Chacina do Cabula completa dois anos e familiares buscam novo julgamento e romper silêncio

André Uzêda
Atualizado em 06/02/2017 às 20:43
Foto: André Uzêda

O silêncio corta 12 corpos e os faz tombar, sem vida. São 88 cápsulas de completo mutismo que continuam em rota assassina na Vila Moisés, região do Cabula. Hoje, 6 de fevereiro, completa-se exatamente dois anos do massacre policial que vitimou uma dúzia de jovens negros, pobres, da periferia.

Todos os nove membros do Batalhão Rondesp Central (grupamento tático de Rondas Especiais da polícia), envolvidos na chacina, foram absolvidos em primeira instância. A decisão veio da juíza substituta Marivalda Almeida Moutinho, em 26 de julho de 2015. Desde então prevalece um esforço inercial de manter a história sepultada — como se o caso tivesse chegado ao fim — em cova mais funda daquela que serviu de túmulo para as 12 vítimas.

PARTE I – ESPECIAL DOZE: Os medos, traumas e origem da Vila Moisés, o palco da tragédia em Salvador

PARTE II – ESPECIAL DOZE: O canto do Gallo, o homem que tenta mudar o roteiro final dos julgamentos no atentado da Vila Moisés

Um movimento, no entanto, tenta resgatar a história do opressivo sossego trazendo-a novamente à baila. Após derrota em esfera local, o Ministério Público da Bahia encaminhou o processo ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), numa tentativa de federalizar o episódio e provocar um novo julgamento. Há um consenso jurídico que, no estado, influências políticas interferiram na primeira decisão judicial.

“Faltam poucos detalhes para que o caso seja aceito pelo STJ. Nesse caso, teremos até um novo julgamento com um juiz federal conduzindo o processo”, diz o promotor Davi Gallo, integrante do MP-BA, que acusou os policiais de extermínio no primeiro julgamento.

PARTE III – ESPECIA DOZEO argumento da legítima defesa e o discurso que o policial “está lá para limpar o lixo”

PARTE IV – ESPECIAL DOZEA estratégia de internacionalizar a tragédia para forçar um novo julgamento dos envolvidos

Promotor Davi Gallo foi responsável pela acusação dos policiais em julgamento na Bahia

O caso Cabula aconteceu quando o governador Rui Costa (PT) tinha apenas 37 dias de mandato na Bahia. O petista herdou do seu correligionário, Jaques Wagner, uma má relação do governo com a Polícia Militar — o que resultou em duas greves gerais da categoria no período.

Rui Costa tentava construir uma relação mais amistosa com o braço armado do estado e, inclusive, elogiou publicamente a ação na Vila Moisés.

“É como um artilheiro em frente ao gol que tenta decidir, em alguns segundos, como é que ele vai botar a bola dentro do gol, pra fazer o gol”, disse em metáfora futebolística, antes de completar. “Depois que a jogada termina, se foi um golaço, todos os torcedores da arquibancada irão bater palmas e a cena vai ser repetida várias vezes na televisão. Se o gol for perdido, o artilheiro vai ser condenado, porque se tivesse chutado daquele jeito ou jogado daquele outro, a bola teria entrado”, finalizou.

PARTE V – ESPECIAL DOZEO estranho silêncio dos ‘inocentes’ — Mesmo absolvidos pela Justiça policiais se negam a falar sobre atentado

PARTE VI – ESPECIAL DOZE: ESPECIAL ‘DOZE’: Falhamos todos! As (meias) verdades que nunca saberemos da Vila Moisés

Para não deixar a data esquecida, o grupo ‘Reaja ou Será Morta/Reaja ou Será Morto’ organizou uma pichação no dia de hoje em frente ao campinho onde uma dúzia de vidas foram ceifadas.

Em outro campo, o jurídico, tenta-se mudar a versão oficial que hoje prevalece: os jovens mortos, fortemente armados, planejavam assaltar um banco na região. O setor de inteligência da polícia interceptou o plano e respondeu abrindo fogo.

Vista da Vila Moisés, local onde ocorreu o massacre do Cabula em fevereiro

O laudo pericial do Ministério Público indica marcas de balas na nuca, costas e outras perfurações que incrementam uma nova variante para a mesma história: foi execução motivada por vingança.

Dez dias antes do atentado no Cabula houve uma operação policial que terminou com um tenente baleado com um tiro no pé.

Isso teria motivado, na versão do MP, a contraofensiva policial.

Os ruídos na briga pela verdade fazem parte de um microuniverso muito próprio e que não reverberam no jornalismo local. Sobre o Cabula, as notas dissonantes amplificam um silêncio coercitivo. Há dois anos as cápsulas calam vozes.

Acompanhe nossas transmissões ao vivo e conteúdos exclusivos na página facebook.com/aratuonline e também pelo youtube.com/portalaratuonline.

*Publicada originalmente às 12h36

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Chacina do Cabula completa dois anos e familiares buscam novo julgamento e romper silêncio

Fonte: André Uzêda
Atualizado em 06/02/2017 às 20:43

O silêncio corta 12 corpos e os faz tombar, sem vida. São 88 cápsulas de completo mutismo que continuam em rota assassina na Vila Moisés, região do Cabula. Hoje, 6 de fevereiro, completa-se exatamente dois anos do massacre policial que vitimou uma dúzia de jovens negros, pobres, da periferia.

Todos os nove membros do Batalhão Rondesp Central (grupamento tático de Rondas Especiais da polícia), envolvidos na chacina, foram absolvidos em primeira instância. A decisão veio da juíza substituta Marivalda Almeida Moutinho, em 26 de julho de 2015. Desde então prevalece um esforço inercial de manter a história sepultada — como se o caso tivesse chegado ao fim — em cova mais funda daquela que serviu de túmulo para as 12 vítimas.

PARTE I – ESPECIAL DOZE: Os medos, traumas e origem da Vila Moisés, o palco da tragédia em Salvador

PARTE II – ESPECIAL DOZE: O canto do Gallo, o homem que tenta mudar o roteiro final dos julgamentos no atentado da Vila Moisés

Um movimento, no entanto, tenta resgatar a história do opressivo sossego trazendo-a novamente à baila. Após derrota em esfera local, o Ministério Público da Bahia encaminhou o processo ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), numa tentativa de federalizar o episódio e provocar um novo julgamento. Há um consenso jurídico que, no estado, influências políticas interferiram na primeira decisão judicial.

“Faltam poucos detalhes para que o caso seja aceito pelo STJ. Nesse caso, teremos até um novo julgamento com um juiz federal conduzindo o processo”, diz o promotor Davi Gallo, integrante do MP-BA, que acusou os policiais de extermínio no primeiro julgamento.

PARTE III – ESPECIA DOZEO argumento da legítima defesa e o discurso que o policial “está lá para limpar o lixo”

PARTE IV – ESPECIAL DOZEA estratégia de internacionalizar a tragédia para forçar um novo julgamento dos envolvidos

Promotor Davi Gallo foi responsável pela acusação dos policiais em julgamento na Bahia

O caso Cabula aconteceu quando o governador Rui Costa (PT) tinha apenas 37 dias de mandato na Bahia. O petista herdou do seu correligionário, Jaques Wagner, uma má relação do governo com a Polícia Militar — o que resultou em duas greves gerais da categoria no período.

Rui Costa tentava construir uma relação mais amistosa com o braço armado do estado e, inclusive, elogiou publicamente a ação na Vila Moisés.

“É como um artilheiro em frente ao gol que tenta decidir, em alguns segundos, como é que ele vai botar a bola dentro do gol, pra fazer o gol”, disse em metáfora futebolística, antes de completar. “Depois que a jogada termina, se foi um golaço, todos os torcedores da arquibancada irão bater palmas e a cena vai ser repetida várias vezes na televisão. Se o gol for perdido, o artilheiro vai ser condenado, porque se tivesse chutado daquele jeito ou jogado daquele outro, a bola teria entrado”, finalizou.

PARTE V – ESPECIAL DOZEO estranho silêncio dos ‘inocentes’ — Mesmo absolvidos pela Justiça policiais se negam a falar sobre atentado

PARTE VI – ESPECIAL DOZE: ESPECIAL ‘DOZE’: Falhamos todos! As (meias) verdades que nunca saberemos da Vila Moisés

Para não deixar a data esquecida, o grupo ‘Reaja ou Será Morta/Reaja ou Será Morto’ organizou uma pichação no dia de hoje em frente ao campinho onde uma dúzia de vidas foram ceifadas.

Em outro campo, o jurídico, tenta-se mudar a versão oficial que hoje prevalece: os jovens mortos, fortemente armados, planejavam assaltar um banco na região. O setor de inteligência da polícia interceptou o plano e respondeu abrindo fogo.

Vista da Vila Moisés, local onde ocorreu o massacre do Cabula em fevereiro

O laudo pericial do Ministério Público indica marcas de balas na nuca, costas e outras perfurações que incrementam uma nova variante para a mesma história: foi execução motivada por vingança.

Dez dias antes do atentado no Cabula houve uma operação policial que terminou com um tenente baleado com um tiro no pé.

Isso teria motivado, na versão do MP, a contraofensiva policial.

Os ruídos na briga pela verdade fazem parte de um microuniverso muito próprio e que não reverberam no jornalismo local. Sobre o Cabula, as notas dissonantes amplificam um silêncio coercitivo. Há dois anos as cápsulas calam vozes.

Acompanhe nossas transmissões ao vivo e conteúdos exclusivos na página facebook.com/aratuonline e também pelo youtube.com/portalaratuonline.

*Publicada originalmente às 12h36