RELACIONAMENTOS ABUSIVOS

Existem muitas formas de silenciar uma mulher e infelizmente, nem todas elas são tão evidentes ou óbvias, o que dificulta ainda mais a tomada de consciência para uma atitude enfática. Claro, houve alguns avanços no que diz respeito a informação e hoje, pelo menos, temos mais mulheres cientes sobre os sinais de uma relação abusiva, seja para o nosso próprio bem ou para o bem das amigas e estranhas a nossa volta.

Algumas mulheres passaram por relacionamentos abusivos a vida toda, desde o berço (sim, uma criação machista é uma violência) à fase adulta (incluam relações de trabalho nesse quesito também) e reconhecer os sinais desse silenciamento torna-se uma questão de sobrevivência. Como que perdidas na selva, avistando o perigo eminente e entendendo nossa fragilidade, podemos racionalizar o risco e assim ter uma estratégia de enfrentamento. Na nossa selva de pedra, ter a palavra e o conhecimento, principalmente de como e onde buscar ajuda, nos protege um pouco mais dos abusos do patriarcado.

Dito isso, podemos nos ater aos relacionamentos afetivos que se consolidam a partir de uma relação hierárquica velada (ou não). Na tentativa de ser aceitas ou por pura doutrinação mesmo, podemos nos deixar levar para uma relação nociva, que nos gera mais ansiedade e frustração que qualquer outro sentimento positivo associado ao prazer de se ter a companhia daquele cara, que existe, mas não é seu parceiro – parceiro mesmo, amigo, confidente, companheiro das horas boas e ruins.

É o típico machista que venceu na vida, ou gosta de convencer as pessoas disso para ele mesmo poder acreditar, bom demais para encontrar uma mulher como ele. O que ela diz, não tem tanta relevância, pois quem sabe das coisas é ele, mesmo que ela queira falar sobre a teoria da relatividade proposta por Einstein ou o inconsciente sobre a perspectiva de Jung. Nada será tão interessante quanto o dia dele na academia. Falas interrompidas, palpites sobre as roupas femininas, mulheres sendo divididas em setores (para casar, para se divertir, para levar ao cinema, para fazer companhia enquanto ele paga uma conta), observações preocupadas do quanto uma personalidade extrovertida é perigosa, comentários públicos sobre o papel do homem e o papel da mulher… a lista do comportamento alarmante de um homem silenciador de mulheres é extensa. Mas, para mim, o maior e melhor indicador de um relacionamento abusivo é o sentimento da própria mulher que se encontra nessa relação. Se é preciso repensar o seu comportamento, as suas roupas, o seu jeito, os seus pensamentos e a sua personalidade para poder se relacionar com um homem, é preciso refletir sobre que parte de você – que parte verdadeira de você – faz parte dessa relação.

A violência psicológica adoece silenciosamente muitas mulheres, pois restringir de alguma forma a liberdade da existência é uma agressão profunda na nossa compreensão de indivíduo e gera graves consequências.

Se você se encontra em uma relação assim, procure seus direitos e ajuda profissional para conseguir estabelecer uma rede de apoio capaz de te orientar. Se você conhece uma amiga que passa por um relacionamento assim, compartilhe esse texto e mostre que ela não está sozinha. Fortalecendo as mulheres desenvolvemos um mundo mais justo e mais saudável para todas nós e reconhecendo que somos boas o suficiente para nós mesmas, nos importaremos cada vez menos quando algum homem discordar disso.

Natália Monteiro

@aurora.acf

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