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Mesmo quando é de graça, programação cultural ainda é excludente em Salvador

Eram quase 19h da última sexta-feira, quando uma colega do trabalho, exclamou:

“Aff, quando eu chegar em casa, vou abrir uma cervejinha e me jogar na frente da televisão!”

Minha colega tem 30 anos, é mãe solteira, anda de ônibus, tem jornada de 44h e ganha cerca de R$1000 por mês. Naquela sexta-feira, ela não iria sair à noite – assim como em várias outras sextas, porque trabalha de segunda a sábado e precisa estar na empresa bem cedo no dia seguinte. Ao chegar em casa à noite, tem que cuidar da filha de 7 anos. O fim de semana dela só começa depois das 13h no sábado, só que aí ela começa as tarefas da sua segunda jornada, como fazer compras no supermercado, faxinar a casa inteira e fazer a comida para a semana seguinte.

Quando minha colega consegue ter algum tempo livre, depois de cuidar dos afazeres domésticos de sua própria casa, ela geralmente quer sair pra beber com os amigos. Pode ser na barraquinha da esquina, no quintal de um ou na cozinha do outro. E se tiver praia ou piscina, melhor ainda: é o tipo de escapismo que ela mais deseja para esquecer por algum momento a rotina nada animadora que leva durante a semana.

Como alguém pode julgá-la por preferir esse tipo de lazer do que uma exposição de arte ou uma peça de teatro?

Os dois Centros de Salvador

Ela até ficou animada pra ir ao Festival PercPan, no Largo da Mariquita, mas desistiu depois que soube que o palco estava baixo e ninguém conseguia enxergar muita coisa depois de algumas fileiras (e ficou com preguiça quando lembrou do parto que seria para voltar pra casa). Quando algum artista que ela conhece se apresenta na Caixa Cultural, minha colega não consegue estar na fila dos ingressos às 09h da manhã, em pleno dia de semana. Quando tem evento gratuito no ICBA, ela não chega a tempo para pegar as senhas que são distribuídas 1h antes. E quando o TCA fez uma promoção de troca de ingressos para um show na Concha, às 10h de uma quarta-feira, ela nem tentou em ir até lá.

Para piorar, Salvador não é uma cidade de um único Centro: há o Centro atual, onde estão os maiores shoppings, a Rodoviária, os prédios empresariais, e para onde convergem uma infinidade de linhas de ônibus, além das duas linhas do metrô; e há o Centro Antigo, onde se concentram os espaços do circuito cultural da cidade – num raio de poucos quilômetros, naquela que poderíamos chamar de uma “Zona Sul” soteropolitana, estão a maioria dos teatros, centros culturais, museus e galerias de arte.

Se você sobrevoasse do Farol da Barra ao Pelourinho, iria topar com: 1) Museu Náutico da Bahia; 2) Espaço de Fotografia Baiana; 3) Espaço Carybé de Artes; 4) Teatro Moliére; 5) Palacete das Artes; 6) Museu Carlos Costa Pinto; 7) Museu de Arte da Bahia; 8) Museu Geológico da Bahia; 9) Cinema do Museu; 10) Teatro ICBA; 11) Teatro Castro Alves; 12) Teatro Vila Velha; 13) Teatro Gamboa Nova; 14) Museu Henriqueta Catharino; 15) Espaço Xisto Bahia; 16) Caixa Cultural Salvador; 17) Museu de Arte Sacra da Bahia; 18) Museu de Arte Moderna da Bahia; 19) Teatro Gregório de Mattos; 20) Espaço Cultural da Barroquinha; 21) Espaço Itaú de Cinema; 22) Palácio Rio Branco; 23) Museu da Misericórdia; 24) Museu Afro-Brasileiro; 25) Museu Eugênio Teixeira Leal; 26) Museu de Azulejaria Udo Knoff; 27) Museu de Arqueologia e Etnologia; 28) Museu Abelardo Rodrigues; 29) Teatro Miguel Santana; 30) Fundação Casa de Jorge Amado; 31) Teatro SESC SENAC Pelourinho; e 32) Casa do Benin.

Observe que são mais de TRINTA espaços (e isso porque não mencionei todos), reunidos numa estreita faixa de terra – praticamente a mesma que foi desbravada pelos portugueses, na época da Fundação de Salvador. No mapa, todos esses espaços ficariam mais ou menos nessa região minúscula pintada de vermelho – nada discrepante em relação à área total do município:

Além disso, o Centro Antigo tem o estigma de ser considerado um local deserto e perigoso depois que anoitece. Geograficamente, é distante para boa parte da população, que reside nos bairros periféricos entre a BR-324 e a Avenida Paralela. A depender de onde você more e do horário em que começam os shows ou espetáculos, é preciso sair direto do trabalho, de farda e tudo. Já no horário em que terminam, voltar pra casa de ônibus não é a melhor escolha. E para gastar R$40 ou R$50 em algum aplicativo de transporte, só uma vez por mês – e olhe lá.

Como manter hábitos culturais com regularidade, quando há um imenso grupo social que, por razões óbvias, é naturalmente excluído desse mercado?

Bola de Neve

Gostos culturais se desenvolvem à medida em que são apresentados a cada indivíduo. A partir do momento em que esse universo pouco dialoga com a realidade das pessoas e também é colocado numa posição distante, a tendência é que não haja interesse em descobri-lo. E assim Salvador segue, nessa bola de neve de consequências catastróficas, em que não se forma um público disposto a consumir Arte e Cultura, e daí se conclui, de maneira equivocada, que não há demanda suficiente para se investir na descentralização do circuito cultural da cidade.

Há quem diga, com total desconhecimento, que o problema são os valores dos ingressos. Pois mesmo espetáculos culturais gratuitos, como projetos decorrentes de editais públicos, já sofreram os dissabores de uma baixa ocupação. Não estou falando aqui de shows com Maria Bethania em frente ao Farol da Barra, mas de inúmeras produções menores, que entram e saem de cartaz sem que sejam notadas pelo grande público.

Minha avó dizia que o que vem de graça, ninguém dá valor. Ora, se não existe uma valorização da Arte de um modo geral, não será apenas o caráter gratuito, pura e simplesmente, que vai despertar esse desejo (inclusive pode causar o efeito contrário em algumas pessoas, seguindo aquela velha cartilha do viralatismo brasileiro ao questionar a qualidade da esmola).

A exclusão da indústria cultural precede o valor do ingresso. É preciso mostrar que vale a pena pagar por Arte e que é perfeitamente possível conciliar a cervejinha ou a praia do fim de semana com uma boa peça de R$20. Educar para que compreendam que a Arte não se sustenta se não houver uma sociedade que a apoie e consuma seus produtos. Antes de mais nada, é necessário disponibilizar ferramentas que aproximem o público dos espaços, discutindo as melhores estratégias para facilitar o seu acesso. Falta criar fidelidade, para que as pessoas busquem a programação por conta própria e se antecipem àquele outdoor que passa rápido pela janela do ônibus.

Voltemos ao caso da minha colega do trabalho. No tempo livre, ela não tem vergonha de dizer que só quer rir e ver bobagem. Teatro, só peça infantil no meio da tarde, e para acompanhar a filha. Show, só se for de artista famoso, pra compensar o esforço de sair para muito longe de casa. Festa, só as estouradas, e desde que planejadas com antecedência e na companhia uma turma animada. De quem é a culpa? Aliás, há mesmo que se falar em “culpa”? Em Salvador há espaço para tudo, desde que todos sejam igualmente apresentados a tudo o que é produzido. É uma questão de oportunidade, tanto de quem consome, quanto de quem produz.

Julgar não é solução. Enquanto uma parcela da elite intelectual, que não reconhece os próprios privilégios, continuar criticando com falsa superioridade as pessoas que trocam uma montagem de Shakespeare para lotar um show de humor de Renato Piaba, em nada irão ajudar a transformar a realidade – pior, vão apenas contribuir para reforçar esse abismo e acentuar o distanciamento entre as produções artísticas e a maior fatia da população.

Obs.: isso se a gente acreditar que a elite queira de fato mudar alguma coisa, não é?

[FOTO EM DESTAQUE: Fila da Caixa Cultural Salvador para a compra dos ingressos do show de Fernanda Takai. Valor: R$5,00]

Dicas soteropobretanas para levar a gurizada no Dia das Crianças

O Dia das Crianças chegou e felizmente a cidade está cheia de opções – pra quem tem trauma de passar nervoso na época em que quase todo mundo corria pro Zoológico com os rebentos e o lugar ficava um inferno de gente.

Tem programação para o próprio dia 12 (quinta) e muito mais para o fim de semana, com várias atividades gratuitas ou baratinhas focadas no público infantil.

Na semana passada eu falei nas redes sociais do Sotero e repito aqui: lembrem-se que a relação de um indivíduo com o lugar onde é mora é estabelecida a partir da infância, então não adianta nada ficar falando mal de Salvador com seu filho/sobrinho/afilhado achando que isso vai fazer bem a ele quando se tornar adulto. A gente precisa é de crianças que conheçam, entendam e vivam a cidade, para que se sintam parte dela e busquem as melhores soluções no futuro.

PASSEIO PÚBLICO

O parque mais antigo de Salvador, encravado entre o Palácio da Aclamação e o Teatro Vila Velha, vai receber o Festival das Crianças, reunindo música, teatro, brincadeiras, exposições e uma feira gastronômica. A entrada é gratuita!

12/10 (Quinta)

09h – Grupo Eureka

12h – Parque Infantil

14h – Saulo

14/10 (Sábado)

09h – Parque

12h – Chorinho de Roda

14:30h – Espaço Musical

15:30h – Quabales

16:30h – Gilmelândia

15/10 (Domingo)

09h – Parque

12h – Chorinho de Roda

14:30h – Tio Paulinho

15:30h – Canela Fina

16:30h – Magary Lord

TEATRO CASTRO ALVES

O Complexo do Teatro Castro Alves preparou a programação especial Cinquentinha (o nome é uma referência aos 50 anos do TCA): no Dia das Crianças (12/10), das 15h às 17h, tem os projetos Osbacuri, da Orquestra Sinfônica da Bahia, e Pílulas Dançadas, do Balé do TCA. Tudo com entrada gratuita.

Já às 19h, rola mais uma edição do Cine Concerto na Concha Acústica, com novas músicas no repertório – mas os ingressos já esgotaram, então nem se anime.

No domingo (15/10), o TCA apresenta o ‘Circo de Só Ler’: a peça conta a história de um menino que gostava de ver TV e de jogar no computador, mas que não sabia ler, até que a chegada de um circo à sua cidade lhe apresenta um novo mundo. Às 17h, na Sala Principal do TCA, e ingressos a partir de R$15 (meia).

MUSEU DE ARTE DA BAHIA

O MAB continua com o projeto ‘Lugar de Criança é no Museu’, contando com várias atrações para os pequenos. Durante o feriado, o espaço vai funcionar apenas das 14h às 18h, sempre com entrada gratuita.

No sábado (14/10), o Museu apresenta o espetáculo teatral ‘Cordel das Fábulas Fabulosas’, às 15h (os ingressos estão sujeitos a disponibilidade e começam a ser distribuídos uma hora antes) e paralelamente, continua em cartaz a exposição de cartuns de Nildão.

PARQUE DA CIDADE

O Festival Criança – não confunda com o Festival DAS CRIANÇAS, que foi o primeiro que citei no post e vai ocorrer no Passeio Público – deve atrair grande público para um espaço que, depois de revitalizado, felizmente tem sido bastante adotado pelos soteropolitanos: o Parque da Cidade.

A programação será no sábado e domingo (14 e 15/10), com escolinha de bike, oficinas, shows de Jau, Katê e muito mais!

CAIXA CULTURAL SALVADOR

Um dos centros culturais mais ricos e diversificados da cidade também não podia fazer feio no Dia das Crianças. Além da exposição em homenagem aos 100 anos de Chacrinha, para os adultos, vão rolar oficinas gratuitas para o público infantil durante todo o feriado (e para se inscrever, basta chegar com uma hora de antecedência em relação ao horário de início de cada oficina). Se perder as oficinas do dia 12, não tem problema – elas vão continuar todos os sábados, no mesmo esquema.

E não só isso: a partir das 09h da manhã começam a ser vendidos os ingressos para a peça ‘Victor James – O Menino que virou Robô de Videogame’, que conta a história de um garoto que sonha em ter poderes de vídeo game (e a coisa começa a degringolar quando o desejo se torna realidade). Em cartaz de quinta a domingo, sempre às 15h. Excepcionalmente na quinta (12), rola uma sessão extra às 17h. Ingressos a partir de R$5 (isso mesmo, 5 reais).

ESPAÇO XISTO BAHIA

Assim como já acontece até mesmo fora do mês das crianças, o Espaço Xisto Bahia, ao lado da Biblioteca dos Barris, divulgou a sua programação para o Festival Xistinho, que encerra justamente no feriado.

No dia 12/10, as atividades vão ocorrer no seguinte esquema:

09:00h – Festa do Xistinho, com café da manhã oferecido ao público

10:00h – Oficina ‘Brincando de Circo’

11:00h – Espetáculo  infantil: ‘Passaredo, Passarinhadas’

14:00h – ‘Fngerboard in Concert’ (Oficina de Skate de Dedo)

15:00h – Apresentação de Dança do Passinho com o grupo ‘Alagados Passinhos’.

MUSEU DE ARTE MODERNA

O MAM já é parceiro da criançada há muito tempo, graças ao projeto ‘Pinte no MAM’, que sempre ocorre aos domingos (não sei hoje em dia, com essa reforma interminável) No próximo domingo (15), das 14h às 17h, o Museu de Arte Moderna da Bahia convida a gurizada para uma série de atividades e oficinas, inclusive com o desenho de sementes

*Foto em destaque: Parque da Cidade, após a reinauguração [Foto: AGECOM]

 

 

 

 

 

 

 

 

Pelourinho Dia e Noite e o caso do Centro Histórico: não é por falta de programação

Na última quinta (05), a Secretaria de Cultura e Turismo de Salvador divulgou a sua mais nova tentativa para movimentar o Centro Histórico. Trata-se de um novo modelo para o Pelourinho Dia e Noite, projeto famoso da década de 90, reeditado no primeiro mandato da atual gestão municipal e relançado agora com um outro formato e algumas novidades.

A proposta é ocupar a região “de domingo a domingo”, como ficou claro no marketing de lançamento, e atrair principalmente o público soteropolitano, que pouco associa o Pelourinho a uma opção de lazer em Salvador. O calendário inclui apresentações de orquestras, musical de rua, desfiles de grupos de percussão, shows de samba, eventos gastronômicos e exibição de filmes, entre outras atividades.

Uma das maiores reclamações das operadoras e agências de turismo é que à exceção do Verão, a agenda de eventos de Salvador não é muito bem definida. Tirando os meses de dezembro, janeiro e fevereiro, no resto do ano ninguém tem muita certeza do que vai encontrar em Salvador – e eventos esporádicos acabam sendo divulgados com pouca antecedência para chegar ao ponto de criar demanda de turistas pra cá. Só por isso, a iniciativa de criar um calendário desde outubro já é mais do que bem-vinda.

E o que o Pelourinho Dia e Noite vai trazer para o público? Confira abaixo:

Todas as sextas-feiras, às 19h, o musical ‘Circuito Jorge Amado’ vai sair pelas ruas do Pelô, começando no Largo do Pelourinho, com o velório de Quincas Berro d’Água, e encerrando na frente da Cantina da Lua, no Terreiro de Jesus. Quer mais? A trilha sonora é do cantor Gerônimo.

Salvador não vive só de OSBA e NEOJIBA, e as pessoas precisam saber disso! Agora dá para acompanhar de perto os ensaios de outras orquestras de Salvador, que vão ocupar pelo menos quatro igrejas do Centro Histórico (até a do Boqueirão entrou na roda, que eu nunca consegui visitar porque vive fechada): às segundas-feiras, às 17h, ensaio da Orquestra Afrosinfônica na Igreja do Boqueirão; às terças, às 17h, ensaio da Sanbone Pagode Orquestra na Igreja da Misericórdia; às quartas, às 18h, missa orquestrada com a Orquestra São Salvador na Igreja São Domingos; aos sábados, às 10h, ensaio da Orquestra de Câmara de Salvador na Igreja do Carmo. Tudo com entrada gratuita.

Todas às terças, além da missa mais linda do mundo – na Igreja do Rosário dos Pretos, às 18h – tem também Viradão do Samba, das 19:30h às 21h, em locais diversos (Praça da Sé, Terreiro de Jesus e Largo do Pelourinho). Entre os destaques, tem o show do Grupo Botequim, que há anos promove o famoso Samba do Santo Antônio, sempre às sextas. Recapitulando: missa no Rosário às 18h; samba no Pelô às 19:30h. Copiou?

Além disso, pelo menos duas vezes por mês vai rolar o Domingo Gastronômico – espécie de festival que vai misturar culinária e arte com a presença de atores, músicos e performers. Mais de 15 restaurantes do Pelourinho estão participando (e alguns cardápios foram criados só para o evento). Para completar, tem a República dos Tambores, com Banda Didá, Kizumba, Tambores e Cores e Meninos da Rocinha do Pelô, circulando pelas ruas do Pelourinho de quarta a domingo, em horários pré-definidos. E a novidade é que o Carmo e o Santo Antônio, apesar de não serem Pelourinho propriamente dito, também foram encaixados no roteiro do projeto, com performances artísticas na rua principal e cinema ao ar livre no Largo de Santo Antônio (apenas em datas específicas).

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Tudo isso seria lindo como 2 e 2 são 4, se não fossem os vários problemas inerentes ao Centro Histórico. Antes que você ache o projeto revolucionário, é importante lembrar que a Prefeitura não está inventando a pólvora com o Pelourinho Dia e Noite, e tampouco o Governo do Estado, que há anos oferece programação de shows nos largos Pedro Arcanjo, Tereza Batista e Quincas Berro d’Água, através dos projetos da SECULT.

O caso do Pelourinho não é por falta de programação. Sim, quanto mais atrativos, melhor, mas é preciso ir além: não basta ser cultural; é preciso que o Centro Histórico seja FUNCIONAL todos os dias. A Cultura tem um papel importantíssimo, mas não pode ser utilizada como tapa-buraco, para solucionar questões primordiais. Nos anos 90, acharam que uma camada de tinta e algumas reformas seriam suficientes para revitalizar o Pelô – e até foi, mas por tempo limitado. Já nos anos 2000, insistem em encher o Pelourinho de opções culturais – quase sempre gratuitas – e acham que isso naturalmente vai atrair de volta a população de Salvador.

Primeiro: quando será resolvido o problema do acesso? Chegar ao Centro Histórico de transporte público continua sendo um parto – e à noite, um verdadeiro filme de terror (na volta, eu tenho ido de Uber até o metrô Campo da Pólvora, que sai uns R$7,00). De carro próprio, ou o motorista paga caro aos flanelinhas, ou paga mais caro ainda nos estacionamentos (prédios enormes e com inúmeras vagas). Sejamos francos: não dá pra achar que a galera motorizada vai preferir ir ao Pelourinho pagar R$18,00 por 2h, enquanto 4h no Salvador Shopping saem por R$6,00. Simplesmente não vai acontecer.

Segundo: quando será resolvida a efetiva inclusão da população marginalizada que vive no entorno do Pelourinho? São dezenas de becos e vielas que ficaram de fora da revitalização na década de 90 e que não conseguem ser absorvidos por projetos sociais (porque projeto social não faz milagre). É preciso que o Estado se faça presente e que a iniciativa privada volte a acreditar que o Centro Histórico tem futuro, para que só então se crie um projeto real de acompanhamento, educação e qualificação desses moradores.

Terceiro: quando o Pelourinho vai deixar de ser tratado como cartão postal e de fato integrar-se ao cotidiano de Salvador? Após a superação das duas questões anteriores, ou talvez simultaneamente a elas, é necessário criar ferramentas para que a população frequente o Centro Histórico no dia a dia: atrair empresas e ocupar casarões com órgãos públicos podem ser os primeiros passos para fomentar o comércio – e de quebra, frear a escalada de estabelecimentos que têm fechado as portas no Pelourinho nos últimos anos.

A formação de um novo público para o Pelourinho passa também pela quebra de inúmeros preconceitos que já estão enraizados na mente do soteropolitano médio – o principal deles, de que a região seria perigosa. Concordo que não seja um mar de rosas, mas discordo que seja a zona de guerra que costumam pintar. Como é comum em qualquer Centro de grande cidade brasileira, o lugar sofre em especial com furtos rápidos (turistas são as maiores vítimas), mas eu me sinto muito mais inseguro num bairro de classe média, como a Pituba. E não custa lembrar: o Pelô tem quase uma dupla de policiais a cada 100 metros.

O Centro Histórico de Salvador é indiscutivelmente rico. No dia em que todas essas questões forem levadas a sério, o Poder Público nem vai precisar intervir para lançar projetos de incentivo como o Dia e Noite. A ocupação do Pelourinho ocorrerá naturalmente.

12 imóveis tombados pelo IPHAN que poucos turistas conhecem em Salvador

Já que é pra tombar, o IPHAN tombou. Mas pouca gente soube.

Num lugar com tanta História e riqueza arquitetônica como Salvador, não faltam construções tombadas espalhadas em diversos pontos da cidade. Muitas estão no circuito turístico e são naturalmente vistas ou visitadas por quem circula. Outras até estão no caminho dos turistas, mas nem mesmo soteropolitanos notam que são imóveis de valor histórico. E há aqueles que estão fora dos roteiros, seja por ficarem longe dos cartões postais, ou por ficarem esquecidos naquelas ruas do Centro Antigo que não foram totalmente integradas no projeto de revitalização.

E como na semana passada (17 de agosto) teve o Dia Nacional do Patrimônio Histórico, nada mais justo do que destacar pelo menos doze dessas edificações, todas tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN), que acabam passando despercebidas por quem visita a cidade.

1) CASA DOS SETE CANDEEIROS

Localização: Rua São Francisco, Centro (na pracinha formada na esquina das ruas do Tesouro e do Tira Chapéu).

Descrição: A Casa dos Sete Candeeiros foi tombada pelo Iphan em 1938 e seu nome se deve aos sete lampiões de azeite que nela se penduravam durante a estadia da corte de D. João VI, como forma de iluminar melhor o ambiente. A casa nobre tem forte caráter defensivo, com robustez nas paredes e raras aberturas no pavimento térreo.

2) IGREJA SÃO MIGUEL

[Foto: Pousada Suítes do Pelô]

Localização: Ladeira de São Miguel (Rua Frei Vicente), Pelourinho

Descrição: A construção desta igreja em estilo colonial, que remonta ao início do século XVIII (1725 a 1732), se deve a Francisco Gomes do Rego, que a levantou sob a invocação do Senhor Bom Jesus de Bouças e São Miguel. Em destaque na fachada, um painel de azulejos, com emblema da Ordem 3ª de São Francisco, vindo de Lisboa por volta de 1790.

3) ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DA BAHIA

Localização: Praça Conde dos Arcos, Comércio

Descrição: Construída sob os alicerces do Forte de São Fernando, o Palácio foi edificado por D. Marcos de Noronha e Brito, em estilo neoclássico, e inaugurado em 1817, com duas portadas em mármore, com inscrições em memória a D. João VI. A fachada principal está voltada para a Praça Riachuelo, construída pela própria Associação, em 1866. O Palácio abriga uma biblioteca, uma pinacoteca e mobiliário do século 19. É a mais antiga associação patronal do Brasil.

4) SOLAR BERQUÓ

[Foto: Google Street View]

Localização: Rua Visconde de Itaparica, n. 8, Centro

Descrição: O Solar situa-se no sopé de uma das ladeiras que conduz à Baixa do Sapateiros, a antiga Rua da Vala. O início de sua construção data de 1691, conforme indica a gravação acima da portada, e deve seu nome ao Ouvidor do Crime, Francisco Antônio Berquó da Silveira, que nela habitou em meados do século XVIII.

5) SOLAR DO BARÃO DO RIO REAL

Localização: Praça Conselheiro Almeida Couto, Nazaré

Descrição: O prédio foi uma das primeiras edificações do bairro de Nazaré, e pertenceu ao Barão do Rio Real. Construída em paredes de alvenaria de tijolo, o solar desenvolve-se em dois pavimentos, mais mirante e pequeno porão. Sua planta é típica de residências urbanas mais ricas do séc. XVIII. O Barão do Rio Real, do engenho Camuciatá, ficava no casarão sempre que vinha para a Capital (Salvador). Posteriormente, o imóvel se tornou pousada dos padres da Congregação das Missões e depois pertenceu ao Colégio Nossa Senhora de Lourdes. Hoje, encontra-se abandonado.

6) PAÇO DO SALDANHA

[Foto: Google Street View]

Localização: Rua do Saldanha, Centro Histórico

Descrição: Um dos mais notáveis palácios construídos no Brasil colonial, com destaque para sua imponente portada em pedra lavrada, única na arquitetura baiana. Para construir o Solar, o coronel António da Silva Pimentel usou o terreno de casas que havia comprado em 1699 à Ordem Terceira do Carmo. Com sua morte (1706), o solar passa aos herdeiros, até chegar às mãos de D. Manoel Saldanha da Gama, filho do vice‐rei da Índia e viúvo de D. Joana Guedes de Brito, filha do coronel. Depois de um longo período de abandono, foi restaurado e hoje abriga o Liceu de Artes e Ofícios da Bahia.

7) SOLAR DO CONDE DOS ARCOS

[Foto: Dimitri Cerqueira]

Localização: Avenida Leovigildo Filgueiras, Garcia

Descrição: A data da portada – 1781 – indica o término da construção. O nome do solar está ligado ao VIII Conde dos Arcos e Governador da Capitania da Bahia, D. Marcos de Noronha, que viveu na casa por sete anos. O Palácio é classificado como solar por ter a planta quase quadrada, desenvolvida em dois pavimentos e coberto por telhado de quatro águas. Na área externa tem uma escadaria que liga o pavimento nobre ao jardim. Já na década de 30 do Século XX, o casarão foi vendido para Peter e Irene Baker, um casal de missionários da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, que fundaram o Colégio Dois de Julho.

8) SEMINÁRIO DE SÃO DÂMASO

Localização: Rua do Bispo, Centro Histórico

Descrição: Edifício do século XVII e tombado individualmente pelo Ministério da Cultura (MinC) como Patrimônio do Brasil. O solar tem três pavimentos e é propriedade da Igreja Católica através da Arquidiocese de Salvador. Não há registro exato da data da construção, mas o que se sabe é que em 1814 foi doado pelo testamento do Cônego José Teles de Menezes, para que fosse estabelecido o Seminário projetado por D. Frei Francisco de São Dâmaso Abreu Vieira, 14º Arcebispo Primaz do Brasil.

9) FORTE DO BARBALHO

[Foto: Manu Dias]

Localização: Rua Marechal Gabriel Botafogo, Barbalho

Descrição: A construção foi idealizada pelo Capitão Luís Barbalho, no contexto das Invasões Holandesas no Brasil. O forte foi reconstruído com melhor traçado, com alvenaria de pedra e cal, no Governo Geral de Alexandre de Sousa Freire (1667-1671), sendo concluído em 1712, como informa uma placa sobre o portão de acesso. No século seguinte, durante a Guerra de Independência, a fortificação foi a primeira a ostentar a bandeira do Brasil, após a expulsão das tropas portuguesas da Bahia. Anos mais tarde, o forte foi usado como Cadeia Pública de Salvador, e no período da Ditadura Militar, foi o principal palco de tortura no Estado.

10) ABRIGO DOM PEDRO II

[Foto: HF Fotografia – CECOM/MP]

Localização: Avenida Luiz Tarquínio, Boa Viagem

Descrição: A época de sua construção não é conhecida. Acredita-se que seja da primeira metade do século XIX e que foi a residência de um embaixador português. Em 1877, foi adquirido pelo Governo da Bahia para a instalação do Asilo de Mendicidade Santa Izabel, em homenagem à princesa imperial, passando definitivamente para a administração municipal em 1913. Em 1943, passou a ser chamado Abrigo Dom Pedro II.

11) SOLAR AMADO BAHIA

[Foto: Fred Matos]

Localização: Rua Porto dos Tainheiros, Ribeira

Descrição: O casarão que se destaca na paisagem da orla da Ribeira foi inaugurado em 1904 pela Família Amado Bahia, que usou a residência até 1924. A casa é envolvida em ferro fundido, importado da Inglaterra, e vidros franceses nas portas e janelas, em estilo art noveau. Em 1949, o Solar foi doado à Associação de Empregados do Comércio da Bahia, e recentemente ganhou notoriedade na mídia ao ser colocado em leilão.

12) LAR FRANCISCANO SANTA IZABEL

Localização: Rua Jogo do Lourenço, Saúde

Descrição: O Lar foi fundado em 1848, por membros da Ordem Terceira de São Francisco. O objetivo era dar abrigo aos membros idosos da Ordem (como faz ainda hoje), tendo sido inaugurado em 1860. Hoje, com a denominação de Lar Franciscano, cabe às irmãs franciscanas hospitaleiras, desde 1932, zelar pela instituição e cuidar dos idosos.

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FOTO EM DESTAQUE: Igreja do Carmo e Igreja da Ordem Terceira do Carmo, por Ronaldo Silva [ASCOM Pelourinho]

FONTE:

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/05/26/palacio-tombado-que-foi-casa-de-vice-rei-vai-a-leilao-em-salvador.htm

http://portal.iphan.gov.br/

http://www.bahiaja.com.br/turismo/noticia/2013/05/16/casa-dos-7-candeeiros-na-vida-de-dom-joao-vi-e-no-roteiro-turistico,60122,0.html

http://www.infopatrimonio.org/?p=19285

http://www.salvador-turismo.com/riachuelo/associacao-comercial.htm

http://gshow.globo.com/Rede-Bahia/Aprovado/noticia/2017/03/conheca-historia-de-tres-solares-importantes-de-salvador.html

http://www.hpip.org/def/pt/Homepage/Obra?a=1166

http://bahiatextos.blogspot.com.br/2010/12/solar-barao-do-rio-branco-historico.html

http://www2.cultura.ba.gov.br/2011/04/18/solar-sao-damaso-passa-por-manutencao/

http://atarde.uol.com.br/politica/noticias/forte-do-barbalho-foi-o-principal-centro-de-tortura-na-bahia-1576076

http://www.salvador-turismo.com/barbalho/forte.htm

http://www.cidade-salvador.com/patrimonios/abrigo-dom-pedro/abrigo.htm

http://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/conheca-casas-de-salvador-que-chamam-atencao-por-sua-arquitetura-marcante/

http://www.igrejas-bahia.com/salvador/lar-franciscano.htm

Turistando de metrô: batendo perna da Estação da Lapa ao Campo da Pólvora

A gente leva mais tempo descendo as escadas rolantes. Depois que ele chega, não dá nem pra esquentar o banco e o condutor já avisa que a próxima parada está logo ali. Quem conhece a Linha 1 do Metrô de Salvador sabe bem a praticidade de percorrer do Campo da Pólvora até a Lapa em dois minutos – e o sensação de boca de me dê que a gente fica por que não cavaram aquele túnel até o Campo Grande. Mas o que nem todo o mundo percebeu é que melhor do que andar de metrô entre as duas estações é fazer o sentido contrário, só que a pé.

(Claro, isso se você estiver a fim de um bom passeio pelo Centro, subir e descer ladeiras e encarar aquela baforada soteropolitana que já deixa a gente peguento depois de 5 minutos)

Para turistar, comece preferencialmente pela Lapa e volte pra casa pelo Campo da Pólvora, deixando o Centro Histórico por último. Se estiver com amigo de fora, é a melhor pedida para mostrar uma Salvador mais real e dinâmica do que o – infelizmente – pouco movimentado Pelourinho.

O trajeto aqui é uma mera sugestão. Saindo da Lapa, múltiplas possibilidades se abrem, como o Gabinete Português de Leitura, a Igreja da Piedade, o Dois de Julho, o Mosteiro de São Bento e a Caixa Cultural. Aqui, eu sugiro pegar um outro caminho, menos usual, só para sair da rotina.

LEMBRANDO: para aproveitar o roteiro sem medo, faça apenas durante a semana ou no sábado pela manhã, e evite pegar as ruas do Centro desertas.

Da Lapa à Barroquinha: 350 metros

Desembarque do metrô na Lapa e siga em direção à saída do Colégio Central (aquela da escada assassina que inspirou Nazaré Tedesco). Pra subir todo santo ajuda – e tem escada rolante. Pra descer é que o filho chora e a mãe não vê.

[Escadaria da Estação da Lapa]

Antes de atravessar a Joana Angélica e pegar a rua lateral da PREVIS, dê um pulinho no Convento da Lapa, eternizado na História justamente pela personagem que dá nome à avenida. É o 2º convento mais antigo de Salvador, construído em 1744, para suprir a demanda do Convento do Desterro, que já não comportava o alto número de vocações (ou clausuras compulsórias, vai saber).

A igreja não possui fachada, pois é feita em sentido paralelo à rua e voltada para o convento. Mas possui na entrada externa uma bela porta em pedra de lioz, que veio de Lisboa em 1754.
O interior do templo possui uma bela capela mor, feita pelo entalhador Antônio Mendes da Silva. O altar principal possui um grande baldaquino em forma de coroa, sustentado por colunas retorcidas, em estilo salomônico. No nicho central, encontra-se a imagem da padroeira, Nossa Senhora da Imaculada Conceição.
As paredes da capela mor são revestidas de painéis de azulejos portugueses, instalados cerca de trinta anos após o início da construção da capela. No teto da capela mor e da nave há belas pinturas, de autoria desconhecida. A pintura maior, do teto da nave central, representa monjas recebendo o hábito diante de Nossa Senhora e da Santíssima Trindade
” (FONTE: patrimônioespiritual.org).

Em 1822, o Convento da Lapa foi palco de um dos episódios mais famosos da Guerra de Independência: tropas portuguesas, supondo que o local estaria abrigando revoltosos, tentaram invadir as instalações, quando foram surpreendidos pela Sóror Joana Angélica. A abadessa foi morta a golpes de baioneta, ao se colocar diante da tropa e impedir a entrada no Convento, tornando-se a Primeira Mártir do Brasil.

[Igreja e Convento da Lapa]

Saindo do Convento, depois de visitar o pequeno memorial com os restos mortais de Joana Angélica, atravesse a rua e pegue o caminho para a Barroquinha.

Da Barroquinha à Praça Castro Alves: 250 metros

Pouca coisa sobrou do tempo em que o cheiro do couro da Barroquinha empesteava as narinas. Ainda tem uma ou outra loja no caminho, mas nem se compara ao que a rua já foi no passado. Como o seu destino final é a Praça Castro Alves, vá visitando o que estiver no seu trajeto até o Espaço Cultural da Barroquinha – que funciona no interior de uma antiga igreja do Século XVIII.

[O comércio de couro da Ladeira da Barroquinha; ao fundo, a Igreja/Espaço Cultural da Barroquinha]

Subindo a escadaria ao lado do Espaço, você já chega ao Teatro Gregório de Mattos – que nas horas vagas, funciona como teatro, e na maior parte do tempo, apresenta ótimas exposições de arte. Até 30 de julho, por sinal, não perca a chance de conferir a mostra ‘Mulheres de Pedra’, uma série de fotografias que mostra a rotina das cortadoras de pedra da Chapada.

Mais conhecido da galera, o Cine Glauber Rocha, da prestigiada rede Itaú de Cinemas, é o último cinema efetivamente de rua de Salvador. São 4 salas que exibem filmes do circuito comercial e de arte, uma livraria, restaurante, loja de bugiganga e o terraço mais disputado da Praça Castro Alves.

[Exposição ‘Mulheres de Pedra’, em cartaz no Teatro Gregório de Mattos]

[Cine Glauber Rocha / Foto: Pedro Moraes]

[Praça Castro Alves]

Falando nela, aqui termina o segundo trecho do roteiro: o antigo Largo do Teatro, assim chamado em referência ao tempo em que o Teatro São João dominava a paisagem (onde hoje fica o Palácio dos Esportes). Os restos mortais do poeta, falecido em 1871, repousam na cripta aos pés da estátua, esculpida pelo artista italiano Pasquale de Chirico.

Se tiver pique, dê um pulinho no Edifício Sulacap, logo na esquina, só para admirar o teto. Quer mais? Suba a Ladeira de São Bento e visite o Mosteiro – na minha opinião, um dos templos católicos mais impressionantes da cidade.

[Edifício Sulacap / Foto da esquerda: Max Haack]

[Mosteiro de São Bento]

Volte outro dia, fora do roteiro, para assistir a uma missa de canto gregoriano dos monges beneditinos. Sempre aos domingos, às 10h da manhã.

Da Praça Castro Alves à Praça Municipal: 350 metros


Ahhh…a Rua Chile. Já foi a Rua Direita do Palácio e a rua mais chique da cidade, até que entrou na decadência típica das áreas centrais das grandes metrópoles brasileiras. Aí de dois anos pra cá, alguns empreendimentos surgiram, prometendo revitalizar a região: para citar a principal novidade, não dá para não falar do velho (novo) Fera Palace Hotel, com o tal do terraço que já virou point de happy hour das primas ricas de Salvador.

Mas há outras paradas no caminho! Uma das transversais mais famosas da Rua Chile, a Rua Ruy Barbosa é a maior concentração de sebos e antiquários do Centro da cidade. Se você é desses que curte um clima retrô, aproveite para visitar a histórica Farmácia Soares da Cunha, de 1931, que serviu de locação para o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos.

[Terraço do Fera Palace Hotel, na Rua Chile]

Para conhecer o hotel, só se hospedando, almoçando no restaurante do térreo ou participando de algum dos eventos no bar do terraço. Se o orçamento estiver apertado e falta de cara de pau não for seu problema, jogue um verde e peça penico na recepção (pelo menos pra subir até a cobertura). A vista é realmente tudo o que dizem e ainda mais bonita do que sai nas fotos.

Do Palace Hotel, você pode passar ainda na Igreja da Ajuda – a primeira construída dentro dos muros da Salvador Colonial, em 1549. Não, não é o mesmo templo de taipa daquela época: a construção atual data de 1912, mas nem por isso significa que não mereça uma visita (destaque para o conjunto de vitrais).

[Rua Chile]

O terceiro trecho do roteiro encerra na Praça Municipal, já no circuito turístico tradicional. Passe na varanda do Palácio Rio Branco – o andar superior infelizmente está fechado para o público desde que um órgão do Governo se mudou pra lá – e aproveite pra pegar um ar condicionado no Memorial da Câmara Municipal (e o espaço vale a pena, sério). De quebra, ainda dá para tomar um sorvete na mureta do Elevador

[Elevador Lacerda]

Da Praça Municipal ao Terreiro de Jesus: 400 metros


Por incrível que pareça, o Pelourinho não é o foco desse roteiro, e por um motivo muito simples: o Centro Histórico pede um dia inteiro só pra ele, combinando com uma tarde no Carmo e no Santo Antônio.

Neste quarto trecho, se contente com uma caminhada pelas ruas do Pelô, registrando os cartões postais. Se ainda estiver com tempo, a pedida é passar direto pelo Museu da Misericórdia – que precisa de uma visita com calma – e bater ponto no Monumento à Cruz Caída e no Museu Afro-Brasileiro.

O MAFRO é vinculado à Universidade Federal da Bahia e funciona no prédio do antigo Colégio dos Jesuítas (atual conjunto da Faculdade de Medicina). O ingresso custa R$6 (inteira) e R$3 (meia) e poderia até ser mais caro, só por causa dessa sala:

[Sala Carybé, Museu Afro-Brasileiro]


A Sala Carybé é o ponto alto da visita e a equipe do museu é altamente preparada. Solicite o apoio de um monitor e não perca nenhum detalhe da riquíssima explicação.

Resista à tentação e tente não visitar outras atrações da praça. A Catedral Basílica e as igrejas de São Domingos e São Pedro dos Clérigos estão logo ali, mas deixe todas para um tour mais completo, em outra oportunidade.

Do Terreiro de Jesus à Baixa dos Sapateiros: 350 metros


Pegue o caminho do Cruzeiro de São Francisco e se renda ao clichê. Atração nº 1 de Salvador no ranking do TripAdvisor e maior símbolo do barroco colonial na cidade, a Igreja de São Francisco é realmente tudo o que dizem – mas já vi gente falar que não gostou de tanta opulência – e sempre é uma boa escolha para um passeio no Pelourinho.

“Mas peraí, e o almoço é que horas?”

A depender da sua fome, agora mesmo. Ou antes de começar esse trecho do roteiro. O Pelourinho é cheio de restaurante pega-turista? SIM, mas amoleça o seu coração e dê uma chance às casas realmente boas, ao menos para incentivar o comércio no Pelô. Não se esqueça: cada vez que um estabelecimento de rua fecha as portas, significa menos gente circulando. E menos gente circulando significa mais insegurança.
Quer ajudar a mudar esse cenário? Aqui vão algumas dicas de restaurante, com diferentes faixas de preço (tem inúmeros outros, mas esses daí são os que eu já fui e recomendo):

1) AXEGO
Rua João de Deus, nº 1
Tel.: (71) 3242-7481
2) UAUÁ
Rua Maciel de Baixo, nº 36
Tel.: (71) 3321-3089
3) ROMÃ COZINHA NATURAL
Cruzeiro de São Francisco
Tel.: (71) 3321-0495
4) O COLISEU RESTAURANTE E CULTURA
Cruzeiro de São Francisco, nº 9
Tel.: (71) 3321-6918
5) BAR ZULU
Rua das Laranjeiras, nº 15
Tel.: (71) 98784-3172

O roteiro continua para a sorveteria mais próxima – o que no Pelourinho significa a filial da Cubana ou a Le Glacier Laporte, no Largo do Cruzeiro de São Francisco. Depois da sobremesa, pegue a rua da Igreja da Ordem Terceira, com uma das fachadas mais incríveis do Centro Histórico, e depois da parada estratégica, vire a primeira direita, na ladeira que já desce para a Baixa dos Sapateiros. Há alguns anos a rua foi totalmente reformada e ganhou paredes grafitadas – que em qualquer outra cidade teriam elevado o endereço à categoria de atração turística. Em Salvador, como já é de praxe, pouca gente percebeu.

Em 2014 a ladeira estava assim:




Da Baixa dos Sapateiros à Igreja de Santana: 350 metros

“Na Baixa dos Sapateiros
Eu encontrei um dia
A morena mais frajola da Bahia
Pedi-lhe um beijo, não deu
Um abraço, sorriu
Pedi-lhe a mão, não quis dar
Fugiu”

Reza a lenda que Ary Barroso compôs esse clássico da música brasileira sem sequer ter pisado em Salvador. Imagine aí: a canção foi encomendada para fazer parte da trilha de um filme com Carmen Miranda, em 1938, e coube a um mineiro divulgar um dos endereços mais tradicionais da Bahia no resto do Brasil.

Quer dizer, isso em outra época. A Avenida J.J. Seabra é a Avenida Sete de antigamente, quando nem a Avenida Sete era o que é hoje. Três dos maiores e mais importantes cinemas de Salvador ficavam aqui – o Tupy, o Jandaia e o PAX –, para chegar ao Comércio era só descer o Tabuão, e para a Cidade Alta bastava subir qualquer ladeira no meio do caminho. Localização privilegiada.

Sabe aquela Salvador que a gente mal consegue imaginar como era? Essa é a sensação ao caminhar por aqui. Houve um grande projeto de requalificação e as calçadas melhoraram 100%, mas o movimento não chega a metade da multidão que circula da Praça da Piedade ao Relógio de São Pedro.

E olhe que aquilo que menos falta aqui é promoção: nenhum outro lugar em Salvador tem maior concentração de lojas em queima de estoque e liquidação, com direito a camelódromo (recém-reformado, diga-se de passagem) no meio do seu caminho para a última etapa do roteiro.

Depois de descer a ladeira, vindo do Pelourinho, vire à direita e siga até a Ladeira de Santana. Seguindo em frente, você volta para a Barroquinha, onde passou mais cedo; olhando para um lado, tem as incontáveis barracas de camelôs; e olhando para o outro, a linda Igreja de Santana dominando a paisagem.

Suba pelo lado direito da ladeira, acompanhando o vai e vem do Shopping Baixa dos Sapateiros. A igreja está numa reforma que já se arrasta há quase NOVE anos, mas felizmente a nave foi reaberta ao público em 2016.

[Igreja de Santana]

O que você precisa saber: a Igreja do Santíssimo Sacramento e Santana, de 1760, foi a primeira do Brasil construída integralmente com materiais nacionais (antes, quase tudo precisava vir da Europa). Quer mais? A heroína da Independência da Bahia, Maria Quitéria, está enterrada aqui. Mas por algum motivo – talvez por estar fora da rota turística – o templo foi deixado de lado e foi entregue bastante danificado para a equipe de restauradores. Em 2005, parte do teto desabou durante uma missa. “Em 35 anos de profissão, eu nunca peguei uma igreja tão destruída como a de Santana. Quando nós fomos mexendo nas peças, fomos percebendo que estava tudo oco e podre pela ação do tempo e dos cupins. O douramento foi todo perdido”, disse o restaurador José Dirson, em entrevista ao Jornal Correio.

Da Igreja de Santana ao Campo da Pólvora: 240 metros


Antes de subir toda a Rua do Carro até o ponto final do seu roteiro, pegue uma transversal até a Rua Santa Clara e não deixe de visitar o Convento do Desterro. Lembra que eu falei dele quando expliquei sobre a construção do Convento da Lapa? Então, esse aqui é o mais antigo de Salvador, tem uma área verde muito bonita e é uma construção em ótimo estado, mas nem é por isso que você deve vir aqui. É pra encher o bucho.

Explico: há muitos e muitos anos, as freiras do Convento do Desterro comercializam guloseimas, biscoitos, sequilhos e diversos tipos de licor que fazem o maior sucesso na cidade. No São João então, as vendas multiplicam – em 2017, a expectativa é de mais de 500 litros de licor vendidos na lojinha do Convento. Dica: o sabor mais procurado é o de jenipapo.

[Convento do Desterro]

[Produção de licor do Convento do Desterro / Foto: G1]

Do Convento Desterro você pode retornar ao Campo da Pólvora e pronto, já está fechado o seu roteiro. Se você ainda quiser curtir o happy hour, escolha um dos inúmeros botecos da Mouraria, logo ali do lado, para cair de boca na lambreta. Se você nasceu de 7 meses e chegou aqui cedo demais, dá para fazer o tour guiado na Arena Fonte Nova, a poucos passos da estação do metrô (só não esqueça de agendar a sua visita e checar os horários e dias de abertura com antecedência).

Não importa o que você escolher. Esse roteiro, como já disse lá em cima, é apenas uma sugestão de passeio para, se for o seu caso, largar o carro em casa (ou perto da estação mais próxima) e curtir um dia no Centrão de metrô.

E só para não esquecer que Salvador é fascinante, mas tá barril: escolha fazer o roteiro durante a semana, quando há mais movimento, evite usar objetos de valor muito expostos e nada de ficar andando com celular na mão. Fique ligado, curta o roteiro e depois me diga o que achou! 🙂

Especial Finados: o Circuito Cultural do Campo Santo e outras curiosidades cemiterísticas

Não é de hoje que os brasileiros lotam Buenos Aires, e não é por acaso que boa parte deles coloque no roteiro uma visita ao Cemitério da Recoleta: é tudo marketing (e um pouco do nosso velho complexo de vira-latas – aquele mesmo que faz os brasileiros rodarem em tudo o que é museu no exterior e não darem a mínima para os espaços culturais da própria cidade). Conhecer cemitério é cool, mas só lá fora.

Excluindo-se aqueles que não pisam nesses locais nem se as lápides fossem de ouro, e analisando apenas o comportamento dos que batem ponto apenas nas tumbas das Recoletas e Père Lachaises da vida (ou melhor, da morte), não custa perguntar: quantas vezes você fez Turismo nos cemitérios de cá?

Antes de qualquer coisa, cabe um esclarecimento: cemitérios reúnem o que se convencionou chamar de arte tumular ou cemiterial. Os mais antigos, principalmente, funcionam como um excelente registro de como a sociedade da época lidava com o fim da vida, e não deixa de ser curioso observar o quanto alguns túmulos carregavam uma ornamentação digna de obras de arte, com esculturas que poderiam estar presentes em qualquer museu do mundo.

O outro ponto que faz as pessoas visitarem cemitérios é o interesse pelos personagens históricos ali enterrados. No Brasil, vale mencionar os cemitérios da Consolação (São Paulo) e São João Batista (Rio de Janeiro), onde algumas das figuras mais emblemáticas do País foram sepultadas. Esses locais já contam com visitas guiadas, mas ainda engatinham no processo de despertar a curiosidade da população. Por aqui, quem também está correndo atrás é a nossa Santa Casa de Misericórdia, que vem desenvolvendo um trabalho de consolidação de um novo circuito cultural pelo cemitério mais tradicional da cidade: o Campo Santo.

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Senta que lá vem história…

Como você já deve ter percebido quando entrou em qualquer igreja colonial do Pelourinho, há alguns séculos as pessoas costumavam ser enterradas nos templos católicos. Quanto mais perto do altar, mais perto do céu (e mais caro também). Claro que isso não era muito bom no quesito sanitarista da coisa e que nem mesmo Salvador, com suas 365 igrejas, teria lugar suficiente pra sepultar tanta gente.

[Igreja do Rosário dos Pretos]

[Igreja do Rosário dos Pretos]

[Igreja São Francisco]

[Igreja São Francisco]

Justamente por isso, e seguindo uma onda de mudanças que já estava acontecendo na Europa, procurou-se um terreno para construir o 1º grande cemitério da cidade, de preferência afastado do Centro, e esse episódio gerou uma revolta popular conhecida como Cemiterada. Nunca ouviu falar? Então presta atenção porque quem vai explicar é o Profº João José Reis:

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Extraordinário acontecimento teve lugar na Bahia do século passado: uma revolta contra um cemitério. O episódio, que ficou conhecido como Cemiterada, ocorreu em 25 de outubro de 1836. No dia seguinte entraria em vigor uma lei proibindo o tradicional costume de enterros nas igrejas e concedendo a uma companhia privada o monopólio dos enterros em Salvador por trinta anos.

A Cemiterada começou com uma manifestação de protesto convocada pelas irmandades e ordens terceiras de Salvador, organizações católicas leigas que, entre outras funções, cuidavam dos funerais de seus membros. Naquele dia, a cidade acordou com o barulho dos sinos de muitas igrejas. A reunião fora marcada para acontecer no Terreiro de Jesus, no adro da igreja da Ordem Terceira de São Domingos. De suas sedes, marcharam para ali centenas de membros de irmandades.

Mas não só os membros de irmandades responderam ao chamado dos sinos; logo apareceram muitas outras pessoas. A cidade estava alerta para os acontecimentos. Nos dias anteriores à manifestação circulara um abaixo-assinado denunciando os “cemiteristas”, como foram rotulados os adeptos do Campo Santo – pois este era o nome do novo cemitério –, principalmente seus proprietários.

[Cemitério Campo Santo]

[Cemitério Campo Santo]

Em frente ao palácio [na atual Praça Municipal] muitos discursos foram feitos contra a empresa, e o manifesto de 280 assinaturas, encabeçadas pela do poderoso visconde de Pirajá, além de várias petições de irmandades, foram entregues ao presidente da província. Pedia-se a anulação da lei que havia proibido os enterros nas igrejas e concedido o monopólio de sepultamento.

Após a manifestação na praça do Palácio, os participantes tomaram a direção do cemitério. Perto da praça ficava o escritório da empresa funerária, que foi apedrejada enquanto os manifestantes gritavam contra um dos sócios.

Diante da violência na praça, o presidente se apressou em deslocar trinta policiais para reforçar um destacamento militar postado no Campo Santo, mantendo também em alerta homens da artilharia do Exército.

[Cemitério Campo Santo]

[Cemitério Campo Santo]

A multidão chegou ao cemitério antes das novas tropas. O Jornal do Commercio noticiou o movimento da turba: “Todos se dirigiram com machados, alavancas e outros ferros, e em número de mais de 3 mil pessoas, em menos de uma hora, deram com o Cemitério em baixo, quebrando tudo e deitando fogo ao que podia arder”. Os instrumentos foram apanhados em obras nas ruas vizinhas à praça do Palácio e no próprio cemitério, que apesar de inaugurado não estava pronto.

No Campo Santo, o estrago foi quase completo, e os manifestantes não gastaram apenas uma hora, mas quase toda a tarde. Terminada a operação, retornaram ao centro da cidade triunfantes e com grande alarido.

[…]

Alguns historiadores viram no movimento, por um lado, uma estreita motivação econômica, e por outro, uma expressão atrasada de religiosidade. Irmandades, padres, sacristãos, negociantes de artigos funerários teriam insuflado um povo ignorante e supersticioso contra o Campo Santo, com o único objetivo de defender seus interesses econômicos. Foi nesses termos, aliás, que a Cemiterada foi entendida por seus críticos contemporâneos. (p. 13-22)

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Inaugurado em 1836, somente em 1844 o Campo Santo conseguiu realizar seu primeiro enterro, após um trabalho de educação e conscientização realizado pela Santa Casa (que adquiriu o cemitério em 1839). Antes disso, os serviços cemiteriais da instituição eram prestados em um pequeno cemitério de escravos localizado no Campo da Pólvora.

E como era a Salvador da primeira metade do século XIX? O próprio João Reis explica no livro, um pouco mais à frente:

Salvador era realmente uma cidade de grande beleza. Era também rica, mas de uma riqueza concentrada nas mãos de poucos, dentre estes muitos estrangeiros. Uma cidade cujo povo era pobre, em grande parte escravizado, mas um povo inquieto e frequentemente rebelde.

A parte baixa da cidade logo apagava a boa impressão que os viajantes tinham ao observar a cidade do navio, com suas casas, igrejas e conventos pintados de branco contrastando com uma exuberante vegetação. Ao desembarcar, as primeiras decepções assaltavam os viajantes. As ruas eram estreitas, irregulares, mal calçadas, sujas, com esgotos abertos, dentro dos quais se lançava todo tipo de dejetos. Eram também mal iluminadas, por lampiões de azeite de baleia que frequentemente apagavam, deixando os habitantes na escuridão nas noites sem lua.

A cidade se dividia administrativamente em dez freguesias, cada qual associada a sua igreja matriz, uma organização que refletia a união entre o poder civil e o eclesiástico.

A Cidade Alta era mais limpa e calma. Era um bairro mais residencial e administrativo, não deixando de ter pequenas lojas dedicadas ao varejo. Lá residia a maior parte dos habitantes da cidade, principalmente na populosa freguesia da Sé: famílias de ricos senhores de engenho, comerciantes, funcionários civis e eclesiásticos dividiam as mesmas ruas com negros escravos e libertos. Estes, porém, habitavam os subsolos, as chamadas lojas de sobrados cujos andares superiores abrigavam as famílias brancas. Essa população humilde, quase indigente, já começava a afugentar os mais privilegiados para outras freguesias, principalmente para a Vitória, ao sul da cidade, onde belas casas cercadas de jardins eram ocupadas por ricos comerciantes brasileiros e estrangeiros, principalmente ingleses. A Vitória dessa época, mais precisamente o corredor da Vitória, era uma periferia de luxo.

A distribuição desigual da mortalidade refletia a desigualdade social de Salvador. Em primeiro lugar, havia a escravidão, que punha nas costas de milhares de africanos e seus descendentes o peso maior da produção de riquezas. Uma cena comum era a circulação pelas ruas de numerosas crianças, a maior parte negras, seminuas, de barriga inchada, que viviam da caridade pública – mas a vadiagem infantil era apenas a face mais feia da pobreza urbana em Salvador. A historiadora Katia Mattoso estima que cerca de 90% da população da cidade no século XIX vivia “no limiar da pobreza” (p. 27-37).

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Mas voltando a falar especificamente sobre o Campo Santo, o que você precisa saber é que o lugar é considerado um grande representante da arte cemiterial, e abriga mais de 200 obras catalogadas, com estilos renascentista, barroco, gótico, moderno e contemporâneo. O Circuito pode ser percorrido com acompanhamento de guia ou sozinho – basta seguir os círculos de granito no chão e parar de tempos em tempos para ler as informações nos totens espalhados ao longo do trajeto. É realmente um passeio muito interessante.

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No quesito artístico, alguns destaques da visita são a Estátua da Fé, esculpida em 1865 pelo alemão Johann Van Halbigg, em um único bloco de mármore de Carrara (inclusive é tombada como patrimônio histórico pelo IPHAN)…

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…e o mausoléu da Família Odebrecht, projetado da arquiteta Lina Bo Bardi (a responsável pelo MASP e pelo Museu de Arte Moderna da Bahia).

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Entre os residentes mais famosos do Campo Santo, dá pra citar a Família Martins Catharino, que viveu no casarão onde atualmente funciona o Palacete das Artes; Antônio de Lacerda, que construiu o elevador que acabou ganhando seu nome; a Família do poeta Castro Alves (o túmulo dele continua lá, mas os restos mortais foram transladados para a estátua); Aristides Maltez; Edgard Santos; Ernesto Simões Filho; José Joaquim Seabra; Oscar Freire; Octávio Mangabeira; Nina Rodrigues; e Toinho Avô.

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Para quem não quiser percorrer o Circuito Cultural por conta própria: as visitas guiadas devem ser agendadas, com grupos de mínimo de 15 pessoas. Podem ser agendadas em qualquer data, de segunda-feira a sábado, sendo que a solicitação deve acontecer por meio do Museu da Misericórdia, através do telefone 2203-9832/9831. Os ingressos custam R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia).

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CURIOSIDADE

Ao contrário do que muita gente pensa, o Campo Santo não é o cemitério mais antigo de Salvador. Em fevereiro de 1811, o cônsul britânico Frederico Lindeman liderou um grupo de comerciantes que solicitaram a obtiveram do então governador da Bahia – o Conde dos Arcos – a autorização para enterrar “súditos de Sua Majestade Britânica” em uma roça ao lado da capela de Santo Antônio da Barra.
Mesmo sendo naquela época um bairro distante do centro da cidade, o pedido foi sem precedentes em Salvador – até o início do século XIX, o Cemitério do Campo da Pólvora era o local para depositar os defuntos indigentes e não-cristãos.

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Assim, o Cemitério Britânico foi inaugurado como uma nova opção para os ingleses e seus descendentes que não se submeteriam (nem seriam aceitos) a ser enterrados nas igrejas católicas ou junto com indigentes. A localização privilegiada – na Ladeira da Barra – lhe conferiu status de atração turística não pelo cemitério em si (que é bem simples), mas pela visão espetacular da Baía de Todos os Santos, aliada ao clima sossegado e ideal pra quem quiser apreciar a vista com mais tranquilidade.

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O Cemitério Britânico de Salvador é aberto ao público e o horário de funcionamento é de segunda a sábado, das 08h às 17h. A entrada é gratuita!

Tetos de Salvador: 20 igrejas para visitar enquanto você não tem dinheiro pra ir na Capela Sistina

Esse provavelmente foi o post mais trabalhoso que eu já escrevi aqui no blog. Desde que inventei que iria tentar catalogar alguns tetos das igrejas históricas de Salvador, sem saber por qual começar numa cidade conhecida pela infinidade delas, e mesmo somado à minha total falta de tempo, achei na minha ingenuidade que conseguiria finalizar a matéria em menos de um mês. Isso foi em abril.

Deveria tirar as fotos dos tetos mais importantes? Dos mais bonitos? Dos mais diferentes? Confesso que não sei. A verdade é que ao longo desses 6 meses, sempre que passava por acaso na frente de qualquer uma que fosse, tirava o celular do bolso e registrava uma foto. Alguns eram realmente sem graça, mas outros foram uma grata surpresa – não pelo teto em si, mas porque me “obriguei” a visitar locais que nem pensava, como a Igreja de Nossa Senhora de Brotas, construída no Século XVIII.

Óbvio que esse post não contemplou nem 10% de todas as igrejas existentes em Salvador, e minha ideia não era escrever nenhum livro com informações técnicas e específicas do ano de construção ou quem foi o autor. Como pelo menos duas estavam fechadas para reforma, pedi licença ao Google para postar foto de terceiros, com os devidos créditos das imagens. E outra eu não tive tempo de ir mesmo, porque seria uma contramão da zorra.

Então antes de criticar falando “MAS COMO ASSIM NÃO TEM A IGREJA QUE FICA NA RUA ATRÁS DA CASA DE MINHA TIA?!”, senta aí, aperta o play no vídeo aqui embaixo pra deixar aquela trilha sonora especial, e veja se você manja dos tetos das igrejas da sua cidade (ou fica só invejando a selfie que a prima rica publicou na Capela Sistina). As respostas estão no final da página!

1)

[Foto: Anibal Gondim]

[Foto: Anibal Gondim]

a) Conceição da Praia
b) São Domingos
c) Senhor do Bonfim
d) São Pedro dos Clérigos
e) Ordem 3ª do Carmo

2)

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a) Capela da Ajuda
b) Convento da Soledade
c) Santa Luzia do Pilar
d) Igreja da Lapinha
e) São Francisco

3)

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a) Santo Antônio da Barra
b) Ordem 3ª de São Francisco
c) São Pedro dos Clérigos
d) Nossa Senhora de Brotas
e) Santo Antônio Além do Carmo

4)

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a) Nossa Senhora da Piedade
b) Templo Maior da Universal
c) Mosteiro de São Bento
d) Convento Santa Teresa
e) Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim

5)

igreja-conceicao-da-praia

a) Senhor do Bonfim
b) Santa Clara do Desterro
c) Catedral Basílica
d) São Francisco
e) Conceição da Praia

6)

igreja-ordem-3a-sao-francisco

a) Ordem 3ª do Carmo
b) Igreja da Misericórdia
c) Ordem 3ª de São Francisco
d) Santo Antônio Além do Carmo
e) São Domingos

7)

igreja-da-vitoria

a) Nossa Senhora da Graça
b) Santa Luzia do Pilar
c) Nossa Senhora do Rosário dos Pretos
d) Nossa Senhora da Vitória
e) Santa Clara do Desterro

8)

convento-da-lapa

a) Nossa Senhora do Rosário dos Pretos
b) Convento da Lapa
c) Nossa Senhora da Graça
d) Nossa Senhora da Penha
e) Nossa Senhora da Vitória

9)

igreja-dos-mares

a) Paróquia de São Pedro
b) Capela da Ajuda
c) Igreja dos Mares
d) Nossa Senhora da Piedade
e) Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim

10)

igreja-de-brotas

a) Igreja do Carmo
b) Nossa Senhora de Brotas
c) Igreja de Monte Serrat
d) Nossa Senhora das Neves
e) Igreja da Palma

11)

[Foto: Rui Lima]

[Foto: Rui Lima]

a) Catedral Basílica
b) São Francisco
c) Senhor do Bonfim
d) Conceição da Praia
e) Mosteiro de São Bento

12)

igreja-sao-pedro-dos-clerigos

a) São Domingos
b) Ordem 3ª de São Francisco
c) São Pedro dos Clérigos
d) Santo Antônio da Barra
e) Igreja da Misericórdia

13)

[Foto: Ricardo Lima]

[Foto: Ricardo Lima]

a) Capela do CAB
b) Igreja da Ascensão do Senhor
c) São João Filgueiras Lima
d) São Lelé
e) Todas as anteriores

14)

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a) Senhor do Bonfim
b) São Miguel
c) Bom Jesus dos Passos
d) São Francisco
e) Igreja do Carmo

15)

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a) São Pedro dos Clérigos
b) Santo Antônio da Barra
c) Santo Antônio Além do Carmo
d) São Tomé de Paripe
e) Igreja dos Perdões

16)

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a) Igreja da Misericórdia
b) Ordem 3ª de São Francisco
c) Convento de Santa Teresa
d) São Francisco
e) Senhor do Bonfim

17)

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a) Igreja do Boqueirão
b) Santa Clara do Desterro
c) Igreja do Carmo
d) Conceição da Praia
e) Convento da Lapa

18)

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a) Capela da Ajuda
b) Santa Luzia do Pilar
c) Ordem 3ª de São Francisco
d) Convento de Santa Teresa
e) Igreja da Misericórdia

19)

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a) Nossa Senhora do Rosário dos Pretos
b) Senhor do Bonfim
c) Capela do Sagrado Coração de Jesus
d) Igreja da Palma
e) São Domingos

20)

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a) Santa Luzia do Pilar
b) Convento da Lapa
c) Ordem 3ª do Carmo
d) Nossa Senhora da Graça
e) Igreja da Misericórdia

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RESPOSTAS

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City Tour em Salvador: modo de usar

Considerando que Salvador não é uma das cidades mais fáceis para se locomover – trânsito complicado, transporte público que deixa a desejar e geografia confusa até para os próprios moradores – não é de se espantar que muitos turistas optem por conhecer a cidade num passeio, seja em ônibus estilo “Hop-On e Hop-Off”, seja em um clássico de qualquer cidade turística: o city tour guiado.

Em Salvador, o city tour ganha uma dimensão mais importante principalmente para quem se hospeda longe do Centro. Tendo uma orla com mais de 50Km, a cidade conta com uma hotelaria distribuída em diversas zonas – e essa falta de concentração numa única região, como costuma acontecer em outras capitais, já revela, por si só, a dificuldade de se organizar um passeio regular com saídas de diferentes hotéis, e por consequência, porque o preço não é tão barato.

Mas passada essa fase, vamos explicar resumidamente como funciona esse roteiro e como você pode usa-lo para levar amigos de fora que estejam visitando a cidade. Se você só tem um único dia para apresentar os principais destaques de Salvador, pode seguir esse itinerário porque não tem erro.

O passeio pode começar no início da manhã, na Igreja do Bonfim.

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Uma parada de 30 minutos é suficiente para amarrar fitinha na grade, tomar banho de folha e se ajoelhar no santuário. Uma revelação que costuma chocar 99% dos turistas é que apesar de todo o simbolismo, o Senhor do Bonfim não é o padroeiro nem da Bahia e nem de Salvador, mesmo que tenha o poder de reunir até ateu na porta da igreja em dia de Lavagem. Já no sincretismo religioso, é importante informar ao visitante que o Senhor do Bonfim católico é equivalente a Oxalá, para o candomblé.

Um ponto imperdível na visita à igreja é a Sala dos Milagres, onde fiéis depositam todo o tipo – todo o tipo MESMO – de objeto para agradecer por alguma graça alcançada. Os pedaços de “corpos” no teto, que podem parecer macabros à primeira vista, nada mais são do que moldagens em cera que representam órgãos do corpo humano (geralmente por alguma cirurgia bem sucedida ou cura de uma dor crônica).

De lá, a melhor logística pede que o passeio siga para o Centro. Do Bonfim, o mais prático é parar no Comércio, para uma volta no Mercado Modelo, e dali subir o Elevador, onde os turistas geralmente têm o 2º choque da viagem ao descobrir que 1) é apenas um transporte público como qualquer outro; e 2) não é panorâmico. Uma vez na Praça Municipal, tem que rolar a parada para contemplar uma das vistas mais famosas e fotografadas de Salvador. Estão ali a Baía de Todos os Santos, imensa, imponente e com um azul inconfundível; o próprio elevador, para nos lembrar da geografia única daquela cidade dividida em Alta e Baixa; o Forte São Marcelo, o Mercado, os prédios e casarões do Comércio e uma visão panorâmica que alcança até a Península Itapagipana, com uma minúscula Igreja do Bonfim identificada em meio às palmeiras imperiais.

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Depois das devidas fotos, selfies, vídeos e Oh!’s e Ah!,s que o cartão postal sempre causa nas pessoas, você pode continuar o passeio a pé direto para o Pelourinho. No caminho, vale destacar os pontos de maior interesse:

– Casa de Câmara e Cadeia (atual Câmara Municipal)
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– Palácio Rio Branco (antiga sede do Governo do Estado)
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– Praça da Sé
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– O antigo prédio do Colégio dos Jesuítas, onde funcionou a primeira Faculdade de Medicina do Brasil (Século XIX). Hoje, o local abriga também o Museu Afro-Brasileiro, vinculado à Universidade Federal da Bahia.
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– Catedral Basílica (Século XVII)
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– Igreja da Ordem Terceira de São Domingos Gusmão (Século XVIII)
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– Igreja de São Pedro dos Clérigos (Século XVIII)
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– Igreja da Ordem Terceira de São Francisco (Século XVIII): não esqueça de mencionar que a fachada, inspirada na Universidade de Salamanca, ficou escondida por argamassa por quase um século, até ser redescoberta durante a troca da fiação elétrica.
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A essa altura, a fome já vai estar batendo de com força, e no Pelourinho não faltam opções de restaurantes – alguns caros, outros nem tanto. Se o passeio for em dia útil, procure pelos estabelecimentos com menu executivo, e economize no almoço.

Deixe para a tarde uma caminhada mais completa no Centro Histórico. O Pelô dispensa maiores apresentações, mas basta lembrar que a área é tombada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, é um dos maiores conjuntos arquitetônicos barrocos fora da Europa, tem uma atmosfera diferente de tudo o que você já viu, e que só de ouvir a primeira batida de tambor na esquina a alma de qualquer soteropolitano se arrepia.

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O ponto alto do passeio no Pelourinho, claro, é a visita à Igreja e Convento de São Francisco, uma das maiores expressões do Barroco no Brasil e classificada como uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo. O ingresso custa R$5 por pessoa e a visita pode durar de 30 minutos a 1 hora, a depender do seu grau de interesse naquelas toneladas de ouro.

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E para fechar com chave de ouro, termine o dia na Barra, com um banho de mar no Porto. Vá primeiro para o Farol, para as fotos e uma rápida explicação sobre a construção: os primeiros registros do Forte de Santo Antônio da Barra – nome oficial do conjunto – datam do Século XVI, e o farol propriamente dito foi projetado no século seguinte, sendo considerado o mais antigo do País. No seu interior funciona o Museu Náutico da Bahia, que tem como destaque peças de naufrágios ocorridos na Baía de Todos os Santos (e acredite, foram muitos). O ingresso custa R$15 (inteira) e R$7,50 (meia), permitindo subir a interminável escadaria que leva ao topo do Farol, mas em razão do tempo limitado, não se recomenda fazer a visita de forma tão apressada. Prefira ficar do lado de fora, tomando banho de mar, aplaudindo o por do sol e fazendo arte com as coisas que a natureza dá.

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Com mais dias de viagem, dá para dividir esse roteiro em até 3 partes, e ainda incluir locais não contemplados no itinerário, como a Casa de Jorge Amado no Rio Vermelho, o Dique do Tororó, o Santo Antônio Além do Carmo, a Ponta de Humaitá, Ribeira, Itapuã e várias outras atrações tão legais quanto. Na minha opinião, 7 dias é o período ideal, para desbravar ainda o Subúrbio, as ilhas de Salvador – dos Frades e de Maré -, e um dia tipicamente soteropolitano, batendo ponto em lugares pouco frequentados por turistas, mas que são a cara da cidade, como a Avenida Sete e a Barroquinha.

Qualquer dúvida ou sugestão de roteiro, é só mandar uma mensagem na página do Facebook ou no Instagram do Soteropobretano! Se tiver tempo eu respondo! 🙂

Imagina na Austrália: como é o mergulho de batismo no Porto da Barra

Não é de hoje que se fala sobre o potencial da Baía de Todos os Santos para o Turismo Náutico. Com cerca de 50 ilhas, rodeada por mais de 10 municípios, e contando com uma área total de 1200Km², a maior baía do País já foi o mais importante porto do Atlântico Sul, e hoje é considerada um dos melhores pontos de mergulho do litoral brasileiro.

Para os mais experientes ou que desejem se aventurar, há dezenas de naufrágios exploráveis na região, como o sítio arqueológico do Banco da Panela (onde afundaram mais de 80 embarcações holandesas durante a Invasão do Século XVII) e o cargueiro grego Cavo Artemidi – a maior embarcação naufragada na costa do Brasil: em 19 de setembro de 1980, ao deixar o porto de Salvador, o comandante do navio dispensou o serviço do prático (tipo um flanelinha de navios) durante as manobras e não deixou que o cargueiro fosse rebocado até a saída da baía (dizem que pra economizar, já que o serviço é caríssimo). O ki-suco ferveu quando a correnteza arrastou o Cavo Artemidi até o Banco de Santo Antônio, onde acabou encalhando, e afundando uma semana depois.

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Várias empresas especializadas oferecem atividades de mergulho em Salvador – só no Porto da Barra eu contei umas três. Já que a fama da cidade como destino de mergulho corre solta mundo afora, o serviço é mais procurado por turistas do que por soteropolitanos (salvo quando alguma resolve fazer promoção em site de compras coletivas). A opção mais fácil para os iniciantes é o chamado mergulho de batismo, no qual o instrutor vai te segurando para evitar que você seja levado pela maré e vá terminar parando em Saubara.

Aí na verdade é uma foto de Noronha, mas é só pra ilustrar como é o batismo

Aí na verdade é uma foto de Noronha, mas é só pra ilustrar como é o batismo

Na semana passada eu recebi o convite de uma delas, a Galeão Sacramento. O nome vem de uma embarcação portuguesa que naufragou em Salvador no ano de 1668, matando mais de quatrocentas pessoas. A atividade começa com uma aula, onde é apresentado o equipamento e são ensinados todos os sinais de comunicação que serão usados embaixo d’água. Tem sinal de OK, sinal pra voltar para a superfície e sinal para avisar que o ouvido tá barril, além de técnicas importantes sobre como tirar a água que eventualmente possa entrar no nariz.

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Depois, devidamente vestidos a caráter, com o cilindro a tiracolo e um cinto que parece pesar uma tonelada, a gente atravessa a rua e segue caminhando até a praia do Porto. Não tenha vergonha e nem se sinta ridículo: a galera ali tá calejada de ver mergulhador subindo e descendo todos os dias.

Já na água, tem início a fase de adaptação, para checar se você aprendeu todos os sinais direitinho, se está respirando corretamente e se não vai dar chilique nos 40 minutos em que estiver submerso.

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Aí vem a melhor parte, com o mergulho propriamente dito. No dia em que eu fiz o passeio a visibilidade da água não estava tão boa, por isso pedi algumas imagens para vocês terem uma ideia das paisagens a alguns metros de profundidade.

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O “roteiro” sai do Forte de Santa Maria, vai até o meio daquele bando de barquinho que vive ancorado no Porto. O tempo inteiro vamos conectados a uma boia de segurança, que indica a presença de mergulhadores naquela área (porque né, imagina a pessoa emergindo e dando de cara com um jet ski desenfreado).

Uma imensidão de peixes e corais vai surgindo à sua frente, e se você for desses que se impressiona facilmente (tipo eu), em alguns momentos pode bater aquele desespero de um tubarão aparecer do nada ou uma corrente repentina te arrastar para as pedras. Superada essa aflição inicial, é só curtir o passeio e aquela sensação gostosa de estar voando.

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Ao longo do trajeto, o instrutor vai registrando todas as fotos, que são enviadas para o seu e-mail ao final da atividade. É tudo tão impressionante, que a gente fica até se perguntando: se aqui no Porto da Barra é bonito desse jeito, imagina na tal barreira de corais da Austrália?

[Foto: Uiler Costa]

[Foto: Uiler Costa]

E antes que eu me esqueça, se você não pretende ver os destroços do Galeão Sacramento de perto, dá pra conferir algumas peças resgatadas do naufrágio no Museu Náutico da Bahia, que funciona no Farol da Barra (Horário: terça a domingo, das 09h às 18h).

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Muito obrigado à toda a equipe Galeão Sacramento, tanto pelo convite, quanto pelo profissionalismo e ótimo serviço!

INFORMAÇÕES

Galeão Sacramento Escola e Operadora de Mergulho

71 3264-2065 (Fixo)
71 99637-7171 (Vivo)
71 98763-1172 (Oi)
71 99272-3885 (TIM)
71 98184-5870 (Claro)
Site: www.galeaosacramento.com.br

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A gente não quer só acarajé: Teatro e Música da Bahia ganham destaque em listas e premiações

Nesses tempos em que se discute a reforma do currículo escolar e no qual a valorização da Cultura é interpretada como ideologia política, não custa lembrar o papel preponderante das Artes para a formação da identidade baiana. Somos o que somos porque a Bahia já o era antes, e se o povo aqui é visto como criativo, performático e multitalentoso, isso não se explica apenas com aquela história do sangue carregado no dendê. Todo processo artístico exige tempo, dedicação e suor, mas se talvez exista algo que nos coloque mais à frente, é porque historicamente também já temos um dos maiores e mais tradicionais celeiros culturais do País: como não se inspirar quando se vive num lugar em que a Música, o Teatro, a Literatura, a Dança e o Cinema produziram algumas de suas maiores preciosidades?

Só nas últimas semanas, três notícias foram destaque na mídia:

– ESPETÁCULO ‘SADE’ É INDICADO A OITO PRÊMIOS CENYM
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O grupo baiano Teatro NU, que completa 10 anos de estrada em 2016, dispensa apresentações. No ano passado, eles já foram contemplados com diversos prêmios pelo espetáculo ‘Quarteto’, e agora acabam de ser indicados em oito categorias no Prêmio Cenym, a premiação anual da Academia de Artes no Teatro do Brasil.

‘Sade’, o espetáculo em questão, foi um sucesso de público, com ingressos esgotados em várias sessões, fila na porta do teatro, e gente assistindo a peça até três vezes. Infelizmente, essa não é a realidade da maioria das produções em cartaz na cidade, com um público que muitas vezes prefere pagar (muito) caro por uma peça do eixo Rio-SP, recheada de artistas globais, do que valorizar o consagrado Teatro baiano, com ingressos que costumam transitar de R$5 a R$30 – e isso quando não tem entrada gratuita.

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Quem também foi lembrado no Prêmio Cenym é o nosso Teatro Castro Alves, que está concorrendo na categoria de Melhor Teatro do Brasil, competindo com o Teatro Amazonas (Manaus), Teatro Santa Izabel (Recife), Teatro Renault (São Paulo) e Teatro Porto Seguro (São Paulo).

Para completar, o Festival Internacional de Artes Cênicas (FIAC Bahia), que todos os anos traz produções nacionais e internacionais a Salvador com preços populares, foi indicado como Melhor Projeto de Incentivo ao Teatro. Agora pergunte a si mesmo: quantos baianos você conhece que já ouviram falar nesse festival?

– LARISSA LUZ INDICADA AO GRAMMY LATINO
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A baiana Larissa Luz foi indicada ao Grammy Latino 2016, pelo seu álbum mais recente, ‘Território Criativo’. Nos últimos meses, ela fez pelo menos dois ou três shows gratuitos em Salvador – se não me engano, um no Parque da Cidade e outro no Solar Boa Vista. Na época, divulguei a programação na página do Soteropobretano, e tive que ler comentários negativos de pessoas que não gostavam da artista, como se eu estivesse obrigando alguém a assistir a apresentação. Enquanto você criticava, ela era indicada ao Grammy. VRÁ.

O site el Cabong, referência no quesito música baiana, escreveu o seguinte sobre a nomeação de Larissa Luz:

“Ela é a única representante da Bahia no prêmio e aparece na categoria ‘Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa’. A categoria, que já teve Tulipa Ruiz, Ivete Sangalo e Seu Jorge como ganhadores em anos anteriores, revela como a música brasileira contemporânea vive um novo momento. Nomes badalados, midiáticos e muitas vezes de relevância duvidosa, reforçados pela influência das gravadoras, perdem espaço. Artistas com consistência, discos com preocupação mais musical do que mercadológico e nomes que representam mais a produção musical contemporânea aparecem mais fortalecidos”.

No próximo dia 04 de outubro, inclusive, tem show da artista no Sesc Pelourinho, a partir das 20h:

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– CAETANO VELOSO É CONSIDERADO O ARTISTA MAIS COMPLETO DO BRASIL

Brazilian singer Caetano Veloso performs on stage during the Brazilian Cultural Festtival "Lavage de la Madeleine" on September 2, 2016 in front of the Madeleine church in Paris.  / AFP / FRANCOIS GUILLOT        (Photo credit should read FRANCOIS GUILLOT/AFP/Getty Images)

Por fim, o santamarense Caetano Veloso foi eleito por um júri especializado da Billboard Brasil como o Artista Mais Completo do País. Entre os 10 mais votados, a Bahia aparece também em 1º lugar no quesito número de músicos: além de Caetano, ficaram no topo nomes como Maria Bethânia (10º), Raul Seixas (9º) e Gilberto Gil (2º).

E isso porque no início do ano, Caetano já havia sido o mais citado na lista dos Artistas Mais Influentes do Brasil. Apenas.

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Sabe o que tudo isso prova? Talvez nada. Mas não vou negar que dá um orgulho retado quando o talento da Bahia é reconhecido lá fora – não que a gente precise de validação externa, mas elogio é sempre bom – e uma tristeza imensa quando a gente percebe que não existe esse mesmo reconhecimento aqui dentro. A esperança é que o olhar positivo do vizinho, ainda que não transforme o cenário da noite para o dia, ao menos sensibilize os mais calejados a fazerem melhor juízo da nossa Cultura.

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