo pros girassóis. Em algum lugar da minha mente inquieta, sei que esse exagero vai acabar com a vida da plantinha, mas estou obcecado pela ideia obsessiva de que, se eu sair de casa sem encharcá-las, quando eu voltar vou encontrá-las secas, mortas. Tenho medo de dobrar a esquina de casa e deixá-las aqui. Então, por precaução, fico ali com o regador. Regando, regando, regando, regando, regando.

Preciso estar no aeroporto daqui a uma hora pra fazer o check-in, mas eu não consigo tirar as mãos do queixo enquanto olho, sem piscar, o guarda-roupa aberto. A mala entupida no chão. Tento me dizer que todas as coisas que guardei na mala gigante e na bagagem gigante de mão são suficientes pra ir a São Paulo. Mas continuo ali, sem tirar as mãos do queixo, olhando tudo ao meu redor.

Mas se o zíper da mala já não fecha, por que eu continuo olhando o armário indiscretamente? Na minha cabeça neurótica e alarmista, um sinal vermelho me avisa que falta alguma coisa nessa bagagem, que há alguma coisa errada nessa bagagem. Então, por precaução, fico ali olhando, olhando, olhando, olhando, olhando.

Preciso ir pra sala de embarque daqui a cinco minutos, mas eu não consigo soltar a mão do meu namorado. Antes de ir, confirmo os números dos nossos celulares, confirmo se os nossos números estão salvos, confirmo de novo se os números são aqueles mesmo. Não sei se são manias, crises de pânico, fobias ou angústias extremas. Ele ri e me olha com cara de “como assim, Murilo? A gente se fala toda hora”. E me diz um “vai com Deus” que não me acalma em nada.

Aeroporto é um lugar horrível, muito parecido com UTI (nunca fiquei em UTI, nem sequer visitei alguém numa UTI, mas sei que é parecido) porque soma as cinco coisas mais horríveis do universo: despedida, fila, gente desconhecida ao redor, linguagem não-verbal em placas que te forçam a seguir em frente e esperança. Então fico ali segurando a mão dele, ignorando o tempo, ignorando o voo que já vai decolar.

Mas se a gente passou a semana inteira se despedindo, mas se até hoje cedo eu estava tão tranquilo, mas se tá tudo tão bem, mas se eu quis tanto viajar, mas se São Paulo me faz feliz, mas se ele vai se encontrar comigo daqui a dois dias, por que eu continuo segurando a mão dele com tanta força? O suor desliza as mãos, a quentura incomoda os dedos, o aperto quase quebra os ossinhos, as pessoas correm desesperadas, a moça da Gol se prepara pra fechar a porta, a sala de embarque me avisa que o mundo inteiro foi embora. Em algum lugar da minha cabeça neurótica, uma certeza de que talvez eu nunca mais o veja. É medo de ir seja aonde for. De nunca mais voltar. Da pressão cair e não ter em quem segurar. Então, por precaução, fico ali segurando a mão dele. Segurando, segurando, segurando, segurando, segurando.

Assédio literário

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Os meus amigos mais próximos me diziam: “Murilo, cê toma cuidado com esse cara”. Mas ele é um assassino, um psicopata, um serial killer? “Não. Ele é especialista em golpe baixo”. Mas o quê? “É. Ele é um safado. Ele conquista quem ele quer, enlouquece quem ele quer e você, uma hora, acaba cedendo. Não tem como fugir”. Mas assim são as pessoas, amigo. Não são? “Mas ele é mais. Ele é mais. Tô te falando”. Sério? “Sério. Um canalha!”. Tudo bem, tudo bem. Eu jamais iria pra cama com um homem desse tipo.

Ele marcou um jantar na casa dele e eu fui. Era a minha chance de mostrar pra ele que não, comigo não. Era a minha chance de acabar com essa palhaçada toda. Passei um creme caríssimo no corpo inteiro. Perfume na nuca e em partes estratégicas da roupa. Fui com uma camisa mais aberta e uma calça mais justa. Dei três mordidinhas nos meus lábios pra deixá-los mais vermelhos e, depois, molhei a boca com um batonzinho de manteiga de cacau pra causar o efeito “tô a perigo”. Um volume no cabelo com secador pra equilibrar. Quando ele der o primeiro sinal que quer sexo, eu caio fora.

Óbvio que ele queria sexo. Safado. Nenhum homem marca jantar em casa, às 22h, com outro cara que ele já sai há um mês e duas semanas só pra conversar. Não foi café na Livraria Cultura às cinco da tarde ou almoço na casa de um amigo de infância. Não foi um chá desses que a turma cult bebe no Cinema do Museu pra falar sobre projetos de arte. Foi um jantar, às 22h, na casa dele, com luz de vela e Johnny Hooker e Chico Buarque e vinho, com um cara que ele já sai há um mês e duas semanas.

Foi horrível. Ele dançou comigo juntinho, lá pra quase meia-noite, naquele momento em que todo rapaz reservado com a visão turva e a bexiga cheia de vinho espera ouvir “essa calça está me apertando, não quer tirar lá dentro do quarto?” e disse: “Seu livro, Murilo. Nossa, seu livro. Li em uma noite, reli em outra noite. Seu livro”. Mas o quê??????????? “É, seu livro. Meu Deus”.

Ele falou sobre Foucalt, Barthes, Boudelaire, realidade virtual e pós-verdade, mas eu foquei nos dois dedos do zíper aberto da calça dele. Depois, ele cruzou as pernas e o ar de homem feito e intelectual cordial pouco me importou. Eu queria mesmo era terminar de abrir aquele zíper, falar pra ele calar a boca e desligar a luz, porque eu queria sacanagem das boas. Mas ele, sério, me falou que o circuito contemporâneo do literário cada vez mais abre espaço pra youtuber, blogueiro, porque precisa vender livros. Ah, é? E eu preciso abrir todos os botões desta sua camisa e sair quebrando tudo até a gente se encaixar.

Quando ele colocou as mãos na minha coxa, e eu pensei que ele, finalmente, fosse mostrar o cara escroto e safado que ele é, ele me disse: “Meu pai é um pernambucano extraordinário que era pobre e foi pra São Paulo e virou empresário. Parece clichê, né? Mas eu adoraria que alguém escrevesse a história dele”. Achei de uma grosseria sem tamanho, pensei em levantar da poltrona e gritar que não estava lá pra isso, quem ele pensa que é? O que ele acha que eu sou? Mas naquele segundo, imobilizado pela vergonha, embriagado pela narrativa nordestina, só consegui me sentir fragilizado e com medo daquele golpe baixo feito por um homem gato e conquistador. Eu abandonei os ansiolíticos que me deixavam sem libido. Eu esperei o convite pra esse jantar por um mês e duas semanas. É muito cansativo ter que provar o tempo todo que sou um rapaz de vinte e seis anos com apetite sexual de adolescente quando os homens só conseguem ver crônicas e livros e colunas e autoficção e editoras e lançamentos. Olha essa camisa mostrando o sinalzinho do meu peito, querido. Eu vim sem cueca, você sabia? “Espera, vamos pensar como será o prefácio”. Sabia que eu sei fazer coisas incríveis com a boca? “Você acha que fica pronto até dezembro?” A boca? “Não, o livro”.

Estou farto. Bem que me avisaram pra eu tomar cuidado. Que ele enlouquece e não tem como fugir. Quase duas da manhã, né? Tentei chegar mais perto. A gente até se olha por uns minutos. A gente até roça um pouquinho a perna um no outro, a gente encosta a mão uma na outra. E entrelaça. E sente a quentura. E aperta um pouco sem machucar. E a gente se beija. Mas logo o macho branco opressor me deixou de lado: “só você, Murilo, pode escrever a história desse pernambucano pobre e determinado que foi ao Sudeste sem ter o que comer e deu uma reviravolta na vida”.

Deixa eu te contar a história de um rapaz soteropolitano e com a libido em alta que, depois de terminar um relatório imenso e passar por três intermináveis reuniões, correu pra Pelo Zero pra fazer uma depilação a laser e voltou pra casa às pressas e tomou um banho maravilhoso e caríssimo de óleo de rosa mosqueta. Todo esse esforço pra gente passar a noite sem nenhuma putaria, discutindo a saga de mais um nordestino que se dá bem na vida? Tentei mostrar que estava excitado. Mordi o lábio dele, fui limpar os cantos da boca dele com um guardanapo e olhei mais safado do que já olhei a minha vida inteira pra qualquer homem. Mas não teve jeito. Logo ele voltou a falar de livros e escritores e músicos e músicos que escrevem livros e do pai pernambucano. Ele não tá nem aí pra mim. Ele quer mesmo é falar sobre literatura. Ele não tá interessado na minha depilação, no meu óleo de rosa mosqueta. Ele tá mesmo é interessado nos meus textos. Olha que desgraça. O homem bonito, alto, inteligente, cheiroso e gente boa está interessado nos meus textos. “Ah, como você escreve bem”. Ah, se você soubesse o que eu faço bem. E ele riu. Todos eles sempre riem. E ele falou que eu era engraçado. Todos eles dizem isso. E usou o argumento que, infelizmente, mesmo sendo tão agressivo, nunca consegui negar a um homem safado: escreve esse livro, escreve bem gostoso, eu costumo pagar bem.

Hoje não tem texto

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Peço perdão ao leitor que acompanha este espaço semanalmente, mas hoje não publicarei crônica nem crônica meio conto, como queiram chamar. Tentei falar com André Uzêda, mas não consegui. Não sei o que exatamente um editor faria numa situação dessas. Talvez ele avisasse a vocês, leitores, algo como “hoje, excepcionalmente, o colunista surtou”.

Eu poderia argumentar que voltei a ter crises de ansiedade terríveis que impedem, entre outras mil coisas, cumprir prazos. E seria verdade. Eu poderia argumentar que enjoei do barulhinho dos meus dedos saltitando no teclado, do meu cisto sinovial que cresce no meu punho esquerdo, da minha crise alérgica que me faz espirrar sem parar no auge da inspiração – o que faz debandar pra não inspiração -, do quanto eu acordo exausto por sonhar com trechos dos meus textos e por falar frases dos meus textos enquanto durmo.

Mas o motivo real é que são oito e quarenta e seis da manhã de quarta-feira. Sentei aqui na escrivaninha de casa pra escrever o texto da coluna de hoje, mas eu não consegui escrever nada, juro que tentei escrever, mas não saiu nada e. Eu não sei o que dizer e. Não tenho nada pra falar. Ou quase nada. Ou talvez essas coisas que eu diga só interessam a mim, não ao leitor. Então, hoje, vocês precisam exercitar a tolerância e a compreensão comigo. Hoje tem melancolia, prantos e descontentamentos.

Vejam só que loucura: resolvi mexer com matemática e concluí que há sete meses escrevo aqui, uma vez por semana. São pelo menos 32 semanas, pelo menos 32 crônicas ou crônicas meio conto, como queiram chamar. É assustador. Virei uma máquina literária. Um escritor mercadológico que escreve, escreve, escreve e escreve o tempo inteiro. Sofro de ansiedade quando escrevo e sofro mais ainda quando publico. Sofro porque me exponho. Sofro porque eu não exponho o que tenho de normal, tenho pavor de ser normal. Essa intimidade que a gente pode ter com o público, de falar sobre nossa vida, eu gosto. Mas isso me dá uma canseira danada.

Acho que esse é o problema: ando cansado. Cansado porque a vida te bate, te afunda no poço, te obriga a escalar e sair desse poço. E você recomeça. E você acredita. E você não sabe onde isso vai dar. E o pior é que a vida te bate de novo e você se afunda de novo e você escala pra sair do poço de novo e recomeça e acredita de novo. Esse círculo se repete e cansa. Agora imagina eternizar isso num texto?!

Escrevo geralmente dia de sexta ou aos sábados ou quando vou a algum boteco sozinho, quando canso de ficar em casa. Bebo duas ou três cervejas e entupo o bloco de notas com parágrafos. Mas desde quarta-feira começo a sofrer pelos cantos. Nos últimos meses tem sido mais grave. Pra ser mais sincero, nas últimas semanas. Porque ando muito – digamos – com preguiça do mundo. Eu olho daquele jeito blasé, daquele jeito que só dá vontade de olhar pra ele e ficar calado. Mas sou ácido, crítico, maldoso, e se guardo pra mim o que vejo, tenho medo de criar um câncer. Então vou pra alguns lugares, fico escondido escrevendo. É o meu trabalho. Uns bares, umas noites.

Escrevo rápido demais, por impulso, escrita vomitada – me adaptei ao meu tempo e ao meu ofício de jornalista, com editor gritando em jornal pra entregar matéria. Mas, às vezes, escrevo lento demais, quase parando. Preciso criar, ter cuidado pra não me repetir, reler, reescrever. Às vezes sai umas duas ou quatro laudas de word, mas o que interessa é a frase do meio, a frase final, então apago tudo e volto pro quase zero. Mas isso complica, porque preciso mandar tudo pros meus ilustradores, Igor Queiroz ou Lucas Leopoldino (depende da semana).

Uma sexta-feira inteira não é suficiente. Ultrapasso sábados, domingos, terças. Há sete meses tenho ultrapassado fins de semanas e me enfiado em textos – justamente o fim de semana em que todo mundo sai pra desestressar, namorar, fazer festinha na casa de amigo, conhecer lugares e pessoas. Os outros fazem, não eu. Eu me tranco em casa, com a coluna doendo por ficar repetidas horas todo torto na cadeira da escrivaninha. O mais ridículo é que, para escrever, é preciso sair, desestressar, namorar, fazer festinha na casa de amigo, conhecer lugares e pessoas. Eu não tiro esses textos do nada. Os textos surgem a partir de coisas que vivo ou que vejo alguém fazendo. Como um fotógrafo de palavras.

Há 32 semanas vivo muito pouco, pra dentro, fechado. Porque além dessa coluna, estudo literatura na Ufba, que exige mais do que tudo; escrevo os roteiros do programa de Olívia Libório pra Rádio Transamérica; escrevo reportagens pra Uol; dou aula em cursinho e escola; produzo meus livros e outros projetos. Cansa.

Esse acúmulo de trabalho e falta de tempo se reflete, também, na bagunça da bolsa e do quarto. E da escrivaninha. Post-it colado em todos os cantos: “ligar para a assessora”, “Estreia de Lucas Nascimento como cantor no Casarão Barabadá”, “Terminar a pesquisa”; pilhas de livros que nunca termino de ler (um Mia Couto aqui, uma Ana C. ali); se olhar para o lado, há também revistas e colunas de amigos pra ler e textos teóricos que nunca acabam de sair da impressora. Eu tenho que resolver problemas com o FGTS e terminar o relatório da pesquisa e submeter trabalhos em congressos e apresentar esses trabalhos e estudar para provas imensas e participar de reuniões imensas e preparar aulas e ter ideias de textos e… Deus do céu, a minha vida implorando pela fuga do vácuo. Os bares cheios, os amigos convidando. Mas se eu terminar a coluna, eu vou. Daí os amigos reclamam: você não responde mais mensagem, não aparece, não sai mais, não marca nada. Tem gente que pede pra sair comigo, tem gente que está interessada em mim, mas logo desiste porque “puta que pariu, ninguém entende essa sua vida doida de tanto trabalho”. Tem gente que quer que eu durma na casa, tem gente que me implora: “pelo menos fique dez minutos no meu aniversário”. E eu digo “sim” pra todo mundo. E, às vezes, eu não vou. Esqueço, me perco no meio dos post-its. Cobram, cobram, reclamam, reclamam.

Depois de ouvir tanta melancolia, tantos prantos e descontentamentos, vocês me perguntam: tá, e daí? Daí que ando extremamente cansado, meio triste, mas triste por causa do cansaço ou de outra coisa que eu não sei o que é. Deixei o espaço da coluna de hoje pra me deixar outra vez mais transparente, pra me permitir, pra escrever sobre esse cansaço múltiplo, sobre minha falta de tempo, sobre a falta de ordem que se instaurou em minha vida porque eu permiti. Por trás de todo esse discurso, um alerta: o perigo que corro, todo dia, comigo mesmo. Escrevo para sobreviver, mas acabo morrendo pra me manter vivo. Hoje, ao menos, não teve texto. Dei um foda-se. Talvez, esta semana, seja o momento de viver sem ser aquele rapaz que precisa escrever sobre tudo que vive.

Homem babaca gosta de sacanear em bando

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Estou numa mesa do Salvador Dalí com meu namorado e uma amiga diretora de teatro. Almoço importante pra argumentar o roteiro de uma peça que estou escrevendo. Quero pedir um suflê de queijo, mas o diabo é que queijo tem me dado enjoo. Quero pedir um camarão ao molho de limão, mas o diabo é que limão tem me dado gases e refluxo. Reviro o cardápio doze vezes e nada. Hoje nada nesse restaurante me agrada.

Penso em voz alta, ao que parece, porque, ao fim do meu pensamento, todos estão sem graça na mesa e o garçom me olha feio, sorrindo com simpatia forçada. “Tenho certeza que o senhor vai gostar do arroz de polvo com trindade de filés”. Eu é que não sou louco de não aceitar. Eu é que não sou louco de bancar o antipático e despertar ódio em garçom.

A menos de um metro de distância da minha mesa, cinco ou seis marmanjos, com seus vinte e três a vinte e seis anos, falam alto e dão risada alta e bagunçam o cabelo um do outro e se xingam e contam umas piadinhas particulares e falam histórias picotadas que ninguém entende e ninguém tem interesse em entender. Todos aparentam ser felizes, descontraídos, sem problemas, com o mesmo tênis de skatista e camisetas da mesma marca. São soltinhos, sem culpas nem traumas. Umas gracinhas.

O barbudo de camisa listrada, o que está ao lado do surfista, me olha intensamente a ponto de me deixar sem graça. E comenta alguma coisa no ouvido do de camisa amarelinha. E me olha novamente. Não consigo conversar com meu namorado e minha amiga. Mas se eu não estudei com esse menino, mas se eu nunca fiquei com esse menino, mas se eu nunca vi esse menino na minha vida, por que esse menino me olha desse jeito intenso? Isso tudo é coisa da minha cabeça. Minha cabeça, sempre muito rápida e esperta, ironiza: mas existe alguma coisa do mundo que não seja coisa da sua cabeça, Murilo? Chega. Dou bronca em silêncio pra mim mesmo. Chega.

Ele tá a fim de mim, é isso? Não. Amizade instantânea algum dia em mesa de bar? Não. Amigo de amigo que viajou comigo há dez anos pra um acampamento com quinze adolescentes e um banheiro? Não. Sorrio pra ele na esperança infantil dele sorrir em retribuição e tudo ficar bem. Se ele sorrir, amigável, pronto, acaba, minha mente neurótica descansa feliz. Se ele sorrir, jocoso, deve ser amigo de algum ex-namorado meu que falou mal de mim. Ele não sorri, ele apenas me encara. Puta merda. E me encara forte, sem desviar os olhos, profundamente. Eu sorrio mais, eu sorrio além da conta. Pelo amor de Deus, amigo, sorria de volta. Vamos, sorria e me liberte. Sorria e me diga quem é você. Ele sorri.

Mas ele sorri em bando. Dois disfarçam, mas riem com a cabeça baixa. Agora todos me olham e riem descontroladamente. Ouço batidas nas mesas. Certeza que estão me sacaneando. Ele então fala baixinho no ouvido do cara de dread. Coisa de cinco segundos. Sim, sim, sim: está falando de mim. Um cutuca o outro. Um mostra o celular pro outro e vai passando o celular na roda até que chegue na mão do último e volte para o primeiro. Tem sacanagem aí. Bando de palhaços.Toda gozação de homem babaca é feita em grupo. Homem babaca, sozinho, não sabe sacanear. Homem babaca gosta mesmo é de sacanear em bando. É mais interessante mostrar pros amiguinhos que ele pode ser sacana. Bando de palhaços.

Ao final do almoço, meu namorado vai buscar o carro e minha amiga vai ao banheiro. Estou sozinho. Ele levanta da cadeira e se aproxima até a minha mesa. Meu coração a mil. Eu quero saber qual é a piada. Mesmo. Ele nem me conhece, olha pra mim e já vai rindo assim? Ele então me surpreende, senta-se na minha mesa, respira profundamente, ajeita-se na cadeira. O que é que esse homem quer? MEU DEUS. O grande momento chegou. É agora que ele vai abrir o jogo e contar toda a sacanagem que ele e os amigos estão armando pra mim.

Mas, ao invés disso, ele estende a mão, lindo. E aperta a minha mão. E me abraça muito forte. Meu Deus, quem é esse homem? É agora. Ele se aproxima e diz bem devagar e baixinho no meu ouvido: “você é Murilo, né?”. E me entrega um bilhete com seu nome e número de telefone. “Eu sou seu leitor. Eu acompanho seus textos sempre. Eu amo tudo o que você escreve. E sinto muito por esses caras sacanas que você se relaciona. Meus amigos estão rindo porque eles acham que eu estou louco. Mas eu mostrei sua foto que está na sua coluna da internet”, ele confessa. Eu sorrio, finalmente, aliviado. Ele continua: “E posso te dizer uma coisa? Você é muito louco. Mas que homem não se apaixonaria por você e pela sua loucura?”.

Meio vesgo, meio errado, numas preguiças que só

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Todo mundo é um pouco vesgo, comentou um amigo quando percebeu que eu estava certo: meu olho esquerdo, na foto, deveria ser mais para a direita, mais centralizado. Será que eu mexi os olhos na hora do clique? Não, não, eu tenho certeza que não. E esse mamilo do peito direito? Não era pra ser mais redondinho igual o mamilo do peito esquerdo? Mas o que me incomoda agora, que eu fiz vinte e seis anos, não é exatamente o fato de ter um dos olhos tortos como todo mundo, não é exatamente o fato de ter uma parte do meu corpo meio errada como todo mundo, mas o simples fato de eu ter descoberto que era tudo mentira. Era mentira que a vida se resolve depois dos vinte e cinco. Com dezoito anos a gente acha que tudo vai se resolver depois dos vinte: nosso corpo e nossa autoestima e nossa conta bancária e nosso peito vazio e nossa vida amorosa e todo o resto de faltas que não são de vidas amorosas e de nada disso que a gente sabe o que é. Era mentira.

Mas eu continuo meio vesgo, meio errado, e se bobear a coisa só piorou. Pior: finalmente eu me toquei e tenho certeza que não estarei menos vesgo aos trinta. Nem aos quarenta. Nem aos cinquenta. Muito menos aos sessenta. Essa imensa e absoluta transformação era tudo coisa da minha cabeça aos dezoito. E aos vinte e seis, em plena imensa e absoluta transformação, eu descubro isso. Todo mundo é um pouco vesgo, penso enquanto como cereal com leite e decido não ir nem a pau ao Rio Vermelho. Ando mais do que meio vesgo, ando enxergando o mundo meio torto e isso me dá tontura, prefiro curtir a novela das nove esticado no meu sofá. Vezenquando fico numas preguiças que só. Vezenquando eu troco gente por TV.

Sábado, a Rua da Paciência lotada de jovens que dançam no meio dos carros. O que eu vou fazer lá? Dançar no meio dos carros no Point do Japa igual a todo mundo só pra chamar atenção e afirmar que sou jovem? Confirmar pela milésima vez que odeio multidão e odeio esse clima de paquera cheio de plasticidade? Tentar falar sobre algum assunto com alguém que puxa assunto, mas não tem assunto? Tô fora. Não li esse monte de livros e não repensei milhões de vezes a minha existência pra ser reduzido a isso. Dançar as mesmas músicas e ver as mesmas pessoas. Que graça tem?

Zapeio os canais da TV a cabo. Fotos e fotos no Instagram de gente na balada. Convites, por WhatsApp, pra sair. Chats e chats querendo saber onde você está. A solidão da noite de sábado te convida o tempo inteiro pra abandonar o silêncio e aguentar o silêncio no meio do barulho da boemia. Aí uma voz chata pra cacete grita dentro de mim: Sai dessa. Se arruma. Você vai sim, seu velhoto encalhado. Que ficar esticado no sofá que nada. Novela? Tá doido? Enquanto o mundo faz sexo você vai passar mais um sábado vendo novela? Vou. Vou sim. Porque tô me lixando pro mundo que faz sexo.

Aí eu tomo banho. É tão simples: colocar o pijaminha e dormir. Pelo menos eu não passo o domingo de ressaca. Saio do banho super decidido a não ir ao Rio Vermelho e… é, eu sofro em colocar um pijaminha em plenas nove horas da noite. Cedo, né? O mundo inteiro faz sexo e eu aqui com esse pijaminha feio. Como é que eu vou arranjar alguém desse jeito? Não vou. Essa coisa de que a gente só conhece o homem certo durante o dia. Sei não. Quem é que vai me parar na padaria e dizer: “oi, lindo. Vamos nos conhecer agora que é dia?”. Todo mundo só paquera bebendo cerveja. Não rola. E no trabalho? Não rola. Na época que eu era repórter de jornal fiquei com todos os meus colegas e estagiários e assessores de imprensa e publicitários e os meninos da arte. Mas agora, escritor, com quem eu vou flertar se trabalho sozinho em casa? E digo mais: pegar geral combina com dezoito anos. Com vinte e seis você começa a chorar quando vê sua melhor amiga grávida, seu melhor amigo casando. Chorar em casamento. De raiva ou de inveja. E, principalmente, chorar porque ainda não tem perspectiva de casar e nem de ter filhos.

Tudo bem. Então eu vou. Troco o pijaminha feio por uma calça da moda. Vai que. Vai que hoje conheço alguém legal. Eu sei, nos últimos dez anos de balada (comecei com dezesseis) nunca conheci. E olha que na adolescência qualquer um que desse um sorriso e se vestisse mais ou menos e fosse cheiroso tava valendo. Mas vai que. Não? Não, Murilo. Pensa bem. Pra que perder tempo escolhendo roupa? Pra que perder tempo querendo parecer com todos esses meninos que se parecem com você? Olha sua caminha lá. Tá vendo? Tá te esperando. Seus livros. Suas séries. Sua novela. Seus filmes. O creminho de fazer massagem nos pés. Tá vendo a luzinha do modem? 100 MB de internet e você pode rodar o mundo. Pra que lavar o cabelo se você vai voltar fedendo a cigarro? Pra que ver gente que se odeia fazendo uma coisa que só as pessoas que se amam muito deveriam fazer juntas: tentar ser feliz. Aqueles mesmos meninos se pegando nos mesmos cantos. Um bando de gente perdida, confusa, andando pelas ruas feito baratas tontas no calor. Em busca de alguma coisa. Mas que coisa, gente? Amor é que não é. Ou é?

Meu Deus, o que mais me dói é lembrar que eu tinha certeza que já estaria fora dessa vida com vinte e seis anos. Como eu sou típico. Como eu sou o estereótipo da minha geração. O jovem adulto urbano brasileiro antenado conectado que não consegue sair da bolha de jovens adultos urbanos brasileiros antenados conectados. Eu sou como todos eles: um misto de cultura literária e entretenimento pop. Triste.

Depois dos vinte e cinco? Eu pensava. Já vou estar formado, com um emprego fixo, planejando o meu casamento. Escolhendo a minha casa. Fazendo as minhas compras. Bem resolvido. Cozinhando. Feliz. Sem medo que minha mãe morra. Com a voz firme. O abdômen enxuto. E vou ajudar alguma instituição de caridade. E vou ter bunda. E vou ter cara, roupas e postura de homem.

Mas eu tive que fazer uma segunda faculdade pra me sentir completo, eu vivo de freelancer pra sobreviver, meus relacionamentos são tão instáveis que podem acabar no próximo minuto. Eu continuo sem bunda. E ainda não posso sair da casa da minha mãe porque, como falei, vivo de freelancer. Eu não sei ligar uma máquina de lavar sem antes perguntar para a minha mãe se tá tudo certo. Eu não sei cozinhar sem antes perguntar para a minha mãe se tá tudo certo. E, por ter mencionado três vezes a minha mãe só nesse parágrafo, já deu pra perceber que ainda faço terapia por puro medo que ela morra. O que um ser com idade mental de adolescente vai fazer num mundo sem mãe?

Mas eu não vou ao Rio Vermelho. Nem a pau. O mundo inteiro tá fazendo sexo agora e eu não tô nem aí. O mundo inteiro faz sexo toda hora e eu não tô nem aí também. Eu não vou. Decidi que eu só vou beber se eu estiver bem acompanhado. Restaurante chique. Ar condicionado. Música boa. Roupa mais adulta. Falando assim me toco que pareço alguém com mais de vinte e cinco anos. Rio Vermelho é pra quem tem dezoito. Ou vinte. Beber a dois num barzinho calmo do Centro é pra quem tem vinte e seis. Mas aí está o problema. Perceberam? Eu não tenho, nesse momento, ninguém para dividir comigo as maravilhas e as incertezas de se ter vinte e seis anos. Então, acabo me perguntando: será que eu não deveria ir ao Rio Vermelho?

Eu não sei amar em doses homeopáticas

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Começou quando você sorriu pra mim naquela festinha cheia de jornalista que discutia política e eu achei tudo tão chato e sonolento e quis voltar pra casa. Os amigos da assessoria de imprensa que você trabalha continuaram rodando pelo apartamento, criando novelas políticas, bebendo e rindo como idiotas, e você parou do lado da fruteira, com uma daquelas suas camisetas descoladas da Osklen, e ficou ali, em pé, observando em silêncio. E você me olhou. Você enxergou alguma coisa bonita em mim e eu te amei sem pensar.

Como um menino que fica esquisito quando está aprontando, você disfarçou um pouco e se encostou ao meu lado. E cochichou alguma coisa no meu ouvido que não deu pra entender muito bem, algo como “te conheci hoje, mas sinto que nos conhecemos há vidas”. E eu achei a frase tão clichê e medíocre e podre e brega, mas você encostou a mão na minha cintura, de leve, e eu te amei pra sempre. Depois você pediu desculpas por ter que levantar, e foi até a cozinha. E voltou com duas garrafinhas de cervejas e quis saber se eu era uma destas pessoas chatas que não bebem cerveja. E eu ri porque você sabia que eu bebia cerveja. E você riu porque sabia que eu sabia que você sabia que eu bebia cerveja. E a gente riu junto, tão alto, e todo mundo percebeu, pela forma como a gente se olhava, o que acontecia entre a gente.

Eu te amava com uma mistura de todos os personagens que criei, de todos os homens incríveis que construí na minha cabeça desde a infância e, por isso, tão intensamente. Eu era um rapaz deslumbrado que gostava de ver seus projetos por aí, era um rapaz carente que gostava de ver em você o homem certo pra ser o pai dos meus filhos, um rapaz neurótico em produção que ficou produzido com você, um depressivo-claustrofóbico que se sustentava das suas piadas que deixavam tudo leve e tudo livre, até sua falta e impossibilidade eu gostava com a maior força do mundo. Eu te olhava de cima, interfonando pra minha casa, e tinha vontade de voar pela janela. Eu queria grudar em você pra sempre, eu queria as saídas sem volta pra casa, eu queria as viagens que não acabavam. Até que cheguei ao ponto de te amar sem ter motivo aparente. Eu simplesmente amava você pelo simples prazer de amar.

Eu nunca consegui dormir de verdade ao seu lado pra não deixar escapar nenhum dos segundos passageiros e maravilhosos que você me dava. Eu prestava atenção nas batidas do seu coração, na sua respiração calma. Eu queria sua mudança num caminhão parado na esquina do meu prédio. Eu queria suas malas imensas e seus espaços vazios falsamente sossegados no canto pichado de um corredor morto e escuro, esperando a minha vida, a minha luz.

Agora elas estão lá, em algum caminhão, em algum corredor, tanto faz, eu nem sinto vontade de saber onde. Por que você sempre me achou louco quando a minha maior vontade era te arrastar pelos braços e fazer loucuras com você pelo mundo? Por que você sempre fez cara de tédio pra minha intensidade? Fazendo pouco caso das minhas urgências, amando sem imediatismo, testando gostar um pouquinho de mim nas horas vagas, gota a gota, degrau por degrau.

Um dia seu perfume começou a me dar enjoos, repulsa, um azedo na alma. Suas camisetas descoladas passaram a ser apenas camisetas. Depois seu jeito, uma preguiça de continuar gostando daquilo. Sua conversa, um tratamento ótimo contra a insônia. Era a vozinha na minha cabeça controlando tudo, me implorando pra que finalmente eu parasse de sofrer. Relacionamentos também morrem por causa de saudade, sabia? E eu tinha saudade de te amar transparente, de te amar querendo, de te amar grande.

Você sempre soube que a felicidade me escravizava e quanto mais eu ganhava carinho, mais eu ficava carente e implorava por carinho. Por isso você era um desses remédios tarja preta com efeito colateral. Você era, em doses homeopáticas, o homem mais carinhoso do universo e também a pessoa mais fria do mundo. Cheio no vazio, gigante no minúsculo, talvez no nunca, nunca mais todos os dias.

Mas agora você se entretém com as três passagens que comprou: uma para você e duas para o seu novo namoradinho, que de tão contemplado com músculos precisa de dois lugares no avião. Ele não me parece um ser neurótico que calcula pesos mentalmente, mas, se não for mesmo, cuidado: com tantos pacotes de albumina, creatina e whey protein, sua mala provavelmente será despachada.

Eu não quero saber se ele faz crossfit ou se toca não sei o quê em festa de fim de semana não sei onde. Não é inveja, não é ciúme, não é dor, é cansaço dessa superficialidade toda que me dá ânsia e vontade de vomitar toda a minha intensidade até ficar seco por dentro. Por que as pessoas são assim tão medianas e descartáveis? Por que é preciso criar uma listinha de razões pra não ser de alguém apenas pelo medo infantil de ir além? É bode de imaginar suas cascas grossas e as cascas grossas de quem você gosta um pouquinho. As cascas grossas que te protegem por fora, mas que te deixam oco por dentro. É nojo de saber que você e quem você gosta e o mundo inteiro que você vive amam assim: esperando, calmo, finito, desinteressado, saciado, morto.

Paris não é uma festa

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Um a um, eles vão chegando ao Meia Oito. As garrafas verdinhas sendo colocadas na mesa e, minutos depois, as garrafas verdinhas completamente vazias sendo enfileiradas no pé da mesa. O cinzeiro fazendo andares com cinco, nove, doze bitucas de várias marcas e cores de filtros de cigarros. Conversas e mais conversas sobre homem, cabelo, viagem, cinema, promoção de loja. Todo mundo na mesa tentando ser social, normal, simpático, com piadas totalmente adaptáveis ao ambiente pra parecer enturmadinho.

Pedro serviu a cerveja copo a copo. Abriu as pernas. Acendeu mais um cigarro. Depois, bebeu longos goles e reclamou do casamento de três anos. Tudo não está mais como antes. O sexo diminuiu e as responsabilidades aumentaram. Mas só são três anos. Cinco se contar com o namoro. Ele disse que sente saudade de quem ele não é mais. E que ele só tem vinte e sete anos. E que ter que pagar contas, todo mês, é um saco. Ele acendeu outro cigarro e fumou rapidamente. Tragos longos, profundos, com força. Um cigarro atrás do outro. Um trago atrás do outro. E, pra não parecer chato, mudou de assunto. Porque só ele falava na mesa. E todo mundo olhava com pena.

Daí, ele contou um pouco sobre o trabalho dele. E que ele pensa em pedir demissão do jornal que trabalha. E que o chefe é um sacana por ter promovido como editor um repórter mais novo e com menos experiência do que ele. E que ele cansou de escrever reportagens sobre saúde. E que ele não vai ao médico há anos. E que ele fuma muito. E que escrever sobre saúde e fumar e não ir ao médico é uma fusão entre a ironia e a hipocrisia. Ele bateu o cigarro, nervosamente, três vezes no cinzeiro, até que se apagasse por completo, como se precisasse se livrar daquilo. Depois, acendeu outro cigarro. Ele sabia que precisava mudar, queria mudar, mas não sabia exatamente o quê.

Camila serviu a cerveja copo a copo. Mudou de cadeira. Tirou a jaqueta jeans. Depois, bebeu longos goles e reclamou do calor e do trânsito e desses motoristas que estacionam na calçada e de pessoas que falam alto. Falou sobre os caras que sempre procuram ela quando nem ela lembra mais que eles existem. E que ela não entende essas pessoas que gostam de prolongar relacionamentos que sempre serão errados. E que ela não entende por que as pessoas perdoam traição. E que ela não consegue mais acreditar em homem algum. E que ela cansa de todos os caras logo no primeiro encontro. Depois, ela mudou de cadeira novamente. E contou pra todo mundo que se sente feia, gorda e velha agora que fez vinte e cinco anos. E que o corte de cabelo dela ficou horrível. E que o rosto está inchado. E que nenhuma roupa cabe nela.

E então ela reclamou que o mestrado é um saco, que nenhum filme em cartaz no cinema presta, que o dinheiro do mês tá acabando, que jornalismo em Salvador é feito por uma panelinha de gente que acha que sabe escrever. E depois ela bebeu mais um gole longo de cerveja. E ajeitou a roupa, o cabelo. E foi ao banheiro. E voltou usando a jaqueta jeans. E mudou de cadeira outra vez. Ela não se sentia bem e adequada em nada. Sabia que precisava mudar, queria mudar, mas não sabia exatamente o quê.

André serviu a cerveja copo a copo. Levantou da mesa. Atendeu o celular. Discutiu com alguém na linha. Voltou. Depois, bebeu longos goles e reclamou do ciúme do namorado. Que ele já não suporta dar explicação de tudo. O tempo inteiro. E que o namorado de agora não é como o namorado anterior. Que ele preferia o outro namorado porque era mais tranquilo. E que o de agora é totalmente inseguro. Mas, parando pra pensar, ele não foi feliz nem com o anterior e nem com esse. E que ele queria ter coragem de terminar tudo e ficar sozinho, de viajar por um tempo pra algum lugar que nem ele faz ideia.

Depois, ele levantou da mesa. Atendeu o celular outra vez. Discutiu com alguém na linha. Voltou. E pediu desculpas por toda hora ter que atender o telefone. Foi o namorado de novo querendo saber onde ele estava. Depois, evitando olhar pro iPhone, ele falou que podia fazer doutorado. Aqui ou em Portugal. Mas que ele queria mesmo era mudar de área, sair dessa coisa do jornalismo. Mas que ele tá sem saco pra estudar mais. E que ele tá sem saco pra esse mundo acadêmico. Escrever artigo é um saco, defender tese é um saco, aguentar professor falando numa aula de cinco horas é um saco, ter um namorado ciumento e possessivo é um saco. Que tudo é um saco. Ele sabia que precisava mudar, queria mudar, mas não sabia exatamente o quê.

Eu servi a cerveja copo a copo. Cruzei as pernas. Revirei a bolsa. E você, Murilo… E você? Oi? Eu o quê? Eu balançava as pernas por nervoso e bebia metade do copo da cerveja sem vontade, goles curtos, copo que nunca esvaziava. Eles, finalmente, descobriram que a felicidade é coisa momentânea. Que a vida adulta, num mundo cheio de convenções, é uma merda. Descobriram, finalmente, que é preciso trabalhar doze horas por dia e que nada disso traz recompensa, não à toa o mundo inteiro quer virar instagrammer, porque talvez seja mais fácil tirar foto à beira da piscina exibindo um copo de suco de alguma marca detox do que ter que encarar a realidade. Descobriram, finalmente, que pessoas traem, que casamento não é SPA, que pessoas boas sofrem em filas de hospitais, que inocentes morrem, que fatura de cartão de crédito chega e ninguém, além deles, vai pagar. Eles, finalmente, descobriram que Paris não é uma festa.

Foi então que entenderam, pela minha cara de “zero surpresa”, que a vida é essa escrotidão mesmo. Eu perdi completamente o deslumbramento com o amor, com o trabalho, com pessoas. Eu descobri que relacionamento cansa, trabalho não é diversão e pessoas bonitas mentem. Mas eles permaneciam, o resto da noite, com suas garrafas verdinhas enfileiradas, com suas bitucas de cigarro transbordando o cinzeiro, falando sobre todos os assuntos e comprovando mais uma vez que não eram felizes em nada. Falavam que o namoro deles é um porre. Falavam que o trabalho deles é um porre. Falavam que o lugar onde eles têm frequentado é um porre. Nos últimos meses, eu fiz as pazes comigo, com a vida. Eu consegui me livrar de tudo que atrasa. Minha vida não é um porre.

Todo encontro do Tinder é ficção

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

“Dizer ‘sim’ ou ‘não’ pra um rosto sem movimento é triste pra caralho”. Falei isso, enquanto avaliava perfis no Tinder, e minha amiga riu, revirou os olhos, disse que eu tava me comportando como um velho chato e cheio de moralismo. “Não é isso, mas para pra pensar: antes do ‘sim’ ou ‘não’, o Tinder não dá chance pro rosto sem movimento mostrar que existe profundidade. São fotografias cheias de efeitos de Photoshop e filtros e ângulos e poses e lugares descolados e roupas da moda. A gente tá sempre escolhendo ‘o melhor eu’”. Falei isso, enquanto lia a descrição do perfil de um menino, e minha outra amiga fechou a cara, fez barulho com a língua e os dentes, explicou que era assim que a modernidade se relacionava agora, ou eu me acostumava com isso ou eu estava fora do jogo.

Como folhear um cardápio, escolhi ele. Combinamos um encontro, sexta, às 14h, no Urbe, uma cafeteria na Consolação. Ele é branquelo e vive meio desempregado. Não gosta de nenhum emprego muito sério, não gosta de nenhum emprego que atrapalhe a viagem “com uns caras” pro Vale do Pati, não gosta de nenhum emprego que obrigue a cortar a barba, não gosta de nenhum emprego que tire ele de São Paulo. Em suma: tá sempre sem emprego. Mas no Tinder escreveu “paulistano cineasta” e colocou uma foto abraçado com uma torre de Heineken, fazendo careta, acompanhado da turma “faço cinema cabeça”. Os óculos espelhados, típicos de maconheiro, escondem 70% do rosto, deixando uma onda de mistério e galanteio.

Ele me conta que tá tendo umas ideias de projetos. Pensando em fazer um documentário sobre a seca no Nordeste. “Imagina que louco, Murilo, fazer um documentário sobre os encantos da cultura do povo que sobrevive na seca… Consegue imaginar?”. Eu balanço a cabeça, dou risada sem mostrar os dentes, incentivo, falo “nossa, que legal”, mas, no fundo, eu quero mesmo é encerrar aquela conversa, me despedir daquele desconhecido com papinho hipster confuso, pegar o metrô e voltar pra casa. Depois de passar duas horas falando sobre ele, os ex-namorados dele, os projetos de cinema dele, ele me conta que foi muito bom ME CONHECER, que “a gente vai se falando”. Eu quis encontrar nele a narrativa construída virtualmente. O homem que eu criei, editei, e que não existia. Foi tudo ficção.

Como folhear um cardápio, escolhi ele. Combinamos um encontro, sábado, às 14h, no Urbe. Ele é muito alto e passa os dias como militante de rede social. Lá, ele fala sobre negros, gays, direitos de mulheres, visibilidade trans, a luta por melhores salários e o absurdo que é essa reforma trabalhista. Ele fala sobre todos os assuntos do mundo, mas não consegue explicar direito o que faz da vida. Se formou em artes cênicas, mas nunca quis ser ator. Agora, ele faz mestrado sobre alguma coisa que ninguém sabe muito bem o que é, numa área que ninguém sabe pra que serve. No Tinder, ele se diz “produtor de vídeo marketing”, mas isso, ele conta, foi há anos. Depois, ele foi vendedor de loja, DJ, chef de cozinha, telemarketing, gerente de banco, redator publicitário de enxaguante bucal, ilustrador de panfletos de uma marca de antiácido.

Mas ele me conta que há quatro anos tá focado num livro que não sai da página onze. São contos de terror relatados por moradores de uma cidade fictícia. “Poxa, Murilo, se você lesse. Se você lesse”. Eu balanço a cabeça, finjo estar muito interessado, impressionado, mas, no fundo, eu quero mesmo é encerrar aquela conversa chata, me despedir daquele desconhecido chato, mandar ele voltar pra vida politizada de Facebook, pegar o metrô e voltar pra casa. Depois de passar duas horas falando sobre ele, os trabalhos dele, sobre TODOS os problemas sociais, ele me conta que foi muito bom ME CONHECER, que “a gente vai se falando”. Eu quis encontrar nele a narrativa construída virtualmente. O homem que eu criei, editei, e que não existia. Foi tudo ficção.

Como folhear um cardápio, escolhi ele. Combinamos um encontro, domingo, às 14h, no Urbe. Ele é arquiteto recém-formado e tem medo do que vai acontecer agora que precisa sair do estágio. Tem aluguel, comida, conta da internet pra pagar. E me pede desculpas por ter chegado meia hora atrasado. E me conta que roda São Paulo inteira com Amoxicilina, capa de chuva, água, resto de biscoito e iPod dentro da mochila. Depois ele me pergunta se eu também tenho fobia de multidão. E me abraça. E me pede pra sair dali. Lugares com mais de dez pessoas, pra ele, já é multidão. E a gente ri junto. Foi o melhor cara que conheci no Tinder. Quem diria, né? Quem diria que depois de tantos caras estranhos, babacas e confusos isso aqui pudesse dar certo.

Ele me conta que nós já estamos acostumados. Acostumados com o quê? Com fobias em multidões? Não, com a solidão de todos os dias, com a solidão urbana, a solidão que sentimos quando estamos cercados de desconhecidos, a solidão do delivery, do excesso de canais a cabo, da Netflix, das mensagens no WhatsApp, dos emails, das inúmeras fotos no Instagram, das centenas de músicas disponíveis no Spotify, como se a gente tivesse tempo pra consumir tudo isso.

Daí a gente vai junto pra casa. O metrô cheio. E a gente ri junto da multidão. E ele me mostra como aquilo está entupido, mas as pessoas estão sozinhas, caladas, preocupadas, pensando na vida amanhã. E ele segura a minha mão e me conta que ele tem insônia, que passou a noite inteira pesquisando sintomas de doenças no Google. A gente mora no mesmo bairro, na mesma quadra, em prédios que ficam um em frente ao outro. Janelas abertas que, no meio da confusão do cotidiano, não mostram quem está do outro lado. O resultado é que a gente nunca se viu e, talvez, promover encontros, independente do final, seja o papel do Tinder.

Ele me conta, andando pela Vila Madalena, que os arquitetos, engenheiros civis e construtores de edifícios são os culpados por esses descaminhos. Eles criam verdadeiras barreiras humanas, de todas as formas, cores e tamanhos, e isso tudo embaralha e dificulta demais as relações. São milhares e milhares de edifícios, paredes que separam, pessoas que se desencontram em escadas e elevadores. Ele fala sobre relações e, cada vez que ele abre a boca, eu fico mais encantado.

Depois, ele me apresenta a casa dele. Por que ele coleciona cartão telefônico? Por que ele tem uma cadeira sem fundo no meio de cadeiras com fundo? E eu fico fascinado por um quadro que eu não sei pronunciar o nome do artista, enquanto ele estoura o plástico bolha de quase três metros. E a gente se beija, não lembro exatamente quando, mas a gente se beija. E a TV dele passa um filme sobre alienígenas e a gente dá risada disso. E eu, mais uma vez sem entender o que está acontecendo comigo, me digo pra ir embora. E a gente se despede. E ele segura a minha mão, do lado de fora do prédio, sem medo da multidão que transita pela rua, e me pergunta se a gente ainda vai se falando. “Vai se falando?”.

E meus olhos brilham, mais até do que deveriam. E então eu olho pra ele, no meio da multidão que ainda me assusta, e digo, na tentativa de ser racional: “eu sei bem o que você quer comigo. Mas olha, vou ser sincero com você. Você é gente boa, talvez mereça saber. Eu canso as pessoas. Você entende? Sei como é, só porque eu tenho livro publicado e uso estes óculos de aros grossos e tenho esta barba e viajo nas ideias com você, falando coisas meio doidas que ninguém nunca fala sobre conflitos internos e me sinto seguro em falar sobre a dificuldade dos amores imensos nos tempos do Tinder, com seus olhos você enxerga um cara intelectualizado, maduro, inteligente, capaz de colocar cor na sua vida. Eu não sou nada disso. É só figurino e roteiro. É só idealização. É só ficção. Com o tempo você percebe: eu não tenho graça nenhuma”.

Sou completamente infeliz, mas pelo menos tenho namorado

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Há anos tenho que aturar dois grupos de amigos: a turma que namora, incluindo o subgrupo “sei que ele me trai, mas eu sou oficial”, e a turma solteirona, incluindo o subgrupo “é melhor ficar sozinho do que mal-acompanhado”. Odeio os dois grupos e, consequentemente, seus subgrupos por um motivo óbvio: TODOS são infelizes e dão a cara a tapa que não.

Em nome da minha sanidade mental, desativei meu Facebook e o Instagram dois dias antes do Dia dos Namorados. Vedação completa contra gente chata que precisa provar pro mundo que é feliz, mas, no fundo, transborda carência. Eu queria evitar selfies e textões egocêntricos de paixão eterna. Eu queria evitar (MUITO) fotos de cachorros e gatos, postadas por donos deprimidos-revoltados-putos-da-vida, com legenda do tipo “o único amor sincero que existe”. Eu queria evitar memes idiotas, tiradas publicitárias, fotos de cesta de café da manhã, rosas e bombom em celofane. Desliguei o computador e mandei na lata: tô cagando pra vocês.

Mas eles foram muito mais rápidos. Acordei na véspera do Dia dos Namorados adicionado em dois grupos de WhatsApp. O primeiro, o “Tá caído?” (por que mesmo eles colocaram esse nome?), aparentemente o mais divertido, combinava um encontrão de solteiros and simpatizantes da vida solteira and gente que pega geral and recém-solteiros. O segundo, o “Cervejetarianos”, aparentemente o mais organizado, pretendia fazer um encontrão de namorados and simpatizantes da vida monogâmica and gente que namora à distância and gente sem relacionamento definido.

Os dois tinham algo em comum: pretendiam fazer um churrasco na casa de algum amigo que, gentilmente, cedesse a casa pra toda essa bagunça. Clássico. Na minha casa é que jamais seria. Existe coisa mais deprimente do que churrasco de solteiros no Dia dos Namorados? Existe coisa mais deprimente do que todos os seus amigos saberem que seu relacionamento é uma bosta e você, na maior cara de pau, convidar todos esses mesmos amigos pra um churrasco pra comemorar o Dia dos Namorados?

Pensei em sair, imediatamente, dos grupos. Pensei em inventar uma desculpa, algo como “é que eu preciso fazer exame de sangue amanhã” ou “vou estar em São Paulo”. Mas ano retrasado dei essa desculpa, ano passado também dei essa desculpa. Há dez anos dou essa desculpa. Eu ouviria algo como: “taquepariu, Murilo. De novo?”.

Seria impossível estar em dois churrascos ao mesmo tempo. Então tive a brilhante ideia de unir o churrasco dos solteiros e o churrasco dos namorados em um churrasco só. Era algo como “podemos fazer apenas um teatro e poupar meu saco e meu tempo com vocês”. A princípio estranharam. Depois me disseram vários desaforos. Por último gritaram: “só topo se você dançar Asa de Águia”. Oi? Topei. Mas óbvio que eu jamais dançaria.

No churrasco, os dois grupos eram iguais. A não ser pelo desespero nítido de provar quem era mais feliz. Transformaram o amor numa competição para ver quem ama mais e melhor, quem é o par certo, quem faz chorar, quem faz rir, quem faz tremer, qual declaração dá mais impacto, quem é o solteiro mais porra louca e feliz por ser porra louca, quem vai sair mais cedo pra mostrar pra todo mundo que vai passar o resto do dia transando.

Na área de serviço, uma garota, amiga de amigos de outros amigos, visivelmente triste, mas fingindo estar bem, como todo mundo sempre faz, bebia e fumava e conversava e bebia mais um pouco e fumava mais ainda e bebia de novo. O cinzeiro transbordava bitucas. Fui com ela ao banheiro querendo descobrir o que ela carregava na bolsa além de calmante. Ela me contou, meio bêbada, que namorava há cinco anos. São cinco anos dividindo espaço, o banco do cinema, contas, despertador, viagens, planos, doenças sexualmente transmissíveis com um cara que sempre voltava pra casa sem se interessar se ela estava bem de verdade.

Depois, chorando, enquanto retocava o batom, ela me contou que a relação era uma tonelada de incertezas. Ele não gostava de DR, não gostava de sair, não gostava de ser contrariado, comparava ela com a ex, criticava ela o tempo todo. Era uma relação sem conversa, sem tesão. Eles não transavam há mais de um mês “porque não tinha clima”, mas hoje, Dia dos Namorados, decidiram ir ao motel. Depois, ela falou que era melhor ser completamente infeliz do que não ter alguém pra chamar de namorado. Que essa coisa de “sempre apaixonados” não existe. Que essa coisa de “relacionamento sem problema” não existe. Que quem exige demais, no fim das contas, acaba sozinho. Melhor ter um namorado mesmo, assim do jeito que ele é, porque ninguém é feliz em relação alguma. Imagina ir às festas sem estar acompanhada? Imagina estar nesse churrasco sem um homem? Imagina voltar pra casa sozinha? Imagina ficar cercada de amigas que têm namorado? Imagina ficar encalhada?

Na varanda, um garoto, amigo de amigo de outros amigos, visivelmente triste, mas fingindo estar bem, como todo mundo sempre faz, olhava o celular de cinco em cinco minutos pra saber se o menino que ele tava saindo mandava mensagem. Não mandava. Fui com ele ao banheiro querendo descobrir o que ele carregava na bolsa além de calmante. Ele me contou, meio bêbado, bem baixinho, enquanto colocava um pouco mais de perfume, que não é feliz quando se relaciona e não é feliz quando não se relaciona. Mas que ele acha melhor ser infeliz sozinho do que infeliz acompanhado, porque quando ele está gostando de alguém, ele pesa mil quilos de angústia.

Ao voltar pra casa, depois de um dia repleto de frases de efeitos, autoafirmações, gritarias, gente bêbada, vômito no tapetinho da sala e infelicidade escondida por maquiagem e perfume, vi um velhinho com uma bengala, numa floricultura, no largo Dois de Julho, comprando um buquê enorme. Foi a cena mais bonita e honesta que vi no dia.

Sexo depressivo

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Olho a cueca arrumadinha na gaveta e penso: “é sem compromisso”. Com ele, desde que conheci, ficou combinado que seria assim: nada mais do que sair de vez em quando, nada mais do que uma cerveja, nada mais do que sexo. Sem cobrança, sem entrega, sem romantismo. E a gente volta pra casa sem esperar nada do dia seguinte. Com mãos que não levam, com corpos que não esquentam.

Tomo banho, coloco uma roupa bonitinha e penso: “eu posso desistir”. Eu posso inventar uma reunião, inventar que esqueci de um jantar importante com meu chefe, inventar que preciso visitar uma amiga na maternidade. Eu posso criar histórias ou, pior ainda, sumir. Desligar o celular, tirar o telefone do gancho. Sumir. Mas, por algum motivo que desconheço, decido ir.

Pego um táxi, olho as ruas em movimento. Casais felizes em sorveterias, restaurantes, passeios, livrarias, e tudo isso me faz engolir o choro. A cada volta e paradas em semáforos morre em mim mais e mais do rapaz deslumbrado com romance de telenovela. O carro anda mais um pouco e me digo: “eu posso voltar pra casa”. Eu posso colocar uma música do Phill Veras e dar uma volta no shopping. Eu posso, num impulso, ir ao cinema. Beber alguma coisa num bar, rodar numa exposição na Caixa Cultural. Tenho um pouco de medo da rua dele. E da árvore imensa que faz uma sombra muito escura em volta do prédio. Mas, por algum motivo que desconheço, decido ir.

Ele não vê sentido em beijo, perfume, creme de pele, depilação, cueca bonita. Ele não se interessa em criar um clima, em me levar pra um daqueles restaurantes com luzinhas coloridas no centro da cidade, em ser um pouco misterioso, em me fazer rir. Ele não interpreta minhas frases de interesse, meus abraços demorados. Ele não entende meu medo de ir, minha ânsia de querer ficar. Não à toa, “não quero ir embora”, pra ele, significa “a gente pode prolongar essa noite de sexo”. Não à toa, “meu corpo está quente”, pra ele, significa “podemos avançar as preliminares”. Ele acha muito importante não ir além da superfície e por isso diz com todas as letras e partes do corpo dele, com a boca enorme de palavras, que não: não crie.

Ele não entende e passa a língua no meu pescoço e dá beijinhos nos meus ombros e pequenas mordidas no biquinho do meu peito e lambuza minhas costas e a minha barriga e a cintura que me faz contorcer de cócegas e segue. Ele continua como um predador sem culpa por ter capturado a caça tão fragilizada e dependente, como um faminto feliz pelo delivery que chegou depois de um dia exausto de trabalho.

A mão dele toca a minha nuca e eu penso que isso, de alguma forma, quer dizer proteção. A voz dele alcança meus ouvidos e eu penso que isso, de alguma forma, é amor. Mas é só sacanagem. É só tentativa de escapar do tédio. São apenas palavras ditas num surto de tesão, numa descarga de energia, num segundo passageiro que nunca se prolonga, que nunca se completa. E assim ele continua. E assim eu continuo. Uma hora e meia, talvez menos. A cada segundo perco mais e mais e mais de uma coisa que eu não sei o que é. A gente termina e cada um vira pra um canto da cama. Mais uma camisinha, mais um gemido, mais um suor, mais um banho.

Mas se eu não sinto frio na barriga, fiquei me perguntando por que eu precisava aguentar aquilo, fiquei me perguntando o que eu tava fazendo ali. Se as horas se arrastavam, se eu implorava pra Deus pra que aquilo acabasse, se eu tava voltado pra minha própria dor, se eu não me sentia à vontade, se eu não me importava mais de não estar vivo com ele, se meu coração não se emocionava mais, se relação descartável não me interessa, o que é que eu tava fazendo ali? Sexo sem estar apaixonado eu tenho nojo.

Mais uma vez e ele, a essa altura, dorme abraçado a um daqueles travesseiros grandões espalhados pela cama pra suprir faltas, achando que transar é suficiente pra suprir carência. Mais uma vez e ele, a essa altura, dorme demais como sempre e já deve ter me esquecido, mesmo lembrando de mim de vez em quando, nessas horas que ele tá de saco cheio dos trezentos contatos que ele já levou pra cama.

Mais uma vez e eu volto pra casa, com a coluna curvada, e vejo tudo cinza. Me sentindo feio, sujo, exposto, absurdamente sozinho. Mas dessa vez foi diferente de todas as outras vezes. Dessa vez fiquei pensando nesses desgastes, nessas entregas sem reciprocidade, nessas dependências descabidas. Dessa vez chorei ininterruptamente por meia hora no chão do banheiro. Foi o choro mais alto que chorei na vida. A água fria pra me fazer acordar. A água em jatos fortes tentando limpar o que não era sujeira, o sabão escorrendo no ralo tentando levar o que eu não conseguia esquecer.

Fechei a porta e o quarto escuro me trazia mais dor. Fui inundado por um vazio profundo, invencível, inexplicável. Me encolhi no edredom sentindo um frio que não existia, me perguntando por que eu fazia aquilo comigo. Pensei no homem de verdade que eu sempre esperei e que nunca aparecia. Depois, como um mantra, apertei o travesseiro e me disse: vai chegar, vai chegar, vai chegar, vai chegar. Dois minutos depois, dormi meio soluçando.

No dia seguinte, mais vazio (ou seria mais cheio?), fui devolvido às ruas. Olhei as pessoas, no táxi em movimento, e percebi que não existia beleza em nenhuma delas. Não existe amor em lugar algum, em porra de pessoa alguma. E eu mais uma vez me perguntei como as pessoas conseguem viver no meio de intenções e futuros mortos. Por que as pessoas se relacionam com total superficialidade? Como é que acorda no dia seguinte sem sentir dor? Como é que se doa sem se entregar de corpo e alma? Nunca soube.

Tenho vontade de ligar pra ele — na esperança boba de que o coração dele tão cheio de desimportâncias saia do automático e me ame um pouquinho — e perguntar: você não gosta nem um tiquinho de mim? Nem sequer um tiquinho de nada? Mas a resposta parece óbvia. Digitei “Céu” no Spotify. Desci as escadas do jornal. A vida continua.

 

 

Irrelevante

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

E mais uma vez, eu abri o seu perfil no Facebook e fiquei olhando sua foto. Deus do céu, como eu já sorri olhando praquilo, como eu já fiquei bobo com todas as suas publicações, você não tem ideia. Mas nos últimos dias, infelizmente, não é sorrindo que eu olho, não é bobo que eu olho. É com desânimo, com saudade, com raiva, com tristeza profunda.

Lembro de você, uma vez, deitado numa daquelas espreguiçadeiras à beira da piscina da sua casa. Você olhava minhas olheiras tentando entender meus cansaços. E me colocou de conchinha e me deu o abraço que disparava corações em mim como se eu tivesse um em cada célula do corpo. E comeu chocolatinhos suíços dizendo que cacau curava cansaços e olheiras. E me falou, com sua voz tão bonita, a mais bonita que eu já ouvi, que você tinha cavado o lugar certo e encontrado o ossinho certo.

Por que você me fez acreditar na ideia do ossinho escondido? Por que você cavou, cavou e cavou a terra fingindo ter encontrado o ossinho que não existia? Você ter morrido. Você ter assassinado o que eu sentia. Você ter me feito fingir estar vivo pra todo mundo. Me feito chorar todas as vezes em que eu deveria dar risada. Eu permaneci e isso foi a coisa mais triste e insuportável e autodestrutiva que alguém pode fazer na vida.

Tenho vontade de te procurar no seu trabalho e de invadir a sua sala no meio de uma reunião importante. E de te esmurrar na frente dos seus colegas retinhos e engravatados e mais machos do que todo o resto do mundo. E arremessar vários chocolatinhos suíços no seu peito pra você perceber que não quero curar minhas olheiras e cansaços. E de te dizer que você é um grande idiota, um grande babaca, um grande merda, um grande imbecil. Nunca passou disso.

Nunca uma piada sua foi engraçada, nunca você foi interessante, nunca seus projetos foram bons, nunca você me surpreendeu. Nunca. Mas eu não consigo sair de dentro desta coisa que eu sinto. Sua mania de me ligar pra saber se eu cheguei em casa bem. Seu repente em sair pra algum lugar tarde da noite. Sua voz, que não é sua voz, me grita no meio da rua e meu corpo treme. Não consigo deixar de pensar em você, a cada dia, a cada raiva, a cada vontade de parar de pensar. E não consigo frear o vício de escrever sobre você, o vício de falar em você, o vício de te ver em todas as coisas.

E quando eu procuro outras pessoas, pra deletar tudo o que sinto, eu peço a Deus que você me veja. Eu peço a Deus que você me encontre por aí dançando com outro numa festa, bebendo um chope com outro num boteco, beijando outro na porta do meu prédio. E peço a Deus que você sinta muito ódio de mim. Porque sentir ódio é maravilhoso, triste mesmo é ter indiferença. Eu quero que você veja que eu já fui embora. O bobinho que esperava, que perdoava, que aceitava o muito pouco, simplesmente foi embora. Você que já me fez perder a hora, que já me fez gostar da vida, que já me fez acreditar em coisas que eu não acreditava mais, hoje não é nada. Não passa de uma foto numa rede social.

Eu me matriculei num curso novo, eu comecei a fazer musculação, eu tô lendo psicanálise, eu tenho visto mais filmes, eu tenho conhecido muitos lugares. Mas se tudo isso tem me feito bem, por que eu continuo stalkeando seu Facebook? Por que eu olho quem curte e comenta todas as suas publicações e stalkeio quem curte e comenta todas as suas publicações? Por que eu sinto ciúme dessas pessoas? Por que eu continuo te olhando? Por que eu sempre volto aqui de madrugada, na hora do almoço do trabalho, no fim do dia? Por que eu preciso dessa regressão? Por quê?

Você não vale esse tempo perdido. Mas eu faço. Eu continuo fazendo. Como alguém tão novo que morreu subitamente. Mas acontece que você não morreu de verdade, da forma que eu preferia que você morresse. Você está aí vivo, tranquilo, feliz, fazendo suas coisas. Você acorda, toma café, vai pra academia, almoça, trabalha, se aborrece no trânsito, se distrai num filme, sai com alguém na sexta-feira, transa com mais um no fim de semana. Você continua vivendo sua vida, sem culpa, sem raiva, sem saudade, sem olhar minha foto em rede social. E eu fico aqui no seu Facebook te vendo se perder nessas coisas rotineiras em que eu nunca estou presente.

Por que eu não consigo sair do seu perfil sem sentir uma pontada no fígado? Por que você não foi apenas mais um como todos sempre se tornam? Eu esperei muito de você? Não. Eu não esperei metade do que esperei dos duzentos homens que já conheci. Eu entendi tudo o que você me explicou, eu entendi o que ninguém entenderia, eu entendi o que nem eu deveria entender. Eu respeitei. Eu aceitei. Eu fiz como você quis. Tudo. No seu minuto, passo a passo. Eu voltei atrás. Eu me pedi pra ter calma. Eu aguentei problemas. Eu chorei, eu fiquei com febre, eu pedi desculpas, eu aguentei besteiras, defeitos, desaforos. Suportei tudo. E você sempre seguindo sem se importar.

E dói muito, porque você sabe que ninguém no planeta é capaz de ocupar o lugar. E você perde a fome. E você sente falta. E sente vontade de chorar. E você só pode respirar fundo, segurar as lágrimas e seguir em frente, porque todo mundo prefere dizer que você é fraco do que humano. Vai passar, né? Eu sei, todo mundo diz. Com o tempo eu não vou mais olhar sua foto, nem lamentar, nem sofrer, nem odiar sua vida idiota, nem pensar o quanto é infeliz tudo o que aconteceu. Com o tempo vai se tornar irrelevante. Espero muito que passe logo. Porque a vontade de te ressuscitar, quase sempre, principalmente agora, nesse exato minuto, me domina.

 

Nunca fui honesto

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

No meio do filme no cinema, ele aponta para um grupo de jovens estranhos sentados na fileira em frente e cochicha no meu ouvido algo como “esses pseudo-neuróticos, com seus fetiches de dores e fuga do tédio existencial”, fazendo referência ao filme de Xavier Dolan, e eu dou risada alta no cinema. Todo mundo olha feio pra mim, inclusive o grupo de jovens estranhos, e ele me abraça na tentativa de abafar meu descontrole, se prendendo mais ainda pra não rir também.

Depois ele me olha querendo saber se tudo bem. Tudo bem tirar da ecobag a vasilhinha com trinta e seis claras e comer ali mesmo na frente de cinco mil pessoas? Tudo bem não sair mais tarde pra beber uma cerveja comigo e uns amigos da Facom porque cerveja tem carboidrato? Tudo bem nada. Mas eu é que não digo. Eu é que não reclamo. Porque tô completamente apaixonado por ele e porque acho ele leve e engraçado, aceito a vida fitness, aceito o projeto de “barriga trincada em 90 dias”, aceito as conversas sobre proteína com os amigos da academia, aceito que aquelas claras frias estão sem sal porque sal retém líquido.

Desde que o nosso namoro começou, suportei calado as claras, os shakes e as somas das calorias nas embalagens dos alimentos. Nunca fui honesto. Nunca disse que achava aquele exagero ridículo. E seguia. Fingindo que não via, que não me importava, que eu não tinha que me meter naquilo, afinal, eu precisava aceitar ele do jeito que era. Quando a coisa chegou no suco de hibisco com gengibre, três vezes ao dia, e no detox de alface com agrião, em substituição ao jantar de um ano de namoro que preparei, percebi que já não dava mais. E até hoje, até a publicação desse texto, ele não sabe que eu odiava as claras, os amigos, os shakes, as somas, o suco, o detox, porque eu nunca fui honesto.

Depois dele, conheci outro cara. “Mas ele não tem nada a ver com você”, meus amigos diziam. Eu gostava da voz dele, dos intervalos longos entre um pensamento e outro, das frases que eu poderia legendá-las a cada lembrança fotográfica que surgia dele no meio do dia. Gostava quando ele falava sobre Lula, quando ele colocava adoçante no café preto sem contar as gotinhas, quando ele me ligava no começo da manhã e falava “sono pra caralho”. Eu sabia que aquilo era pouco pra gostar e ficar com alguém, mas eu não conseguia me imaginar sem aquela voz grave no primeiro minuto do dia.

Pouco mais de dois meses juntos, fui percebendo que ele não tinha mesmo nada a ver comigo. Gostava de ioga, reiki e meditação, e isso tudo me dava muito sono. Ele enchia a casa de incenso de manjericão e patchouli e fechava as janelas. Eu sofria com insuficiência respiratória, suportava crises de rinite e longas filas na emergência pra tomar nebulização. E ele nunca soube disso porque eu nunca fui honesto. Quando ele me levou pra uma sessão de budismo e eu me peguei olhando o celular a cada dois minutos, remexendo a coluna e as pernas a cada dois minutos e me levantando pra ir ao banheiro a cada dois minutos, comecei a perceber que eu estava indo longe demais. Ele dizia que eu precisava ser menos ansioso porque isso dificultava o fluxo de energia e daí muita coisa na minha vida iria dar errado.

Uma semana depois, ele me levou num curso chamado “Rolando na Grama”. Um encontro com gente ansiosa e deprimida, numa casa em Vilas do Atlântico, com o objetivo de encontrar a luz. Devíamos ir com roupas bem confortáveis, e o tratamento consistia em nove passos: 1) mentalizar uma coisa boa; 2) abraçar a coisa boa; 3) rolar na grama sem soltar a coisa boa; 4) imaginar a coisa boa do coleguinha; 5) rolar pela grama tocando em todas as partes do corpo do coleguinha até sentir a coisa boa do coleguinha; 6) rolar pela grama imaginando a coisa boa flutuar; 7) nos transformar no animal que estivéssemos a fim; 8) fazer o animal devorar a coisa boa; 9) ficar deitados na grama, respirando lentamente, com uma mão em alguma parte do corpo do coleguinha, pensando sobre tudo isso.

Só que rolar naquela grama me deixava ansioso. Não saber em que lugar eu chegaria quando eu rolasse me deixava mais ansioso. Saber que eu não conseguia relaxar pra deixar de ser ansioso me deixava mais ainda ansioso. Parei de frequentar o curso por cinco motivos: 1) percebi que a coisa que a instrutora procurava era o pau dele. E eu, neurótico, desconfiei desde o primeiro minuto que aquilo era uma masturbação mútua; 2) as pessoas não usavam desodorante; 3) as pessoas eram completamente deprimidas e ansiosas; 4) eu usava desodorante e não era tão deprimido e ansioso; 5) sério que eu me meti nisso? Achei justo, com ele e comigo, terminar. E até hoje, até a publicação desse texto, ele não sabe que eu odiava os incensos, os encontros de budismo e o curso de terapia na grama, porque eu nunca fui honesto.

Depois dele, conheci outro cara. Tomava remédio o tempo inteiro porque o tempo inteiro ele tinha vontade de morrer. No meio do show, ele saiu às pressas porque havia esquecido o Diazepam e estava com vontade de morrer. Descobri também, no almoço de bodas de prata da mãe dele, que ele tomava Prozac, Alprazolam e Tegretol, e que tudo isso ajudava ele a não ter vontade de morrer. Mas foi quando abri o porta-luvas do carro dele que me deparei com o Leponex. Pesquisei rápido no Google e descobri que Leponex é remédio pra esquizofrênico. Ele não gostava de teatro, não gostava de assistir televisão, não gostava de ficar numa sala escura de cinema, não gostava de barzinho, não gostava de falar ao celular, não gostava de beijar na boca toda hora, não gostava de viajar. E o tempo inteiro me dizia que não ia dar certo porque era impossível me agradar.

Numa festinha na casa de Nanda, encontrei ele fedendo a cigarro de cravo, chorando escondido no chão da área de serviço. E então ele me disse que essa vontade de morrer não iria embora nunca, então ele iria parar de tomar os remédios e ficar só na maconha. Ele passava o dia inteiro lendo livros ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que excluía arquivos inúteis do computador ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que via uns vídeos no YouTube ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que conversava com sete pessoas no Facebook ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que escrevia poesias. Passou a fumar tanta maconha que os móveis já tinham cheiro de maconha, o beijo dele tinha gosto de maconha, o cabelo dele tinha formato de maconha. E ele queria saber se sair com um cara maconheiro era um problema pra mim. E eu nunca fui honesto.

Eu já não aguentava mais os piores restaurantes e os piores filmes e as conversas sobre a morte. Quando fomos parados pela blitz e o carro dele tinha quase trezentos quilos de maconha, tive medo de ser detido. Mas ele me dizia pra ter calma “porque aquilo não daria em nada”. Peguei um táxi e voltei pra casa tremendo. Ali eu tive certeza que não valia a pena continuar porque a nossa relação não daria em nada. E até hoje, até a publicação desse texto, ele não sabe que eu odiava os remédios, a maconha, os restaurantes ruins, porque eu nunca fui honesto.

Cheguei em casa, remexi armários, caixas e gavetas, e joguei fora tudo o que não servia. Num repente, decidi que mesmo tendo pavor do tédio, eu jamais suportaria o insuportável só pra ter alguém. Só por uma companhia. Relações que me faziam mal, que não me faziam ser eu. Decidi que ser sincero seria mesmo a melhor saída, ainda que isso me custasse muito caro. Decidi que eu precisava ser honesto nas relações. Eu precisava não me sentir culpado. Eu precisava jogar aberto. Só assim consegui viver um relacionamento mais sólido. Só assim consegui me sentir vivo, inteiro, verdadeiro, feliz. Todo o resto, antes do repente, era só uma possibilidade.

Minúsculo

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Eu quase consegui fazer compras semana passada. Foi muito quase. Rodei o supermercado inteiro por vinte minutos até que eu perguntei onde é que ficava o caqui. E me deu uma tristeza e uma saudade profunda fazer essa pergunta. Porque eu não gosto de caqui, só compro porque você gosta. Só compro por hábito. Só compro porque é molinho e a gente não acha em qualquer esquina e tem a cara mais inofensiva do universo. Caqui não faz mal pra ninguém. Não tem espinho como abacaxi, não mancha como o caju. Um aperto de leve e você machuca. Se você estiver na rua o dia inteiro sem comer, morrendo de fome, suado, vai conseguir comer caqui sem precisar descascar. Tinha um vermelho mais clarinho, o vermelho mais maduro e uns mais parecidos com tomate. Todos em redinhas amarelas. Todos espremidos dentro de redinhas amarelas. Vi um cartão especial do dia dos namorados, misturados com revistas numa prateleira, enquanto eu esperava na fila do caixa, e aquilo endureceu meus ombros. Algo sobre um cadastro “pra ter desconto pra família e namorado” foi perguntado e aquilo me deprimiu demais. Pelo vidro, vi um casal com um bebê, no estacionamento, colocando as compras dentro do porta-malas do carro, e aquilo me deixou mais triste do que deveria. Larguei os caquis espremidos na redinha amarela e todas as compras no carrinho. Eu simplesmente larguei tudo lá. A menina do caixa gritou por mim, sem entender. Atravessei a rua correndo e nunca mais voltei.

Eu quase consegui abraçar alguém sábado. Durante dois segundos eu fechei os olhos e apertei a cintura com muita força e pensei que, finalmente, eu estava conseguindo esvaziar meu peito de você. Foi realmente por pouco. Acho que, devagar, como uma criança que solta as mãos de um adulto pra dar o primeiro passo, talvez um dia eu consiga andar pra frente.

Domingo ri tanto no rodízio, tanto, que por pouco me senti feliz de novo. Os amigos mais engraçados que eu tenho, e que eu não via há um tempo, me contaram as loucuras que fizeram no intercâmbio. Dei muita risada com a história de uma amiga que foi pega pelo segurança em um envolvimento quase sexual com outro segurança atrás do Museu do Louvre. Mas aí lembrei, no meio da minha risada alta, como eu queria voltar pra casa e contar pra você detalhe por detalhe dessas histórias. E fiquei triste de novo.

Anteontem acordei me sentindo mais forte e chamei todos os meus amigos pra ir ao Alfredo di Roma, o restaurante que você me levava. Eu gosto de tanta coisa lá e tenho tantas boas lembranças que não queria fingir que esse restaurante não existe. Mas quando eu vi o sorvete do petit gâteau de doce de leite derretendo no pratinho, lembrei de você e comecei a chorar. E deixei todo mundo no restaurante e fui embora. E ninguém entendeu nada. Por pouco eu consegui ter uma noite bonita. Por pouco eu consegui me distrair. Por pouco eu deletei a sua existência.

Ontem eu topei ir até a casa do cara que eu saio há um tempo. Um aperto de mão que não me dizia nada, um beijo que não me dizia nada. Achei desonesto transar com o homem mais bonito e gente boa do mundo e lembrar de você justamente nessa hora. Eu parei tudo, coloquei a cueca e fui embora. E chorei na janela do ônibus o caminho inteiro, de soluçar, vendo a mistura das luzinhas dos faróis dos carros. Por pouco eu senti prazer de novo. Por pouco eu permiti que outro cara me tocasse. Por pouco eu deletei os seus flashes da minha cabeça.

Um amigo me disse hoje, por telefone, que tem um amigo pra me apresentar. Que eu e ele combinamos muito. Que ele é bem fofo. Que ele me viu no lançamento do livro de outro amigo e que se apaixonou por mim. Quem diria, hein? Quem diria. Alguém apaixonado por mim. E o mais doido dessa história toda nem é isso. O mais doido é que eu fico curioso com esse negócio de gostarem de mim. Por pouco eu me animo com esse homem fofo. Por pouco eu me animo em gostar de alguém. Mas pensar em gostar de alguém me lembra você. E fico triste de novo.

Pedro, meu psicólogo, dizque eu preciso me distrair com outras coisas, conhecer novas coisas. Cadu, meu amigo, dizque eu preciso pensar mais em mim, na minha vida daqui pra frente. Luana, a moça que faz faxina na minha casa, dizque eu preciso parar de colocar minha felicidade na mão dos outros, principalmente de homem.

Eu pensei que quando a gente dividisse o corredor sem se olhar, eu pensei que quando eu te visse numa festinha com outro cara, eu pensei que quando eu jogasse todos os seus presentes fora, eu pensei que quando eu rasgasse todos os canhotos de cinema e apagasse a nossa conversa do celular, eu pensei que quando passasse semanas e meses, eu pensei que quando finalmente eu te visse mudado, vivo e indiferente, eu pensei que quando eu entendesse que não tinha mais volta, eu pensei que passaria. Não deixa de doer nunca, mas quase para de doer todos os dias.

Ficar triste deixou de ser momentâneo e naturalizou. Chorar deixou de ter um motivo e virou um hábito diário de quem sente por tudo. Perder a autoestima se tornou comum e passou a ser normal, me convencendo que tudo bem não sair mais de casa, tudo bem não ler mais nada, tudo bem não assistir mais nada, tudo bem não pentear o cabelo.

Você, que já foi o motivo dos dias mais incríveis da minha vida, agora me puxa pro fundo do poço mais desmedido dos dias mais tristes. Um poço que não me deixa ser inteiro em nada, realizado em nada, satisfeito com nada, feliz em nada.

Por pouco eu consigo não te odiar, por pouco eu consigo não odiar aquela foto com aqueles garotos, por pouco eu não escrevo esse texto. Todos os dias eu quase te mando uma mensagem, eu quase te ligo, eu quase falo com você quando te encontro, eu quase consigo ser leve, eu quase consigo te tratar como nada. E quase dou um foda-se pra tudo, quase perco a razão, quase desisto de continuar. E quase consigo, sem sentir um buraco no estômago, achar que vai dar tudo certo, que hoje só foi mais um dia com um resto de quase e que uma hora esse resto de quase, de tão minúsculo, finalmente, vira um nada.

Por que eu acho que é amor

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Imagine que carrego uma mochila extremamente pesada nas costas, com dois bilhões em moedinhas e tabletes de ouro. Estou na Lapa. Ando assustado no meio da multidão, suado, corcunda, achando que a qualquer momento posso ser roubado. Enforco as alças no meu pescoço e prendo alguns nós na cintura e nos braços.

Vez em quando, alguém por ali, correndo, colando ao meu lado, pedindo informação, sorrindo pra parecer simpático, ousa colocar as mãos dentro da minha mochila pra tentar roubar as moedinhas valiosas, como eu previa. Porém, ainda que eu não aguente o peso e pense em pedir ajuda e reclame das dores na cervical, me atiro ao chão e, ciente dos riscos, percebo do que sou capaz de fazer: matar ou morrer pela mochila. Automaticamente, quero gritar que tudo bem, tudo bem: qualquer coisa contra mim, menos a mochila. Como se, numa compaixão fraternal, protegesse um filho de um tiroteio.

Daí, também, vez em quando, alguém por ali, correndo, colando ao meu lado, pedindo informação, vincando a testa com piedade, se oferece pra segurar a mochila pesada. Ou pra entregar no lugar de destino. Ou pra dividir, ao menos, o peso das alças. Também não consigo olhar pra essas pessoas e enxergar gentileza. Não consigo confiar na bondade delas a ponto de entregar uma das alças.

Porém, vez em quando, alguém por ali, como aconteceu com você, aparece no meio da multidão com uns olhos brilhando de pureza. Aparece uma pessoa que não me pede nada em troca, não repara na mochila, não tem segundas intenções, apenas caminha ao meu lado com leveza. Aparece uma pessoa que me faz sentir vontade de entregar cada moedinha, cada tablete de ouro da minha pobre mochila. Aceite, guarde, não economize, faça chuva de prata com elas em plena Avenida Sete ou, quem sabe, na Manoel Dias.

Eu não sou egoísta. Eu sou uma espécie em extinção. Eu sou um mendigo pelo avesso. Eu ando por todas as ruas movimentadas do mundo, me arriscando no meio da multidão, pra encontrar alguém com os olhos brilhando de pureza. Eu ando por todas as ruas movimentadas do mundo implorando pra que alguma alma honesta, no meio da multidão interesseira, aceite de bom grado toda a minha riqueza. Tenho um banquinho nas praças da cidade onde ouço as dores dos outros, onde faço piada da vida, pra animar pessoas de almas bondosas com olhares tristes. Próximo aos meus pés há um chapéu imenso e cheio de dinheiro. Embora tenha escrito em uma plaquinha “Obrigado, não quero sua ajuda”, ninguém lê, ninguém entende. Embora eu grite no alto-falante “pelo amor de Deus, eu não quero sua ajuda”, ninguém ouve, ninguém entende. Mas você me leu. Você me ouviu.

Posso ficar séculos tentando te explicar por que eu acho que é amor. Você tem um redemoinho de pelo abandonado e solitário abaixo do dedo mindinho da mão esquerda. Você tem intervalos curtos entre os dentes incisivos centrais. Você desfia o cabelo com os dedos da mão direita quando está nervoso. Você joga sua cabeça pra frente quando a risada é de timidez. Você joga sua cabeça pra trás quando a risada é de felicidade. Você atravessou a rua feito um louco no meio dos carros, com as mãos forçando os bolsos do jeans, só porque não sabia o melhor momento de me pedir em namoro. Você pede desculpa pela sua parte mauricinho de ser com a fragilidade e a sinceridade de um poeta francês. Você me convida pra comer num japonês, exatamente onde terminamos e, porque sabe ser sacana e piadista do mesmo jeito que combina comigo, explica nos mínimos detalhes onde é o lugar. Como se, algum dia, eu fosse capaz de esquecer.

Eu vejo a palavra “amor” num jornal velho e, só porque tem três de sete letras do seu nome, sinto de leve minha pressão cair. Eu vejo um vulto de alguém dobrando a esquina a cem metros e, só porque tem exatamente a sua altura, sinto de leve um chutinho atrás dos meus joelhos. Eu tenho uma doença que ainda é desconhecida pela medicina: eu vejo coraçõezinhos telemáticos espalhados pela cidade. Saltitando, atravessando pistas, em cartazes publicitários, sendo jogados em lixeiras, sendo vomitados em bares por gente solitária que enche o copo de cerveja porque não sabe mais como controlar todo o resto. Eu poderia ficar séculos tentando te explicar por que eu acho que é amor.

Semana passada você fez o contrário do que eu acredito. Você tentou me explicar por que você acha que não é amor. Falou das minhas dúvidas, inconstâncias e chatices, das minhas noites com calmantes que me fazem ficar sem libido, do quanto odiava quando eu tentava sugar mais e mais e mais do seu coração protegido pelas várias camisetinhas modernas que parecem casaquinhos finos e, por fim, quis explicar que prefere um daqueles meninos da San Sebastian que some na semana seguinte, porque você é viciado mesmo em comecinhos.

Não são por essas coisas que se afirma que é amor. Não são por essas coisas que não se afirma que é amor. Essas são apenas coisas que observamos e conseguimos expulsar da garganta ou revelar com os olhos enquanto no encaramos com medo. No fundo, no meio da multidão, correndo assustados, carregamos mochilas pesadas de moedinhas e tabletes de ouros. São sentimentos, belezas e fantasmas. E, no minuto exato, quando acontece, e ninguém consegue explicar isso sem parecer bobinho e arrogante, entregamos a mochila pra alguém que nos leve embora de becos inóspitos. Para um lugar que a gente sempre esteve pronto pra ir.

Eu te vejo atravessando a rua em passos de câmera lenta, com as mãos quase dentro de uma das suas camisas que parecem casaquinhos finos, e quero te colocar dentro desse táxi e te levar pra esse lugar que todo mundo espera ir, que eu fui e que você sempre foge. Você me lê, você me ouve, mas você não me entende, você não enxerga, você nunca está preparado, você ignora.

Mas, no último milésimo do sinal vermelho, fui tomado por uma raiva desmedida. Sem tempo para pensar, escancarei a janela do táxi e arremessei com toda força do mundo a mochila com bilhões de moedas e tabletes de ouro. Toma aí pra você e me deixe pobre. A mochila não te alcançou, caiu a dois palmos antes do seu último passo. E você, mais uma vez, continuou de costas. Nem o som dos meus dentes rígidos provocados pela força de quando perco o controle, nem o meu coração apodrecendo sendo transmitido por telas, nem o cheiro do meu cabelo esvoaçando pelo vidro aberto, nem a luz da minha caridade possessiva. Nem nada abala você.

A mochila abriu em pleno meio-dia da Avenida Tancredo Neves, caótica pelo sol intenso e pela véspera do natal. Os mendigos, os interesseiros, os egoístas, os mentirosos, os desonestos e todos os outros seres que dilaceram mochilas nas metrópoles, se amontoaram pra tirar proveito do amor que, de tanto escolhido a ser entregue, de tanto insistir em ser levado pra algum lugar, agora ficou pisoteado, exposto em bueiros, como resto de peixe de feira.

 

A gente sempre procura a felicidade quando já é feliz

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Ontem fiquei procurando depois que você dormiu. Não sabia se era vontade de comer mais um pedaço de pizza abandonado na geladeira ou de tomar outro banho bem gelado — pra você me xingar que tomo banho demais e que vou ser o culpado por acabar com toda a água do planeta. Não sabia se era aquela coisa de me encolher no cantinho da varanda e ficar tentando adivinhar que luz é aquela que nunca apaga no apartamento em frente. Não sabia se era aquela coisa de te acordar de novo pra pedir que você me ensine a falar direito as letras das músicas da Radiohead que eu canto tudo errado. Você sempre foi melhor em inglês do que eu e o único que nunca perdeu a paciência de me ensinar. Eu te acordo e você canta meio dormindo as músicas que mesmo sem sair do tom vão ficando mais baixinhas com seu sono e fica tudo tão bonito.

Eu fiquei procurando, procurando, arrumei as gavetas, as caixas, as suas cuecas misturadas, as suas camisas sempre tão cheirosas e deixei tudo esticadinho, com as meias e as gravatas e o relógio e o celular e a carteira e as chaves do carro. E arrumei o armário do banheiro com seus cremes para a barba. Tudo um do ladinho do outro, bonitinho, corretinho. E joguei fora as embalagens vazias de xampu. E troquei a sua toalha mesmo estando sempre branca e sempre limpinha. Era isso ou comer mais um pedaço velho de pizza na geladeira ou tomar outro banho ou ir pra varanda ver a luz do prédio que fica do outro lado da rua. Mas eu poderia estar lá na cama com você, dormindo de conchinha, cheirando a sua nuca, ouvindo a sua respiração. Mas eu fico aqui procurando, perdendo tempo com coisas que não dizem nada.

E você ri, ronca, se espalha na cama, vira de bruços, de lado, tira o cabelo do rosto, se coça, tenta matar algum mosquito, se cobre, tira o edredom, ronca de novo. E você acorda no meio da noite e, com a voz um pouco rouca, pede pra eu cometer alguma loucura, sei lá, tipo beber a água da garrafinha aberta que tá no seu carro há mais de uma semana. Imagina só. Isso seria a maior loucura que eu faria na vida. Isso seria o maior atentado contra a minha saúde. Eu digo que jamais faria isso e você me carrega no colo, dizendo que vai me levar à força até o carro pra que eu beba a tal água da garrafinha. Eu reluto e você acha graça. Aí me coloca no chão, rindo mais ainda. E depois me diz que não existe garrafinha nenhuma. E eu te bato porque nunca sei quando você está mentindo. E você me beija infinitas vezes. E eu te odeio muito e te bato muito mais.

E depois você vai ver um pouco a tevê. Quase duas horas da manhã e você reclama que precisa acordar cedo. E zapeia os canais da tevê. Até que para num filme velho com atores bonitos que fumam charuto o tempo inteiro. E você pega no sono com o controle na mão. E daí eu quero te acordar. De novo. Mas pra quê? Pra que mesmo? Se eu pensar, lá no fundinho do fundinho do fundinho, não é pra você cantar as músicas da Radiohead e nem pra você me ensinar inglês e nem pra tirar sarro que minha orelha tem um formato estranho e nem porque acho sexy você de cueca, cabelo bagunçado, assistindo um desses filmes preto e branco. É pra isso também, porque você é das poucas pessoas que me dão vontade de acordar cedo no dia seguinte e correr num parque sem saber onde vou chegar e sem saber por que eu corro tanto.

Mesmo eu passando um fim de semana inteiro na sua casa e você sem tempo por duas semanas pra ir ao cinema comigo. Mesmo eu nunca indo embora e sempre jurando, pedindo sempre pro carro parar, pedindo sempre a conta, pegando sempre a bolsa, desligando sempre o telefone. Mesmo o tempo inteiro me dizendo que foi a última vez porque não gosto muito de você. A última vez que a gente sai, que a gente transa, que a gente briga, que a gente cozinha. Pra que eu quero te acordar? Penso enquanto tomo banho e arrumo minhas coisas e me encolho no cantinho da varanda pra ver a luz que nunca apaga no apartamento em frente.

Eu procuro, procuro, o tempo inteiro eu procuro, enquanto você dorme, e não acho nada. Nunca. Talvez o cara que atravessa a rua com a camisa desabotoada, talvez aquelas pessoas que estão no bar, talvez a festinha cheia de universitário que se pega o tempo todo e sorri pra foto o tempo todo, talvez algum cara mais bonito que você, mais inteligente que você, algum cara que ainda não chegou e eu nem sei por onde anda e eu nem sei se vai chegar. Ou talvez não seja nada disso. Talvez não seja nenhum deles. Não sei se é fácil encontrar alguém que dance de cueca e de meias coloridas enquanto cozinha. Se é fácil encontrar alguém que conte tantas piadas velhas e me faça rir com as mesmas piadas velhas. Se é fácil encontrar alguém que acorda assustado no meio da noite querendo saber se tá tudo bem.

Não sei por que eu procuro em tantos rostos o que já encontrei em você, o que gosto em você. Se mesmo dizendo que vou embora, eu quero mesmo ficar. Se mesmo achando que a felicidade tá lá fora, você acaba me suprindo em tudo. Querer mais, mais, mais. Mais o quê? Depois de muitas horas, durmo também. Com a mesma calma morta e sorridente que faz com que eu perambule pela sua casa e que você continue perambulando na minha vida e que a gente perambule juntos por todo o resto. Eu não sei o que vai ser da gente amanhã, semana que vem, daqui a um mês. Mas agora, hoje, nesse minuto, grava isso: eu sou muito feliz com você, só com você.

Criar uma lista de suposições é o único êxtase possível de um neurótico

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Acordei, de repente, sentado na cama, impactado, com a mão no queixo: Meu Deus, eu preciso saber. Sonhei que uma cartomante chamada Cidinha me dizia, incisivamente, que alguém que eu amava muito escondia de mim algo muito sério. Eu nunca mais esqueceria a cara de espanto e o nome da cartomante, e, mais do que isso, eu jamais conseguiria esquecer cada letrinha da frase “alguém que você ama muito esconde de você algo muito grave” – que ficaria rondando e martelando a cabeça por semanas, meses, séculos até que eu fosse capaz de descobrir o grande culpado pela omissão.

Sem considerar que era apenas um sonho e, logo, resposta do meu inconsciente, saí de casa de moletom, chinelo, cabelos despenteados e com resto de ácido clareador de manchas pelos cantos do rosto decidido a alimentar minha neurose. Fui ao trabalho do meu namorado. Obviamente ele seria o primeiro a passar pelo interrogatório. Cheguei com uma lista de suposições, que crescia à medida que eu sentia um misto de ânsia e êxtase pra saber a verdade. Ele precisava fazer mil ligações e responder mil e-mails. Em meia hora, ele teria uma reunião com o chefe nada amigável e, pra piorar, nem havia tomado café da manhã.

Que palhaçada é essa de me esconder algo? Até quando você ia esconder essa verdade de mim? Ele me olha tentando manter a calma apesar do dia errado. Meu Deus, eu preciso saber. “Não lembro de te esconder nada”, ele se defende. Depois, com mais calma ainda, talvez pra evitar gaguejar e piorar tudo, admite que já me escondeu coisinhas, mas nada tão grave que não pudesse ser perdoado. Talvez foi no jogo de “verdade ou consequência”, na casa dos amigos da época da faculdade, que ele participou “porque todo mundo queria lembrar da adolescência”. Sei. Quem sabe a consequência foi um selinho que parou numa língua aqui e lá no cara que ele sempre sentiu atração? Quem nunca? Talvez tivesse perdido mesmo aquele jeans lindo e caríssimo, presente meu de aniversário, e a desculpa “esqueci na casa dos meus pais” fosse, como eu imaginava, falta de coragem pra abrir o jogo. Sim, aquele dia que ele desistiu de me levar pra jantar, depois que eu já estava pronto, não foi o churrasco que desceu errado, foi preguiça de sair de casa.

Fui até a casa da minha mãe. A segunda a ser interrogada. Ela precisava terminar um telefonema importante com minha tia Zeca e depois fazer o almoço. Talvez o suco de mamão com laranja, que ela faz todo dia pela manhã, tinha pepino, e ela jamais me contou. Talvez aquele pedacinho de torta bem doce que ela não pode comer por causa da diabete, mas exagera toda tarde. As passagens pra São Paulo, super baratas, nunca foram “uma coisa de sorte”: ela pagava muito mais do que dizia só pra me fazer feliz. A real é que aquele cara que ela disse ter encontrado no teatro, não foi por acaso: eles já namoravam há quase um ano, só não sabia como contar. Eu criava tantas suposições na minha lista que eu iria durar semanas para descobrir tudo. Eram tópicos importantes, mas duvido muito que era algo muito grave. Talvez o suco.

Certeza que minha editora esconde alguma coisa de mim: quando precisou de alguém pra escrever comportamento na revista, ela escolheu outra repórter, me deixou na editoria de saúde, mas não teve coragem de contar pra mim que preferiu a bonitinha loira. Certeza que meu amigo não conheceu o namorado novo através de um amigo em comum: deve ter sido por aplicativo, mas ele ficou com vergonha de contar. Certeza que minha outra amiga não conseguiu mudar de cargo por competência: ela deu pro chefe.

Fiz uma festinha em casa, convidei TODOS os meus amigos, incentivei TODOS a beberem vodca, vinho, cerveja e tudo que embebedasse o mais rápido possível, e quis ouvir um sincerão: pronto, gente, me conta tudo. Quem é feliz aqui? Ouvi relatos tristes e óbvios como “ninguém, no fundo, é feliz solteiro” e “ninguém é feliz depois que encontra o amor da vida” e “inventaram a felicidade”. Descobri que uns dez amigos meus falam mal de mim. Coisas leves, nada muito grave. Daí pensei em colocar todo mundo pra fora da minha casa, deletar a porra toda do Facebook, dormir odiando a humanidade. Daí lembrei que eu falo mal deles também, e de muitos outros. Coisas leves, nada demais. E repensei toda a minha existência enquanto ser humano, cogitando a dureza de encarar a realidade maligna de que não passo de um filho da puta escroto mais falso que os dez amigos que falam mal de mim. Daí pensei que todo mundo deveria me colocar pra fora da minha casa e me deletar do Facebook. Daí lembrei que todos esses amigos de quem falo mal, falam mal dos nossos outros amigos que, por coincidência, são os mesmos dez que falam mal de mim. E cheguei a uma maravilhosa conclusão a respeito da vida: é normal. Ficamos no sofá, chapados de álcool, embaixo de edredons, abraçados, tentando ver qualquer coisa na TV.

No dia seguinte, quando Luana, a diarista que trabalha aqui em casa, estava aspirando a sala, ouvi um grito. Ao tirar a manta pra lavar, ela encontrou um buracão na poltrona, feito por Bento, meu cachorro. Era a poltrona que ganhei de presente da minha avó Maria. Uma relíquia portuguesa do século passado. Ele escondeu muito bem escondido tudo o que aprontou e, por isso, me rejeitava nos últimos dias. Preciso encontrar essa cartomante chamada Cidinha.

 

Até quando você vai brincar de ser louquinho?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Semana passada marquei um café com um amigo no Glauber Rocha. Volta e meia discutimos em festinhas, bares, telefone, rede social. Falamos umas coisas horríveis em grau que ultrapassa o nível escroto e sumimos — comportamento típico de quem se ama e se conhece muito. Mas, nesse dia do café, a gente conversou sem brigar. Até que ele me disse a grande lição do dia: “chega uma hora na vida que você precisa deixar de ser um leão pra poder manter amigos, emprego e relacionamento. Ou você pode escolher devorar todo mundo e viver sozinho”.

No meu último freela, quando fui comunicar que eu não prestava mais pra trabalhar ali, e por isso estava desistindo do trabalho, ouvi do meu chefe: “não quer ficar, tudo bem. Mas não esquece: toda essa sua mania de ser louquinho e falar o que pensa não vai te levar a lugar algum”. Meu ex-namorado uma vez me disse: “essa sua capacidade de sempre achar que está certo consegue te fazer mais arrogante do que você já é”. Uma amiga, dessas que a gente confia muito, me disse: “quem briga por tudo, acha que pode tudo e quer controlar tudo, na verdade só está tentando provar pra si mesmo que não é um merda”.

Já caguei pra tudo isso que me disseram. Já senti muita raiva, já chorei, já cheguei a dizer que nenhum deles me entendia. Mas acho que, no fundo, todos eles têm razão. E venho tentando — com respiração e autoanálise e terapia e oração e mantras e escrita — ser uma pessoa mais equilibrada e paciente, uma pessoa menos impulsiva e pesada.  Mas a verdade é que eu detesto o equilíbrio, a paciência, o controle e a leveza. Caramba, se eu tô puto, eu tô puto! Não dá pra fingir que não tô puto e sorrir amarelo pro mundo. Se eu tô com ciúme, não vou fingir que tá tudo bem e “agora não” e “não estraga” só pra parecer seguro, controlado e bem resolvido.

Se o cara que levanta a mão numa reunião é um filho da puta e fala besteira o tempo inteiro, eu não vou engolir o discurso calado, eu vou mais é esbravejar, berrar, liberar todo o ódio de dentro do meu estômago: você, com seu discurso bosta, é um grande filho da puta! Se a vaca que atende na pipoca do cinema me tratar mal, eu vou mais é falar mesmo que ela é uma grosseira e mal-educada e nem deveria estar ali. O sangue ferve a ponto de fazer bolhas aqui dentro, o suor desce em litros por puro nervosismo, e eu não quero fingir de jeito nenhum que nada tá acontecendo e tudo bem guardar essa raiva e tudo bem mostrar pro mundo que você não peita e tudo bem aguentar um pouquinho.

Eu não quero contar até mil, eu quero esmurrar a porta do elevador se ele demora três segundos pra abrir. Quero morder a orelha do meu namorado que apenas joga videogame e se esparrama no sofá, seguro e relaxado de tudo, enquanto eu me desfaço em prantos porque amar é complicado pra caralho. Eu não quero largar o carrinho e ter que sair pra respirar na porta do supermercado, eu quero que a menina do caixa pare de bater papo com a outra que não para de bater papo com mais duas que não param de bater papo e que todas elas atendam as três mil pessoas na fila. Quero colocar TODAS as pessoas do meu trabalho que falam MuLiro colocando o L no lugar do R, achando isso engraçadíssimo, dentro de um quarto fechado e abrir o gás. E não tem como fazer tudo isso sem ser olhado como arrogante, louco, dono da verdade, cruel.

Eu sou antipático mesmo, eu sou insuportável mesmo. O mundo tá cheio de gente burra e brega e eu tenho todo o direito de não querer olhar na cara delas. Não tô fazendo mal a ninguém, só tô fazendo bem a mim mesmo.

É tão triste saber que vocês esperam o fim de semana chegar pra colocar uma roupinha da moda e morrer esperando na fila de uma daquelas festas idiotas da Commons. É tão triste ver todos vocês voltando pra casa sem saber o que fazer daqui a dez minutos. Voltando vazio pra casa, com ressaca e o corpo entupido de fumaça de cigarro, acordando de manhã sem nada na alma.  É tão triste ver todos os casais que não se amam, mas já estão há dez anos juntos por puro comodismo e só sobrevivem pra fazer concorrência a outros casais que só sobrevivem pra fazer concorrência a outros casais. É mais triste ainda aceitar que as contas do final do mês (e isso inclui condomínio, SKY, GVT, Netflix) valham a minha bunda sentada mais de sete horas por dia que só me faz lembrar o tempo inteiro o quanto eu odeio essa gente que se acha cult porque fez um curso enrolation no exterior, mas nunca leu metade dos livros que eu já li e não tem metade do meu portfólio.

Parem de achar que tá tudo muito bom, humanos filhos da puta. Parem de sorrir pra tudo, de gostar de tudo, de ser feliz com tudo. Confessem que vocês não fazem a menor ideia do que fazem nesse universo. Confessem a raiva de estar feio, e confessem que estar bonito, depois de tanta produção, não adianta merda nenhuma.

Mas eu não movo um dedo. Eu continuo sendo como todos eles. Eu continuo esperando o fim de semana pra usar uma merda de roupinha da moda, numa festinha hipster da moda, no meio de um monte de merdas com óculos de aros grossos e camisa xadrez que se parecem comigo. Eu quero o cabelo fedendo a cigarro pra ser bem aceito porque, quando você faz parte de um grupinho, a dor não existe. E se existe, ela não é visível. E, no fundo, todo mundo sabe que a dor existe, mas é melhor que ela seja invisível mesmo. E eu sigo voltando pra casa vazio, acordando no dia seguinte perdido, sozinho, triste, com ressaca do álcool e da vida, achando tudo falso, pequeno e banal. Acordando mais uma vez, todos os dias da minha vida, sem saber direito o que vai ser daqui a dez minutos.

Assim é a vida. Você dá mais um gole na Coca-Cola pra não reparar que o bonitinho da mesa ao lado se interessou pelo seu namorado, e seu namorado, como qualquer ser humano normal, gostou do bonitinho ter gostado. Você revira o Spotify inteiro pra não reparar que a menina de treze anos, se pegando em frente à escola com um cara escroto de 28, já tem malícia, mas não sabe escolher sapato. Você inventa, se desculpa, passa a vida cego para poder viver. Porque enxergar a vida como ela é, cá pra nós, dói muito e enlouquece, e louco acaba numa poltrona, de um sobrado vazio, reclamando com gato.

Você passa a vida sem poder enxergar, mentindo, não dando importância, perdoando, teatralizando o personagem que sempre precisa dar a volta por cima, que sempre controla, que sempre espera, e nunca desce do salto. Só que o esse salto um dia quebra, e você morre sem nunca ter vivido, sem nunca ter gritado, e você deixa de existir porque não sabe gritar. Você é mais um bonitinho produzido na fotografia de mais uma festa produzida, é um coadjuvante insosso dessa palhaçada de teatro que é a vida.

Você aceita voltar pra casa dez da noite, depois de mais um dia estressante no trabalho. Você aguenta mais um artigo da faculdade. Você suporta mais dez minutos na fila do Restaurante Universitário. Você aceita a vida, porque é o que a gente acaba fazendo, no fim das contas, pra não se jogar do prédio ou jogar algum imbecil que escuta você reclamar horas sem fim das raivas e incertezas da vida e responde sem maior importância: relaaaaaaaaaaxa! Eu não vou usar nenhuma droga, eu não vou beber até passar vergonha no meio de uma festa, eu não vou dançar a noite inteira pra fingir que não tenho problema,  eu não vou engolir, eu não vou desistir de querer me encontrar, de saber em mais uma terapia que porra é essa que me entristece tanto dia após dias, de tentar entender por que eu nunca me achei normal. Eu não vou relaxaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar.

A única coisa que me deixa calado e, vez ou outra, me transforma em alguém incrivelmente normal é que ser um louquinho, que fala o que pensa, só vale a pena se você tiver alguém, no fim do dia, pra contar o quanto você faz a vida valer a pena.

Você jamais faria sexo por Skype

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Sábado, duas da manhã. Depois que ele voltou de um encontro com amigos no Chupito. Depois que eu voltei de um encontro com amigos na casa de André. E a gente tá lá: online no Skype. Talvez ele esteja assistindo um filme de Hitchcock ou de Tarantino em outra tela. Ou lendo alguma coisa sobre inovações mobile, pré-sal, pau-brasil. Ou vendo um pornô. Fico olhando a foto dele ao lado esquerdo da tela. Como ele é bonito. Aquela foto com pose heroica, esquiando, que nunca muda. Aquele sorriso grande congelado.

A gente nunca combinou dia e nem horário. Mas a gente sempre se encontra. E eu sempre puxo assunto quando ele não puxa assunto comigo. E ele dizendo o quanto queria sair comigo de novo, “mas porra, tá foda”. E eu dizendo o quanto queria que ele realmente quisesse sair comigo de novo. Mas eu sei, tá foda. E ele me dizendo que bebeu um pouco no Chupito. E eu dizendo pra ele que bebi um pouco na casa de André. E ele focava a camerazinha e me mostrava: Olha, chazinho de hortelã pra me redimir do álcool. E eu focava a camerazinha e mostrava: Olha como eu fico feinho dentro de casa. Vou colocar outro chazinho no micro-ondas, tá? E ele levantava pra ir à cozinha e eu via que ele estava só com cueca. Os ombros largos, o peitoral cabeludo, o abdômen mais inchado — coisa de quem passa doze horas trabalhando em frente ao computador.

E ele voltava desfilando com a cueca branca. E eu me sentia meio incomodado, meio excitado, mas eu me dizia a cada calor: “Sem chance, eu jamais faria sexo por Skype”. Nem ele. Sério, eu fico estranho com esse pijaminha? E ele concordava rindo. Aquilo era basicamente um encontro e eu não poderia estar e nem me sentir ridículo. E eu estava me sentindo ridículo. Eu jamais abriria a porta pra receber ele em casa com esse pijaminha. Eu jamais me encontraria com ele com esse pijaminha. Lá vou eu colocar uma camisa bonita que comprei na Osklen semana passada. Uma coisa que não me fazia sentir nem velho nem adolescente. Enquanto vestia, eu me falava: “Nem pensar, eu jamais faria sexo por Skype”. Nem ele.

E ele ascendia um cigarrinho de maconha e soltava os cabelos. E tirava uma mecha de cabelo que insistia em cair nos olhos. E a mecha caía de novo. E então começava a briga dele com o cabelo. Um tira e cai. E eu colocava a perna em cima da escrivaninha. Abria a janela. Levantava a persiana. Meu Deus, como está quente aqui!!! E ele me conta que tem um fetiche. E eu mudo de assunto falando que Activia não regula nada no meu estômago. E ele não se importa com a minha minha flora intestinal e volta a falar do fetiche. E dá um trago no cigarrinho de maconha. E mexe de novo na mecha do cabelo que cai nos olhos. Que homem lindo.

E então ele me conta que encontrou aquele ator que ganhou o prêmio Braskem de Teatro e que dizem que é bissexual. E que ele tem fetiche em ir pra cama com dois caras, principalmente um bissexual. E eu comento que nunca transei com dois rapazes, mas, com ele e com o ator do prêmio Braskem… Nossa, super transaria. E ele me diz que também nunca quis saber de dois ao mesmo tempo. Sei lá, ele gosta de exclusividade, de fazer bem feito. Mas que comigo e com o ator que ganhou o prêmio Brasken… Nossa, até que não seria má ideia.

E ele pega no pau, pensa que eu não vejo. Será que ele tá excitado? E eu, nossa, eu tô com muito calor. Ele não vai ver se eu tirar essa bermuda jeans que sufoca as minhas coxas. Não tenho culpa dos setenta e oito graus de Salvador. A camerazinha só me pega dos ombros pra cima. Logo, se eu tirar a bermuda, ele não vai ver! Mas eu estou com a camiseta que comprei semana passada e o short do pijaminha. Não existe bermuda. Caramba, então por que essa vontade de tirar a bermuda? Não sei de nada, só sei que ele é um homem bonito, interessante, inteligente, bem-humorado, ganha bem, charmoso, pegador. Não precisa trepar com outro homem pelo Skype. E eu, bom, eu tenho aí uns três ou quatro amiguinhos que me visitam num desses dias mais calorentos. Jamais na vida precisei trepar com uma camerazinha, com a imaginação e com umas frases seguidas por emojis felizes, surpresos e amarelos.

Ele me mostra um livro de Marília Garcia. Eu mostro um livro de Paulo Mendes Campos. Nossa conversa literária não dura dois minutos: ele quer putaria. E ele quer voltar ao assunto do sexo a três, com o ator do prêmio Braskem. E eu comento, assim, na brincadeira, juro, que eu queria experimentar o tal ator, mas só se ele estivesse comigo também. E ele para de falar comigo alguns segundos. E acende outro cigarrinho de maconha. E bebe mais um gole do chazinho de hortelã. E mexe no cabelo. E então ele volta e fala que adoraria me ver, assim, na brincadeira, ele jura, experimentando o tal ator.

E eu começo a achar que essa conversa tá indo longe demais, sabe? Caramba, sexo pela internet é tão MSN. É tão adolescente. É tão 2006. É tão internet discada. É coisa desses caras meio doentes, não? Desses caras preguiçosos que preferem bater uma rapidinha do que levar alguém pro motel. E desses garotos feios e tímidos. É coisa de gente que não tem capacidade pra conquistar ao vivo. Ou de nerd com espinha que joga vídeo-game o dia inteiro, sei lá. E ele é um puta publicitário. E ele é um puta escritor. E ele é um puta roteirista. Não é nerd, não é feio, não é tímido, não é preguiçoso. E eu sou maior legal. E dei uma melhorada nos últimos anos.

E ele vira o último gole do chazinho e coloca a xícara na mesa. E lambe os lábios. E passa, pela trigésima vez, a mão pelos cabelos. E me manda um beijo. E eu enlouqueço naqueles cabelos e naquela boca e naquela língua. Mas já são quase quatro da manhã e a gente tá meio bêbado e ele mora em Vilas. A coisa que eu mais queria era estar lá com ele, bebendo chazinho, fumando com ele, passando a mão naqueles cabelos, mordendo aquela boca. E então, imediatamente sem pensar, ele escreve “enquanto você beija ele, eu beijo o seu corpo inteiro”. E eu, imediatamente sem pensar, respondo “enquanto beijo ele, é o seu gosto que eu sinto”. Depois disso, a coisa piora muito. Escrivaninha, sofá, corredor, armário da cozinha, elevador, piscina. A gente transa loucamente em todos os lugares possíveis. Eu, ele e o ator do prêmio Braskem.

Eu, que jamais pensei em fazer sexo virtual e muito menos a três, quando vi estava fazendo os dois ao mesmo tempo. Lembrei da série Looking, depois lembrei da série Queer as Folk. Os personagens que faziam isso eram descolados demais pro meu gosto. Mas tudo bem. Agora eu estava na pia da área de serviço, ou melhor, em cima da máquina de lavar. Não era a melhor hora pra pensar em série. No fim das contas ele brochou. Ou melhor: a imagem travou e ficou lenta, o que dá no mesmo que brochar. E no dia seguinte, ele fez o que todo homem sempre faz comigo: sumiu. Não apareceu no Skype, não respondeu mensagem, não atendeu o telefone. Ele simplesmente sumiu. É impressionante como até a maneira de fazer sexo mudou, mas a dificuldade em entender relações continua igual desde o tempo das cavernas.

Minha única dívida é um pedido de desculpas

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Há pelo menos seis meses, toda terça-feira, oito e trinta e cinco da manhã, recebo uma ligação do Bradesco: “Senhor Gilberto Costa, temos uma oportunidade irrecusável pro senhor parcelar e liquidar a sua dívida no banco”. Eu sempre dizia ao atendente que eu não me chamava Gilberto Costa e desligava o telefone. Mas, há pelo menos três meses, toda terça-feira, quatro e trinta e cinco da tarde, recebo outra ligação do Bradesco, sempre atrapalhando aula, reunião, sexo, cinema, lançamento de livro, aniversário, dor na emergência. É uma ligação mais enérgica como: “Senhor Gilberto Costa, caso o senhor não parcele a dívida até o dia 29, seu nome será encaminhado para o Serviço de Proteção ao Crédito”.

Já expliquei que nunca me chamei Gilberto Costa, que nunca ouvi falar nessa criatura. Não é primo, não é irmão, não é pai, não é namorado, não é. Já implorei pra excluírem meu número desse mailing de devedores. Até que semana passada, uma dessas atendentes, uma alma bondosa, sentindo o peso na minha voz de sofreguidão, fez uma leitura de honestidade no meu discurso de quase uma hora: “mas o senhor não deve nada mesmo?”. Desliguei o telefone sem sentir culpa. Em nenhum espacinho de cérebro existia culpa: eu não devia a absolutamente ninguém. Nem um almoço a uma amiga, nem uma cervejinha a um amigo, muito menos a um banco. Eu não devia a absolutamente ninguém.

Tomei banho, lavei a louça, dobrei algumas roupas, molhei as plantas e passei mais da metade do dia com a pergunta da atendente de alma bondosa: “mas o senhor não deve nada mesmo?”. Um carro do ovo passa lá longe. Esse carro não sabe, mas foram quase oito anos ouvindo você imitar a voz do homem que fala no microfone do carro do ovo. E nos últimos cinco anos eu passei a ouvir carros e passei a ouvir gente bêbada e passei a ouvir buzinas e passei a ouvir ruas e não ouço a sua voz. Mas a sua voz existe e não imita mais o carro do ovo e não me diz nada. Eu sei, você é chato, idiota, irritante e grosseiro, e eu vivia com nojo de você porque você nunca lavava as meias, mas você conseguiu o que o mundo inteiro nem quis tentar: você me amou de verdade.

Lembrei que, por anos, você foi o único que entendeu as minhas angústias no Réveillon. O único que entendeu as minhas angústias sempre quando apagavam as luzes pra comemorar qualquer aniversário. E o único que sempre permitiu também, depois, que eu chorasse sem me pedir pra parar, sem me achar louco. Eu sempre alérgico, com enjoo, reclamando, e você sempre entendendo tudo. Outro dia eu encontrei um vídeo, de 2012, num pen drive antigo. E lá você me pedia em casamento, de brincadeira, no meio de todos os meus amigos. Senti um misto de saudade e de melancolia ao assistir o vídeo incontáveis vezes em menos de meia hora. Mesmo vendo você como amigo e tratando todo o resto como o homem da minha vida, você me mostrou que todos sempre foram meninos perto de você.

Lembrei que, por anos, mesmo enxergando você apenas como amigo, eu desmarquei jantares e cinemas com todos os meus namorados e fui ao Bailinho de Quinta com você. Porque você sempre sentiu a energia da banda da mesma forma que eu sinto. Porque você sempre pulou e dançou e cantou todas as músicas de cor numa intensidade incrível, como se não fosse viver no próximo segundo.

Depois lembrei de você, largado no sofá da casa de Bia, meio morgado de tanto fumar maconha. Você com um daqueles óculos azuis espelhados típicos de maconheiro, e eu com o All Star todo rabiscado com nomes de banda de rock, com as pernas em cima das suas. Eu não sei por que exatamente eu não te pedi desculpas quando não apareci na sua formatura. Você passou meses falando disso comigo e me ligou a noite inteira querendo saber se ao menos eu não iria aparecer na festa.

Eu não sei por que exatamente eu não te pedi desculpas quando te deixei de cueca na cama, menti que ia ao banheiro e fui embora. Foi a primeira vez que tinha acontecido uma coisa mais quente entre a gente e, na real, eu que tinha provocado. Ou quando eu te pedi companhia quando meu namorado estava viajando e você me olhou querendo dizer “eu só sirvo pra isso, né?”. Também não sei por que eu nunca te pedi desculpas quando eu deixei você sozinho no hospital naquele dia que sua mãe estava morrendo com cetoacidose. Eu deixei um bilhetinho ao lado da sua mochila escrito “tô com muita dor no estômago”, mas era tudo mentira. A verdade é que eu tinha ido pra casa assistir Dexter e comer brigadeiro de panela.

Aí depois lembrei que você, depois de um tempo, finalmente tinha cansado das minhas angústias e dos meus enjoos e das minhas alergias e das minhas fugas e das minhas ausências, principalmente das minhas ausências de pedidos de desculpas. E você foi embora. Você mudou de casa, de carro, de emprego, de roupa, de amigos e, finalmente, mudou comigo também. Você, finalmente, se apaixonou por um cara sem alergia, sem enjoo, sem angústia e esqueceu de mim.

Eu tenho saudade de duzentas coisas e todas essas duzentas coisas sempre me levam pra mesma única coisa de que eu tenho muita saudade. Eu tenho saudade de tudo. De você me carregando no colo até a casa da minha mãe. E das sopas. E os soluços. E o choro baixinho. E as suas taquicardias estranhas no meio da noite. E a vontade de te jogar debaixo do chuveiro quando você começou a gostar daquele cara que sabia inglês, sabia francês, sabia discotecar, sabia escolher sapato, mas não sabia cuidar de você. E a vontade de te sacudir e te dizer pra acordar pra vida. E o meu nó na garganta quando eu te deixei no aeroporto. E a saudade quando você viajou. E o meu ciúme quando você me mandou fotos com os seus novos amigos da Tailândia. E a minha ansiedade ao te esperar na fila de desembarque. E o seu sorriso sem jeito tentando esconder a sua raiva por causa dos meus atrasos. E a sua risada descontrolada quando eu falava algum sarcasmo.

Eu já namorei tantos caras, mas não eram deles que eu gostava. Juro, eu tentei gostar muito deles, tentei me divertir, tentei dançar com eles até perder o fôlego em todos os shows do Bailinho de Quinta, mas eles não mexiam comigo. Eu não consigo ficar com eles além de meia hora. Eles não têm a sua ânsia de começo de festa e sua energia de fim de festa. Não são eles. Esse texto é meu pedido de desculpas pra você, esse homem chato, idiota, irritante e grosseiro. É pra você, o homem que imitava o carro do ovo. O homem que me pedia em casamento. O homem que me fazia feliz de verdade. É a minha tentativa de quitar a dívida. É a minha tentativa de consertar todas as vezes que fui chato, idiota, irritante e grosseiro, mesmo sabendo que essas coisas, uma vez que foi, a gente não conserta mais.

Mas eu não suporto ela

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Encontrei, dentro da Zara, uma chata com quem eu trabalhei há três anos num freela pra um jornal. Cheia de pulseiras e brincos e colares pesados. Salto agulha gigante fazendo barulho a cada passo, batom rosa choque na boca, decotão e meio litro de perfume no meio dos seios. Pensei que a chata me faria aquelas velhas perguntas previsíveis de quem se encontra por acaso, depois me daria um beijo no rosto e cairia fora, afinal, a gente nunca teve intimidade. Mas ela foi além.

Falando cuspindo, falando tocando, ela me mostrou duzentas fotos do filho no Instagram e, não satisfeita, me fez ver os vídeos do bebezinho dizendo “papai”, enquanto comia papinha de banana, o que me obrigou a fazer carinhas fofas. Falou que Dom, um Shih Tzu da família, anda aprontando muito dentro de casa e que ninguém consegue controlar o vício dele de rasgar papel higiênico, o que me fez dar dicas de como educar cãezinhos. Disse que sente saudades dos três meses que morou na Europa “porque lá é outro mundo”, o que me obrigou a aconselhá-la a economizar dinheiro e, quem sabe, voltar pra lá. Quando eu já não aguentava mais ser uma espécie de coaching de vida para ela, passei a repetir entre um diálogo e outro expressões como “Nossa”, “Sério?”, “Não acredito!”, “Meu Deus” automaticamente.

Ela quis saber sobre minha vida como jornalista, quis saber sobre meu namorado, quis saber se morar na orla era caro, quis saber minha opinião sobre a novela das nove, quis saber, quis saber, quis saber. Me irrito porque, sempre que ela conversa, parece ter acabado de sair da primeira aula de teatro de um curso vagabundo de bairro. Os olhos arregalados como se estivesse tendo um AVC, o peito ofegante como se seus sentimentos fossem exclusivos e incríveis. As mãos dançando pelo ar como uma bailarina de programa de auditório mal-produzido. Sempre marcando os dentes de verde neon, numa risada exagerada.

Pra não parecer antipático, elogiei a pele dela, o cabelo dela, a roupa dela. Disse pra combinarmos algo qualquer dia desses: “quem sabe um café, hein? Pra colocar o papo em dia”. Enquanto sorria para a chata, eu disse silenciosamente: “fica esperando por esse café, vaca”. Por fim, ajeitei o cachecol da criatura, alisei o ombro dela e falei que Salvador continua bipolar como sempre: não sabe se faz sol, não sabe se chove. Quando pensei que enfim me livraria da chata, ao contar a mentirinha “estou muito atrasado, mas vamos nos falando”, ela segurou meu braço querendo saber em qual loja comprei meus sapatos porque eles eram muito bonitos. Expliquei que vi numa lojinha virtual, me apaixonei e comprei. Ela pediu, com a testa franzida, que eu mandasse o link porque pensou em dar de presente um par parecido ao marido. Enquanto eu sorria para a chata, eu disse silenciosamente: “fica esperando pelo link, vaca”.

Ao dar as costas e revirar uma arara de roupas, me culpei: MAS EU NÃO SUPORTO ELA. Por que abracei aquela mulher, por que falei sobre minha vida, por que dei risada, por que sugeri um café, por que permiti que a conversa excedesse dez minutos, por que eu elogiei a pele e a roupa e o cabelo dela? Seria eu, então, uma daquelas pessoas falsas pra cacete? Seria eu, então, o rei da falsidade? Seria eu, então, a pessoa mais cretina do mundo? Cheguei até mesmo a correr pela loja para encontrar a chata e dizer a verdade: “a real é que eu te acho péssima”. Cheguei até mesmo a correr pelo shopping atrás da chata pra dizer que eu só queria ser simpático: “a real é que eu não te suporto! Morra!!!!”.

Quis encontrar a criatura e falar que o cachorrinho dela um dia morreria entalado de tanto comer papel higiênico, que a pele dela parecia um mix de arroz doce com doce de leite: entupida de tanto cravo coberta com base líquida; que o cabelo dela estava mais horrível do que quando a conheci – resto de tinta loira nas pontas dos fios imitando californianas que nunca existiram era o fim da picada. Quis anotar na agenda dela o número de uma amiga fonoaudióloga pra ajudá-la a melhorar a dicção, até porque, que porre aguentar o tempo inteiro ela falando pelo nariz, abusando das fricativas e lábio-dental. Quis pegar umas duas peças na seção feminina da loja e dizer: “veste isso aqui pra você ser menos brega, filhinha”.

Mas não encontrei a chata. E agora? Teria que conviver pra sempre com a angústia da minha consciência gritando “falso pra cacete”? Teria que ir, naquela loja, naquele horário, naquele dia, pelo resto da vida, até me esbarrar com aquela criatura? Ou teria eu sido movido por uma bondade repentina, simpatia repentina, afeição repentina, dominado pela psique que acredita no que se convém apropriado no momento? Passei oito horas do dia me culpando.

Corri para casa. Abri o Facebook. Chat, o meu parquinho de verdades. Queria dizer que não, eu não suportava ela. Queria dizer, sem medir as palavras, que a existência dela era desnecessária. Escrever que eu tinha pavor àquela mulher para aquela mulher me faria ser menos cínico, menos dissimulado. Digitei, assim meio rápido, concentradíssimo. Textão. Senti, mais uma vez, culpa. Parei de digitar. No cosmo da vida, no poço mais profundo do meu inconsciente, me perguntei o que aquela criatura fez de ruim pra mim. Seria uma antipatia de outra vida? Seria implicância minha? Por que eu tremia de raiva ao ouvir a voz nasalada dela? Por que eu não aceitava, de bom grado, que ela pudesse ser brega, mas ser uma boa pessoa? Achei violência gratuita. Apaguei o textão e mandei o link da lojinha virtual. Aconselhei a compra dos sapatos à vista pra poder ganhar desconto. Me senti uma pessoa má, escrota, desumana. Passei oito horas do dia me culpando. Ao secar o cabelo com a toalha, pensei: “Coitada, aquela criatura chata nunca me fez mal algum”. Abri o Facebook de novo. Chat, o meu parquinho da redenção. Marquei um café com ela na terça.

O que você vai fazer mais tarde?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

“Ele também gostava dessa bebida”, ele disse, ao meu lado, no balcão do Bar Cravinho, encostando as pontas dos dedos no meu braço, enquanto eu pedia, no calor e no aperto, uma dose de Senzala. Ele quem? Quis perguntar, mas fiquei sem reação. Eu tinha ido a um show com uns amigos no TCA e tudo o que eu mais queria, agora que estava sozinho, era beber um pouco. O trânsito do Campo Grande até o Centro Histórico, sempre tão calmo, estava ruim. Fiquei preso por mais de meia hora num congestionamento na Avenida Sete. Aí, quando eu finalmente chego e peço uma dose de Senzala, ele encosta as pontinhas dos dedos no meu braço e, como se fosse um velho conhecido ou como se eu soubesse toda a história que ele tem na cabeça, larga essa: “Ele também gostava dessa bebida”.

Minha curiosidade pra saber de quem ele falava foi contida porque ele logo continuou: “Foi aqui que a gente se conheceu. Neste mesmo balcão. Há oito anos. 12 de março de 2009. Hoje faríamos oito anos juntos. Até que há três anos… Nem gosto de lembrar disso. Talvez tenha sido melhor assim. Talvez ele esteja num lugar bem melhor”. Ele então baixou a cabeça e, discretamente, consegui ver uma lágrima presa nos olhos. Havia um silêncio alto entre a gente, entre um diálogo e outro, quando o desabafo foi interrompido pelo atendente do bar que me entregou a bebida. As pessoas andavam para lá e para cá, as pessoas faziam pedidos, as pessoas riam e falavam mais alto do que de costume, as pessoas seguiam suas vidas. No meio da confusão do bar e do nó na garganta, consegui expulsar um “força”. “Eu agradeço. Mas até que hoje em dia me sinto melhor. Não que eu tenha me conformado, porque eu ainda sinto muita saudade dele. E quem sente saudade não se conforma nunca. O problema é que com o tempo a gente vai sentindo falta das pequenas coisas. Essas pequenas coisas vão se juntando e crescendo e crescendo, crescendo tanto que começam a ficar difíceis de suportar. Mas a gente acaba suportando”. “Tipo datas especiais?”. “Antes fosse isso. Eu sinto falta do cheiro do cabelo dele no travesseiro. Não é o cheiro do xampu que ele usava. Talvez seja a mistura do cheiro do xampu com o cheiro natural do cabelo. Mas o certo é que eu procuro, procuro, todos os dias eu procuro, só Deus sabe o quanto eu procuro, mas não acho esse cheiro em lugar algum. Não vende na farmácia”. Concordei com a cabeça enquanto dava goles curtos na bebida. Aproveitei o silêncio pra saber: “Você guardou as fotos que tirou com ele?”. “Todas. Até mesmo as que ele se achava feio. Olhar essas fotos me faz bem. Mas são fotografias de lugares que a gente ia, sabe? Fotos com poses, com sorrisos de foto, sempre muito bem arrumado. Por exemplo, tem foto da gente no terceiro casamento da minha mãe, na nossa viagem pra França, na cobertura do W. Zarzur, tomando um sorvete na Cubana. Mas ele não era daquele jeito, entende? Óculos escuros no rosto, camisa bem passada, cabelo lambido. Ele não era. Eu queria imagens dele fazendo as coisas que ele sempre fazia, as coisas que ele gostava de fazer, por exemplo, ler com toalha. Eu não tenho foto dele, distraído, lendo de toalha. Não tenho uma foto dele arrumando os livros na estante, mas tenho foto dele num restaurante que a gente nunca ia e nunca voltaria. É estranho. Eu me arrependo de não ter uma foto dele no supermercado escolhendo fruta, colocando iogurte no carrinho. Eu tenho essa imagem dele na cabeça, mas eu nunca registrei. Por que eu não tenho uma foto dele, descendo do ônibus, todos os dias, sorrindo pra mim? Por que a gente não registra essas imagens se são essas imagens que no fim das contas valem a pena? A foto que eu mais amo dele é uma que tirei no terraço do Glauber Rocha, olhando a Baía de Todos-os-Santos. Eu acho a vista de lá maravilhosa. O problema é a fiação elétrica. Esses fios desordenados poluem qualquer resquício de doçura que possa existir. Mas você sabe o jeito que eu mais lembro dele? De samba-canção. Nossa, ele ficava muito lindo de samba-canção. Mas ele nunca ficava de samba-canção quando tinha visita, quando a gente ia tirar foto. Ele sempre saía correndo pra colocar uma bermuda e uma camiseta e ser quem ele não era. As fotografias fazem isso, né? Ou a gente que faz isso com as fotografias?”. “Não sei”. “Quer que eu pague outra dessa pra você?”. “Não precisa, obrigado”. “Hoje, mais do que todos os outros dias, me deu uma agonia, saudade dele. Aí vim pra cá, onde a gente se conheceu. E fico olhando pra porta. Fico vendo as pessoas passarem. Esse finalzinho de tarde é triste, né? Tá todo mundo cansado, cabisbaixo, voltando pra casa sem vida, jogado pelos cantos do metrô, se apertando nos ônibus. São corpos mortos perambulando pela metrópole. Era pra ele que eu contava tudo do meu dia. Isso me fazia bem, me fazia vivo, eu não era mais um corpo morto perambulando pela metrópole”. “E agora, você faz como?”. “Hoje faríamos oito anos juntos. Continuo sentindo falta dele todos os dias. Todos os dias. Conheci outros caras, rapazes bons, inteligentes, bonitos, sérios, com boa formação cultural, mas amor, amor mesmo, só com ele. Mas não tem mais ele, cê tá acompanhando? Nem nos lugares. A arquitetura muda e leva ele embora. Aqui nesse bar, por exemplo, não tinha aquele banquinha, não tinha essa pintura. Eu lembro bem: nessa hora assim, a gente tava se olhando, aqui nesse mesmo bar, ele tava ali no canto onde colocaram essa banquinha. E ele sorriu pra mim tão feliz, mas meio tímido. Ele era meio tímido mesmo. Eu gostei. Eu encontrei naquele sorriso a graça da vida. Eu via nele o homem certo pra ser o outro pai dos meus filhos. Aí eu fico aqui agora, assim, achando que a qualquer momento ele pode chegar. O bom da vida é que a gente pode inventar o tempo inteiro”.

Paguei a conta, dei um abraço forte e me despedi. “Vai dar tudo certo”. “Espero. De qualquer forma, taí uma história bonita pra você não desistir do amor. Você já amou alguém assim como eu amo? Você ama alguém? Você tem cara que ama. E ama muito”. “Como é ter cara de que ama?”. “Seus olhos brilham mais do que o normal”. “Ah”. “O que você vai fazer mais tarde? Vai voltar pra casa, mais uma vez, triste, e fingir que não se importa? Vai voltar pra casa, mais uma vez, com os ombros pesados, e de novo dormir soluçando, aguentando não aguentar, se dizendo que uma hora isso passa? Como é encostar a cabeça no travesseiro, todas as noites, sentindo culpa, falta, um vazio? Liga pra ele. Você tem cara que tá sempre sabendo de tudo, né? Então. Fala que você sente falta. Fala que ele mudou alguma coisa na sua vida. Sai pra jantar. Aproveita o mundo com ele porque a arquitetura muda, a arquitetura estraga o passado. Depois cê volta pra casa, tira várias fotos dele, distraído, das coisas que ele sempre faz, das coisas que ele gosta de fazer. Eu não posso, mas você ainda tem essa chance”.

O amor em tempos de WhatsApp

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

20h57 — Eu fui ao clínico e ele achou estranha essa dor que eu sinto no flanco. Eu acho que é problema renal. Ele acha que é só espasmo muscular. Não sei. Daí ele pediu uns exames. Até hoje não saiu o resultado. Fico angustiado pensando nisso todas as vezes que sinto dor no flanco.

21h01 — Eu tava com tanta fome que comi de uma vez só toda a comida que eu trouxe na mochila pra comer o dia inteiro na Ufba. Era uma fome imensa. Eu tô sempre com fome.

21h02 — Hoje eu passei por uma daquelas academias com fachada de vidro, na Orla, e me empolguei um pouco. Sei lá, aquelas pessoas parecem tão dispostas correndo na esteira pela vitrine, com um objetivo, mais felizes do que eu. Você acha que eu engordei um pouco? Você acha que eu ficaria bonito com os ombros mais definidos? Sinto minha barriga maior, o abdômen estranho, a pele do braço mais molinha. Ter vinte e seis anos é um problema.

21h20 — Eu não acho que você está gordo. Eu acho que você sempre está bonito. Eu é que nunca me achei bonito. Alinhei a barba, comprei umas roupas, mas não sei. Você reclama dos vinte e seis porque nunca teve trinta e dois. Você acha que eu me visto bem? Nunca me achei interessante pra você.

21h21 — Eu amo a sua camisa polo branca que tem uma mancha amarelada de desodorante debaixo da manga.

22h01 — Não é só de roupa que eu tô falando.

22h02 — Você me perguntou: “você acha que eu me visto bem?”. Às vezes eu não consigo entender você.

22h17 — É de música, cinema, teatro, lugares interessantes. É disso que preciso me vestir. Eu poderia saber de cor todos os filmes que concorrem ao Oscar. Melhor: eu poderia dar bons palpites sobre os filmes que merecem ganhar o Oscar. Eu poderia saber criticar um texto de uma peça apresentada no Martins Gonçalves quando eu te acompanho. Mas a única coisa que eu sei falar é sobre essas séries populares da Netflix.

22h18 — Eu também assisto as séries populares da Netflix.

22h25 — Eu sei… Mas eu vejo você tão culto com sua turma culta falando tão bem sobre Almodóvar e Chico Buarque numa rodada de cerveja no Meia Oito e eu me sinto meio pra baixo. Eu não consigo acompanhar você. Eu deveria assistir mais filmes de arte. Eu sou um cara meio sozinho, eu deveria ver mais filmes de arte.

22h26 — Você sempre dorme quando assiste um filme de arte comigo. Da última vez roncou no cinema e as pessoas começaram a olhar pra minha cara e eu fiquei morrendo de vergonha.

22h49 — É que eu vivo com sono. Tipo agora. Tô caindo de sono aqui. Tenho que ir. Depois a gente se fala.

22h26 — Você devia começar vendo um filme chamado O Lobo da Estepe. É sobre Harry Haller, um cara solitário e cheio de conflitos pessoais que não consegue se relacionar com ninguém. Ele parece muito com você. Eu sempre me relaciono com homens que não sabem se relacionar. Mereço sair no Guinness.

22h31 — Quinze dias pra entender o que está acontecendo, pra você, é não saber se relacionar?

22h31 — Você funciona por deadline. O amor não é feito de prazos.

22h33 — Você me deu de presente de Natal uma caixa com discos do Caetano Veloso e não mexo nisso porque preciso continuar provando para as pessoas que trabalham comigo que eu sou um cara forte. Se vamos nos tornar inimigos, amigos, se vamos casar, não sei, de verdade. Te pedi quinze dias, só passaram seis. A gente não deveria se falar, se ver, revirar Instagram e Facebook, mas você não respeita esse tempo. Só sei que eu quero ficar sem te ver por esses dias. Eu deveria ter saudade de você o tempo todo, mas eu não tenho. Eu deveria te ligar quando eu chego da agência, mas eu não ligo. Eu deveria te dar tantos presentes bonitos. Eu deveria fazer terapia. Minha cabeça roda muito, minha nuca dói muito. Eu deleto tudo que eu não consigo resolver. Eu deleto você. Saber que você sofre porque eu sofro toma uma proporção enorme dentro de mim. Nesses seis dias eu precisei me esforçar muito pra não pensar em você porque precisava mostrar pra aqueles caras que eu não sou um moleque, que eu consigo ter uma relação séria com alguém. E esse alguém é você. E não dá pra mostrar isso pra eles e pra você ao mesmo tempo. Ter trinta e dois anos é um problema. Você quer que eu vá te buscar no jornal semana que vem? Quer dormir lá em casa? Eu faço café da manhã pra você. Eu quero que a gente dê certo. Eu não sei assim dizer que te amo, aqui, agora, mas eu já anotei no bloquinho do celular como meta pro ano que vem. Eu não quero te perder. Eu só quero quinze dias. É difícil?

22h34 — Quinze dias, pra mim, é uma eternidade. Uma hora sem você, pra mim, é o maior descaso que pode acontecer no mundo. Às vezes eu acho que esse tempo que você me pediu nada mais é do que a desculpa cruel e vagabunda de colocar fim no que a gente tem, mas você não sabe como. Eu preciso saber se você comeu bem, se você acordou bem, se você chegou em casa bem. A droga do trânsito que atrasa a sua vida, a falta de ânimo pra beber com seus amigos no fim de semana, sua falta de paciência pra esperar a comida descongelar no micro-ondas, sua preguiça de pegar um café do lado de fora da sua sala. Eu preciso saber dessas coisas o tempo inteiro. Fico roendo as unhas se você não me conta cada minuto do seu dia. Gente que ama como se estivesse seguindo um manual de instrução me irrita. Você tá gostando de outro cara? Não me conta, por favor.

22h37 — Eu não consigo ver você chorando, no banho, depois que a gente transa, e continuar fingindo que está tudo bem porque não está. Eu não consigo dar o amor que você espera. Uma vez você me disse que faltava entrega, doação, intensidade, romantismo, que eu estava sempre montado numa armadura do amor. Eu não gosto de ser o homem de ferro, mas eu sou esse homem. Mas se eu sou esse homem, o que eu posso fazer? Eu queria muito lembrar de datas, as nossas datas. Eu queria muito ser aquele cara que te leva espontaneamente pra esses restaurantes charmosos que você tanto gosta. Aquele cara que faz declaração de amor todos os dias. Mas eu acabo sendo o namorado que some o dia inteiro. Não é porque eu quero. Não é charminho. É que eu sou meio desligado mesmo. É que ando entupido de obrigações e prazos apertados. Me sinto mal por ver nos seus olhos essa dor, por ver nos seus olhos, no banho, depois que a gente transa, que você quer mais do que sexo. Eu quero aquela relação dos primeiros dias. Aquela relação que era só poesia, vinho, pizza, que o sexo ficava em segundo plano. Você merece uma relação que seja mais do que sexo, cê tá entendendo?

22h38 — Eu choro no banho, mas, antes disso, eu amo chupar seu pau.

22h45 — Eu amo quando você chupa meu pau… Não quero lembrar disso agora. Não estou bem. Preciso mesmo ir. Depois te chamo.

22h46 — Eu não consigo esperar por quinze dias pra saber o que está acontecendo. Minha ânsia de amar é tão grande que me apaixonei criança pela fumacinha da vela do meu bolo de aniversário e até hoje fico olhando pro ar pegando tudo que vejo pela frente pra tentar preencher essa falta. Eu vi em alguém, pela primeira vez, a fumacinha da vela. Eu vi em você, pela primeira vez, algo que pode preencher a falta. Eu inventei você. Eu inventei o amor. O maior troco que um personagem pode dar ao roteirista é passar a ter vida própria. Eu não respeito os seus quinze dias. Pra mim não importa se você não entende a gente. Não importa se você não me entende.

23h51 — Você diz que me ama, mas quem ama espera. Quinze dias ou dez anos. Você tem um roteiro de filme de arte na cabeça. Nesse roteiro, você criou um homem que se veste como você imagina, que gosta do que você imagina, que segue as cenas que você imagina. Você tem uma varanda na sua cabeça. Uma varanda com um homem sentado numa poltrona no centro dela. Esse homem tem uma xícara com café preto sem açúcar, uns livros de Dostoiévski empilhados na mesa, uns vasinhos de flores ao redor, um tapete persa e um quadro. Esse homem fuma maconha o tempo inteiro. Ele tem algo intelectualizado, meio pilhado, angustiado, de esquerda. Você não ama esse homem, você ensaia com o ator a cena que tem na sua cabeça. Esse homem pode te amar muito, mas você não consegue ou não quer entender que a forma dele te amar é completamente diferente da sua forma de amar, porque você simplesmente não aceita as improvisações da vida e se prende ao seu roteiro. Você quer saber exatamente o que eu gosto desde que seja exatamente o que você quer que eu goste. Você quer que eu saia com você, mas você quer ir exatamente aonde você quer ir. Seus cenários, suas idealizações banais. Você diz que sou frio, mas frieza mesmo é usar o outro pra ficcionalizar a relação que você sempre quis ter. Quinze dias não é descaso. Descaso mesmo é desconsiderar a outra pessoa como você faz. É querer tudo no seu minuto. É coagir a outra pessoa. É impor a sua realidade e os seus desejos como se eles fossem mais importantes do que a realidade e os desejos do outro. O maior troco que um personagem pode dar ao roteirista é passar a ter vida própria e eu tenho vida própria e você não suporta esse troco. Toda a sua arrogância não foi capaz de controlar o mundo e então você anda por aí dia após dia com suas raivas e ironias e sarcasmos e cansaços e dores no flanco. Como se todo mundo te devesse perdão eterno por não seguir a sua escaleta. Estar numa relação é ser humilde. O amor é bem mais do que isso que você sente. Isso é vontade impulsiva e vontade impulsiva torta. E porque não é amor, você planta uma sementinha que não é semente e fica olhando a terra até a primeira folha nascer. Você olha o vazio e se entrega ao vazio onde sua folha idealizada nunca nasce e nem nunca vai nascer.

23h52 — Agora quem precisa ir sou eu. Daqui a nove dias a gente se fala.

Nossa, como você tá bonito! É sexo?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Tênis surrado, camisa grande e barba por fazer. Esfriou um pouco e a vontade imensa de cair num balde de gelo finalmente vai embora. O casaco fininho cai, deixa os ombros um pouco à mostra e, por algum motivo que desconheço, desperto atenção de quem passa pelo corredor do prédio. “Que pele incrível é essa?”, já logo no elevador. “Ah, deve ser o protetor solar”. Bom dia, bom dia. “Murilo, o fim de semana foi bom, né? Ninguém acorda com essa cara bonita na segunda!”, ouço de seu Augusto, meu síndico, ​ao passar pela portaria. “Ah, devo ter dormido bem, finalmente!”. Bom dia, bom dia.

“Olha, você tá muito bonito hoje”, as pessoas falam no jornal. Um olha, comenta, outro concorda. Bom trabalho pra você, bom trabalho pra você também. No café, sorrisos e olhares admirados dão continuidade aos elogios. O que é? Que novidade é essa? Com quem ele está saindo? Que segredo ele guarda?  

Em frente ao computador, em paz, escrevendo a matéria, um ou outro chega sutilmente e tira a minha concentração. “Nossa, como você tá bonito! É sexo?”, as pessoas supõem. “Não tá reclamando de nada esses dias… É sexo?”, as pessoas brincam. “Ah, conta. Quem é o cara? Como ele é? É jornalista também? É arquiteto de novo? Alto, baixo, forte, magro, tem pancinha e barba… Como ele é? Vocês estão namorando? Se conheceram em algum aplicativo? Deixa eu adivinhar… Tinder? Vocês vão a um daqueles restaurantes do Rio Vermelho? Você nunca mais falou dessas suas histórias. Fala, quem é o cara que você tá saindo?”, meus amigos querem saber.

Ao andar na rua perguntam: voltou de viagem? No supermercado perguntam: voltou com alguém? É ele, aquele cara que você era completamente apaixonado? No bar, bebendo sozinho, a garçonete que sempre me atende quer saber quem vai chegar: ele vem? Na mesa em frente, um namorado antigo me vê e levanta pra cumprimentar: “Nossa, como você deu uma mudada. É sexo todo dia? Conta vai, eu aguento ouvir”. Contar o quê, gente?

No espelho do banheiro, depois de cantar mil vezes músicas recém-baixadas dRadiohead, depois de cuspir o creme dental, fecho os olhos, respiro fundo e me conto o segredo: ninguém. Não gostar de ninguém. Nem um pouquinho. Nem daquele cara de quase três anos, nem do outro de duas semanas, nem o do bar e muito menos daquele de uma noite. Nem da história incrível que acabou mês passado e nem da história incrível que possa começar mês que vem. Nada. Não gostar de ninguém. Nenhum ser no mundo me interessa. Essa pele linda não é sexo. É o resultado de uma hidratação incrível na alma que é se dar um tempo, se permitir, se conhecer, pra tentar entender quem a gente é. Sozinho, em paz. Agora dedico a minha vida inteira pras minhas futilidades tão amadas. A partir de agora uma vida inteira sem lamúrias, sem ansiedade, sem entrega ao outro. Sozinho, em paz.  

Um coração que bate mais calmo, sem desespero, se importando em mandar sangue para os momentos felizes de trabalho, cinema, estudo, teatro, terapia, massagem, sono, jantar com amigos, pilates, viagens, revistas, comer, escrever, rir, cabelo, roupas, séries, comprar, ler. É isso. Uma agenda imensa que me ocupa em ser o que gosto de ser e nem sequer sobra uma linha de dia pra lamentar existências e faltas e angústias. Uma agenda imensa pra tentar descobrir o que eu quero de verdade, pra saber o que eu vou fazer daqui a dez minutos ou dez anos. Pra enxergar a vida e gostar da vida. Pra dormir transbordando do que me faz bem e do que me faz continuar.

Eu não quero ser como o meu amigo que se descabela todos os dias pra manter um namoro que já acabou há tanto tempo e só ele não percebeu. Eu não quero ser como a minha vizinha que vive discutindo com o namorado no elevador porque ele não dá atenção que ela espera. Eu não quero a loucura d​a mensagem visualizada e não respondida, o stalker no Facebook, a ansiedade da ligação que não chega dele, bêbado, na madrugada, porque tudo parece ser melhor do que o silêncio. Tudo isso me deixa muito feio.

Com essa pele linda, eu sigo. Sem reclamar da vida, eu sigo. Bonito e feliz como nunca me viram. Com o pijaminha de bolinha que me deixa confortável, eu sigo. Dia após dia me esparramando no sofá, com um balde de pipoca, assistindo Please Like Me, sem precisar ser simpático com ninguém. Eu posso dormir até a hora que quiser sem precisar cobrar um pouquinho de amor e sem ficar esperando por um pouquinho de amor.

​O que antes eu tinha mais medo de falar e aceitar, agora eu repito em voz alta sem nenhum assombro: eu tô cada vez mais sozinho e em paz.

Agora que o Carnaval acabou

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Acertei comigo que não passaria desta semana. Quarta, cinco e meia da tarde. Depois que eu resolvesse o problema do ar-condicionado que quebrou e depois que eu resolvesse o problema do cara que fez um buraco na parede por conta disso e depois que eu resolvesse o problema do pintor que viria depois do cara que arrumaria o buraco na parede, depois que finalmente o ar-condicionado fosse consertado. Agora que o Carnaval acabou, e eu posso transitar pela cidade sem congestionamento e sem sentir odor de xixi em cada esquina e todo mundo pode fazer tudo porque não existe mais a desculpa do “ah, é Carnaval”, eu posso resolver todos os meus problemas no mundo.

Quarta, cinco e meia da tarde. Depois que eu resolvesse o problema da grana alta que tenho que arrumar em um dia pra pagar a um amigo que já devo há seis meses. E eu contando cada centavo de todos os bolsos da calça pra pagar dezenove e noventa da minha conta da Netflix. Para isso só pedindo empréstimo ao banco. Minha gerente fala quase dormindo porque tá sempre de ressaca por causa de “uma festa de ontem”, imagina com esse Carnaval de cinquenta dias? Ela provavelmente vai trabalhar desmaiada com tanto álcool no sangue. Pra piorar, meu nome tá no vermelho no Banco do Brasil e, talvez, a única coisa que eu consiga é uma proposta de parcela de dívida em 200 vezes. Tenho 26 anos e nem um centavo na conta.

Quarta, cinco e meia da tarde. Depois que eu entregasse o relatório da pesquisa da Universidade. Uma tarefa que só um ser sem dormir, sem comer e sem vida seria capaz de cumprir. E eu cumpri. Dormindo, comendo e com vida. Depois que eu mandasse a proposta do curta para a produtora que exige tudo alinhadinho, formatadinho conforme pede o editalzinho e que me deixa bem irritadinho. Depois que eu resolvesse o problema do jornal que continua me pagando o equivalente ao pão com ovo na lanchonete da esquina. O problema do meu vizinho que não me deixa dormir porque tá sempre “dando uma festa pra uns caras da firma”. O problema do freela que não foi pago mais uma vez. O problema do outro freela que já deveria ter sido pago há semanas, mas não foi depositado porque o segurança noturno bateu punheta e limpou com o papel com o número da minha conta bancária e a contadora não soube o que fazer. E eu aqui com a minha vida cara.

Quatro da tarde preciso entregar o roteiro da peça de teatro em que eu colaboro. Mas ninguém me disse com clareza que porra eu tenho que fazer. Cria aí uma cena de sexo que seja aceita pela classificação indicativa de dezesseis anos. Sei. Posso escrever uma cena de suruba evangélica? Preciso inventar um jeito da minha personagem gostar de apanhar do namorado na cama, por pura safadeza, e eu não ser xingado pelas feministas internéticas. Não é fácil. Acertei comigo que não passaria desta semana. Quarta, cinco e meia da tarde, depois da agonia do Carnaval. Depois da endoscopia, do endocrinologista, da terapia, de fazer todos os exames de sangue que o médico pediu há meses, de comer um pouquinho pra não morrer. Agora preciso marcar tudo pra ontem porque meu plano bom vai ser cancelado e eu vou voltar pra aquele plano vagabundo em que às vezes o SUS é mais eficiente. Depois que eu acertar com o síndico a dívida de três meses do meu condomínio que aumentou o equivalente a morar em Londres. Aliás, queria tanto ir a Londres. Mas toda vez que junto dinheiro pra viajar pra fora do Brasil, eu preciso pagar alguma coisa. E o importante agora é pagar o porteiro, o jardineiro e o zelador pra eu não ser despejado.

Acertei comigo que não passaria desta semana. Quarta, cinco e meia da tarde. Depois desse inferno de Carnaval. Depois que eu resolvesse o lance de passar por todos os pubs e baladinhas alternativas do Rio Vermelho pra melhorar minha social e não receber mais mensagens de amigos que me acham um pré-suicida. Tenho que provar mais uma vez que não estou depressivo. Ninguém entende que ando com grana curta e, pra falar a verdade (pela trigésima vez), não tenho vontade alguma em virar noite no Rio Vermelho, longe da minha cama, marcando encontros, sempre cansado e com uma cerveja long neck na mão, em pé, entrando e saindo em casas de show, com gente que te enche de beijos e nem dá tchau na hora de ir embora.

A GVT me cobrou em duplicidade de novo, a Tim incluiu uma taxa na conta que nem eles sabem explicar, eu devo dinheiro pra todo mundo da minha família, nenhum ser humano do planeta me abraça e sorri antes de perguntar por que ando tão magrinho ou por que sumi de todos os lugares. Minha coluna dói pra caramba, minha lombar dói pra caramba, minhas pernas doem pra caramba, mas todos os fisioterapeutas do universo dizem que eu não tenho nada, que “é só postura inadequada pra andar, sentar e dormir”. Não é nada. Meu psicólogo pediu pra aumentar as sessões pra duas por semana, assim ele passa mais tempo comigo e tenta entender tanta coisa que nem eu consigo entender. Mas eu não tenho tempo e dinheiro nem pra uma, quanto mais pra duas. A faxineira daqui de casa chora porque mudei de quatro vezes por mês pra duas. Mas eu tô chorando porque não tenho dinheiro nem pra meia.

Escreveram “pau no cu” na poeira do carro do meu namorado quando a gente foi doar umas roupas para um centro espírita. Dramin, o remédio contra enjoos, me dá enjoo. Remédio natural fitoterápico para dormir só aumenta minha certeza de que essa merda não serve pra nada, cadê meu Rivotril? 0,75 mg resolve meu problema. Meu humor oscila e me enlouquece. Ora eu quero, ora eu não quero, não tenho fome de nada, quero comer, sinto nojo do mundo, o universo é lindo. E a quarta chegou, são cinco e meia da tarde. Não tem mais axé e gente bêbada vomitando na minha porta. Coloco Oasis pra tocar. Fecho as cortinas, apago as luzes, ligo o ar-condicionado. Vai, Murilo, sofre. Você precisa chorar um pouco, sofrer um pouco, lamentar um pouco. Vai. Você combinou que não passaria desta semana. De hoje. De agora. Você combinou que finalmente iria chorar pelo amor que não deu certo, pelo emprego que não deu certo, pelos projetos que não deram certo, pela sua raiva do mundo. Vamos lá, chora um pouquinho. Agora que o Carnaval acabou e junto com ele toda a alegria descabida, você pode chorar à vontade. Um, dois, três e… Vontade imensa de dormir. Posso remarcar?

 

O amor mora na Rua da Paciência

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Um casal na mesa ao lado pede uma sangria de vinho branco com limão-siciliano e morango. Às 19h30. Em plena terça-feira. Lá fora, pasme, acontecem congestionamentos e buzinas e ônibus cheios e pessoas cansadas e sonolentas e desamadas. Eu acho completamente louco. Quem, no mundo pós-moderno, tem tempo pra beber taças de vinho, no início da semana, sem pressa? Quem, na plasticidade do mundo, onde se relaciona como se estivesse seguindo um manual de revista, tem tempo pra acreditar em mãos dadas e encontros e conversas ao pé do ouvido?

Mando uma mensagem no WhatsApp pra Felipe: “eu acho completamente louco”. Eles sorriem sem olhar pros lados. Estão dentro daquela história, fazendo o próprio filme. Nada e nem ninguém interessa. Apaixonados, roupas bem passadas, pele linda. Transpiram cheiro de rosa, alecrim, manjericão. Quero levantar e pedir uma salva de palmas. Quero que a música de Chico não pare. Quero fotografar a cena. Quero fingir que conheço, acompanhá-los na mesa e pedir uma taça. Quero pagar aquela conta como um presente. Quero que o mundo inteiro pare pra ver e entender o sentimento mais lindo do mundo.

Eu havia acabado de sair da aula de literatura quando percebi que já era noite e eu não comia há cinco horas. Andei pelo Rio Vermelho e aproveitei que passava pela Rua da Paciência para matar a vontade da tortilha de batata com chouriço, pimentões, gorgonzola e abobrinha no La Taperia, um dos meus restaurantes preferidos da cidade.

Escolhi uma mesa discreta, fiz o pedido, abri o meu bloquinho e comecei a fazer listas — um velho vício que me acompanha desde a infância e que sempre volta quando minha vida vira uma profusão de incontroláveis pendências ou quando sinto o descontrole em cento e oitenta quilômetros por hora e preciso fingir que posso manter tudo sob controle. Marcar dentista. Responder e-mails. Mandar mensagens pros meus amigos pedindo desculpas por estar tão cheio de coisas pra fazer e não ter tempo pra nada. Ver o filme de Almodóvar. Ver, principalmente, o de Anna Muylaert. Terminar um artigo. Escrever mais um capítulo do livro. Revisar o capítulo anterior do livro. Combinar alguma coisa pro aniversário de Letícia, mesmo odiando aniversários e mesmo sem tempo pra organizar aniversários. Ligar para a assistência técnica da máquina de lavar.

Então o garçom desfila com aquela jarra de vinho branco, suada, e serve ao casal na mesa ao lado. Parei a caneta em cima do bloquinho no mesmo segundo. Hipnotizado, não consegui olhar pra outra coisa a não ser a mesa do casal. Chico tocando. Olho pelo canto dos olhos e percebo que eles não têm mais do que vinte e seis anos. Talvez vinte e oito. Ela vinte e seis e ele vinte e oito. Ou o contrário? Ou os dois com a mesma idade? O garçom serve as duas taças. Eles falam com amor sobre Gilberto Gil e Dostoievski. Planejam viajar para Espanha ou Chile em junho do ano que vem. Aqui e ali, ela divaga sobre como podem economizar. Depois, breve e delicado, ele cochicha algo no ouvido dela. Risos eternos. Será que ele comentou que ela está linda? Será que ele falou alguma sacanagem das boas? Será que foi uma piadinha interna? Ela gostou. Ele gostou dela ter gostado. Eles se olham nos olhos muito mais profundos do que antes.

Estou completamente apaixonado por aquele casal que fala com entusiasmo sobre escritores e músicos, que planeja viajar para o Chile, que ouve jazz e MPB, toma vinho sem pressa, esquece a vida lá fora, tudo isso no comecinho da noite de uma terça. Quase não consigo respirar. Sinto tanto amor dentro de mim que posso explodir com a quentura e bolinhas de corações vermelhas atingirem a Espanha. A sensação maravilhosamente absurda que é sair um pouco de dentro da gente e ver o outro. Ou, ainda, a sensação maravilhosamente absurda que é ver o outro e sentir dentro do fígado o que a gente acredita.

No segundo em que a inveja alcançou o pico mais alto, fechei o bloquinho — que se danem as minhas listas e pendências e todo o resto. Pedi uma sangria do mesmo vinho, sequer olhei as horas, e o item “Separar roupas que não quero mais”, de uma lista anterior, ficou pra depois.

Eu quero agradecer àquele casal. Me livrou do bloquinho, da rotina. Me fez companhia mesmo em mesas separadas. Me fez acordar para a vida que vale a pena. Aquela que se mostra mais bonita durante as pausas do que a gente se adaptou a chamar de vida, com minutos contados, com prazos que não são perdoados, em que cada passo está anotado em bloquinhos.

Agora toca Vinícius. Peço mais uma taça. Eles se beijam. Sem alarde. Natural, vivo, bonito. Numa fase em que todo mundo vai embora da minha vida porque é mais fácil desistir do que tentar continuar, ser espectador de romances desconhecidos me faz flertar com a ingenuidade, me faz sentir novamente um garotinho virgem de treze anos que acredita numa sinopse com final feliz. O mundo é de quem ama. De quem ama com paciência. O mundo é dos que bebem vinho branco com limão-siciliano e morango no comecinho da noite de uma terça-feira.

Quarta passada me achei muito sexy

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Um menino magricelo, de bicicleta, passou por mim voando no calçadão do Porto da Barra, na quarta, e gritou: “Olha a bike, tio!”. E eu ri, mas depois passei meia hora bem deprimido. Cheguei em casa, tirei a roupa assim meio rápido e fiquei só de cueca olhando detalhadamente pro meu corpo inteirinho na frente do enorme espelho do quarto. Vi a pele atrás do meu joelho, durinha e hidratada, e cheguei à conclusão que “tio é o filho da mãe do seu pai porque ainda dou um bom caldo”.

Não satisfeito em ver o fiozinho de cabelo caído que deixava minha nuca mais bonita do que de costume, coloquei Caetano pra tocar no Spotify, desfilei com a toalha amarrada um pouco caída na virilha e tomei um ventinho na varanda, com o rosto branco de creme clareador de manchas, toca de hidratação no cabelo, sem vergonha de ser observado pelos quinze andares do prédio vizinho, me achando muito sexy.

Não satisfeito com os pelos que nasciam ainda tímidos na batata da perna – o que consequentemente me deixava mais misterioso, o que consequentemente me deixava mais atraente -, deixei a toalha cair no meio da casa e me joguei na ducha. Eram cinco da tarde, nem dia e nem noite, e a iluminação fria invadia o basculante do banheiro, favorecendo poeticamente algumas partes do meu corpo. Tudo bem que a estria fininha ao lado esquerdo da nádega quebrava a simetria das minhas coxas tão torneadas, mas eu nunca reparei a beleza desse resto solitário de pelo nos joelhos e como ficava tão bem alinhado aos dedos dos pés tortos e corcundas.

À medida que a espuma escorria em direção ao ralo, meu mamilo direito, com um sinalzinho marrom escuro em alto-relevo, insistia em ficar excitado toda vez que a esponja passava a dois centímetros de distância. Achei aquilo bastante provocativo e, somando ao fato de estar com a barriga desinchada por ter feito a digestão do almoço há quase três horas, comecei a perceber que “caramba, como eu sou gostoso!”, que “nossa, como eu não me reparei antes?”, que “meu Deus, eu bem que poderia me pegar”.

O exibicionismo implorava por um nude: faz besteira, por favor; se expõe, por favor. O superego não pensou duas vezes e ligou a câmera do celular. Primeiro saiu uma foto inocente da metade do pescoço e do peitoral lisinho. Mas achei bobinho demais e pensei que, sexy do jeito que eu estava me sentindo, poderia ser melhor do que aquilo. Inclinei a câmera e olha lá, a foto capturava um pouco do tórax, um pouco da virilha, um pouco dos pelinhos recém-nascidos da virilha.

Meu namorado foi a primeira opção a ser descartada da obsessão “pra quem eu vou mandar essa belezura”, porque 1) ele me vê pelado sempre, inclusive forçando a porta do banheiro pra saber “onde está a Neosaldina?”; 2) ele me responderia “eita, mais tarde a gente resolve isso”; 3) ele, inocente, perguntaria se o carocinho quase invisível da picada de inseto, perto da costela, era alergia. Melhor não.

Pensei em mandar para Pedro, meu psicólogo, uma legenda como “você acha que eu tô ficando louco?, “você acha que eu tô perdendo a noção?”. Mas ele é casado e poderia ser um problemão explicar pra mente neurótica da mulher dele que é coisa de cliente, que é terapia humanista. Melhor não. Também não considerei nenhum amigo do jornal. Eles certamente me responderiam: “porra, Murilo, em fechamento de matéria sobre a obra que tá travando o subúrbio e você mandando putaria”. Melhor não.

Nem cogitei a possibilidade de mandar para o grupinho de homens que “serve como reserva caso eu leve um pé na bunda”, porque, como me conheço muito bem, sei que jamais mandaria para seres que não são nada uma foto exibindo um pouco do tórax, um pouco da virilha, um pouco dos pelinhos recém-nascidos da virilha.

Olhei a foto incansáveis vezes e pensei que aquela obra-prima precisava ser compartilhada. Facebook, o parquinho virtual da superexposição. Melhor não. Vai que meus ex-editores veem isso, vai que meu chefe vê isso, vai que… Melhor não.

Era quase meia-noite e eu já estava ansioso e desesperado. Na cama, revirei os contatos do WhatsApp e vi algumas possibilidades. Mas mandar pra minha mãe seria uma boa opção? Descartei no mesmo segundo. Seria um jeito de me livrar dessa angústia, mas ela certamente iria rir e murmurar algo como “nunca foi certinho da cabeça”, “esse não cresce nunca”, “continua bobalhão” e depois excluiria sem dó. Não surtiria efeito. Melhor não.

Já eram quase quatro da manhã e eu precisava mandar aquilo o quanto antes. Rolei o dedo na tela e cheguei até ele, meu amigo sincero. Deixamos de nos falar há alguns meses depois que dizemos coisas horríveis. Comportamento típico de quem se conhece muito, de quem se gosta muito. Mandei a foto num impulso. “Tô bem?”. Eu queria sinceridade.

Peguei no sono com o celular na mão. Acordei no dia seguinte com o barulhinho do WhatsApp apitando e corri pra ver. Era ele mandando a foto da barriguinha de cerveja. Me olhei no espelho e lá estava eu: me achando feio, cheio de olheiras, a pele desidratada, o cabelo seco, a coluna torta e a cara amassada. Nenhuma roupa do armário parecia se adequar ao meu corpo e me deixar incrível como ontem. A vida voltava ao tédio e ao marco zero da libido.

O regador assassino

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Estou há mais de uma hora sentado num banco alto de uma festa no Lalá “que talvez mais tarde você apareça”. Sinto o sapato apertar o ossinho do calcanhar, mas eu me digo o tempo inteiro: aguenta mais um pouco. Garçons me olham triste e me perguntam se eu preciso de mais um copo. Ignoro o globo de luz e a música da moda. Pessoas acompanhadas sorriem com suposta piedade, disfarçam e comentam com as outras: a companhia dele não chega. Gente bêbada fala comigo e eu concordo com um sorriso automático, procurando sentido onde não vejo, como se eu fosse um equipamento mal-estruturado tentando sobreviver ao mundo dos robôs. De dez em dez minutos troco o lado da perna cruzada. De dez em dez minutos mexo na bolsa. De dez em dez minutos reviro o celular procurando o que nem eu sei o que é. De dez em dez minutos vou ao banheiro. Não é xixi. É ansiedade.

Decido voltar pra casa. Qualquer tortura no mundo é melhor do que bocejar. Estou cansado, estou com as pálpebras tremendo, estou com dor no flanco, estou com a lombar e os ombros tensos, entediados por esperas. As duzentas esperas dos seus duzentos corredores sem fim. Meus olhos lacrimejam tanto que algum desatento pode confundir com brilho, mas as olheiras adiantam o que meia dúzia de palavras inventaria. Você suga toda água do meu corpo e me deixa seco como um ET.

Pago a cerveja, ajeito o cabelo e penso: talvez mais tarde você apareça. Eu posso pedir outra cerveja, eu posso ir ao banheiro de novo, eu posso fazer amizade instantânea, eu posso ir lá fora, eu posso ficar aqui brincando de me enganar mais uma vez, eu posso bancar o palhacinho e me divertir com todos esses bêbados que se afogam em mais uma dose de tequila porque cansaram de entender a vida. Mas prefiro ir embora. Olhar pra porta sem piscar os olhos e confundir todos os homens com você é como buscar um pouquinho de calor, pelado, numa cidade do sul com temperatura abaixo de zero.

Mais vinte. Não. Só mais cinco minutos, melhor assim? Nem pensar. O táxi está parado do outro lado da pista, eu me aviso. Você aparece na porta com aquele seu cabelo seboso de banda de rock londrina. Não fico nem um pouco feliz. Não tenho mais vontade de te ver. Não quero passar o resto da noite tentando ser o homem que nem você quer. E então você sorri com sua cara séria e nunca sei se você tá gostando de tudo ou se tá apenas sendo simpático. E então começo a produzir sêmens dentro do meu cérebro. E me lembro de tudo que a gente foi. E invento. E fecundo em buracos de tudo que é você. E me jogo em seus braços quentinhos de quem ama no minuto certo. E te conto que estou desnutrido, ossudo, de tanto me alimentar de pensamentos vazios. Eu estou sem células, sem fígado, sem saliva, sem alma.

Você segura a minha mão e me roda. Olhe fundo nos meus olhos e dance, você diz. Não pense, não queira, não reclame, não espere, não tente entender, você diz. Respondo que não sei dançar. Você revira os olhos e me encaixa nos seus braços. E me joga pra trás, pro alto, pro seu peito. E estica as minhas pernas. Acho estranho que duas pessoas que se conhecem há tão pouco tempo consigam ter uma sintonia tão perfeita. A festa inteira para pra ver a gente rodopiar. Me escondo em seu peito, minúsculo, como um filhote que precisa de abrigo. Eu gosto que você é um começo daquela plantinha com raiz seca que desperta em mim o regador assassino de doze milhões de gotas d’água por segundo. E eu te afogo. E você não entende. E você prefere morrer do que ter que aguentar a enxurrada de gotinhas desproporcionais.

Tenho a impressão de que seus cílios são do tamanho exato dos fios do pelo da minha mão esquerda. Que seus braços largos e compridos têm o tamanho exato de uma volta na minha cintura. Que seu dedão do pé é do tamanho exato do meu ouvido. Tenho a impressão de que se eu passar um pouco mal depois de tanto dançar com você nessa festa, você pode me colocar numa posição lateral e fazer respiração boca a boca, e então eu continuo incrivelmente bem. Mas se eu não sobreviver, por favor, continue essa vida por mim.

Tenho a impressão de que eu consigo te amar a cada detalhe bobo e insignificante. Consigo gostar de você apenas com o meu sangue que circula quente ainda que seja a mil metros de contato com a energia do seu corpo. Eu vejo sua mão grande e fria segurar meu ombro com cuidado e eu penso que isso é amor. Eu ouço você murmurar qualquer coisa como “não faz desse jeito pra não parecer que você quer” e eu penso que isso é amor. Mas eu sei que são apenas sêmens fecundando nesses buracos que você deixa. Quanta coisa bonita a gente nega pra obedecer regras estúpidas e colocar freios na intensidade.

Quero perguntar, agora que me confundo na dança, por que você prefere o mundo seco. Quero entender, agora que você me ajeita na dança, por que a gente precisa voltar pra casa, mais uma vez, sem entender nada. Você me solta um pouco dos seus braços, posiciona os óculos e diz: “Você coloca o bolo no forno e fica olhando impaciente querendo que o fermento atropele as etapas e se desenvolva da sua forma. O bolo fica inchado, inconsistente, sem vida”.

Lembro de você, no comecinho, me dizendo que queria respirar, que não conseguia respirar, mas que você precisava respirar. E eu tentei, juro que tentei, de todas as formas, deixar uma passagem de ar entre a terra e a raiz pra te manter vivo. Mas quem consegue não asfixiar quando a saída é nadar em cem metros rasos de possibilidades?

De repente abro os olhos e sinto o golpe que é você me deixar no meio da festa pra viver todo o resto. Os pés que te trazem tão devagar são os mesmos que te levam tão depressa. E então minha cabeça acode os atropelos do peito. E eu fico, outra vez, sem som, sem cor, sem sentidos humanos. Te ver sumindo no meio da multidão é lembrar a cada segundo o peso absurdo que é balancear todas as razões de fora com as emoções de dentro.​

 

Compraram a camisa de listrinha azul

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

As roupas estão enfileiradinhas no armário de madeira que não é de madeira e tudo isso me faz pensar um pouco com as mãos no queixo na ponta da cama. Talvez, e só talvez, a camisa jeans que não é jeans me deixe bonitinho pra essa festa que talvez eu me divirta. Lavo o rosto pra diminuir a oleosidade da pele e penso mais um pouco. Talvez, e só talvez, a camisa de botão que tem uns barquinhos que não são barquinhos me deixe bonitinho pra essa festa no Portela que eu nem quero ir. Deixo as camisas enfileiradinhas no armário e resolvo que talvez, e só talvez, comprar uma peça nova resolva o meu problema.

Revirei araras e vitrines de lojas em busca de alguma coisa interessante numa dessas “coleções incríveis primavera-verão”. Antes de desistir, parei no Rio Vermelho pra olhar uma dessas boutiques de novos estilistas soteropolitanos. Gostei logo de cara de uma camisa de listrinha azul que estava na vitrine de umas dessas boutiques de novos estilistas soteropolitanos. Tecido de algodão macio, cor viva, linha bonita, tão charmosa. Quando experimentei senti algo especial, próprio, adequado, familiar. Caía muito bem no meu corpo e combinava muito bem com tudo.

Mas qualquer pessoa que gosta de se vestir bem sabe que não pode ficar com a primeira roupa que aparece. Listrinha nunca sai de moda, e, talvez por isso, qualquer pessoa que usa listrinha sabe que corre o risco de ter mais uns quinze usando a mesma peça. Enfim, continuarei procurando. Depois daquela camisa vi pelo menos mais umas cinquenta, mas a dita cuja não saía da minha cabeça. As listrinhas de um azul tão bonito, o tecido tão confortável e fresco, a gola tão apropriada. Eu estava completamente apaixonado. Mas não, né? A gente não pode sair colocando assim na sacola. O mundo da moda tem tantas opções, não é mesmo? A gente não pode levar pra casa a primeira que encontra. Ainda mais uma primeira tão cara e estranha: as mangas tinham um corte não-reto e eu ficava o tempo inteiro pensando nessas mangas. Coisa estranha. Melhor não.

A semana passou, camisas modernas de grandes grifes apareceram, mais baratas, com estampas mais incríveis e até mesmo com um caimento melhor passaram, e eu nunca tirei a camisa de listrinha azul da cabeça. Eu me dizia o tempo inteiro: “mas é só uma camisa de listrinha. Imagina, camisa de listrinha a gente acha em qualquer canto”. E seguia a vida tranquilo, acreditando que a hora que eu quisesse ela estaria lá na vitrine esperando por mim. Eu precisava experimentar outras peças, eu precisava entrar em outras lojas, eu precisava conhecer outras marcas, não, de maneira alguma eu poderia me deixar levar pela falsa ideia de roupa perfeita assim à primeira vista. Um dia, se esse dia chegasse, eu estaria pronto pra usar uma camisa com mangas não-retas. Um dia, se esse dia chegasse, eu poderia ser dela e então ela seria minha.

Ontem resolvi passar por lá. Não pra experimentar de novo e nem pra comprar. Apenas pra continuar paquerando aquela peça na vitrine, de longe, sem nenhum contrato de fidelidade. Quando fui chegando perto não pude conter o assombro: a camisa de listrinha azul não estava no manequim. No lugar, uma peça sem cor, sobreposta por um casaco verde musgo. Mas quem usa casaco no verão? Que coleção é essa? À medida que eu atravessava a pista, meu coração era dominado por um ódio imenso, tão imenso que chegava a controlar a minha mente. Entrei na loja querendo saber da vendedora: “Cadê?”. Mas a peça pode estar na remarcação, na seção da coleção antiga, no quartinho de estoque. “Compraram”.  “Mas o quê?”. “Sim, compraram. Um rapaz assim bem parecido com o estilo do senhor comprou ontem! Mas temos outra aqui que eu…”.

Atravessei a rua em prantos. Começou com um choro minúsculo, apenas umas lágrimas tímidas e descompensadas. Depois as lágrimas foram ficando gordas e gordas e gordas. Peguei um Uber e chorei, do Rio Vermelho até a Barra, o choro mais profundo e desmedido que possa existir. O choro infantil e verdadeiro que já chorei em toda a minha vida. Me recordei, como num filme cruel e sem pausas, de todas as pessoas e coisas que perdi por ter deixado pra depois; por ter achado, por arrogância, que eu poderia ter mais do que aquilo que era oferecido; por ainda não me sentir preparado para elas ou, ainda, por ter a curiosidade de saber tudo do mundo ou, ainda, por ter dificuldade com o que é duradouro.

Me recordei de centenas de lugares que trabalhei e acabei indo embora porque eu estava de saco cheio de ficar com meu rabo preso numa cadeira por doze horas por dia. Mas eu fazia o que eu gostava, eram lugares com pessoas tão incríveis e chefes tão bons. Por que eu ia embora? A ilusão de que podia existir, em algum lugar do mundo, o emprego dos sonhos.

Me recordei de todos os meus namorados que eu simplesmente mandei ir pro inferno porque é difícil entender que as histórias acabam mesmo. Descartar pessoas, como se elas nunca tivessem existido, no fim das contas, não é humano. Quem ama não joga fora.

Me recordei de todos os amigos e parentes, aqueles que fizeram histórias comigo, aqueles que viveram momentos de dor, medo, raiva, alegria, expectativa, aqueles que eu sempre deixo pra depois porque eu ando sem tempo e porque eu tenho preguiça e porque eles moram muito longe ou porque eu mudei muito e todos se tornaram muito diferentes de mim. Aqueles que eu sempre penso: “talvez no fim da semana que vem”. Mas o fim da semana que vem nunca chega.

Chorei por todos os meus amigos que foram embora do país e eu não fui pra despedida porque eu odeio despedida. A falsa esperança de que um dia nos veremos de novo. E, finalmente, chorei por nunca ter conseguido ser bonito, engraçado e inteligente. Chorei o fim de tudo e, chorei muito mais, pelos começos que têm fins previsíveis. Assim é a vida: uma morte a cada capítulo.

Depois, como era de se esperar, passei a mão no rosto, enxuguei as lágrimas e continuei procurando pela minha camisa com a cara limpa. Eu descobri, ontem, que estar em busca de outras opções e ficar insatisfeito com a maioria que aparece, na verdade, é o que faz a gente continuar.

Sexo é o que a gente tem pra hoje

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Só eu sei como é difícil desatar os cadarços desses sapatinhos brancos. E me questionar pela milésima vez em frente ao enorme espelho se tudo bem tirar essas meias com listrinhas coloridas, se tudo bem deixar à mostra esses dedinhos compridos, se tudo bem deixar exposto esses pés ressecados, se tudo bem essa mania esquisita de tentar consertar a coluna, estalar os dedos das mãos mil vezes, contrair os joelhos. Tudo bem aceitar a agonia dos meus ossos e da minha alma? Tudo bem querer chegar a algum lugar sem querer andar? Eu tenho medo de não conseguir pisar com firmeza nos lugares onde nunca andei e muito menos nos lugares onde já andei de tudo quanto foi jeito. Enfim, sapatinhos brancos tirados.

Eles saltam dos pés com dificuldades, fazem barulho quando caem, esperam calados ao lado da cama, ficam de bruços. Me avisam que já não estou mais protegido dos cacos, alfinetes e poeiras. Me avisam que existe chão e que até chão dói. Agora é a vez da camisa. Faz muito frio. Eu quero te pedir: por favor, calma. Desabotoa devagar. Desabotoa sem deixar o nó na garganta me sufocar. Eu sei, eu já tirei essa camisa tantas vezes. Não sou nenhum rapaz inexperiente. Mas você me deixa mole desse jeito, tonto, como se tudo fosse a primeira vez. Faz as pernas tremerem, o frio chegar, exatamente como um rapazinho inexperiente se sente.

Eu tenho medo de acabar fechando os botões da camisa depois que você abrir. Tenho medo de sair correndo e me trancar no banheiro e vomitar no vaso e chorar sentado na tampa da privada cinza com as pernas prendendo a porta, repetindo a cena que eu fiz com todos os outros caras antes de você. Tenho medo do que ainda não aconteceu. Medo do barulhinho do relógio que o tempo inteiro me avisa no escuro que já vai acontecer. Tenho medo da tristeza descontrolada. Tenho medo da alegria sem freios. E de você cantar ao pé do meu ouvido a bossa nova mais bonitinha do João Gilberto e eu me sentir tão bem e tão seguro e tão apaixonado a ponto de perder os freios e começar a tremer, a gaguejar, a me esconder entre seus braços quentinhos e compridos e ser obrigado a te mostrar o quanto não pertenço a esse planeta.

E tenho muito medo de você perceber o meu jeito alienígena e se encantar pela minha parte alienígena e ficar admirando minha parte alienígena e de nunca mais eu fechar os botões da minha camisa e não conseguir voltar a calçar meus sapatinhos brancos. Eu tenho muito medo de me esquentar no seu peito e pegar no sono e nunca mais fugir do frio e nunca mais acordar. Mas ainda eu sinto frio. Então, se eu tremer, não fala nada, continua me olhando como se fôssemos companheiros desse disco voador que trouxe a gente pra esse mundo feinho de pessoas que não tremem, que não sentem, que não se apegam, que não enlouquecem.

E seus olhos me mostram que agora é a vez da calça. Olha, desabotoa lentamente. Abra o zíper devagar. Não faz piada com isso. Porque eu tô desde o começo tão nervoso. A dor da virgindade da alma é maior do que qualquer dor que se possa ter na adolescência.

E me explica, antes de você tirar a roupa, por que você tem tantos pôsteres de filmes italianos antigos colados na parede do quarto e por que a sua geladeira não tem luz e por que você tem uma pilha de VHS de 1998 no canto da sala e por que você não olha seu celular de cinco em cinco minutos como todo mundo faz. Me conta? E você diz que é tão chato ficar falando coisas e coisas e mais coisas e perder olhares e cheiros e abraços. E isso já me diz mais do que eu precisava ouvir. Tirar a roupa é tão fácil. Mas ficar pelado é mais difícil. Então, não faz piada com isso. Eu vesti todas essas peles com muito cuidado. Ficar pelado, pra esse sexo que a gente começou a ter há poucos meses, não é tão simples. Quanto mais eu tiro uma pele pra alguém, mais pelado eu fico. E eu cansei de ficar pelado pra quem não interessa, pra quem não merece.

E só porque você subiu por escada os dois mil andares complicados do meu prédio e não me achou louco quando eu abri a porta, eu resolvi ficar pelado. Então cuida dessas feridas que estão expostas. Me ajuda a cicatrizar o que parece não ter remendo. Estimula meu sangue que já não circula. Controla as minhas células que não entendem por que precisam rejuvenescer. E acalma o meu peito querendo expulsar meu coração que bate tão forte, causando essa taquicardia que não me deixa dizer nada do que não sou.

E você me olha cansado. Da vida, dos amores imensos, dos começos que não continuam. Me olha do mesmo jeito que eu olho pra você. E eu sinto vontade de te dizer que eu sei que você também tem medo do que vai acontecer depois que fechar o zíper da calça. Que eu sei que você também treme, soluça, mas disfarça porque precisa sempre ser forte pra ter que aguentar. Porque deve ser muito intimidador e corajoso e revelador e assustador um homem desse seu tamanho mostrar que treme. E te dizer que por trás de todo esse tesão da alma entre nós dois, em que o corpo implora pelo corpo do outro sem fazer isso com as palavras, o que transborda é carência, falta, abandono, desgosto. E mesmo que a gente não fale, só agora, olhando a gente por esse ângulo transparente, eu entendo nosso sexo. Não há mais peça nenhuma pra tirar. É a noite mais fria do ano. E eu e você estamos pelados. E seu corpo também treme. E a gente se aquece tremendo. E isso se transforma na coisa mais profunda que alguém pode sentir.

O que mais me deixa confiante em seus braços, a ponto de não sentir vergonha de estar pelado, a ponto de não me importar em mais uma vez estar pelado, é que eu sei que, caso você suma no dia seguinte, como todo mundo sempre faz, valeu todo o meu esforço de ficar do jeito que eu vim ao mundo.

Eu não me importo mais

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Cansei. E isso resume tudo que eu tenho a dizer. Eu simplesmente cansei. Desisti. E isso é a coisa mais triste que pode acontecer a qualquer ser humano. E isso é a coisa mais triste que pôde acontecer na minha vida. Não reclamo mais de nada, não tenho mais interesse em entender nada, não faço mais questão de esperar por nada. Eu cansei. E quer saber? Desistir, talvez, tenha sido a melhor coisa que eu fiz até hoje. O melhor bem que eu fiz por mim até hoje.

Saio com os meus amigos, ouço a opinião de todo mundo numa roda. Gente discutindo sobre aborto, racismo, homofobia, feminismo, saudade, carência, medo de morrer. Coisa que eu acho intolerante e que eu quero apontar o dedo na cara, outras que eu quero complementar, mas eu deixo tudo lá. Não sinto vontade. Não quero. Não mexo um dedo. Eu deixo tudo lá. Sem culpa. Todo mundo querendo ter razão de tudo com suas frases de efeito. Nem aí pra essas pessoas que medem cada palavrinha pra levar um prêmio pelo melhor discurso. Nem aí.

Odeio inglês e odeio mais ainda quem usa frases em inglês no meio de texto em português, mas o tempo inteiro fico repetindo “i’m not interested”. Me recuso a discutir mais uma vez. Pra quê? Cansei de brincar de ser Deus. Passei 25 anos da minha vida sendo o irritadinho da turma. O enjoadinho. Aquele que queria tudo do seu jeito. Aquele que fechava a cara por qualquer coisa. Amor só é verdadeiro se for desse jeito aqui. Felicidade só existe se for desse jeito aqui. Festa tem que ser assim. Emprego é assim, namorar é assim, viver é assim, se vestir é assim, se comportar é assim, respirar é assim, perdão só pode ser dado assim. E eu ia culpando a vida, xingando a vida, de cara fechada. O tempo todo. O tempo todo querendo tudo no meu minuto. Querendo consertar a burrice do mundo e a sala brega da minha sogra. Chega.

Agora eu não me importo mais. Mesmo. Não avalio mais o que é feio ou bonito. O que é bom ou ruim. De verdade. Chega. Não me importo se eu cair e ralar o joelho. Não me importo mais com a dor. Com o sangue escorrendo. Com o latejar que incomoda. Com a febre que avisa que tem alguma coisa errada. Eu não me importo mais com o álbum incrível do Caetano Veloso. Com o filme badaladinho do Almodóvar. Pro último capítulo da novela das nove. Pro show tão esperado da Marisa Monte no TCA. I’m not interested.

Se um merda de um cara abre a boca pra falar sandices numa reunião, eu conto até cem pra não explodir na cara dele. Eu não grito mais, eu não esperneio. Deixo tudo lá. Mas quando a reunião acaba, eu sou o primeiro a sair. Pego a minha bolsa e vou embora. Sem culpa. Se um velho parar no meu caminho quando eu estiver andando de bicicleta no Porto da Barra, eu simplesmente freio e fico ali parado, olhando pro nada, até que ele suma da minha frente. Se alguém furar a fila, eu não reclamo. Se a pulseirinha quebrar, fica no chão. Eu deixo tudo lá. Chega de querer mandar na vida. Chega.

Não quero consertar, remendar, explicar, mostrar que estou certo. Não quero correr atrás, ter outra chance, ganhar, passar, subir no pódio, estar antenado com tudo, saber falar sobre tudo. Pra quê? Eu quero não me preocupar com nada, não sentir nada, não me estressar com nada. Sentar num banquinho de madeira da praça e ver a vida passar tão lenta como a Bossa Nova. Sem sentir nada. Quero a emoção blasé, o riso sem sal, a conversa beirando a superfície, dormir por mil anos. Sem culpa.

Tanta gente me viu tão histérico, agora vai me ver domado. Sonolento. Caladinho. Sem dar um pio. Caladinho. Eu quis tanto ser feliz. Quis tanto ter uma vida completa. Tanto. Meus olhos brilhavam esperando por isso. Eu tinha um sorriso enorme. Eu tinha tanta expectativa. Eu acreditava tanto. Tanto. Chegava a ser doentio. Mas nem era maldade. Eu só queria dar certo no meio de tanta coisa errada. Só isso. Eu só queria ser estranho e cabeludo e corcunda e magricelo e fútil e alienado e completamente feliz.

Ninguém acredita que uma bolha gigante que roubou todo ar do planeta sobreviva a mais de dois metros. Todo mundo sabe que uma hora essa porcaria estoura no ar. E quer saber? Até eu. A bolha gigante guarda tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto que não aguenta e explode. Chega. Cansei de ser a bolha gigante. Não quero mais carregar nenhum peso. Nem do ar. Minha intenção não é mais ser feliz nem triste nem nada. Eu me recuso a ter esperança, essa coisa vagabunda. Eu me recuso acreditar que alguma coisa vai dar certo, seja ela qual for, pela milésima vez. Eu tenho aceitado a vida como ela é. Desde que eu continue anestesiado no meu banquinho de madeira.

Não ser ouvido pelo mundo, meu maior medo, finalmente ganhou um papel secundário. Minha maior felicidade agora é ver as pessoas gritando.

 

Mas o diabo é que eu não consigo dizer não para a vida

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Largo o texto da coluna pela metade pra ver o celular que apitou. É Júlia me convidando pra sair: “o que você acha de beber uma cerveja no Rio Vermelho?”. Estou cheio de atividades de literatura pra entregar, um roteiro enorme de programa de rádio pra escrever e prazos curtos pra cumprir. Estou tão atolado que sequer consigo respirar, comer, dormir. Claro que eu não vou. Retorno a mensagem: “tá, que horas?”. Esqueço – ou finjo que esqueço – que estou com a agenda abarrotada de pendências. Quero me arrumar, ficar bem bonito, ver gente, me sentir vivo, essas coisas. Esquentou um pouco e já consigo sentir a cerveja descendo bem gelada na garganta enquanto a gente fala sobre a vida. Não resisto e vou.

Leio uma matéria no jornal sobre o Panorama Internacional Coisa de Cinema. É o festival dos descolados. É o festival da galera alternativa e cheia de boas referências. Vários cineastas batendo papo, numa roda, sobre as dificuldades dos seus trabalhos, vários filmes sendo exibidos em várias sessões e oficina de crítica cinematográfica. Fico pensando: “mas se eu for, vou perder psicólogo, pedalada e aula de criação literária. Melhor não”. Compro o ingresso de um dia ou logo do festival inteiro?

Corte só este tanto. Mas é só este tanto mesmo. Vê lá. Carrego uma faca dentro da minha ecobag contra cabeleireiros que ousam cortar um centímetro a mais do que eu pedi. O rapaz do salão sorri. Explica que meu cabelo está mais seco por causa do verão, cheio de pontas duplas e frizz. Um banho de hidratação com um produto que custa o dobro do meu salário resolve fácil. Um corte em degradê vai deixar o meu cabelo tipo o do Rafael Vitti. Me pego gostando da ideia: “demora?”. “Não, imagina. Coisa de minuto”. Só saio de lá três horas depois, com a vida atrasada, e-mails importantes não respondidos e o cabelo tipo Rafael Vitti duzentos anos de ressaca.

Quarta teve aniversário surpresa da Clara. Avisei logo que eu não poderia ir porque precisava terminar, finalmente, o roteiro do meu curta. Fiz uma listinha de tudo o que preciso fazer pra fazer o curta. E se eu não seguir essa listinha, eu acabo não fazendo o curta. Então melhor obedecer a listinha e não ir ao aniversário da Clara e escrever o curta. Adulto, adulto. Me peguei na seção de doces perguntando pra Luíza: “recheio de Nutella ou brigadeiro?”.

Minha mãe abre a porta do quarto: “você não usa este tênis há mais de um ano. Vai querer ou junto com o resto das coisas pra doação?”. Por causa de um tênis, decido que preciso reavaliar tudo o que tenho. Largo o e-mail não respondido, a pesquisa incompleta, o artigo pela metade. Abro o armário e coloco tudo pra fora. Limpo gavetas, caixas e cabides. Preciso disso mesmo? Posso doar? Jogar fora? Fazer um bazar entre amigos? Remédios vencidos, fones de ouvido sem borrachinha, óculos sem hastes. Que bagunça. Muita coisa aqui que não quero. Vou aproveitar e organizar o quarto inteiro.

Sou do tipo que ama estender programas. A gente marcou um cinema, mas depois pode ir a um barzinho e ficar até sabe lá Deus que horas. E daí que amanhã eu tenho reunião às sete? Tô sempre topando a nona saideira. Topando ficar mais um pouco. Topando conhecer a turma incrível que vai chegar. Não posso comer esse docinho antes do almoço. Mas é só um docinho. Mas tem a endoscopia. Mas é só um docinho. É horário de pico, então a gente pode ficar aqui conversando até o trânsito dar uma acalmada. Amanhã tem aula cedo, mas o que é que tem assistir mais dois episódios de Sherlock Holmes? Desligo o despertador seis vezes. O que é que tem dormir mais dez minutos? Durmo. Quando vou ver, já tô atrasado duas horas. Já perdi a reunião, o encontro, o médico, o voo.

Eu não sei dizer não. Nem pros outros e muito menos pra mim. Não aguento um “só mais um pouquinho”, um “vamos”, um “é rapidinho”. Sempre acho que dá mesmo pra deixar pra mais tarde, pra amanhã de manhã, pra segunda-feira. Planejo a vida esperando dela quarenta e oito horas em um dia, mil dias em um ano. Minha agenda vive riscada com prazos cancelados. Quero fazer tudo e mais um pouco. Se digo não, fico com a sensação horrível de que deixei alguma coisa pra trás. Sei que se eu fosse mais metódico e mais responsável, eu já teria o novo livro pronto, a peça de teatro toda costurada, outros projetos saindo do papel. Mas vira e mexe tem sempre alguma coisa bem mais interessante, mais divertida, mais curiosa pra fazer. A armadilha pra eu sair dos conformes mora ao lado.

Posso ser chamado de irresponsável, inconsequente, impontual, mas jamais dirão que eu não aproveitei a vida.

Oprimido

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Foi na varanda apertada do seu apartamento. Acho super louco que palavras tenham significados diferentes apenas por causa de um fonema. Pensei nas palavras “mote”, “note”, “bote”. Ia falar sobre como, sem querer, fazemos rimas em textos. Mas você iria respirar forte, revirar os olhos, fazer um barulho com a língua e os dentes e recostar na poltrona: “mania de escritor iniciante”. À tarde, você vai à reunião do trabalho. Tudo acaba por volta das sete, mas você só volta pra casa oito da noite. Das oito e meia às nove? Preparo um copo de leite com duas colheres de Nescau e coloco ao lado do seu computador. Tudo pra aliviar a sua raiva do dia e não fazer seu mau-humor rotineiro me ofender. Uma vez que tudo te irrita, tudo te parece insuportável, tolo e minúsculo, qualquer frase que eu expulse da boca soa como um prédio sem estrutura que desaba previsivelmente, e seus ouvidos arrogantes disfarçados de razão entendem absurdos,  como tijolos que caem pra machucar e causar algum estrago, tentemos diferente. Eu sou completamente apaixonado pela linha reta e funda das suas costas e se vejo em você tanta profundidade sempre penso em colocar ali um pouco do meu peso. Suas pintinhas espalhadas pelos ombros, digo, as sardas mal desenhadas e sem texto, podemos usá-las. Apesar do seu músculo semi-espinhoso contrair pro outro lado como parágrafos, apesar das frases soltas que ousam em ficar gravadas na minha cabeça como poesia, apesar das pintinhas que formam letras e do edredom que cobre a sua pele como pontuação, eu gosto da beleza simples dos seus fragmentos.

Foi no Café Terrasse. Aquele lugar cheio de gente meio igual e completamente diferente. O povo do cinema, do teatro, das artes plásticas. Eu cumprimentei Nina pelo espetáculo no Vila Velha. Você me disse que não aguenta mais ter que aturar os meus amigos de esquerda que acham que fazer peça com nudez é fazer arte. Eu pensei em explicar, baixinho, o motivo da nudez no texto. Mas você sorriu ironicamente com sua maldade disfarçada de educação e bebeu, sem vontade, mais um gole do cappuccino: “não deixa de ser um roteiro de merda”. Eu não preciso dizer nada pra você discorrer que estou errado. Não à toa seu sarcasmo me calando, não à toa seus olhares me diminuindo. Suas referências teóricas pra me barrar ainda que seja numa conversa banal. Suas mãos gesticulando além da conta. Eu sou completamente apaixonado pelas suas mãos grandes e largas. Gente do céu, teve uma vez, numa rua escura do Rio Vermelho, que eu tava tão assustado, tão assustado, e você segurou a minha mão com tanta força, com tanta força, que eu voltei pra casa me sentindo a pessoa mais segura do mundo. Eu passei as minhas mãos no meu corpo inteiro imaginando as suas, apertando o travesseiro imaginando as suas, me contraindo na cama imaginando as suas mãos me devorando por completo. Eu cato as suas digitais no meu corpo pra te manter vivo. Eu sempre morro pra te manter vivo. É impressionante.

Foi no seu quarto escuro. Você não vê importância em me levar pra jantar, luz baixa, roupinha bonitinha, pessoas, namorar um pouquinho, conversar. Eu tento entender, mas você sempre usa tudo contra mim. Não à toa, “namorar um pouquinho”, pra você, significa um discurso de pessoas imaturamente apaixonadas, intensas e sem emprego. Eu pensei em te perguntar o que significa “alvissareiro”, mas você iria respirar forte, revirar os olhos, fazer um barulho com a língua e os dentes e levantar furioso da cama pra tomar uma ducha: “te falta leitura boa e não essas besteiras que você lê na imprensa”. Eu amo a sua voz. Gente do céu, teve uma vez, dentro do seu carro, que você me ajudou a mudar umas coisas num texto: “melhor deixar assim pra não parecer que você forçou”, e eu fiquei sem ar por meia hora. Eu amo suas camisas penduradas na cadeira, seus livros arrumados por ordem alfabética, sua geladeira sem luz.

Nem sei direito onde foi. Mas lembro que fechei o Word bem entediado e, do nada, pensei em você nu. Fiquei mais de meia hora com a sua imagem me perturbando. Você parecia estar de terno preto, smoking, gravatinha borboleta, casaco de lã, mas completamente nu. Gosto de como a gente transa em intervalos curtos e você, cansado, cochila a nuca, peito e os braços suados por cima de mim, ainda nu. O seu topete meio duro por causa do suor seco. Seus lábios vermelhos. As duas marcas que deixo só porque encostei de leve no seu pescoço. Nunca quis você por sexo. Nunca foi isso. Você é comum, desinteressado. Também não são seus gostos, suas viagens, sua vida acadêmica, seu portfólio. Nem suas camisas lindas. Nem sua capacidade de falar sobre tudo. Nem é você. Já foram uns quinze que não eram nada, assim como você. Eles abafavam a minha angústia, raiva, banalidade, medo de morrer. Não é nem questão de passar esses dias tristes admirando a linha reta e funda das suas costas pra passar o tempo. Ou de me sentir seguro com a sua mão firme. Ou de enlouquecer com a sua voz incrível. Ou da gente transar e eu poder tocar a linha reta e funda das suas costas e sentir suas mãos grandes e largas pelo meu corpo e ouvir, baixinho, a sua voz no pé do ouvido. Não é isso.

Foi na varanda apertada do seu apartamento. Não havia sol, mas não fazia frio. Você estava com o seu pijama de listrinhas finas que tem uma gola azul meio desbotada. Você estava fumando na janela com a boca enorme, sem medo, espalhando fumaça pelos outros quinhentos apartamentos. A boca enorme que eu não vou esquecer nem daqui a cem anos, porque ela sempre me dizia coisas terríveis. A boca enorme que sempre fazia me sentir impróprio, inadequado, burro. E ali, pela primeira vez, eu queria mandar você morrer mil vezes. Mas, por sempre me sentir oprimido, a única reação que consegui foi arrumar a bolsa. E ali, pela primeira vez, eu fiquei pensando nas suas costas, nas suas mãos grandes e largas, na sua voz. Fiquei pensando o quanto que aquilo tudo era pequeno pra continuar. E cheguei à conclusão, guiado por cenas soltas na cabeça, que toda a minha raiva pela sua existência só fazia você existir. Fui embora enjoado, enojado, nervoso, morto, tremendo, feio, estranho, passando pelo meio dos carros com a mente em tumulto, ainda meio corcunda. Do alto do seu prédio estava você, pela primeira vez, olhando pra baixo – contrariando sua coluna sempre reta e peitos estufados -, pela primeira vez me enxergando maiúsculo. Eu me senti, pela primeira vez, vivo, inteiro, dono da minha vida.

Eu nunca fui feliz no Réveillon

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Já tá tudo combinado pra passar o Ano-Novo na Praia do Forte. Cada um dos oito amigos paga dois mil quatrocentos e vinte e nove reais. Pelas contas, esse valor inclui aluguel de uma casa imensa com uma vista maravilhosa, limpeza feita pelo caseiro, almoço e jantar feitos pela mulher do caseiro, segurança feita pelos filhos do caseiro, e muitas garrafas de espumantes e outras bebidas que obviamente vão acabar bem antes do previsto. Pensei em pedir um desconto porque eu bebo pouco. Mas não quero ninguém me dizendo que paguei menos do que todo mundo e por isso tenho que ficar num quarto vagabundo. Prefiro pagar o que tenho que pagar do que ficar com uma calculadora atrás dos outros. Ninguém gosta de dificuldade na hora de pagar conta. Muito menos eu. Mas espero, sinceramente, que quando der onze da noite e toda bebida tenha acabado e façam aquela rodinha pra abrir carteiras e arrecadar dinheiro tenham a decência de não me pedir um centavo. Porque eu bebo pouco.

Faço a mala sob a condição de “vou porque quero e volto quando quero”, mesmo que pareça loucura voltar meia hora depois de chegar. Eu nem queria ir pra esse negócio. Eu nem gosto do Réveillon. Eu tenho, na verdade, pavor do Réveillon. Nunca gostei do último dia de nada. De um emprego, aula, viagem, namoro. Muito menos do último dia do ano. Por mais que eu quisesse que aquilo acabasse, por mais que eu sentisse que não dava mais, por mais que eu precisasse do fim de alguma coisa pra começar alguma coisa. Nunca passei qualquer fim que seja sem ter chorado desesperadamente. O último dia sempre me assusta, sempre me traz mais angústia, sempre me deixa com um nó na garganta que não desata. Comemorar o fim sempre me pareceu tão triste, cruel, estranho, perverso, devastador. A sensação de desespero sem socorro. A vontade impulsionada de me isolar. A vontade enorme de sair andando, andando, andando, andando, andando, andando, andando, andando até que eu chegue a algum lugar que eu não sei onde é. O pavor que o tempo inteiro me pede calma. O sorriso assustado de puro nervosismo. Os pés frios, as mãos suadas, o sangue passando quente pelas veias.

Vinte para meia-noite e meus amigos já estão alegres demais e piadistas demais e teóricos demais e penso que eles estão bêbados demais. Os fogos começam e acho isso tão triste, cruel, estranho, perverso, devastador. A praia em frente está muito bonita, com gente muito bonita andando de branco, e o teto cheio de bexigas brancas. Tudo tão bonito. Mas a minha estética psíquica enxerga feiura. Aí eu largo o corpo com a bebida do verão. Aí eu deixo o prato com o pedaço de peru. Aí eu sumo. Aí eu desapareço. E todo mundo começa a fazer piada com isso: “deixa, ele é assim mesmo”. Uma bola de pelo sufoca a minha garganta e eu quero algo que não é nem a minha mãe e nem a minha casa e nem o meu cachorro. Ou talvez seja tudo isso. Olho os táxis parados ao redor da praia e a bola de pelo vai se desfazendo aos poucos. Eu posso ir embora. Mas de onde? Mas pra onde? Eu sempre querendo ir embora. Tá, mas pra onde? Quero um abraço e um colo que nunca conheci. Mas não é de homem, de amor, de carinho que eu preciso. O que é, então? Sinto tanta coisa dentro de mim e ao mesmo tempo não sinto nada. Sinto a fúria da vozinha que mora na minha cabeça. Sinto o buraco sem fundo do poço desmedido da vida. Uma queimadura no estômago que não é azia. Uma ânsia que não é de fome. Um enjoo que não faz vomitar. Um frio que não precisa de casaco.

Sento sozinho no banquinho do jardim e choro. Não existe motivo específico nem uma dor específica. Será que eu choro por que perdi a pureza da infância? Por que sinto saudade da adolescência, quando eu fazia listas enormes e milhares de planos pra ser feliz na vida adulta? Será que é a realidade à tona de que a cada ano perco mais um ano? Será que é o pavor por saber que a cada segundo eu fico mais velho? Será, então, que é o medo da morte? Mas se eu não tenho mais vontade de viver como antes, por que eu tenho medo da morte? Será que é o medo da morte da minha mãe? Da minha irmã? Das minhas sobrinhas? Dos meus amigos? Será que choro a certeza de que tudo chega ao fim?

Me destruo de chorar por tudo isso e por nada disso. Choro pela violência no mundo e a minha falta de bunda. Choro porque, enquanto eu e outras milhares de pessoas comemoram com suas taças na praia descolada, com a roupa descolada e a bebida descolada, outras milhares de pessoas passam frio, fome, tentam sobreviver em filas de hospitais, embaixo de viadutos. Choro pela minha intensidade que não cabe em mim, pela minha arrogância que não me leva a nada, pela minha superficialidade maior do que o universo, pela minha falta de tempo em cuidar da saúde da minha mãe. Choro por causa do cara certo que foi embora e se ele foi embora é porque ele não é certo, então choro ao agradecer por ele ter ido embora. Choro porque todo ano eu peço pra ser feliz. Choro porque desisti de fazer simpatia pra ser feliz. Choro porque sou a pessoa mais sozinha do planeta e, ao mesmo tempo, por ter uma família linda e milhares de amigos lindos me cercando. Abro a agenda do smartphone. Pra quem eu quero ligar? Ninguém. Pra quem eu sinto vontade de ligar? Ninguém. Nem é saudade de gente. Nem é necessidade de falar e ouvir coisas bonitas. E aí, faço o que com isso?

Chama Murilo porque faltam cinco minutos pra meia-noite. Não, deixa ele no jardim. Ele é assim mesmo. É falta da família, do namorado, da cama? Não, ele é assim. Deixa ele. Daqui a pouco ele tá escrevendo no escuro do quarto. Tá chorando sentado no vaso. Tá tomando mais um banho pra limpar o que não é sujeira. Deixa, ele é assim mesmo. Coloca aí “Lígia”, de João Gilberto, pra eu chorar mais? Quando ele diz que não gosta de chuva e não gosta de sol, eu me identifico. É tão estranho parecer que não pertence. Não é de gosto, mas é de não gostar. Entende? Coloca? Não, Murilo. Ninguém quer ouvir João Gilberto no Réveillon, tá louco? A gente vai colocar Chiclete com Banana. Oi? Isso. Sério? Sério. E eu, mais uma vez, me pergunto por que saio de Salvador no dia que mais tenho pavor de viver. Por que eu me meto no Litoral Norte se eu não suporto isso aqui? Por que eu tento, mais uma vez, parecer normal pra tanta gente que não é normal? Mas se eu contar isso pra uma das meninas que está na casa, ela vai me pedir calma porque “bad de bebida é assim mesmo” e que “um café bem forte resolve”. Então eu nem conto pra uma das meninas. Mas se eu contar pra um dos meninos que está na casa, ele vai me pedir calma porque “o ano foi bem tenso mesmo” e que “tomar um banho de mar resolve”. Então eu nem conto pra um dos meninos.

Não é efeito de bebida. Não é problema com os problemas do ano. Não é de café que eu preciso. Não é de banho de mar que eu preciso. Ninguém entende nada. Então eu fico no jardim olhando a agenda do celular. Não quero falar com ninguém. Olho essa agenda, apenas, pra lembrar que existe uma lista de pessoas que faz parte de coisas do meu dia a dia. Que uma hora essa rotina volta. Daqui a pouco eu volto e tudo volta. E isso que eu sinto passa. Falta um minuto e as pessoas esperam entusiasmadas. Acabou. O ano virou. Ufa. Acabou. Eu olhando pros fogos fingindo emoção com medo de que alguém, na euforia, derrube a taça de champanhe na minha roupa. Acabou. Daqui a pouco todos estarão tão bêbados e cansados que eu poderei ser estranho, patético, infeliz, insuportável. E poderei, finalmente, tirar a fantasia de gente feliz e otimista imposta pela ditadura da alegria. E poderei, finalmente, respirar. Ou dormir. Ou fazer cocô. Ou sumir de vez sem ter que dar explicação. Acabou.

Três e meia da manhã, em meio a bexigas murchas, gente caída no canto da casa, conversas desconexas de gente bêbada e iPhones descarregados, sinto a felicidade chegando como um orgasmo múltiplo, desses que chegam bem tímidos, mas que, no fundo, são fortes e necessários pra melhorar a alma e a pele. Canto bem alto Chiclete com Banana. Rebolo a minha bunda dançando Chiclete com Banana. Abraço o resto das pessoas sonolentas e sem energia que sobram no resto da festa. Encho a minha taça de champanhe. Agora é a minha vez. Enquanto todos acabam de festejar o fim do ano, começo a festejar o fim dos festejos de fim de ano. Acabou o Natal e o Ano-Novo. Agora que não me obrigam a ser feliz quero sorrir pra tudo. Agora que todo mundo pode dormir em paz, quero correr pela praia de canto a canto. Eu nunca fui feliz no Réveillon. Eu nunca fui feliz no fim de nada. Mas sempre dou um jeito de ser feliz quando eu consigo suportar chegar até o fim.

Domingo é Natal, mas você não tem culpa

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Matheus Gazola

O elevador do meu prédio não demora mais do que contar até nove. Mas até chegar ao sexto andar sou agraciado por uma enxurrada de “Feliz Natal” e “muita saúde, paz e prosperidade”, somada com mãozinhas que acariciam casaco, sorrisos de canto a canto e olhares de suposta bondade de vizinhos que sequer me dão bom dia de janeiro até meados de dezembro.

A louca do apartamento ao lado que não me deixa dormir porque passa a noite inteira discutindo com o gato na ausência do namorado. O lindão do apartamento de cima que tá sempre perfumado, que tá sempre engravatado, que tá sempre tão educado ao telefone, mas nem agradece a seu Amadeu por abrir o portão da garagem, porque tá sempre atrasado. A bonitinha do apartamento de baixo que todo dia detona a filha adolescente porque ela é gorda, que detona o marido porque ele ganha pouco, que detona a sogra porque ela é velha, que detona a empregada porque ela é pobre: FELIZ NATAL PRA VOCÊ, VACA.

Eu não sei qual é o problema das pessoas. Mas o meu problema é que eu odeio o típico clima natalino imposto e suas atitudes robóticas impostas e essas pessoas falsas pra cacete. É algo como “você PRECISA esquecer que eu te sacaneei o ano inteiro e confirmar presença nesse amigo secreto” ou “eu sei que a gente mal se olha no corredor do trabalho, eu sei que se eu pudesse você nem estava mais aqui, eu sei que eu caguei pra você o ano inteiro, mas AGORA, na data do nascimento de Cristo, a gente PRE-CI-SA deixar de rancor”.

Semana passada, por exemplo. Me toquei que eu nunca simpatizei com a decoração de Natal de Salvador. Porque 1) ela é tosca; 2) quem decora parece estar pouco se lixando pro espírito natalino, mas sim preocupado em exibir a marca do patrocinador; 3) ela, quando você lembra que os assaltos no Campo Grande ainda existem, faz você entender que essa felicidade reluzente não te livra da angústia.

Ontem, por exemplo. A região do Iguatemi fica a menos de vinte minutos de casa. Mas, como estamos às vésperas de Natal — e a multidão lota loucamente o Shopping da Bahia, e a multidão lota loucamente as passarelas, e a multidão reduz loucamente a velocidade  dos carros pra poder estacionar, e a multidão atravessa loucamente pelo meio dos carros sem se importar com o sinal aberto —, a região do Iguatemi pode ficar a mais de sete horas de casa. A região do Iguatemi pode ficar a “vou ter que desmarcar tudo que eu planejei pro resto da vida” de casa dependendo do dia e da hora que eu decida seguir a minha vida. A região do Iguatemi pode ficar a “que merda eu tô fazendo aqui?” dependendo da hora que eu decida ir. A região do Iguatemi, com mil vias, mil estabelecimentos e mil obras, pode ficar a “caramba, você vai de bicicleta a Marte?”, dependendo da hora que eu decida voltar.

Todos os meus namorados, todos os anos, sempre me culpando: “a gente deveria ter ido pelo caminho que falei, mas você nunca me ouve”, “se você não demorasse tanto pra se arrumar, talvez a gente não pegasse essa merda de trânsito”, “não aguento mais essa cidade e essas festas e esse trânsito vagabundo e você cada dia mais se prendendo a isso aqui”. Não é impressão, muito menos coisa da sua cabeça: todo mundo resolveu mesmo se locomover na cidade pra comprar presentinho nessa época do ano, mas a culpa não é sua.

Domingo agora, por exemplo. Mais uma vez a família inteira reunida na casa de tia Izildinha. Mais uma vez as cobranças, o barulho das crianças, as risadas altas dos adultos, as histórias do Natal de 1972. E, como o Natal de todas as famílias é igual, mais uma vez vão te culpar por tudo que puderem. Sua avó vai, mais uma vez, dizer que não aguenta mais as dores na cervical e na lombar. Vai dizer, mais uma vez, que é melhor pra ela e pra todo mundo que ela morra logo no próximo ano. E você, que é um dos netos que pouco visita, vai se sentir culpado pelo desejo de morte da vovó. Mas grava isso: você não tem culpa.

Sua tia vai reforçar que você sumiu do mapa. Tudo bem que você trabalha o dia inteiro, estuda, faz parte de mil projetos profissionais e precisa ganhar dinheiro pra se sustentar, mas custa aparecer pra rever pela milésima vez o álbum da família? Ela vai explicar que bolo pode solar se você abrir o forno antes dos 30 minutos. Vai explicar que bolo pode solar se você colocar uma ML a mais de leite. E porque você está cansado de todo o trabalho que fez durante 360 dias no ano, você simplesmente vai cochilar enquanto ela fala. Ela vai dizer, mais uma vez, que você tá sempre desinteressado nos assuntos da família. Mas grava isso: você não tem culpa.

Seu tio vai contar aquelas piadas velhas de sempre. E, bêbado, vai dizer que “bunda de viado fica intacta no caixão porque o que é do homem o bicho não come”, e você, reacionário, vai ser o único a não rir. A namorada de voz nasalada do seu primo vai comentar o concurso de beleza do programa de TV, dizendo que acha a loira mais bonita do que a “moreninha” e nem tente dizer que é racismo. Vão chamar travesti no masculino, dizer que mulher precisa se dar o respeito pra não ser assediada, que cinema brasileiro é uma bosta. Se você tentar explicar, vão revirar os olhos e dizer que você sempre leva tudo muito a sério, mas grava isso: você não tem culpa.

Ando muito cansado das famílias e suas árvores de Natal enfeitadas de mágoa, ignorância e preconceito. E os doces e empanadas das tias com gosto de mágoa, ignorância e preconceito. E as crianças arrumadinhas, com seus cabelos arrumadinhos, correndo pela casa inteira, querendo que o priminho morra porque de novo ganhou mais presentes. E eu, por mais um ano, forçado a fazer coisas terríveis.

A melhor parte do Natal é quando, lá pelas duas horas da manhã, eu vou para o terraço da casa de tia Izildinha e fico em silêncio olhando as luzes dos apartamentos, aos poucos, se apagarem. A melhor parte do Natal é quando tudo fica escuro e eu, finalmente, me sinto sozinho.

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