EXCLUSIVO: “o feminismo está sendo visto de uma maneira errada”, diz filha de Maurício de Sousa na Campus Party

 Matheus Pastori, de Salvador
(matheuspastori@live.com)
Foto: Nossa.

 

Ao chegar na sala onde Mônica Sousa aguardava para atender a imprensa da Campus Party Bahia, era instintivo, involuntário, quase inevitável não olhar para a atual diretora executiva da Maurício de Sousa Produções e não a imaginar aos sete anos, dentuça, de vestido vermelho e cabelos ‘de banana’, segurando um coelhinho azul lá no Bairro do Limoeiro.

A caricatura da líder da Turma da Mônica foi conferida à publicitária em 1963, por seu pai, que, à época, não imaginava estar criando uma das marcas mais fortes, queridas e longínquas do entretenimento brasileiro.

Articulada, Mônica se valeu desta imagem, cristalizada no imaginário de quem cresceu lendo os gibis dos quais é protagonista, para levantar uma bandeira bem contemporânea: a do empoderamento feminino.

“A primeira personagem mulher de Maurício de Sousa foi a Mônica; antes, a tirinha, então publicada na Folha [de São Paulo], era só de meninos”, disse, enquanto explicava a inspiração de sua mais nova campanha, que é, digamos, apropriadamente intitulada Donas da Rua.

“Por que você acha que o Cebolinha até hoje sonha em ser o dono da rua? (risos) É que, quando a Mônica apareceu na primeira tirinha, ela foi um sucesso, tomou conta; e, antes, o espaço era todo dele. Faz sentido, não faz?”, explicou a executiva.

Leia abaixo a íntegra da entrevista que Mônica Sousa concedeu com exclusividade ao blog:

Matheus Pastori: Mônica, obrigado pela entrevista. Quero começar com uma curiosidade minha, como leitor. Há pouco tempo, todas as histórias em quadrinhos da Turma da Mônica passaram a ser assinadas por pessoas da equipe da produtora. Mas, e seu pai? Continua desenhando?

Mônica Sousa: Hoje menos, já que temos uma grande equipe de desenhistas para dar conta das demandas das revistinhas. Mas continua desenhando, principalmente as histórias do Horácio, que têm um conceito que ele ainda não conseguiu passar adiante.

Mônica e Sansão. Os originais – (Foto: Arquivo Pessoal)

MP: Além da Mônica, outros personagens símbolos das revistas como Magali, Cebolinha, Cascão foram inspirados em quem?

MS: Então, os meninos nasceram quase todos antes. Eram amigos de infância do meu pai e do irmão dele. A Mônica só surgiu em 1963. Magali é, na verdade, minha irmã e Maria Cebolinha [irmã caçula de Cebolinha, na ficção] também. Mas, em todos os personagens, sempre houve alguma referência de pessoas que participavam da vida de meu pai.

MP: Maurício foi um dos pioneiros a incluir em uma publicação com alcance nacional a diversidade e dificuldades sociais do país, com personagens negros, cadeirantes, mudos… Essa inclusão continua sendo uma constante na empresa?

MS: Desde o começo, desde o início da carreira de Maurício de Sousa houve uma integração, uma preocupação em representar o que existe na sociedade, de uma maneira sempre muito simples, gostosa, sem estereótipos para quem está lendo!

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MP: Fale um pouco sobre o Donas da Rua, o projeto que veio apresentar. Como surgiu a ideia?

MS: Bem, surgiu da obrigação da gente fazer algo em função do empoderamento das meninas, já que o personagem Mônica é tão forte até hoje. Não sei se você sabe, mas a partir dos seis anos, geralmente, as meninas passam a ter apenas homens como referência de profissionais, pessoas de sucesso. Isso não está certo. Queremos que elas saibam que são capazes de fazer o que desejarem, o que sonharem em fazer. Isso tem que mudar de vez na sociedade contemporânea.

MP: Como podemos acompanhar as ações da campanha? Como ela está sendo posta em prática?

MS: Através de eventos, redes sociais da Turma da Mônica, de nosso site e, em breve, nas próprias revistas! Estamos divulgando, contando a história de mulheres cientistas, engenheiras, médicas, jornalistas, políticas, enfim, que sejam exemplos fortes para que nossas meninas de alguma maneira se identifiquem e se espelhem.

MP: A Turma da Mônica é um legado, um marco em gerações a perder de vista. Qual a sensação de fazer parte disso?

MS: Me sinto super orgulhosa, né? Porque além disso meu pai tem um carinho enorme, um respeito pelos leitores. É uma admiração mutua mesmo. Muito gratificante. E acho que a gente tem um papel importante até na própria alfabetização brasileira, já que tantas crianças começaram a ler com os gibis. Nós temos esses dados e é incrível o número de pessoas que aprendem o idioma com a Turma da Mônica. Acredito que este é o fato mais importante que a gente tem deixado com este legado.

“Temos que desconstruir a ideia de que os super-heróis, as grandes referências são apenas os homens”, afirma Mônica – (Ilustração: Divulgação)

MP: Estamos na Campus Party, um evento amplamente digital, conectado. Você e a internet se dão bem? 

MS: Eu amo! Até já sou meme, né?! (risos) Estamos super participativos, eu incluida! Temos uma equipe exclusiva dedicada ao nosso site, Facebook, Instagram, enfim. É maravilhoso.

MP: Para finalizar, votando ao projeto Donas da Rua, você pretende dissociar a ideia louvável de dar mais espaço às mulheres x feminismo x partidarismo político, que também são temas atuais?

MS: Acho que o feminismo está sendo visto de uma maneira errada. Às vezes é interpretado como se fosse a opção de mulheres que não gostam de homens, ou que querem derrotar os homens ou que, de algumas maneira, têm pêlo debaixo do braço, usam determinado tipo de roupa ou que não gostam da vaidade. Na verdade, não é nada disso. No feminismo, a gente aprende a respeitar a mulher como ela quer ser; ela tem de ter esse direito.

Não acredito que feminismo tenha a ver com qualquer partido. O feminismo tem a ver com a humanidade e, cada vez que uma mulher cria uma geração, ela está criando, disseminando uma questão enorme para a sociedade. Então, vamos ver o feminismo como isto: como uma forma de respeito e igualdade para os dois, homens e mulheres//

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Mônica ao lado de seu pai, Maurício de Sousa – (Foto: Divulgação)

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Mônica Sousa foi uma das atrações mais aguardadas e comemoradas do palco principal do evento, em que palestrou sobre as ações e parcerias já desenvolvidas pelo projeto Donas da Rua, que pretende ser um forte influenciador na linha de novas histórias dos personagens icônicos de seu pai.

Vale nota que, durante sua palestra, a executiva explicou como chegou à direção da produtora da família: “comecei como vendedora numa banca de revistas. Sempre vendi muito bem. Depois disso, virei assistente comercial, depois gerente comercial. Em certo momento, meu faturamento chegou a 60% do lucro total da empresa. Daí, me promoveram a diretora comercial e, hoje, sou diretora executiva aos 56 anos. Foi um caminho demorado (risos)”, contou.

Tá aí, Cebolinha:

Ela melece 😉

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@matheuspastori

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MILENIALS: o quê sonham os jovens da Campus Party Bahia


 Matheus Pastori, de Salvador
(matheuspastori@live.com)
Foto: Instituto Campus Party.

 

A energia é palpável. E não se trata dos quilômetros de fiação elétrica que interliga centenas de computadores desde a última quinta-feira (9) na Arena Fonte Nova. É energia estática, de gente curiosa, buscando o novo – esteja onde estiver. Filas de estudantes das mais variadas escolas, universidades e centros de educação do país dão o tom da Campus Party, maior evento gratuito de tecnologia do mundo que pela primeira vez escolheu a Bahia como sede.

Desde os pequenos competidores de robótica até os mais qualificados palestrantes, tudo parece fluir com a harmonia de um software bem programado. Convidado, o blog teve acesso a todas as instalações e áreas do festival. É difícil escolher um dentre os tantos grupos de jovens que fazem permanente a sensação de encanto pelos dias que virão.

Em uma das entradas principais, surge uma não menos elétrica turma de pernambucanos. Um deles, descalço, diz ter acabado de sair do alojamento onde estão reunidas as tradicionais barracas dos ‘campuserios’. De Floresta, uma cidade do interior daquele estado, os meninos pareciam estar em casa. Se identificaram como sendo do Instituto Federal do Sertão Pernambucano. Vieram de ônibus, em cerca de um dia e meio de viagem. Questionados sobre o que mais lhe chamava atenção no evento, o grupo deu gargalhada sonora e coletiva. “Tudo!”, assentiram os meninos em coro.

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Os ‘campuseiros’ Mateus Novais (17), Brenda Nunes (15), Gabriel Menezes (16) e Tiago Novaes (18), de Pernambuco – (Foto: Matheus Pastori)

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Gabriel, de 16 anos, era o mais obstinado. “Quero fazer Ciências da Computação e aqui é um paraíso desta área. Todas as grandes instituições trazem seus principais atrativos para Campus Party; sempre vi pela televisão”, disse o estudante enquanto caminhava entre os stands do festival. E ele está certo. Grande vitrine para os avanços alcançados por universidades, centros de pesquisa, treinamento e inovação, está reunido no evento tudo o que há de melhor dessas empresas.

“Não estamos aqui apenas para angariar novos clientes, mas também para exibir o potencial do setor de tecnologia de nosso estado”, disse Marcelo Lopes, diretor de uma das faculdades participantes. São esperados, no total, 40 mil  visitantes, sendo 6 mil deles ‘campuseiros’ do festival.

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Grupo faz parte de mini-emissora de televisão desenvolvida por um colégio particular de Salvador, por influência da Internet – (Foto: Matheus Pastori)

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Por outro lado, os também não menos animados alunos de uma escola particular da capital aguardavam ansiosos pela aparição de Cellbit, estrela do YouTube que participou de palestra sobre influenciadores digitais. “Somos de uma agência de notícias experimental lá no colégio e a Campus é uma forma de estarmos em contato com as mais novas formas de comunicação que estão aí no mercado”, me disse João Vitor, de 16 anos, que sonha em ser jornalista e faz parte de uma mini-emissora de televisão colegial.

O grupo se reuniu com o blog no ímpeto de debater os rumos que a comunicação na Bahia vem tomando. “Assisto mais YouTube do que televisão e acho que, sim, a internet vem modificando intensamente o modo de fazer jornalismo. Mas, ainda assim, penso que um telejornal, por exemplo, deve manter a seriedade, apenas adequando-a de forma que o conteúdo passe a ser mais acessível, didático.”, afirmou Juliana, de 15 anos, futura publicitária.

Aratu Online, portal oficial da Campus Party Bahia, segue fazendo a cobertura completa do festival, tanto aqui quanto pelas nossas redes sociais oficiais. O evento segue ininterrupto e com 250 horas de conteúdos em seus mais de cinco palcos. A iniciativa tem patrocínio do Governo do Estado da Bahia.

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@matheuspastori

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BAGUNÇA: superlotado, CIEE de Salvador não tem banheiro, água nem controle de atendimento.

Matheus Pastori, de Salvador
(matheuspastori@live.com)
Foto: Nossa.

 

Ponto obrigatório de passagem para quem deseja efetivar um estágio, o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) é a principal instituição do ramo em Salvador. Em uma das sedes da empresa na capital, na Avenida Tancredo Neves, o blog constatou falta de preparo no atendimento ao público.

Às 8h30 desta quarta-feira (9), sem estrutura mínima como água ou mesmo sanitários, apenas três atendentes estavam disponíveis para as mais de 100 pessoas que aguardavam no local. Uma televisão, que deveria informar a chamada das senhas, não funcionava.

“Cheguei às 7h. Esperei até as 10h e ainda estou aguardando uma próxima etapa do processo. Não dá pra sair porque fica difícil acompanhar as senhas, já que eles [os atendentes] têm de gritar pelo nome ou número da pessoa”, disse Luiza, de 19 anos, que sonha em começar um disputado estágio em engenharia elétrica.

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Fila de espera pode demorar até 2 horas no CIEE de Salvador – (Foto: Matheus Pastori)

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Conveniado às maiores instituições de ensino superior do estado, o CIEE recebe diariamente estudantes de universidades públicas e privadas. Por lei, é obrigatório que haja uma empresa reguladora a fim de garantir os direitos de quem estagia.

O sistema adotado para a tramitação dos contratos também é alvo de críticas. “Tudo é muito burocrático”, afirmou Caique, de 20 anos, selecionado por uma empresa de administração. “Seria muito mais prático se adotassem procedimentos online; ninguém tem tempo pra perder hoje em dia”, completou.

Ao todo, um estudante que tem de validar  contrato de estágio pode voltar de três a quatro vezes ao CIEE, caso contratante ou instituição de ensino peça alguma alteração no documento.

São sonhos tratados com desdém e atropelados pela má vontade de um sistema frio e desencorajador.

Procurado em sua Ouvidoria e Central de Atendimento, até o momento desta publicação não conseguimos contato com o Centro de Integração.

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@matheuspastori

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