Dilemas do Esporte no Mundo Moderno

Quem já vive no esporte e do esporte, há algumas décadas, nota a cada ano uma inevitável imigração de praticantes de uma modalidade para outra por diversos motivos. Muitos mudam por limitações físicas (lesões, recomendações médicas, etc), outros por opção, apenas técnica, pois viram nas novas modalidades atrativos para uma motivação maior.

Sempre que surge uma modalidade cria-se a possibilidade de praticantes vindos de outras migrarem juntos também com seus hábitos e vícios, inerentes ao esporte que praticavam.

Li num texto ilustrativo sobre um novo fenomeno da prática esportiva, chamado de TRAIL RUN, a necessidade de “controle” maior na absorção de novos adeptos a essa que está sendo a mais atrativa atividade fisica das novas opções de esporte  e que recentemente foram apresentadas ao grande público. O Trail realmente conquistou uma multidão que só cresce, evento a evento seja inverno seja verão. Isso é de todo ruim ? Isso é de todo bom ? Como os organizadores devem lidar com esse crescimento, já que existe uma chamada “essência” nos esportes de natureza que dizem respeito ao aspecto ecológico e o uso do meio ambiente?

Se por um lado alguns puristas vêem com certo medo esse fluxo enorme de pessoas, pois acham que os ambientes podem ficar mais cheios de lixo a exemplo dos copos de água, sachês de gel, plásticos de suplementos largados atoa, como muitos fazem nas corridas de rua, por outro lado questionamos que organizador dispensaria a presença, nesses lugares, de uma centena ou pouco mais disso por centenas ou milhares de inscritos, como vemos nas provas que souberam atrair corredores de rua já enjoados dos percursos manjados do asfalto ? Será possível equacionar essas questões ecológico-puristas com o apelo financeiro e midiatico que as provas com milhares tem para organizadores e patrocinadores ?

Algumas modalidades com enorme rigor técnico e que não optaram pela flexibilização de conceitos iniciais, amargam até hoje uma estagnação e, até certo ponto, em poucos deles, um encolhimento que afugentam grandes marcas e até devido ao vazio de público se tornaram atividades muito isoladas. Por outro lado, esportes que se adaptaram as exigências das transmissões de tv (como provas em circuito que facilitam toda a logística de cobertura) ou que atenderam as expectativas de formação de público dando-lhes a educação ambiental e regras necessárias ao mínimo de convivência civilizada em ambientes de natureza exuberante realmente vem colecionando conquistas e elogios ano após ano experimentando crescimentos exponenciais.

Se os primeiros organizadores de provas de TRAIL RUN não olharem para frente e continuarem se prendendo à dogmas que podem ser contornados com um processo de informação e formação desse novo público, serão atropelados pelo bonde da história que mostra que a humanidade caminha. Assim, como engolidos, também, pelos gestores de eventos que se ligaram nas necessidades dos corredores que já perceberam que correr no mato, nas montanhas e nas praias é tudo de bom e que querem apenas saber como conviver em paz com os atletas mais técnicos da nova modalidade, afinal de contas corredor é corredor no asfalto, no mato, na cidade ou numa casinha de sapê.

Gilmário Mendes Madureira
Treinador da Atleta Olímpica Marily dos Santos