Nunca fui honesto

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

No meio do filme no cinema, ele aponta para um grupo de jovens estranhos sentados na fileira em frente e cochicha no meu ouvido algo como “esses pseudo-neuróticos, com seus fetiches de dores e fuga do tédio existencial”, fazendo referência ao filme de Xavier Dolan, e eu dou risada alta no cinema. Todo mundo olha feio pra mim, inclusive o grupo de jovens estranhos, e ele me abraça na tentativa de abafar meu descontrole, se prendendo mais ainda pra não rir também.

Depois ele me olha querendo saber se tudo bem. Tudo bem tirar da ecobag a vasilhinha com trinta e seis claras e comer ali mesmo na frente de cinco mil pessoas? Tudo bem não sair mais tarde pra beber uma cerveja comigo e uns amigos da Facom porque cerveja tem carboidrato? Tudo bem nada. Mas eu é que não digo. Eu é que não reclamo. Porque tô completamente apaixonado por ele e porque acho ele leve e engraçado, aceito a vida fitness, aceito o projeto de “barriga trincada em 90 dias”, aceito as conversas sobre proteína com os amigos da academia, aceito que aquelas claras frias estão sem sal porque sal retém líquido.

Desde que o nosso namoro começou, suportei calado as claras, os shakes e as somas das calorias nas embalagens dos alimentos. Nunca fui honesto. Nunca disse que achava aquele exagero ridículo. E seguia. Fingindo que não via, que não me importava, que eu não tinha que me meter naquilo, afinal, eu precisava aceitar ele do jeito que era. Quando a coisa chegou no suco de hibisco com gengibre, três vezes ao dia, e no detox de alface com agrião, em substituição ao jantar de um ano de namoro que preparei, percebi que já não dava mais. E até hoje, até a publicação desse texto, ele não sabe que eu odiava as claras, os amigos, os shakes, as somas, o suco, o detox, porque eu nunca fui honesto.

Depois dele, conheci outro cara. “Mas ele não tem nada a ver com você”, meus amigos diziam. Eu gostava da voz dele, dos intervalos longos entre um pensamento e outro, das frases que eu poderia legendá-las a cada lembrança fotográfica que surgia dele no meio do dia. Gostava quando ele falava sobre Lula, quando ele colocava adoçante no café preto sem contar as gotinhas, quando ele me ligava no começo da manhã e falava “sono pra caralho”. Eu sabia que aquilo era pouco pra gostar e ficar com alguém, mas eu não conseguia me imaginar sem aquela voz grave no primeiro minuto do dia.

Pouco mais de dois meses juntos, fui percebendo que ele não tinha mesmo nada a ver comigo. Gostava de ioga, reiki e meditação, e isso tudo me dava muito sono. Ele enchia a casa de incenso de manjericão e patchouli e fechava as janelas. Eu sofria com insuficiência respiratória, suportava crises de rinite e longas filas na emergência pra tomar nebulização. E ele nunca soube disso porque eu nunca fui honesto. Quando ele me levou pra uma sessão de budismo e eu me peguei olhando o celular a cada dois minutos, remexendo a coluna e as pernas a cada dois minutos e me levantando pra ir ao banheiro a cada dois minutos, comecei a perceber que eu estava indo longe demais. Ele dizia que eu precisava ser menos ansioso porque isso dificultava o fluxo de energia e daí muita coisa na minha vida iria dar errado.

Uma semana depois, ele me levou num curso chamado “Rolando na Grama”. Um encontro com gente ansiosa e deprimida, numa casa em Vilas do Atlântico, com o objetivo de encontrar a luz. Devíamos ir com roupas bem confortáveis, e o tratamento consistia em nove passos: 1) mentalizar uma coisa boa; 2) abraçar a coisa boa; 3) rolar na grama sem soltar a coisa boa; 4) imaginar a coisa boa do coleguinha; 5) rolar pela grama tocando em todas as partes do corpo do coleguinha até sentir a coisa boa do coleguinha; 6) rolar pela grama imaginando a coisa boa flutuar; 7) nos transformar no animal que estivéssemos a fim; 8) fazer o animal devorar a coisa boa; 9) ficar deitados na grama, respirando lentamente, com uma mão em alguma parte do corpo do coleguinha, pensando sobre tudo isso.

Só que rolar naquela grama me deixava ansioso. Não saber em que lugar eu chegaria quando eu rolasse me deixava mais ansioso. Saber que eu não conseguia relaxar pra deixar de ser ansioso me deixava mais ainda ansioso. Parei de frequentar o curso por cinco motivos: 1) percebi que a coisa que a instrutora procurava era o pau dele. E eu, neurótico, desconfiei desde o primeiro minuto que aquilo era uma masturbação mútua; 2) as pessoas não usavam desodorante; 3) as pessoas eram completamente deprimidas e ansiosas; 4) eu usava desodorante e não era tão deprimido e ansioso; 5) sério que eu me meti nisso? Achei justo, com ele e comigo, terminar. E até hoje, até a publicação desse texto, ele não sabe que eu odiava os incensos, os encontros de budismo e o curso de terapia na grama, porque eu nunca fui honesto.

Depois dele, conheci outro cara. Tomava remédio o tempo inteiro porque o tempo inteiro ele tinha vontade de morrer. No meio do show, ele saiu às pressas porque havia esquecido o Diazepam e estava com vontade de morrer. Descobri também, no almoço de bodas de prata da mãe dele, que ele tomava Prozac, Alprazolam e Tegretol, e que tudo isso ajudava ele a não ter vontade de morrer. Mas foi quando abri o porta-luvas do carro dele que me deparei com o Leponex. Pesquisei rápido no Google e descobri que Leponex é remédio pra esquizofrênico. Ele não gostava de teatro, não gostava de assistir televisão, não gostava de ficar numa sala escura de cinema, não gostava de barzinho, não gostava de falar ao celular, não gostava de beijar na boca toda hora, não gostava de viajar. E o tempo inteiro me dizia que não ia dar certo porque era impossível me agradar.

Numa festinha na casa de Nanda, encontrei ele fedendo a cigarro de cravo, chorando escondido no chão da área de serviço. E então ele me disse que essa vontade de morrer não iria embora nunca, então ele iria parar de tomar os remédios e ficar só na maconha. Ele passava o dia inteiro lendo livros ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que excluía arquivos inúteis do computador ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que via uns vídeos no YouTube ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que conversava com sete pessoas no Facebook ao mesmo tempo que fumava maconha ao mesmo tempo que escrevia poesias. Passou a fumar tanta maconha que os móveis já tinham cheiro de maconha, o beijo dele tinha gosto de maconha, o cabelo dele tinha formato de maconha. E ele queria saber se sair com um cara maconheiro era um problema pra mim. E eu nunca fui honesto.

Eu já não aguentava mais os piores restaurantes e os piores filmes e as conversas sobre a morte. Quando fomos parados pela blitz e o carro dele tinha quase trezentos quilos de maconha, tive medo de ser detido. Mas ele me dizia pra ter calma “porque aquilo não daria em nada”. Peguei um táxi e voltei pra casa tremendo. Ali eu tive certeza que não valia a pena continuar porque a nossa relação não daria em nada. E até hoje, até a publicação desse texto, ele não sabe que eu odiava os remédios, a maconha, os restaurantes ruins, porque eu nunca fui honesto.

Cheguei em casa, remexi armários, caixas e gavetas, e joguei fora tudo o que não servia. Num repente, decidi que mesmo tendo pavor do tédio, eu jamais suportaria o insuportável só pra ter alguém. Só por uma companhia. Relações que me faziam mal, que não me faziam ser eu. Decidi que ser sincero seria mesmo a melhor saída, ainda que isso me custasse muito caro. Decidi que eu precisava ser honesto nas relações. Eu precisava não me sentir culpado. Eu precisava jogar aberto. Só assim consegui viver um relacionamento mais sólido. Só assim consegui me sentir vivo, inteiro, verdadeiro, feliz. Todo o resto, antes do repente, era só uma possibilidade.

Minúsculo

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Eu quase consegui fazer compras semana passada. Foi muito quase. Rodei o supermercado inteiro por vinte minutos até que eu perguntei onde é que ficava o caqui. E me deu uma tristeza e uma saudade profunda fazer essa pergunta. Porque eu não gosto de caqui, só compro porque você gosta. Só compro por hábito. Só compro porque é molinho e a gente não acha em qualquer esquina e tem a cara mais inofensiva do universo. Caqui não faz mal pra ninguém. Não tem espinho como abacaxi, não mancha como o caju. Um aperto de leve e você machuca. Se você estiver na rua o dia inteiro sem comer, morrendo de fome, suado, vai conseguir comer caqui sem precisar descascar. Tinha um vermelho mais clarinho, o vermelho mais maduro e uns mais parecidos com tomate. Todos em redinhas amarelas. Todos espremidos dentro de redinhas amarelas. Vi um cartão especial do dia dos namorados, misturados com revistas numa prateleira, enquanto eu esperava na fila do caixa, e aquilo endureceu meus ombros. Algo sobre um cadastro “pra ter desconto pra família e namorado” foi perguntado e aquilo me deprimiu demais. Pelo vidro, vi um casal com um bebê, no estacionamento, colocando as compras dentro do porta-malas do carro, e aquilo me deixou mais triste do que deveria. Larguei os caquis espremidos na redinha amarela e todas as compras no carrinho. Eu simplesmente larguei tudo lá. A menina do caixa gritou por mim, sem entender. Atravessei a rua correndo e nunca mais voltei.

Eu quase consegui abraçar alguém sábado. Durante dois segundos eu fechei os olhos e apertei a cintura com muita força e pensei que, finalmente, eu estava conseguindo esvaziar meu peito de você. Foi realmente por pouco. Acho que, devagar, como uma criança que solta as mãos de um adulto pra dar o primeiro passo, talvez um dia eu consiga andar pra frente.

Domingo ri tanto no rodízio, tanto, que por pouco me senti feliz de novo. Os amigos mais engraçados que eu tenho, e que eu não via há um tempo, me contaram as loucuras que fizeram no intercâmbio. Dei muita risada com a história de uma amiga que foi pega pelo segurança em um envolvimento quase sexual com outro segurança atrás do Museu do Louvre. Mas aí lembrei, no meio da minha risada alta, como eu queria voltar pra casa e contar pra você detalhe por detalhe dessas histórias. E fiquei triste de novo.

Anteontem acordei me sentindo mais forte e chamei todos os meus amigos pra ir ao Alfredo di Roma, o restaurante que você me levava. Eu gosto de tanta coisa lá e tenho tantas boas lembranças que não queria fingir que esse restaurante não existe. Mas quando eu vi o sorvete do petit gâteau de doce de leite derretendo no pratinho, lembrei de você e comecei a chorar. E deixei todo mundo no restaurante e fui embora. E ninguém entendeu nada. Por pouco eu consegui ter uma noite bonita. Por pouco eu consegui me distrair. Por pouco eu deletei a sua existência.

Ontem eu topei ir até a casa do cara que eu saio há um tempo. Um aperto de mão que não me dizia nada, um beijo que não me dizia nada. Achei desonesto transar com o homem mais bonito e gente boa do mundo e lembrar de você justamente nessa hora. Eu parei tudo, coloquei a cueca e fui embora. E chorei na janela do ônibus o caminho inteiro, de soluçar, vendo a mistura das luzinhas dos faróis dos carros. Por pouco eu senti prazer de novo. Por pouco eu permiti que outro cara me tocasse. Por pouco eu deletei os seus flashes da minha cabeça.

Um amigo me disse hoje, por telefone, que tem um amigo pra me apresentar. Que eu e ele combinamos muito. Que ele é bem fofo. Que ele me viu no lançamento do livro de outro amigo e que se apaixonou por mim. Quem diria, hein? Quem diria. Alguém apaixonado por mim. E o mais doido dessa história toda nem é isso. O mais doido é que eu fico curioso com esse negócio de gostarem de mim. Por pouco eu me animo com esse homem fofo. Por pouco eu me animo em gostar de alguém. Mas pensar em gostar de alguém me lembra você. E fico triste de novo.

Pedro, meu psicólogo, dizque eu preciso me distrair com outras coisas, conhecer novas coisas. Cadu, meu amigo, dizque eu preciso pensar mais em mim, na minha vida daqui pra frente. Luana, a moça que faz faxina na minha casa, dizque eu preciso parar de colocar minha felicidade na mão dos outros, principalmente de homem.

Eu pensei que quando a gente dividisse o corredor sem se olhar, eu pensei que quando eu te visse numa festinha com outro cara, eu pensei que quando eu jogasse todos os seus presentes fora, eu pensei que quando eu rasgasse todos os canhotos de cinema e apagasse a nossa conversa do celular, eu pensei que quando passasse semanas e meses, eu pensei que quando finalmente eu te visse mudado, vivo e indiferente, eu pensei que quando eu entendesse que não tinha mais volta, eu pensei que passaria. Não deixa de doer nunca, mas quase para de doer todos os dias.

Ficar triste deixou de ser momentâneo e naturalizou. Chorar deixou de ter um motivo e virou um hábito diário de quem sente por tudo. Perder a autoestima se tornou comum e passou a ser normal, me convencendo que tudo bem não sair mais de casa, tudo bem não ler mais nada, tudo bem não assistir mais nada, tudo bem não pentear o cabelo.

Você, que já foi o motivo dos dias mais incríveis da minha vida, agora me puxa pro fundo do poço mais desmedido dos dias mais tristes. Um poço que não me deixa ser inteiro em nada, realizado em nada, satisfeito com nada, feliz em nada.

Por pouco eu consigo não te odiar, por pouco eu consigo não odiar aquela foto com aqueles garotos, por pouco eu não escrevo esse texto. Todos os dias eu quase te mando uma mensagem, eu quase te ligo, eu quase falo com você quando te encontro, eu quase consigo ser leve, eu quase consigo te tratar como nada. E quase dou um foda-se pra tudo, quase perco a razão, quase desisto de continuar. E quase consigo, sem sentir um buraco no estômago, achar que vai dar tudo certo, que hoje só foi mais um dia com um resto de quase e que uma hora esse resto de quase, de tão minúsculo, finalmente, vira um nada.

Por que eu acho que é amor

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Imagine que carrego uma mochila extremamente pesada nas costas, com dois bilhões em moedinhas e tabletes de ouro. Estou na Lapa. Ando assustado no meio da multidão, suado, corcunda, achando que a qualquer momento posso ser roubado. Enforco as alças no meu pescoço e prendo alguns nós na cintura e nos braços.

Vez em quando, alguém por ali, correndo, colando ao meu lado, pedindo informação, sorrindo pra parecer simpático, ousa colocar as mãos dentro da minha mochila pra tentar roubar as moedinhas valiosas, como eu previa. Porém, ainda que eu não aguente o peso e pense em pedir ajuda e reclame das dores na cervical, me atiro ao chão e, ciente dos riscos, percebo do que sou capaz de fazer: matar ou morrer pela mochila. Automaticamente, quero gritar que tudo bem, tudo bem: qualquer coisa contra mim, menos a mochila. Como se, numa compaixão fraternal, protegesse um filho de um tiroteio.

Daí, também, vez em quando, alguém por ali, correndo, colando ao meu lado, pedindo informação, vincando a testa com piedade, se oferece pra segurar a mochila pesada. Ou pra entregar no lugar de destino. Ou pra dividir, ao menos, o peso das alças. Também não consigo olhar pra essas pessoas e enxergar gentileza. Não consigo confiar na bondade delas a ponto de entregar uma das alças.

Porém, vez em quando, alguém por ali, como aconteceu com você, aparece no meio da multidão com uns olhos brilhando de pureza. Aparece uma pessoa que não me pede nada em troca, não repara na mochila, não tem segundas intenções, apenas caminha ao meu lado com leveza. Aparece uma pessoa que me faz sentir vontade de entregar cada moedinha, cada tablete de ouro da minha pobre mochila. Aceite, guarde, não economize, faça chuva de prata com elas em plena Avenida Sete ou, quem sabe, na Manoel Dias.

Eu não sou egoísta. Eu sou uma espécie em extinção. Eu sou um mendigo pelo avesso. Eu ando por todas as ruas movimentadas do mundo, me arriscando no meio da multidão, pra encontrar alguém com os olhos brilhando de pureza. Eu ando por todas as ruas movimentadas do mundo implorando pra que alguma alma honesta, no meio da multidão interesseira, aceite de bom grado toda a minha riqueza. Tenho um banquinho nas praças da cidade onde ouço as dores dos outros, onde faço piada da vida, pra animar pessoas de almas bondosas com olhares tristes. Próximo aos meus pés há um chapéu imenso e cheio de dinheiro. Embora tenha escrito em uma plaquinha “Obrigado, não quero sua ajuda”, ninguém lê, ninguém entende. Embora eu grite no alto-falante “pelo amor de Deus, eu não quero sua ajuda”, ninguém ouve, ninguém entende. Mas você me leu. Você me ouviu.

Posso ficar séculos tentando te explicar por que eu acho que é amor. Você tem um redemoinho de pelo abandonado e solitário abaixo do dedo mindinho da mão esquerda. Você tem intervalos curtos entre os dentes incisivos centrais. Você desfia o cabelo com os dedos da mão direita quando está nervoso. Você joga sua cabeça pra frente quando a risada é de timidez. Você joga sua cabeça pra trás quando a risada é de felicidade. Você atravessou a rua feito um louco no meio dos carros, com as mãos forçando os bolsos do jeans, só porque não sabia o melhor momento de me pedir em namoro. Você pede desculpa pela sua parte mauricinho de ser com a fragilidade e a sinceridade de um poeta francês. Você me convida pra comer num japonês, exatamente onde terminamos e, porque sabe ser sacana e piadista do mesmo jeito que combina comigo, explica nos mínimos detalhes onde é o lugar. Como se, algum dia, eu fosse capaz de esquecer.

Eu vejo a palavra “amor” num jornal velho e, só porque tem três de sete letras do seu nome, sinto de leve minha pressão cair. Eu vejo um vulto de alguém dobrando a esquina a cem metros e, só porque tem exatamente a sua altura, sinto de leve um chutinho atrás dos meus joelhos. Eu tenho uma doença que ainda é desconhecida pela medicina: eu vejo coraçõezinhos telemáticos espalhados pela cidade. Saltitando, atravessando pistas, em cartazes publicitários, sendo jogados em lixeiras, sendo vomitados em bares por gente solitária que enche o copo de cerveja porque não sabe mais como controlar todo o resto. Eu poderia ficar séculos tentando te explicar por que eu acho que é amor.

Semana passada você fez o contrário do que eu acredito. Você tentou me explicar por que você acha que não é amor. Falou das minhas dúvidas, inconstâncias e chatices, das minhas noites com calmantes que me fazem ficar sem libido, do quanto odiava quando eu tentava sugar mais e mais e mais do seu coração protegido pelas várias camisetinhas modernas que parecem casaquinhos finos e, por fim, quis explicar que prefere um daqueles meninos da San Sebastian que some na semana seguinte, porque você é viciado mesmo em comecinhos.

Não são por essas coisas que se afirma que é amor. Não são por essas coisas que não se afirma que é amor. Essas são apenas coisas que observamos e conseguimos expulsar da garganta ou revelar com os olhos enquanto no encaramos com medo. No fundo, no meio da multidão, correndo assustados, carregamos mochilas pesadas de moedinhas e tabletes de ouros. São sentimentos, belezas e fantasmas. E, no minuto exato, quando acontece, e ninguém consegue explicar isso sem parecer bobinho e arrogante, entregamos a mochila pra alguém que nos leve embora de becos inóspitos. Para um lugar que a gente sempre esteve pronto pra ir.

Eu te vejo atravessando a rua em passos de câmera lenta, com as mãos quase dentro de uma das suas camisas que parecem casaquinhos finos, e quero te colocar dentro desse táxi e te levar pra esse lugar que todo mundo espera ir, que eu fui e que você sempre foge. Você me lê, você me ouve, mas você não me entende, você não enxerga, você nunca está preparado, você ignora.

Mas, no último milésimo do sinal vermelho, fui tomado por uma raiva desmedida. Sem tempo para pensar, escancarei a janela do táxi e arremessei com toda força do mundo a mochila com bilhões de moedas e tabletes de ouro. Toma aí pra você e me deixe pobre. A mochila não te alcançou, caiu a dois palmos antes do seu último passo. E você, mais uma vez, continuou de costas. Nem o som dos meus dentes rígidos provocados pela força de quando perco o controle, nem o meu coração apodrecendo sendo transmitido por telas, nem o cheiro do meu cabelo esvoaçando pelo vidro aberto, nem a luz da minha caridade possessiva. Nem nada abala você.

A mochila abriu em pleno meio-dia da Avenida Tancredo Neves, caótica pelo sol intenso e pela véspera do natal. Os mendigos, os interesseiros, os egoístas, os mentirosos, os desonestos e todos os outros seres que dilaceram mochilas nas metrópoles, se amontoaram pra tirar proveito do amor que, de tanto escolhido a ser entregue, de tanto insistir em ser levado pra algum lugar, agora ficou pisoteado, exposto em bueiros, como resto de peixe de feira.

 

A gente sempre procura a felicidade quando já é feliz

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Ontem fiquei procurando depois que você dormiu. Não sabia se era vontade de comer mais um pedaço de pizza abandonado na geladeira ou de tomar outro banho bem gelado — pra você me xingar que tomo banho demais e que vou ser o culpado por acabar com toda a água do planeta. Não sabia se era aquela coisa de me encolher no cantinho da varanda e ficar tentando adivinhar que luz é aquela que nunca apaga no apartamento em frente. Não sabia se era aquela coisa de te acordar de novo pra pedir que você me ensine a falar direito as letras das músicas da Radiohead que eu canto tudo errado. Você sempre foi melhor em inglês do que eu e o único que nunca perdeu a paciência de me ensinar. Eu te acordo e você canta meio dormindo as músicas que mesmo sem sair do tom vão ficando mais baixinhas com seu sono e fica tudo tão bonito.

Eu fiquei procurando, procurando, arrumei as gavetas, as caixas, as suas cuecas misturadas, as suas camisas sempre tão cheirosas e deixei tudo esticadinho, com as meias e as gravatas e o relógio e o celular e a carteira e as chaves do carro. E arrumei o armário do banheiro com seus cremes para a barba. Tudo um do ladinho do outro, bonitinho, corretinho. E joguei fora as embalagens vazias de xampu. E troquei a sua toalha mesmo estando sempre branca e sempre limpinha. Era isso ou comer mais um pedaço velho de pizza na geladeira ou tomar outro banho ou ir pra varanda ver a luz do prédio que fica do outro lado da rua. Mas eu poderia estar lá na cama com você, dormindo de conchinha, cheirando a sua nuca, ouvindo a sua respiração. Mas eu fico aqui procurando, perdendo tempo com coisas que não dizem nada.

E você ri, ronca, se espalha na cama, vira de bruços, de lado, tira o cabelo do rosto, se coça, tenta matar algum mosquito, se cobre, tira o edredom, ronca de novo. E você acorda no meio da noite e, com a voz um pouco rouca, pede pra eu cometer alguma loucura, sei lá, tipo beber a água da garrafinha aberta que tá no seu carro há mais de uma semana. Imagina só. Isso seria a maior loucura que eu faria na vida. Isso seria o maior atentado contra a minha saúde. Eu digo que jamais faria isso e você me carrega no colo, dizendo que vai me levar à força até o carro pra que eu beba a tal água da garrafinha. Eu reluto e você acha graça. Aí me coloca no chão, rindo mais ainda. E depois me diz que não existe garrafinha nenhuma. E eu te bato porque nunca sei quando você está mentindo. E você me beija infinitas vezes. E eu te odeio muito e te bato muito mais.

E depois você vai ver um pouco a tevê. Quase duas horas da manhã e você reclama que precisa acordar cedo. E zapeia os canais da tevê. Até que para num filme velho com atores bonitos que fumam charuto o tempo inteiro. E você pega no sono com o controle na mão. E daí eu quero te acordar. De novo. Mas pra quê? Pra que mesmo? Se eu pensar, lá no fundinho do fundinho do fundinho, não é pra você cantar as músicas da Radiohead e nem pra você me ensinar inglês e nem pra tirar sarro que minha orelha tem um formato estranho e nem porque acho sexy você de cueca, cabelo bagunçado, assistindo um desses filmes preto e branco. É pra isso também, porque você é das poucas pessoas que me dão vontade de acordar cedo no dia seguinte e correr num parque sem saber onde vou chegar e sem saber por que eu corro tanto.

Mesmo eu passando um fim de semana inteiro na sua casa e você sem tempo por duas semanas pra ir ao cinema comigo. Mesmo eu nunca indo embora e sempre jurando, pedindo sempre pro carro parar, pedindo sempre a conta, pegando sempre a bolsa, desligando sempre o telefone. Mesmo o tempo inteiro me dizendo que foi a última vez porque não gosto muito de você. A última vez que a gente sai, que a gente transa, que a gente briga, que a gente cozinha. Pra que eu quero te acordar? Penso enquanto tomo banho e arrumo minhas coisas e me encolho no cantinho da varanda pra ver a luz que nunca apaga no apartamento em frente.

Eu procuro, procuro, o tempo inteiro eu procuro, enquanto você dorme, e não acho nada. Nunca. Talvez o cara que atravessa a rua com a camisa desabotoada, talvez aquelas pessoas que estão no bar, talvez a festinha cheia de universitário que se pega o tempo todo e sorri pra foto o tempo todo, talvez algum cara mais bonito que você, mais inteligente que você, algum cara que ainda não chegou e eu nem sei por onde anda e eu nem sei se vai chegar. Ou talvez não seja nada disso. Talvez não seja nenhum deles. Não sei se é fácil encontrar alguém que dance de cueca e de meias coloridas enquanto cozinha. Se é fácil encontrar alguém que conte tantas piadas velhas e me faça rir com as mesmas piadas velhas. Se é fácil encontrar alguém que acorda assustado no meio da noite querendo saber se tá tudo bem.

Não sei por que eu procuro em tantos rostos o que já encontrei em você, o que gosto em você. Se mesmo dizendo que vou embora, eu quero mesmo ficar. Se mesmo achando que a felicidade tá lá fora, você acaba me suprindo em tudo. Querer mais, mais, mais. Mais o quê? Depois de muitas horas, durmo também. Com a mesma calma morta e sorridente que faz com que eu perambule pela sua casa e que você continue perambulando na minha vida e que a gente perambule juntos por todo o resto. Eu não sei o que vai ser da gente amanhã, semana que vem, daqui a um mês. Mas agora, hoje, nesse minuto, grava isso: eu sou muito feliz com você, só com você.

Criar uma lista de suposições é o único êxtase possível de um neurótico

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Acordei, de repente, sentado na cama, impactado, com a mão no queixo: Meu Deus, eu preciso saber. Sonhei que uma cartomante chamada Cidinha me dizia, incisivamente, que alguém que eu amava muito escondia de mim algo muito sério. Eu nunca mais esqueceria a cara de espanto e o nome da cartomante, e, mais do que isso, eu jamais conseguiria esquecer cada letrinha da frase “alguém que você ama muito esconde de você algo muito grave” – que ficaria rondando e martelando a cabeça por semanas, meses, séculos até que eu fosse capaz de descobrir o grande culpado pela omissão.

Sem considerar que era apenas um sonho e, logo, resposta do meu inconsciente, saí de casa de moletom, chinelo, cabelos despenteados e com resto de ácido clareador de manchas pelos cantos do rosto decidido a alimentar minha neurose. Fui ao trabalho do meu namorado. Obviamente ele seria o primeiro a passar pelo interrogatório. Cheguei com uma lista de suposições, que crescia à medida que eu sentia um misto de ânsia e êxtase pra saber a verdade. Ele precisava fazer mil ligações e responder mil e-mails. Em meia hora, ele teria uma reunião com o chefe nada amigável e, pra piorar, nem havia tomado café da manhã.

Que palhaçada é essa de me esconder algo? Até quando você ia esconder essa verdade de mim? Ele me olha tentando manter a calma apesar do dia errado. Meu Deus, eu preciso saber. “Não lembro de te esconder nada”, ele se defende. Depois, com mais calma ainda, talvez pra evitar gaguejar e piorar tudo, admite que já me escondeu coisinhas, mas nada tão grave que não pudesse ser perdoado. Talvez foi no jogo de “verdade ou consequência”, na casa dos amigos da época da faculdade, que ele participou “porque todo mundo queria lembrar da adolescência”. Sei. Quem sabe a consequência foi um selinho que parou numa língua aqui e lá no cara que ele sempre sentiu atração? Quem nunca? Talvez tivesse perdido mesmo aquele jeans lindo e caríssimo, presente meu de aniversário, e a desculpa “esqueci na casa dos meus pais” fosse, como eu imaginava, falta de coragem pra abrir o jogo. Sim, aquele dia que ele desistiu de me levar pra jantar, depois que eu já estava pronto, não foi o churrasco que desceu errado, foi preguiça de sair de casa.

Fui até a casa da minha mãe. A segunda a ser interrogada. Ela precisava terminar um telefonema importante com minha tia Zeca e depois fazer o almoço. Talvez o suco de mamão com laranja, que ela faz todo dia pela manhã, tinha pepino, e ela jamais me contou. Talvez aquele pedacinho de torta bem doce que ela não pode comer por causa da diabete, mas exagera toda tarde. As passagens pra São Paulo, super baratas, nunca foram “uma coisa de sorte”: ela pagava muito mais do que dizia só pra me fazer feliz. A real é que aquele cara que ela disse ter encontrado no teatro, não foi por acaso: eles já namoravam há quase um ano, só não sabia como contar. Eu criava tantas suposições na minha lista que eu iria durar semanas para descobrir tudo. Eram tópicos importantes, mas duvido muito que era algo muito grave. Talvez o suco.

Certeza que minha editora esconde alguma coisa de mim: quando precisou de alguém pra escrever comportamento na revista, ela escolheu outra repórter, me deixou na editoria de saúde, mas não teve coragem de contar pra mim que preferiu a bonitinha loira. Certeza que meu amigo não conheceu o namorado novo através de um amigo em comum: deve ter sido por aplicativo, mas ele ficou com vergonha de contar. Certeza que minha outra amiga não conseguiu mudar de cargo por competência: ela deu pro chefe.

Fiz uma festinha em casa, convidei TODOS os meus amigos, incentivei TODOS a beberem vodca, vinho, cerveja e tudo que embebedasse o mais rápido possível, e quis ouvir um sincerão: pronto, gente, me conta tudo. Quem é feliz aqui? Ouvi relatos tristes e óbvios como “ninguém, no fundo, é feliz solteiro” e “ninguém é feliz depois que encontra o amor da vida” e “inventaram a felicidade”. Descobri que uns dez amigos meus falam mal de mim. Coisas leves, nada muito grave. Daí pensei em colocar todo mundo pra fora da minha casa, deletar a porra toda do Facebook, dormir odiando a humanidade. Daí lembrei que eu falo mal deles também, e de muitos outros. Coisas leves, nada demais. E repensei toda a minha existência enquanto ser humano, cogitando a dureza de encarar a realidade maligna de que não passo de um filho da puta escroto mais falso que os dez amigos que falam mal de mim. Daí pensei que todo mundo deveria me colocar pra fora da minha casa e me deletar do Facebook. Daí lembrei que todos esses amigos de quem falo mal, falam mal dos nossos outros amigos que, por coincidência, são os mesmos dez que falam mal de mim. E cheguei a uma maravilhosa conclusão a respeito da vida: é normal. Ficamos no sofá, chapados de álcool, embaixo de edredons, abraçados, tentando ver qualquer coisa na TV.

No dia seguinte, quando Luana, a diarista que trabalha aqui em casa, estava aspirando a sala, ouvi um grito. Ao tirar a manta pra lavar, ela encontrou um buracão na poltrona, feito por Bento, meu cachorro. Era a poltrona que ganhei de presente da minha avó Maria. Uma relíquia portuguesa do século passado. Ele escondeu muito bem escondido tudo o que aprontou e, por isso, me rejeitava nos últimos dias. Preciso encontrar essa cartomante chamada Cidinha.

 

Até quando você vai brincar de ser louquinho?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Semana passada marquei um café com um amigo no Glauber Rocha. Volta e meia discutimos em festinhas, bares, telefone, rede social. Falamos umas coisas horríveis em grau que ultrapassa o nível escroto e sumimos — comportamento típico de quem se ama e se conhece muito. Mas, nesse dia do café, a gente conversou sem brigar. Até que ele me disse a grande lição do dia: “chega uma hora na vida que você precisa deixar de ser um leão pra poder manter amigos, emprego e relacionamento. Ou você pode escolher devorar todo mundo e viver sozinho”.

No meu último freela, quando fui comunicar que eu não prestava mais pra trabalhar ali, e por isso estava desistindo do trabalho, ouvi do meu chefe: “não quer ficar, tudo bem. Mas não esquece: toda essa sua mania de ser louquinho e falar o que pensa não vai te levar a lugar algum”. Meu ex-namorado uma vez me disse: “essa sua capacidade de sempre achar que está certo consegue te fazer mais arrogante do que você já é”. Uma amiga, dessas que a gente confia muito, me disse: “quem briga por tudo, acha que pode tudo e quer controlar tudo, na verdade só está tentando provar pra si mesmo que não é um merda”.

Já caguei pra tudo isso que me disseram. Já senti muita raiva, já chorei, já cheguei a dizer que nenhum deles me entendia. Mas acho que, no fundo, todos eles têm razão. E venho tentando — com respiração e autoanálise e terapia e oração e mantras e escrita — ser uma pessoa mais equilibrada e paciente, uma pessoa menos impulsiva e pesada.  Mas a verdade é que eu detesto o equilíbrio, a paciência, o controle e a leveza. Caramba, se eu tô puto, eu tô puto! Não dá pra fingir que não tô puto e sorrir amarelo pro mundo. Se eu tô com ciúme, não vou fingir que tá tudo bem e “agora não” e “não estraga” só pra parecer seguro, controlado e bem resolvido.

Se o cara que levanta a mão numa reunião é um filho da puta e fala besteira o tempo inteiro, eu não vou engolir o discurso calado, eu vou mais é esbravejar, berrar, liberar todo o ódio de dentro do meu estômago: você, com seu discurso bosta, é um grande filho da puta! Se a vaca que atende na pipoca do cinema me tratar mal, eu vou mais é falar mesmo que ela é uma grosseira e mal-educada e nem deveria estar ali. O sangue ferve a ponto de fazer bolhas aqui dentro, o suor desce em litros por puro nervosismo, e eu não quero fingir de jeito nenhum que nada tá acontecendo e tudo bem guardar essa raiva e tudo bem mostrar pro mundo que você não peita e tudo bem aguentar um pouquinho.

Eu não quero contar até mil, eu quero esmurrar a porta do elevador se ele demora três segundos pra abrir. Quero morder a orelha do meu namorado que apenas joga videogame e se esparrama no sofá, seguro e relaxado de tudo, enquanto eu me desfaço em prantos porque amar é complicado pra caralho. Eu não quero largar o carrinho e ter que sair pra respirar na porta do supermercado, eu quero que a menina do caixa pare de bater papo com a outra que não para de bater papo com mais duas que não param de bater papo e que todas elas atendam as três mil pessoas na fila. Quero colocar TODAS as pessoas do meu trabalho que falam MuLiro colocando o L no lugar do R, achando isso engraçadíssimo, dentro de um quarto fechado e abrir o gás. E não tem como fazer tudo isso sem ser olhado como arrogante, louco, dono da verdade, cruel.

Eu sou antipático mesmo, eu sou insuportável mesmo. O mundo tá cheio de gente burra e brega e eu tenho todo o direito de não querer olhar na cara delas. Não tô fazendo mal a ninguém, só tô fazendo bem a mim mesmo.

É tão triste saber que vocês esperam o fim de semana chegar pra colocar uma roupinha da moda e morrer esperando na fila de uma daquelas festas idiotas da Commons. É tão triste ver todos vocês voltando pra casa sem saber o que fazer daqui a dez minutos. Voltando vazio pra casa, com ressaca e o corpo entupido de fumaça de cigarro, acordando de manhã sem nada na alma.  É tão triste ver todos os casais que não se amam, mas já estão há dez anos juntos por puro comodismo e só sobrevivem pra fazer concorrência a outros casais que só sobrevivem pra fazer concorrência a outros casais. É mais triste ainda aceitar que as contas do final do mês (e isso inclui condomínio, SKY, GVT, Netflix) valham a minha bunda sentada mais de sete horas por dia que só me faz lembrar o tempo inteiro o quanto eu odeio essa gente que se acha cult porque fez um curso enrolation no exterior, mas nunca leu metade dos livros que eu já li e não tem metade do meu portfólio.

Parem de achar que tá tudo muito bom, humanos filhos da puta. Parem de sorrir pra tudo, de gostar de tudo, de ser feliz com tudo. Confessem que vocês não fazem a menor ideia do que fazem nesse universo. Confessem a raiva de estar feio, e confessem que estar bonito, depois de tanta produção, não adianta merda nenhuma.

Mas eu não movo um dedo. Eu continuo sendo como todos eles. Eu continuo esperando o fim de semana pra usar uma merda de roupinha da moda, numa festinha hipster da moda, no meio de um monte de merdas com óculos de aros grossos e camisa xadrez que se parecem comigo. Eu quero o cabelo fedendo a cigarro pra ser bem aceito porque, quando você faz parte de um grupinho, a dor não existe. E se existe, ela não é visível. E, no fundo, todo mundo sabe que a dor existe, mas é melhor que ela seja invisível mesmo. E eu sigo voltando pra casa vazio, acordando no dia seguinte perdido, sozinho, triste, com ressaca do álcool e da vida, achando tudo falso, pequeno e banal. Acordando mais uma vez, todos os dias da minha vida, sem saber direito o que vai ser daqui a dez minutos.

Assim é a vida. Você dá mais um gole na Coca-Cola pra não reparar que o bonitinho da mesa ao lado se interessou pelo seu namorado, e seu namorado, como qualquer ser humano normal, gostou do bonitinho ter gostado. Você revira o Spotify inteiro pra não reparar que a menina de treze anos, se pegando em frente à escola com um cara escroto de 28, já tem malícia, mas não sabe escolher sapato. Você inventa, se desculpa, passa a vida cego para poder viver. Porque enxergar a vida como ela é, cá pra nós, dói muito e enlouquece, e louco acaba numa poltrona, de um sobrado vazio, reclamando com gato.

Você passa a vida sem poder enxergar, mentindo, não dando importância, perdoando, teatralizando o personagem que sempre precisa dar a volta por cima, que sempre controla, que sempre espera, e nunca desce do salto. Só que o esse salto um dia quebra, e você morre sem nunca ter vivido, sem nunca ter gritado, e você deixa de existir porque não sabe gritar. Você é mais um bonitinho produzido na fotografia de mais uma festa produzida, é um coadjuvante insosso dessa palhaçada de teatro que é a vida.

Você aceita voltar pra casa dez da noite, depois de mais um dia estressante no trabalho. Você aguenta mais um artigo da faculdade. Você suporta mais dez minutos na fila do Restaurante Universitário. Você aceita a vida, porque é o que a gente acaba fazendo, no fim das contas, pra não se jogar do prédio ou jogar algum imbecil que escuta você reclamar horas sem fim das raivas e incertezas da vida e responde sem maior importância: relaaaaaaaaaaxa! Eu não vou usar nenhuma droga, eu não vou beber até passar vergonha no meio de uma festa, eu não vou dançar a noite inteira pra fingir que não tenho problema,  eu não vou engolir, eu não vou desistir de querer me encontrar, de saber em mais uma terapia que porra é essa que me entristece tanto dia após dias, de tentar entender por que eu nunca me achei normal. Eu não vou relaxaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar.

A única coisa que me deixa calado e, vez ou outra, me transforma em alguém incrivelmente normal é que ser um louquinho, que fala o que pensa, só vale a pena se você tiver alguém, no fim do dia, pra contar o quanto você faz a vida valer a pena.

Você jamais faria sexo por Skype

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Sábado, duas da manhã. Depois que ele voltou de um encontro com amigos no Chupito. Depois que eu voltei de um encontro com amigos na casa de André. E a gente tá lá: online no Skype. Talvez ele esteja assistindo um filme de Hitchcock ou de Tarantino em outra tela. Ou lendo alguma coisa sobre inovações mobile, pré-sal, pau-brasil. Ou vendo um pornô. Fico olhando a foto dele ao lado esquerdo da tela. Como ele é bonito. Aquela foto com pose heroica, esquiando, que nunca muda. Aquele sorriso grande congelado.

A gente nunca combinou dia e nem horário. Mas a gente sempre se encontra. E eu sempre puxo assunto quando ele não puxa assunto comigo. E ele dizendo o quanto queria sair comigo de novo, “mas porra, tá foda”. E eu dizendo o quanto queria que ele realmente quisesse sair comigo de novo. Mas eu sei, tá foda. E ele me dizendo que bebeu um pouco no Chupito. E eu dizendo pra ele que bebi um pouco na casa de André. E ele focava a camerazinha e me mostrava: Olha, chazinho de hortelã pra me redimir do álcool. E eu focava a camerazinha e mostrava: Olha como eu fico feinho dentro de casa. Vou colocar outro chazinho no micro-ondas, tá? E ele levantava pra ir à cozinha e eu via que ele estava só com cueca. Os ombros largos, o peitoral cabeludo, o abdômen mais inchado — coisa de quem passa doze horas trabalhando em frente ao computador.

E ele voltava desfilando com a cueca branca. E eu me sentia meio incomodado, meio excitado, mas eu me dizia a cada calor: “Sem chance, eu jamais faria sexo por Skype”. Nem ele. Sério, eu fico estranho com esse pijaminha? E ele concordava rindo. Aquilo era basicamente um encontro e eu não poderia estar e nem me sentir ridículo. E eu estava me sentindo ridículo. Eu jamais abriria a porta pra receber ele em casa com esse pijaminha. Eu jamais me encontraria com ele com esse pijaminha. Lá vou eu colocar uma camisa bonita que comprei na Osklen semana passada. Uma coisa que não me fazia sentir nem velho nem adolescente. Enquanto vestia, eu me falava: “Nem pensar, eu jamais faria sexo por Skype”. Nem ele.

E ele ascendia um cigarrinho de maconha e soltava os cabelos. E tirava uma mecha de cabelo que insistia em cair nos olhos. E a mecha caía de novo. E então começava a briga dele com o cabelo. Um tira e cai. E eu colocava a perna em cima da escrivaninha. Abria a janela. Levantava a persiana. Meu Deus, como está quente aqui!!! E ele me conta que tem um fetiche. E eu mudo de assunto falando que Activia não regula nada no meu estômago. E ele não se importa com a minha minha flora intestinal e volta a falar do fetiche. E dá um trago no cigarrinho de maconha. E mexe de novo na mecha do cabelo que cai nos olhos. Que homem lindo.

E então ele me conta que encontrou aquele ator que ganhou o prêmio Braskem de Teatro e que dizem que é bissexual. E que ele tem fetiche em ir pra cama com dois caras, principalmente um bissexual. E eu comento que nunca transei com dois rapazes, mas, com ele e com o ator do prêmio Braskem… Nossa, super transaria. E ele me diz que também nunca quis saber de dois ao mesmo tempo. Sei lá, ele gosta de exclusividade, de fazer bem feito. Mas que comigo e com o ator que ganhou o prêmio Brasken… Nossa, até que não seria má ideia.

E ele pega no pau, pensa que eu não vejo. Será que ele tá excitado? E eu, nossa, eu tô com muito calor. Ele não vai ver se eu tirar essa bermuda jeans que sufoca as minhas coxas. Não tenho culpa dos setenta e oito graus de Salvador. A camerazinha só me pega dos ombros pra cima. Logo, se eu tirar a bermuda, ele não vai ver! Mas eu estou com a camiseta que comprei semana passada e o short do pijaminha. Não existe bermuda. Caramba, então por que essa vontade de tirar a bermuda? Não sei de nada, só sei que ele é um homem bonito, interessante, inteligente, bem-humorado, ganha bem, charmoso, pegador. Não precisa trepar com outro homem pelo Skype. E eu, bom, eu tenho aí uns três ou quatro amiguinhos que me visitam num desses dias mais calorentos. Jamais na vida precisei trepar com uma camerazinha, com a imaginação e com umas frases seguidas por emojis felizes, surpresos e amarelos.

Ele me mostra um livro de Marília Garcia. Eu mostro um livro de Paulo Mendes Campos. Nossa conversa literária não dura dois minutos: ele quer putaria. E ele quer voltar ao assunto do sexo a três, com o ator do prêmio Braskem. E eu comento, assim, na brincadeira, juro, que eu queria experimentar o tal ator, mas só se ele estivesse comigo também. E ele para de falar comigo alguns segundos. E acende outro cigarrinho de maconha. E bebe mais um gole do chazinho de hortelã. E mexe no cabelo. E então ele volta e fala que adoraria me ver, assim, na brincadeira, ele jura, experimentando o tal ator.

E eu começo a achar que essa conversa tá indo longe demais, sabe? Caramba, sexo pela internet é tão MSN. É tão adolescente. É tão 2006. É tão internet discada. É coisa desses caras meio doentes, não? Desses caras preguiçosos que preferem bater uma rapidinha do que levar alguém pro motel. E desses garotos feios e tímidos. É coisa de gente que não tem capacidade pra conquistar ao vivo. Ou de nerd com espinha que joga vídeo-game o dia inteiro, sei lá. E ele é um puta publicitário. E ele é um puta escritor. E ele é um puta roteirista. Não é nerd, não é feio, não é tímido, não é preguiçoso. E eu sou maior legal. E dei uma melhorada nos últimos anos.

E ele vira o último gole do chazinho e coloca a xícara na mesa. E lambe os lábios. E passa, pela trigésima vez, a mão pelos cabelos. E me manda um beijo. E eu enlouqueço naqueles cabelos e naquela boca e naquela língua. Mas já são quase quatro da manhã e a gente tá meio bêbado e ele mora em Vilas. A coisa que eu mais queria era estar lá com ele, bebendo chazinho, fumando com ele, passando a mão naqueles cabelos, mordendo aquela boca. E então, imediatamente sem pensar, ele escreve “enquanto você beija ele, eu beijo o seu corpo inteiro”. E eu, imediatamente sem pensar, respondo “enquanto beijo ele, é o seu gosto que eu sinto”. Depois disso, a coisa piora muito. Escrivaninha, sofá, corredor, armário da cozinha, elevador, piscina. A gente transa loucamente em todos os lugares possíveis. Eu, ele e o ator do prêmio Braskem.

Eu, que jamais pensei em fazer sexo virtual e muito menos a três, quando vi estava fazendo os dois ao mesmo tempo. Lembrei da série Looking, depois lembrei da série Queer as Folk. Os personagens que faziam isso eram descolados demais pro meu gosto. Mas tudo bem. Agora eu estava na pia da área de serviço, ou melhor, em cima da máquina de lavar. Não era a melhor hora pra pensar em série. No fim das contas ele brochou. Ou melhor: a imagem travou e ficou lenta, o que dá no mesmo que brochar. E no dia seguinte, ele fez o que todo homem sempre faz comigo: sumiu. Não apareceu no Skype, não respondeu mensagem, não atendeu o telefone. Ele simplesmente sumiu. É impressionante como até a maneira de fazer sexo mudou, mas a dificuldade em entender relações continua igual desde o tempo das cavernas.

Minha única dívida é um pedido de desculpas

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Há pelo menos seis meses, toda terça-feira, oito e trinta e cinco da manhã, recebo uma ligação do Bradesco: “Senhor Gilberto Costa, temos uma oportunidade irrecusável pro senhor parcelar e liquidar a sua dívida no banco”. Eu sempre dizia ao atendente que eu não me chamava Gilberto Costa e desligava o telefone. Mas, há pelo menos três meses, toda terça-feira, quatro e trinta e cinco da tarde, recebo outra ligação do Bradesco, sempre atrapalhando aula, reunião, sexo, cinema, lançamento de livro, aniversário, dor na emergência. É uma ligação mais enérgica como: “Senhor Gilberto Costa, caso o senhor não parcele a dívida até o dia 29, seu nome será encaminhado para o Serviço de Proteção ao Crédito”.

Já expliquei que nunca me chamei Gilberto Costa, que nunca ouvi falar nessa criatura. Não é primo, não é irmão, não é pai, não é namorado, não é. Já implorei pra excluírem meu número desse mailing de devedores. Até que semana passada, uma dessas atendentes, uma alma bondosa, sentindo o peso na minha voz de sofreguidão, fez uma leitura de honestidade no meu discurso de quase uma hora: “mas o senhor não deve nada mesmo?”. Desliguei o telefone sem sentir culpa. Em nenhum espacinho de cérebro existia culpa: eu não devia a absolutamente ninguém. Nem um almoço a uma amiga, nem uma cervejinha a um amigo, muito menos a um banco. Eu não devia a absolutamente ninguém.

Tomei banho, lavei a louça, dobrei algumas roupas, molhei as plantas e passei mais da metade do dia com a pergunta da atendente de alma bondosa: “mas o senhor não deve nada mesmo?”. Um carro do ovo passa lá longe. Esse carro não sabe, mas foram quase oito anos ouvindo você imitar a voz do homem que fala no microfone do carro do ovo. E nos últimos cinco anos eu passei a ouvir carros e passei a ouvir gente bêbada e passei a ouvir buzinas e passei a ouvir ruas e não ouço a sua voz. Mas a sua voz existe e não imita mais o carro do ovo e não me diz nada. Eu sei, você é chato, idiota, irritante e grosseiro, e eu vivia com nojo de você porque você nunca lavava as meias, mas você conseguiu o que o mundo inteiro nem quis tentar: você me amou de verdade.

Lembrei que, por anos, você foi o único que entendeu as minhas angústias no Réveillon. O único que entendeu as minhas angústias sempre quando apagavam as luzes pra comemorar qualquer aniversário. E o único que sempre permitiu também, depois, que eu chorasse sem me pedir pra parar, sem me achar louco. Eu sempre alérgico, com enjoo, reclamando, e você sempre entendendo tudo. Outro dia eu encontrei um vídeo, de 2012, num pen drive antigo. E lá você me pedia em casamento, de brincadeira, no meio de todos os meus amigos. Senti um misto de saudade e de melancolia ao assistir o vídeo incontáveis vezes em menos de meia hora. Mesmo vendo você como amigo e tratando todo o resto como o homem da minha vida, você me mostrou que todos sempre foram meninos perto de você.

Lembrei que, por anos, mesmo enxergando você apenas como amigo, eu desmarquei jantares e cinemas com todos os meus namorados e fui ao Bailinho de Quinta com você. Porque você sempre sentiu a energia da banda da mesma forma que eu sinto. Porque você sempre pulou e dançou e cantou todas as músicas de cor numa intensidade incrível, como se não fosse viver no próximo segundo.

Depois lembrei de você, largado no sofá da casa de Bia, meio morgado de tanto fumar maconha. Você com um daqueles óculos azuis espelhados típicos de maconheiro, e eu com o All Star todo rabiscado com nomes de banda de rock, com as pernas em cima das suas. Eu não sei por que exatamente eu não te pedi desculpas quando não apareci na sua formatura. Você passou meses falando disso comigo e me ligou a noite inteira querendo saber se ao menos eu não iria aparecer na festa.

Eu não sei por que exatamente eu não te pedi desculpas quando te deixei de cueca na cama, menti que ia ao banheiro e fui embora. Foi a primeira vez que tinha acontecido uma coisa mais quente entre a gente e, na real, eu que tinha provocado. Ou quando eu te pedi companhia quando meu namorado estava viajando e você me olhou querendo dizer “eu só sirvo pra isso, né?”. Também não sei por que eu nunca te pedi desculpas quando eu deixei você sozinho no hospital naquele dia que sua mãe estava morrendo com cetoacidose. Eu deixei um bilhetinho ao lado da sua mochila escrito “tô com muita dor no estômago”, mas era tudo mentira. A verdade é que eu tinha ido pra casa assistir Dexter e comer brigadeiro de panela.

Aí depois lembrei que você, depois de um tempo, finalmente tinha cansado das minhas angústias e dos meus enjoos e das minhas alergias e das minhas fugas e das minhas ausências, principalmente das minhas ausências de pedidos de desculpas. E você foi embora. Você mudou de casa, de carro, de emprego, de roupa, de amigos e, finalmente, mudou comigo também. Você, finalmente, se apaixonou por um cara sem alergia, sem enjoo, sem angústia e esqueceu de mim.

Eu tenho saudade de duzentas coisas e todas essas duzentas coisas sempre me levam pra mesma única coisa de que eu tenho muita saudade. Eu tenho saudade de tudo. De você me carregando no colo até a casa da minha mãe. E das sopas. E os soluços. E o choro baixinho. E as suas taquicardias estranhas no meio da noite. E a vontade de te jogar debaixo do chuveiro quando você começou a gostar daquele cara que sabia inglês, sabia francês, sabia discotecar, sabia escolher sapato, mas não sabia cuidar de você. E a vontade de te sacudir e te dizer pra acordar pra vida. E o meu nó na garganta quando eu te deixei no aeroporto. E a saudade quando você viajou. E o meu ciúme quando você me mandou fotos com os seus novos amigos da Tailândia. E a minha ansiedade ao te esperar na fila de desembarque. E o seu sorriso sem jeito tentando esconder a sua raiva por causa dos meus atrasos. E a sua risada descontrolada quando eu falava algum sarcasmo.

Eu já namorei tantos caras, mas não eram deles que eu gostava. Juro, eu tentei gostar muito deles, tentei me divertir, tentei dançar com eles até perder o fôlego em todos os shows do Bailinho de Quinta, mas eles não mexiam comigo. Eu não consigo ficar com eles além de meia hora. Eles não têm a sua ânsia de começo de festa e sua energia de fim de festa. Não são eles. Esse texto é meu pedido de desculpas pra você, esse homem chato, idiota, irritante e grosseiro. É pra você, o homem que imitava o carro do ovo. O homem que me pedia em casamento. O homem que me fazia feliz de verdade. É a minha tentativa de quitar a dívida. É a minha tentativa de consertar todas as vezes que fui chato, idiota, irritante e grosseiro, mesmo sabendo que essas coisas, uma vez que foi, a gente não conserta mais.

Mas eu não suporto ela

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Encontrei, dentro da Zara, uma chata com quem eu trabalhei há três anos num freela pra um jornal. Cheia de pulseiras e brincos e colares pesados. Salto agulha gigante fazendo barulho a cada passo, batom rosa choque na boca, decotão e meio litro de perfume no meio dos seios. Pensei que a chata me faria aquelas velhas perguntas previsíveis de quem se encontra por acaso, depois me daria um beijo no rosto e cairia fora, afinal, a gente nunca teve intimidade. Mas ela foi além.

Falando cuspindo, falando tocando, ela me mostrou duzentas fotos do filho no Instagram e, não satisfeita, me fez ver os vídeos do bebezinho dizendo “papai”, enquanto comia papinha de banana, o que me obrigou a fazer carinhas fofas. Falou que Dom, um Shih Tzu da família, anda aprontando muito dentro de casa e que ninguém consegue controlar o vício dele de rasgar papel higiênico, o que me fez dar dicas de como educar cãezinhos. Disse que sente saudades dos três meses que morou na Europa “porque lá é outro mundo”, o que me obrigou a aconselhá-la a economizar dinheiro e, quem sabe, voltar pra lá. Quando eu já não aguentava mais ser uma espécie de coaching de vida para ela, passei a repetir entre um diálogo e outro expressões como “Nossa”, “Sério?”, “Não acredito!”, “Meu Deus” automaticamente.

Ela quis saber sobre minha vida como jornalista, quis saber sobre meu namorado, quis saber se morar na orla era caro, quis saber minha opinião sobre a novela das nove, quis saber, quis saber, quis saber. Me irrito porque, sempre que ela conversa, parece ter acabado de sair da primeira aula de teatro de um curso vagabundo de bairro. Os olhos arregalados como se estivesse tendo um AVC, o peito ofegante como se seus sentimentos fossem exclusivos e incríveis. As mãos dançando pelo ar como uma bailarina de programa de auditório mal-produzido. Sempre marcando os dentes de verde neon, numa risada exagerada.

Pra não parecer antipático, elogiei a pele dela, o cabelo dela, a roupa dela. Disse pra combinarmos algo qualquer dia desses: “quem sabe um café, hein? Pra colocar o papo em dia”. Enquanto sorria para a chata, eu disse silenciosamente: “fica esperando por esse café, vaca”. Por fim, ajeitei o cachecol da criatura, alisei o ombro dela e falei que Salvador continua bipolar como sempre: não sabe se faz sol, não sabe se chove. Quando pensei que enfim me livraria da chata, ao contar a mentirinha “estou muito atrasado, mas vamos nos falando”, ela segurou meu braço querendo saber em qual loja comprei meus sapatos porque eles eram muito bonitos. Expliquei que vi numa lojinha virtual, me apaixonei e comprei. Ela pediu, com a testa franzida, que eu mandasse o link porque pensou em dar de presente um par parecido ao marido. Enquanto eu sorria para a chata, eu disse silenciosamente: “fica esperando pelo link, vaca”.

Ao dar as costas e revirar uma arara de roupas, me culpei: MAS EU NÃO SUPORTO ELA. Por que abracei aquela mulher, por que falei sobre minha vida, por que dei risada, por que sugeri um café, por que permiti que a conversa excedesse dez minutos, por que eu elogiei a pele e a roupa e o cabelo dela? Seria eu, então, uma daquelas pessoas falsas pra cacete? Seria eu, então, o rei da falsidade? Seria eu, então, a pessoa mais cretina do mundo? Cheguei até mesmo a correr pela loja para encontrar a chata e dizer a verdade: “a real é que eu te acho péssima”. Cheguei até mesmo a correr pelo shopping atrás da chata pra dizer que eu só queria ser simpático: “a real é que eu não te suporto! Morra!!!!”.

Quis encontrar a criatura e falar que o cachorrinho dela um dia morreria entalado de tanto comer papel higiênico, que a pele dela parecia um mix de arroz doce com doce de leite: entupida de tanto cravo coberta com base líquida; que o cabelo dela estava mais horrível do que quando a conheci – resto de tinta loira nas pontas dos fios imitando californianas que nunca existiram era o fim da picada. Quis anotar na agenda dela o número de uma amiga fonoaudióloga pra ajudá-la a melhorar a dicção, até porque, que porre aguentar o tempo inteiro ela falando pelo nariz, abusando das fricativas e lábio-dental. Quis pegar umas duas peças na seção feminina da loja e dizer: “veste isso aqui pra você ser menos brega, filhinha”.

Mas não encontrei a chata. E agora? Teria que conviver pra sempre com a angústia da minha consciência gritando “falso pra cacete”? Teria que ir, naquela loja, naquele horário, naquele dia, pelo resto da vida, até me esbarrar com aquela criatura? Ou teria eu sido movido por uma bondade repentina, simpatia repentina, afeição repentina, dominado pela psique que acredita no que se convém apropriado no momento? Passei oito horas do dia me culpando.

Corri para casa. Abri o Facebook. Chat, o meu parquinho de verdades. Queria dizer que não, eu não suportava ela. Queria dizer, sem medir as palavras, que a existência dela era desnecessária. Escrever que eu tinha pavor àquela mulher para aquela mulher me faria ser menos cínico, menos dissimulado. Digitei, assim meio rápido, concentradíssimo. Textão. Senti, mais uma vez, culpa. Parei de digitar. No cosmo da vida, no poço mais profundo do meu inconsciente, me perguntei o que aquela criatura fez de ruim pra mim. Seria uma antipatia de outra vida? Seria implicância minha? Por que eu tremia de raiva ao ouvir a voz nasalada dela? Por que eu não aceitava, de bom grado, que ela pudesse ser brega, mas ser uma boa pessoa? Achei violência gratuita. Apaguei o textão e mandei o link da lojinha virtual. Aconselhei a compra dos sapatos à vista pra poder ganhar desconto. Me senti uma pessoa má, escrota, desumana. Passei oito horas do dia me culpando. Ao secar o cabelo com a toalha, pensei: “Coitada, aquela criatura chata nunca me fez mal algum”. Abri o Facebook de novo. Chat, o meu parquinho da redenção. Marquei um café com ela na terça.

O que você vai fazer mais tarde?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

“Ele também gostava dessa bebida”, ele disse, ao meu lado, no balcão do Bar Cravinho, encostando as pontas dos dedos no meu braço, enquanto eu pedia, no calor e no aperto, uma dose de Senzala. Ele quem? Quis perguntar, mas fiquei sem reação. Eu tinha ido a um show com uns amigos no TCA e tudo o que eu mais queria, agora que estava sozinho, era beber um pouco. O trânsito do Campo Grande até o Centro Histórico, sempre tão calmo, estava ruim. Fiquei preso por mais de meia hora num congestionamento na Avenida Sete. Aí, quando eu finalmente chego e peço uma dose de Senzala, ele encosta as pontinhas dos dedos no meu braço e, como se fosse um velho conhecido ou como se eu soubesse toda a história que ele tem na cabeça, larga essa: “Ele também gostava dessa bebida”.

Minha curiosidade pra saber de quem ele falava foi contida porque ele logo continuou: “Foi aqui que a gente se conheceu. Neste mesmo balcão. Há oito anos. 12 de março de 2009. Hoje faríamos oito anos juntos. Até que há três anos… Nem gosto de lembrar disso. Talvez tenha sido melhor assim. Talvez ele esteja num lugar bem melhor”. Ele então baixou a cabeça e, discretamente, consegui ver uma lágrima presa nos olhos. Havia um silêncio alto entre a gente, entre um diálogo e outro, quando o desabafo foi interrompido pelo atendente do bar que me entregou a bebida. As pessoas andavam para lá e para cá, as pessoas faziam pedidos, as pessoas riam e falavam mais alto do que de costume, as pessoas seguiam suas vidas. No meio da confusão do bar e do nó na garganta, consegui expulsar um “força”. “Eu agradeço. Mas até que hoje em dia me sinto melhor. Não que eu tenha me conformado, porque eu ainda sinto muita saudade dele. E quem sente saudade não se conforma nunca. O problema é que com o tempo a gente vai sentindo falta das pequenas coisas. Essas pequenas coisas vão se juntando e crescendo e crescendo, crescendo tanto que começam a ficar difíceis de suportar. Mas a gente acaba suportando”. “Tipo datas especiais?”. “Antes fosse isso. Eu sinto falta do cheiro do cabelo dele no travesseiro. Não é o cheiro do xampu que ele usava. Talvez seja a mistura do cheiro do xampu com o cheiro natural do cabelo. Mas o certo é que eu procuro, procuro, todos os dias eu procuro, só Deus sabe o quanto eu procuro, mas não acho esse cheiro em lugar algum. Não vende na farmácia”. Concordei com a cabeça enquanto dava goles curtos na bebida. Aproveitei o silêncio pra saber: “Você guardou as fotos que tirou com ele?”. “Todas. Até mesmo as que ele se achava feio. Olhar essas fotos me faz bem. Mas são fotografias de lugares que a gente ia, sabe? Fotos com poses, com sorrisos de foto, sempre muito bem arrumado. Por exemplo, tem foto da gente no terceiro casamento da minha mãe, na nossa viagem pra França, na cobertura do W. Zarzur, tomando um sorvete na Cubana. Mas ele não era daquele jeito, entende? Óculos escuros no rosto, camisa bem passada, cabelo lambido. Ele não era. Eu queria imagens dele fazendo as coisas que ele sempre fazia, as coisas que ele gostava de fazer, por exemplo, ler com toalha. Eu não tenho foto dele, distraído, lendo de toalha. Não tenho uma foto dele arrumando os livros na estante, mas tenho foto dele num restaurante que a gente nunca ia e nunca voltaria. É estranho. Eu me arrependo de não ter uma foto dele no supermercado escolhendo fruta, colocando iogurte no carrinho. Eu tenho essa imagem dele na cabeça, mas eu nunca registrei. Por que eu não tenho uma foto dele, descendo do ônibus, todos os dias, sorrindo pra mim? Por que a gente não registra essas imagens se são essas imagens que no fim das contas valem a pena? A foto que eu mais amo dele é uma que tirei no terraço do Glauber Rocha, olhando a Baía de Todos-os-Santos. Eu acho a vista de lá maravilhosa. O problema é a fiação elétrica. Esses fios desordenados poluem qualquer resquício de doçura que possa existir. Mas você sabe o jeito que eu mais lembro dele? De samba-canção. Nossa, ele ficava muito lindo de samba-canção. Mas ele nunca ficava de samba-canção quando tinha visita, quando a gente ia tirar foto. Ele sempre saía correndo pra colocar uma bermuda e uma camiseta e ser quem ele não era. As fotografias fazem isso, né? Ou a gente que faz isso com as fotografias?”. “Não sei”. “Quer que eu pague outra dessa pra você?”. “Não precisa, obrigado”. “Hoje, mais do que todos os outros dias, me deu uma agonia, saudade dele. Aí vim pra cá, onde a gente se conheceu. E fico olhando pra porta. Fico vendo as pessoas passarem. Esse finalzinho de tarde é triste, né? Tá todo mundo cansado, cabisbaixo, voltando pra casa sem vida, jogado pelos cantos do metrô, se apertando nos ônibus. São corpos mortos perambulando pela metrópole. Era pra ele que eu contava tudo do meu dia. Isso me fazia bem, me fazia vivo, eu não era mais um corpo morto perambulando pela metrópole”. “E agora, você faz como?”. “Hoje faríamos oito anos juntos. Continuo sentindo falta dele todos os dias. Todos os dias. Conheci outros caras, rapazes bons, inteligentes, bonitos, sérios, com boa formação cultural, mas amor, amor mesmo, só com ele. Mas não tem mais ele, cê tá acompanhando? Nem nos lugares. A arquitetura muda e leva ele embora. Aqui nesse bar, por exemplo, não tinha aquele banquinha, não tinha essa pintura. Eu lembro bem: nessa hora assim, a gente tava se olhando, aqui nesse mesmo bar, ele tava ali no canto onde colocaram essa banquinha. E ele sorriu pra mim tão feliz, mas meio tímido. Ele era meio tímido mesmo. Eu gostei. Eu encontrei naquele sorriso a graça da vida. Eu via nele o homem certo pra ser o outro pai dos meus filhos. Aí eu fico aqui agora, assim, achando que a qualquer momento ele pode chegar. O bom da vida é que a gente pode inventar o tempo inteiro”.

Paguei a conta, dei um abraço forte e me despedi. “Vai dar tudo certo”. “Espero. De qualquer forma, taí uma história bonita pra você não desistir do amor. Você já amou alguém assim como eu amo? Você ama alguém? Você tem cara que ama. E ama muito”. “Como é ter cara de que ama?”. “Seus olhos brilham mais do que o normal”. “Ah”. “O que você vai fazer mais tarde? Vai voltar pra casa, mais uma vez, triste, e fingir que não se importa? Vai voltar pra casa, mais uma vez, com os ombros pesados, e de novo dormir soluçando, aguentando não aguentar, se dizendo que uma hora isso passa? Como é encostar a cabeça no travesseiro, todas as noites, sentindo culpa, falta, um vazio? Liga pra ele. Você tem cara que tá sempre sabendo de tudo, né? Então. Fala que você sente falta. Fala que ele mudou alguma coisa na sua vida. Sai pra jantar. Aproveita o mundo com ele porque a arquitetura muda, a arquitetura estraga o passado. Depois cê volta pra casa, tira várias fotos dele, distraído, das coisas que ele sempre faz, das coisas que ele gosta de fazer. Eu não posso, mas você ainda tem essa chance”.

O amor em tempos de WhatsApp

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

20h57 — Eu fui ao clínico e ele achou estranha essa dor que eu sinto no flanco. Eu acho que é problema renal. Ele acha que é só espasmo muscular. Não sei. Daí ele pediu uns exames. Até hoje não saiu o resultado. Fico angustiado pensando nisso todas as vezes que sinto dor no flanco.

21h01 — Eu tava com tanta fome que comi de uma vez só toda a comida que eu trouxe na mochila pra comer o dia inteiro na Ufba. Era uma fome imensa. Eu tô sempre com fome.

21h02 — Hoje eu passei por uma daquelas academias com fachada de vidro, na Orla, e me empolguei um pouco. Sei lá, aquelas pessoas parecem tão dispostas correndo na esteira pela vitrine, com um objetivo, mais felizes do que eu. Você acha que eu engordei um pouco? Você acha que eu ficaria bonito com os ombros mais definidos? Sinto minha barriga maior, o abdômen estranho, a pele do braço mais molinha. Ter vinte e seis anos é um problema.

21h20 — Eu não acho que você está gordo. Eu acho que você sempre está bonito. Eu é que nunca me achei bonito. Alinhei a barba, comprei umas roupas, mas não sei. Você reclama dos vinte e seis porque nunca teve trinta e dois. Você acha que eu me visto bem? Nunca me achei interessante pra você.

21h21 — Eu amo a sua camisa polo branca que tem uma mancha amarelada de desodorante debaixo da manga.

22h01 — Não é só de roupa que eu tô falando.

22h02 — Você me perguntou: “você acha que eu me visto bem?”. Às vezes eu não consigo entender você.

22h17 — É de música, cinema, teatro, lugares interessantes. É disso que preciso me vestir. Eu poderia saber de cor todos os filmes que concorrem ao Oscar. Melhor: eu poderia dar bons palpites sobre os filmes que merecem ganhar o Oscar. Eu poderia saber criticar um texto de uma peça apresentada no Martins Gonçalves quando eu te acompanho. Mas a única coisa que eu sei falar é sobre essas séries populares da Netflix.

22h18 — Eu também assisto as séries populares da Netflix.

22h25 — Eu sei… Mas eu vejo você tão culto com sua turma culta falando tão bem sobre Almodóvar e Chico Buarque numa rodada de cerveja no Meia Oito e eu me sinto meio pra baixo. Eu não consigo acompanhar você. Eu deveria assistir mais filmes de arte. Eu sou um cara meio sozinho, eu deveria ver mais filmes de arte.

22h26 — Você sempre dorme quando assiste um filme de arte comigo. Da última vez roncou no cinema e as pessoas começaram a olhar pra minha cara e eu fiquei morrendo de vergonha.

22h49 — É que eu vivo com sono. Tipo agora. Tô caindo de sono aqui. Tenho que ir. Depois a gente se fala.

22h26 — Você devia começar vendo um filme chamado O Lobo da Estepe. É sobre Harry Haller, um cara solitário e cheio de conflitos pessoais que não consegue se relacionar com ninguém. Ele parece muito com você. Eu sempre me relaciono com homens que não sabem se relacionar. Mereço sair no Guinness.

22h31 — Quinze dias pra entender o que está acontecendo, pra você, é não saber se relacionar?

22h31 — Você funciona por deadline. O amor não é feito de prazos.

22h33 — Você me deu de presente de Natal uma caixa com discos do Caetano Veloso e não mexo nisso porque preciso continuar provando para as pessoas que trabalham comigo que eu sou um cara forte. Se vamos nos tornar inimigos, amigos, se vamos casar, não sei, de verdade. Te pedi quinze dias, só passaram seis. A gente não deveria se falar, se ver, revirar Instagram e Facebook, mas você não respeita esse tempo. Só sei que eu quero ficar sem te ver por esses dias. Eu deveria ter saudade de você o tempo todo, mas eu não tenho. Eu deveria te ligar quando eu chego da agência, mas eu não ligo. Eu deveria te dar tantos presentes bonitos. Eu deveria fazer terapia. Minha cabeça roda muito, minha nuca dói muito. Eu deleto tudo que eu não consigo resolver. Eu deleto você. Saber que você sofre porque eu sofro toma uma proporção enorme dentro de mim. Nesses seis dias eu precisei me esforçar muito pra não pensar em você porque precisava mostrar pra aqueles caras que eu não sou um moleque, que eu consigo ter uma relação séria com alguém. E esse alguém é você. E não dá pra mostrar isso pra eles e pra você ao mesmo tempo. Ter trinta e dois anos é um problema. Você quer que eu vá te buscar no jornal semana que vem? Quer dormir lá em casa? Eu faço café da manhã pra você. Eu quero que a gente dê certo. Eu não sei assim dizer que te amo, aqui, agora, mas eu já anotei no bloquinho do celular como meta pro ano que vem. Eu não quero te perder. Eu só quero quinze dias. É difícil?

22h34 — Quinze dias, pra mim, é uma eternidade. Uma hora sem você, pra mim, é o maior descaso que pode acontecer no mundo. Às vezes eu acho que esse tempo que você me pediu nada mais é do que a desculpa cruel e vagabunda de colocar fim no que a gente tem, mas você não sabe como. Eu preciso saber se você comeu bem, se você acordou bem, se você chegou em casa bem. A droga do trânsito que atrasa a sua vida, a falta de ânimo pra beber com seus amigos no fim de semana, sua falta de paciência pra esperar a comida descongelar no micro-ondas, sua preguiça de pegar um café do lado de fora da sua sala. Eu preciso saber dessas coisas o tempo inteiro. Fico roendo as unhas se você não me conta cada minuto do seu dia. Gente que ama como se estivesse seguindo um manual de instrução me irrita. Você tá gostando de outro cara? Não me conta, por favor.

22h37 — Eu não consigo ver você chorando, no banho, depois que a gente transa, e continuar fingindo que está tudo bem porque não está. Eu não consigo dar o amor que você espera. Uma vez você me disse que faltava entrega, doação, intensidade, romantismo, que eu estava sempre montado numa armadura do amor. Eu não gosto de ser o homem de ferro, mas eu sou esse homem. Mas se eu sou esse homem, o que eu posso fazer? Eu queria muito lembrar de datas, as nossas datas. Eu queria muito ser aquele cara que te leva espontaneamente pra esses restaurantes charmosos que você tanto gosta. Aquele cara que faz declaração de amor todos os dias. Mas eu acabo sendo o namorado que some o dia inteiro. Não é porque eu quero. Não é charminho. É que eu sou meio desligado mesmo. É que ando entupido de obrigações e prazos apertados. Me sinto mal por ver nos seus olhos essa dor, por ver nos seus olhos, no banho, depois que a gente transa, que você quer mais do que sexo. Eu quero aquela relação dos primeiros dias. Aquela relação que era só poesia, vinho, pizza, que o sexo ficava em segundo plano. Você merece uma relação que seja mais do que sexo, cê tá entendendo?

22h38 — Eu choro no banho, mas, antes disso, eu amo chupar seu pau.

22h45 — Eu amo quando você chupa meu pau… Não quero lembrar disso agora. Não estou bem. Preciso mesmo ir. Depois te chamo.

22h46 — Eu não consigo esperar por quinze dias pra saber o que está acontecendo. Minha ânsia de amar é tão grande que me apaixonei criança pela fumacinha da vela do meu bolo de aniversário e até hoje fico olhando pro ar pegando tudo que vejo pela frente pra tentar preencher essa falta. Eu vi em alguém, pela primeira vez, a fumacinha da vela. Eu vi em você, pela primeira vez, algo que pode preencher a falta. Eu inventei você. Eu inventei o amor. O maior troco que um personagem pode dar ao roteirista é passar a ter vida própria. Eu não respeito os seus quinze dias. Pra mim não importa se você não entende a gente. Não importa se você não me entende.

23h51 — Você diz que me ama, mas quem ama espera. Quinze dias ou dez anos. Você tem um roteiro de filme de arte na cabeça. Nesse roteiro, você criou um homem que se veste como você imagina, que gosta do que você imagina, que segue as cenas que você imagina. Você tem uma varanda na sua cabeça. Uma varanda com um homem sentado numa poltrona no centro dela. Esse homem tem uma xícara com café preto sem açúcar, uns livros de Dostoiévski empilhados na mesa, uns vasinhos de flores ao redor, um tapete persa e um quadro. Esse homem fuma maconha o tempo inteiro. Ele tem algo intelectualizado, meio pilhado, angustiado, de esquerda. Você não ama esse homem, você ensaia com o ator a cena que tem na sua cabeça. Esse homem pode te amar muito, mas você não consegue ou não quer entender que a forma dele te amar é completamente diferente da sua forma de amar, porque você simplesmente não aceita as improvisações da vida e se prende ao seu roteiro. Você quer saber exatamente o que eu gosto desde que seja exatamente o que você quer que eu goste. Você quer que eu saia com você, mas você quer ir exatamente aonde você quer ir. Seus cenários, suas idealizações banais. Você diz que sou frio, mas frieza mesmo é usar o outro pra ficcionalizar a relação que você sempre quis ter. Quinze dias não é descaso. Descaso mesmo é desconsiderar a outra pessoa como você faz. É querer tudo no seu minuto. É coagir a outra pessoa. É impor a sua realidade e os seus desejos como se eles fossem mais importantes do que a realidade e os desejos do outro. O maior troco que um personagem pode dar ao roteirista é passar a ter vida própria e eu tenho vida própria e você não suporta esse troco. Toda a sua arrogância não foi capaz de controlar o mundo e então você anda por aí dia após dia com suas raivas e ironias e sarcasmos e cansaços e dores no flanco. Como se todo mundo te devesse perdão eterno por não seguir a sua escaleta. Estar numa relação é ser humilde. O amor é bem mais do que isso que você sente. Isso é vontade impulsiva e vontade impulsiva torta. E porque não é amor, você planta uma sementinha que não é semente e fica olhando a terra até a primeira folha nascer. Você olha o vazio e se entrega ao vazio onde sua folha idealizada nunca nasce e nem nunca vai nascer.

23h52 — Agora quem precisa ir sou eu. Daqui a nove dias a gente se fala.

Nossa, como você tá bonito! É sexo?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Tênis surrado, camisa grande e barba por fazer. Esfriou um pouco e a vontade imensa de cair num balde de gelo finalmente vai embora. O casaco fininho cai, deixa os ombros um pouco à mostra e, por algum motivo que desconheço, desperto atenção de quem passa pelo corredor do prédio. “Que pele incrível é essa?”, já logo no elevador. “Ah, deve ser o protetor solar”. Bom dia, bom dia. “Murilo, o fim de semana foi bom, né? Ninguém acorda com essa cara bonita na segunda!”, ouço de seu Augusto, meu síndico, ​ao passar pela portaria. “Ah, devo ter dormido bem, finalmente!”. Bom dia, bom dia.

“Olha, você tá muito bonito hoje”, as pessoas falam no jornal. Um olha, comenta, outro concorda. Bom trabalho pra você, bom trabalho pra você também. No café, sorrisos e olhares admirados dão continuidade aos elogios. O que é? Que novidade é essa? Com quem ele está saindo? Que segredo ele guarda?  

Em frente ao computador, em paz, escrevendo a matéria, um ou outro chega sutilmente e tira a minha concentração. “Nossa, como você tá bonito! É sexo?”, as pessoas supõem. “Não tá reclamando de nada esses dias… É sexo?”, as pessoas brincam. “Ah, conta. Quem é o cara? Como ele é? É jornalista também? É arquiteto de novo? Alto, baixo, forte, magro, tem pancinha e barba… Como ele é? Vocês estão namorando? Se conheceram em algum aplicativo? Deixa eu adivinhar… Tinder? Vocês vão a um daqueles restaurantes do Rio Vermelho? Você nunca mais falou dessas suas histórias. Fala, quem é o cara que você tá saindo?”, meus amigos querem saber.

Ao andar na rua perguntam: voltou de viagem? No supermercado perguntam: voltou com alguém? É ele, aquele cara que você era completamente apaixonado? No bar, bebendo sozinho, a garçonete que sempre me atende quer saber quem vai chegar: ele vem? Na mesa em frente, um namorado antigo me vê e levanta pra cumprimentar: “Nossa, como você deu uma mudada. É sexo todo dia? Conta vai, eu aguento ouvir”. Contar o quê, gente?

No espelho do banheiro, depois de cantar mil vezes músicas recém-baixadas dRadiohead, depois de cuspir o creme dental, fecho os olhos, respiro fundo e me conto o segredo: ninguém. Não gostar de ninguém. Nem um pouquinho. Nem daquele cara de quase três anos, nem do outro de duas semanas, nem o do bar e muito menos daquele de uma noite. Nem da história incrível que acabou mês passado e nem da história incrível que possa começar mês que vem. Nada. Não gostar de ninguém. Nenhum ser no mundo me interessa. Essa pele linda não é sexo. É o resultado de uma hidratação incrível na alma que é se dar um tempo, se permitir, se conhecer, pra tentar entender quem a gente é. Sozinho, em paz. Agora dedico a minha vida inteira pras minhas futilidades tão amadas. A partir de agora uma vida inteira sem lamúrias, sem ansiedade, sem entrega ao outro. Sozinho, em paz.  

Um coração que bate mais calmo, sem desespero, se importando em mandar sangue para os momentos felizes de trabalho, cinema, estudo, teatro, terapia, massagem, sono, jantar com amigos, pilates, viagens, revistas, comer, escrever, rir, cabelo, roupas, séries, comprar, ler. É isso. Uma agenda imensa que me ocupa em ser o que gosto de ser e nem sequer sobra uma linha de dia pra lamentar existências e faltas e angústias. Uma agenda imensa pra tentar descobrir o que eu quero de verdade, pra saber o que eu vou fazer daqui a dez minutos ou dez anos. Pra enxergar a vida e gostar da vida. Pra dormir transbordando do que me faz bem e do que me faz continuar.

Eu não quero ser como o meu amigo que se descabela todos os dias pra manter um namoro que já acabou há tanto tempo e só ele não percebeu. Eu não quero ser como a minha vizinha que vive discutindo com o namorado no elevador porque ele não dá atenção que ela espera. Eu não quero a loucura d​a mensagem visualizada e não respondida, o stalker no Facebook, a ansiedade da ligação que não chega dele, bêbado, na madrugada, porque tudo parece ser melhor do que o silêncio. Tudo isso me deixa muito feio.

Com essa pele linda, eu sigo. Sem reclamar da vida, eu sigo. Bonito e feliz como nunca me viram. Com o pijaminha de bolinha que me deixa confortável, eu sigo. Dia após dia me esparramando no sofá, com um balde de pipoca, assistindo Please Like Me, sem precisar ser simpático com ninguém. Eu posso dormir até a hora que quiser sem precisar cobrar um pouquinho de amor e sem ficar esperando por um pouquinho de amor.

​O que antes eu tinha mais medo de falar e aceitar, agora eu repito em voz alta sem nenhum assombro: eu tô cada vez mais sozinho e em paz.

Agora que o Carnaval acabou

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Acertei comigo que não passaria desta semana. Quarta, cinco e meia da tarde. Depois que eu resolvesse o problema do ar-condicionado que quebrou e depois que eu resolvesse o problema do cara que fez um buraco na parede por conta disso e depois que eu resolvesse o problema do pintor que viria depois do cara que arrumaria o buraco na parede, depois que finalmente o ar-condicionado fosse consertado. Agora que o Carnaval acabou, e eu posso transitar pela cidade sem congestionamento e sem sentir odor de xixi em cada esquina e todo mundo pode fazer tudo porque não existe mais a desculpa do “ah, é Carnaval”, eu posso resolver todos os meus problemas no mundo.

Quarta, cinco e meia da tarde. Depois que eu resolvesse o problema da grana alta que tenho que arrumar em um dia pra pagar a um amigo que já devo há seis meses. E eu contando cada centavo de todos os bolsos da calça pra pagar dezenove e noventa da minha conta da Netflix. Para isso só pedindo empréstimo ao banco. Minha gerente fala quase dormindo porque tá sempre de ressaca por causa de “uma festa de ontem”, imagina com esse Carnaval de cinquenta dias? Ela provavelmente vai trabalhar desmaiada com tanto álcool no sangue. Pra piorar, meu nome tá no vermelho no Banco do Brasil e, talvez, a única coisa que eu consiga é uma proposta de parcela de dívida em 200 vezes. Tenho 26 anos e nem um centavo na conta.

Quarta, cinco e meia da tarde. Depois que eu entregasse o relatório da pesquisa da Universidade. Uma tarefa que só um ser sem dormir, sem comer e sem vida seria capaz de cumprir. E eu cumpri. Dormindo, comendo e com vida. Depois que eu mandasse a proposta do curta para a produtora que exige tudo alinhadinho, formatadinho conforme pede o editalzinho e que me deixa bem irritadinho. Depois que eu resolvesse o problema do jornal que continua me pagando o equivalente ao pão com ovo na lanchonete da esquina. O problema do meu vizinho que não me deixa dormir porque tá sempre “dando uma festa pra uns caras da firma”. O problema do freela que não foi pago mais uma vez. O problema do outro freela que já deveria ter sido pago há semanas, mas não foi depositado porque o segurança noturno bateu punheta e limpou com o papel com o número da minha conta bancária e a contadora não soube o que fazer. E eu aqui com a minha vida cara.

Quatro da tarde preciso entregar o roteiro da peça de teatro em que eu colaboro. Mas ninguém me disse com clareza que porra eu tenho que fazer. Cria aí uma cena de sexo que seja aceita pela classificação indicativa de dezesseis anos. Sei. Posso escrever uma cena de suruba evangélica? Preciso inventar um jeito da minha personagem gostar de apanhar do namorado na cama, por pura safadeza, e eu não ser xingado pelas feministas internéticas. Não é fácil. Acertei comigo que não passaria desta semana. Quarta, cinco e meia da tarde, depois da agonia do Carnaval. Depois da endoscopia, do endocrinologista, da terapia, de fazer todos os exames de sangue que o médico pediu há meses, de comer um pouquinho pra não morrer. Agora preciso marcar tudo pra ontem porque meu plano bom vai ser cancelado e eu vou voltar pra aquele plano vagabundo em que às vezes o SUS é mais eficiente. Depois que eu acertar com o síndico a dívida de três meses do meu condomínio que aumentou o equivalente a morar em Londres. Aliás, queria tanto ir a Londres. Mas toda vez que junto dinheiro pra viajar pra fora do Brasil, eu preciso pagar alguma coisa. E o importante agora é pagar o porteiro, o jardineiro e o zelador pra eu não ser despejado.

Acertei comigo que não passaria desta semana. Quarta, cinco e meia da tarde. Depois desse inferno de Carnaval. Depois que eu resolvesse o lance de passar por todos os pubs e baladinhas alternativas do Rio Vermelho pra melhorar minha social e não receber mais mensagens de amigos que me acham um pré-suicida. Tenho que provar mais uma vez que não estou depressivo. Ninguém entende que ando com grana curta e, pra falar a verdade (pela trigésima vez), não tenho vontade alguma em virar noite no Rio Vermelho, longe da minha cama, marcando encontros, sempre cansado e com uma cerveja long neck na mão, em pé, entrando e saindo em casas de show, com gente que te enche de beijos e nem dá tchau na hora de ir embora.

A GVT me cobrou em duplicidade de novo, a Tim incluiu uma taxa na conta que nem eles sabem explicar, eu devo dinheiro pra todo mundo da minha família, nenhum ser humano do planeta me abraça e sorri antes de perguntar por que ando tão magrinho ou por que sumi de todos os lugares. Minha coluna dói pra caramba, minha lombar dói pra caramba, minhas pernas doem pra caramba, mas todos os fisioterapeutas do universo dizem que eu não tenho nada, que “é só postura inadequada pra andar, sentar e dormir”. Não é nada. Meu psicólogo pediu pra aumentar as sessões pra duas por semana, assim ele passa mais tempo comigo e tenta entender tanta coisa que nem eu consigo entender. Mas eu não tenho tempo e dinheiro nem pra uma, quanto mais pra duas. A faxineira daqui de casa chora porque mudei de quatro vezes por mês pra duas. Mas eu tô chorando porque não tenho dinheiro nem pra meia.

Escreveram “pau no cu” na poeira do carro do meu namorado quando a gente foi doar umas roupas para um centro espírita. Dramin, o remédio contra enjoos, me dá enjoo. Remédio natural fitoterápico para dormir só aumenta minha certeza de que essa merda não serve pra nada, cadê meu Rivotril? 0,75 mg resolve meu problema. Meu humor oscila e me enlouquece. Ora eu quero, ora eu não quero, não tenho fome de nada, quero comer, sinto nojo do mundo, o universo é lindo. E a quarta chegou, são cinco e meia da tarde. Não tem mais axé e gente bêbada vomitando na minha porta. Coloco Oasis pra tocar. Fecho as cortinas, apago as luzes, ligo o ar-condicionado. Vai, Murilo, sofre. Você precisa chorar um pouco, sofrer um pouco, lamentar um pouco. Vai. Você combinou que não passaria desta semana. De hoje. De agora. Você combinou que finalmente iria chorar pelo amor que não deu certo, pelo emprego que não deu certo, pelos projetos que não deram certo, pela sua raiva do mundo. Vamos lá, chora um pouquinho. Agora que o Carnaval acabou e junto com ele toda a alegria descabida, você pode chorar à vontade. Um, dois, três e… Vontade imensa de dormir. Posso remarcar?

 

O amor mora na Rua da Paciência

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Um casal na mesa ao lado pede uma sangria de vinho branco com limão-siciliano e morango. Às 19h30. Em plena terça-feira. Lá fora, pasme, acontecem congestionamentos e buzinas e ônibus cheios e pessoas cansadas e sonolentas e desamadas. Eu acho completamente louco. Quem, no mundo pós-moderno, tem tempo pra beber taças de vinho, no início da semana, sem pressa? Quem, na plasticidade do mundo, onde se relaciona como se estivesse seguindo um manual de revista, tem tempo pra acreditar em mãos dadas e encontros e conversas ao pé do ouvido?

Mando uma mensagem no WhatsApp pra Felipe: “eu acho completamente louco”. Eles sorriem sem olhar pros lados. Estão dentro daquela história, fazendo o próprio filme. Nada e nem ninguém interessa. Apaixonados, roupas bem passadas, pele linda. Transpiram cheiro de rosa, alecrim, manjericão. Quero levantar e pedir uma salva de palmas. Quero que a música de Chico não pare. Quero fotografar a cena. Quero fingir que conheço, acompanhá-los na mesa e pedir uma taça. Quero pagar aquela conta como um presente. Quero que o mundo inteiro pare pra ver e entender o sentimento mais lindo do mundo.

Eu havia acabado de sair da aula de literatura quando percebi que já era noite e eu não comia há cinco horas. Andei pelo Rio Vermelho e aproveitei que passava pela Rua da Paciência para matar a vontade da tortilha de batata com chouriço, pimentões, gorgonzola e abobrinha no La Taperia, um dos meus restaurantes preferidos da cidade.

Escolhi uma mesa discreta, fiz o pedido, abri o meu bloquinho e comecei a fazer listas — um velho vício que me acompanha desde a infância e que sempre volta quando minha vida vira uma profusão de incontroláveis pendências ou quando sinto o descontrole em cento e oitenta quilômetros por hora e preciso fingir que posso manter tudo sob controle. Marcar dentista. Responder e-mails. Mandar mensagens pros meus amigos pedindo desculpas por estar tão cheio de coisas pra fazer e não ter tempo pra nada. Ver o filme de Almodóvar. Ver, principalmente, o de Anna Muylaert. Terminar um artigo. Escrever mais um capítulo do livro. Revisar o capítulo anterior do livro. Combinar alguma coisa pro aniversário de Letícia, mesmo odiando aniversários e mesmo sem tempo pra organizar aniversários. Ligar para a assistência técnica da máquina de lavar.

Então o garçom desfila com aquela jarra de vinho branco, suada, e serve ao casal na mesa ao lado. Parei a caneta em cima do bloquinho no mesmo segundo. Hipnotizado, não consegui olhar pra outra coisa a não ser a mesa do casal. Chico tocando. Olho pelo canto dos olhos e percebo que eles não têm mais do que vinte e seis anos. Talvez vinte e oito. Ela vinte e seis e ele vinte e oito. Ou o contrário? Ou os dois com a mesma idade? O garçom serve as duas taças. Eles falam com amor sobre Gilberto Gil e Dostoievski. Planejam viajar para Espanha ou Chile em junho do ano que vem. Aqui e ali, ela divaga sobre como podem economizar. Depois, breve e delicado, ele cochicha algo no ouvido dela. Risos eternos. Será que ele comentou que ela está linda? Será que ele falou alguma sacanagem das boas? Será que foi uma piadinha interna? Ela gostou. Ele gostou dela ter gostado. Eles se olham nos olhos muito mais profundos do que antes.

Estou completamente apaixonado por aquele casal que fala com entusiasmo sobre escritores e músicos, que planeja viajar para o Chile, que ouve jazz e MPB, toma vinho sem pressa, esquece a vida lá fora, tudo isso no comecinho da noite de uma terça. Quase não consigo respirar. Sinto tanto amor dentro de mim que posso explodir com a quentura e bolinhas de corações vermelhas atingirem a Espanha. A sensação maravilhosamente absurda que é sair um pouco de dentro da gente e ver o outro. Ou, ainda, a sensação maravilhosamente absurda que é ver o outro e sentir dentro do fígado o que a gente acredita.

No segundo em que a inveja alcançou o pico mais alto, fechei o bloquinho — que se danem as minhas listas e pendências e todo o resto. Pedi uma sangria do mesmo vinho, sequer olhei as horas, e o item “Separar roupas que não quero mais”, de uma lista anterior, ficou pra depois.

Eu quero agradecer àquele casal. Me livrou do bloquinho, da rotina. Me fez companhia mesmo em mesas separadas. Me fez acordar para a vida que vale a pena. Aquela que se mostra mais bonita durante as pausas do que a gente se adaptou a chamar de vida, com minutos contados, com prazos que não são perdoados, em que cada passo está anotado em bloquinhos.

Agora toca Vinícius. Peço mais uma taça. Eles se beijam. Sem alarde. Natural, vivo, bonito. Numa fase em que todo mundo vai embora da minha vida porque é mais fácil desistir do que tentar continuar, ser espectador de romances desconhecidos me faz flertar com a ingenuidade, me faz sentir novamente um garotinho virgem de treze anos que acredita numa sinopse com final feliz. O mundo é de quem ama. De quem ama com paciência. O mundo é dos que bebem vinho branco com limão-siciliano e morango no comecinho da noite de uma terça-feira.

Quarta passada me achei muito sexy

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Um menino magricelo, de bicicleta, passou por mim voando no calçadão do Porto da Barra, na quarta, e gritou: “Olha a bike, tio!”. E eu ri, mas depois passei meia hora bem deprimido. Cheguei em casa, tirei a roupa assim meio rápido e fiquei só de cueca olhando detalhadamente pro meu corpo inteirinho na frente do enorme espelho do quarto. Vi a pele atrás do meu joelho, durinha e hidratada, e cheguei à conclusão que “tio é o filho da mãe do seu pai porque ainda dou um bom caldo”.

Não satisfeito em ver o fiozinho de cabelo caído que deixava minha nuca mais bonita do que de costume, coloquei Caetano pra tocar no Spotify, desfilei com a toalha amarrada um pouco caída na virilha e tomei um ventinho na varanda, com o rosto branco de creme clareador de manchas, toca de hidratação no cabelo, sem vergonha de ser observado pelos quinze andares do prédio vizinho, me achando muito sexy.

Não satisfeito com os pelos que nasciam ainda tímidos na batata da perna – o que consequentemente me deixava mais misterioso, o que consequentemente me deixava mais atraente -, deixei a toalha cair no meio da casa e me joguei na ducha. Eram cinco da tarde, nem dia e nem noite, e a iluminação fria invadia o basculante do banheiro, favorecendo poeticamente algumas partes do meu corpo. Tudo bem que a estria fininha ao lado esquerdo da nádega quebrava a simetria das minhas coxas tão torneadas, mas eu nunca reparei a beleza desse resto solitário de pelo nos joelhos e como ficava tão bem alinhado aos dedos dos pés tortos e corcundas.

À medida que a espuma escorria em direção ao ralo, meu mamilo direito, com um sinalzinho marrom escuro em alto-relevo, insistia em ficar excitado toda vez que a esponja passava a dois centímetros de distância. Achei aquilo bastante provocativo e, somando ao fato de estar com a barriga desinchada por ter feito a digestão do almoço há quase três horas, comecei a perceber que “caramba, como eu sou gostoso!”, que “nossa, como eu não me reparei antes?”, que “meu Deus, eu bem que poderia me pegar”.

O exibicionismo implorava por um nude: faz besteira, por favor; se expõe, por favor. O superego não pensou duas vezes e ligou a câmera do celular. Primeiro saiu uma foto inocente da metade do pescoço e do peitoral lisinho. Mas achei bobinho demais e pensei que, sexy do jeito que eu estava me sentindo, poderia ser melhor do que aquilo. Inclinei a câmera e olha lá, a foto capturava um pouco do tórax, um pouco da virilha, um pouco dos pelinhos recém-nascidos da virilha.

Meu namorado foi a primeira opção a ser descartada da obsessão “pra quem eu vou mandar essa belezura”, porque 1) ele me vê pelado sempre, inclusive forçando a porta do banheiro pra saber “onde está a Neosaldina?”; 2) ele me responderia “eita, mais tarde a gente resolve isso”; 3) ele, inocente, perguntaria se o carocinho quase invisível da picada de inseto, perto da costela, era alergia. Melhor não.

Pensei em mandar para Pedro, meu psicólogo, uma legenda como “você acha que eu tô ficando louco?, “você acha que eu tô perdendo a noção?”. Mas ele é casado e poderia ser um problemão explicar pra mente neurótica da mulher dele que é coisa de cliente, que é terapia humanista. Melhor não. Também não considerei nenhum amigo do jornal. Eles certamente me responderiam: “porra, Murilo, em fechamento de matéria sobre a obra que tá travando o subúrbio e você mandando putaria”. Melhor não.

Nem cogitei a possibilidade de mandar para o grupinho de homens que “serve como reserva caso eu leve um pé na bunda”, porque, como me conheço muito bem, sei que jamais mandaria para seres que não são nada uma foto exibindo um pouco do tórax, um pouco da virilha, um pouco dos pelinhos recém-nascidos da virilha.

Olhei a foto incansáveis vezes e pensei que aquela obra-prima precisava ser compartilhada. Facebook, o parquinho virtual da superexposição. Melhor não. Vai que meus ex-editores veem isso, vai que meu chefe vê isso, vai que… Melhor não.

Era quase meia-noite e eu já estava ansioso e desesperado. Na cama, revirei os contatos do WhatsApp e vi algumas possibilidades. Mas mandar pra minha mãe seria uma boa opção? Descartei no mesmo segundo. Seria um jeito de me livrar dessa angústia, mas ela certamente iria rir e murmurar algo como “nunca foi certinho da cabeça”, “esse não cresce nunca”, “continua bobalhão” e depois excluiria sem dó. Não surtiria efeito. Melhor não.

Já eram quase quatro da manhã e eu precisava mandar aquilo o quanto antes. Rolei o dedo na tela e cheguei até ele, meu amigo sincero. Deixamos de nos falar há alguns meses depois que dizemos coisas horríveis. Comportamento típico de quem se conhece muito, de quem se gosta muito. Mandei a foto num impulso. “Tô bem?”. Eu queria sinceridade.

Peguei no sono com o celular na mão. Acordei no dia seguinte com o barulhinho do WhatsApp apitando e corri pra ver. Era ele mandando a foto da barriguinha de cerveja. Me olhei no espelho e lá estava eu: me achando feio, cheio de olheiras, a pele desidratada, o cabelo seco, a coluna torta e a cara amassada. Nenhuma roupa do armário parecia se adequar ao meu corpo e me deixar incrível como ontem. A vida voltava ao tédio e ao marco zero da libido.

O regador assassino

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Estou há mais de uma hora sentado num banco alto de uma festa no Lalá “que talvez mais tarde você apareça”. Sinto o sapato apertar o ossinho do calcanhar, mas eu me digo o tempo inteiro: aguenta mais um pouco. Garçons me olham triste e me perguntam se eu preciso de mais um copo. Ignoro o globo de luz e a música da moda. Pessoas acompanhadas sorriem com suposta piedade, disfarçam e comentam com as outras: a companhia dele não chega. Gente bêbada fala comigo e eu concordo com um sorriso automático, procurando sentido onde não vejo, como se eu fosse um equipamento mal-estruturado tentando sobreviver ao mundo dos robôs. De dez em dez minutos troco o lado da perna cruzada. De dez em dez minutos mexo na bolsa. De dez em dez minutos reviro o celular procurando o que nem eu sei o que é. De dez em dez minutos vou ao banheiro. Não é xixi. É ansiedade.

Decido voltar pra casa. Qualquer tortura no mundo é melhor do que bocejar. Estou cansado, estou com as pálpebras tremendo, estou com dor no flanco, estou com a lombar e os ombros tensos, entediados por esperas. As duzentas esperas dos seus duzentos corredores sem fim. Meus olhos lacrimejam tanto que algum desatento pode confundir com brilho, mas as olheiras adiantam o que meia dúzia de palavras inventaria. Você suga toda água do meu corpo e me deixa seco como um ET.

Pago a cerveja, ajeito o cabelo e penso: talvez mais tarde você apareça. Eu posso pedir outra cerveja, eu posso ir ao banheiro de novo, eu posso fazer amizade instantânea, eu posso ir lá fora, eu posso ficar aqui brincando de me enganar mais uma vez, eu posso bancar o palhacinho e me divertir com todos esses bêbados que se afogam em mais uma dose de tequila porque cansaram de entender a vida. Mas prefiro ir embora. Olhar pra porta sem piscar os olhos e confundir todos os homens com você é como buscar um pouquinho de calor, pelado, numa cidade do sul com temperatura abaixo de zero.

Mais vinte. Não. Só mais cinco minutos, melhor assim? Nem pensar. O táxi está parado do outro lado da pista, eu me aviso. Você aparece na porta com aquele seu cabelo seboso de banda de rock londrina. Não fico nem um pouco feliz. Não tenho mais vontade de te ver. Não quero passar o resto da noite tentando ser o homem que nem você quer. E então você sorri com sua cara séria e nunca sei se você tá gostando de tudo ou se tá apenas sendo simpático. E então começo a produzir sêmens dentro do meu cérebro. E me lembro de tudo que a gente foi. E invento. E fecundo em buracos de tudo que é você. E me jogo em seus braços quentinhos de quem ama no minuto certo. E te conto que estou desnutrido, ossudo, de tanto me alimentar de pensamentos vazios. Eu estou sem células, sem fígado, sem saliva, sem alma.

Você segura a minha mão e me roda. Olhe fundo nos meus olhos e dance, você diz. Não pense, não queira, não reclame, não espere, não tente entender, você diz. Respondo que não sei dançar. Você revira os olhos e me encaixa nos seus braços. E me joga pra trás, pro alto, pro seu peito. E estica as minhas pernas. Acho estranho que duas pessoas que se conhecem há tão pouco tempo consigam ter uma sintonia tão perfeita. A festa inteira para pra ver a gente rodopiar. Me escondo em seu peito, minúsculo, como um filhote que precisa de abrigo. Eu gosto que você é um começo daquela plantinha com raiz seca que desperta em mim o regador assassino de doze milhões de gotas d’água por segundo. E eu te afogo. E você não entende. E você prefere morrer do que ter que aguentar a enxurrada de gotinhas desproporcionais.

Tenho a impressão de que seus cílios são do tamanho exato dos fios do pelo da minha mão esquerda. Que seus braços largos e compridos têm o tamanho exato de uma volta na minha cintura. Que seu dedão do pé é do tamanho exato do meu ouvido. Tenho a impressão de que se eu passar um pouco mal depois de tanto dançar com você nessa festa, você pode me colocar numa posição lateral e fazer respiração boca a boca, e então eu continuo incrivelmente bem. Mas se eu não sobreviver, por favor, continue essa vida por mim.

Tenho a impressão de que eu consigo te amar a cada detalhe bobo e insignificante. Consigo gostar de você apenas com o meu sangue que circula quente ainda que seja a mil metros de contato com a energia do seu corpo. Eu vejo sua mão grande e fria segurar meu ombro com cuidado e eu penso que isso é amor. Eu ouço você murmurar qualquer coisa como “não faz desse jeito pra não parecer que você quer” e eu penso que isso é amor. Mas eu sei que são apenas sêmens fecundando nesses buracos que você deixa. Quanta coisa bonita a gente nega pra obedecer regras estúpidas e colocar freios na intensidade.

Quero perguntar, agora que me confundo na dança, por que você prefere o mundo seco. Quero entender, agora que você me ajeita na dança, por que a gente precisa voltar pra casa, mais uma vez, sem entender nada. Você me solta um pouco dos seus braços, posiciona os óculos e diz: “Você coloca o bolo no forno e fica olhando impaciente querendo que o fermento atropele as etapas e se desenvolva da sua forma. O bolo fica inchado, inconsistente, sem vida”.

Lembro de você, no comecinho, me dizendo que queria respirar, que não conseguia respirar, mas que você precisava respirar. E eu tentei, juro que tentei, de todas as formas, deixar uma passagem de ar entre a terra e a raiz pra te manter vivo. Mas quem consegue não asfixiar quando a saída é nadar em cem metros rasos de possibilidades?

De repente abro os olhos e sinto o golpe que é você me deixar no meio da festa pra viver todo o resto. Os pés que te trazem tão devagar são os mesmos que te levam tão depressa. E então minha cabeça acode os atropelos do peito. E eu fico, outra vez, sem som, sem cor, sem sentidos humanos. Te ver sumindo no meio da multidão é lembrar a cada segundo o peso absurdo que é balancear todas as razões de fora com as emoções de dentro.​

 

Compraram a camisa de listrinha azul

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

As roupas estão enfileiradinhas no armário de madeira que não é de madeira e tudo isso me faz pensar um pouco com as mãos no queixo na ponta da cama. Talvez, e só talvez, a camisa jeans que não é jeans me deixe bonitinho pra essa festa que talvez eu me divirta. Lavo o rosto pra diminuir a oleosidade da pele e penso mais um pouco. Talvez, e só talvez, a camisa de botão que tem uns barquinhos que não são barquinhos me deixe bonitinho pra essa festa no Portela que eu nem quero ir. Deixo as camisas enfileiradinhas no armário e resolvo que talvez, e só talvez, comprar uma peça nova resolva o meu problema.

Revirei araras e vitrines de lojas em busca de alguma coisa interessante numa dessas “coleções incríveis primavera-verão”. Antes de desistir, parei no Rio Vermelho pra olhar uma dessas boutiques de novos estilistas soteropolitanos. Gostei logo de cara de uma camisa de listrinha azul que estava na vitrine de umas dessas boutiques de novos estilistas soteropolitanos. Tecido de algodão macio, cor viva, linha bonita, tão charmosa. Quando experimentei senti algo especial, próprio, adequado, familiar. Caía muito bem no meu corpo e combinava muito bem com tudo.

Mas qualquer pessoa que gosta de se vestir bem sabe que não pode ficar com a primeira roupa que aparece. Listrinha nunca sai de moda, e, talvez por isso, qualquer pessoa que usa listrinha sabe que corre o risco de ter mais uns quinze usando a mesma peça. Enfim, continuarei procurando. Depois daquela camisa vi pelo menos mais umas cinquenta, mas a dita cuja não saía da minha cabeça. As listrinhas de um azul tão bonito, o tecido tão confortável e fresco, a gola tão apropriada. Eu estava completamente apaixonado. Mas não, né? A gente não pode sair colocando assim na sacola. O mundo da moda tem tantas opções, não é mesmo? A gente não pode levar pra casa a primeira que encontra. Ainda mais uma primeira tão cara e estranha: as mangas tinham um corte não-reto e eu ficava o tempo inteiro pensando nessas mangas. Coisa estranha. Melhor não.

A semana passou, camisas modernas de grandes grifes apareceram, mais baratas, com estampas mais incríveis e até mesmo com um caimento melhor passaram, e eu nunca tirei a camisa de listrinha azul da cabeça. Eu me dizia o tempo inteiro: “mas é só uma camisa de listrinha. Imagina, camisa de listrinha a gente acha em qualquer canto”. E seguia a vida tranquilo, acreditando que a hora que eu quisesse ela estaria lá na vitrine esperando por mim. Eu precisava experimentar outras peças, eu precisava entrar em outras lojas, eu precisava conhecer outras marcas, não, de maneira alguma eu poderia me deixar levar pela falsa ideia de roupa perfeita assim à primeira vista. Um dia, se esse dia chegasse, eu estaria pronto pra usar uma camisa com mangas não-retas. Um dia, se esse dia chegasse, eu poderia ser dela e então ela seria minha.

Ontem resolvi passar por lá. Não pra experimentar de novo e nem pra comprar. Apenas pra continuar paquerando aquela peça na vitrine, de longe, sem nenhum contrato de fidelidade. Quando fui chegando perto não pude conter o assombro: a camisa de listrinha azul não estava no manequim. No lugar, uma peça sem cor, sobreposta por um casaco verde musgo. Mas quem usa casaco no verão? Que coleção é essa? À medida que eu atravessava a pista, meu coração era dominado por um ódio imenso, tão imenso que chegava a controlar a minha mente. Entrei na loja querendo saber da vendedora: “Cadê?”. Mas a peça pode estar na remarcação, na seção da coleção antiga, no quartinho de estoque. “Compraram”.  “Mas o quê?”. “Sim, compraram. Um rapaz assim bem parecido com o estilo do senhor comprou ontem! Mas temos outra aqui que eu…”.

Atravessei a rua em prantos. Começou com um choro minúsculo, apenas umas lágrimas tímidas e descompensadas. Depois as lágrimas foram ficando gordas e gordas e gordas. Peguei um Uber e chorei, do Rio Vermelho até a Barra, o choro mais profundo e desmedido que possa existir. O choro infantil e verdadeiro que já chorei em toda a minha vida. Me recordei, como num filme cruel e sem pausas, de todas as pessoas e coisas que perdi por ter deixado pra depois; por ter achado, por arrogância, que eu poderia ter mais do que aquilo que era oferecido; por ainda não me sentir preparado para elas ou, ainda, por ter a curiosidade de saber tudo do mundo ou, ainda, por ter dificuldade com o que é duradouro.

Me recordei de centenas de lugares que trabalhei e acabei indo embora porque eu estava de saco cheio de ficar com meu rabo preso numa cadeira por doze horas por dia. Mas eu fazia o que eu gostava, eram lugares com pessoas tão incríveis e chefes tão bons. Por que eu ia embora? A ilusão de que podia existir, em algum lugar do mundo, o emprego dos sonhos.

Me recordei de todos os meus namorados que eu simplesmente mandei ir pro inferno porque é difícil entender que as histórias acabam mesmo. Descartar pessoas, como se elas nunca tivessem existido, no fim das contas, não é humano. Quem ama não joga fora.

Me recordei de todos os amigos e parentes, aqueles que fizeram histórias comigo, aqueles que viveram momentos de dor, medo, raiva, alegria, expectativa, aqueles que eu sempre deixo pra depois porque eu ando sem tempo e porque eu tenho preguiça e porque eles moram muito longe ou porque eu mudei muito e todos se tornaram muito diferentes de mim. Aqueles que eu sempre penso: “talvez no fim da semana que vem”. Mas o fim da semana que vem nunca chega.

Chorei por todos os meus amigos que foram embora do país e eu não fui pra despedida porque eu odeio despedida. A falsa esperança de que um dia nos veremos de novo. E, finalmente, chorei por nunca ter conseguido ser bonito, engraçado e inteligente. Chorei o fim de tudo e, chorei muito mais, pelos começos que têm fins previsíveis. Assim é a vida: uma morte a cada capítulo.

Depois, como era de se esperar, passei a mão no rosto, enxuguei as lágrimas e continuei procurando pela minha camisa com a cara limpa. Eu descobri, ontem, que estar em busca de outras opções e ficar insatisfeito com a maioria que aparece, na verdade, é o que faz a gente continuar.

Sexo é o que a gente tem pra hoje

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Só eu sei como é difícil desatar os cadarços desses sapatinhos brancos. E me questionar pela milésima vez em frente ao enorme espelho se tudo bem tirar essas meias com listrinhas coloridas, se tudo bem deixar à mostra esses dedinhos compridos, se tudo bem deixar exposto esses pés ressecados, se tudo bem essa mania esquisita de tentar consertar a coluna, estalar os dedos das mãos mil vezes, contrair os joelhos. Tudo bem aceitar a agonia dos meus ossos e da minha alma? Tudo bem querer chegar a algum lugar sem querer andar? Eu tenho medo de não conseguir pisar com firmeza nos lugares onde nunca andei e muito menos nos lugares onde já andei de tudo quanto foi jeito. Enfim, sapatinhos brancos tirados.

Eles saltam dos pés com dificuldades, fazem barulho quando caem, esperam calados ao lado da cama, ficam de bruços. Me avisam que já não estou mais protegido dos cacos, alfinetes e poeiras. Me avisam que existe chão e que até chão dói. Agora é a vez da camisa. Faz muito frio. Eu quero te pedir: por favor, calma. Desabotoa devagar. Desabotoa sem deixar o nó na garganta me sufocar. Eu sei, eu já tirei essa camisa tantas vezes. Não sou nenhum rapaz inexperiente. Mas você me deixa mole desse jeito, tonto, como se tudo fosse a primeira vez. Faz as pernas tremerem, o frio chegar, exatamente como um rapazinho inexperiente se sente.

Eu tenho medo de acabar fechando os botões da camisa depois que você abrir. Tenho medo de sair correndo e me trancar no banheiro e vomitar no vaso e chorar sentado na tampa da privada cinza com as pernas prendendo a porta, repetindo a cena que eu fiz com todos os outros caras antes de você. Tenho medo do que ainda não aconteceu. Medo do barulhinho do relógio que o tempo inteiro me avisa no escuro que já vai acontecer. Tenho medo da tristeza descontrolada. Tenho medo da alegria sem freios. E de você cantar ao pé do meu ouvido a bossa nova mais bonitinha do João Gilberto e eu me sentir tão bem e tão seguro e tão apaixonado a ponto de perder os freios e começar a tremer, a gaguejar, a me esconder entre seus braços quentinhos e compridos e ser obrigado a te mostrar o quanto não pertenço a esse planeta.

E tenho muito medo de você perceber o meu jeito alienígena e se encantar pela minha parte alienígena e ficar admirando minha parte alienígena e de nunca mais eu fechar os botões da minha camisa e não conseguir voltar a calçar meus sapatinhos brancos. Eu tenho muito medo de me esquentar no seu peito e pegar no sono e nunca mais fugir do frio e nunca mais acordar. Mas ainda eu sinto frio. Então, se eu tremer, não fala nada, continua me olhando como se fôssemos companheiros desse disco voador que trouxe a gente pra esse mundo feinho de pessoas que não tremem, que não sentem, que não se apegam, que não enlouquecem.

E seus olhos me mostram que agora é a vez da calça. Olha, desabotoa lentamente. Abra o zíper devagar. Não faz piada com isso. Porque eu tô desde o começo tão nervoso. A dor da virgindade da alma é maior do que qualquer dor que se possa ter na adolescência.

E me explica, antes de você tirar a roupa, por que você tem tantos pôsteres de filmes italianos antigos colados na parede do quarto e por que a sua geladeira não tem luz e por que você tem uma pilha de VHS de 1998 no canto da sala e por que você não olha seu celular de cinco em cinco minutos como todo mundo faz. Me conta? E você diz que é tão chato ficar falando coisas e coisas e mais coisas e perder olhares e cheiros e abraços. E isso já me diz mais do que eu precisava ouvir. Tirar a roupa é tão fácil. Mas ficar pelado é mais difícil. Então, não faz piada com isso. Eu vesti todas essas peles com muito cuidado. Ficar pelado, pra esse sexo que a gente começou a ter há poucos meses, não é tão simples. Quanto mais eu tiro uma pele pra alguém, mais pelado eu fico. E eu cansei de ficar pelado pra quem não interessa, pra quem não merece.

E só porque você subiu por escada os dois mil andares complicados do meu prédio e não me achou louco quando eu abri a porta, eu resolvi ficar pelado. Então cuida dessas feridas que estão expostas. Me ajuda a cicatrizar o que parece não ter remendo. Estimula meu sangue que já não circula. Controla as minhas células que não entendem por que precisam rejuvenescer. E acalma o meu peito querendo expulsar meu coração que bate tão forte, causando essa taquicardia que não me deixa dizer nada do que não sou.

E você me olha cansado. Da vida, dos amores imensos, dos começos que não continuam. Me olha do mesmo jeito que eu olho pra você. E eu sinto vontade de te dizer que eu sei que você também tem medo do que vai acontecer depois que fechar o zíper da calça. Que eu sei que você também treme, soluça, mas disfarça porque precisa sempre ser forte pra ter que aguentar. Porque deve ser muito intimidador e corajoso e revelador e assustador um homem desse seu tamanho mostrar que treme. E te dizer que por trás de todo esse tesão da alma entre nós dois, em que o corpo implora pelo corpo do outro sem fazer isso com as palavras, o que transborda é carência, falta, abandono, desgosto. E mesmo que a gente não fale, só agora, olhando a gente por esse ângulo transparente, eu entendo nosso sexo. Não há mais peça nenhuma pra tirar. É a noite mais fria do ano. E eu e você estamos pelados. E seu corpo também treme. E a gente se aquece tremendo. E isso se transforma na coisa mais profunda que alguém pode sentir.

O que mais me deixa confiante em seus braços, a ponto de não sentir vergonha de estar pelado, a ponto de não me importar em mais uma vez estar pelado, é que eu sei que, caso você suma no dia seguinte, como todo mundo sempre faz, valeu todo o meu esforço de ficar do jeito que eu vim ao mundo.

Eu não me importo mais

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Cansei. E isso resume tudo que eu tenho a dizer. Eu simplesmente cansei. Desisti. E isso é a coisa mais triste que pode acontecer a qualquer ser humano. E isso é a coisa mais triste que pôde acontecer na minha vida. Não reclamo mais de nada, não tenho mais interesse em entender nada, não faço mais questão de esperar por nada. Eu cansei. E quer saber? Desistir, talvez, tenha sido a melhor coisa que eu fiz até hoje. O melhor bem que eu fiz por mim até hoje.

Saio com os meus amigos, ouço a opinião de todo mundo numa roda. Gente discutindo sobre aborto, racismo, homofobia, feminismo, saudade, carência, medo de morrer. Coisa que eu acho intolerante e que eu quero apontar o dedo na cara, outras que eu quero complementar, mas eu deixo tudo lá. Não sinto vontade. Não quero. Não mexo um dedo. Eu deixo tudo lá. Sem culpa. Todo mundo querendo ter razão de tudo com suas frases de efeito. Nem aí pra essas pessoas que medem cada palavrinha pra levar um prêmio pelo melhor discurso. Nem aí.

Odeio inglês e odeio mais ainda quem usa frases em inglês no meio de texto em português, mas o tempo inteiro fico repetindo “i’m not interested”. Me recuso a discutir mais uma vez. Pra quê? Cansei de brincar de ser Deus. Passei 25 anos da minha vida sendo o irritadinho da turma. O enjoadinho. Aquele que queria tudo do seu jeito. Aquele que fechava a cara por qualquer coisa. Amor só é verdadeiro se for desse jeito aqui. Felicidade só existe se for desse jeito aqui. Festa tem que ser assim. Emprego é assim, namorar é assim, viver é assim, se vestir é assim, se comportar é assim, respirar é assim, perdão só pode ser dado assim. E eu ia culpando a vida, xingando a vida, de cara fechada. O tempo todo. O tempo todo querendo tudo no meu minuto. Querendo consertar a burrice do mundo e a sala brega da minha sogra. Chega.

Agora eu não me importo mais. Mesmo. Não avalio mais o que é feio ou bonito. O que é bom ou ruim. De verdade. Chega. Não me importo se eu cair e ralar o joelho. Não me importo mais com a dor. Com o sangue escorrendo. Com o latejar que incomoda. Com a febre que avisa que tem alguma coisa errada. Eu não me importo mais com o álbum incrível do Caetano Veloso. Com o filme badaladinho do Almodóvar. Pro último capítulo da novela das nove. Pro show tão esperado da Marisa Monte no TCA. I’m not interested.

Se um merda de um cara abre a boca pra falar sandices numa reunião, eu conto até cem pra não explodir na cara dele. Eu não grito mais, eu não esperneio. Deixo tudo lá. Mas quando a reunião acaba, eu sou o primeiro a sair. Pego a minha bolsa e vou embora. Sem culpa. Se um velho parar no meu caminho quando eu estiver andando de bicicleta no Porto da Barra, eu simplesmente freio e fico ali parado, olhando pro nada, até que ele suma da minha frente. Se alguém furar a fila, eu não reclamo. Se a pulseirinha quebrar, fica no chão. Eu deixo tudo lá. Chega de querer mandar na vida. Chega.

Não quero consertar, remendar, explicar, mostrar que estou certo. Não quero correr atrás, ter outra chance, ganhar, passar, subir no pódio, estar antenado com tudo, saber falar sobre tudo. Pra quê? Eu quero não me preocupar com nada, não sentir nada, não me estressar com nada. Sentar num banquinho de madeira da praça e ver a vida passar tão lenta como a Bossa Nova. Sem sentir nada. Quero a emoção blasé, o riso sem sal, a conversa beirando a superfície, dormir por mil anos. Sem culpa.

Tanta gente me viu tão histérico, agora vai me ver domado. Sonolento. Caladinho. Sem dar um pio. Caladinho. Eu quis tanto ser feliz. Quis tanto ter uma vida completa. Tanto. Meus olhos brilhavam esperando por isso. Eu tinha um sorriso enorme. Eu tinha tanta expectativa. Eu acreditava tanto. Tanto. Chegava a ser doentio. Mas nem era maldade. Eu só queria dar certo no meio de tanta coisa errada. Só isso. Eu só queria ser estranho e cabeludo e corcunda e magricelo e fútil e alienado e completamente feliz.

Ninguém acredita que uma bolha gigante que roubou todo ar do planeta sobreviva a mais de dois metros. Todo mundo sabe que uma hora essa porcaria estoura no ar. E quer saber? Até eu. A bolha gigante guarda tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto que não aguenta e explode. Chega. Cansei de ser a bolha gigante. Não quero mais carregar nenhum peso. Nem do ar. Minha intenção não é mais ser feliz nem triste nem nada. Eu me recuso a ter esperança, essa coisa vagabunda. Eu me recuso acreditar que alguma coisa vai dar certo, seja ela qual for, pela milésima vez. Eu tenho aceitado a vida como ela é. Desde que eu continue anestesiado no meu banquinho de madeira.

Não ser ouvido pelo mundo, meu maior medo, finalmente ganhou um papel secundário. Minha maior felicidade agora é ver as pessoas gritando.

 

Mas o diabo é que eu não consigo dizer não para a vida

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Largo o texto da coluna pela metade pra ver o celular que apitou. É Júlia me convidando pra sair: “o que você acha de beber uma cerveja no Rio Vermelho?”. Estou cheio de atividades de literatura pra entregar, um roteiro enorme de programa de rádio pra escrever e prazos curtos pra cumprir. Estou tão atolado que sequer consigo respirar, comer, dormir. Claro que eu não vou. Retorno a mensagem: “tá, que horas?”. Esqueço – ou finjo que esqueço – que estou com a agenda abarrotada de pendências. Quero me arrumar, ficar bem bonito, ver gente, me sentir vivo, essas coisas. Esquentou um pouco e já consigo sentir a cerveja descendo bem gelada na garganta enquanto a gente fala sobre a vida. Não resisto e vou.

Leio uma matéria no jornal sobre o Panorama Internacional Coisa de Cinema. É o festival dos descolados. É o festival da galera alternativa e cheia de boas referências. Vários cineastas batendo papo, numa roda, sobre as dificuldades dos seus trabalhos, vários filmes sendo exibidos em várias sessões e oficina de crítica cinematográfica. Fico pensando: “mas se eu for, vou perder psicólogo, pedalada e aula de criação literária. Melhor não”. Compro o ingresso de um dia ou logo do festival inteiro?

Corte só este tanto. Mas é só este tanto mesmo. Vê lá. Carrego uma faca dentro da minha ecobag contra cabeleireiros que ousam cortar um centímetro a mais do que eu pedi. O rapaz do salão sorri. Explica que meu cabelo está mais seco por causa do verão, cheio de pontas duplas e frizz. Um banho de hidratação com um produto que custa o dobro do meu salário resolve fácil. Um corte em degradê vai deixar o meu cabelo tipo o do Rafael Vitti. Me pego gostando da ideia: “demora?”. “Não, imagina. Coisa de minuto”. Só saio de lá três horas depois, com a vida atrasada, e-mails importantes não respondidos e o cabelo tipo Rafael Vitti duzentos anos de ressaca.

Quarta teve aniversário surpresa da Clara. Avisei logo que eu não poderia ir porque precisava terminar, finalmente, o roteiro do meu curta. Fiz uma listinha de tudo o que preciso fazer pra fazer o curta. E se eu não seguir essa listinha, eu acabo não fazendo o curta. Então melhor obedecer a listinha e não ir ao aniversário da Clara e escrever o curta. Adulto, adulto. Me peguei na seção de doces perguntando pra Luíza: “recheio de Nutella ou brigadeiro?”.

Minha mãe abre a porta do quarto: “você não usa este tênis há mais de um ano. Vai querer ou junto com o resto das coisas pra doação?”. Por causa de um tênis, decido que preciso reavaliar tudo o que tenho. Largo o e-mail não respondido, a pesquisa incompleta, o artigo pela metade. Abro o armário e coloco tudo pra fora. Limpo gavetas, caixas e cabides. Preciso disso mesmo? Posso doar? Jogar fora? Fazer um bazar entre amigos? Remédios vencidos, fones de ouvido sem borrachinha, óculos sem hastes. Que bagunça. Muita coisa aqui que não quero. Vou aproveitar e organizar o quarto inteiro.

Sou do tipo que ama estender programas. A gente marcou um cinema, mas depois pode ir a um barzinho e ficar até sabe lá Deus que horas. E daí que amanhã eu tenho reunião às sete? Tô sempre topando a nona saideira. Topando ficar mais um pouco. Topando conhecer a turma incrível que vai chegar. Não posso comer esse docinho antes do almoço. Mas é só um docinho. Mas tem a endoscopia. Mas é só um docinho. É horário de pico, então a gente pode ficar aqui conversando até o trânsito dar uma acalmada. Amanhã tem aula cedo, mas o que é que tem assistir mais dois episódios de Sherlock Holmes? Desligo o despertador seis vezes. O que é que tem dormir mais dez minutos? Durmo. Quando vou ver, já tô atrasado duas horas. Já perdi a reunião, o encontro, o médico, o voo.

Eu não sei dizer não. Nem pros outros e muito menos pra mim. Não aguento um “só mais um pouquinho”, um “vamos”, um “é rapidinho”. Sempre acho que dá mesmo pra deixar pra mais tarde, pra amanhã de manhã, pra segunda-feira. Planejo a vida esperando dela quarenta e oito horas em um dia, mil dias em um ano. Minha agenda vive riscada com prazos cancelados. Quero fazer tudo e mais um pouco. Se digo não, fico com a sensação horrível de que deixei alguma coisa pra trás. Sei que se eu fosse mais metódico e mais responsável, eu já teria o novo livro pronto, a peça de teatro toda costurada, outros projetos saindo do papel. Mas vira e mexe tem sempre alguma coisa bem mais interessante, mais divertida, mais curiosa pra fazer. A armadilha pra eu sair dos conformes mora ao lado.

Posso ser chamado de irresponsável, inconsequente, impontual, mas jamais dirão que eu não aproveitei a vida.

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