Mulher não pode sair sozinha

Acabo minha tarefas domésticas, tomo um banho, me arrumo, me maquio e saio. Lá fora o sol brilha. O percurso não é longo, e resolvo ir a pé. Preciso respirar, arejar a mente e tentar esquecer um pouco da rotina corrida.

Ando tranquilamente, paro antes de atravessar a rua, olho pros dois lados, calculo o tempo e o quão rápido devo andar, não confio muito em “carros”. Ao longe um homem corre. Ele vai se aproximando, vindo no sentido contrário ao meu. Eu o vejo, mas não o enxergo. Seu corpo se aproxima, mas eu só olho ao longe, examinando o caminho a ser percorrido. Não o conheço , na verdade não olho bem o rosto dele, só quero andar, continuar meu caminho. Tenho lugar e hora para chegar.

O homem que corria diminuiu a velocidade, veio em minha direção, se aproximou, e eu só queria andar. Ele chega perto de mim, solta beijos na minha direção, diz gracejos indecorosos. Eu olho para os dois lados. Alguém? Alguém que me proteja, que me apoie? Me sinto perdida, envergonhada, com raiva, devassada. Grito: “Idiota”. Estou praticamente correndo, quero ir para longe, dele, daquele lugar, das palavras que ouvi, do riso de deboche diante da minha revolta.

Parece que corri uma maratona, mas estou um pouco mais adiante no caminho. Acho que estou segura agora, vou atravessar outra rua, meu destino está perto, ouço uma voz, alguém que fala perto de mim: ” Oi , delicia. Me leva com você! Tá passeando sozinha?”.

Eu andei rápido, queria só chegar no meu destino. Do outro lado da rua, eu me olhei no vidro de um carro. O que havia de errado? Será que eu tinha exagerado na roupa? Na maquiagem ? O que eu tinha feito de errado?

Ufa! Em poucos metros, meu destino estava chegando! Eu achei que estava salva, até um homem, de cabelos grisalhos, passar por mim e dizer coisas tão vergonhosas! Não podia responder, não tinha mais forças, eu só queria chegar.

Cheguei. Sem forças, sem graça, subi o elevador. Dei bom dia, estava ali, visitando meu tio que há dias estava internado. Não podia ser pessimista. Ele precisava de boas energias. Sorri e conversei com ele como tinha feito todos os dias desde que ele chegou no hospital.

Mas por dentro eu era puro sangramento. Me sentia invadida, abusada, machucada. E só me perguntava:. “Não pode uma mulher andar sozinha? Não pode uma mulher aproveitar uma manhã de domingo? Não pode uma mulher viver sem ser assediada, invalidada, sexualizada a cada instante?”

As horas passavam, eu não queria ir  embora. Queria fazer companhia a meu tio, mas  havia em mim o medo de sair na rua, o medo de ser uma mulher andando sozinha. Não voltei andando, peguei um táxi. Estava chovendo. O motorista foi educado e eu só conseguia pensar: “É um homem, eu estou sozinha. Será que ele vai me respeitar?”

Homens comuns: pais, maridos, namorados, corredores, médicos, bancários. São homens comuns que mexem com mulher na rua. Que assediam, ferem. São homens comuns.

O dia ensolarado se fez noite chuvosa e dentro mim caíam a gotas da tristeza de viver em  uma sociedade na qual uma mulher não pode sair na rua sozinha. Nós precisamos de feminismo sim.

Precisamos de luta. De respeito. De igualdade. Até quando nos tirarão nosso direito de ir e vir ? Eu só quero poder sair sozinha. Eu sou mulher e quero sair sozinha. So-zi-nha.

 

Paula Milena Lima.
Mulher preta. Costureira. Bacharela em Artes. Graduanda em Arquitetura e Urbanismo.
pm.fotos13@gmail.com
@paulamilena13

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